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quarta-feira, 1 de outubro de 2025

A EUROPA SOB A NATO: DIVIDE ET IMPERA

Como a OTAN transformou a Europa em vassalo de Washington. A Otter argumenta que a OTAN, desde o seu início, serviu para manter a Europa subordinada ao controlo dos EUA, bloqueando os laços com a Rússia e impondo a vassalagem sob o pretexto de defesa.


Por The Otter

Foi o primeiro secretário-geral da OTAN, Lord Hastings Ismay, que afirmou que o objectivo da aliança é «manter a União Soviética fora, os americanos dentro e os alemães para baixo». Essa admissão contundente revela a verdadeira intenção do papel fundamental da OTAN não como uma aliança para defesa mútua, mas em subordinar a Europa aos interesses dos EUA.

A OTAN é retratada como um baluarte contra ameaças externas que protegem o chamado Ocidente, mas ao longo da sua história suprimiu sistematicamente a autonomia europeia, drenou economicamente o continente e impediu laços económicos estratégicos com a Rússia. Apesar da narrativa actual de que a Europa não paga a sua parte, que o actual secretário-geral Mark Rutte endossou alegremente ao chamar Donald Trump de «papá», a verdade é que a Europa pagou um preço amplo enquanto se permitia ser vassalo pela América.

Charles de Gaulle advertiu que a Europa se tornaria um protectorado dos Estados Unidos e, olhando para trás agora, o seu aviso parece profético. Da Crise de Suez ao Nord Stream 2, os Estados Unidos defenderam contra os interesses europeus por meio da OTAN. A União Europeia transformou-se em estados fantoches subservientes sob um país que corrói persistentemente a sua independência.

Reconstruir a Europa à imagem da América

No final da Segunda Guerra Mundial, a Europa estava em ruínas. Os EUA procuraram remodelar o continente em alinhamento com os seus interesses estratégicos. A OTAN foi criada em 4 de Abril de 1949, como uma organização de defesa colectiva sob o Artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte. O seu objectivo tácito era a prevenção do militarismo alemão; no entanto, os Estados Unidos, com o entendimento de que a remilitarização alemã era inevitável, em 1955 integraram a Alemanha Ocidental à OTAN. Isso encerrou a ocupação aliada da Alemanha, mas o rearmamento foi alcançado sob estrita supervisão da aliança. Em vez de reduzir o número de bases militares na Alemanha, o governo dos EUA aumentou o seu número sob os auspícios de conter a União Soviética, quando na realidade isso era uma proverbial bota no pescoço da Alemanha. Documentos desclassificados revelam que a intenção dos Estados Unidos era uma «dupla contenção» da Alemanha e da União Soviética. Assim começa a vassalagem da Europa através da OTAN.

A pressão americana através da OTAN trouxe a próxima humilhação da Europa em 1956. O Reino Unido e a França invadiram o Egipto com a ajuda de Israel para recuperar o controlo do Canal de Suez, que o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser havia nacionalizado, impingindo o controlo da Companhia Francesa do Canal de Suez. A Crise de Suez ameaçou a autonomia europeia e uma importante rota comercial. O presidente dos EUA, Dwight D. Eisenhower, procurou preservar a influência dos EUA nos países árabes, impedindo-os de se alinharem com a União Soviética. O governo dos Estados Unidos vinha defendendo a descolonização, e permitir o aventureirismo franco-britânico teria minado a credibilidade da América. Eisenhower ameaçou reter o apoio financeiro da Grã-Bretanha, levando a um recuo humilhante expondo os limites do poder europeu sem a aprovação dos EUA. As nações europeias foram disciplinadas, aprendendo que acções independentes poderiam convidar represálias americanas, consolidando ainda mais a sua dependência de Washington.

Supressão da vontade da Europa pós-Guerra Fria

À medida que a Guerra Fria chegava ao fim em 1990 e as negociações sobre a reunificação alemã estavam em andamento, o secretário de Estado dos EUA, James Baker, e o chanceler alemão, Helmut Kohl, garantiram ao líder soviético Mikhail Gorbachev que a OTAN não se expandiria «uma polegada para leste». No entanto, essas promessas foram rapidamente desconsideradas. Em 1999, a OTAN incorporou a Polónia, a Hungria e a República Checa, empurrando as suas fronteiras para mais perto da Rússia, apesar dos debates internos europeus sobre estruturas de segurança alternativas.

Essa expansão suprimiu as propostas europeias nascentes para uma arquitectura de segurança pan-continental mais inclusiva que poderia ter promovido a independência do domínio dos EUA. A França e a Alemanha estavam a discutir a revitalização de organizações como a União da Europa Ocidental para criar um sistema de segurança europeu mais amplo. Os formuladores de políticas americanos viam essas alternativas como uma ameaça à influência americana. Os Estados Unidos começaram a promover activamente o alargamento da OTAN para manter a Europa amarrada a estruturas transatlânticas. Isso não apenas alienou a Rússia, mas também garantiu que a Europa permanecesse dependente da liderança militar e da tomada de decisões dos EUA.

O mito do «aproveitador»

O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou repetidamente que os membros europeus da OTAN não pagam as suas «dívidas», o que implica um fardo financeiro para os EUA. Na realidade, a OTAN não tem «quotas» nem «contas» – as contribuições são voluntárias com base na orientação de 2% do PIB acordada em 2014. As nações europeias contribuem com cerca de 2,27% do seu PIB colectivo, mas esses países têm um PIB menor do que os Estados Unidos, tornando as suas contribuições monetárias significativamente menores. Os EUA oferecem 3,2% do seu PIB à OTAN, tornando a sua contribuição marginalmente maior. As novas metas de gastos de 5% por Estado-membro colocarão uma pressão significativa sobre as economias europeias já maltratadas, consolidando ainda mais que a OTAN serve como um porrete para atacar as nações europeias.

Apesar de investir mais dinheiro, os Estados Unidos beneficiam substancialmente dos protocolos de padronização da OTAN, que garantem a interoperabilidade. Isso efectivamente impede que as nações europeias comprem equipamentos militares de empresas americanas. De acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, as importações de armas pelos estados europeus aumentaram 155% entre 2015-19 e 2020-24, com os EUA a fornecerem 64% das importações dos membros europeus da OTAN durante esse período. Isso equivale a biliões em transferências. As vendas de armas dos Estados Unidos totalizam 318,7 mil milhões de dólares, com a Europa a responder por 35% desse valor. A Europa gastou aproximadamente 111,5 mil milhões de dólares em armas americanas em 2024 (esse número exclui a Ucrânia), enquanto a contribuição dos EUA para o orçamento da OTAN é de 15,9% dos 4,6 mil milhões de euros, tornando a sua contribuição total de 731 milhões de euros – ou uma pequena fracção (cerca de 0,0026%) do PIB dos EUA. As alegações de Trump de que a Europa está cheia de «aproveitadores» consideram apenas parte da equação, já que os Estados Unidos lucram mais de cem mil milhões de dólares das nações europeias por meio do mandato da OTAN.

Enquanto os Estados Unidos lucram muito com as compras de armas europeias, as indústrias domésticas de armas estagnam devido a essa dependência forçada. Os países europeus da OTAN obtêm dois terços das suas importações dos Estados Unidos, prejudicando fabricantes locais como a alemã Rheinmetall ou a francesa Thales. O custo desta realidade tem um impacto negativo na inovação europeia e no crescimento do emprego. A previsão da primavera de 2025 da Comissão Europeia alerta que aumentar os gastos com defesa para cumprir as metas da OTAN pode exacerbar isso, já que indústrias nacionais fragmentadas lutam para competir, levando a custos mais altos e inovação reduzida. Os Estados Unidos drenam a Europa de forma vampírica enquanto reclamam das suas próprias decisões políticas de gastar uma quantia exorbitante do seu PIB em defesa.

