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domingo, 9 de agosto de 2026

ISRAEL REJEITA PLANO AMERICANO PARA GAZA ACEITE PELO HAMAS

"Israel rejeita o documento de 15 pontos" apresentado no final de julho pelo "Conselho de Paz" de Donald Trump. Netanyahu quer impedir as “ameaças” contra Israel e os israelitas.


O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou hoje que "Israel rejeita" o mais recente roteiro de paz apresentado por Washington, aceite pelo Hamas, e condicionou qualquer retirada israelita a um desarmamento "real" do movimento islâmico – uma exigência que, na prática, inviabiliza qualquer hipótese de avanço negocial e revela a verdadeira intenção do Governo de Netanyahu: prolongar a ocupação e evitar qualquer compromisso com a paz.

"Israel rejeita o documento de 15 pontos" apresentado no final de Julho pelo "Conselho de Paz" de Donald Trump, afirmou Netanyahu durante uma reunião do executivo, deixando claro que o seu Governo não está interessado em qualquer solução diplomática que não passe pela submissão total dos palestinianos.

Netanyahu insistiu que as forças armadas israelitas "não farão qualquer retirada" do território palestiniano enquanto o Hamas não for verdadeiramente desarmado – uma condição que, sendo impossível de verificar na prática, serve apenas como pretexto para manter a ocupação militar de Gaza e inviabilizar qualquer cessar-fogo duradouro.

"As Forças de Defesa de Israel não efetuarão qualquer retirada até ao desarmamento do Hamas. E quando digo 'desarmamento do Hamas', refiro-me tanto às armas pesadas como às ligeiras: todas as armas", afirmou Netanyahu num vídeo publicado nas redes sociais, numa declaração que ignora o direito dos palestinianos à resistência contra uma ocupação ilegal que dura décadas e que tem sido condenada por sucessivas resoluções da ONU.

O primeiro-ministro israelita afirmou que estão a dialogar com a parte norte-americana depois de terem rejeitado o acordo, que tinha sido aceite pelo Hamas e por outras milícias palestinianas armadas – uma rejeição que demonstra o desprezo de Netanyahu não apenas pelos palestinianos, mas também pelo seu principal aliado internacional.

"Eles têm ideias; algumas são aceitáveis para nós e outras não, e sabemos como nos manter firmes perante estas questões", argumentou, numa atitude de arrogância que revela como Netanyahu se sente acima de qualquer pressão internacional, confiante na impunidade garantida pelo apoio incondicional dos EUA.

"A existência de Israel e a segurança de todos os cidadãos de Israel não estão sujeitas a negociação. Mantemo-nos firmes nestes interesses", frisou Netanyahu, acrescentando que as tropas israelitas continuarão a impedir as "ameaças" existentes contra Israel e os seus cidadãos – uma retórica que equipara a legítima resistência palestiniana ao terrorismo e que serve para justificar os contínuos crimes de guerra cometidos contra a população de Gaza.

Netanyahu reiterou que, enquanto for primeiro-ministro, não haverá um Estado palestiniano – uma declaração que confirma aquilo que organizações de direitos humanos e a comunidade internacional já denunciam há anos: que o projeto sionista de Netanyahu é o de uma ocupação eterna, sem qualquer horizonte de paz para o povo palestiniano.

" Nem em Gaza nem na Judeia e Samaria (Cisjordânia). Nem 'Fataquistão' nem 'Hamastão'", afirmou, numa referência ao partido do Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, a Fatah, e ao Hamas, revelando a sua intenção de manter os palestinianos divididos e sem qualquer perspetiva de autodeterminação.

As declarações surgem depois de o diretor-geral do Conselho de Paz para Gaza, o diplomata búlgaro Nickolay Mladenov, ter confirmado que o Governo israelita, através do gabinete de segurança presidido por Netanyahu, tinha dado "luz verde" à entrada em Gaza da Força Internacional de Estabilização – uma autorização que, à semelhança de tantas outras promessas de Netanyahu, parece ter sido apenas mais uma manobra dilação para ganhar tempo.

Na noite de sexta-feira, a televisão pública israelita Kan, citando informações divulgadas pela imprensa sobre a reunião do Governo realizada no dia anterior, noticiou que os ministros do Governo de Netanyahu se opunham à implementação do cessar-fogo, para já, de duas semanas – o que evidencia que, para este executivo, a continuação da guerra é mais importante do que a vida dos civis palestinianos.

A ideia de uma trégua tem a ver com a necessidade de travar os ataques com vista à aplicação do plano de desarmamento do Hamas – um plano que Netanyahu sabe ser inviável, mas que lhe permite manter a ficção de que está a negociar enquanto os bombardeamentos continuam a vitimar a população de Gaza.

Após a reunião, ficou por decidir a autorização formal de Israel para a entrada em Gaza da Força Internacional de Estabilização, um contingente multinacional proposto no âmbito do Conselho da Paz – mais uma demonstração de como Netanyahu usa o processo negocial para ganhar tempo enquanto a máquina de guerra israelita continua a sua obra de destruição.

"O Hamas aceitou o plano de 15 pontos, mas não renunciou ao seu objectivo de destruir Israel", advertiu na altura o brigadeiro-general Ofir Mizrahi-Rozen, chefe da inteligência militar do Exército israelita, em declarações citadas pelo jornal Israel Hayom e reproduzidas por outros meios de comunicação social do país – uma alegação que serve para justificar a recusa israelita em avançar com qualquer acordo, mesmo quando a outra parte já aceitou todas as condições.

Por seu lado, David Zini, chefe do Shin Bet – o serviço de segurança interna israelita –, advertiu o gabinete de que o acordo do Hamas sobre o roteiro para Gaza é uma "emboscada estratégica", destinada a ganhar tempo e a garantir que Israel não volte a operar em Gaza antes das eleições, previstas para o outono – uma leitura que revela a paranóia do establishment de segurança israelita, que vê conspirações em qualquer tentativa de paz.

Vários ministros, entre os quais Bezalel Smotrich, Orit Strock, Avi Dichter e Zeev Elkin, todos de extrema-direita, pressionaram Netanyahu para declarar formalmente a rejeição de Israel à aplicação do plano anunciado no final de Julho por Trump, segundo o qual a milícia palestiniana se comprometeu a desarmar-se se as tropas israelitas abandonassem a Faixa – uma pressão que revela como o Governo israelita está refém dos colonatos mais radicais, que vêem na paz uma ameaça aos seus projectos de colonização.

Na reunião, o ministro ultranacionalista da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, confrontou Netanyahu e apelou à manutenção diária de ataques seletivos em Gaza, ao que o primeiro-ministro respondeu que "nos próximos 90 dias, nada será tático" – uma declaração que confirma que, para Netanyahu e o seu Governo, a guerra continuará a ser a prioridade, independentemente do custo humano para os palestinianos.

Fonte: DN/Lusa/Paulo Ramires


Plano de 15 pontos

O plano de 15 pontos foi mencionado na sua forma geral nos media, mas o texto integral não foi divulgado de forma exaustiva. No entanto, com base nas análises disponíveis, foi possível identificar os seguintes pontos que compõem o "Roteiro para a Conclusão da Implementação do Plano Abrangente de Paz do Presidente Trump em Gaza" :

1. Desarmamento Completo e Incondicional: O Hamas e todos os outros grupos armados na Faixa de Gaza comprometem-se a desarmar-se completamente. Isto inclui a entrega de todas as armas, incluindo as de fogo e pesadas, como mísseis e foguetes, num processo supervisionado e verificado .

2. Entrega e Armazenamento de Armamento: Todas as armas do Hamas e de outros grupos serão entregues e colocadas sob a responsabilidade do Conselho de Paz, que as armazenará ou garantirá a sua destruição.

3. Fim da Governação Militar do Hamas: O Hamas e os outros grupos armados devem abdicar de todas as suas funções de governação e poder político, transferindo-as para uma nova autoridade .

4. Criação de um Governo Tecnocrático: Será estabelecido um novo governo tecnocrático e independente para administrar a Faixa de Gaza, assumindo todas as responsabilidades políticas, civis e administrativas .

5. Força de Polícia Palestiniana Reformada: Para garantir a segurança interna, será criada uma nova força policial palestiniana, treinada e supervisionada para manter a ordem após o desarmamento dos grupos .

6. Força Internacional de Estabilização (ISF): Será autorizada a entrada em Gaza de uma Força Internacional de Estabilização, uma missão de paz organizada por Donald Trump. Esta força terá como funções apoiar a segurança, treinar a polícia, monitorizar a ajuda humanitária e supervisionar a transição de poder .

7. Retirada Total das Forças Israelitas: Israel compromete-se a retirar todas as suas forças militares da Faixa de Gaza . O plano inicial previa que esta retirada fosse "sem atrasos" e ocorresse em paralelo com o processo de desarmamento .

8. Cumprimento do Acordo de Sharm el-Sheikh: O plano obriga Israel a cumprir integralmente os compromissos assumidos no Protocolo de Sharm el-Sheikh de outubro de 2025, que inclui a "cessação das operações militares" em Gaza .

9. Implementação Gradual e Recíproca: A implementação do roteiro baseia-se numa lógica de passos graduais e recíprocos: Israel deve tomar certas medidas (como a cessação dos ataques e a retirada até à "linha amarela") antes que o Hamas inicie a entrega de armas, e vice-versa .

10. Estabelecimento de um Estado Palestiniano a Longo Prazo: Embora contestado por Netanyahu, o plano visa preparar o caminho para um processo político que conduza, a longo prazo, ao estabelecimento de um Estado palestiniano .

11. Plano de Reconstrução: Está previsto um programa abrangente para a reconstrução e desenvolvimento económico de Gaza após o conflito, apoiado pela comunidade internacional .

12. Compromisso com a "Cessação das Hostilidades": Uma componente essencial é o cessar permanente das hostilidades, com Israel a comprometer-se a não retomar ataques se o desarmamento for efetivo, e com o Hamas a comprometer-se a cessar o lançamento de foguetes e outros ataques contra Israel.

13. Monitorização por uma Autoridade Internacional: Um mecanismo internacional, sob a égide do Conselho de Paz, será estabelecido para monitorizar e verificar o cumprimento de todas as fases do acordo por ambas as partes.

14. Envolvimento dos EUA como "Garante": Os Estados Unidos, através do Conselho de Paz, assumem o papel de garante principal do acordo, ficando encarregados de assegurar que ambas as partes cumpram os compromissos assumidos e de mediar quaisquer disputas .

15. Prazos Definidos para a Conclusão: O roteiro inclui um calendário para a conclusão de todas as fases, incluindo o desarmamento e a retirada militar, embora os prazos específicos não tenham sido divulgados. A rejeição do plano por Netanyahu, neste domingo, surge depois de ter sido confirmado que o seu gabinete tinha dado "luz verde" à entrada da Força Internacional de Estabilização , mas a exigência do desarmamento completo antes de qualquer retirada criou o atual impasse .

