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sábado, 10 de janeiro de 2026

A GEOPOLÍTICA DA RAPINA: TRUMP, OS ESTADOS UNIDOS E A GUERRA PELO CONTROLO ENERGÉTICO GLOBAL

A ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela visa sobretudo o controlo estratégico do petróleo e a contenção da China e dos BRICS, usando a energia como arma geopolítica. Longe de qualquer discurso democrático, trata-se de uma lógica imperial de dominação e exclusão dos rivais no hemisfério americano.


Por Paulo Ramires

A invasão da Venezuela e o rapto do Presidente Nicolás Maduro por parte da administração Trump não têm, ao contrário do discurso oficial norte-americano, uma relação directa com a simples comercialização de petróleo nem com alegadas preocupações humanitárias ou democráticas. O cerne da questão é muito mais profundo e estrutural: trata-se do controlo absoluto de um dos maiores activos energéticos do planeta. As reservas petrolíferas venezuelanas, avaliadas em mais de 300 mil milhões de barris, representam um valor aproximado de 17 biliões de dólares, uma magnitude que explica, por si só, a obsessão estratégica de Washington.

Esse controlo não era, nem poderia ser, exercido enquanto Nicolás Maduro permanecesse no poder. A soberania venezuelana sobre os seus recursos naturais, ainda que imperfeita e sujeita a constrangimentos internos, constituía um obstáculo intransponível aos interesses norte-americanos. Foi precisamente por isso que a administração Trump optou por uma estratégia extrema: remover o chefe de Estado legitimamente constituído e substituí-lo por uma figura mais dócil aos desígnios de Washington, neste caso Delcy Rodríguez, abrindo caminho à apropriação indirecta do petróleo venezuelano por interesses estrangeiros.

Coloca-se então uma questão fundamental: porque querem os Estados Unidos controlar o petróleo da Venezuela se, como o próprio Marco Rubio afirma, a América não necessita desse petróleo para garantir o seu abastecimento energético? A resposta revela a hipocrisia do discurso oficial. O problema não é a necessidade norte-americana, mas sim a dependência chinesa. A China compra cerca de 90% do petróleo venezuelano, integrando-o numa estratégia de diversificação energética que reduz a sua vulnerabilidade face ao dólar e aos mercados controlados por Washington.

Ao desestabilizar a Venezuela, os Estados Unidos atingem vários objectivos simultâneos. Por um lado, pressionam o Irão, outro actor central no fornecimento energético fora da órbita americana. Por outro, provocam uma quebra significativa no acesso da China a petróleo não regulado pelos Estados Unidos, estimada em cerca de 70%. Este movimento constitui um verdadeiro ataque estratégico à arquitectura económica dos BRICS, cuja ambição declarada é reduzir a hegemonia do dólar e criar alternativas monetárias ao sistema financeiro dominado por Washington.

Estamos, portanto, perante uma ameaça directa à moeda e ao projecto político-económico dos BRICS, uma demonstração de força destinada a recordar aos rivais que os Estados Unidos continuam dispostos a usar todos os meios, incluindo golpes de Estado, sanções ilegais, bloqueios e intervenções militares,  para preservar a sua supremacia global. A mensagem é clara: qualquer tentativa de escapar ao controlo do dólar ou de estabelecer relações energéticas independentes será punida.

Este comportamento enquadra-se numa lógica mais ampla de exclusão geopolítica. Os Estados Unidos não toleram a presença de potências rivais, como a China ou a Rússia, no hemisfério sul, que consideram ainda hoje como a sua esfera natural de influência, numa leitura actualizada e agressiva da velha Doutrina Monroe. A América Latina continua a ser vista como um quintal estratégico, onde a soberania dos povos é secundária face aos interesses de Washington.

Este mesmo padrão repete-se noutros pontos do globo. A Groenlândia próxima geograficamente dos EUA, rica em terras raras, ouro, petróleo e gás natural, tornou-se igualmente alvo da cobiça norte-americana. A presença chinesa na região, através de investimentos e operações económicas, é encarada como uma ameaça inaceitável. Mais uma vez, a resposta dos Estados Unidos não passa pela cooperação internacional ou pelo respeito do direito internacional, mas pela tentativa de afastar os rivais da sua vizinhança geopolítica imediata.

É neste jogo de forças que Trump e a elite política norte-americana se movem. Não se trata de democracia, nem de direitos humanos, nem de segurança internacional. Trata-se de poder, controlo e domínio. Trata-se de impedir, a qualquer custo, o surgimento de um mundo multipolar onde os Estados Unidos deixem de ditar regras, moedas, fluxos energéticos e destinos nacionais.

A Venezuela, como antes o Iraque, a Líbia ou a Síria, surge assim não como uma ameaça real, mas como uma vítima de uma estratégia imperial que se recusa a aceitar os limites do seu próprio declínio. O que está em causa não é apenas o futuro de um país, mas a tentativa desesperada de prolongar uma hegemonia construída à custa da instabilidade, da guerra e da pilhagem sistemática dos recursos alheios.


Fonte República Digital


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