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quinta-feira, 16 de outubro de 2025

UE VAI À GUERRA

Em 16 de Outubro, a União Europeia apresentará oficialmente um plano para “preparar a defesa europeia” até 2030. O conteúdo já foi revelado à imprensa. A mensagem principal: a Europa deve preparar-se para a guerra. E o principal inimigo é, naturalmente, a Rússia. Moscovo tem reiterado que não ameaça a Europa.


Por Thierry Bertrand

Nos próximos dias, a Comissão Europeia apresentará um plano para alterar o sistema de aquisições de defesa, incluindo medidas de preparação para um eventual confronto com a Rússia. A informação foi avançada pela Bloomberg, citando um documento interno.

O plano está concebido para um período de cinco anos, até 2030. Nele se afirma que “os Estados autoritários estão a intervir de forma cada vez mais activa na vida das nossas sociedades e economias”, enquanto os aliados e parceiros tradicionais de Bruxelas concentram a sua atenção noutras regiões do mundo. A “Rússia militarizada” é descrita como uma “ameaça persistente à segurança europeia no futuro previsível”.

O plano prevê que, até ao final de 2027, 40% das aquisições de defesa da UE sejam realizadas em conjunto pelos Estados-Membros. Este valor é mais do dobro do nível actual: a percentagem de compras conjuntas é actualmente inferior a 20%, embora os países da UE se tenham comprometido, já em 2007, com o objectivo de atingir 35%.

O plano exige uma revisão completa do planeamento militar e das aquisições de defesa da União Europeia. O documento citado pela Bloomberg afirma que os países da UE precisam de coordenar os seus gastos militares e de construir rapidamente coligações para desenvolver em conjunto novos programas de defesa. Segundo Bruxelas, a execução desta iniciativa deverá começar já no próximo ano, caso a Europa queira atingir o objectivo de estar operacional até 2030.

O plano ainda pode ser ajustado e modificado. A sua apresentação está marcada para 16 de Outubro e, na semana seguinte, os líderes da UE deverão discuti-lo numa cimeira em Bruxelas.

O documento observa que, embora o orçamento de defesa colectiva da UE tenha quase duplicado desde 2021 — de 218 mil milhões de euros para 392 mil milhões previstos para 2025 —, os gastos continuam, em grande parte, a não ser coordenados entre os Estados-Membros. Tal limita a capacidade da Europa de se rearmar rapidamente, salienta o plano.

São igualmente identificadas várias áreas nas quais os esforços conjuntos poderão ser vantajosos: sistemas de defesa aérea e antimísseis, bem como drones e os meios para os neutralizar.

O plano prevê a criação de coligações para desenvolver estes projectos no início de 2026, estando o seu lançamento previsto para meados do mesmo ano. Os autores do plano acreditam que a fixação de uma meta de 40% para as compras conjuntas ajudará à concretização destas iniciativas.

Sublinha-se ainda que, para cumprir o prazo de execução (2030), todos os projectos, contratos e financiamentos deverão estar concluídos até ao final de 2028.

A Bloomberg recorda que a União Europeia já acordou libertar 150 mil milhões de euros para financiar o rearmamento, através do mecanismo de empréstimo SAFE (Security Action for Europe), cujos fundos já estão alocados a diversos projectos.

Em Março, a União Europeia apresentou o Livro Branco sobre a Defesa Europeia – Preparação para 2030. Este documento de 23 páginas constitui o enquadramento do plano ReArm Europe. Nele são enumeradas as razões que obrigam a UE a reforçar os seus contratos públicos no sector da defesa. Entre elas está a “ameaça fundamental” representada pela Rússia, que leva o bloco a considerar um cenário de “grande guerra de alta intensidade” no continente europeu, bem como outros motivos mencionados pela Bloomberg.

O presidente russo, Vladimir Putin, sublinhou que o seu país não tem qualquer razão para travar uma guerra contra os Estados da NATO. O Kremlin afirmou igualmente que a Rússia não constitui uma ameaça para a Europa.


Fonte: https://www.observateur-continental.fr

Tradução RD



terça-feira, 30 de setembro de 2025

A INICIATIVA DO BLOCO OCIDENTAL PARA CONTRARIAR A HEGEMONIA DA CHINA EM ÁFRICA: O CORREDOR DO LOBITO


Os Estados Unidos estão cientes de que precisam aumentar e sustentar a sua influência em África para solidificar a sua hegemonia global. Têm pouca escolha senão fazê-lo em coordenação com os países da União Europeia (UE), que estabeleceram vastas colónias no passado e mantêm laços históricos, políticos e económicos com o continente. Mas sendo a China o parceiro comercial mais importante em grande parte do continente, a tarefa do Bloco Ocidental está mais difícil do que nunca.