Entramos numa realidade geopolítica em que a Europa se tornará mais dependente das armas dos EUA para preencher a lacuna para as novas metas de 5% do PIB para 2032. A inovação vai cambalear à medida que as empresas europeias tiverem de se concentrar em aumentar a escala para atender ao aumento da procura, colocando a P&D em segundo plano. A Europa está a perder mais autonomia em vez de a aumentar através destes novos objectivos de despesa.

A arma energética: impedir os laços euro-russos

Os imperativos estratégicos da OTAN estenderam-se além das alianças militares para interromper activamente o potencial da Europa para uma integração económica mais profunda com a Rússia, particularmente no sector da energia. Os laços energéticos euro-russos têm sido vistos como uma ameaça à hegemonia americana, levando à oposição vocal dos Estados Unidos a projectos como o Nord Stream 2 e contribuindo para o pivô forçado da Europa para alternativas mais caras. Essa interferência isolou a Europa do gás russo acessível, ao mesmo tempo em que enriqueceu os exportadores de energia dos EUA, exacerbando a pressão económica num continente que já enfrenta custos crescentes de energia.

Os gasodutos Nord Stream, projectados para fornecer gás natural russo directamente à Alemanha sob o Mar Báltico, representaram um caminho para a segurança energética e custos mais baixos para a Europa, potencialmente reduzindo os preços em 30-40% por meio de fornecimento diversificado. Os EUA opuseram-se veementemente ao Nord Stream 2 desde o início, enquadrando-o como uma ferramenta para a influência russa que contornaria a Ucrânia e minaria a unidade europeia. Em 2019, o governo Trump impôs sanções sob a Lei de Protecção à Segurança Energética da Europa, que visava empresas envolvidas na construção de gasodutos. Esforços bipartidários do Congresso foram lançados para interromper o projecto, citando preocupações com a capacidade da Rússia de «armar» a energia.

O ponto culminante veio com a sabotagem dos oleodutos em Setembro de 2022, que libertou enormes emissões de metano. Alegações de envolvimento americano (e ucraniano) surgiram repetidamente, incluindo relatos de mergulhadores da Marinha dos EUA a plantar explosivos durante o exercício BALTOPS 22 da OTAN, com assistência norueguesa na detonação. O incidente efectivamente cortou um importante elo euro-russo, forçando a Europa a uma diversificação apressada que favoreceu os fornecedores americanos. Os embarques de Gás Natural Liquefeito (GNL) para a Europa atingiram um recorde de 8,5 milhões de toneladas métricas em Dezembro de 2024. Em Maio de 2025, a UE importou 4,6 mil milhões de metros cúbicos de GNL dos EUA mensalmente, com os EUA a responderem por 50,7% do total das importações de GNL da UE no 1.º trimestre de 2025 – acima dos níveis insignificantes anteriores a 2022.

Multipolaridade como solução

O passado agora é passado, e a Europa está agora numa posição em que as acções da OTAN ao longo das décadas impediram laços económicos frutíferos com a Rússia, o que poderia de facto ter evitado a Guerra da Ucrânia, ao mesmo tempo em que proporcionava a tão necessária segurança energética. Essas relações podem curar-se com o tempo, mas a Europa não deve esperar que as estrelas se alinhem. Ela deve acordar para a realidade de que o seu potencial está amarrado por Washington e pelas suas bases militares que colonizam o continente.

Se a Europa não conseguir olhar além do albatroz estrelado em volta do pescoço, corre o risco de ser permanentemente vassalagem pelos Estados Unidos. Consertar o relacionamento com a Rússia pode não estar nas cartas no momento, mas a Europa pode olhar além do Ocidente para o Oriente e a África. A Nigéria e Moçambique estão prontos para fornecer GNL para a Europa, o que poderia ser acelerado com investimentos europeus. A Europa tem a capacidade de proteger as suas fontes de energia e fortalecer a sua economia se for corajosa o suficiente para deixar de ser um cachorrinho de estimação de uma economia que a parasita.

Os líderes europeus afirmam buscar «autonomia estratégica», mas a menos que percebam o dano que a OTAN causou ao continente, nunca serão soberanos. O mundo está a caminhar para a multipolaridade, já que as tarifas de Trump embaralharam o sistema económico global de maneiras antes consideradas inimagináveis. Novas alianças estão a formar-se, e antigos inimigos como a Índia e a China estão a começar a ter relações calorosas. Estão a formar-se blocos comerciais que excluirão os Estados Unidos devido à sua natureza caprichosa. A escrita está na parede, mas os líderes europeus lerão a mensagem já gravada no futuro à frente?



Fonte: https://www.multipolarpress.com

Tradução RD



segunda-feira, 6 de maio de 2019

«MEIOS IDENTIFICADOS» PARA CRIAR UMA DIRECÇÃO DE DEFESA DA UNIÃO EUROPEIA COM UM COMISSÁRIO

As autoridades de Bruxelas fazem questão de frisar que o dinheiro é para a indústria e a investigação, e não para criar o tipo de “exército da UE” que tem sido uma irritação para os anticépticos em particular em vários países membros, assim como na Irlanda neutra.

Algum trabalho está a ser realizado dentro das instituições da União Europeia para permitir a criação de uma direcção de defesa dedicada a um comissário para liderar um esforço de planeamento e gastos militares mais efectivos, afirmaram fontes à AFP.

Bruxelas planeia gastar cerca de 13 biliões de euros em recursos de defesa e investigação no seu próximo orçamento de longo prazo, uma vez que procura aumentar a resiliência e reduzir a dependência da Europa em relação aos EUA em matéria de protecção.

A pasta da defesa é actualmente administrada por Federica Mogherini, Alta Representante da União Europeia para os Assuntos Externos e Política de Segurança e chefe do Serviço Europeu de Acção Externa, mas deixará o cargo ainda este ano, quando terminar o actual mandato da Comissão Europeia.

As fontes disseram que a equipa de entrada pode incluir um comissário de defesa dedicado.

Ministra da defesa francesa,  Florence Parly
"Reflexões estão em andamento dentro das instituições para a criação de uma direcção geral encarregada das questões de segurança e defesa", disse a ministra da Defesa francesa, Florence Parly, no mês passado.

A França tem estado na vanguarda da defesa da UE. Em Agosto de 2018, o presidente Emmanuel Macron sugeriu que a Europa adotasse uma defesa colectiva ao estilo da OTAN para dar autonomia estratégica à UE, e um ano antes, Macron pediu a formação de um fundo de defesa europeu.

Várias fontes nas instituições da UE disseram à AFP que “os meios foram identificados para criar uma direcção geral de defesa para um comissário, se este for o mandato dado ao próximo presidente” da comissão, o poderoso executivo da união.

A nova comissão não deve ficar em vigor até Novembro e as autoridades dizem que, por enquanto, nada foi decidido.

“A decisão cabe ao próximo presidente da comissão e o acordo dos estados membros é necessário, porque a defesa é uma competência nacional”, explicou um funcionário europeu.

Outro alerta: “Há muitas ideias, mas o assunto é complexo e, no final, é possível que nada aconteça.”

Fundo Europeu de Defesa

Caça francês rafale
O próximo orçamento de sete anos da UE tem 20 biliões de euros destinados à defesa em geral.

Essas despesas incluem 13 mil milhões de euros para o Fundo Europeu de Defesa cobrir o período financeiro da UE em 2021-2027, proposto pela Comissão em Junho último e aprovado pelo Parlamento no início deste mês.

O FDE -Fundo de Desenvolvimento Europeu reserva 4,1 mil milhões de euros para investigação e 8,9 mil milhões de euros para o desenvolvimento de capacidades militares. Somente projectos de cooperação envolvendo pelo menos três estados membros ou países associados podem receber financiamento.

A Comissão disse que o financiamento "colocará a UE entre os quatro maiores investidores em tecnologia e investigação de defesa na Europa, e actuará como um catalisador para uma base industrial e científica inovadora e competitiva".