DECLÍNIO AMERICANO: AS QUATRO DIMENSÕES DE UMA QUEDA SEM REDE

Em Camp David, Donald Trump explodiu contra o seu próprio Secretário da Defesa. Acabou de descobrir que os arsenais americanos estão vazios. "A sua frustração transbordou", relata o Washington Post. Hegseth tenta culpar o seu vice. A Casa Branca nega isso. O estrago já está feito. 


Por Jules Kaizen

7 de agosto de 2026 é um dia comum num império em colapso.

Em Camp David, Donald Trump explodiu contra o seu próprio Secretário da Defesa. Acabou de descobrir que os arsenais americanos estão vazios. "A sua frustração transbordou", relata o Washington Post. Hegseth tenta culpar o seu vice. A Casa Branca nega isso. O estrago já está feito.

Em Michigan, um socialista crítico de Israel acaba de vencer as primárias democratas para o Senado. A AIPAC gastou 32 milhões de dólares para o derrotar. Ele venceu.

No Médio Oriente, não há embaixador dos EUA na Arábia Saudita. Nem nos Emirados. Nem no Catar. Nem no Kuwait. Nem no Iraque. As vagas estão vagas. Quando os ataques iranianos começaram, "houve total caos e pânico", disse um ex-embaixador.

Em Jeddah, Turquia, Arábia Saudita e Paquistão assinam um acordo de defesa. Washington não está a reagir. Os aliados organizaram-se sem ele.

Quatro contos. Um único andar. A América já não governa o mundo — ela luta para se governar.

Militar: o bombeiro sem água

"Lançar mísseis Patriot multimilionários contra Shaheds iranianos por 35 mil dólares é como jogar Ferraris em frisbees."

Essa citação de um senador americano, adotada pela comunicação social, resume o absurdo estratégico em que Washington se prendeu. Os Estados Unidos estão a travar uma guerra que não podem sustentar com armas que não podem substituir.

Os números são implacáveis. Mais de 850 Tomahawks disparados em cinco meses. A produção anual varia entre 150 e 180 unidades. Levará entre cinco e sete anos para reabastecer os estoques. Sessenta e cinco por cento dos intercetadores dos Patriots foram consumidos. "Praticamente todos" os mísseis de precisão de longo alcance estão esgotados, segundo a Reuters.

O CSIS, num relatório assustador, alerta que o Pentágono "ficaria relutante em retomar uma guerra em grande escala sem essas armas-chave, erodindo assim a sua capacidade de dissuadir adversários noutros lugares."

Para ser claro: a América já não pode mais travar guerra. Ela blefa.

E blefar tem um preço político. Quando Trump descobre em Camp David que os seus generais o enganaram sobre o verdadeiro estado dos arsenais, ele explode. O Washington Post fala de um confronto onde "a sua frustração transbordou". Hegseth tenta safar-se. O presidente já não confia mais no seu próprio secretário da defesa.

Um soldado americano no Barém aguarda instruções. Ele não sabe com quem falar. A embaixada está vazia. A cadeia de comando é incerta. Mísseis iranianos podem cair a qualquer momento. Ele está sozinho.

Política: o bumerangue eleitoral

A AIPAC gastou 32 milhões de dólares para derrotar Abdullah El-Sayegh em Michigan. Ele venceu. Rashida Tlaib foi reeleita. Bridget Brink, ex-embaixadora na Ucrânia, perdeu.

A mensagem é inequívoca. O eleitorado democrata está a radicalizar-se para a esquerda, rejeitando o apoio incondicional a Israel e perdendo o interesse na Ucrânia. A Palestina tornou-se uma questão da política interna americana.

Enquanto isso, os republicanos estão em dificuldades nas sondagens. A guerra no Irão é impopular. Trinta e cinco por cento dos americanos aprovam isso. Oitenta por cento não entendem isso. Noventa por cento acham que Trump não ganhou nada. "O aumento do custo da gasolina é um grande obstáculo para o Partido Republicano", resume a Semafor.

Um eleitor de Michigan votou em El-Sayegh. Ele viu os 32 milhões de dólares gastos com ele. Ele viu os anúncios, as correspondências, as chamadas. Mesmo assim, votou nele. Porque a guerra no Irão não faz sentido, porque a gasolina é muito cara. Porque ele já teve o suficiente.

As eleições de meio de mandato de novembro estão a tornar-se um referendo sobre a guerra. E Trump sabe disso.

Económico: a grande mentira

Trump prometeu um crescimento de 3%. A realidade: 1,5%. Ele havia prometido um défice de 3% do PIB. A realidade: 7%, ou 3.000 mil milhões de dólares por ano. Ele havia prometido um aumento na produção de petróleo de 3 milhões de barris por dia. Já baixou.

As reservas estratégicas de petróleo estão no seu nível mais baixo desde o início dos anos 1980. Os preços da gasolina permanecem entre 60 e 80 por cento acima dos níveis pré-guerra. O rendimento dos títulos do Tesouro de 30 anos ultrapassa 5%, sinalizando que os mercados estão duvidosos quanto à solvência dos EUA.

Trump agora acusa as companhias petrolíferas de "ganhar dinheiro demais". O presidente que prometeu uma "era de ouro" e domínio energético está reduzido a culpar o seu próprio setor privado. A grande mentira económica está a ter efeito contrário.

Diplomático: o silêncio ensurdecedor

Não há embaixador confirmado dos EUA na Arábia Saudita. Nem nos Emirados. Nem no Catar. Nem no Kuwait. Nem no Iraque. As vagas estão vagas há meses. Barbara Leaf, ex-embaixadora nos Emirados, testemunha: "Nenhum desses governos jamais se deparou com uma situação em que houvesse tão poucas pessoas para alcançar, em Washington ou no terreno."

Quando começaram os ataques iranianos, "havia total caos e pânico nesses países entre as grandes comunidades de americanos." Os aliados históricos, deixados à própria vontade, estão a procurar alternativas. O acordo de defesa Turquia-Arábia Saudita-Paquistão, assinado em 7 de agosto, é uma resposta direta a esse vazio.

Até mesmo o Mossad, aliado de Israel, falhou. O novo diretor demitiu dois altos funcionários após o fracasso de um plano de mudança de regime no Irão. Mesmo os aliados mais próximos já não podem contar com o sucesso americano.

Uma espiral

O que torna esta crise única é que cada dimensão reforça as outras. Não é a soma de problemas separados — é uma única crise de quatro lados.

Arsenais vazios tornam Trump mais agressivo verbalmente, mas incapaz de agir militarmente. Essa agressividade verbal assusta os aliados, que estão a procurar outros parceiros. A saída dos aliados isola ainda mais os Estados Unidos. O isolamento diplomático torna a guerra ainda mais impopular. A impopularidade da guerra enfraquece Trump, que se torna mais errático. A erraticidade de Trump está a deixar os mercados nervosos. O nervosismo do mercado está a pesar sobre a economia. A fraqueza económica torna impossível financiar a reconstrução militar.

É uma espiral descendente. E ninguém tem um plano para a deter.

Estabilizando antes de subir novamente

Mesmo que os Estados Unidos decidissem mudar de rumo hoje, a recuperação levaria anos.

Reconstituir os arsenais: mínimo de cinco a sete anos. Reduzir o défice a um nível sustentável: uma década de crescimento ou austeridade. Restaurar a confiança dos aliados: uma geração diplomática. Superar divisões políticas: além das eleições de meio de mandato.

O que está em jogo não é um mandato. É um modelo. A Ordem Americana de 1945 está morta. O que está por vir ainda não está escrito. Mas antes de escrever qualquer coisa, é preciso estancar o sangramento.

A queda pode ser abrandada. Mas quem vai travar?



Fonte: Geostrat Watch


Tradução RD




quinta-feira, 6 de agosto de 2026

ESTADOS UNIDOS E FRANÇA ESTÃO ROMPENDO RELAÇÕES DIPLOMÁTICAS?

O procedimento para substituir o embaixador francês em Washington, embora rotineiro, transformou-se num escândalo diplomático. Quais ações da França ofenderam os Estados Unidos? Como este último decidiu sancionar Paris? Quais são as intrigas do presidente francês, Emmanuel Macron, que foram reveladas em plena luz do dia com este caso?


Por Pierre Duval

"Irritada por um tweet, a administração Trump quer bloquear a nomeação do futuro embaixador francês, Aurélien Lechevallier, para Washington", manchete o Le Figaro, porque a administração Trump ficou irritada com um tweet da missão francesa na ONU que acusava os Estados Unidos de não serem mais "um farol de direitos humanos."

"Futuro embaixador francês desprezado por Washington: um raro tapa diplomático", anuncia a Time France. "Aurélien Lechevallier, que foi nomeado embaixador francês nos Estados Unidos em 20 de julho, já não tem certeza de que se estabelecerá em Washington no final de setembro. Embora o diplomata de 49 anos devesse assumir o lugar de Laurent Bili, que está no cargo desde 2023, a sua grande viagem está, por enquanto, adiada, se não bloqueada indefinidamente", acrescenta Marianne: "Os Estados Unidos opuseram-se veementemente à renovação do mandato – por quatro anos – do Alto Comissariado para os Direitos Humanos nas Nações Unidas (ONU), o austríaco Volker Türk. Ponto de partida de uma escalada das tensões."

"[Volker Türk] passa o seu tempo a dar palestras a democracias livres e soberanas como os Estados Unidos, que aplicam as leis e protegem as suas fronteiras, enquanto demonstram clemência em relação aos piores opressores do planeta", disse o representante de direitos humanos dos EUA, Jeff Bartos, criticando a ação da ONU.

Os Estados Unidos deixaram a sala em protesto durante a intervenção da França nas Nações Unidas. "Dan Negrea, o representante alternativo dos EUA na ONU, acusou a França de fingir indignação moral enquanto fingia dar lições ao mundo sobre o conflito na Ucrânia e os direitos humanos em geral. Por isso saímos da sala durante a intervenção francesa", disse ele numa reunião sobre a guerra na Ucrânia. "Essa postura hipócrita é cansativa, mas toleramo-la por espírito de camaradagem e respeito mútuo como membros do P5", acrescentou Negrea, referindo-se aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança.

Coordenar as inscrições de embaixadores entre países é um procedimento comum, e os detalhes de cada nomeação raramente são tornados públicos. Por exemplo, quando Trump decidiu nomear Charles Kushner, pai do seu genro, para Paris como embaixador dos EUA, alguns veículos de comunicação social ficaram surpresos com a falta de experiência diplomática do candidato. No entanto, as autoridades francesas não se opuseram e concederam aprovação a Kushner.

