
Após as eleições que deram a vitória à AfD a nível nacional e ao Die Linke em Berlim, os programas dos dois partidos revelam visões opostas sobre a UE, a moeda, a economia, a defesa e a migração. O Die Linke quer uma Europa mais democrática, social e pacífica, com mais integração e redistribuição; a AfD quer uma confederação de nações soberanas, com o retorno ao marco, menos integração e políticas de mercado. Apesar de ambos criticarem o statu quo europeu, as semelhanças terminam aí — e a escolha entre eles definirá o futuro da Alemanha e da Europa.
Por Paulo Ramires
Análise comparativa dos programas do Die Linke e da AfD revela visões irreconciliáveis sobre a UE, a moeda, a defesa, a economia e a política externa
Após as eleições que deram a vitória à AfD e ao Die Linke em Berlim, os programas dos dois partidos oferecem dois caminhos radicalmente opostos para o futuro do país e do continente. Apesar de ambos criticarem o statu quo europeu, as semelhanças terminam aí.
A UE: democratizar ou desmantelar
O Die Linke quer mais Europa, mas uma Europa diferente. Defende a reforma dos tratados para superar a "lógica do neoliberalismo", com o Parlamento Europeu a assumir o poder de decisão em vez da Comissão, do Eurogrupo ou do Conselho Europeu. Propõe ainda referendos à escala da UE e o fortalecimento do Comité das Regiões. A sua visão é a de uma "Europa de baixo", não "de bancos e corporações".
A AfD quer menos Europa. Considera que a UE se transformou num "sistema centralista que mina princípios democráticos" e "restringe a soberania nacional". Propõe o retorno a uma "Confederação das Nações Europeias" — uma comunidade económica e de interesses onde a soberania dos Estados-membros seja preservada e a cooperação só exista onde haja "interesses comuns reais". Bruxelas é acusada de "desdemocratização ilegítima, centralização, excesso de regulamentação e economia planeada".
Moeda: euro digital versus retorno ao marco
O Die Linke aceita o euro, mas quer democratizar o Banco Central Europeu. Propõe que o BCE seja controlado pelo Parlamento Europeu, que o pessoal de liderança seja eleito e que o mandato seja expandido para incluir pleno emprego e desenvolvimento sustentável, mantendo a meta de inflação de 2%. Apoia a introdução do euro digital, desde que o dinheiro permaneça parte da soberania estatal e não seja privatizado.
A AfD rejeita o euro e quer o retorno ao marco alemão. Argumenta que o sistema monetário europeu só se mantém com milhares de milhões de euros para Estados em dificuldade e que a transição, embora com "encargos de conversão", seria menos custosa do que permanecer no euro. Quer que o Bundesbank repatriasse todas as reservas de ouro. A longo prazo, defende a livre competição cambial ou um sistema lastreado no ouro. Rejeita o euro digital, temendo "vigilância e controle completos" da vida privada, e vê o Bitcoin como "candidato bem-vindo" na competição de moedas.
Política social e económica: investimento público versus mercado
O Die Linke propõe um Plano Europeu de Investimentos em assuntos sociais, educação, saúde e justiça climática. Exige o fim das regras de défice e dívida que "limitam a democracia" e critica o Pacto de Estabilidade e Crescimento. Quer um imposto sobre bilionários e a reintrodução do imposto sobre a riqueza, com tributação progressiva de 1% para activos de um milhão de euros até 12% para activos de mil milhões ou mais. Defende a reestruturação ecológica da economia com participação dos trabalhadores e a democratização das empresas.
A AfD quer menos redistribuição e mais mercado. Rejeita a união de transferências, a equalização financeira e a dívida comum. Considera que a "política de resgate" supranacional viola a legislação da UE e que "o ganho deve novamente vir antes da redistribuição". Quer o fim de todas as medidas do BCE para manipular o mercado livre de capitais. A sua prioridade é a soberania orçamental nacional.
Defesa e política externa: paz versus realpolitik
O Die Linke defende uma "União da Paz em vez da Fortaleza Europa". Rejeita o armamento e a militarização das fronteiras, quer que a Frontex se transforme numa missão europeia de resgate e que a UE adira ao Tratado de Proibição de Armas Nucleares. Na Ucrânia, condena a agressão russa, mas pede "mais diplomacia em vez de entregas de armas", com uma iniciativa conjunta com China, Brasil e Estados do Sul Global para levar a Rússia à mesa de negociações. Sobre Israel e Palestina, defende a solução de dois Estados nas fronteiras de 1967, o fim das exportações alemãs de armas para Israel e o reconhecimento da Palestina como Estado.
A AfD segue uma realpolitik baseada em "interesses comuns reais". Rejeita a comunitarização da política externa e de segurança da UE e defende o princípio de não-interferência nos assuntos internos de outros países. Quer uma "autonomia estratégica da Europa" como "centro de poder próprio" na ordem multipolar, mantendo a adesão à OTAN até ao estabelecimento de uma "aliança militar europeia independente e capaz". Quer boas relações com os EUA, a China e a Rússia, incluindo o levantamento das sanções económicas contra Moscovo e o "reparo dos gasodutos Nord Stream". Sobre a Ucrânia, defende um estatuto neutro do país, fora da OTAN e da UE.
Migração e clima: acolhimento versus fronteiras
O Die Linke rejeita fechar a UE contra refugiados e quer uma agência de fronteiras transformada em missão de resgate. Defende metas climáticas vinculativas e limites de emissão, criticando o governo alemão por ter excluído as metas sectoriais da Lei de Protecção do Clima.
A AfD prioriza a protecção das fronteiras externas contra a "imigração ilegal" e saúda o fim das medidas de protecção climática anunciadas pela nova administração americana, bem como a abolição das medidas contra a desinformação.
Conclusão: duas Alemanhas, duas Europas
Die Linke e AfD representam projectos irreconciliáveis. A Esquerda quer uma Europa democrática, social e pacífica, com mais integração política e redistribuição. A AfD quer uma Europa de nações soberanas, com menos integração, moedas nacionais e políticas de mercado. A primeira aposta na solidariedade internacional e na diplomacia; a segunda, na realpolitik e no interesse nacional.
Após as eleições, com a AfD vitoriosa a nível nacional e o Die Linke vitorioso em Berlim, a escolha não é apenas entre partidos, mas entre duas visões do mundo — e o resultado terá consequências profundas para toda a Europa.
Sem comentários:
Enviar um comentário