As autoridades de Bruxelas fazem questão de frisar que o dinheiro é para a indústria e a investigação, e não para criar o tipo de “exército da UE” que tem sido uma irritação para os anticépticos em particular em vários países membros, assim como na Irlanda neutra.

Parly também apontou que, em termos da UE, € 13 biliões em sete anos é uma soma relativamente pequena, e é insignificante em comparação com os EUA, que gasta quase US $ 700 biliões em defesa a cada ano.

"Isso corresponde ao montante anual de investimento dedicado pela França para o seu equipamento militar", disse Parly. "Mas isso é enorme para a UE, porque estamos a começar do zero".

As tensões da UE com os Estados Unidos

O primeiro modelo em escala real da aeronave pilotada remotamente de longa duração (MALE RPAS) - ou Eurodrone - é revelada no Berlin Air Show, em 26 de Abril de 2018. imagem: Airbus

O esforço para aumentar o financiamento da defesa europeia causou algumas tensões com Washington, onde autoridades temem que as empresas de defesa dos EUA possam ser excluídas dos projectos da UE .

França, Alemanha, Itália e Espanha - os principais produtores de equipamentos de defesa da UE, uma vez que o Reino Unido deixe o sindicato - lançaram projectos conjuntos para produzir drones e aviões de combate "para que eles não dependam mais das capacidades dos EUA", explicou Parly.

Alguns países da Europa Oriental, por outro lado, têm pressionado para usar o financiamento para melhorar as suas antigas indústrias militares, na esperança de poderem integrar-se melhor com as forças lideradas pelos EUA.

Parly insistiu que "não há como voltar as costas à OTAN".

"Mas como podemos ser confiáveis ​​como aliados se continuarmos a pedir ajuda?", disse ela.

O debate sobre como usar o novo financiamento pode estar em andamento, mas “o dinheiro logo estará lá, e alguém será necessário para administrá-lo”, apontou um representante europeu, com Parly pedindo “uma liderança completa”.

A criação de um posto de comissário responderia a esse pedido, disse a polaca Elżbieta Bieńkowska, comissário da indústria da UE.

Ela argumenta que a gestão do FDE deve ficar dentro da Comissão, que é responsável pela gestão do orçamento comum da UE.

Relutância da UE

Mas a defesa tem sido há muito tempo um poder soberano zelosamente guardado e os países-membros da UE estão relutantes em entregá-lo à comissão.

Mogherini também é relutante. a sua equipa gere o pacto de cooperação de defesa da UE, conhecido como PESCO .

Lançado em Dezembro de 2017, a Cooperação Estruturada Permanente sobre Segurança e Defesa (PESCO), que 25 estados membros aderiram, permite que os estados participantes desenvolvam capacidades de defesa conjuntas, invistam em projectos partilhados e melhorem a prontidão operacional e a contribuição das suas forças armadas.

Em Junho passado, seis Estados membros da UE declararam a sua intenção de criar equipas de resposta rápida cibernética, um projecto liderado pela Lituânia, um dos 17 projectos da PESCO anunciados até agora. Outros incluem o estabelecimento de um comando médico europeu, o centro de competência da missão de treino da UE, a ajuda militar em situações de desastre e a modernização da vigilância marítima.

"Permitir que uma direcção geral de defesa seja montada nas costas do Serviço Europeu de Acção Externa é como concordar em ter o seu bolso escolhido", explicou um diplomata europeu.

“Criar um Comissário para gerir um orçamento de 13 mil milhões de euros não se justifica. Por outro lado, se as suas competências forem estendidas à segurança cibernética e aos aspectos militares dos programas de satélite, faz mais sentido ”, disse uma autoridade europeia.

Existem várias outras iniciativas de defesa europeias propostas ou implementadas.

Em Junho de 2018, nove estados da UE assinaram um plano francês para um grupo europeu de intervenção de defesa, incluindo o Reino Unido, que apoia a medida como forma de manter fortes laços de segurança com o bloco depois do Brexit.

No mesmo mês, Mogherini propôs um novo "mecanismo de paz" de 10,5 biliões de euros (US $ 12,4 biliões) que poderia pagar por equipamentos militares, incluindo armas letais, para países parceiros em zonas de crise como a região do Sahel em África.


thedefensepost.com



domingo, 5 de maio de 2019

O POPULISMO VEIO PARA FICAR

O populismo hoje é difícil de definir em termos do contínuo político da esquerda versus da direita. Pelo contrário, é um movimento anti-globalização e anti-elite que reúne actores políticos anti-sistema tanto da extrema-direita como da extrema-esquerda. Como argumentado em Mueller (2016) e em Mudde e Rovira Kalwasser (2017), o populismo moderno é essencialmente uma visão do mundo onde o “povo puro” uniforme se opõe às “elites corruptas”

O populismo moderno: por que é ele importante e por que é provável que fique

Movimentos anti-globalização em Itália
Nos últimos anos, o populismo ressurgiu como um importante fenómeno político-económico. Ao contrário da sua reencarnação anterior - o “populismo latino-americano” de esquerda, oferecendo soluções macroeconómicas insustentáveis ​​para problemas sociais (ver Dornbusch e Edwards, 1991) - o populismo hoje é difícil de definir em termos do contínuo político da esquerda versus da direita. Pelo contrário, é um movimento anti-globalização e anti-elite que reúne actores políticos anti-sistema tanto da extrema-direita como da extrema-esquerda. Como argumentado em Mueller (2016) e em Mudde e Rovira Kalwasser (2017), o populismo moderno é essencialmente uma visão do mundo onde o “povo puro” uniforme se opõe às “elites corruptas”; também é importante que não haja diferenças e divisões dentro das “pessoas”, portanto, não há necessidade de verificações e balanços.

Apesar de muitos estudos realizados por cientistas sociais de ambos os lados do Atlântico (incluindo muitos investigadores do CEPR -  Centre for Economic Policy Research), ainda não há consenso sobre as origens e as causas do recente aumento do populismo. É claro que as consequências económicas da crise financeira global desempenharam um papel importante - resultando em aumentos substanciais no desemprego em certos países e especialmente em algumas regiões sub-nacionais. Tanto antes como depois da crise, o progresso tecnológico e a globalização trouxeram polarização do emprego e aumento da desigualdade. O surgimento de políticas de identidade - relacionadas à globalização e ao aumento da imigração - pode ter sido também um importante contribuinte para a popularidade dos populistas nativistas. A crise dos refugiados também pode ter levantado preocupações relacionadas à segurança ou ao terrorismo. Em países diferentes, as razões para o surgimento do populismo podem ter sido diferentes; eles também podem ter interagido uns com os outros - e com contextos culturais e sociais - de uma maneira diferente. É por isso que o recente aumento do populismo já gerou - e continua a gerar - tanto interesse entre os investigadores. 

Por que devemos nos preocupar com o populismo? Por um lado, não deve haver nada de errado se os populistas forem democraticamente eleitos e perseguirem o mandato de corrigir as deficiências das políticas anteriores (como a corrupção, o poder do mercado descontrolado, a evasão fiscal das grandes corporações, a corrupção dentro das elites). Há duas razões para se preocupar com a popularidade dos populistas. Uma é que as suas promessas não são macro-economicamente sustentáveis ​​(como na América Latina no passado ou em Itália hoje). A maioria dos populistas, no entanto, aprendeu essa lição e, uma vez no poder, eles reconhecem as restrições macroeconómicas (por exemplo, Syriza na Grécia e PiS na Polónia). A segunda razão é muito mais importante. Os populistas modernos - sendo anti-elitistas e anti-globalização - prometem e, uma vez no poder, implementar políticas que (i) destruam os travãos e contrapesos e (ii) criem barreiras à concorrência. Verificações e balanços económicos são cruciais para o investimento. Os investidores devem ter confiança de que as regras do jogo não são totalmente discricionárias. Os populistas também destroem os controlos e contrapesos políticos - assumindo o controlo sobre os tribunais, a média e o financiamento de campanhas. Isso fortalece o seu poder e permite que os seus oponentes os removam do cargo, mesmo quando o desempenho económico dos populistas falha. De acordo com a sua retórica "anti-neoliberal", os populistas modernos também limitam a competição económica. Em vez de “proteger o mais fraco”, isso leva à criação do capitalismo de compadrio e gera, de forma útil, rendas para financiar as máquinas políticas dos incumbentes. 