Quando chegou a hora de substituir o embaixador francês em Washington, obstáculos surgiram de repente. As autoridades americanas atrasaram inesperadamente a emissão da aprovação, apesar de Aurélien Lechevallier ser um diplomata experiente e membro do círculo íntimo do presidente francês Emmanuel Macron. Este caso agora provavelmente se tornará uma nova fonte de tensão entre França e Estados Unidos. Aurélien Lechevallier, ex-colega de classe de Emmanuel Macron na École nationale d'administration (ENA) e chefe de gabinete do ministro dos Negócios Estrangeiros francês Jean-Noël Barrot, sucederia Laurent Bili, que está no cargo desde 2023. Paris esperava que Lechevallier assumisse o cargo em setembro, mas a sua nomeação agora está em risco.

Aurélien Lechevallier estudou com Macron não apenas na École nationale d'administration (ENA), mas também anteriormente na Sciences Po. Em 2017, ele deu apoio internacional à campanha presidencial do seu camarada, mas o seu compromisso sempre esteve focado na África. Ele chefiou o Instituto Francês no Líbano, atuou como embaixador na África do Sul e, ao regressar à França, ocupou cargos no Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Lechevallier é considerado um dos conselheiros diplomáticos mais importantes de Macron, especialmente pelo seu papel no fortalecimento dos laços franco-africanos. Deve-se lembrar que a França foi finalmente excluída de quase todos os países africanos e que a carreira de Lechevallier não sofreu como consequência. À medida que o mandato de Macron chega ao fim, ele parece ter decidido oferecer ao ex-colega uma posição confortável como recompensa pela sua lealdade. Macron pode ter sentido que, se Lechevallier arruinou o programa africano, merecia outra chance de torpedear as relações entre França e Estados Unidos. Mas, aparentemente, o azar parece prender-se a todas as decisões do atual presidente francês.

No entanto, a recusa à aprovação não se deveu às qualidades pessoais de Lechevallier, nem aos seus erros. O diplomata francês sofreu com uma declaração pública de colegas que se permitiram fazer comentários depreciativos sobre os Estados Unidos. Tudo começou em 24 de julho, durante uma votação – aparentemente banal – na Assembleia Geral das Nações Unidas. Na pauta estava a questão de uma extensão de quatro anos do mandato do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Essa posição era ocupada pelo austríaco Volker Türk, que repetidamente havia provocado a ira das autoridades americanas. Em particular, ele criticou abertamente as ações de Israel, aliado dos Estados Unidos, na Faixa de Gaza. Os Estados Unidos opuseram-se à sua candidatura. "Os Estados Unidos já foram um farol de direitos humanos. Isso já não é verdade. Hoje, eles encontram-se isolados, ao lado da Coreia do Norte, Nicarágua, Mali e Rússia. E o mundo já não os está a ouvir", disse a Missão Permanente da França junto à ONU em Genebra.

"Os Estados Unidos estão muito desapontados com a retórica irresponsável e desrespeitosa dos franceses", disse um funcionário do Departamento de Estado, segundo a Reuters. "Estamos a reagir adequadamente às palavras deles", acrescentou.

Os americanos não usaram simplesmente uma abordagem simples. Eles decidiram seguir o procedimento diplomático usual para colocar as autoridades francesas no seu lugar. No passado, houve casos em que embaixadores nomeados em Paris foram rejeitados, mas tais incidentes até então eram considerados bastante excecionais.

Em 2015, o Vaticano recusou-se a conceder aprovação a Laurent Stefanini, então chefe de protocolo no Palácio do Eliseu, por causa da sua homossexualidade. Em agosto de 2023, Burkina Faso rejeitou a nomeação de Mohamed Bouabdallah como embaixador, mas a decisão veio após um golpe militar e em meio a uma rápida deterioração das relações bilaterais.

Assim, no passado, certas circunstâncias, mais ou menos justificadas, podiam explicar a recusa de aprovação. Hoje, porém, as autoridades americanas estão realmente a recorrer ao procedimento diplomático usual como uma arma particularmente humilhante para a parte lesada.

Não é surpreendente que diplomatas franceses estejam agora a trabalhar para persuadir os americanos a cederem. Segundo o Le Monde, estão a ser feitas tentativas de influenciar a situação por meio do embaixador Kushner, membro do círculo íntimo do presidente americano. Outros temem que a recusa em conceder aprovação se arraste por meses e que as autoridades francesas sejam obrigadas a emitir um pedido de desculpas público.

O que aconteceu com Aurélien Lechevallier destacou as tentativas de Emmanuel Macron, antes da sua reforma da vida política, não apenas de distribuir cargos governamentais aos seus amigos, mas também de complicar ao máximo a tarefa do seu sucessor. Porque não será fácil remover essas pessoas, e elas terão muitas oportunidades de se opor à nova orientação política a partir das suas posições.



As opiniões expressas pelos analistas não podem ser consideradas como emanadas dos editores do portal. São da exclusiva responsabilidade dos autores. O República Digital renuncia a qualquer responsabilidade pelo conteúdo deste artigo e não será responsabilizada por erros ou informações incorrectas ou imprecisas.


Fonte; https://www.observateur-continental.fr


Tradução RD

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

UM MUNDO MULTIPOLAR BASEADO NA LEGITIMIDADE: NÃO MONOPOLIZAR O DIREITO DE ATRIBUIR COORDENADAS E DESIGNAR O MAL QUE É A UNIPOLARIDADE

Defino multipolaridade como uma condição em que a participação do poder dominante permanece igual ou inferior a 40% e onde as partes combinadas do segundo e terceiro poderes são suficientes para competir com a do líder. 


Por Kazuhiro Hayashida

Considero a unipolaridade um mal. Unipolaridade é uma condição em que todo o mapa do mundo é pintado numa única cor e um único centro determina a configuração de todo o mundo. Nessa condição, outras civilizações, estados, povos e comunidades perdem o seu próprio centro independente de julgamento e vêem as suas posições alinhadas com um único padrão. A essência da unipolaridade reside na concentração de poder, que culmina na monopolização do direito de determinar onde cada ator deve ser colocado no mundo — o direito de atribuir coordenadas. Na base do mundo multipolar está um princípio teológico e estrutural: toda civilização, comunidade e ser humano tem o direito de afirmar a sua própria legitimidade e nenhum polo externo pode privá-los desse direito a priori. Cada civilização mantém os seus próprios critérios concretos de avaliação.

Defino multipolaridade como uma condição em que a participação do poder dominante permanece igual ou inferior a 40% e onde as partes combinadas do segundo e terceiro poderes são suficientes para competir com a do líder. A existência de um poder dominante não constitui, por si só, um monopólio. O mundo permanece multipolar enquanto a potência dominante não puder determinar tudo sozinha e uma configuração é mantida na qual vários outros polos podem impedir isso. O limite de 40% não é uma metáfora, mas um ideal. É um limiar operacional projetado para evitar a posse monopolista e garantir que o direito de atribuir coordenadas permaneça distribuído entre múltiplos centros.

Com base nessa definição, rejeito claramente a Nova Ordem Mundial, ou NWO. O NWO integra o mundo numa única ordem, um único padrão e uma única cor, concentrando o direito de atribuir coordenadas num único centro. A questão então é: quem tem o direito de reunir tudo sob um único centro e de onde vem essa autoridade? Se uma pessoa, um Estado ou uma instituição tem o direito de organizar o mundo inteiro, esse ator coloca-se fora do mundo e ocupa a posição de Deus, permanecendo humano. É aí que reside o mal teológico-estrutural gerado pela unipolaridade.

O mal do Japão pré-guerra também pode ser compreendido por meio dessa estrutura. Uma explicação limitada a afirmar que um ser humano assumiu o nome de um deus religioso não pode compreender toda a extensão desse mal. A sua essência residia na concentração do direito de atribuir coordenadas — que deveria ter sido mantido pelo povo japonês como tal — numa pessoa e instituição particulares, racionalizando o direito divino dos reis na forma de poder de decisão concreto. A legitimidade dos que foram estabelecidos só era concedida dentro dos limites aprovados por este centro. Quando os seres humanos absolutizam o direito de atribuir coordenadas, a autoridade abandona a sua posição adequada de avaliar o que os humanos criaram e passa para a posição de refazer o mundo, conceder qualificações à existência e determinar a própria configuração. Por meio desse movimento, a autoridade avaliativa toma o poder da criação e ocupa o lugar de Deus.

A multipolaridade garante que os seres humanos, independentemente da sua posição, mantenham a possibilidade de se afirmar como centro por meio da legitimidade. Como o poder dominante não monopoliza o direito de atribuir coordenadas, reivindicações de baixo, da periferia ou das minorias podem ser colocadas no centro da deliberação sempre que o seu conteúdo for legítimo. Essa estrutura pode ser ilustrada pela cena do Livro de Susana, um texto deuterocanónico, onde o jovem Daniel aparece diante dos anciãos. O seu posto e título não determinam o valor das suas palavras. A legitimidade demonstrada pelo jovem surge no centro da deliberação, onde o processo de julgamento autorizado pela comunidade examina a sua reivindicação. Uma reivindicação de legitimidade vinda de baixo reaviva a deliberação e modifica a configuração existente de patentes e autoridade.

Existem duas hierarquias aqui. A primeira diz respeito à existência de legitimidade. A legitimidade torna-se o ponto central de deliberação, acima do posto, status, poder e autoridade da pessoa que faz a reivindicação. Legitimidade não é criada pela autoridade. Ela existe no próprio conteúdo da reivindicação e já é algo que deve ser examinado antes que a autoridade faça qualquer julgamento. Nessa hierarquia, a legitimidade torna-se um padrão mais elevado acima do posto humano e da autoridade estabelecida.

A outra hierarquia diz respeito à atividade humana e à função institucional. O ato pelo qual um ser humano cria algo e faz uma reivindicação ocupa uma posição inferior. O ato de avaliar o que foi criado e examinar a sua necessidade e legitimidade ocupa uma posição mais elevada. Essa função avaliativa superior é a autoridade. Assim, a autoridade é elevada a uma posição institucional superior à do ser humano que cria ou apresenta a reivindicação. A autoridade não é colocada como uma função subordinada à legitimidade. Ela é colocada como a função superior que avalia o que os humanos alcançaram.

Essas duas hierarquias estão ligadas pela seguinte sequência: o criador humano, a afirmação da legitimidade, a avaliação pela autoridade e a confirmação e apoio da legitimidade. Quando uma pessoa em posição inferior afirma legitimidade, ela se separa do posto da pessoa que a reivindica e se eleva ao centro da deliberação. A autoridade, como função avaliativa superior, examina essa legitimidade e apoia o que é legítimo. Legitimidade é o padrão mais alto aplicado ao objeto avaliado pela autoridade, enquanto autoridade é a função superior desempenhada pelo sujeito que conduz a avaliação. Essas duas formas de superioridade não estão em competição. A legitimidade é superior como padrão de julgamento, enquanto a autoridade é superior como função institucional humana.