Por Suleiman Karan

Muitas das estrelas em ascensão entre as economias em desenvolvimento deste século emergirão de África. Apesar de séculos de exploração, o "Continente Negro" continua a ser uma fonte potencial de riqueza para a economia mundial, rico em recursos subterrâneos e de superfície. Mais importante ainda, as tendências demográficas indicam que África está preparada para vantagens significativas. A população do continente, que era de 1,304 mil milhões em 1 de Janeiro de 2025, deverá atingir 2,5 mil milhões até 2050. Isto é significativo não apenas em termos de densidade populacional, mas também pela proporção de jovens na população total. Em outras palavras, uma população massiva e dinâmica possui vasto potencial como força de trabalho. Outro ponto-chave são as tendências de consumo de África. O facto de essa população densa estar também ávida por consumo aumenta a importância e o apelo de África para o comércio mundial. Isto significa que África não é apenas uma fonte de recursos, mas também tem o potencial de se tornar um mercado massivo. Estamos a falar de um mercado que pode revitalizar a economia mundial no futuro.

A África do Sul, o Egipto, Marrocos, a Argélia, a Etiópia, o Quénia, a Nigéria, o Gana, o Gabão, o Senegal, a Guiné e a República Democrática do Congo (RDC) são países proeminentes, tanto pelas suas populações como pelos seus recursos naturais. É altamente provável que essas nações desempenhem um papel de liderança na ascensão do continente. Banhado pelo Mar Mediterrâneo a norte, pelo Oceano Índico a leste e pelo Oceano Atlântico a oeste, o continente terá igualmente importância estratégica para futuros corredores comerciais mundiais.


A CHINA ESTÁ MUITO À FRENTE, MAS…

Por todas essas razões, parece que África se tornará a principal arena de competição para as grandes potências a partir do segundo quartel deste século. A China já vem realizando investimentos significativos no continente há muito tempo. A ascensão da influência económica de Pequim em África é inegável. Em 2009, a China ultrapassou os Estados Unidos como o maior parceiro comercial do continente, e o seu volume comercial recente é quatro vezes superior ao comércio EUA-África. Esta situação alarmou os formuladores de políticas norte-americanos relativamente ao declínio da influência dos Estados Unidos no continente, despertando o seu interesse em investimentos em desenvolvimento e infra-estruturas para melhorar e facilitar os laços económicos EUA-África. Uma dessas iniciativas é o Corredor Comercial do Lobito. Proposto pela primeira vez em 2023, o Corredor do Lobito é uma ferrovia de 1.300 quilómetros que se estende de leste a oeste através da Zâmbia, da República Democrática do Congo e de Angola.

Qualquer iniciativa dos Estados Unidos em África deve alcançar e criar o potencial para competir com a estratégia de envolvimento mais abrangente e de longo prazo da China. Na última década, a China vem conduzindo essas actividades por meio da sua Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), um enorme projecto de infra-estruturas e desenvolvimento económico que abrange a Ásia, a Europa e África. Até ao momento, os governos de muitas nações africanas assinaram memorandos de entendimento relacionados com a BRI, e esta iniciativa facilitou biliões de dólares em investimentos para a construção de estradas, portos, ferrovias e outras infra-estruturas críticas. Só em 2023, aproximadamente 21,7 mil milhões de dólares em empréstimos fluíram da BRI para África. Incluindo investimentos no âmbito da BRI e outros acordos bilaterais, estima-se que a China tenha investido um total de 2,23 biliões de dólares em África desde 2005.

É crucial recordar que todo o fluxo financeiro tem objectivos e consequências geopolíticas. Por meio desse poder financeiro, a China conseguiu garantir acesso a quantidades significativas de minerais e terras raras de África. A República Democrática do Congo (RDC), onde empresas chinesas detêm 72% de todas as minas de cobalto e cobre, é um exemplo disso. Do mesmo modo, na Guiné, rica em depósitos de bauxite, as empresas chinesas são as principais interessadas na mina de minério de ferro de Simandou.

COM O OBJECTIVO DE REDUZIR O DOMÍNIO CHINÊS

Os Estados Unidos estão cientes de que precisam aumentar e sustentar a sua influência em África para solidificar a sua hegemonia global. Têm pouca escolha senão fazê-lo em coordenação com os países da União Europeia (UE), que estabeleceram vastas colónias no passado e mantêm laços históricos, políticos e económicos com o continente. No entanto, até que ponto poderão alcançar uma cooperação coordenada e vantajosa para todos com o Reino Unido, a França e outras nações da UE não é assim tão claro. Afinal, estes eram os mesmos países com os quais competiam no continente até há pouco tempo. Para dar um exemplo recente, quando a França estava a ser expulsa dos países do Sahel, há alguns anos, não faltaram autoridades americanas em Washington a esfregar as mãos de alegria. Washington planeava preencher o vazio deixado pela França na região. Contudo, os governos com mentalidade de independência nacional na região parecem ter frustrado esse sonho americano por enquanto. A visão de nigerinos a protestar com bandeiras russas durante as tensões políticas no Níger pode talvez ser vista como um símbolo do despertar anti-ocidental em África. As declarações do presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traoré, são outro exemplo.

