REPÚBLICA DIGITAL REPÚBLICA DIGITAL -->

segunda-feira, 26 de maio de 2014

CORDATOS, CORDATOS... MAS INVERTEBRADOS

CORDATOS, CORDATOS... MAS INVERTEBRADOS

A CVDT (Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados) foi assinada no Vienna International Centre, em Viena.

Por Isabel Coutinho Monteiro

Portugal recebeu o epíteto de bom aluno pela sua submissão às exigências das instituições internacionais que, arvoradas em bons professores, lhe têm indicado o caminho da “salvação”. Um aluno cordato, muito ao gosto dos professores mais exigentes.

“Ah, mas isso já todos sabemos!” – comentarão alguns. – “Não se fala de outra coisa!”.

É verdade. Nos últimos tempos, o estribilho repete-se até à exaustão. Curiosamente, fica-nos na boca o sabor amargo de se tratar não de um elogio que pretenda enaltecer as qualidades de sensatez, perseverança e espírito de sacrifício, mas apenas de uma expressão insultuosa que envergonha muitos portugueses.

Tudo isto se passa no contexto da malfadada crise financeira e económica que, tendo assolado o mundo em 2008, teima em castigar com maior severidade precisamente os “bons alunos”.

O mesmo Portugal cordato que abnegadamente ofereceu o pescoço à pata que o esmagou, já se revelara um cordado desprovido de esqueleto, quando, tendo ousado, em 1911, levar a cabo a Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa sem consultar o Brasil, logo se prontificou a reparar o erro, convidando o “país irmão” a juntar-se-lhe na simplificação da ortografia. Prazeiroso, o Brasil aceitou o convite “tardio”, em 1915, para capitular logo em 1919. O mesmo se passou com o Acordo Ortográfico de 1945, mas desta vez decorreram dez anos até à retirada do Brasil.

E o que fez Portugal, o bom aluno? Nada!

E eis que chegou a hora de mais uma tentativa de unificação – o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO90), mais os dois Protocolos Modificativos que lhe estão associados. E Portugal decidiu tratar o Brasil com toda a deferência – não que lhe fosse devida, obviamente, mas porque somos um povo cordato, cordado, mas invertebrado. Tudo isto é sobejamente conhecido de quase toda a gente.

O que talvez tenha escapado a muitos, é que existe um instrumento jurídico internacional – a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados (adiante referida por “Convenção”) – que Portugal ratificou pelo Decreto do Presidente da República n.º 46/2003 de 7 de Agosto, suportado pela Resolução da Assembleia da República n.º 67/2003, que dá conta da aprovação. A ratificação do Brasil viria a concretizar-se mais tarde, pelo Decreto do Executivo 7.030/2009, com reserva dos artigos 25 e 66.

No artigo 2.º da supramencionada RAR 67/2003, lê-se:

«(…) Nestes termos, Portugal declara que, na sua relação com qualquer outro Estado que formulou ou formule uma reserva cujo efeito seja o de não se vincular no todo ou em parte pelas disposições do artigo 66.o [Procedimento de resolução judicial, de arbitragem e de conciliação], não se considerará vinculado em relação a esse Estado nem pelas normas processuais nem pelas normas substantivas da parte V da Convenção, relativamente às quais deixam de se aplicar os procedimentos previstos no artigo 66.o em virtude da referida reserva. (…)»

No entanto, o cordato país que assim declarou continua a sentir-se vinculado ao tratado que assinou (AO90) com o Brasil, alegadamente porque devemos uma reparação que data de 1911. Não, não devemos reparação nem satisfações a ninguém pelos regulamentos de aplicação interna. Muito pelo contrário: não seremos nós credores de alguma reparação, ou pelo menos satisfação, pelas retiradas de 1919 e 1955?

A Parte V da Convenção [Nulidade, cessação da vigência e suspensão da aplicação dos tratados], referida na declaração de não vinculação de Portugal ao abrigo do artigo 2.º da RAR 67/2003, reza assim, no artigo 42.º [Validade e vigência dos tratados]:

«1 — A validade de um tratado ou do consentimento de um Estado em ficar vinculado por um tratado só pode ser contestada de acordo com a presente Convenção.

2 — A cessação da vigência de um tratado, a sua denúncia ou a retirada de uma Parte só podem ter lugar de acordo com as disposições do tratado, ou da presente Convenção. A mesma regra vale para a suspensão da aplicação de um tratado.»

Como é sabido, o Senado do Brasil suspendeu a aplicação do AO90 até ao fim do ano de 2015. Como foi? Tudo de acordo com a Convenção?

E Portugal, o que fez?

Foi cordato, como sempre. E como sempre, cordado, mas invertebrado!

In http://ilcao.cedilha.net

terça-feira, 20 de maio de 2014

PORQUE A ALEMANHA ADMIRA PUTIN





Não pode ser tão surpreendente que a Alemanha, décadas após a reunificação, iria começar a definir os seus interesses de forma diferente dos de Washington. Esta redefinição, poderia-se até dizer, era inevitável. O surpreendente pode ter sido que levou muito tempo até ela ocorrer.





Existe um novo eixo Berlim-Moscovo em desenvolvimento ? Algumas semanas atrás, Gerhard Schroeder, o ex-chanceler alemão que faz parte do conselho da Gazprom, foi fotografado dando ao presidente russo, Vladimir Putin, um abraço de "urso". Outro ex-chanceler social-democrata, Helmut Schmidt, declarou no Die Zeit semanal que o alvoroço sobre expropriação da Criméia de Putin foi muito disparatada. Foi, segundo ele, "inteiramente compreensível." E o próprio público alemão não tem apetite para o confronto sobre a Ucrânia.

Tudo isto está a criar alguma consternação dentro e fora da Alemanha, entre as elites da política externa. No New York Times de hoje, por exemplo, Clemens Wergin, que é um editor do diário conservador Die Welt, em Berlim, relata que um caso de amor está-se a desenvolver entre a Alemanha e a Rússia. Poucos dias antes, John Vinocur, escrevendo no Wall Street Journal, chegou a conclusões semelhantes: "temos um chanceler - que, independentemente da participação da Alemanha em novas sanções, ou dos oficiais alemães que estão sendo mantido em cativeiro por pró-russos separatistas - que tem passado muito de seu tempo desde a anexação da Criméia pela Rússia à espera ao telefone com Moscovo de sinais positivos do Sr. Putin ".

A essência de seu argumento parece ser que a Alemanha está revertendo o seu curso. Agora que a Guerra Fria acabou, está a olhar mais para o leste, do que para oeste, assim como fez durante a década de 1920, quando assinou o pacto de Rapallo. Vinocur observa que o historiador Heinrich August Winkler escreveu recentemente um ensaio na revista Der Spiegel deplorando a deriva da Alemanha. Ele vê "novas dúvidas sobre calculabilidade da Alemanha." Wergin parece concordar. Ele diz: "Chegamos a pensar na Alemanha como um país da Europa Ocidental, mas que é em grande parte bem mais um produto da Guerra Fria. Antes disso ocupou um meio precário entre leste e oeste. Agora Alemanha pode muito bem estar a se afastar novamente do Ocidente. "

Ele tem uma certa razão. As raízes desta antipatia por Washington são em grande parte baseado numa esquerda e tradição pacifista na Alemanha que surgiu cheia de flores durante a guerra fria. Com a Guerra do Vietname, a América passou a ser vista como o mau na Alemanha. A esquerda estudantil revoltou-se tanto contra os EUA como contra os seus pais. A América era vista como o patrono dos regimes desagradáveis, como o Irão do xá. Isso foi tão irreflectido, que conduziu ao genocídio do estado social no Vietname, tão grande como ele tinha sido contra os índios. Depois veio o movimento pacifista dos anos 1980, quando a administração Reagan era visto como a verdadeira ameaça à paz na Europa. A Alemanha, que aspirava a tornar-se numa nova Suíça, rebelou-se contra a idéia de que ela se tornaria o campo de batalha para um confronto entre as duas superpotências. Schroeder, às vésperas da Guerra do Iraque, e ele próprio um graduado da escola de paz da década de 1980, foi capaz de agir de acordo com esses impulsos retendo o apoio alemão para a guerra, garantindo assim a sua reeleição, no Outono de 2002.

Hoje esses sentimentos têm dado um grande impulso, ironicamente, pelas políticas do presidente Obama. O candidato que foi saudado perto do Portão de Brandemburgo por arrebatadoras multidões alemães e o presidente que deveria inaugurar uma nova era de paz global ? Isso foi-se. Ele foi substituído pela imagem de um presidente feliz e predador armado com mísseis que autoriza a extensa espionagem ao público alemão, incluindo à sua actual chanceler. O nome dos Estados Unidos, de modo geral, está manchado na Alemanha, pelo menos quando se trata de assuntos de política externa.

Muitos desses sentimentos são muito bem resumida pelo activista veterano da paz de 87 anos de idade,  Erhard Eppler, que foi um ministro de Willy Brandt. Escrevendo no Der Spiegel, ele demonstrou total desprezo pela noção de que Putin é o único que tenha violado a lei internacional na Criméia: "O que o direito internacional diz sobre os drones da morte que também são lançados do solo alemão ? Não está a soberania da República Federal da Alemanha e o direito internacional, assim lesados ? Quem poderia vir com a idéia de proibir a América por causa da Guerra do Iraque - que Gerhard Schroeder poupou-nos a nós alemães - da comunidade dos povos civilizados ? "Eppler também expressou compreensão por Putin. Na sua opinião, Putin tinha pouca escolha a não ser agir. Em Kiev o que foi apresentado como um governo provisório, foi de fato, "uma equipa rigidamente anti-russa que tinha de ser ensinada que não poderia abolir imediatamente o russo como língua oficial e juntar-se imediatamente à NATO. O presidente russo que simplesmente ficasse na expectativa teria sido caçado mais cedo ou mais tarde, pelos eleitores russos."

Claro que uma visão emoliente de Putin enraizada na culpa histórica alemã pela Segunda Guerra Mundial só vai tão longe para explicar a posição de Berlim. O dinheiro desempenha um grande papel. As empresas alemãs, como a Siemens em baixo, são relutantes em abrir mão dos seus contratos lucrativos com Moscovo. Eles só podem estar muito felizes em ver as empresas americanas se recusarem, a mando de Obama, a boicotar a cimeira económica de Putin em São Petersburgo.

Finalmente, não pode ser tão surpreendente que a Alemanha, décadas após a reunificação, iria começar a definir os seus interesses de forma diferente dos de Washington. Esta redefinição, poderia-se até dizer, era inevitável. O surpreendente pode ter sido que levou muito tempo até ela ocorrer.