É importante enfatizar que o fenómeno do populismo moderno está aqui para ficar. Depois das eleições presidenciais francesas em 2017, muitos comentadores ficaram felizes em anunciar que a maré populista havia acabado. Isso foi, claro, prematuro. Primeiro, na eleição francesa, Emmanuel Macron chegou à segunda volta com apenas uma pequena margem; uma segunda volta com dois políticos populistas não foi impossível. Em segundo lugar, desde que venceu a eleição, a própria popularidade de Macron decaiu drasticamente. Terceiro, nos últimos dois anos, observamos que a extrema-esquerda e a extrema-direita ganharam terreno substancial mesmo na Alemanha e na Suécia, vencendo as eleições e formando um governo em Itália e no Brasil. O partido de Victor Orban obteve maioria constitucional na Hungria. Finalmente, e mais importante, os desafios subjacentes permanecem. 

A necessidade de soluções políticas

Embora exista um debate aceso sobre as origens e as causas do recente aumento do populismo, os conselhos políticos baseados em evidências sobre como combatê-lo ainda são bastante escassos. O objectivo principal deste RPN é fazer a ponte entre a investigação e soluções práticas específicas. 

A exigência por tais soluções é muito alta. Os governos nacionais, desenvolvidos e em desenvolvimento, lutam para dar uma resposta às pressões sociais devidas à globalização, à mudança tecnológica e à imigração. A União Europeia está prestes a elaborar um novo orçamento para sete anos (Quadro Financeiro Plurianual). Os governos da zona do euro estão a discutir a reforma da zona do euro que terá grandes consequências distributivas. A OCDE está a liderar o esforço multilateral contra a evasão fiscal por empresas multinacionais. O G20 está a discutir a resposta aos desafios impulsionados pela automação e está a rever a estrutura da arquitectura financeira global.

Além de redesenhar as instituições e escolher as políticas certas para combater os populistas, os principais actores políticos também devem repensar as suas estratégias de comunicação. Os últimos anos mostraram que os populistas estão à frente no uso dos média modernos (em alguns casos, aproveitando mensagens falsas ou enganosas).


The Centre for Economic Policy Research (CEPR)


O Populism RPN, criado em Março de 2018 para um mandato inicial de três anos, é liderado por Sergei Guriev, economista-chefe do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento e professor de Economia na Sciences Po em Paris.


segunda-feira, 15 de abril de 2019

A EUROPA DEVE TOMAR POSIÇÃO PELA SOLUÇÃO DE DOIS ESTADOS PARA ISRAEL E PARA A PALESTINA

Políticos europeus de alto escalão exortam a UE a rejeitar qualquer plano de paz dos EUA para o Médio Oriente, a menos que seja justo para os palestinianos e implique uma solução de dois estado soberanos.


Estamos a chegar a um ponto crítico no tempo no Médio Oriente, assim como na Europa. A UE está fortemente empenhada na ordem internacional multilateral e baseada em regras. O direito internacional trouxe-nos o período mais longo de paz, prosperidade e estabilidade que o nosso continente já desfrutou. Durante décadas, trabalhámos para ver os nossos vizinhos israelitas e palestinianos desfrutarem dos dividendos da paz que nós, Europeus, temos através do nosso compromisso com essa ordem.

Em parceria com anteriores administrações dos EUA, a Europa promoveu uma resolução justa para o conflito israelo-palestiniano no contexto de uma solução de dois Estados. Até hoje, apesar dos reveses subsequentes, o acordo de Oslo ainda é um marco na cooperação transatlântica em política externa.

Infelizmente, a actual administração dos EUA afastou-se da política de longa data dos EUA e distanciou-se das normas legais internacionais estabelecidas. Até agora, reconheceu apenas as alegações de um lado em Jerusalém e demonstrou uma perturbadora indiferença à expansão dos colonatos israelitas. Os EUA suspenderam o financiamento para a agência da ONU para os refugiados palestinianos (UNRWA) e para outros programas que beneficiam os palestinianos - arriscando a segurança e estabilidade de vários países localizados à porta da Europa.

Contra essa infeliz ausência de um claro compromisso com a visão de dois estados, o governo Trump declarou-se próximo de finalizar e apresentar um novo plano para a paz israelo-palestiniana. Apesar da incerteza quanto a se e quando o plano será divulgado, é crucial que a Europa esteja atenta e aja estrategicamente.

Acreditamos que a Europa deveria adoptar e promover um plano que respeite os princípios básicos do direito internacional, conforme reflectido nos parâmetros acordados pela UE para uma resolução para o conflito israelo-palestiniano. Esses parâmetros que a UE sistematicamente reafirmou durante as conversações patrocinadas pelos EUA, reflectem o nosso entendimento comum de que uma paz viável exige a criação de um estado palestiniano ao lado de Israel com fronteiras baseadas nas linhas anteriores a 1967 com terras mutuamente acordadas, trocas mínimas e iguais; com Jerusalém como a capital dos dois estados; com arranjos de segurança que abordem preocupações legítimas e respeitem a soberania de cada lado e com uma solução justa e acordada para a questão dos refugiados da Palestina.

A Europa, ao contrário, deve rejeitar qualquer plano que não atenda a esse padrão. Ao partilhar as frustrações de Washington sobre os esforços de paz mal sucedidos do passado, estamos convencidos de que um plano que reduza o estado palestiniano a uma entidade desprovida de soberania, contiguidade territorial e viabilidade económica agravaria seriamente o fracasso dos esforços anteriores de pacificação, aceleraria o desaparecimento da opção de dois estados e danificaria fatalmente a causa de uma paz duradoura tanto para palestinianos como para israelitas.

É, obviamente, preferível que a Europa trabalhe em conjunto com os EUA para resolver o conflito israelo-palestiniano, bem como para abordar outras questões globais numa forte aliança transatlântica. No entanto, em situações em que os nossos interesses vitais e valores fundamentais estão em jogo, a Europa deve seguir o seu próprio caminho de acção.

Em antecipação a este plano dos EUA, acreditamos que a Europa deveria formalmente reafirmar os parâmetros acordados internacionalmente para uma solução de dois estados. Fazer isso antes do plano dos EUA estabelecendo os critérios da UE para apoiar os esforços americanos e facilita uma resposta europeia coerente e unificada depois que o plano for publicado.

Os governos europeus devem comprometer-se ainda mais a ampliar os esforços para proteger a viabilidade de um resultado futuro de dois estados. É da maior importância que a UE e todos os estados membros assegurem activamente a implementação das resoluções pertinentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas - incluindo uma diferenciação consistente de acordo com a resolução 2334 do Conselho de Segurança da ONU, entre Israel nas suas fronteiras reconhecidas e legítimas, e os seus acordos ilegais nos territórios ocupados.

Além disso, os recentes esforços crescentes para restringir o livre trabalho da sociedade civil fizeram o apoio europeu aos defensores dos direitos humanos tanto em Israel quanto na Palestina, e o seu papel crítico em alcançar uma paz sustentável, mais importante do que nunca.

Israel e os territórios palestinianos ocupados estão a escorregar para uma realidade de um estado de direitos desiguais. Isso não pode continuar. Para os israelitas, para os palestinianos ou para nós na Europa.

Neste momento, a Europa enfrenta uma oportunidade decisiva para reforçar os nossos princípios e compromissos comuns em relação ao processo de paz no Médio Oriente e, assim, manifestar o papel único da Europa como ponto de referência para uma ordem global baseada em regras.

Deixar de aproveitar esta oportunidade, num momento em que essa ordem está a ser desafiada sem precedentes, teria consequências negativas de longo alcance.