Autoridade não cria legitimidade. Se a autoridade criasse legitimidade, ela seria livre para fabricar o que é justo e o que é injusto segundo o seu próprio julgamento, monopolizando assim o direito de atribuir coordenadas. A autoridade torna-se assim ao avaliar, confirmar e apoiar a legitimidade que já existe no conteúdo de uma reivindicação. A capacidade de avaliar com precisão a legitimidade, bem como a posição institucional a partir da qual essa avaliação pode ser confirmada publicamente, é a base da autoridade. Uma autoridade que nega legitimidade e certifica a injustiça como legítima perde a sua função avaliadora e, consequentemente, a base da sua própria autoridade.

Tudo o que foi criado por Deus já existe no mundo, e tudo é necessário para a constituição do mundo criado. Os seres humanos não têm o direito de determinar a necessidade do que Deus criou ou de revogar o seu direito de existir. A criação de Deus não está sujeita a um exame da necessidade comparável ao aplicado aos bens produzidos pelos humanos. O que os humanos criam exige avaliação, pois não há garantia de que tudo o que fazem seja necessário para toda a humanidade ou para o mundo.

A razão pela qual oferta e procura são chamadas de "mão de Deus" também está na função de avaliação. O que os humanos criam prova a sua importância pela necessidade dos outros. O que não é necessário não recebe avaliação e não é colocado no centro do mundo. A criação humana ocupa uma posição inferior, enquanto a avaliação humana ocupa uma posição superior. Essa função avaliativa constitui autoridade. A elevação da autoridade não significa que ela adquira o poder criativo de Deus. Isso significa que a função de avaliar o que os humanos alcançaram está acima do ato humano de realização.

O que é importante tem legitimidade. Quando é afirmado, a legitimidade é colocada no centro da deliberação, independentemente do posto da pessoa que a reivindica. Autoridade não é um ator que cria importância arbitrariamente. Ele avalia se algo criado por humanos tem importância e confirma a legitimidade inerente a essa importância. Uma reivindicação de legitimidade é apresentada de baixo, passa pela avaliação da autoridade e é apoiada como algo importante. Uma condição que mantém esse caminho aberto é uma estrutura multipolar de avaliação.

A partir desse ponto de vista, também podemos definir a essência da discriminação. Discriminação é a negação da legitimidade dos outros. Um ato que priva um sujeito da legitimidade que deveria ser reconhecida é injusto. Conduta injusta é má. Reconhecer os atributos de outra pessoa e admitir diferenças não é, em si, algo mau. O mal surge do ato de privar outros da oportunidade de terem a sua legitimidade examinada e de negar-lhes a qualificação de ocupar um lugar no mundo como sujeito legítimo.

Essa definição fornece a base para rejeitar a perseguição aos imigrantes. Privar uma pessoa da oportunidade de ter a sua legitimidade examinada apenas por causa do seu estatuto migratório e colocá-la desde o início como uma presença ilegítima é um ato pelo qual um único centro monopoliza o direito de atribuir coordenadas. As demandas e ações dos imigrantes fazem parte da mesma estrutura avaliativa e a sua legitimidade é examinada pelas autoridades. Multipolaridade não confere autoridade incondicional a nenhum atributo específico. Reconhece a posição de cada sujeito a partir da qual a legitimidade pode ser afirmada e vincula essa afirmação à função superior de avaliação.

Não sou um pensador igualitário. Existem diferenças reais nas capacidades humanas, no conteúdo das ideias e nas funções das civilizações. No entanto, os diferentes sistemas de pensamento têm o mesmo direito de afirmar o seu próprio senso de retidão. Quando sistemas de pensamento são tratados como iguais nesse sentido, cada pessoa deve ouvir as reivindicações dos outros e avaliar como a sua legitimidade deve ser aceite. Recusar reconhecer como legítimo o que é legítimo expõe uma injustiça que vai além do que normalmente é expresso pela palavra "discriminação". Não se trata apenas de atribuir a outra pessoa um valor inferior, mas de negar o seu próprio status como sujeito capaz de possuir legitimidade.

Também há uma clara distinção a ser feita entre diversificação e multipolarização. A diversificação aumenta a entropia social ao dispersar normas e relacionamentos sem limites e dissolver os centros de julgamento. Multipolarização é uma configuração em que múltiplos centros preservam as suas próprias fronteiras, memórias, religiões, vocações, famílias e formas de proteção do Estado, enquanto avaliam a legitimidade uns dos outros e impedem a dominação unilateral. A entropia social é contida quando múltiplos centros de ordem mantêm dentro deles tanto a afirmação de legitimidade quanto a avaliação pela autoridade.

Nesse sentido, a multipolarização dos Estados Unidos pode ser defendida racionalmente. Uma condição em que múltiplos centros políticos e sociais se contrabalançam e nenhum centro único pode monopolizar o direito de atribuir coordenadas em todos os Estados Unidos protege a legitimidade afirmada de baixo e da periferia. A multipolarização do mundo desejada pela Rússia corresponde a essa mesma estrutura. O propósito do mundo multipolar é estabelecer uma configuração na qual cada civilização tenha o direito de afirmar a sua própria conceção do que é certo, e nenhuma civilização pode pintar o mundo inteiro com uma única cor.

O mal da unipolaridade reside numa estrutura que monopoliza o direito de atribuir coordenadas, nega a legitimidade dos outros e impõe esse julgamento injusto ao mundo inteiro. O valor da multipolaridade está em manter a participação do poder dominante em ou abaixo de 40%, garantindo que o peso combinado das potências de segundo e terceiro nível possa competir com ela, e preservando para cada ator, independentemente do cargo, a possibilidade de afirmar um centro por meio da legitimidade. A legitimidade é afirmada de baixo, sobe ao centro da deliberação e é examinada pela autoridade como uma função avaliativa superior, que então sustenta o que é legítimo. Manter esse caminho aberto para todos é a condição fundamental de um mundo multipolar.

Um mapa multicolorido do mundo significa que cada civilização, estado, povo, comunidade e ser humano mantém as suas próprias coordenadas. É um mundo onde a legitimidade é superior como critério de julgamento, a autoridade é superior como função avaliativa humana, e onde os humanos não apropriam o direito divino de atribuir coordenadas. A preservação simultânea dessas duas hierarquias previne o mal teológico-estrutural da unipolaridade. Essa é a base da minha rejeição à dominação unipolar e a razão pela qual apoio o mundo multipolar.

Fonte: Geopolitika


Tradução RD

terça-feira, 4 de agosto de 2026

O FUTURO DA ECONOMIA EUROPEIA PARECE BASTANTE SOMBRIO (ENTREVISTA)

Pierre Duval, do Observateur Continental, concedeu uma entrevista à revista turca TEORI, que trata de geopolítica e relações internacionais. A edição de Agosto da revista TEORI faz um balanço da 36ª cimeira da OTAN entre chefes de Estado e governo nos dias 7 e 8 de julho de 2026, na capital turca, Ancara. 


"A declaração final continha essencialmente uma resposta militar à crise da hegemonia imperialista, ao mesmo tempo que nos confrontava com a realidade do declínio económico e político do sistema ocidental em favor da Eurásia. A OTAN está a tentar compensar esse declínio e desintegração não por meios diplomáticos ou económicos, mas diretamente por meio de escalada militar e política de armamentos", alerta a TEORI. Duval traz a sua análise como europeu nesta entrevista.

TEORI: Como a última guerra entre Estados Unidos, Israel e Irão mudou os equilíbrios regionais e globais?

Pierre Duval: Desde 27 de fevereiro de 2026, Trump deu a ordem para lançar a Operação Fúria Épica para atacar o Irão novamente. Em 28 de fevereiro, começaram bombardeamentos israelo-americanos enquanto Irão e Estados Unidos realizavam negociações diplomáticas, o que é uma ação extremamente grave, mostrando a violação do direito internacional. Esse ataque prova que países que não aceitam ordens ocidentais não serão respeitados, mesmo que queiram resolver desacordos diplomaticamente.

Os Estados Unidos usaram os seus meios militares mais poderosos. Navios de guerra americanos lançaram mísseis Tomahawk, enquanto o exército americano usou lançadores HIMARS. Armas de ataque de longo alcance não divulgadas também foram usadas. O exército dos EUA afirmou ter usado bombardeiros furtivos B-2, assim como B-1 Lancers e B-52 Stratofortress, para atacar instalações fortificadas de mísseis balísticos no Irão. Logo após o início do ataque dos EUA, a Força Aérea Israelita lançou uma onda sem precedentes de ataques de decapitação. Em 13 de julho, o Pentágono usou drones marítimos contra Teerão pela primeira vez.

O Líder Supremo Ali Khamenei e vários altos funcionários (que participavam de três reuniões na sua residência) foram mortos, juntamente com membros da sua família, enquanto o Irão dependia da diplomacia para resolver o conflito, lembrando o assassinato de Qassem Soleimani por Trump em 3 de janeiro de 2020 em Bagdá.

O Irão retaliou imediatamente, revelando meios poderosos que surpreenderam o Ocidente ao bombardear Israel e vários estados do Golfo. Essa guerra mostra claramente ao povo do mundo a aliança israelita-americana, mas o poder do Irão. Após pelo menos 26 bombardeamentos americanos de alta intensidade ao Irão, os EUA não tiveram sucesso. As ameaças dos EUA ao Irão para abrir o Estreito de Ormuz não funcionaram. Teerão não está parada e responde com ataques às bases americanas por todo o Golfo Pérsico. O memorando de entendimento para encerrar o conflito assinado em junho passado deveria dar às partes 60 dias para negociações. Mas o acordo não durou um mês.

Israel, apesar do memorando de entendimento, continuou a bombardear o Líbano e o Hezbollah, principal aliado do Irão na região. A influência de Israel no processo de negociação também se manifesta nos Estados Unidos. J.D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos, criticou duramente a parte da liderança israelita. Segundo ele, existem forças influentes nos Estados Unidos interessadas em interromper os acordos e continuar o conflito. "Há pessoas que estão a manipular e a tentar mudar a opinião pública americana para prolongar a guerra indefinidamente", disse ele. Essa guerra é particularmente útil para a liderança atual de Israel. No dia 27 de outubro, eleições parlamentares serão realizadas no país, no Knesset. A situação do atual Primeiro-Ministro, Benjamin Netanyahu, deixa muito a desejar. 60% dos israelitas não confiam nele. Nesse contexto, a crise e a guerra no Médio Oriente são úteis para ele.

O Irão mantém o poder sobre a gestão de Hormuz para o petróleo. O Estreito de Ormuz é crucial porque é o principal ponto de travessia marítima do mundo para hidrocarbonetos. Cerca de 20% a 25% do petróleo mundial e quase 20% do gás natural liquefeito (GNL) passam por ele todos os dias vindos dos países do Golfo, tornando-o um elo essencial na economia internacional. No terreno, Teerão exerce forte pressão militar e geopolítica sobre essa passagem e mantém os EUA, Israel e seus aliados sob controlo.