Sendo a China o parceiro comercial mais importante em grande parte do continente, a tarefa do Bloco Ocidental está mais difícil do que nunca. Na verdade, parece que terão de se concentrar mais em obter o que puderem da região do que em derrotar a China de facto. O Corredor do Lobito, um projecto concebido pelos Estados Unidos no sul do continente para rivalizar com a BRI, é uma parte fundamental desse objectivo — embora se conseguirá atingir o seu propósito ainda seja uma incógnita por agora.

UMA IMAGEM “MULTILATERAL” SOB A LIDERANÇA DOS EUA

Quase dois anos se passaram desde o início do projecto. Anunciado no Fórum Global Gateway da União Europeia em Outubro de 2023, o projecto reúne o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), a Corporação Financeira da África (FCA), os Estados Unidos e a Comissão Europeia para construir em conjunto uma ferrovia ligando o noroeste da Zâmbia ao Porto do Lobito, na costa atlântica de Angola.

A estrutura de financiamento do Corredor do Lobito assemelha-se à da BRI, com os Estados Unidos a assumirem o papel de “facilitador principal”, como principal financiador do investimento. Desde o início do projecto até Setembro de 2024, Washington forneceu mais de 3 mil milhões de dólares em financiamento em diversos sectores, incluindo transporte e logística, agricultura, energia limpa, saúde e acesso digital. Uma parte significativa do financiamento é canalizada por meio da Parceria para Infra-estrutura e Investimento Global (PGI), uma iniciativa conjunta dos países do G7, estabelecida em 2022, que visa desempenhar um papel mais importante na infra-estrutura global.

O Corredor do Lobito tenta apresentar-se como uma alternativa. Em primeiro lugar, parece adoptar uma perspectiva mais multilateral do que um projecto típico da BRI, procurando parcerias com actores regionais como o BAD, que tem sido um apoiante activo do corredor desde o início. O envolvimento do BAD atende a dois propósitos cruciais. A nível financeiro, ajuda a distribuir o ónus financeiro da angariação de fundos para projectos de infra-estrutura, que têm uma perspectiva de rentabilidade a longo prazo. Isso fica evidente nos 1,6 mil milhões de dólares que o BAD ajudou a angariar em 2023. A nível político, o BAD ajuda a aliviar as preocupações com a hegemonia de grandes potências como os Estados Unidos ou a China. A abordagem multilateral também envolve actores externos no processo. Por exemplo, o Banco Mundial forneceu 300 milhões de dólares para uma iniciativa local complementar, marcando o primeiro projecto de infra-estrutura para o qual o banco contribuiu em África desde 2002. A Comissão Europeia também se comprometeu a realizar estudos de viabilidade ambiental e social para limitar o impacto em habitats vulneráveis ao longo da rota do Corredor do Lobito. Em outras palavras, vem com uma transformação “verde”!

PEDRAS FUNDAMENTAIS QUE REVIVEM MEMÓRIAS DO COLONIALISMO

O propósito do Corredor do Lobito também é conhecido, pois visa construir novas infra-estruturas em países em desenvolvimento com falta de capital. Esta infra-estrutura está a ser construída não porque seja lucrativa por si só, mas porque permite outras actividades económicas rentáveis. O projecto prevê a construção de aproximadamente 550 quilómetros de uma nova linha férrea na Zâmbia, de Jimbe, na fronteira, a Chingola, no cinturão do cobre zambiano. Esta nova linha ligar-se-á a uma linha recém-construída em Angola, na fronteira, que por sua vez se ligará à linha férrea de Benguela existente, em Luacano. O resultado será um novo corredor comercial que dará à Zâmbia acesso ao Oceano Atlântico. O projecto inclui também a construção de cerca de 260 quilómetros de estradas vicinais e a reabilitação da linha férrea de Benguela, com 120 anos de existência.

No entanto, não se deve esquecer que África tem memória. Vale a pena salientar que, para muitos africanos, a ferrovia de Benguela evoca a exploração brutal da era colonial — e não apenas a ferrovia, mas a exploração selvagem, sangrenta e implacável dos europeus! Isso, talvez, deixando de lado outras desvantagens, seja o calcanhar de Aquiles do Bloco Ocidental na sua competição com a China.