Douglas Alexander Ex-ministro de Estado da Europa, Reino Unido 
Jean-Marc Ayrault Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e Primeiro Ministro, França 
Carl Bildt Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e Primeiro Ministro, Suécia 
Wlodzimierz Cimoszewicz Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e Primeiro Ministro, Polónia 
Dacian Cioloș Ex-primeiro ministro e comissário europeu, Roménia 
Willy Claes Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e secretário-geral da OTAN, Bélgica 
Massimo d'Alema Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e Primeiro Ministro, Itália 
Karel De Gucht Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e comissário europeu, Bélgica 
Uffe Ellemann-Jensen Ex-chanceler e presidente dos Liberais Europeus, Dinamarca 
Benita Ferrero-Waldner Ex-chanceler e comissária europeia para as relações externas, Áustria 
Franco Frattini Ex-chanceler e comissário europeu, Itália 
Sigmar Gabriel Ex-chanceler e vice-chanceler, Alemanha 
Lena Hjelm- Wallén Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e vice-primeiro ministro, Suécia 
Eduard Kukan Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Eslováquia 
Martin Lidegaard Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Dinamarca 
Mogens Lykketoft Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e presidente da Assembleia Geral da ONU, Dinamarca 
Louis Michel Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e comissário europeu, Bélgica
David Miliband Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Reino Unido 
Holger K Nielsen Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Dinamarca 
Marc Otte Ex-Representante Especial da UE para o processo de paz do Médio Oriente, Bélgica 
Ana Palacio Ex-ministra dos Negócios Estrangeiros, Espanha 
Jacques Poos Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Luxemburgo 
Vesna Pusic Ex-ministra dos Negócios Estrangeiros e vice-primeira-ministra, Croácia 
Mary Robinson Ex-presidente e alto comissário das Nações Unidas para os direitos humanos, Irlanda 
Robert Serry Ex-coordenador especial da ONU para o processo de paz no Médio Oriente, Holanda
Javier Solana Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, secretário geral da OTAN e alto representante da UE para política externa e de segurança comum, Espanha 
Per Stig Møller Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Dinamarca 
Michael Spindelegger Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e vice-chanceler, Áustria 
Jack Straw Ex-secretário dos Negócios Estrangeiros, Reino Unido 
Desmond Swayne Ex-ministro de estado para o desenvolvimento internacional, Reino Unido 
Erkki Tuomioja Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Finlândia 
Ivo Vajgl Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Eslovénia 
Frank Vandenbroucke Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Bélgica 
Jozias van Aartsen Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Holanda 
Hubert Védrine Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, França 
Guy Verhofstadt Ex-primeiro ministro, Bélgica 
Lubomír Zaorálek Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, República Checa



Tradução: Paulo Ramires

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

EUROPA COMO UM ACTOR GLOBAL - O MÉDIO ORIENTE E O NORTE DE ÁFRICA

Os Dossiers GIS visam oferecer aos nossos assinantes uma visão geral dos principais tópicos, regiões ou conflitos com base numa selecção dos nossos relatórios de especialistas desde 2011. Essa pesquisa, a terceira de uma série de quatro partes, considera se a Europa (principalmente a União Europeia) pode ser uma potência global. A primeira parte examinou a base e os instrumentos do poder europeu. A segunda parte analisou onde e como esse poder foi aplicado no norte e no leste da Europa, nos Balcãs Ocidentais e na Turquia. As partes três e quatro cobrem o Médio Oriente e a África.

Enquanto o foco estratégico da Europa foi direccionado para o leste durante a Guerra Fria e pós Guerra Fria, nas últimas duas décadas a sua atenção mudou para o sul. As ameaças à segurança a longo prazo - da instabilidade política, terrorismo, conflitos armados e deslocamentos populacionais - são mais amplos e complexos do que em qualquer outro lugar no perímetro da UE.

De facto, o Médio Oriente e a África compõem não apenas a parte mais volátil da vizinhança da Europa, mas compõem também uma das duas zonas geopolíticas mais perigosas do mundo (juntamente com o arco de 6.000 milhas em volta da China que vai do Japão e da Coreia, passando por Taiwan e o Mar da China Meridional, até à Índia e ao Paquistão).

Demograficamente, a região contém 49 dos 50 países que mais crescem no mundo (a única excepção é o Afeganistão, a outra importante fonte de migrantes para a Europa), de acordo com as estimativas das Nações Unidas para 2010-2015.

Ela também tem a maior incidência de conflitos armados, respondendo por 15 das 19 guerras civis e insurgências actualmente em curso no mundo, de acordo com o Global Conflict Tracker do Conselho de Relações Exteriores dos EUA .

Na África Subsariana, especialmente, muitos outros países estão a lidar com a instabilidade política que pode rapidamente transformar-se em guerra civil, incluindo a República Democrática do Congo (RDC) e Burundi, como a especialista em GIS (na sigla inglesa) Teresa Nogueira Pinto examinou numa série de relatórios. Os conflitos geram refugiados e pioram as condições de fome causadas por secas recorrentes , que estimulam mais fluxos de migrantes para a Europa.

Fronteiras abertas

O Mediterrâneo sempre foi mais uma auto-estrada do que um fosso, unindo o norte da África e o  Médio Oriente à Europa. Como ressalta Bernard Siman, especialista em GIS, num relatório de Julho de 2017, o “conceito Mare Nostrum do mar enquanto um lago interno” tem sido negligenciado pelos líderes da UE há muito tempo:

A política actual, focada em detalhes técnicos, como cotas de migrantes, perde completamente o grande quadro estratégico, à medida que a Europa se prepara para as próximas ondas migratórias. Se você não conseguir lidar com os problemas "lá fora", eles tendem a acabar na sua porta e na sua sala de estar.

Além disso, a mudança tecnológica nos últimos 25 anos destruiu virtualmente a eficácia da grande barreira natural aos movimentos populacionais do sul - o deserto do Sara. Como o fundador do GIS, o Príncipe Michael de Liechtenstein, salientou em Dezembro de 2015, “os transportes e as telecomunicações modernas” tornaram mais fácil para as pessoas aprenderem sobre as oportunidades no Norte e depois irem para lá. Linhas aereas, pick ups de tracção às quatro rodas, telemóveis e internet significam que “a Europa, o norte da África e a África subsariana são agora todos vizinhos próximos”.

Os decisores erraram ao comparar a Primavera Árabe com os movimentos de democracia que derrubaram o bloco soviético.

A conclusão tirada pelo príncipe Michael e pelo sr. Siman é que a Europa precisa de se empenhar. Reduzindo os compromissos, a UE renuncia a qualquer oportunidade de “promover e defender os seus interesses estratégicos de longa data” na região. Até recentemente, como o príncipe Michael observou, apenas a França e o Vaticano parecem entender esse imperativo.

Agora que a geografia fracassou como uma barreira efectiva, os europeus devem abandonar os seus antolhos. A Europa deve envolver-se em África, em vez de usar a ajuda externa mal direccionada como uma ajuda perante a sua consciência de culpa.

Primavera Árabe

A reserva estratégica da Europa também foi enfraquecida por uma inesperada série de acontecimentos em 2010-2011 - os levantamentos populares no Médio Oriente e em África que ficaram conhecidos como a “Primavera Árabe”. Numa rápida sucessão, protestos em massa derrubaram governantes há muito entrincheirados na Tunísia. Egipto, Líbia e Iémene. O presidente sírio, Bashar al-Assad, resistiu, mas o seu país mergulhou numa uma guerra civil de sete anos.

O fatídico erro de cálculo dos responsáveis ocidentais pelas decisões, baseado numa analogia com o colapso do bloco soviético em 1989-1991, foi o de que este era um "movimento pró-democracia", como o príncipe Michael observou em Outubro de 2016. Embora possa ter sido apenas decidido pelos membros frustrados da elite urbana, para as ruas árabes, o poder foi logo capturado por estritos grupos islâmicos sunitas , como a Irmandade Muçulmana, ou por jihadistas anti-ocidentais, como o especialista em GIS Charles Millon escreveu em Outubro de 2012.