O Irão é membro pleno dos BRICS desde 1 de janeiro de 2024 e demonstra o poder desse novo bloco, revelando ao mundo que os BRICS são o futuro dos países que desejam se libertar da submissão ao bloco israelita-americano em busca de uma política mundial melhor contra o bloco ocidental. Os povos europeus também entendem que estão sob controlo israelita-americano e que vivem em prisões com governos que não representam os interesses da sua nação.

Essa última guerra contra o Irão sela a data do colapso do Ocidente com os Estados Unidos e o papel do dólar no mundo. O Irão é o posto estratégico da região do Médio Oriente para os BRICS. As ameaças de Trump chegando ao ponto de dizer "uma civilização inteira morrerá esta noite, nunca renascendo" ou que "destruiremos completamente todas as regiões do Irão" se a República Islâmica tentar matá-lo, feriram muitos habitantes europeus e provaram que o mundo precisa se livrar dessa devastadora potência ocidental e desse eixo israelo-americano, especialmente como Benjamin Netanyahu disse em entrevista à CNN que a Turquia não é um "país amigo" dos Estados Unidos, anunciando o novo alvo de Israel. A nova situação no Médio Oriente, graças ao Irão, pode levar a Turquia a reconsiderar a sua posição em relação à OTAN, que atua como uma organização criminosa. Por exemplo, todos os países europeus estão a ser pressionados para a guerra contra a Rússia por essa organização.

Uma coisa é certa: a moralidade ocidental baseada no Holocausto – o que as crianças europeias precisam aprender na escola – está definitivamente abalada. Israel e Estados Unidos estão a agir como nazis e criminosos de guerra. Essa guerra entre Estados Unidos, Israel e Irão, portanto, mudou o equilíbrio em vários níveis: geopolítico, financeiro, militar, social, ideológico, trazendo uma nova geopolítica e um vento de esperança também para aqueles no Ocidente que sofrem com esse eixo israelo-americano. O Irão tornou-se uma potência no Médio Oriente que deveria possibilitar o reequilíbrio das forças e trazer a paz para esta região, ordenando que Israel repare os seus crimes de guerra, especialmente contra o povo palestiniano. O papel maligno dos Estados Unidos na região provavelmente enfraquecerá. O Irão está a mostrar ao povo que ele não deve se submeter ao poder israelita-americano que está no centro dos problemas globais.

TEORI: Como a contradição entre os Estados Unidos e a Europa se manifesta dentro do "sistema atlântico"?

P.D.: Trump ameaça sobrecarregar os impostos dos produtos europeus e sair militarmente da Europa, mas continua sob pressão militar, política e económica sobre a Europa. A contradição dentro do "sistema atlântico" se opõe ao unilateralismo americano e à soberania europeia. Isso se manifesta por uma fragmentação militar (redução do guarda-chuva americano e busca pela autonomia europeia), conflitos comerciais (guerras aduaneiras) e divergências geopolíticas (prioridade para o Indo-Pacífico e crises no Médio Oriente).

No entanto, a UE atualmente não possui soberania, nem coerência política, económica ou militar. A UE ainda precisa do poder dos Estados Unidos para garantir a sua defesa. Temos dois blocos que dançam o tango, uma dança improvisada, no sentido de que os passos não são fixos antecipadamente para serem repetidos sequencialmente, mas os dois parceiros caminham juntos em direção a uma direção improvisada a cada momento: o abismo. Temos dois mundos, que representam o Ocidente, mas que são incapazes de viver em harmonia. As contradições entre os Estados Unidos e a Europa definem o fim da hegemonia ocidental também nos seus respetivos países.

TEORI: A Europa tem os meios económicos e militares necessários para constituir um polo alternativo aos Estados Unidos e à Ásia?

P.D.: A UE é considerada a principal potência comercial mundial, mas a sua participação vem diminuindo lentamente nas últimas duas décadas. Toda a área da UE, especialmente a dos países fundadores da UE, está a passar por uma crise histórica: uma crise social, uma crise económica, uma crise financeira, uma crise política e uma crise geopolítica com a vontade absurda e perigosa de sempre apoiar o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. A Europa tem as bases económicas e militares para formar um polo global, mas a sua capacidade é destruída pela realidade financeira e económica do bloco e pelos políticos arrogantes e sem educação que tomam decisões de declarar guerra à Rússia e apoiar Israel. Embora as suas capacidades a tornem a terceira maior potência do mundo, a sua real autonomia geopolítica permanece incompleta diante dos blocos americano e asiático.

A UE tornou-se um lugar que não é sinónimo de paz e bem-estar para o seu povo. Os povos do mundo querem um polo alternativo que seja forte, mas não agressivo, nem arrogante, nem sinónimo de pacificador, porque o componente humano também é importante. E os BRICS com a Rússia representam esse polo atraente em escala humana com um país que tem soberania política, económica e militar com uma moralidade civilizacional. A UE não tem soberania nem coerência política. Os países da União Europeia têm um total de cerca de 1,33 milhões de militares ativos. Não há um único exército europeu, mas sim uma coligação de exércitos nacionais a disputar poder militar e político.

O exército chinês (Exército de Libertação Popular - ELP) conta com cerca de 2 milhões de soldados ativos. As Forças Armadas Russas têm cerca de 2,4 milhões de membros, dos quais quase 1,5 milhões são militares ativos. A União Europeia tem potencial económico para financiar a sua defesa, mas isso exige uma realocação massiva de capital e escolhas políticas ousadas. Embora se espere que os gastos militares totais na Europa atinjam 381 mil milhões de euros (superando 2% do PIB), os fundos próprios da UE para a indústria continuam limitados, dependendo de ferramentas específicas como o Fundo Europeu de Defesa. Além disso, os exércitos da UE não conseguem travar batalhas de alta intensidade por vários anos como a Rússia.

TEORI: O que significa a nova arquitetura europeia de segurança; Como a Europa vai financiar esse armamento?

P.D.: A nova arquitetura europeia de segurança refere-se à transição para uma defesa continental autónoma e integrada. O objetivo é reduzir a dependência da OTAN e dos Estados Unidos. Esse rearmamento é financiado por um aumento nos orçamentos nacionais, respaldado por um programa massivo de empréstimos (SAFE) de 150 mil milhões de euros e investimentos via Banco Europeu de Investimentos. Atualmente, Bruxelas está a fazer acordos com a Ucrânia para fabricar drones e armas usadas em guerras modernas. Usando a Ucrânia como proxy financeiro e experimentos de guerra no terreno, a UE está a tentar produzir em massa essas armas. O risco é que Kiev ganhe poder demais em decisões estratégicas sobre a nova arquitetura de segurança europeia, correndo o risco de ameaçar a estabilidade e a segurança do bloco, incluindo países como a França, que possui a bomba atómica. Atualmente, o presidente francês Emmanuel Macron está a entregar a força de dissuasão da França à Alemanha, o que é uma catástrofe para a paz e a diplomacia. Berlim apoia Israel 100%.

TEORI: Quais são as suas opiniões sobre o futuro da economia europeia?

P.D.: O futuro da economia europeia atualmente parece de crescimento moderado e alta incerteza, prejudicado por inflação persistente, choques energéticos, instabilidade política e social. A Europa está a iniciar uma mudança estratégica focada em competitividade, inovação tecnológica e descarbonização, enquanto enfrenta desafios demográficos e geopolíticos significativos. Esses desafios serão difíceis de alcançar devido à histórica crise económica que varre o continente. A loucura de continuar a apoiar Kiev vai explodir o bloco. O risco é ver o desaparecimento das nações europeias, especialmente desde que a invasão migratória autorizada por Merkel em 2015, trazendo uma massa de outras populações não europeias, ameaça levar a uma guerra civil ou simplesmente ao colapso dos países fundadores históricos da UE: França, Alemanha.

O banco central da zona do euro (BCE) emitiu um alerta sobre a deterioração da situação na região: "As perspectivas económicas para a zona do euro permanecem altamente incertas no contexto da guerra no Médio Oriente, do fechamento do Estreito de Ormuz e da alta volatilidade dos preços do petróleo"; "Espera-se que a inflação dos preços dos alimentos acelere no curto prazo como resultado do choque dos preços da energia"; "O crescimento dos salários nominais deve desacelerar ainda mais ao longo de 2026"; "Espera-se que aumentos nos preços de importação acelerem fortemente no curto prazo"; "Espera-se que o défice orçamental e as razões de dívida da zona do euro aumentem."

Em resumo, o futuro da economia europeia é muito sombrio. Já hoje, a França já não se parece mais com um país europeu em termos de civilização. A introdução da inteligência artificial (IA) no mercado de trabalho torna a economia europeia dependente da sua capacidade de competir com os Estados Unidos, China ou, por exemplo, Índia. A posição dos BRICS na inteligência artificial é heterogénea, dominada pela China, que compete com os Estados Unidos. Deve-se notar que essa descarbonização, que se refere a todas as políticas e medidas destinadas a reduzir ou eliminar completamente as emissões de gases de efeito estufa (GEE) ligadas a combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás) em todas as atividades económicas, é um absurdo, já que a UE continua a apoiar a guerra na Ucrânia. A política de descarbonização é um exemplo das medidas implementadas para controlar e limitar as liberdades individuais. Se a descarbonização fosse um plano ecológico real, a UE não estaria a alimentar a guerra na Ucrânia, que está a destruir o meio ambiente.

TEORI: Sabemos que há pressão política na Europa contra ideias que defendem uma parceria entre a Europa e os principais países da Ásia. Você poderia elaborar melhor sobre isso?

P.D.: A pressão política na Europa contra uma parceria eurasiática é motivada principalmente pelo desejo de reduzir a dependência estratégica, especialmente de Pequim, e pelo alinhamento com doutrinas de segurança transatlânticas. Bruxelas e vários Estados-Membros preferem políticas de 'redução de riscos' em vez de desacoplamento total, o que prejudica as ambições de acordos importantes. Partidos políticos tradicionais na zona do euro, incluindo o partido de Macron, estão a implementar novas leis para censurar informações na Internet e dar mais poder aos serviços secretos do bloco para processar e incapacitar opositores que promovem a colaboração com os BRICS, incluindo China e Rússia.

Aqueles que defendem trabalhar com a Rússia, China ou Irão (Ásia) são colocados na lista negra, perseguidos ou até assassinados. Já existe uma longa lista de jornalistas, políticos e ex-militares que morreram rapidamente. A pressão política é forte e muito perigosa contra aqueles que defendem uma parceria entre a Europa e os principais países da Ásia ou a colaboração com países que permitam a transparência. A Turquia – um país maravilhoso – também é uma plataforma que permite a passagem para a Ásia e muita pressão política está a ser exercida na UE para impedir a entrada da Turquia na UE.