Ainda assim, se a Alemanha se está a afastar da América - e é fácil exagerar a extensão do desvio porque os temores sobre a Alemanha foram expressos ad nauseam desde a década de 1950 sobre a verdadeira profundidade do seu compromisso com a aliança ocidental -, então, essa deriva tem vindo a ocorrer já há algum tempo. Mas não há como negar que ela tenha sido agravada pela desajeitada diplomacia americana e a sua política externa desde a queda do Muro de Berlim. Na verdade, a Alemanha não é o único aliado que parece estar em desacordo com Washington. Israel, também, parece estar se aproximando do regime de Putin por uma série de razões. Em breve, a Alemanha, Israel, e a Rússia podem descobrir que têm mais em comum entre eles do que com a América. Tudo faz lembrar o adágio de Lord Palmerston sobre nem ter aliados nem inimigos permanentes.

Publicado no Nationalinterest.org/cortesia Nationalinterest.org

Tradução Paulo Ramires

O ABSURDO DA SIMPLIFICAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA


O ABSURDO DA SIMPLIFICAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA






O ABSURDO DA SIMPLIFICAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA



Podemos ver este texto interessante e engraçado que revela o que aconteceria se se "simplificasse-mos" a língua como querem alguns. O combate ao analfabetismo não se faz simplificando a língua mas tendo um adequado sistema de ensino.


Tem-se falado muito do Acordo Ortográfico e da necessidade de a língua evoluir no sentido da simplificação, eliminando letras desnecessárias e acompanhando a forma como as pessoas realmente falam .

Sempre combati o dito Acordo mas, pensando bem, até começo a pensar que este peca por defeito. Acho que toda a escrita deveria ser repensada, tornando-a mais moderna, mais simples, mais fácil de aprender pelos estrangeiros .

Comecemos pelas consoantes mudas: deviam ser todas eliminadas .

É um fato que não se pronunciam .

Se não se pronunciam, porque ão-de escrever-se ?

O que estão lá a fazer ?

Aliás, o qe estão lá a fazer ?

Defendo qe todas as letras qe não se pronunciam devem ser, pura e simplesmente, eliminadas da escrita já qe não existem na oralidade .

Outra complicação decorre da leitura igual qe se faz de letras diferentes e das leituras diferentes qe pode ter a mesma letra .

Porqe é qe “assunção” se escreve com “ç” e “ascensão” se escreve com “s” ?

Seria muito mais fácil para as nossas crianças atribuír um som único a cada letra até porqe, quando aprendem o alfabeto, lhes atribuem um único nome. Além disso, os teclados portugueses deixariam de ser diferentes se eliminássemos liminarmente o “ç” .

Por isso, proponho qe o próximo acordo ortográfico elimine o “ç” e o substitua por um simples “s” o qual passaria a ter um único som .

Como consequência, também os “ss” deixariam de ser nesesários já qe um “s” se pasará a ler sempre e apenas “s” .

Esta é uma enorme simplificasão com amplas consequências económicas, designadamente ao nível da redusão do número de carateres a uzar. Claro, “uzar”, é isso mesmo, se o “s” pasar a ter sempre o som de “s” o som “z” pasará a ser sempre reprezentado por um “z” .

Simples não é? se o som é “s”, escreve-se sempre com s. Se o som é “z” escreve-se sempre com “z” .

Quanto ao “c” (que se diz “cê” mas qe, na maior parte dos casos, tem valor de “q”) pode, com vantagem, ser substituído pelo “q”. Sou patriota e defendo a língua portugueza, não qonqordo qom a introdusão de letras estrangeiras. Nada de “k” .Ponha um q.

Não pensem qe me esqesi do som “ch” .

O som “ch” será reprezentado pela letra “x”.

Alguém dix “csix” para dezinar o “x”? Ninguém, pois não ?

O “x” xama-se “xis”.

Poix é iso mexmo qe fiqa .

Qomo podem ver, já eliminámox o “c”, o “h”, o “p” e o “u” inúteix, a tripla leitura da letra “s” e também a tripla leitura da letra “x” .

Reparem qomo, gradualmente, a exqrita se torna menox eqívoca, maix fluida, maix qursiva, maix expontânea, maix simplex .

Não, não leiam “simpléqs”, leiam simplex .

O som “qs” pasa a ser exqrito “qs” u qe é muito maix qonforme à leitura natural .

No entanto, ax mudansax na ortografia podem ainda ir maix longe, melhorar qonsideravelmente .

Vejamox o qaso do som “j” .

Umax vezex excrevemox exte som qom “j” outrax vezex qom “g”- ixtu é lójiqu?

Para qê qomplicar ? ! ?

Se uzarmox sempre o “j” para o som “j” não presizamox do “u” a segir à letra “g” poix exta terá, sempre, o som “g” e nunqa o som “j” .

Serto ?

Maix uma letra mud

a qe eliminamox .

É impresionante a quantidade de ambivalênsiax e de letras inuteix qe a língua portugesa tem !

Uma língua qe tem pretensõex a ser a qinta língua maix falada do planeta, qomo pode impôr-se qom tantax qompliqasõex ?

Qomo pode expalhar-se pelo mundo, qomo póde tornar-se realmente impurtante se não aqompanha a evolusão natural da oralidade ?

Outro problema é o dox asentox.

Ox asentox só qompliqam !

Se qada vogal tiver sempre o mexmo som, ox asentox tornam-se dexnesesáriox .

A qextão a qoloqar é: á alternativa ?

Se não ouver alternativa, pasiênsia.

É o qazo da letra “a” .

Umax vezex lê-se “á”, aberto, outrax vezex lê-se “â”, fexado .

Nada a fazer.

Max, em outrox qazos, á alternativax .

Vejamox o “o”: umax vezex lê-se “ó”, outrax lê-se “u” e outrax, lê-se “ô” .

Seria tão maix fásil se aqabásemox qom isso !

qe é qe temux o “u” ?

Se u som “u” pasar a ser sempre reprezentado pela letra “u” fiqa tudo tão maix fásil !

Pur seu lado, u “o” pasa a suar sempre “ó”, tornandu até dexnesesáriu u asentu.

Já nu qazu da letra “e”, também pudemux fazer alguma qoiza :

quandu soa “é”, abertu, pudemux usar u “e” .

U mexmu para u som “ê” .

Max quandu u “e” se lê “i”, deverá ser subxtituídu pelu “i” .

I naqelex qazux em qe u “e” se lê “â” deve ser subxtituidu pelu “a” .

Sempre. Simplex i sem qompliqasõex .

Pudemux ainda melhurar maix alguma qoiza: eliminamux u “til” subxtituindu, nus ditongux, “ão” pur “aum”, “ães” – ou melhor “ãix” - pur “ainx” i “õix” pur “oinx” .

Ixtu até satixfax aqeles xatux purixtax da língua qe goxtaum tantu de arqaíxmux.

Pensu qe ainda puderiamux prupor maix algumax melhuriax max parese-me qe exte breve ezersísiu já e sufisiente para todux perseberem qomu a simplifiqasaum i a aprosimasaum da ortografia à oralidade so pode trazer vantajainx qompetitivax para a língua purtugeza i para a sua aixpansaum nu mundu .

Será qe algum dia xegaremux a exta perfaisaum ?





 





O ABSURDO DA SIMPLIFICAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA



O ABSURDO DA SIMPLIFICAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA






O ABSURDO DA SIMPLIFICAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA



Podemos ver este texto interessante e engraçado que revela o que aconteceria se se "simplificasse-mos" a língua como querem alguns. O combate ao analfabetismo não se faz simplificando a língua mas tendo um adequado sistema de ensino.


Tem-se falado muito do Acordo Ortográfico e da necessidade de a língua evoluir no sentido da simplificação, eliminando letras desnecessárias e acompanhando a forma como as pessoas realmente falam .

Sempre combati o dito Acordo mas, pensando bem, até começo a pensar que este peca por defeito. Acho que toda a escrita deveria ser repensada, tornando-a mais moderna, mais simples, mais fácil de aprender pelos estrangeiros .

Comecemos pelas consoantes mudas: deviam ser todas eliminadas .

É um fato que não se pronunciam .

Se não se pronunciam, porque ão-de escrever-se ?

O que estão lá a fazer ?

Aliás, o qe estão lá a fazer ?

Defendo qe todas as letras qe não se pronunciam devem ser, pura e simplesmente, eliminadas da escrita já qe não existem na oralidade .

Outra complicação decorre da leitura igual qe se faz de letras diferentes e das leituras diferentes qe pode ter a mesma letra .

Porqe é qe “assunção” se escreve com “ç” e “ascensão” se escreve com “s” ?

Seria muito mais fácil para as nossas crianças atribuír um som único a cada letra até porqe, quando aprendem o alfabeto, lhes atribuem um único nome. Além disso, os teclados portugueses deixariam de ser diferentes se eliminássemos liminarmente o “ç” .

Por isso, proponho qe o próximo acordo ortográfico elimine o “ç” e o substitua por um simples “s” o qual passaria a ter um único som .

Como consequência, também os “ss” deixariam de ser nesesários já qe um “s” se pasará a ler sempre e apenas “s” .

Esta é uma enorme simplificasão com amplas consequências económicas, designadamente ao nível da redusão do número de carateres a uzar. Claro, “uzar”, é isso mesmo, se o “s” pasar a ter sempre o som de “s” o som “z” pasará a ser sempre reprezentado por um “z” .

Simples não é? se o som é “s”, escreve-se sempre com s. Se o som é “z” escreve-se sempre com “z” .

Quanto ao “c” (que se diz “cê” mas qe, na maior parte dos casos, tem valor de “q”) pode, com vantagem, ser substituído pelo “q”. Sou patriota e defendo a língua portugueza, não qonqordo qom a introdusão de letras estrangeiras. Nada de “k” .Ponha um q.

Não pensem qe me esqesi do som “ch” .

O som “ch” será reprezentado pela letra “x”.

Alguém dix “csix” para dezinar o “x”? Ninguém, pois não ?

O “x” xama-se “xis”.

Poix é iso mexmo qe fiqa .

Qomo podem ver, já eliminámox o “c”, o “h”, o “p” e o “u” inúteix, a tripla leitura da letra “s” e também a tripla leitura da letra “x” .

Reparem qomo, gradualmente, a exqrita se torna menox eqívoca, maix fluida, maix qursiva, maix expontânea, maix simplex .

Não, não leiam “simpléqs”, leiam simplex .

O som “qs” pasa a ser exqrito “qs” u qe é muito maix qonforme à leitura natural .

No entanto, ax mudansax na ortografia podem ainda ir maix longe, melhorar qonsideravelmente .

Vejamox o qaso do som “j” .

Umax vezex excrevemox exte som qom “j” outrax vezex qom “g”- ixtu é lójiqu?

Para qê qomplicar ? ! ?

Se uzarmox sempre o “j” para o som “j” não presizamox do “u” a segir à letra “g” poix exta terá, sempre, o som “g” e nunqa o som “j” .

Serto ?

Maix uma letra mud

a qe eliminamox .

É impresionante a quantidade de ambivalênsiax e de letras inuteix qe a língua portugesa tem !