Líbia, em seguida, no auge de sua segunda guerra civil desde a queda de Muammar Qaddafi, foi uma porta de entrada crucial para a grande onda de imigrantes de 2015 que chocou o senso de segurança da Europa (fonte: macpixxel para GIS)

Com o colapso desta “fileira de ditadores estáveis ​​que tendiam a favorecer a laicidade”, nos termos de Millon, surgiu um vácuo de poder. A instabilidade política espalhou-se do norte da África do Norte para o sul, para o Sahel e para o leste até o Sinai, a Síria e a Península Arábia. Isso pode ter sido inconveniente, mas aceitável para o governo do presidente Barack Obama, já se retirando dos seus compromissos no Médio Oriente, mas foi um desastre para a Europa, como o príncipe Michael escreveu em Março de 2017 :

O Médio Oriente não é tão crucial para os EUA quanto para a Europa. A Europa, no entanto, não é um jogador real por lá. O seu papel na região é reduzido a pontificações moralistas, que muitas vezes traz resultados contrários ao esperado. A Europa parece ignorar a brutal realidade de que um novo enfraquecimento dos governos no Médio Oriente e no Norte da África resultará no aumento da migração para os países ricos do Mediterrâneo.

Em parte, essa ingenuidade sobre os islamitas sunitas reflectia um cálculo político de que era melhor “mantê-los dentro da barraca em vez de arriscar que eles atacassem de fora”, como observou Siman num relatório de Novembro de 2011 . A idéia era evitar "o sangrento e devastador cenário argelino do início da década de 1990, que levou a uma guerra civil de dez anos". Mas a analogia do Leste Europeu perdeu a estrutura cultural e social muito diferente dos movimentos do Médio Oriente.

Por outras palavras, a Europa também estava mentalmente impreparada para o fim de “uma era de estabilidade conveniente” no mundo árabe causada pela onda de mudanças de regime, escreveu o especialista em GIS Dr. Uwe Nerlich em Julho de 2011 . Claramente, os formuladores de políticas precisavam modificar a sua estrutura estratégica, embora o Dr. Nerlich previsse que a intervenção militar da escala vista no Iraque e no Afeganistão era altamente improvável. O que os distúrbios tornaram óbvio é que “a estabilidade pela repressão” não pode funcionar indefinidamente contra as pressões demográficas e económicas, escreveu ele. Em vez disso, a Europa deve intervir para ajudar a financiar projectos “vantajosos para ambas as partes”, como a dessalinização e a energia solar.

'Vazios geopolíticos'

A consequência do apoio ocidental equivocado às revoltas sunitas foi uma série de mudanças desastrosas nos regimes em todo o Médio Oriente e África, como o príncipe Michael observou em Abril de 2015. Em políticas que muitas vezes são relíquias artificiais da era colonial, um resultado comum é o fracasso do estado, como toda a estrutura administrativa a entrar em colapso e os senhores da guerra locais a assumirem o controlo. Vimos esses resultados na Somália (que está em desordem há quase 30 anos ), no Sudão do Sul, na Líbia, na Síria e no Iémene.

Esses “vazios geopolíticos”, como observou Siman num relatório de Novembro de 2011, criam espaços ingovernáveis ​​que proporcionam abrigos para grupos terroristas e criminosos - como piratas, contrabandistas de drogas e traficantes de seres humanos.

A guerra civil da Síria foi um exemplo em que a Europa seguiu o exemplo hesitante dos Estados Unidos.

O pior caso de perigo para a Europa é que este processo de implosão se espalha para países que são pilares da arquitectura geopolítica e segurança da região (como a Arábia Saudita ) ou cujo tamanho poderia criar uma crise migratória tão vasto que poderia inundar a UE ( Egipto ).

Mau modelo: Síria

A guerra civil na Síria foi um exemplo em que a Europa seguiu uma liderança hesitante dos EUA - contribuindo para uma intervenção militar limitada contra o Estado Islâmico - enquanto apoiava os rebeldes islâmicos fazendo exigências irrealisticamente maximais para a saída do presidente Bashar al-Assad como pré-condição para as negociações de paz. Como o príncipe Michael apontou em Dezembro de 2017, isso desperdiçou uma boa oportunidade para elaborar uma solução federal na Síria em 2014-2015.

Como o GIS tem consistentemente argumentado desde o início do conflito, o que era necessário era uma nova Paz da Westfália , permitindo “um desmantelamento ordenado do Acordo Sykes-Picot que arbitrariamente dividia essas terras em zonas francesas e britânicas há um século”. Uma solução abrangente para a guerra exigiria um grande esforço diplomático, recrutando a Rússia juntamente com todas as “potências regionais estáveis” - Arábia Saudita, Irão, Egipto e Turquia - de acordo com um relatório de Outubro de 2015 de Charles Millon.

Caças-bombardeiros franceses Rafale descolam de uma base aérea no Golfo Persa para bombardear posições do Estado Islâmico na Syria central, Outubro 2015 (fonte: DPA).

O fracasso em aproveitar esta oportunidade - talvez em parte devido a uma falta de sentido  de superioridade moral por parte dos formuladores de políticas ocidentais, que adoptaram uma " abordagem orientada a valor " na política externa - deixou a Europa sem influência quando Assad reconquistou o país. com ajuda russa e iraniana. Agora, em vez do processo de Genebra ou de um acordo intermediado pela ONU , pode muito bem haver uma solução na Síria sem o envolvimento do Ocidente .

Pior ainda é uma situação em que os principais aliados da UE - EUA, Israel, Turquia e Arábia Saudita - não aceitam a paz na Síria se isso significar manter o regime de Assad com influência iraniana. Isso poderia significar a internacionalização e o alargamento da guerra com novos beligerantes (incluindo o Hezbollah, o Irão e Israel ), desestabilizando a região e potencialmente gerando milhões de novos refugiados.

O pior caso: Líbia

Na Líbia, os líderes da UE seguiram o caminho oposto, intervindo militarmente para ajudar no derrubo do ditador Muammar Kadafi (1969-2011). Como Charles Millon da GIS observou, foi praticamente uma guerra pessoal travada pelo presidente francês Nicolas Sarkozy, que conseguiu arrastar a OTAN (com objecções italianas).

Sete anos e duas guerras civis depois, a Líbia tornou-se no “principal país de trânsito para os migrantes da África Subsariana”, e “a Europa ainda não tem a solução”, escreveu o príncipe Michael em Março de 2017. O internacionalmente reconhecido mas "ineficaz" Governo do Acordo Nacional (GNA) em Tripoli é largamente controlado por milícias locais, e continua a negociar com o governo de Tobruk e o seu comandante militar o General Khalifa Haftar pelo controle da indústria de petróleo e gás da Líbia .

A França está a avançar com um acordo de paz na Líbia, enquanto a Itália está convencida de que as eleições são prematuras.

A França e a Itália, que têm participações directas nessas operações, permanecem em desacordo sobre um “processo eleitoral” que deveria unir o país com eleições em Dezembro de 2018, observou o embaixador Zvi Mazel em Agosto de 2018. Enquanto o presidente francês Emmanuel Macron pressiona para um acordo de paz, a Itália está convencida de que as eleições são prematuras e podem até reacender a guerra civil. "Num país completamente controlado por milícias, realizar eleições cedo demais é brincar com fogo", escreveu a especialista em SIG Dr. Frederica Saini Fasanotti num relatório em Setembro de 2018.

Entretanto, o efeito colateral do colapso de Kadafi deu aos combatentes muçulmanos e separatistas nómadas liberdade para percorrer o Níger, o Mali e a Mauritânia, conforme descrito por Charles Millon, do GIS, num relatório de Abril de 2012. Permitiu que os jihadistas contrabandeassem armas e explosivos para alimentar uma insurgência na Península do Sinai, no Egipto, enquanto permitiam que os contrabandistas enriquecessem na exploração de migrantes a caminho da Europa.