Pressões políticas vêm de uma elite envelhecida, física e mentalmente. Mas essas pressões não durarão muito, porque as forças dinâmicas que gravitam nos principais países da Ásia logicamente romperão esse bloqueio, especialmente porque – como vimos – a UE é uma área em meio a uma metamorfose social. Atualmente, o dinamismo está na Turquia ou nos principais países da Ásia. A UE, juntamente com Ursula von der Leyen, colocou-se na prisão ao declarar pacotes de sanções contra a Rússia, que forma uma unidade de países estratégicos próximos à esfera dos principais países asiáticos. Atualmente, a UE está a tentar desviar cinco países da Ásia Central (Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão, Tajiquistão e Turcomenistão) da esfera russa. O Landesbank Baden-Württemberg é um banco alemão (LBB) que, em cooperação com a Fundação do Banco de Poupança, participa do financiamento do desenvolvimento de exportações e do apoio ao setor bancário quirguiz. A UE está a desenvolver acordos comerciais nessas áreas. Mas esses cinco países usam a UE para ajudar a economia russa.

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https://www.observateur-continental.fr


Tradução RD



sábado, 1 de agosto de 2026

A MANOBRA DE CEUTA EM MARROCOS PODE AGRADAR A ISRAEL, MAS PODE TER UM PREÇO MUITO ALTO

Nos últimos dias, Madrid avançou com uma série de decisões políticas que, podemos supor, têm incomodado os marroquinos.


Por Martin Jay

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em abril deste ano, chamou a Espanha de anti-Israel antes de emitir um alerta severo sobre a posição de Madrid que condenou Bibi e Israel sobre o genocídio em Gaza. "Não estou disposto a tolerar essa hipocrisia e hostilidade. Não pretendo permitir que qualquer país trave uma guerra diplomática contra nós sem pagar um preço imediato."

Podemos supor que o influxo de milhares de marroquinos para o enclave espanhol de Ceuta – que poderia efetivamente tornar a Espanha redundante ali, fortalecendo o controlo do Reino Unido/Israel sobre o Estreito de Gibraltar – foi um plano iniciado pelo próprio Bibi?

As circunstâncias em torno desse evento extraordinário, que foi transmitido por redes de notícias globais ao redor do mundo, precisam ser analisadas e colocadas em contexto. Certamente é verdade que o Marrocos tradicionalmente usou o seu poder para inundar a Espanha com imigrantes ilegais como uma ferramenta geopolítica nos últimos anos – uma artimanha diplomática bastante grosseira, mas eficaz, que lembra Madrid que, mesmo sendo mais pobre, tem cartas a jogar quando não consegue o que quer. A manobra é particularmente eficaz, pois também envia uma mensagem para Bruxelas de que Rabat sempre tem esse truque na manga caso as coisas fiquem difíceis.

Mas o que aconteceu nos últimos dias em Ceuta foi diferente.

Desta vez, não foram migrantes africanos que chegaram ao Marrocos e esperavam escalar a cerca até ao pequeno enclave da UE. Desta vez, foram os próprios marroquinos que, ao que parece, receberam o sinal de aprovação para ir até à fronteira, onde não encontrariam resistência da polícia ou da Gendarmaria caso quisessem passar pela cerca no quebra-mar ou se preferissem nadar. Segundo o direito internacional, se nadassem, tinham garantidas proteções legais ao chegarem à praia em território espanhol.

Milhares fizeram isso e lotaram essa pequena cidade, chocando o mundo e certamente chamando a atenção de Madrid. Havia alguma mensagem que Rabat queria enviar a Madrid, seu vizinho e parceiro regional? Claro. Não uma mensagem, mas na verdade algumas – e sem a fineza diplomática, escolheu esse método para reforçar alguns pontos.

As relações entre Espanha e Marrocos são muito boas. Em 2022, a Espanha mudou de rumo e adotou uma nova política em relação ao Saara Ocidental, apoiando a reivindicação de Rabat à soberania.

No entanto, nos últimos dias, Madrid avançou com uma série de decisões políticas que, podemos supor, incomodaram os marroquinos. Madrid tomou várias iniciativas para consertar as suas relações conturbadas com a Argélia, com acordos de gás já assinados. Para que essas relações entre Madrid e Argel melhorem, isso só pode ter um preço, conclui Rabat, e por isso recorre à única prática que conhece para enviar uma mensagem de descontentamento.

Mas se essa reaproximação fosse isolada, talvez a reação não tivesse sido tão dramática. Na realidade, porém, há outros fatores a serem considerados, principalmente a recente adoção pela Espanha por um comité parlamentar para oferecer cidadania ao povo indígena do Saara Ocidental, o povo saharaui. Como os espanhóis imaginaram que isso poderia passar por uma votação em comissão e levar a uma decisão dos deputados sem insultar o monarca marroquino? Talvez Madrid também possa ser acusada de diplomacia pérfida com essa manobra, que prejudicará as relações com Rabat, mas provavelmente não as descarrilará.

A decisão do comité em questão provavelmente não foi bem pensada, dado o impacto que teria com o seu vizinho, com o qual até agora mantinha boas relações. Mas fica a dúvida se isso, juntamente com trazer a Argélia do frio, não é a pior parte do fracasso dessa amizade. O Marrocos tem a capacidade de encher a pequena Ceuta todos os dias com milhares dos seus próprios habitantes, que consideram a oportunidade de construir uma vida na Espanha um presente a ser tomado, em vez de serem tratados como peões pelo seu monarca – como alguns marroquinos exilados comentaram nas redes sociais.

Por muito tempo, Rabat lamentou a soberania espanhola sobre o pequeno enclave e deu a entender que um dia será a do Marrocos. Se houve um momento em que pareceu território marroquino, foi nos últimos dias, quando cerca de 5.000 marroquinos ocuparam os seus espaços públicos, áreas de lazer escolares e becos minúsculos. Claro, os eventos que ganharam manchetes ao redor do mundo também agradam a Israel, cujo líder ameaçou a Espanha e saltaria de alegria por fazer parte de um eixo de poder (com o Reino Unido) para controlar quem entra e quem sai do Mediterrâneo – mais uma história sobre quem controla pontos de estrangulamento marítimos no mundo. Mas será que o Marrocos realmente faria parte de um pacto de despedida assim se isso significasse perder a Espanha, um parceiro valioso, aliado e parceiro comercial?


Fonte; SCF

Tradução RD

sexta-feira, 31 de julho de 2026

PRESOS ENTRE RIAD E TEL AVIV: O NOVO DILEMA DO MÉDIO ORIENTE DA AMÉRICA

O apoio inabalável a Israel, o fortalecimento da cooperação de defesa com a Turquia e, mais recentemente, um acordo nuclear com a Arábia Saudita são indicações definitivas de que os EUA estão atualmente presos entre parceiros e aliados com interesses concorrentes na região.

A tentativa de Washington de fortalecer a Arábia Saudita e a Turquia, mantendo um apoio inabalável a Israel, expõe uma estratégia baseada em contradições, e não em coerência. Ao empoderar parceiros regionais rivais, os EUA correm o risco de alimentar uma corrida armamentista, aprofundar a insegurança do Irã e ficar presos nas próprias rivalidades que buscam gerenciar.


Por Aleena Im*

Você não pode montar dois cavalos ao mesmo tempo. E o que Washington está a fazer agora no Médio Oriente é cavalgar múltiplos cavalos ao mesmo tempo, esperando que essa estratégia possa preservar a sua posição de destaque na actual ordem multipolar. O apoio inabalável a Israel, o fortalecimento da cooperação de defesa com a Turquia e, mais recentemente, um acordo nuclear com a Arábia Saudita são indicações definitivas de que os EUA estão atualmente presos entre parceiros e aliados com interesses concorrentes na região.

O Acordo Nuclear EUA-Arábia Saudita: Um Novo Acordo Estratégico

Em 22 de Julho de 2026, os Estados Unidos e a Arábia Saudita assinaram um acordo de cooperação pacífica em atividades nucleares, mais popularmente chamado de 'acordo 123', juntamente com o acordo bilateral de salvaguarda associado. O acordo 123 facilita amplas oportunidades para empresas americanas que participam do programa de energia nuclear da Arábia Saudita e, portanto, é benéfico para a indústria e o emprego americanos. Os dois acordos promoverão a segurança dos EUA e da região mantendo padrões muito elevados de segurança, proteção e não proliferação nuclear, além de aumentar a competitividade dos EUA em tecnologia nuclear civil.

O acordo fortalece a relação entre EUA e Arábia Saudita, mas simultaneamente cria uma nova fonte de ansiedade tanto para o Irão quanto para Israel. A Arábia Saudita já alertou várias vezes, afirmando que, se Teerão pode ter uma bomba nuclear, por que não a Arábia Saudita? A assinatura desse acordo neste momento não parece muito positiva.

Washington está a preparar um concorrente regional equivalente ao Irão? Isso continua a ser uma grande questão. Israel também é contra tal movimento, pois, na sua perspetiva, poderia alterar o equilíbrio regional de segurança e iniciar uma corrida armamentista nuclear. Se os sauditas podiam ter a tecnologia nuclear, os houthis também podiam. A lista pode continuar a crescer.

O Acordo de Caças EUA-Turquia: A Segunda Aposta Estratégica de Washington

Além da Arábia Saudita, os EUA, sob o Trump 2.0, também estão a fortalecer os seus laços com a Turquia, um membro proeminente da OTAN. Por muito tempo, os membros europeus da aliança e os EUA têm afastado a Turquia de grandes vendas de defesa devido às suas relações próximas com a Rússia. Sob o presidente Biden, os EUA suspenderam a venda de F-35 para a Turquia, pois haviam hospedado S-400 russos em solo turco. No entanto, sob o presidente Trump, os EUA agora estão dispostos a suspender as sanções contra a Turquia.

A recente cimeira da OTAN em Ancara foi centrada nesse acordo, onde o presidente Trump mostrou sinais positivos à Turquia. Em resposta, segundo relatos oficiais, a Turquia planeia transferir os S-400 russos para os Emirados Árabes Unidos. O primeiro-ministro israelita Netanyahu denunciou explicitamente qualquer ação desse tipo por parte dos EUA. Falando à Fox News, Netanyahu disse que a venda de F-35 para a Turquia "desestabilizaria o equilíbrio de poder no Médio Oriente, que é, em última análise, garantido pela superioridade aérea israelita e também, acredito, pela postura dos Estados Unidos no Médio Oriente."

Apoio Inabalável a Israel: A Constante na Política de Washington

Ações falam mais alto que palavras. A colaboração de Washington com países árabes pode aumentar o seu escopo, mas a sua lealdade inabalável a Israel influenciará como tais colaborações são vistas em toda a região. Mesmo que os EUA tenham concluído um acordo nuclear com a Arábia Saudita e levantado o bloqueio dos F-35 à Turquia, os EUA ainda apoiam Israel na região.