Uma língua qe tem pretensõex a ser a qinta língua maix falada do planeta, qomo pode impôr-se qom tantax qompliqasõex ?

Qomo pode expalhar-se pelo mundo, qomo póde tornar-se realmente impurtante se não aqompanha a evolusão natural da oralidade ?

Outro problema é o dox asentox.

Ox asentox só qompliqam !

Se qada vogal tiver sempre o mexmo som, ox asentox tornam-se dexnesesáriox .

A qextão a qoloqar é: á alternativa ?

Se não ouver alternativa, pasiênsia.

É o qazo da letra “a” .

Umax vezex lê-se “á”, aberto, outrax vezex lê-se “â”, fexado .

Nada a fazer.

Max, em outrox qazos, á alternativax .

Vejamox o “o”: umax vezex lê-se “ó”, outrax lê-se “u” e outrax, lê-se “ô” .

Seria tão maix fásil se aqabásemox qom isso !

qe é qe temux o “u” ?

Se u som “u” pasar a ser sempre reprezentado pela letra “u” fiqa tudo tão maix fásil !

Pur seu lado, u “o” pasa a suar sempre “ó”, tornandu até dexnesesáriu u asentu.

Já nu qazu da letra “e”, também pudemux fazer alguma qoiza :

quandu soa “é”, abertu, pudemux usar u “e” .

U mexmu para u som “ê” .

Max quandu u “e” se lê “i”, deverá ser subxtituídu pelu “i” .

I naqelex qazux em qe u “e” se lê “â” deve ser subxtituidu pelu “a” .

Sempre. Simplex i sem qompliqasõex .

Pudemux ainda melhurar maix alguma qoiza: eliminamux u “til” subxtituindu, nus ditongux, “ão” pur “aum”, “ães” – ou melhor “ãix” - pur “ainx” i “õix” pur “oinx” .

Ixtu até satixfax aqeles xatux purixtax da língua qe goxtaum tantu de arqaíxmux.

Pensu qe ainda puderiamux prupor maix algumax melhuriax max parese-me qe exte breve ezersísiu já e sufisiente para todux perseberem qomu a simplifiqasaum i a aprosimasaum da ortografia à oralidade so pode trazer vantajainx qompetitivax para a língua purtugeza i para a sua aixpansaum nu mundu .

Será qe algum dia xegaremux a exta perfaisaum ?




Maria Clara Assunção






sexta-feira, 16 de maio de 2014

OS RESPONSÁVEIS POLÍTICOS PELO “ACORDO ORTOGRÁFICO” DE 1990

OS RESPONSÁVEIS POLÍTICOS PELO “ACORDO ORTOGRÁFICO” DE 1990
Análise dos factos políticos lesivos da Língua Portuguesa, por parte dos governantes e dos partidos, entre 1986 e 2014


Por Ivo Miguel Barroso


1. Em 2004, foi assinado um 2.º Protocolo Modificativo ao AO90 (“Acordo Ortográfico” de 1990) pelos 7 Estados. A ratificação deste Tratado foi uma prioridade do Governo seguinte, do PS, chefiado por JOSÉ SÓCRATES.

Em 2005, o Instituto Camões pediu vários Pareceres sobre o AO90 a especialistas e entidades. Os Pareceres foram todos negativos, sendo vários “arrasadores” (à excepção de um, subscrito por MALACA CASTELEIRO -em causa própria, pois fora um dos autores materiais do AO90 -, em nome da Academia das Ciências de Lisboa). Esses Pareceres não foram divulgados pelo Instituto Camões, senão em 2008.

Até à remodelação governamental que determinou a saída de ISABEL PIRES DE LIMA de Ministra da Cultura, a questão do AO90 foi analisada três vezes pelo Conselho de Ministros. A então Ministra da Cultura manifestou sempre a sua discordância em relação ao mesmo, juntamente com outros Ministros. Pode concluir-se que foi a oposição de ISABEL PIRES DE LIMA que impediu a ratificação do 2.º Protocolo Modificativo mais cedo.

2. Foi precisamente a partir da entrada em funções do novo titular da pasta da Cultura, JOSÉ ANTÓNIO PINTO RIBEIRO, no início de 2008, que o Governo de então decidiu acelerar o processo que, até então, havia sido “travado” pela ex-Ministra. Assim, o Governo, já após a remodelação, aprovou a Proposta de Resolução do 2.º Protocolo Modificativo em 6 de Março, a apresentar à Assembleia da República (AR).

3. No âmbito da sociedade civil, a “Petição / MANIFESTO em defesa da Língua Portuguesa contra o Acordo Ortográfico” (com ANTÓNIO EMILIANO, MARIA ALZIRA SEIXO, VASCO GRAÇA MOURA, e muitas outras personalidades) começou a recolher assinaturas em 2 de Maio. Em 8-5-2008, 12 dias antes da conclusão do processo, a Petição aludida fora já subscrita por 17.300 pessoas. Com esse número de assinaturas, recolhidas em tempo recorde de 6 dias, os Peticionários entregaram a Petição nos serviços da AR.

4. Na tribuna parlamentar, os discursos foram laudatórios do AO90: por parte do Ministro, JOSÉ ANTÓNIO PINTO RIBEIRO; seguido por Deputados. Apenas NUNO MELO discursou contra.

Não obstante a entrada da Petição e da opinião pública negativa por parte da sociedade civil (que, na altura, contava com Editores que, maioritariamente, estavam contra a ratificação), a AR veio a aprovar a Resolução n.º 35/2008, na votação final global; com votos a favor dos Deputados do PS, que tinha maioria absoluta e que impôs disciplina de voto (apesar disso, o Deputado MANUEL ALEGRE votou contra, quebrando essa disciplina de voto e apresentou uma declaração de voto), do PSD, do Bloco de Esquerda.

O grupo parlamentar do CDS teve liberdade de voto. Assim, 7 Deputados do CDS-PP votaram a favor. O líder, PAULO PORTAS, absteve-se, tal como JOSÉ CARVALHO e ABEL BAPTISTA. NUNO MELO e ANTÓNIO CARLOS MONTEIRO votaram contra. Também a Deputada LUÍSA MESQUITA (dissidente do PCP) votou contra. Os grupos parlamentares do PCP e do PEV abstiveram-se. Registaram-se também algumas ausências da votação.

5. O Presidente da República ratificou o 2.º Protocolo Modificativo em 29-7-2008.

6. Só na sessão legislativa seguinte a Petição-manifesto (Petição 495/X/3ª) recebeu tramitação na AR. Em 25-9-2008, decorreu a audição dos Peticionários. Em nosso entender, após a Petição ser admitida, houve violação do art. 13.º/1, da Lei n.º 43/90, não tendo curado de tramitar com “a máxima brevidade compatível com a complexidade do assunto”.

O Relatório final da Comissão Parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura, elaborado pelo Deputado FELICIANO BARREIRAS DUARTE, apesar de favorável à Petição, foi aprovado muito tardiamente: 11 meses depois da entrada da Petição.

Ao todo, houve um total de 113.206 assinaturas da Petição-manifesto.

O debate em Plenário decorreu em 20-5-2009.

Para além desta Petição, foi apresentada uma outra Petição contra o AO90 (n.º 511/X (3.ª)), que, após a tramitação em sede de Comissão, foi apreciada em Plenário.

7. Do ponto de vista politológico, extraem-se as seguintes conclusões políticas:

i) Por via de regra, o Governo não se limitou a negociar e a assinar as convenções internacionais – teve um “peso” político na “união pessoal” existente entre o Primeiro-Ministro e o verdadeiro chefe da maioria parlamentar;

ii) Os Presidentes da República, das várias cores políticas (PS, MÁRIO SOARES (AO90), e JORGE SAMPAIO (1.º Protocolo, em 2000); PSD, CAVACO SILVA (2.º Protocolo, em 2008), deram sempre sequência à ratificação do AO, nunca tendo recusado nenhum acto de ratificação dos Tratados;

iii) No espectro político-partidário, historicamente, verifica-se que personalidades “históricas” do PS estiveram ligados à vinculação internacional de Portugal ao Tratado do AO:

- Quanto à versão originária do AO90: regista-se o voto maioritário em 1991, embora com voto contra de 16 Deputados do grupo parlamentar, quando havia uma maioria absoluta do grupo parlamentar do PSD; também, ao que apurámos, contou com os votos do PS.

A decisão final e discricionária de ratificação coube ao então Presidente da República, MÁRIO SOARES, que ratificou o AO90 em 1991. Porém, o AO90 contou apenas com três ratificações (de Cabo Verde e, em 1995, do Brasil), pelo que não chegou a entrar em vigor.

- Quanto ao 1.º Protocolo Modificativo, os titulares de cargos políticos filiados no PS “fizeram o pleno”: no 1º Governo de ANTÓNIO GUTERRES, através do Plenipotenciário, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, JAIME GAMA, assinou o 1.º Protocolo Modificativo; este foi aprovado pela AR, com votos a favor do grupo parlamentar do PS. O 1.º Protocolo foi ratificado pelo então PR, JORGE SAMPAIO (Decreto n.º 1/2000, de 28-1).

iv) A envolvência de órgãos dominados pela cor política do PSD é também significativa e convergente, tanto no início, como no fim: ou seja, no Tratado originário de 1990 (e, antes, no AO86) e na ratificação do 2.º Protocolo Modificativo.

O 1.º e o 2.º Governo maioritários, chefiados por CAVACO SILVA, deram o impulso para a assinatura e para a posterior ratificação da versão originária do Tratado do Acordo Ortográfico de 1990.

O 1.º e o 2.º Protocolos Modificativos foram aprovados pelo grupo parlamentar do PSD na Assembleia da República.

O 2.º Protocolo Modificativo foi ratificado pelo Presidente da República, CAVACO SILVA, curiosamente o mesmo titular que impulsionou a negociação do AO e a sua aprovação na AR.

7. O Governo minoritário do PS, a poucos meses da demissão, aprovou a Resolução em Conselho de Ministros n.º 8/2011, de 25 de Janeiro, que mandou aplicar o Acordo Ortográfico à Administração Pública e ao “Diário da República” a partir de 1 de Janeiro de 2012, bem como ao sistema de ensino, a partir de Setembro de 2011, antecipando o final do prazo de transição em praticamente 5 anos (!!).

8. Em 28-2 do corrente ano, decorreu a discussão da Petição em Plenário da Petição n.º 259/XII/2.ª (“Petição pela desvinculação de Portugal do Acordo Ortográfico de 1990”), que havia sido entregue em 26 de Abril por nós e por Madalena Homem Cardoso, tendo como 1.º subscritor Rui Miguel Duarte.