PARA GARANTIR O FORNECIMENTO DE CURTO PRAZO DE MINERAIS ESTRATÉGICOS

Por esse motivo, os países europeus e os Estados Unidos parecem estar a seguir o exemplo da BRI para evitar reviver más lembranças. O Corredor do Lobito procura desenvolver uma abordagem que também satisfaça os africanos, ao mesmo tempo que realiza investimentos em infra-estrutura, como o fortalecimento da infra-estrutura dos países participantes e o aumento do volume do seu comércio externo. Isso, é claro, é um meio para atingir um fim último.

O projecto prevê que os fluxos comerciais se desloquem para oeste ao longo da rota do Oceano Atlântico. O objectivo é garantir o fornecimento de minerais de terras raras e metais industriais, matérias-primas estratégicas para os sectores da energia verde, veículos eléctricos, tecnologia de baterias, TI e telecomunicações. Como é sabido, a China detém a hegemonia global no mercado de minerais de terras raras, e os Estados Unidos e a União Europeia pretendem reduzir esse domínio, mesmo que seja apenas um pouco. Chamemos a isto um bónus do projecto! A República Democrática do Congo é extremamente rica nesses minerais. De facto, o país possui grande riqueza em muitos minerais estratégicos.

A nova ferrovia no projecto do Corredor do Lobito tem o potencial de estabelecer linhas de abastecimento tanto da República Democrática do Congo (RDC) como da Zâmbia, ligando o cinturão de cobre zambiano a um porto atlântico pela primeira vez. O cobre, o metal industrial mais importante, tornou-se uma matéria-prima estratégica ainda mais crítica, especialmente com a transição verde. Anteriormente, as exportações de metal da Zâmbia tendiam a fluir para leste a partir do Porto de Dar es Salaam, na Tanzânia. Desta vez, o primeiro carregamento de cobre para os Estados Unidos foi carregado num navio porta-contentores do Porto do Lobito, em Angola. Este carregamento seguiu uma série de carregamentos de cobre para portos europeus e do Sudeste Asiático desde que a Lobito Atlantic Railway assumiu a concessão em Janeiro deste ano. Este é um indicador de que o acesso das minas no “cinturão de cobre do Congo” aos mercados ocidentais, particularmente os Estados Unidos, aumentará. E tal linha de abastecimento é vital para que as empresas americanas mantenham a sua competitividade em relação às empresas chinesas.

OBJECTIVO: INCLUIR A TANZÂNIA NO CORREDOR

Os Estados Unidos também pretendem expandir o Corredor do Lobito. Essa estratégia de expansão surgiu em Agosto de 2024, quando Helaina Matza, Coordenadora Especial do PGI no Departamento de Estado dos Estados Unidos, anunciou que as negociações estavam em curso para estender o corredor até à Tanzânia. Com isso, Washington revelou o seu plano de criar um “Corredor Transafricano” mais abrangente, ligando os oceanos Atlântico e Índico. Essa medida deve ser vista não apenas como um objectivo comercial, mas como uma manobra geoeconómica. Com isso, Washington pretende restringir um pouco o comércio África-China em rápido crescimento ao longo da rota do Oceano Índico e tornar-se um actor eficaz nessa rota. Matza também acrescentou que a reforma da ferrovia de Benguela, a primeira fase do Corredor do Lobito, estava a progredir sem problemas e que as remessas de cobre estavam a fluir da RDC para os Estados Unidos pela primeira vez.

A segunda e mais ambiciosa fase, a construção de uma nova ferrovia na Zâmbia, aguardava a conclusão dos estudos de viabilidade. A decisão de abrir todos os minerais de terras raras nos depósitos ao longo do corredor para o comércio com o leste via Dar es Salaam pode parecer ilógica para o Bloco Ocidental à primeira vista. No entanto, isso provavelmente faz parte de uma estratégia de longo prazo.

Em primeiro lugar, a infra-estrutura já existe em grande parte, na forma da Linha Tazara, que liga Dar es Salaam, no Oceano Índico, a Kapiri Mposhi, na Zâmbia. A ligação com o Corredor do Lobito, em Chingola, exigiria aproximadamente 200 quilómetros de novas construções. Em segundo lugar, a implementação do Corredor Transafricano poderia fortalecer o perfil de soft power do PGI, que afirma ser motivado sobretudo pela promoção da boa governação e do crescimento económico regional.

QUANDO O DINHEIRO ACABA…

O Corredor do Lobito é um passo significativo para o Bloco Ocidental, mas pode ser um projecto que chega um pouco tarde demais. Embora o investimento estrangeiro directo da China em África tenha atingido uma média de 4 mil milhões de dólares entre 2019 e 2021, superior ao dos países ocidentais, o valor do investimento directo dos Estados Unidos diminuiu em alguns anos. No entanto, a vantagem competitiva dominante de Pequim enfraqueceu recentemente. A desaceleração económica pós-pandemia e o aperto nas linhas de crédito fizeram com que os investimentos relacionados com a BRI em África caíssem de 16,5 mil milhões de dólares em 2021 para 7,5 mil milhões em 2023 — uma queda de 55%. Uma sensação de fadiga com a BRI surgiu à medida que as percepções sobre ela pioraram em muitas regiões entre 2017 e 2022, em parte devido às crescentes preocupações com a dívida nos países da BRI. Afinal, investimentos massivos em infra-estrutura e superestrutura exigem financiamento vultoso, e cada empréstimo precisa ser pago.