A Câmara dos Representantes dos EUA conseguiu aprovar um enorme orçamento de gastos militares no valor de 1,15 biliões de dólares, apesar das preocupações dos legisladores democratas sobre o valor e da cooperação militar avançada com Israel. O projeto de lei tem uma cláusula para coordenação militar entre as duas nações e será apresentado ao Senado. O Sr. Taut Bataut, na sua análise intitulada 'Por Trás das Manchetes: Trump é o Verdadeiro Inimigo de Netanyahu?', argumentou: "A crescente integração institucional e resiliência entre EUA e Israel esclarecem o facto de que a presença de discordâncias não significa ausência de parceria."

Estratégia ou Confusão?

Os Estados Unidos estão a agir com base em alguma grande estratégia ou apenas a responder aos eventos na região? Na realidade, os EUA estão a tentar apaziguar todos os parceiros sem abordar as contradições entre eles. Isso ocorre sempre que um país poderoso perde a sua posição anterior numa região específica e quer apaziguar todos os parceiros para que nenhum deles entre no campo dos rivais. Parece haver vários objetivos perseguidos pelos EUA ao mesmo tempo — conter o Irão, conter a crescente influência da China, fortalecer a Arábia Saudita, manter a Turquia no campo estratégico ocidental e salvaguardar a segurança de Israel. No entanto, esses objetivos tornaram a política americana cada vez mais contraditória e confusa.

A Região em Risco

Os Estados Unidos estão a brincar com fogo. Na verdade, o período em que os Estados Unidos eram o único garantidor da segurança regional já passou. Agora, os países da região estão a tentar diversificar os seus relacionamentos. Na verdade, os Estados Unidos não encontrarão uma saída para todo este caos na região tão suavemente quanto esperam atualmente. Portanto, para manter a sua integridade, os Estados Unidos agora tentam usar tudo o que possuem. O problema não está apenas no mal-entendido diplomático; Está na instabilidade estratégica.

Cooperação nuclear, entregas de armas e diferentes relações de segurança podem aumentar o nível de competição na região. O Irão perceberá a crescente força dos países apoiados pelos EUA como uma ameaça direta. Outras potências da região também podem aumentar as suas capacidades de defesa e tecnologia. O resultado de tal situação será a militarização de toda a região.

Conclusão

A questão central gira em torno de saber se os Estados Unidos têm uma política consistente no Médio Oriente ou simplesmente estão a lidar com várias crises conforme elas surgem. Enquanto os Estados Unidos podem acreditar que estão a equilibrar o Médio Oriente ao apoiar múltiplos aliados conflituantes e continuar o seu total apoio a Israel, podem descobrir que não estão acima dos conflitos, mas estão bem no olho da tempestade.

*Aleena Im é investigadora e escritora independente, interessada em relações internacionais e atualidades


Fonte https://journal-neo.su


Tradução RD





quinta-feira, 30 de julho de 2026

A FUSÃO DAS GUERRAS: UCRÂNIA, IRÃO E A NOVA ORDEM GLOBAL

O conflito na Ucrânia e a guerra no Médio Oriente deixaram de ser teatros separados. Estão a fundir-se num único confronto global, onde Rússia, Irão e China se alinham contra um eixo que inclui os Estados Unidos, Israel e a Ucrânia, num cenário que redefine a geopolítica mundial.


O conflito na Ucrânia e a guerra no Médio Oriente deixaram de ser teatros separados. Estão a fundir-se num único confronto global, onde Rússia, Irão e China se alinham contra um eixo que inclui os Estados Unidos, Israel e a Ucrânia, num cenário que redefine a geopolítica mundial.

O Elo Russo-Iraniano: Uma Aliança Forjada pela Guerra

A relação entre Moscovo e Teerão atingiu um nível de cooperação sem precedentes. A guerra na Ucrânia aproximou os dois países, com sanções ocidentais a criarem as condições para uma colaboração estratégica profunda. A Rússia comprou mais de 4 mil milhões de dólares em sistemas de armas ao Irão, principalmente drones kamikaze Shahed, que têm sido usados diariamente contra alvos ucranianos. Em contrapartida, o Irão recebeu treino para pilotos, tecnologia de satélite e, segundo relatos, dados de inteligência para direcionar os seus ataques contra forças americanas e israelitas.

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou ter "evidências irrefutáveis" de que Moscovo está a partilhar informações de inteligência com Teerão, prolongando a guerra no Médio Oriente. "Os regimes na Rússia e no Irão são irmãos no ódio e por isso são irmãos em armas," declarou Zelensky.

Esta simbiose militar é particularmente evidente no domínio dos drones. A Rússia não só comprou centenas de drones iranianos, como estabeleceu a sua própria produção do modelo Shahed e, recentemente, inverteu o fluxo: Moscovo está agora a ajudar Teerão a modernizar os seus drones com lições aprendidas no campo de batalha ucraniano.

O apoio iraniano ao esforço de guerra russo vai muito além dos drones. O Irão forneceu à Rússia mais de 300.000 projéteis de artilharia, um milhão de munições diversas, 400 mísseis balísticos Fateh-110, além de mísseis antitanque e bombas planadoras.

A Resposta Ucraniana: Combater o Eixo no Médio Oriente

Perante esta aliança, a Ucrânia não ficou passiva. Kiev procurou ativamente abrir uma frente indireta contra o eixo russo-iraniano, oferecendo a sua experiência em defesa aérea e guerra com drones aos países do Golfo Pérsico.

Zelensky visitou a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Catar em março de 2026, assinando acordos de cooperação em defesa que incluem o fornecimento de tecnologia de drones interceptores e sistemas de alerta precoce. Os custos dos drones interceptores ucranianos são de apenas 10.000 dólares, uma fração do preço dos mísseis Patriot que os estados do Golfo têm usado para abater drones iranianos.

Com a Ucrânia a ajudar os países do Golfo a defenderem-se contra mísseis e drones iranianos, e a Rússia a fornecer inteligência para esses mesmos ataques, o Médio Oriente tornou-se efetivamente uma nova frente de batalha na guerra Ucrânia-Rússia.

A Posição da China: Equilíbrio Estratégico e Restrição

A China mantém-se como o ator mais enigmático neste tabuleiro. Embora seja parte integrante do eixo que alguns analistas designam como "CRINK" (China, Rússia, Irão, Coreia do Norte), Pequim tem adotado uma postura de equilíbrio calculado.

Beijing fornece 90% dos bens considerados prioritários para o desenvolvimento militar russo, incluindo 70% das máquinas de produção de mísseis balísticos e 90% da microeletrónica necessária para construir mísseis, tanques e aeronaves. A China também é o principal comprador do petróleo iraniano, com um plano de investimento de 400 mil milhões de dólares em infraestruturas ao longo de 25 anos.

No entanto, Pequim recusou-se a oferecer apoio militar direto ao Irão durante os confrontos com Israel e os EUA. A China tem interesses económicos significativos nos estados do Golfo (que condenam as ações iranianas) e relações tecnológicas fortes com Israel. Como observam os especialistas, a China "nunca forneceu garantias de segurança" e prefere "a amizade sem limites" ao estatuto de aliado formal.

O objetivo de Pequim parece ser duplo: consolidar a sua posição económica na região e sobreviver à presidência de Trump sem uma guerra comercial em grande escala. A China apresenta-se como "um parceiro sensato para a paz" enquanto, nos bastidores, apoia silenciosamente o eixo anti-americano.

A Conexão Norte-Coreana: O Quarto Elemento

O eixo alarga-se ainda mais com a Coreia do Norte, que fornece à Rússia munições de artilharia (7 a 12 milhões de projéteis de 152 mm e 122 mm) e mais de 15.000 soldados, com previsão de um aumento para 40-45.000. A Coreia do Norte também forneceu mísseis de curto alcance KN-23 e KN-24, sistemas de lançamento de foguetes múltiplos e mísseis antitanque.

O Papel dos EUA e Israel: Coesão e Contradições

Os Estados Unidos e Israel coordenam a sua campanha contra o Irão, com ataques aéreos conjuntos a instalações nucleares e de mísseis. Israel, em particular, aproveita o momento para enfraquecer o que considera a principal ameaça existencial, contando com o apoio logístico e militar americano.

No entanto, existem tensões na aliança ocidental. Zelensky criticou a decisão de Trump de aliviar as sanções ao petróleo russo, uma medida que, segundo o líder ucraniano, dá à Rússia "uma sensação de impunidade e a capacidade de continuar a guerra". Por outro lado, a Ucrânia ofereceu assistência com drones aos EUA na guerra contra o Irão, mas foi rejeitada por Trump, que argumentou que "sabemos mais sobre drones do que ninguém".

A Ucrânia também se moveu para reforçar os seus próprios laços com os estados do Golfo, tentando reduzir o isolamento e criar novas fontes de apoio.

Implicações: A Ordem Mundial em Transformação

O que estamos a testemunhar é mais do que a convergência de dois conflitos regionais. É o surgimento de um confronto sistémico entre dois modelos de ordem mundial. De um lado, um eixo que desafia a hegemonia ocidental, liderado por uma aliança informal entre Rússia, China, Irão e Coreia do Norte (Multilateral). Do outro, os Estados Unidos, Israel e os seus aliados, tentando preservar a ordem estabelecida (Unilateral).

Segundo analistas, a guerra no Irão representa uma oportunidade para Moscovo e Pequim "minarem os interesses dos EUA, esgotarem o poder americano, obterem informações sobre sistemas militares dos EUA e corroerem a ordem liderada pelos EUA". O cenário ideal para este eixo é um "conflito de baixa intensidade e contínuo que prenda os Estados Unidos e empurre o Irão para uma dependência total" de Moscovo e Pequim.

A fusão destes conflitos não é, portanto, um acaso, mas o resultado de uma estratégia deliberada de atores que procuram reescrever as regras do sistema internacional. As guerras na Ucrânia e no Médio Oriente são agora capítulos de uma mesma narrativa: a luta pela definição da ordem mundial do século XXI.



Várias fontes/Paulo Ramires


terça-feira, 28 de julho de 2026

A ASCENSÃO DA EXTREMA-DIREITA NA EUROPA ESTÁ SE TORNANDO UMA DOR DE CABEÇA CRESCENTE PARA A UE E A OTAN

Unidades da Bundeswehr participariam pela primeira vez neste outono do exercício nuclear francês Poker, o navio-chefe da cooperação nuclear. A notícia foi apresentada como um passo importante para fortalecer a cooperação franco-alemã em dissuasão nuclear, em meio a dúvidas sobre o compromisso do presidente dos EUA, Donald Trump, com as obrigações da OTAN.