Face à iminente discussão em Plenário, foram apresentados 3 Projectos de Resolução: por Ribeiro e Castro, Michael Seufert e Mota Amaral; pelo BE; e pelo PCP (discussão em https://www.youtube.com/watch?v=FbjqSi-6az4; votação em http://www.youtube.com/watch?v=P2EPQeXAFJA). Apenas o tímido 1.º Projecto, que recomenda ao Governo a criação de um Grupo de Trabalho, sem prazo nem sanções, foi aprovado (Resolução da AR n.º 23/2014, de 17 de Março).

O resultado da Petição foi clarificador: todos os grupos parlamentares demonstraram-se “acordistas”, em maior ou menor medida, por esta ordem:

i) O PS é inequivocamente o Partido político com uma agenda mais “acordista”; ii) logo seguido do CDS (14 votos contra o Projecto minimalista de Ribeiro e Castro, e apenas 7 a favor, em contexto de “liberdade de voto”) e do PSD (que exigiu cortes no Projecto de Ribeiro e Castro, para que fosse aprovado; e que rejeitou sequer o cenário de suspensão do AO90, em reunião do grupo parlamentar, no dia 27-2); iii) a seguir, vem o BE (que admite entraves devidos a um possível recuo do Brasil); iv) o PEV; v) e, finalmente, o PCP (o único que, no Projecto de Resolução de 2014, admitia a desvinculação de Portugal do AO90, caso os restantes Estados não o estivessem a “aplicar”; e que se absteve nas anteriores votações do AO90 e das revisões do mesmo).

9. Em conclusão: as vias políticas para a resolução do cancro do AO90 encontram-se esgotadas: a AR, qualquer que seja a sua composição, sempre se manifestou a favor do AO90, em diversas sessões legislativas, tão díspares no tempo: 1991, 2000, 2008, 2009 e 2014.

No entanto, os estudos de opinião demonstram que os Portugueses são, com percentagens muito elevadas, contra o AO90; poucos a favor da revisão; e residualmente poucos a favor.

Ora, é mais fácil mudar de governantes, dissonantes com o eleitorado, do que mudar de povo. Daí o nosso apelo para que, nas eleições (europeias, parlamentares, presidenciais e autárquicas), as pessoas votem em listas/partidos e façam efectivar a responsabilidade política dos titulares de cargos políticos que se manifestaram a favor do AO90.

Apelamos a que os cidadãos não se abstenham, nem votem nulo ou em branco. A solução preferível para expressar o protesto (caso haja alguma escrita em “acordês” ou para expressar em geral o desacordo em relação ao AO90) é requerer que seja lavrado um protesto/reclamação, aquando do exercício do direito de voto, invocando o artigo 99.º da Lei Eleitoral da AR; protesto esse que tem de ser obrigatoriamente aceite pela Mesa de voto.

Apelamos também ao exercício do direito de resistência contra normas inconstitucionais (art. 21.º da Constituição) e dos demais mecanismos do Estado de Direito democrático.

Jurista

Publicado in “O Diabo”, 13 de Maio de 2014, pgs. 8-9

terça-feira, 13 de maio de 2014

A IMPORTÂNCIA DA PRESERVAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA

A IMPORTÂNCIA DA PRESERVAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA


Por Paulo Ramires


A - A IMPORTÂNCIA DA PRESERVAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA


São vários os estudos técnicos que desaconselharam o acordo ortográfico de 1990 (AO90), todavia todos eles foram ignorados pelos últimos governos e o acordo foi de facto imposto aos portugueses, inclusivamente no ensino onde não existe opção alternativa a ele, isto apesar de o acordo ortográfico ser um tratado ou acordo internacional [o Direito Internacional faz distinção], que apesar de ter sido assinado pelos respectivos signatários não o foi ratificado por todos – Moçambique e Angola onde existe bastantes resistências não o fizeram. E aqui reside algumas duvidas sobre a aplicabilidade deste acordo que irei passar a descrever. Segundo o art.º 11º da Convenção de Viena, “o consentimento de um Estado a estar vinculado por um Tratado pode manifestar-se pela assinatura, pela troca de instrumentos constitutivos de um Tratado, pela ratificação, pela aceitação, pela aprovação ou pela adesão, ou por qualquer outro meio convencionado”.

No entanto no caso dos tratado solenes, a vinculação do Estado dá-se pela ratificação, que é o acto mediante o qual o órgão competente segundo o Direito Constitucional manifesta a vontade de o Estado se declarar obrigado em relação às disposições daqueles. No caso do acordo ortográfico se tratar de facto de um acordo com o nome sugere, as condições de a aplicabilidade do acordo na ordem pública é idêntica. Quer o acordo em forma simplificada [que não é o caso do AO90] quer os “Tratados solenes” têm de ser sujeitos a um acto de aprovação, a praticar pelo Governo, em relação a ambos, por via de Decreto simples, segundo o art.º 197.º/1-c CRP – aprovar os Acordos Internacionais cuja aprovação não seja da competência da Assembleia da República ou que a esta não tenham sido submetidos. Mas neste caso deve ser pela Assembleia da República, sob a forma de resolução, art.º 161º/i CRP – aprovar os Tratados, designadamente os Tratados de participação de Portugal em Organizações Internacionais, os Tratados de amizade, de paz, de defesa, de rectificação de fronteiras e os respeitantes a assuntos militares, bem como os acordos internacionais que versem matérias da sua competência reservada ou que o Governo entenda submeter à sua apreciação.

A Evolução recente da ortografia da língua portuguesa 

O entendimento entre Portugal e o Brasil para que houvesse uma unificação da língua portuguesa nunca foi fácil, o primeiro acordo ortográfico foi elaborado entre a Academia Brasileira de letras e a Academia de Ciências de Lisboa em 1931, embora tivesse como objectivos a unificação e simplificação, este nunca foi posto em prática.

Em 1940, a Academia das Ciências de Lisboa, publica o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, aprovado no Brasil a 29 de Janeiro de 1942.

Em 1943 é criado o Formulário Ortográfico de 1943, aprovado a 12 de Agosto pela Academia Brasileira de Letras que com as alterações introduzidas pela Lei 5.765 de 18 de Dezembro de 1971 regulamenta a escrita do português do Brasil até hoje.
No ano de 1945 é criada a Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945 ou Acordo Ortográfico de 1945 que é publicado como Decreto n.º 35.228 no Diário do Governo a 8 de Dezembro de 1945. Contudo o Brasil não chegou nunca a ratificar este acordo ortográfico pelo congresso brasileiro.

O Acordo Ortográfico de 1945 é uma convenção ortográfica assinada em Lisboa em 6 de Outubro de 1945, estabelecendo as regras ortográficas vigentes em todos os países de língua portuguesa, excepto o Brasil que não o adoptou

Em 1971, Portugal e o Brasil conseguem um novo acordo aproximando um pouco mais a ortografia dos dois países, suprimindo-se os acentos gráficos responsáveis por 70% das divergências entre as duas ortografias oficiais.

Em 1975, as duas Academias chegaram a um acordo, no entanto não teve efeito dada a convulsão política que se vivia em Portugal.

Em 1986 por iniciativa do Brasil promoveu-se um encontro dos sete países de língua portuguesa no Rio de Janeiro. Do encontro saiu um acordo ortográfico para a supressão das acentuações, mas não teve efeito.

Em 1990 cria-se um novo acordo ortográfico o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, trata-se de um tratado internacional que tem como objectivo unificar a ortografia da língua portuguesa nos países lusófono, mas é um tratado muito polémico onde são muitas as resistências a ele, incluindo no Brasil onde o impacto é menor. No entanto nem todos os países ratificaram o acordo.

Em 1998, na cidade da Praia, Cabo Verde, foi assinado um Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa que retirou do texto original a data para a sua entrada em vigor.

Em 2004 em São Tomé e Príncipe foi aprovado um Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico prevendo que, em lugar da ratificação por todos os países, fosse suficiente que três membros ratificassem o Acordo Ortográfico de 1990 para que este entrasse em vigor.

Em 2010 o Conselho de Ministros em Portugal aprova a implantação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, com a Resolução nº 8/2010 e é posteriormente ratificado pelo presidente da república.

Um mau acordo prejudicial para a língua portuguesa

No entanto o AO90 é um péssimo acordo para a língua portuguesa e em vez de unificar, ele veio dividir bastante os países lusófonos, enquanto o seu objectivo era na verdade unificar a língua portuguesa, que, embora seja algo muito difícil de se concretizar, não deveria ser essa a estratégia da língua portuguesa, no entanto o que está a ser feito com este AO90 não é sequer a unificação da língua portuguesa nos países lusófonos, mas a aplicação do português brasileiro e abrasileirado [no Brasil as alterações são praticamente inexistentes e resumem-se à supressão do trema e ao hífen e mesmo assim existem resistências] aos restantes países da lusofonia, o que é deveras preocupante. Será todavia importante ter em conta que o português é uma língua latina e deve manter a forma grafada nas bases do latim tanto quanto possível, ora isto acontece com todas as outras línguas latinas – que também recebem influências das raízes greco-latinas e do árabe – mas também do inglês e do alemão, ora não passa pela cabeça dos linguistas [e políticos] dos países escreventes dessas línguas tomarem decisões tão dramáticas e prejudicadoras como a supressão das consoantes mudas, na verdade um verdadeiro e inteligente acordo da língua portuguesa assentaria em diferentes pressupostos sendo que a prioridade para a defesas da língua portuguesa perante outras línguas concorrenciais em particular o espanhol, o francês, o alemão, o árabe e o inglês [não sendo esta tratada como uma língua concorrencial do português, assume esta mesmo assim enormes ameaças] não deveria de se concentrar na discussão da forma grafada da língua, mas sim em concluir estratégias que evitem a dispersão do português entre os países de língua oficial portuguesa como por exemplo a padronização de novos conceitos e terminologias que vão surgindo com o avanço das tecnologias e da alterações do paradigma da comunicação, ou seja não há justificação possível que no contexto da defesa da língua portuguesa que se passe a usar com total indiferença inúmeros termos diferentes no Brasil e nos restantes países, trata-se de novos termos para designar exactamente a mesma coisa, não é compreensível haver a designação “celular” [derivado do termo conjunto em inglês “cell phone”] e nos restantes países “telemóvel” [Derivado correctamente dos termos aglutinados em português “telefone” e “móvel”]. Não obstante o enriquecimento da língua, deveria haver um termo comum com base em termos lusófonos e não em termos de outras línguas estrangeiras, pior ainda é o uso constante de termos anglófonos que são substituídos pelos termos correspondentes portugueses só por meras questões de modismo, como “shopping-center” em vez de “centro comercial”, “mouse” (de computador) em vez de “rato” (de computador), “hotdog” em vez de “cachorro quente”, “data base” em vez de “base de dados”, “printer” em vez de “impressora”, “trem” [derivado de “train”] em vez de “comboio”, “cotton” em vez de “algodão” e muitos outros termos que surgem todos os dias. Portanto mais que um acordo “unificador” da forma grafada da língua portuguesa, mais importante seria um acordo padronificador do léxico e dos termos da língua portuguesa que vão surgindo e que tendem a surgir erradamente na forma inglesa. Outra coisa não menos importante seria o enriquecimento da língua portuguesa por terminologias ou vocábulos que se deixaram de ser usados, tais como “por obséquio”, chumfarro, “caroujo”, etc…

O Vocabulário Ortográfico do Português (VOP)

Coisa difícil de se entender é o Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), tudo e mais alguma coisa parece caber lá, incluindo vocábulos da língua inglesa, tais como “show”, “mouse”, “shopping” [mas curiosamente não o termo “shop”], “center”, etc. No entanto palavras portuguesas como “forcadagem”, “embolador”, “base de dados”, “encaste” já não constam, isto apenas para referir algumas. Não é de todo compreensivo a inclusão de estrangeirismos sobretudo ingleses [embora usados nos países lusófonos e que são estrangeirismos e não vocábulos da língua portuguesa, não há portanto razões para confusões] no VOP, assim como não se compreende a intenção da inclusão de termos próprios de idiomas indígenas tanto da África lusófona como do Brasil, por este critério teríamos de incluir também os respectivos termos e vocábulos do mirandês. Fará isto sentido ?