A ÁFRICA PODERIA LUCRAR COM ESTA RIVALIDADE

Em resumo, essa é a situação para as partes envolvidas. O caminho à frente está pavimentado com vantagens e desvantagens. Então, ainda é possível para Washington posicionar-se em África? Ou esses investimentos são suficientes? Não é fácil dar uma resposta clara a essas perguntas por enquanto. É verdade que o Corredor do Lobito e projectos semelhantes enfrentam desafios reais; os sucessos da China no desenvolvimento de infra-estrutura e o crescente interesse dos africanos em Pequim são factos inegáveis. Como resultado, as relações económicas e diplomáticas entre Pequim e os países africanos estão a fortalecer-se. O continente abriga 54 Estados, cada um com as suas próprias necessidades de desenvolvimento e experiências — tanto positivas como negativas — de interacção com a China. E se há algo que pode unir os africanos em meio a essa diversidade, é a necessidade partilhada de capital e investimento em infra-estrutura.

Parece que a intensificação da competição entre a China e a aliança Estados Unidos-União Europeia pode criar uma janela de oportunidade para os africanos. Os países que mais têm a ganhar com essa rivalidade serão as próprias nações africanas — se os seus governos puderem realmente agir no melhor interesse dos seus povos. Quando se trata de África, questões como suborno, corrupção, dependência e conflitos internos vêm à mente e, infelizmente, não há garantia de que as decisões certas serão sempre tomadas.


Fonte https://harici.com.tr

Tradução RD




terça-feira, 19 de dezembro de 2023

SE O DESPOVOAMENTO MACIÇO É O OBJECTIVO FINAL NA UCRÂNIA, ENVIE MAIS AJUDA

"É muito importante entender que, até 2014, não imaginávamos a expansão da OTAN e da UE como uma política que visava conter a Rússia. Ninguém pensava seriamente que a Rússia era uma ameaça antes de 22 de Fevereiro de 2014. O que aconteceu é que esta grande crise eclodiu, e tivemos de atribuir culpas, e é claro que nunca nos culparíamos. Nós íamos culpar os russos, então inventamos essa história de que a Rússia estava inclinada à agressão no Leste Europeu."



Por Augusto Zimmermann


Os conflitos militares não são o resultado do acaso. O planeamento deliberado está envolvido. Se o despovoamento maciço é o objectivo final, então o apoio contínuo à Ucrânia é o caminho a seguir.

É instrutivo olhar para o que aconteceu com a Ucrânia em 2014, em torno do golpe apoiado pelo governo dos EUA e os seus aliados ocidentais. Com a vitória de Viktor Yanukovich nas eleições presidenciais de 2010, o Rada (parlamento ucraniano) votou para retirar as aspirações de adesão à OTAN da estratégia de segurança nacional. Talvez justamente por isso, Yanukovich foi inconstitucionalmente deposto.

Vendo o caos do Maidan e temendo as consequências, Moscovo decidiu reincorporar a Crimeia em Março de 2014, a fim de garantir os seus ativos militares lá e proteger a população étnica russa da ira de Kiev. Um referendo foi realizado, e os habitantes locais votaram esmagadoramente para se juntar à Federação Russa.

Escrevendo para o conservador americano, o especialista em política externa Dominick Sansone comentou:

"A mudança para a Crimeia veio como uma resposta, para garantir os principais interesses navais da Rússia no porto de águas quentes de Sebastopol. As revoltas coincidentes no Donbas foram também uma resposta à situação em Kiev... A posição oficial do Kremlin foi a de que esses cidadãos etnicamente russos não deveriam ser forçados a viver sob o domínio de um grupo rebelde ilegítimo que chegou ilegalmente ao poder derrubando o governo devidamente eleito."

"Com relação à Ucrânia", escreveu John Mearsheimer, da Universidade de Chicago, cientista político americano e estudioso de relações internacionais:

"É muito importante entender que, até 2014, não imaginávamos a expansão da OTAN e da UE como uma política que visava conter a Rússia. Ninguém pensava seriamente que a Rússia era uma ameaça antes de 22 de Fevereiro de 2014. O que aconteceu é que esta grande crise eclodiu, e tivemos de atribuir culpas, e é claro que nunca nos culparíamos. Nós íamos culpar os russos, então inventamos essa história de que a Rússia estava inclinada à agressão no Leste Europeu."