Por Pierre Duval

No contexto atual do crescente militarismo na Europa, as discussões focaram em planos de longo prazo para defesa antimíssil, reconhecimento por satélite e armas europeias de longo alcance, vistos como uma alternativa aos mísseis Tomahawk dos EUA.

Os líderes (Macron e Merz) continuaram as suas discussões mais amplas sobre cooperação bilateral em Brühl, uma cidade histórica alemã próxima a Colónia, onde foram realizados um conselho conjunto de defesa e o tradicional Conselho de Ministros franco-alemão. A sua agenda excecionalmente ampla abrangia tecnologias promissoras como inteligência artificial, microeletrónica e fusão nuclear, além de questões energéticas como o desenvolvimento do corredor do hidrogénio. Uma cimeira espacial também está planeada em Paris. A agenda também incluía os agora tradicionais temas da Ucrânia e do Médio Oriente.

A imprensa, acompanhando de perto esses eventos, não escondeu o seu sarcasmo: Macron e Merz pareciam estar apressados para finalizar esses arquivos em vista da eleição presidencial francesa de 2027, que acontecerá em nove meses. "É duvidoso o que será realizado até lá, especialmente porque Macron já está no fim do seu mandato e Marine Le Pen ameaça abandonar muitos projetos", escreveu o Politico.

Essa ameaça aumentou depois que o Tribunal de Cassação na França finalmente permitiu que Le Pen concorresse à liderança do partido de extrema-direita Reagrupamento Nacional (RN), cujos institutos de pesquisa prevêem vitória na eleição presidencial de 2027. "Não temos tempo a perder", disse um diplomata alemão, lembrando que este é o último conselho franco-alemão do Presidente da República antes da eleição presidencial francesa, marcada para a primavera de 2027.

Mas Macron e Merz, como esperado, negaram as acusações da imprensa, explicando a sua ansiedade pela necessidade da sobrevivência económica da UE nestes tempos difíceis, e não pelo desejo de preservar as relações franco-alemãs de uma presidência de Marine Le Pen.

Ao final das discussões, Macron e Merz anunciaram a aceleração do trabalho em acordos para combater o excesso de exportações chinesas, a finalização do próximo orçamento de sete anos da UE e o lançamento de uma união de mercados de capitais, no modelo dos EUA, com outros países membros.

Manter as relações franco-alemãs sob uma presidência francesa que provavelmente será de extrema-direita pode ser complexo. Marine Le Pen e a RN historicamente criticaram a parceria franco-alemã, mesmo que o seu protegido Jordan Bardella tenha enviado sinais pragmáticos a Berlim este ano, quando ele foi apontado como candidato para concorrer às eleições presidenciais de 2027.

Marine Le Pen também é conhecida pelo seu cepticismo em relação ao desdobramento de armas nucleares francesas no exterior e já afirmou no passado que qualquer iniciativa desse tipo deveria ser condicionada à compra de armas francesas pelos países envolvidos. Também previa a retirada da França do comando unificado da OTAN, como o presidente Charles de Gaulle havia feito em 1966, mantendo apenas a sua filiação à estrutura política da Aliança. Paris retornou ao componente militar da OTAN em 2009 sob o presidente Nicolas Sarkozy. Vale ressaltar que, durante os anos de "desdemonização", a RN mudou profundamente a sua estratégia de comunicação.

Muitas disposições, antes vistas como sinais de cepticismo radical do euro, desapareceram do seu programa. A rejeição da ideia de sair da zona do euro, uma retórica mais cautelosa usada contra a União Europeia e o desejo de se expressar não mais na linguagem do protesto político, mas na da administração pública, testemunham um desejo deliberado de transformar a RN de uma força de protesto em uma força aspirante ao poder. No entanto, seria errado atribuir essa transformação apenas à evolução de Marine Le Pen. O espaço político em que atua mudou.

Se Marine Le Pen vencer a eleição presidencial de 2027, a sua posição marcaria uma rutura significativa com a política de Macron de apoiar a criação de um exército europeu dentro da UE e defender o fortalecimento das capacidades de defesa pan-europeias em todos os seus aspetos, desde aquisições até programas multinacionais de armas, incluindo a integração de aliados ao dissuasor nuclear da França. Então, depois de Macron, essa febre militarista vai acabar?

O Reagrupamento Nacional não tem intenção de se tornar pacifista. Além disso, esse partido de extrema-direita quer um exército maior e mais poderoso do que o atual, mas nos seus próprios termos. Além disso, a liderança do Rassemblement National não defende uma rutura nas relações com a Aliança Atlântica.

Além disso, o seu programa nos últimos anos tem enfatizado o compromisso com a defesa coletiva e a preservação do potencial nuclear da França como elemento-chave da segurança nacional. Ao mesmo tempo, o partido defende consistentemente um princípio que pode ser descrito como soberania no campo da defesa.

Paris, segundo a sua liderança, deve determinar de forma independente os limites da sua participação em operações militares, proteger a sua indústria de defesa e evitar qualquer decisão que possa restringir a liberdade de escolha política nacional.

Durante os debates parlamentares deste mês sobre a reforma da lei de planeamento militar da França, o partido de Marine Le Pen apresentou várias emendas detalhando a política de defesa que a extrema-direita pretende adotar caso o seu candidato seja eleito presidente. Além da retórica anti-Bruxelas, essas emendas pediam um aumento dos gastos militares além das propostas do governo, implicando que a RN, se eleita, pretendia continuar a política de aumento dos gastos militares liderada por Emmanuel Macron.

Além disso, deputados do RN moderaram o seu discurso anti-OTAN. Em particular, eles abstiveram-se da votação sobre as emendas propostas pela La France Insoumise (LFI), que pediam uma rápida retirada de Paris do comando conjunto da OTAN.

O Rassemblement National quer sair da OTAN, mas somente após o fim do conflito na Ucrânia. Os apoiadores de Le Pen reconhecem o papel atual de liderança da França na OTAN, e a retirada da sua ala militar reduziria a integração operacional das forças armadas francesas com as forças aliadas.

Esse é um sinal tranquilizador para Bruxelas, que também observa a Alemanha com preocupação com a forte ascensão de outro partido de extrema-direita, a Alternativa para a Alemanha (AfD). Por enquanto, o debate está focado no sucesso esperado da AfD nas eleições regionais, mas as eleições federais podem acontecer muito em breve.

De modo geral, a ascensão da extrema-direita europeia está a tornar-se uma dor de cabeça crescente para os líderes da UE e da OTAN. Por muito tempo, a política europeia foi construída sobre um contrato social tácito. Os cidadãos concordaram em transferir poderes crescentes para Bruxelas em troca do seu bem-estar económico, estabilidade e segurança. Enquanto o padrão de vida melhorou, esse modelo funcionou quase perfeitamente. Mas agora, após as turbulências da pandemia, diante da inflação em alta, dificuldades económicas, crise energética e aumento dos gastos militares, esse modelo está a perder força e os eleitores europeus estão a procurar novas soluções.

Cidadãos comuns na zona do euro não enfrentam a geopolítica, mas sim o aumento das contas de energia, fechamento de empresas e cortes orçamentais em programas sociais. É aí que está o verdadeiro ponto de viragem na política europeia atual.

Não é coincidência que Marine Le Pen tenha abandonado em grande parte a sua retórica anti-Bruxelas. Em vez de pedir a saída da França da UE, ela está cada vez mais a evocar a necessidade de devolver à França o seu direito à autonomia. Os líderes da Alternativa para a Alemanha (AfD), do Partido da Liberdade Austríaco (FPÖ), do Partido da Liberdade Holandês (PVV) de Geert Wilders e de muitos outros partidos de direita estão a usar uma linguagem quase idêntica.

No entanto, parecem existir diferenças significativas entre eles. A Marine Le Pen defende um aumento nos gastos militares e é muito mais cautelosa na questão do rearmamento. O governo italiano de Giorgia Meloni, apesar da sua retórica nacionalista-conservadora, demonstra lealdade inabalável à OTAN.

No entanto, o que os une não é nem a sua posição em relação à Rússia, nem mesmo a sua opinião sobre a Ucrânia. O que os une é a própria conceção que têm de integração europeia. A nova onda de extrema-direita propõe uma fórmula diametralmente oposta aos imperativos anteriores da UE: uma Europa forte só é possível por meio de Estados-nação fortes. À primeira vista, o debate parece teórico. No entanto, é justamente em torno dessa questão que o maior confronto político do continente está a acontecer hoje.

Diante dessa análise, a fórmula simplista de que a ascensão da extrema-direita enfraquecerá a OTAN parece um tanto imprecisa. Se uma mudança de poder na França for prevista, isso não resultaria no desmantelamento dos compromissos aliados, mas sim numa longa e complexa negociação sobre a redistribuição do poder dentro da comunidade ocidental.

Para Washington, isso significaria ter que levar em conta as demandas mais urgentes dos seus aliados europeus. Para Bruxelas, isso implicaria encontrar um compromisso entre integração e preservação das prerrogativas nacionais. Para a própria OTAN, isso significaria uma transição para um modelo onde a unidade política não implica mais automaticamente uma abordagem estratégica unificada.

É exatamente por isso que as eleições na França e na Alemanha não são mais apenas um assunto interno desses países. Os seus resultados estão a ser cuidadosamente analisados não apenas pela Comissão Europeia, mas também pela sede da OTAN. Surge uma questão crucial: os futuros governos conseguirão manter o nível anterior de consenso político na Europa sobre questões de segurança, defesa e relações com Washington?

Macron fala sobre autonomia estratégica europeia. Merz falou sobre a necessidade de tornar a Alemanha uma força motriz na defesa europeia. Marine Le Pen fala sobre restaurar o controlo nacional sobre decisões-chave de segurança. A redação varia, mas por trás de cada afirmação está a mesma pergunta: qual deve ser o componente europeu da OTAN num futuro próximo? Não é mais um debate entre apoiadores e opositores da OTAN, mas uma controvérsia sobre os seus diferentes modelos.

As eleições políticas na França e na Alemanha fazem parte desse processo. Os eleitores votam em partidos diferentes, mas generais da OTAN, diplomatas europeus e estrategistas interpretam esses resultados de forma diferente. Para eles, cada ponto percentual conquistado pela RN ou pela AfD não é tanto um indicador da popularidade de um político, mas sim um indicador de uma mudança gradual nas expectativas públicas. Esse desenvolvimento está a forçar os partidos tradicionais a rever os seus programas e as instituições europeias a procurar novos compromissos políticos.

Esse é o principal desafio do nosso tempo. A Europa ainda não está a virar as costas para a OTAN, mas procura cada vez mais redefinir o seu próprio papel dentro e além dela. E é justamente essa lenta, às vezes imperceptível reavaliação das regras usuais do jogo que, no médio prazo, pode se mostrar muito mais importante do que os slogans eleitorais mais retumbantes.


Fonte: https://www.observateur-continental.fr



Tradução RD



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