Iémene e Arábia Saudita

Se a Líbia é uma história que serve de lição, o Iémene poderá ser pior. O país mergulhou numa guerra civil de três vias após a destituição do presidente Ali Abdullah Saleh (1990-2012). Tal como a Síria, o Iémene tornou-se num campo de batalha entre o Irão - que apoia os rebeldes xiitas Houthis - e a Arábia Saudita, que interveio para impedir que o país se fragmentasse e caísse nas mãos do seu arqui-inimigo em Teerão.

O príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, que conduz uma campanha de alto risco para modernizar o reino, apostou praticamente tudo numa campanha agressiva para romper o cerco iraniano. No entanto, a guerra não está indo bem, e a pressão que está a colocar nas finanças e nas relações da Arábia Saudita entre os Estados do Golfo é considerável.

A localização do Iémene numa zona altamente estratégica nas proximidades do Canal do Suez e próximo à Arábia Saudita - o eixo do mercado mundial de petróleo e da coligação sunita anti-iraniana - aumenta o potencial de alastrar de forma perigosa. No caso de um colapso total, a sua população de quase 28 milhões poderia criar um problema de refugiados correspondente ao da Síria, que tem apenas dois terços do tamanho do Iémene.

Diferenças sobre o Irão

Embora a Europa tenha os seus próprios interesses e simpatias tradicionais no Médio Oriente (incluindo uma relação mais reservada com Israel), ela geralmente se debruçou sobre a política dos EUA durante as últimas etapas da Guerra Fria e especialmente durante a “guerra ao terror”, que gerou intervenções militares da OTAN no Afeganistão e no Iraque.

Como muitas outras coisas nas relações transatlânticas, isso mudou com a administração do presidente Donald Trump. A sua decisão de se retirar do acordo nuclear com o Irão, ou o Plano de Acção Integral Conjunto (JCPOA), resultou na re-imposição de sanções económicas dos EUA contra o Irão e cortaria todos os embarques de petróleo e gás daquele país em Novembro, dado que após 180 dias de reflexão o acordo termina.

Essas acções levaram a outra divisão entre os EUA e a Europa, que continua comprometida com o JCPOA e trabalha de forma a salvar o acordo. O mais preocupante para a coesão da aliança ocidental, que poderia incluir soluções financeiras - possivelmente incluindo um novo sistema de compensação de pagamentos promovido pelo ministro alemão dos negócios estrangeiros Heiko Maas - que permitam que as empresas da UE evitem sanções americanas para conduzir negócios com Teerão.

Enquanto a Europa tem as cartas mais fracas nesta disputa, está claramente a tentar se tornar num participante independente, como observou o especialista em SIG, Dr. Udo Steinbach, num relatório de Setembro de 2018. O conflito será um teste importante “para a independência e credibilidade das políticas europeias”, escreveu ele, e também pode ter um impacto importante no Irão, onde o governo do Presidente Rouhani pode continuar a cumprir o JPCOA e a usar o apoio da UE como “uma importante carta na luta pelo poder interno, combatendo com uma linha dura que quer acabar com o acordo e estão a procurar um confronto com Washington.”

Como a UE e os seus países membros decidirem lidar com o Irão poderá ter implicações mais amplas. Geopoliticamente, a decisão de desafiar os EUA nas sanções colocaria a Europa contra a emergente coaligação sunita-israelita no Médio Oriente, que parece ser o novo eixo da política americana, disse o príncipe Michael em Janeiro de 2018 .

Pilar negligenciado: Egipto

Uma das principais vítimas do desligamento norte-americano do Médio Oriente sob o presidente Barack Obama foi um dos aliados mais próximos dos EUA e parceiros estratégicos: o Egipto. A disposição de Washington de permitir que uma revolta popular derruba-se o aliado de longa data Hosni Mubarak (1981-2011) e aceitasse a eleição do presidente Mohamed Morsi (2012-2013), um membro da Irmandade Muçulmana, irritou as elites políticas no mundo árabe sunita. Depois de o comandante do exército Abdel-Fattah El-Sisi ter derrubado Morsi num golpe de estado, Washington deixou-o mais ou menos por conta própria enquanto ele procurou estabilizar o país e retirá-lo de uma crise económica catastrófica.

Para a Europa, as apostas no Egipto são altas. Já em Julho de 2013 , Bernard Siman advertia que “uma prolongada instabilidade política ou mesmo uma guerra civil” neste país de 92 milhões de habitantes poderia produzir uma crise de refugiados que minaria a Síria. Nos cinco anos seguintes, El-Sisi manteve cuidadosamente o Egipto fora dos conflitos armados no Iraque, na Síria e no Iémene. Como observou o embaixador Mazel (ex-embaixador de Israel no Egipto), ele tomou a decisão de se concentrar em “ameaças de segurança imediatas e próximas ao seu país” e de dar prioridade ao crescimento económico.

O Egipto embarcou em reformas económicas ousadas e arriscadas que aumentam o custo de vida das pessoas comuns.

Isso exigiu medidas ousadas e arriscadas, como a redução dos subsídios à energia, a introdução de um imposto sobre o valor acrescentado e a flutuação da libra egípcia - factores que aumentaram o custo de vida das pessoas comuns. O presidente El-Sisi também se tornou um dos poucos líderes árabes - junto com o presidente da Tunísia Mohamed Beji Caid Essebsi e o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman na Arábia Saudita - a pressionar por reformas religiosas e uma interpretação mais moderada do Islão adaptada ao mundo moderno, como o embaixador Mazel apontou num relatório de Outubro de 2018.

O Egipto continua a enfrentar ameaças de segurança de grupos jihadistas e do Hamas, que ajudaram a sustentar uma insurgência teimosa na Península do Sinai. Outra grande preocupação é com os seus vizinhos do sul. O projecto da Etiópia de construir a maior represa hidroeléctrica da África no Nilo Azul poderia reduzir seriamente o suprimento de água ao Egipto - uma questão de vida ou de morte. Como o embaixador Mazel observou num relatório de Maio de 2018, isso poderia literalmente desencadear uma guerra da água, com cenários que incluiriam o envio de jactos das forças aéreas egípcias para destruir a represa.


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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O PESADELO DA EUROPA A TORNAR-SE REALIDADE: AMÉRICA VS RÚSSIA ... NOVAMENTE

O PESADELO DA EUROPA A TORNAR-SE REALIDADE: AMÉRICA VS RÚSSIA ... NOVAMENTE



Por Dmitri Trenin


A Rússia está a aprender a viver em um novo ambiente hostil de sanções económicas lideradas pelos EUA e em confronto político com os Estados Unidos. Há mais de cinco meses após a alteração de regime em Kiev, que marcou o início de uma nova era na política externa de Moscovo e as suas relações internacionais, um esboço da nova estratégia de segurança da Rússia está a surgir. Ela é desenhada para o longo prazo e, vai provavelmente, ter impacto sobre o cenário global.

O pressuposto central nessa estratégia é que a Rússia está a responder às políticas norte-americanas que se destinam a enquadra-la e a imobiliza-la para baixo - e para trás. O Kremlin absolutamente não podia ignorar os acontecimentos na Ucrânia, um país de extrema importância para a Rússia. O levantamento armado em Kiev levou ao poder uma coligação de ultra-nacionalistas e políticos pró-ocidentais: a pior combinação possível que Moscovo poderia imaginar. O presidente Putin viu isso como um desafio tanto para à posição internacional da Rússia como à sua ordem interna.

Aceitando assim, o desafio, significa um verdadeiro conflito e de longo prazo com os Estados Unidos. A oposição verbal à hegemonia global dos EUA não foi suficiente. Ao contrário da guerra na Geórgia de 2008, a Ucrânia não foi um episódio que pudesse ser localizado e suportado com segurança. Essencialmente, a actual disputa russo-americana é sobre uma nova ordem internacional.