A justificativa para a criação da OTAN era que ela seria uma aliança defensiva para impedir que a antiga União Soviética invadisse a Europa Ocidental. No entanto, quando a União Soviética entrou em colapso em 1991, se suas alegações fossem verdadeiras, essa organização teria sido desmantelada, o seu suposto propósito agora discutível. Em vez disso, desde meados da década de 1990, sucessivos governos dos EUA têm pressionado regularmente pela expansão da OTAN na Europa Oriental.

República Checa, Hungria e Polónia aderiram ao bloco em março de 1999. Cinco anos depois, Bulgária, Romênia, Letônia, Lituânia e Estônia também aderiram. Então, durante uma cimeira em Abril de 2008 em Bucareste, a OTAN considerou admitir a Geórgia e a Ucrânia, o que os russos afirmaram que representaria uma "ameaça directa" à sua segurança nacional.

É claro que Moscovo razoavelmente viu isso como uma traição a uma promessa feita pelo governo dos EUA e seus aliados sobre o colapso do Muro de Berlim, de que a OTAN nunca avançaria "um centímetro para o leste".

Nesse contexto, a actual crise na Ucrânia é principalmente o resultado de uma tentativa do governo dos EUA de puxar outro país do Leste Europeu decisivamente para a sua órbita e estrutura de defesa, por meio de adesão/parceria à OTAN um acordo de associação à UE explicitamente anti-Moscovo.

A Ucrânia é agora um "parceiro próximo" da OTAN, que relata fornecer "níveis sem precedentes" de apoio militar ao seu governo.

Até ao momento, os países membros da OTAN forneceram biliões de dólares e euros em equipamentos militares para a Ucrânia. Eles estão enviando armas, munições e muitos tipos de equipamentos militares leves e pesados, incluindo sistemas antitanque e antiaéreos, obuses e drones.

"Desde 2014", O site oficial da OTAN afirma:

"A OTAN ajudou a reformar as forças armadas e as instituições de defesa da Ucrânia, inclusive com equipamentos e apoio financeiro. Os aliados também forneceram treino para dezenas de milhares de soldados ucranianos e as forças ucranianas também desenvolveram as suas capacidades por meio da participação em exercícios e operações da OTAN.

Sob o presidente Vladimir Zelensky, Kiev promulgou uma série de leis que visam a "desrussificação". Como consequência, livros russos e até música russa foram proibidos, e apenas livros em ucraniano, ou "as línguas indígenas da União Europeia", podem ser publicados no país.

Zelensky é acólito do Fórum Econômico Mundial (WEF) de Klaus Schwab, organização por trás do "Great Reset". De acordo com Leon Kushner, escritor que foi criado por sobreviventes do Holocausto da Ucrânia:

"Desde 2014 que os oligarcas dirigem o estilo mob e escolheram o então ator Zelensky para ser o seu fantoche presidencial. Klaus Schwab, do WEF, se gabou de ajudar a eleger ele e o seu fantoche canadiano equivalente, Trudeau. Quase todos os jogadores ricos e famosos estiveram na Ucrânia. E voltou com ainda mais dinheiro. De Bill Gates a Joe Biden, de George Soros aos Clinton. Todos sabem que a Ucrânia está aberta para negócios."

Curiosamente, o apoio total da Austrália ao governo ucraniano subiu para 790 milhões de dólares australianos (520 milhões de dólares). Esta é a maior contribuição de um país fora da OTAN e mais apoio do que o oferecido por alguns dos 32 membros do bloco.

O governo Biden nos EUA já enviou centenas de biliões de dólares em assistência militar à Ucrânia.

Se o objectivo é evitar o derramamento de sangue, bem, esta não é a maneira de fazê-lo.

Se, como especulado por alguns, existe um plano oligárquico de despovoamento humano maciço, então as guerras arquitectadas são uma maneira ideal de conseguir isso. Já aconteceu antes. Na Primeira Guerra Mundial, 21,5 milhões morreram, dos quais 13 milhões eram civis. As mortes de civis foram em grande parte causadas por fome, exposição, doenças, encontros militares e massacres. Na Segunda Guerra Mundial, 40-50 milhões morreram, a maior de todas as guerras.

Actualmente, estamos a ver os estágios avançados disso, já que os EUA e os seus aliados da OTAN vêm manobrando há muitos anos para uma guerra mundial com a Rússia. Eles gritam que é para proteger "a liberdade e a democracia", pois extorquem a riqueza tanto da vítima quanto do agressor.

Precisamos acordar para essas táticas apocalípticas dos oligarcas ocidentais e resistir a todos os seus esforços para nos impor os seus objetivos destrutivos.



