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quarta-feira, 20 de maio de 2026

DE MÃOS ATADAS E CABEÇA NO CHÃO. VÍDEO DE ACTIVISTAS DA FLOTILHA LEVA ITÁLIA E PORTUGAL A EXIGIR DESCULPAS

Primeira-ministra italiana fala em "tratamento inaceitável" de ativistas detidos e diz que comportamento de ministro israelita Ben Gvir é "inadmissível".


Daniela Espírito Santo com Reuters

O Governo italiano exige um pedido de desculpas de Israel perante o comportamento do ministro israelita Ben Gvir que, num vídeo que ele mesmo publicou nas redes sociais, aparece rodeado de ativistas detidos, de mãos atadas atrás das costas, ajoelhados e de cabeça no chão.

Para a primeira-ministra Giorgia Meloni e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, o tratamento israelita dos ativistas da Flotilha que tentavam levar ajuda humanitária a Gaza é "inaceitável" e o comportamento de Ben Gvir é "inadmissível".

Nas imagens, dezenas de pessoas aparecem prostradas num aparente centro de detenção, com Gvir a fazer esvoaçar uma bandeira de Israel. "Chegaram como grandes heróis", diz o ministro no vídeo enquanto caminha ao lado dos ativistas. "Olhem para eles agora. Vejam como estão agora, não são heróis, nem nada disso."

Nas mesmas imagens é possível, ainda, ver uma ativista a ser forçada a ajoelhar-se depois de ter gritado "Palestina Livre".

"Bem-vindos a Israel"

Na legenda, e em hebraico, diz: "é assim que recebemos os apoiantes de terrorismo". Já em inglês diz: "Welcome to Israel", ou "Bem-vindos a Israel".

Como consequência, várias foram as vozes que se levantaram contra o comportamento, incluindo a do ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, que já condenou o tratamento dado pelas autoridades israelitas aos ativistas da flotilha interceptada por Israel, classificando a atuação do ministro israelita Itamar Ben Gvir como “intolerável”.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu defendeu o direito de Israel interceptar a flotilha, mas disse que o tratamento dado por Ben Gvir aos activistas "não estava de acordo com os valores e normas de Israel".

O próprio ministro dos Negócios Estrangeiros israelita também se pronunciou contra a atitude de Gvir, garantindo, também nas redes sociais, que o seu comportamento "não representa Israel".

"O senhor causou deliberadamente danos ao Estado com esta atuação vergonhosa e não é a primeira vez", acusou Gideon Sa'ar, que recebeu de imediato resposta de Gvir.

"Qual é a base legal?", questiona Presidente da Coreia do Sul

"Há pessoas no governo que ainda não descobriram como se comportar com os apoiantes do terrorismo. Espera-se que o ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel compreenda que Israel deixou de ser um país fácil de intimidar. Qualquer pessoa que venha ao nosso território para apoiar o terrorismo e se identificar com o Hamas será repreendida, e não vamos ignorar isso", respondeu, utilizando a expressão "quem vier será esbofeteado e não daremos a outra face".

No entretanto, o Governo italiano declarou na quarta-feira que iria convocar o embaixador israelita para prestar esclarecimentos.

Num comunicado contundente, a primeira-ministra Giorgia Meloni e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, afirmaram que a Itália "exige um pedido de desculpas pelo tratamento" dado aos ativistas e pelo "total desrespeito" pelos pedidos do governo italiano.

Também o governo francês efetuou, no entretanto, o mesmo pedido, seguindo os passos de Itália e Coreia do Sul.

Os cidadãos sul-coreanos também estavam entre os detidos pelas forças navais israelitas, disse o presidente Lee Jae Myung na quarta-feira, classificando as ações de Israel como "completamente descabidas".

"Qual é a base legal (para as prisões)? São águas territoriais israelitas?", questionou Lee, acrescentando: "É território israelita? Se houver conflito, podem apreender e deter embarcações de terceiros países?"


Fonte: https://rr.pt

Fonte do Editor/Paulo Ramires:

É profundamente censurável que comentadores da CNN e de outras televisões continuem a defender o Estado de Israel, mesmo quando este já demonstrou, à luz do direito internacional e de múltiplos relatórios da ONU, práticas que configuram crimes de guerra e genocídio contra o povo palestiniano. Essa defesa torna-se ainda mais grotesca quando Israel captura e humilha activistas internacionais – incluindo portugueses, como médicos que apenas cumpriam o seu dever humanitário de ajudar civis sitiados em Gaza. O silêncio ou a justificação desses actos por parte de certos comentadores é uma cumplicidade moral inaceitável.

Paralelamente, alguns políticos – que felizmente nunca chegaram à presidência – têm defendido uma aliança acrítica com os Estados Unidos, esquecendo a lição da história portuguesa. Portugal construiu a sua vocação geopolítica não através de submissão a potências hegemónicas anglo-saxónicas, mas sim através da ligação natural e estratégica com o Brasil, com África (especialmente os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) e com a Europa (União Europeia). São esses os nossos parceiros próximos, não Washington.

Os EUA, por seu turno, são aliados incondicionais de Israel e participaram activamente – através de financiamento militar, veto no Conselho de Segurança da ONU e fornecimento de armamento – no genocídio do povo palestiniano. Ao fazê-lo, os EUA aproximam-se perigosamente do estatuto de Estado pária, sendo que Israel já é, de forma inequívoca, um Estado pária, isolado nas suas práticas pelo direito internacional e por uma crescente parte da comunidade internacional. A defesa incondicional de Israel e dos EUA por certos comentadores e políticos portugueses não só é eticamente reprovável como também é geopolitamente insensata e contra os interesses de Portugal e da Europa.


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