Para um futuro próximo, a Ucrânia continuará a ser o principal campo de batalha dessa disputa. As tácitas de Moscovo podem mudar, mas os seus interesses centrais não. O objectivo principal é barrar a entrada da Ucrânia na NATO, e a entrada dos militares dos EUA na Ucrânia. Outros objectivos incluem a manutenção da identidade cultural russa no sul e no leste da Ucrânia, e manter a Crimeia russa. No muito longo prazo, o estatuto da Crimeia será o emblema do resultado da competição.
Em termos mais amplos, a competição não é tanto pela Ucrânia enquanto europeísta e a sua direcção. Ao contrário ao início da Guerra Fria, com o seu medo generalizado e dominante do comunismo, a situação actual na Ucrânia e o conflito mais alargado entre os EUA e a Rússia pode ser fracturante. Os europeus ocidentais em geral ainda não vêem ainda nenhuma ameaça da Rússia; eles também dependem de fontes de energia russas e do mercado russo para as suas exportações de manufaturados.

A Rússia irá procurar salvar o máximo das suas relações económicas com os países da União Europeia quanto possível, especialmente para manter algum tipo de acesso à tecnologia e investimento europeu. Também irá trabalhar para proteger o mercado para o seu abastecimento de energia para a Europa. Nesse esforço, Moscovo vai se concentrar com a Alemanha, Itália, França, Espanha e vários outros países de menores dimensões - desde a Finlândia à Áustria e à Grécia - na qual a Rússia tem construído extensas relações comerciais.

O ideal que a Rússia gostaria de ver seria a Europa reconquistar uma medida de independência estratégica em relação aos Estados Unidos. Moscovo tem esperanças que a punição liderada pelos Estados Unidos à Rússia, feita principalmente às custa do comércio da UE com a Rússia, pode levar a divisões transatlânticas e divisões intra-UE. No entanto, os russos já sentem que no futuro próximo a Europa seguirá os Estados Unidos, mesmo que à distância. Assim, pelo menos no curto prazo, a Rússia terá que contar com uma Europa mais hostil.

Os cálculos russos de longo prazo estão relacionados com o surgimento constante de uma Alemanha como grande potência do século XXI e líder da Europa de facto. Este processo, ao longo do tempo, poderá dar á UE o carácter de um verdadeiro "player" estratégico e fazer das relações da Europa com os Estados Unidos mais equitativas. Mesmo que os interesses de Moscovo e Berlim difiram significativamente, uma Alemanha forte pode não necessariamente levar a uma fácil compreensão com a Rússia, as relações russo-alemãs são de uma prioridade crescente para o Kremlin.

Estes cálculos no entanto, são para um futuro distante. Por enquanto, a Rússia tenta compensar as perdas no comércio ocidental e a sua posição vis-a-vis com a Europa e os Estados Unidos através de uma nova extensão para a Ásia. A importância da China para a Rússia aumenta, pois é a única grande economia imune a sanções de iniciativa norte americanas. Preocupada ao mesmo tempo em tornar-se potencialmente demasiado dependente do seu gigantesco vizinho, a Rússia tentará envolver outros países, como o Japão e a Coreia do Sul, mas, como no caso da Europa, as relações desses países com a Rússia será limitado por causa das suas alianças com os Estados Unidos.

Dada a natureza fundamental do conflito entre a Rússia com os Estados Unidos, Moscovo procura agora consolidar as suas conexões com países não-ocidentais. O grupo BRICS, que reúne o Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul, é uma plataforma natural para isso. A recente cimeira BRICS no Brasil deu um primeiro passo para a criação de instituições financeiras comuns. A Rússia recebeu algum apoio moral dos seus parceiros e está a trabalhar para melhorar as relações com os outros países na América Latina, Ásia, Médio Oriente e África. No entanto, para realmente fortalecer os seus laços com o não-Ocidente, a Rússia terá de expandir consideravelmente as relações económicas: uma exigência difícil. A Índia é aqui uma prioridade-chave, seguida pela ASEAN.

Politicamente, a Rússia já se posiciona a caminho - com todos aqueles descontentes com o domínio global dos EUA. Estes países estão a assistir ao confronto entre Rússia e os Estados Unidos, com grande interesse, e estão a tirar conclusões para si próprios. Em particular, eles olham para o que um país como a Rússia pode receber em troca com isso, e que custo tem de suportar por isso. Dada a natureza muito diversa do mundo não-ocidental, que a Rússia tem aderido agora, não é realista para Moscovo esperar muita da solidariedade dos seus parceiros de lá. No entanto, o dueto russo-chinês no Conselho de Segurança da ONU pode se tornar um ponto de encontro para aqueles que realmente precisam de uma alternativa à dominação ocidental.

O Kremlin entende, é claro, que as mais sérias ameaças potenciais à segurança nacional da Rússia vêm de dentro do país. No seu recente discurso proferido no Conselho de Segurança Nacional, o Presidente Putin alterou as prioridades do Kremlin, na seguinte ordem: melhoria das relações inter-étnicas no vasto e muito diversificado país; reforçar a ordem constitucional e a estabilidade política na Rússia; promoção do desenvolvimento económico e social, com especial atenção para as regiões expostas, vulneráveis, ou deprimidos da Federação Russa. Qualquer problema grave em qualquer uma dessas áreas, Putin está convencido, que poderá ser usada pelos Estados Unidos para enfraquecer a soberania da Rússia e a integridade territorial.

Esta lista pede mais controlo do governo sobre a situação interna, uma nova política económica para reindustrializar a Rússia e reduzir a sua dependência do Ocidente em áreas críticas, redistribuição cuidadosa de recursos para lidar com as fraquezas e vulnerabilidades e ganhar mais aliados para o governo em diferentes grupos da sociedade. Pede também uma educação mais consciente da elite nacional e patriótica das novas gerações de russos. Até certo ponto, a pressão ocidental auxilia os esforços do Kremlin.

Em termos de segurança militar, as principais ameaças para a Rússia, na visão de Putin, vêm de infra-estrutura militar da NATO que se avizinham para a Rússia (negociações quase feitas agora); das defesas de mísseis balísticos dos EUA, que são vistos como claramente dirigidas à desvalorização de dissuasão nuclear da Rússia; e dos sistemas estratégicos não nucleares que podem atacar alvos russos com alta precisão. Isto exige o reforço do próprio esforço de modernização militar da Rússia, com ênfase tanto sobre as forças nucleares que devem permanecer um elemento de dissuasão credível, e sobre as forças convencionais que podem ser utilizadas em vários cenários no perímetro das fronteiras da Rússia e no exterior. Os Estados Unidos e a NATO estão de volta como adversários prováveis.

A competição, pouco ética e assimétrica como pode ser, é provável que seja difícil e longa. As sanções não fará Putin recuar. Ele também sabe que se voltasse para trás, a pressão sobre ele iria aumentar. A elite russa pode ter que passar por uma grande transformação, e uma rotatividade do pessoal, como resultado do crescente isolamento do Ocidente, mas o povo russo em geral são mais propensos a aumentar o patriotismo sob pressão de fora - especialmente se Putin se inclinar a combater mais a corrupção pública e a arbitrariedade burocrática. Se o Kremlin, no entanto, transformar o país numa fortaleza sitiada e introduzir a repressão em massa, ele definitivamente vai perder.

É muito cedo para especular como o desafio pode acabar. As apostas são muito altas. Qualquer concessão séria por Putin irá levá-lo a perder o poder na Rússia, o que provavelmente irá tornar o país num grande sobressalto, e qualquer concessão séria pelos Estados Unidos - em termos de sitiar a Rússia - vai significar uma redução palpável de influência global dos EUA, com consequências para seguir na Ásia, no Oriente Médio e em outros lugares. Ironicamente, o desafio à actual potencia predominante do mundo não vem da presente segunda potencia mundial, mas a partir de um antigo candidato, que se pensava ser praticamente extinto. A China não poderia ter esperado por tal ajuda.


Dmitri Trenin é o Director do Carnegie Moscow Center. 


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