Augusto Zimmermann, Professor e Chefe de Direito do Sheridan Institute of Higher Education na Austrália, Presidente da WALTA – Legal Theory Association e ex-Comissário de Reforma da Lei na Austrália Ocidental

segunda-feira, 15 de abril de 2019

A EUROPA DEVE TOMAR POSIÇÃO PELA SOLUÇÃO DE DOIS ESTADOS PARA ISRAEL E PARA A PALESTINA

Políticos europeus de alto escalão exortam a UE a rejeitar qualquer plano de paz dos EUA para o Médio Oriente, a menos que seja justo para os palestinianos e implique uma solução de dois estado soberanos.


Estamos a chegar a um ponto crítico no tempo no Médio Oriente, assim como na Europa. A UE está fortemente empenhada na ordem internacional multilateral e baseada em regras. O direito internacional trouxe-nos o período mais longo de paz, prosperidade e estabilidade que o nosso continente já desfrutou. Durante décadas, trabalhámos para ver os nossos vizinhos israelitas e palestinianos desfrutarem dos dividendos da paz que nós, Europeus, temos através do nosso compromisso com essa ordem.

Em parceria com anteriores administrações dos EUA, a Europa promoveu uma resolução justa para o conflito israelo-palestiniano no contexto de uma solução de dois Estados. Até hoje, apesar dos reveses subsequentes, o acordo de Oslo ainda é um marco na cooperação transatlântica em política externa.

Infelizmente, a actual administração dos EUA afastou-se da política de longa data dos EUA e distanciou-se das normas legais internacionais estabelecidas. Até agora, reconheceu apenas as alegações de um lado em Jerusalém e demonstrou uma perturbadora indiferença à expansão dos colonatos israelitas. Os EUA suspenderam o financiamento para a agência da ONU para os refugiados palestinianos (UNRWA) e para outros programas que beneficiam os palestinianos - arriscando a segurança e estabilidade de vários países localizados à porta da Europa.

Contra essa infeliz ausência de um claro compromisso com a visão de dois estados, o governo Trump declarou-se próximo de finalizar e apresentar um novo plano para a paz israelo-palestiniana. Apesar da incerteza quanto a se e quando o plano será divulgado, é crucial que a Europa esteja atenta e aja estrategicamente.

Acreditamos que a Europa deveria adoptar e promover um plano que respeite os princípios básicos do direito internacional, conforme reflectido nos parâmetros acordados pela UE para uma resolução para o conflito israelo-palestiniano. Esses parâmetros que a UE sistematicamente reafirmou durante as conversações patrocinadas pelos EUA, reflectem o nosso entendimento comum de que uma paz viável exige a criação de um estado palestiniano ao lado de Israel com fronteiras baseadas nas linhas anteriores a 1967 com terras mutuamente acordadas, trocas mínimas e iguais; com Jerusalém como a capital dos dois estados; com arranjos de segurança que abordem preocupações legítimas e respeitem a soberania de cada lado e com uma solução justa e acordada para a questão dos refugiados da Palestina.

A Europa, ao contrário, deve rejeitar qualquer plano que não atenda a esse padrão. Ao partilhar as frustrações de Washington sobre os esforços de paz mal sucedidos do passado, estamos convencidos de que um plano que reduza o estado palestiniano a uma entidade desprovida de soberania, contiguidade territorial e viabilidade económica agravaria seriamente o fracasso dos esforços anteriores de pacificação, aceleraria o desaparecimento da opção de dois estados e danificaria fatalmente a causa de uma paz duradoura tanto para palestinianos como para israelitas.

É, obviamente, preferível que a Europa trabalhe em conjunto com os EUA para resolver o conflito israelo-palestiniano, bem como para abordar outras questões globais numa forte aliança transatlântica. No entanto, em situações em que os nossos interesses vitais e valores fundamentais estão em jogo, a Europa deve seguir o seu próprio caminho de acção.

Em antecipação a este plano dos EUA, acreditamos que a Europa deveria formalmente reafirmar os parâmetros acordados internacionalmente para uma solução de dois estados. Fazer isso antes do plano dos EUA estabelecendo os critérios da UE para apoiar os esforços americanos e facilita uma resposta europeia coerente e unificada depois que o plano for publicado.

Os governos europeus devem comprometer-se ainda mais a ampliar os esforços para proteger a viabilidade de um resultado futuro de dois estados. É da maior importância que a UE e todos os estados membros assegurem activamente a implementação das resoluções pertinentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas - incluindo uma diferenciação consistente de acordo com a resolução 2334 do Conselho de Segurança da ONU, entre Israel nas suas fronteiras reconhecidas e legítimas, e os seus acordos ilegais nos territórios ocupados.

Além disso, os recentes esforços crescentes para restringir o livre trabalho da sociedade civil fizeram o apoio europeu aos defensores dos direitos humanos tanto em Israel quanto na Palestina, e o seu papel crítico em alcançar uma paz sustentável, mais importante do que nunca.