Como a matemática desaconselha o AO90

O AO90 representa de facto um enorme prejuízo para a língua portuguesa pelos diversos motivos tantas vezes referidos e que cada vez são mais, mas há um que é de facto perturbador para todos aqueles que conscientemente usam a língua portuguesa e que se prende com a perda das consoantes mudas. Vejamos o seguinte exemplo:

“É um facto em que existe um pacto entre o cágado(1) e o coelho para cativar o espectador de bom carácter(1) feita junto de um caminho-de-ferro”.

Passando para o AO90 ficará o seguinte:

“É um fato em que existe um pacto entre o cagado(1) e o coelho para cativar o espetador de bom caracter(1) feita junto de um ótimo caminho de ferro”

Por aqui se percebe logo que há algo de muito errado e grave nestas regras com muitas excepções e «à la carte», mas não o suficiente para se perceber o enorme prejuízo para a língua portuguesa, assim vamos utilizar a matemática para demonstrar o quão errado isto é.

Vejamos então o seguinte: se a frase fosse resumida a apenas esta: “É um fato.” A possibilidade para demonstrar o número de significados combinatórios possíveis seria 2, ou seja C2,1 = 2 respectivamente "fato" (indumentária) e "fato" (constatação). Contudo se tornarmos a frase um pouco mais longa come a seguinte: “É um fato em que existe um pacto entre o cagado e o coelho para cativar o espetador”, a demonstração do número combinatório de significados possíveis seria de C 6,3 = 20. Acertar em 20 possíveis significados contidos numa única pequena frase – quando antes do AO90 era apenas de um - não será fácil a menos que o leitor seja adivinho. Se considerarmos agora a frase maior: “É um fato em que existe um pacto entre o cagado e o coelho para cativar o espetador de bom caracter feita junto de um ótimo caminho de ferro”, a demonstração do número combinatório de significados possíveis seria de C 10,5 = 252, isto é, nesta mesma frase existem 252 possibilidades de significâncias diferentes. A pergunta que se coloca de imediato é que dessas 252 possibilidades, qual delas o autor da frase pensou. É evidente que deste modo a língua portuguesa perderá clareza e rigor, e reinará nela a total confusão e distorção sobretudo em áreas tão distintas como a interpretação das normas jurídicas e o direito à elaboração de obras ou factos literários, históricos ou jornalísticos. Outro problema nesta questão será os tradutores tentarem traduzir um livro segundo a ordem do AO90. Como vão adivinhar o que lá está escrito ?

É de facto recomendado que não se toque nas consoantes mudas e no hífen, uma vez que essa alteração conduz a implicações relevantes na forma como a significância dos termos é entendida, e é também por esta razão que as consoantes mudas têm importância fulcral para qualquer língua latina ou mesmo não latina como é o caso do inglês. Mexer na língua sem qualquer consciência do que se está a fazer, contra tudo e todos é algo que não é autorizado tanto aos políticos como aos especialistas da língua portuguesa, e muito menos a uns poucos envolvidos em alguns interesses duvidosos. Há quem justifique este acordo com a importância geopolítica da língua portuguesa, mas justifica mal, na verdade a falta de clareza, multi-interpretações, critérios “à la carte” só trazem problemas no plano geopolítico da língua portuguesa, e este AO90 é também um prejuízo neste aspecto vejamos porquê.

B – A IMPORTÂNCIA GEOPOLÍTICA DA LÍNGUA PORTUGUESA

 

A língua portuguesa tem uma importância geopolítica maior do que muitos possam pensar, graças a ela é possível a unificação de países lusófonos que pertencem a plataformas geopolíticas muito diferentes, tais como os BRICS, UE, UA, CEDEAO, Mercosul, SADC, CELAC, etc.

Mas qual é a geopolítica da língua portuguesa ? Actualmente os centros geopolíticos da língua portuguesa são representados e reunidos na CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, criada a partir da diplomacia dos PALOPs e de Portugal a 17 de Julho de 1996, mas os fundamentos culturais geopolíticos [também designados de elementos da geopolítica da língua] assentam nos clássicos da Língua Portuguesa, como Camões, Gil Vicente, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Bocage entre outros a que se juntaram depois outros dos países lusófonos como Mia Couto, Machado de Assis, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Érico Veríssimo, Rui de Noronha, e muitos outros.

A expansão da língua portuguesa fez-se como se sabe a partir de Portugal com as descobertas marítimas portuguesas, eram os missionários e padres jesuítas que tinham essa missão de transmitir a língua aos povos indígenas, era normal eles integrarem as viagens e expedições marítimas a outras partes do mundo, criando laços de amizade, afecto e comerciais com outros povos. Portugal cresceu territorialmente através do Atlântico, reforçou-se com as ligações a África, ao Brasil, ao Médio Oriente e à Ásia, e consequentemente tornou-se num império. O crescimento português fez-se pelo atlântico mas não pelo continente europeu, e quando isso aconteceu poucos ganhos geopolíticos foram obtidos. Portugal era então o centro e as colónias portuguesas preferias. Hoje já não é assim, existem vários centros distribuídos pelos países lusófonos e a periferia é o espaço não lusófono por um lado, ou dentro do espaço lusófono aquele em que os centros de decisões têm mais dificuldade em exercer a sua influência, como por exemplo a implementação do ensino da língua portuguesa ou a criação de instituições intrínsecas a esses centros de decisão. As ligações culturais, comerciais, políticas, económicas e financeiras entre os centros de poder ou de influências têm estabelecido e desenvolvido o espaço comum lusófono que corresponde igualmente ao espaço da geopolítico da lusofonia, da língua portuguesa e da CPLP. Ora é este o espaço que paralelamente ao europeu Portugal tem de dar particular importância, nunca esquecendo que no actual mundo global os espaços linguísticos como o anglófono, francófono, hispanófono são concorrentes do espaço lusófono embora no caso destes três últimos possa haver contactos para estratégias conjuntas no plano global para enfrentar por exemplo a adversidade do uso abusivo do inglês em detrimento das outras línguas. O representante hispanófono referia mesmo que a “globalização da economia” provocou “um deslocamento da economia do Ocidente para o Oriente”, mas mesmo assim a alegada causa do predomínio do inglês “poderia levar à perda da diversidade cultural e linguística”. E acrescentou: “Não protegemos a língua apenas como uma identidade linguística, mas também como uma identidade cultural que reflecte valores próprios.”

 

A CPLP é justamente a instituição que permite a integração dos países lusófonos no espaço da lusofonia, trata-se não só de um espaço linguístico cultural, mas também político que tende a dar cada vez mais valor às relações comerciais que ocorrem entre os diversos estados que a constituem, desde logo pelos vastos recursos energéticos, marítimos e outros que estes países possuem no seu território [e Portugal não foge à regra]. Por esta razão e pela importância crescente que se dá cada vez mais aos recursos energéticos, mas também pela necessidade dos estados se associarem em espaços comerciais e políticos, a CPLP como sendo um desses espaços apresenta particular importância para os estados membros, atraindo um vasto leque de países desejosos de se associarem. A Guiné Equatorial irá aderir em breve e outros poderão seguir o mesmo caminho [sobretudo países africanos] se cumprirem as exigências estipuladas pela CPLP, fala-se ainda em outros países por sugestão de Timor-Leste, como a Indonésia e a Austrália. Mas serão estas adesões exequíveis ? Muito dificilmente o serão a menos que a CPLP altere as suas características e fundamentos assentes essencialmente na questão da língua portuguesa, pois não se está a ver a Austrália a adoptar o português como língua oficial ou a Indonésia em que a sua língua, o Bahasa uma das mais faladas do mundo serve como factor de unificação das muitas ilhas com dialectos próprios que constituem aquele país.

A CPLP foi criada em torno de uma característica comum, o português e os respectivos elementos da geopolítica da língua, se a CPLP se se transformar efectivamente numa comunidade económica, então a língua portuguesa poderá não beneficiar assim tanto, isto porque os interesses comerciais sobrepõe-se a todos os outros neste mundo globalizado, desta forma seria interessante e recomendado que os aspectos ligados à língua portuguesa estivessem a cargo de órgãos que se dedicassem exclusivamente à defesa da língua e os interesses económicos a cargo de outros órgão exclusivamente ligados às questões económicas e comerciais.

(1) Segundo a nova ortografia a acentuação dos termos cágado e carácter mantém-se após revisão posterior, mas o termo "carácter" é opcional tanto pode ser escrito "carácter" como "caráter" mostrando que não existem regras claras para a ortografia, mas muitas excepções ás regras além das muitas duplicidades e opções da forma ortográfica do vocabulário. O exemplo continua válido e exemplificador, mas a confusão com este acordo ortográfico é mais do que muita, ou  seja, isto é impraticável.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

MARTINS DA CRUZ. "NÃO VEJO RAZÕES PARA QUE A GUINÉ EQUATORIAL NÃO SEJA ACEITE NA CPLP"

MARTINS DA CRUZ. "NÃO VEJO RAZÕES PARA QUE A GUINÉ EQUATORIAL NÃO SEJA ACEITE NA CPLP"

António Martins da Cruz, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, antigo embaixador de Portugal em Espanha e ex-assessor diplomático de Cavaco Silva


Por Sérgio Soares

O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros diz que tendo este país africano cumprido o roteiro imposto, e preenchido as condições exigidas, não há razão para que Portugal se oponha à adesão


O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, antigo embaixador de Portugal em Espanha e ex-assessor diplomático de Cavaco Silva é um defensor da causa da lusofonia e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Para reforço da organização, argumenta a favor da adesão da Guiné-Equatorial como membro de pleno direito e diz não compreender as críticas a essa adesão quando o país já é membro da francofonia.

Qual é, em seu entender, a importância da lusofonia para Portugal e para o posicionamento geoestratégico do país na actualidade?

Acho que o espaço de língua portuguesa, que inclui a CPLP mas também inclui regiões ou cidades como Goa ou Macau, que não fazem parte da CPLP mas fazem parte do espaço de língua portuguesa, assim como as comunidades de emigrantes, não só as portuguesas mas também as cabo-verdianas, as brasileiras, as angolanas que há pelo mundo inteiro, tudo isso faz parte do chamado espaço de língua portuguesa, que está institucionalizado ou organizado na CPLP. É uma das prioridades da política externa portuguesa.

A política externa portuguesa tem três prioridades: a Europa, o Atlântico, ou seja a nossa profundidade estratégica com os Açores e a Madeira e a ligação aos Estados Unidos, que são essenciais para a nossa defesa, e depois o espaço da língua portuguesa e a CPLP. Em seguida temos outros sub-eixos da nossa política externa, como o Mediterrâneo, o Magrebe, a América Latina, e as nossas ligações históricas com a Ásia. Mas uma das três prioridades é o espaço da língua portuguesa e a CPLP.

Há a sensação que depois de aderirmos à União Europeia ficámos um bocado eufóricos com a Europa e esquecemos o nosso passado, influência e ligações com África. Isso mudou ou ainda estamos hesitantes? 

Estamos. Vamos lá a ver, o que mudou foi o mundo, nós em termos de política externa, apesar da adesão à UE ter sido um enorme salto qualitativo, em termos externos mas também internos e foi o maior salto qualitativo das nossas relações com Espanha desde 1640. As pessoas esquecem-se disso. A Espanha era o nosso sexto parceiro comercial e hoje é o primeiro a larga distância de todos os outros, e isso também é consequência da adesão. A política externa portuguesa nunca se esqueceu do chamado espaço da língua portuguesa, mas temos de ver que a seguir às independências estávamos na Guerra Fria, havia em alguns países, como Angola, guerra civil, que em Moçambique rebentou poucos anos depois da independência, e houve o período pós-colonial, que é sempre sujeito a traumas de uma parte e de outra. Simplesmente, a pouco e pouco, sobretudo em meados dos anos 80, os próprios países africanos de língua portuguesa (PALOP) organizaram-se e criaram o grupo dos Cinco, e Portugal conseguiu, depois de algum esforço, que se deve ao Dr. Durão Barroso, ainda antes do processo de paz de Angola, fazer parte desse grupo que passou para 5+1. Isso foi o verdadeiro embrião da CPLP. Foi aí que Portugal começou a ser aceite outra vez como o interlocutor internacional de referência para os próprios países africanos de fala portuguesa.

A situação, hoje, 40 anos depois da descolonização e 30 anos depois da nossa adesão às comunidades europeias, é completamente diferente. O Brasil e Angola transformaram-se em potências regionais, dos principais produtores de petróleo e de gás do mundo, Moçambique tem hoje, ao que se diz, as segundas maiores reservas de gás do mundo depois do Qatar. Aliás, é curioso ver um estudo de estratégia publicado no último número da revista Nação e Defesa, do Instituto de Defesa Nacional, sobre o problema da energia na CPLP, que refere que nos últimos dez anos 50% das novas descobertas de gás e petróleo foram feitas em países da CPLP.

Hoje já se reconhece a relevância internacional da CPLP como outras instituições regionais, tipo SADCC ou CEDEAO... Têm o mesmo nível de importância? 

Seguramente. Os pontos de comparação da CPLP são a Francofonia, a Commonwealth, e a Ibero-América. Todas começaram antes da CPLP e, no fundo, representam o antigo império francês, o antigo império inglês, o antigo império espanhol e português, porque na Ibero-América está Portugal e o Brasil.

Mas a CPLP, também temos de a valorizar porque hoje em dia é transversal, porque são oito países que abrangem quatro continentes.

A entrada de Timor-Leste na CPLP...

Foi muito importante para a CPLP a entrada de Timor-Leste depois da independência porque isso significou, para a organização, estar na Ásia onde Portugal tem das relações históricas mais sólidas, depois de África. Repare - um mero exemplo - cada vez que Portugal se candidata, e já o fez três vezes com êxito, a membro eleito do Conselho de Segurança das Nações Unidas, os países asiáticos votam em nós massivamente, por causa do valor da presença histórica de Portugal. Fomos os primeiros a chegar à China em 1516, e somos conhecidos em toda a Ásia: na Indonésia, nas Filipinas, na Malásia, em Singapura, no Japão, na China obviamente, na Tailândia.

A CPLP representa a geografia, representa a história, representa uma língua e a partilha de valores culturais, cada um tem as suas culturas, mas temos valores culturais comuns.

Há a noção de que a CPLP precisa de dar um salto qualquer, por exemplo no que respeita à livre circulação dos cidadãos...Tem alguma reflexão sobre isso?

Temos de ter atenção à especificidade da CPLP onde estão países situados em quatro continentes que privilegiam as alianças regionais. Ou seja, Portugal privilegia o facto de pertencer à União Europeia e à NATO, o Brasil, ao facto de ser membro do Mercosul, Unasur, do Grupo do Rio, Angola e Moçambique o facto de serem membros da SADC, Timor é candidato à ASEAN, Cabo Verde e a Guiné-Bissau são membros do CEDEAO, portanto, a força das alianças regionais dilui o denominador comum da CPLP, mas não significa que ele não exista e que não exista um cimento baseado na história e na língua com projecção na política internacional.

Como está a CPLP comparativamente com a Francofonia ou a Commonwealth? 

Há uma situação assimétrica entre os países, mas eu diria que a CPLP não está pior, antes está melhor do que a Francofonia ou a Commonwealth. Primeiro porque funciona: A CPLP tem três objectivos. Primeiro as consultas político-diplomáticas entre os Estados membros. Consultamos com os nossos amigos de África ou do Brasil a propósito de grandes temas de política internacional e de temas que interessam a políticas externas dos países membros. Há reuniões periódicas na sede da CPLP em Lisboa e os diplomatas ganharam o hábito de trabalhar em conjunto. O segundo objectivo da CPLP é a cooperação. Há reuniões regularmente dos ministros da Defesa, Justiça, Administração Interna, Economia, da Assembleia Parlamentar, dos Procuradores Gerais da República, dos Provedores de Justiça. Criou-se, nos últimos vinte anos, a prática de trabalhar em comum, não apenas dos políticos, porque os políticos e os governos passam, mas a administração, os directores-gerais, que se vêem uma ou duas vezes por ano, que tomam decisões e que partilham experiências, por consenso, porque não se vetam e, sobretudo, implementam essas decisões. Portanto, pôs-se em prática o que não existe na Francofonia nem na Commonwealth, nem na Ibero-América. E em terceiro lugar, a língua portuguesa.

Há um instituto da Língua Portuguesa. Funciona bem?

Temos um Instituto Internacional da Língua Portuguesa cuja sede é em Cabo Verde. Pergunta-se, podia trabalhar melhor? As coisas podem sempre trabalhar melhor, mas de facto há uma defesa da língua portuguesa e há uma expressão internacional da língua portuguesa, que é a quinta língua mais falada no mundo, com 250 milhões de falantes, com acentos diferentes, com expressões diferentes, com grafias diferentes. Uma coisa que eu acho que foi um falhanço total foi o Acordo Ortográfico. Não percebi porquê, não sou um especialista, mas sei, por exemplo que Angola e Moçambique não o aceitam. Não sei se Portugal se precipitou, não faço ideia, não sou especialista.

Para Portugal, a CPLP é uma oportunidade de visibilidade positiva, acresce à nossa dimensão internacional o facto de termos sido fundadores e inspiradores da CPLP. Mas cada país tem as suas políticas externas, as suas fidelidades regionais, mas isso não os impede de porem em comum alguma coisa que é a CPLP transversal.

Como é que se explica a capacidade de atracção que a CPLP ultimamente tem vindo a demonstrar em relação a países que não lusófonos?

Eu penso que a atracção que exercem este tipo de organizações tem a ver também com a globalização e com a possibilidade dos países terem outras oportunidades na arena internacional, de fazerem ouvir a sua voz e de participarem em plataformas geopolíticas. Não é só o caso da CPLP, deixe-me que lhe diga, por exemplo a Francofonia, nós temos membros da CPLP, como a Guiné Bissau, Cabo Verde e São Tomé que são ao mesmo tempo membros da Francofonia, e Moçambique é observador na Francofonia. Temos na Commonwealth Moçambique, que é membro da Commonwealth, e na Ibero-América nós temos Portugal e Brasil, que fazem parte dos 19 países da Ibero-America. A CPLP, sobretudo com Angola e o Brasil a afirmarem-se como potências regionais detentoras de uma chave que abre muito das economias no futuro, que é a energia, despertou o interesse de países que estão a bater à porta, há muito tempo, como a Guiné-Equatorial e outros que pediram o estatuto de observadores como a Namíbia, a Índia e outros. Não me surpreende porque, como lhe disse, estes espaços internacionais mais flexíveis ou menos rígidos que outro tipo de organizações, até regionais, permitem a transversalidade de posições em política externa e de contactos.

Temos o caso da Guiné-Equatorial que é candidata a membro de pleno direito da CPLP há vários anos. Na última cimeira de chefes de Estado foi-lhe marcado um roteiro que tinha de preencher. Havia duas condições que, para Portugal, eram importantes. Uma era a expansão ou utilização da língua portuguesa.

Como sabe, na Guiné-Equatorial foram sobretudo as ilhas de Fernando Pó e Ano Bom que fizeram parte do império colonial português, até ao Tratado de Madrid em 1753, quando Portugal trocou a rectificação das fronteiras sul do Brasil - entre o Brasil e o Uruguai - onde ganhámos territórios muito mais importantes do que a Guiné-Equatorial como o Rio Grande do Sul. Na ilha de Ano Bom, ainda se fala um crioulo semelhante ao que se fala em São Tomé e Príncipe. Aliás têm a mesma etnia e há laços familiares muito fortes entre a Guiné-Equatorial e São Tomé, até na família do presidente da Guiné-Equatorial.

A questão da aplicação da pena de morte na Guiné-Equatorial levanta muitas objecções em todo o lado...

A segunda condição que Portugal pôs para a adesão desse país tem a ver com a abolição da pena de morte. Nenhum país da CPLP tem a pena de morte nas leis de carácter civil. As leis de direito penal militar são diferentes e Portugal foi o primeiro país do mundo a abolir a pena de morte e isso é uma referência da nossa política externa. Com a visita, aqui há uns meses, do secretário de Estado da Cooperação Dr. Campos Ferreira à Guiné-Equatorial, onde foi acompanhado pela presidente do Instituto Camões, o problema da língua ficou resolvido, ou seja, deu-se o pontapé de saída para que o português começasse a ser estudado a nível liceal e universitário. Quanto à pena de morte, a Guiné-Equatorial declarou uma moratória, ou seja, embora não a tenha abolido, comprometeu-se a não a utilizar.

Bem, além disso, temos de ter em consideração que a Guiné-Equatorial é membro da Francofonia, há muitos anos. Ora, se não oferece um problema à Francofonia porque é que há-de oferecer um problema a Portugal? E outra pergunta que eu faço, tem que ver com alguns fóruns, que começaram nas últimas semanas a brotar como flores espontâneas em Portugal, de gente bem pensante que começou a falar dos direitos do homem e da democracia na Guiné-Equatorial. O problema não se põe só na Guiné-Equatorial, põe-se noutros países de África e da Ásia e até da América Latina. Se Portugal só tivesse relações com países que têm democracias semelhantes à sua, então tinha relações com trinta ou quarenta países e, no mundo, há duzentos e dois países, como sabe.

Aderir à CPLP vai produzir mudanças internas na Guiné-Equatorial?

O facto de a Guiné-Equatorial poder entrar para a CPLP e de esta lhe oferecer essa plataforma aplica-se ao governo mas também à sociedade civil e às próprias forças de oposição que passam a ter, não interlocutores clandestinos, mas como interlocutores os outros oito países e as outras oito sociedade civis dos países membros da CPLP. As decisões na CPLP são tomadas por consenso, isto lido ao contrário significa que cada país tem direito de veto, ora os outros sete membros da CPLP já se manifestaram publicamente e politicamente a favor da adesão da Guiné-Equatorial. Tendo a Guiné-Equatorial cumprido o roteiro e preenchido duas condições, que para Portugal eram importantes, não há nenhuma razão em política externa para que Portugal se oponha. Portugal pode, evidentemente, enunciar cuidados ou preocupações e pode formular votos que a Guiné-Equatorial tenha capacidades no futuro para preservar estas situações, a língua portuguesa e a moratória da pena de morte, agora opor-se acho que não pode.

Isto porque os demais países da CPLP são favoráveis a essa adesão?

A adesão da Guiné-Equatorial não é uma questão portuguesa, é uma questão da CPLP. Se nós queremos construir e reforçar uma CPLP, eventualmente abrindo--a até a outros países e até, porque não, um dia a outras regiões, não vejo razão nenhuma para não incluir a Guiné-Equatorial que já foi uma colónia portuguesa, que é uma colónia espanhola e que não tem, tirando a Francofonia, não tem ali nenhuma destas instâncias internacionais onde se acolher, e até é bom para nós portugueses que ela se venha acolher à CPLP, sendo uma antiga colónia espanhola, é melhor isso do que procurar ir para outras instâncias internacionais.

Há alguma vantagem para Portugal e para a CPLP na adesão da Guiné-Equatorial?

Vejo algumas vantagens. Em termos de energia, actualmente os 250 milhões de habitantes da CPLP significam 3,6% da população mundial e quase 4% do PIB do mundo, mas se olharmos para a energia mineral, ou seja o petróleo e o gás, os países da CPLP, já com a Guiné-Equatorial, representam quase 6% do total do petróleo produzido no mundo e um pouco mais de 1% do gás. Nos últimos dez anos, metade das descobertas de gás e petróleo foram feitas no Brasil, em Angola e Moçambique, que há petróleo que vai começar a ser explorado dentro de um ano ou dois em São Tomé, que muito provavelmente há petróleo nos Bijagós, na Guiné-Bissau, e que Moçambique tem as segundas maiores reservas de gás depois do Qatar, isto pode significar que a CPLP, em termos de energia, pode representar, dentro de vinte anos, entre 15% e 20% do total da produção de gás e de petróleo do mundo, sobretudo se tivermos em conta Timor-Leste.

E no futuro como será a CPLP?

Para daqui a vinte anos temos de começar já a pensar neste perímetro institucional que é a CPLP e o que pode ser a CPLP do futuro mais alargada. Como se defendem os interesses de Portugal, que é o que nos interessa, defendendo também o espaço da língua portuguesa. Isso faz parte do nosso ADN, do nosso acervo, faz parte daquilo que não temos de nos envergonhar, daquilo que Portugal trouxe ao mundo. Não sei porque é que há intelectuais e até historiadores em Portugal que se envergonham do passado. Mas envergonham-se do passado porquê? Portugal teve um império e construiu-o com muito sacrifício, tal como a França, a Inglaterra, a Espanha. Aliás, nós fomos, e isto é uma característica do povo português, os primeiros a sair, conquista de Ceuta em 1415, e os últimos a regressar, entrega da administração de Macau à China em Dezembro de 1999, o que significa que os portugueses não são bons a correr os 100 metros, são bons a correr maratonas. Temos uma capacidade de resistência que muitas vezes não valorizamos mas que os outros valorizam. Não é por acaso que a China, que é hoje o único interlocutor económico e qualquer dia o único interlocutor estratégico dos EUA, porque a Rússia se afunda de dia para dia, sobretudo de um ponto de vista económico, mas com os erros sucessivos que está a fazer na Crimeia, Geórgia e na Ucrânia, está a perder o respeito internacional.

A China olha pragmaticamente para a Lusofonia?

A China, que é a grande potência emergente, soube aproveitar ou está a aproveitar aquilo que lhe oferecia a CPLP e criou em Macau um fórum, que é no fundo uma organização internacional económica, chamado China-Países de Língua Portuguesa, que a meu ver é, de um ponto vista económico, o único possível concorrente da CPLP, e só não é concorrente porque a China é hoje em dia um interlocutor muito importante em Portugal, basta ver as compras da EDP, da REN, da Caixa Seguros e de outras que porventura virão a seguir, é um interlocutor importantíssimo de Angola, é um muito importante interlocutor de Moçambique, é o primeiro importador de produtos agrícolas do Brasil, importa 80% da soja produzida no Brasil e, como sabe, o Brasil exporta sobretudo produtos sem valor acrescentado.

A China hoje em dia é o principal interlocutor da CPLP.

A produção de energia parece ser determinante na sua análise...

Se virmos bem, se as projecções em termos de energia estão correctas, Portugal e Cabo Verde serão num futuro muito próximo os únicos países da CPLP não produtores de hidrocarbonetos. Portugal tem de se preocupar com duas coisas em termos de energia: acessibilidade e disponibilidade. Acessibilidade, ou seja, onde é que vamos comprar a energia que importamos e precisamos, e acessibilidade, como a vamos utilizar, como vamos constituir reservas estratégicas, como vamos fazer contratos a longo prazo, etc.

Para os críticos, isto apenas quer dizer que tudo se resume a questões económico-financeiras!

Não, de maneira nenhuma. A CPLP é uma organização internacional política, nem sequer é uma organização internacional cultural, é política, ou seja, o que está na substância da CPLP, quer para Portugal, quer para os outros países é uma organização política. E por isso é que eu lhe disse a prioridade segundo os estatutos da CPLP, primeiro objectivo consultas político-diplomáticas, segundo objectivo cooperação em termos políticos entre as administrações dos países. No mundo globalizado, a referência económica é indispensável, sobretudo para países como Portugal que atravessa neste momento sérias dificuldades por questões financeiras e económicas.

Em resumo, se pudesse fazer uma antevisão, acha que na cimeira de Dili, a adesão da Guiné-Equatorial de pleno direito vai ser aprovada?

Não vejo razão nenhuma, em termos de política externa, pelo que lhe disse, para que a Guiné-Equatorial não seja aceite como membro de pleno direito da CPLP. Mas também não vejo razão nenhuma para que a CPLP no futuro não se abra a outros países, porque isso aumenta a sua visibilidade e, portanto, de maneira indirecta, a própria visibilidade e capacidade internacional de Portugal.

No dia em que a Guiné-Equatorial entrar na CPLP isso vai ser uma mais-valia para a organização?

Na vida internacional, as coisas nunca são imediatas, porque a sedimentação das práticas internacionais, a aprovação de decisões e a sua implementação tomam tempo. De modo que, se me pergunta se a CPLP acorda no dia seguinte de outra maneira, não. Acorda com uma maior exposição internacional, com capacidades acrescidas no plano político e no plano económico, agora vai tomar tempo para se sedimentar tudo isto com o novo membro. Isto não se passa de um minuto para o outro. A mesma coisa quando Timor-Leste entrou para a CPLP depois da independência, levou tempo para que a administração e o governo se adaptassem às práticas que já existiam. Isto é a mesma coisa quando alguém entra para uma família, que vive em conjunto e que tem os seu hábitos, as suas horas de refeição, os dias de peixe à sexta-feira, o ir ao domingo a um serviço religioso ou não ir. O newcomer, aquele que entra, tem de se adaptar aos hábitos da família.

Acha que a adesão como membro de pleno direito da Guiné-Equatorial na CPLP vai ter reflexos internos na Guiné-Equatorial, só pelo facto de pertencer à CPLP, acha que isso poderá ter efeitos no aprofundamento da sua democracia?

Isso não lhe sei dizer, mas se, por exemplo, tomarmos como exemplo a Guiné--Bissau, cada vez que este país atravessou momentos mais difíceis, coisa que espero que não suceda na Guiné-Equatorial, porque não espero que assassinem chefes de Estado como aconteceu, infelizmente, na Guiné-Bissau, mas cada vez que a Guiné-Bissau ou mesmo São Tomé, em 2003, atravessaram momentos difíceis, a CPLP teve sempre uma acção de persuasão sobre as forças em presença, de nomeação de intermediários, como é o caso de Ramos-Horta na Guiné-Bissau. É sempre mais fácil resolver estes assuntos em família, sem excluir obviamente a acção que podem ter em casos mais graves as Nações Unidas e a própria União Africana. Mas na CPLP as coisas resolvem-se mais em família. Conhecemo-nos. A Guiné-Equatorial precisa de tempo para nos conhecer e para se tornar nossa conhecida. Isso, hoje em dia, já não demora tanto tempo como quando iam as caravelas. Precisamos de sedimentar essa presença portanto isso vai demorar alguns meses ou anos, o que é perfeitamente normal.

In ionline.pt - publicado em 5 Maio 2014


GUINÉ EQUATORIAL DEVE ENTRAR NA CPLP RAPIDAMENTE E COM TODA A SUA...FORÇA!

GUINÉ EQUATORIAL DEVE ENTRAR NA CPLP RAPIDAMENTE E COM TODA A SUA...FORÇA!

Teodoro Obiang, Presidente da Guiné Equatorial 

Por Rafael Marques de Morais


Já em Julho de 2010 analistas brasileiros reafirmavam que a entrada da Guiné Equatorial como membro de pleno direito para a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) tinha apenas a ver com o petróleo, sendo outras questões basilares, como a língua, a democracia e os direitos humanos uma farsa. Nessa altura, o porta-voz da Presidência do Brasil, Marcelo Baumbach, afirmou que o Brasil apoiava o ingresso da Guiné Equatorial na CPLP, mas, questionado sobre as razões desse apoio a um país que não fala português e que é alvo de denúncias sobre violações dos direitos humanos, esquivou-se de responder.

Por sua vez o analista político António Flávio Testa, da Universidade de Brasília (UnB), considerava que a aproximação com a Guiné Equatorial era mais uma estratégia do então Governo Lula da Silva de colocar o Brasil na agenda internacional. “É uma política de Estado de ocupar espaços estratégicos. Por trás disso, há grandes interesses de empresas brasileiras, como a Petrobras, a Vale do Rio Doce, a Andrade Gutierrez. E aí independente da política local, é o lado do Brasil imperial”, afirmou António Flávio Testa. Na opinião do sociólogo, o Brasil estava a fazer novas alianças num momento em que está competitivo, buscando reequilibrar a geopolítica internacional, como mostram também a sua contraposição à criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e a aproximação com a França para a compra de material militar.

“A visita do presidente Lula à Guiné Equatorial não é para promover a democracia no país”, ironizou, por seu turno, o analista político David Fleischer, também da UnB. “A base de tudo são interesses nacionais. A Petrobras tem interesses na Guiné Equatorial e, além disso, o Brasil pode estar buscando mais um voto para o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Isso explica o apoio brasileiro para o país do presidente Obiang Nguema, há mais de trinta anos no poder”, opinou Fleischer em 2010.

Recorde-se que em Janeiro de 2006, a Petrobras adquiriu à empresa norte-americana Chevron um bloco para explorar petróleo na Guiné Equatorial em águas profundas, especialidade da petrolífera brasileira. A construtora Andrade Gutierrez também tem actuado no país por intermédio de sua subsidiária em Portugal.

A “Bandeira” de Bento Bento

Não está mal. A Guiné Equatorial é uma ditadura? É sim senhor. Mas o que é que isso importa se tem petróleo, que é um bem muito superior aos direitos humanos?

Na avaliação do governo brasileiro, as maiores potencialidades do comércio com a Guiné Equatorial concentram-se nos sectores de gás e petróleo, infra- estruturas, construção civil, máquinas e equipamentos agrícolas, material de defesa e aeronaves. Reconheça-se, contudo, que a hipocrisia não é uma característica específica de Angola. Como agora se vê, o Brasil não deixa os seus créditos por petróleos alheios. Basta ver que, por exemplo, a UNESCO projectou atribuir um prémio patrocinado pelo Presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema. Vê-se, por aqui, que própria agência das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura chegou a equacionar dar cobertura a um dos mais infames ditadores mundiais.

Obiang, que a revista norte- americana “Forbes” já apresentou como o oitavo governante mais rico do mundo, e que depositou centenas de milhões de dólares no Riggs Bank, dos EUA, tem sido acusado (tal como como o seu homólogo angolano) de manipular as eleições e de ser altamente corrupto, tal como o que se passa em Angola. Obiang, que chegou ao poder em 1979, derrubando o tio, Francisco Macias, foi reeleito com 95 por cento dos votos oficialmente expressos (também contou, como em Angola, com os votos dos mortos), mantendo- se no poder graças a um forte aparelho repressivo, do qual fazem parte os seus guarda-costas marroquinos.

Gozando, como todos os ditadores que estejam no poder, de um estatuto acima da lei, Obiang riu-se à grande e à francesa quando um tribunal... francês rejeitou um processo que lhe fora intentado por recorrer a fundos públicos para adquirir residências de luxo em solo gaulês, com a justificação de que – lá como em qualquer parte do mundo - os chefes de Estado estrangeiros, sejam ou não ditadores, gozam de imunidade.

Os vastos proventos que a Guiné Equatorial recebe da exploração do petróleo e do gás natural poderiam dar uma vida melhor aos pouco mais de 700 mil habitantes dessa antiga colónia espanhola, mas a verdade é que a maior parte deles vive abaixo da linha de pobreza. Em Angola são perto de 70% os pobres... Para além de se saber que a força da Guiné Equatorial está no petróleo, se calhar sabe bem a alguns países lusófonos ser enganados por mentiras que tentam ser pela insistência uma verdade.

Questionado sobre se concordava com a adesão à CPLP de um país que é referenciado pelas organizações internacionais no que respeita à violação dos direitos humanos, o presidente moçambicano, Armando Guebuza, disse acreditar que a Guiné Equatorial vai “fazer tudo para se conformar com aquilo que são as normas na CPLP”. Normas de quê? De quem? Da CPLP? Mentir é uma coisa, gozar a inteligência dos outros é outra, por sinal bem diferente, concordem ou não José Eduardo dos Santos, Armando Guebuza, Cavaco Silva ou Dilma Rousseff.

A verdade, incómoda para os donos do poder, seja em Portugal, Moçambique, Brasil ou Angola, é que a CPLP está a ser utilizada de forma descarada para fins comerciais e económicos, de modo a que empresas portuguesas, angolanas e brasileiras tenham caminho livre para entrar nos novos membros, caso da Guiné Equatorial. Reconheça-se, contudo, que tomando como exemplo Angola, a Guiné Equatorial preenche todas as regras para entrar de pleno e total direito na CPLP. Não sabe o que é democracia mas, por outro lado, tem fartura de petróleo, o que é condição “sine qua non” para comprar o que bem entender.

Há quem defenda, certamente à revelia dos mais altos interesses petrolíferos, que o caso da Guiné Equatorial deveria ser alvo de uma reflexão mais profunda. Não se vê para quê.

In Folha 8 – 12 de Abril de 2014

domingo, 4 de maio de 2014

SITUAÇÃO DA UCRÂNIA COM DESENVOLVIMENTOS MUITO PERIGOSOS

SITUAÇÃO DA UCRÂNIA COM DESENVOLVIMENTOS MUITO PERIGOSOS

Local people stand outside a regional administration building in the eastern Ukrainian city of Slavyansk on April 27, 2014. (AFP Photo/Vasily Maximov)

Por Paulo Ramires

Como se tem vindo a dizer a Ucrânia não é uma questão isolada ou estanque, depende também de outras negociações que não estão a resultar, ou simplesmente o seu fracassa deve-se também a outros conflitos onde jogam os mesmos "player" da Ucrânia isto é a Síria e o árctico que detém 25% das reservas mundiais de petróleo e gás natural e onde se prevê uma militarização e disputas muito acesas.

No que concerne à situação na Ucrânia começa a preocupar pela concentração de tropas na região - tropas ucranianas, forças da NATO e tropas russas, estas estimadas em cerca de 40 000 - e pelo desenvolvimento de uma guerra civil pelo território da Ucrânia em particular nas partes sul e leste onde já morreram dezenas de pessoas, pelo menos 42 pessoas perderam as suas vidas e mais de 130 foram detidas na cidade de Odessa, situada a sul do país, após um grupo de pró-russos ter atacado uma manifestação de 1500 pessoas que defendiam a integridade do país. Em Slaviansk, dois helicópteros MI-24 foram abatidos e dois militares ucranianos foram mortos. Alguma observadores da OSCE foram detidos na Ucrânia entretanto já libertados. Estes desenvolvimentos mostram o início de uma guerra civil já a alastrar pelo país e que muito bem pode acontecer aquilo que vimos no passado e em 2011 na Síria. No caso desta zona de conflito se se desenvolver poderá ser primeiro uma guerra civil por "proxies" - exercito ucranianos de um lado e pró-russos do outro, com a possibilidade das tropas russas descaracterizadas situadas na Crimeia poderem intervir no conflito. No entanto no passado dia 23 de Abril, o ministro dos negócios estrangeiros russo, Sergey Lavrov disse que a Rússia irá "retaliar se os seus legítimos interesses fossem atacados directamente." Especialistas alertam que a declaração de Moscovo significa que a Rússia pode militarmente intervir na Ucrânia.

A esta situação poderá levar depois à divisão e ao sacrifício da Ucrânia, muito á semelhança do que se tem passado na Síria, aliás a situação actual na Ucrânia torna-se assim muito semelhante ao início do conflito naquele país. Mas no entanto na Ucrânia tudo isto tem fortes implicações para a Europa, não é só em termos de prestígio mas também a nível político. Além do mais a divisão da Ucrânia pode ditar a fragmentação da UE, ou então como alguns analistas referem o reforço da sua coesão, cenário que parece se vislumbra muito distante neste momento, até pela acção dos EUA na Europa mas também pela impreparação e inabilidade dos políticos europeus, em particular pela chanceler alemã, Angela Merkel, Durão Barroso, e pela presidente da Lituania Dalia Grybauskaite, que, como titular da presidência da UE no segundo semestre de 2013 foi encarregada da tarefa de supervisionar a assinatura do acordo comercial com a Ucrânia e que acabou por falhar. Para Justinas Valutis, um analista experiente em assuntos UE-Rússia, concorda com esta ideia: "Não há dúvida de que a recusa da Ucrânia a assinar o tratado de livre comércio com a UE em Vilnius foi um grande golpe para o prestígio da UE. O evento em si e as suas consequências imediatas também desmascarou a arrogância doentia, a dupla moral e a influência política limitada da elite de Bruxelas."

Também é bom lembrar que para muitos analistas, esta situação faz parte de um cerco à Rússia, com vários objectivos, primeiro tornar o enfraquecimento desta, atingindo-a nas suas forças vitais que são a distribuição do gás natural e petróleo, principalmente para o mercado europeu. Em segundo posicionar os EUA como fornecedor de gás natural para o mercado europeu, em que a pareceria entre a UE e os EUA são importantes para a implantação desta filosofia de influência dos EUA. Desta forma se destrói qualquer possibilidade de aproximadamente entre a UE e a Euroásia, para o estabelecimento de um espaço comum como muitos desejariam, isto apesar do prejuízo para a Europa do acordo comercial com os EUA. Com os diplomatas da UE pressionados pelos EUA para o alargamento das sanções sobre a Rússia, o debate sobre o futuro da política da Parceria Oriental da UE (POU) - ENP na sigla inglesa - foi um total fisco. Deve-se lembrar que a POU é um programa multilateral da UE com o objectivo para o desenvolvimento da cooperação regional com seis ex-repúblicas soviéticas, o Azerbaijão, a Arménia, a Bielorrússia, a Geórgia, a Moldávia e a Ucrânia.

Mas também os EUA não querem ficar isolados perante a Rússia, mas também na Ásia onde a China surge cada vez mais como potencia influente. Segundo Noam Chomsky, as linhas vermelhas da Rússia  foram ultrapassadas na vizinhança da Ucrânia com a expanção da Nato, e as linhas vermelhas dos EUA foram ultrapassadas na Ásia com a "primazia económica" na Ásia por parte da China e na região leste da Europa com as "ambições expansionistas" da Rússia na sua própria vizinhança.




Relacionados

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Enter your email address:

Delivered by FeedBurner