Israel e os territórios palestinianos ocupados estão a escorregar para uma realidade de um estado de direitos desiguais. Isso não pode continuar. Para os israelitas, para os palestinianos ou para nós na Europa.

Neste momento, a Europa enfrenta uma oportunidade decisiva para reforçar os nossos princípios e compromissos comuns em relação ao processo de paz no Médio Oriente e, assim, manifestar o papel único da Europa como ponto de referência para uma ordem global baseada em regras.

Deixar de aproveitar esta oportunidade, num momento em que essa ordem está a ser desafiada sem precedentes, teria consequências negativas de longo alcance.


Douglas Alexander Ex-ministro de Estado da Europa, Reino Unido 
Jean-Marc Ayrault Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e Primeiro Ministro, França 
Carl Bildt Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e Primeiro Ministro, Suécia 
Wlodzimierz Cimoszewicz Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e Primeiro Ministro, Polónia 
Dacian Cioloș Ex-primeiro ministro e comissário europeu, Roménia 
Willy Claes Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e secretário-geral da OTAN, Bélgica 
Massimo d'Alema Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e Primeiro Ministro, Itália 
Karel De Gucht Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e comissário europeu, Bélgica 
Uffe Ellemann-Jensen Ex-chanceler e presidente dos Liberais Europeus, Dinamarca 
Benita Ferrero-Waldner Ex-chanceler e comissária europeia para as relações externas, Áustria 
Franco Frattini Ex-chanceler e comissário europeu, Itália 
Sigmar Gabriel Ex-chanceler e vice-chanceler, Alemanha 
Lena Hjelm- Wallén Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e vice-primeiro ministro, Suécia 
Eduard Kukan Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Eslováquia 
Martin Lidegaard Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Dinamarca 
Mogens Lykketoft Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e presidente da Assembleia Geral da ONU, Dinamarca 
Louis Michel Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e comissário europeu, Bélgica
David Miliband Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Reino Unido 
Holger K Nielsen Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Dinamarca 
Marc Otte Ex-Representante Especial da UE para o processo de paz do Médio Oriente, Bélgica 
Ana Palacio Ex-ministra dos Negócios Estrangeiros, Espanha 
Jacques Poos Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Luxemburgo 
Vesna Pusic Ex-ministra dos Negócios Estrangeiros e vice-primeira-ministra, Croácia 
Mary Robinson Ex-presidente e alto comissário das Nações Unidas para os direitos humanos, Irlanda 
Robert Serry Ex-coordenador especial da ONU para o processo de paz no Médio Oriente, Holanda
Javier Solana Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, secretário geral da OTAN e alto representante da UE para política externa e de segurança comum, Espanha 
Per Stig Møller Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Dinamarca 
Michael Spindelegger Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e vice-chanceler, Áustria 
Jack Straw Ex-secretário dos Negócios Estrangeiros, Reino Unido 
Desmond Swayne Ex-ministro de estado para o desenvolvimento internacional, Reino Unido 
Erkki Tuomioja Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Finlândia 
Ivo Vajgl Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Eslovénia 
Frank Vandenbroucke Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Bélgica 
Jozias van Aartsen Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Holanda 
Hubert Védrine Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, França 
Guy Verhofstadt Ex-primeiro ministro, Bélgica 
Lubomír Zaorálek Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, República Checa



Tradução: Paulo Ramires

domingo, 18 de novembro de 2018

ITÁLIA DE LUVA BRANCA DESAFIA O SISTEMA DE BRUXELAS



Por Arkady Savitsky

A UE teve muitos problemas em suas mãos, pois os seus membros, como a Polónia e a Hungria, estão a desafiar abertamente a ordem estabelecida. Desta vez é uma situação muito grave, porque Bruxelas está a enfrentar o desafio da Itália, a terceira  maior economia nacional na zona do euro e a 8 ª maior economia mundial em termos de PIB nominal.Tem uma população de mais de 60 milhões. É também um país da Europa e membro fundador do bloco.

O governo italiano rejeitou os apelos da UE para rever o seu projecto de orçamento para 2019, que inclui um deficit de 2,4% do PIB, o que poderia aumentar perigosamente a dívida pública do país. A coligação governamental de Roma, formada pela Liga e pelo populista Movimento das Cinco Estrelas, decidiu aumentar os empréstimos para financiar as suas promessas de campanha, como a redução da idade de reforma e o aumento dos pagamentos de previdência social.

No mês passado, a Comissão Europeia alegou que essas metas de gastos iam contra as regras da UE. Roma está sobrecarregada com a segunda maior quantia de dívida pública na zona do euro. Há uma diferença de 131,8% entre os empréstimos e a produção económica, mas o governo acredita que alcançará um crescimento económico substancial, enquanto as previsões da UE para a Itália são bastante sombrias. 13 de Novembro foi o prazo para a apresentação de um projecto de orçamento revisto. Roma não cumpriu. Agora, a liderança da UE ameaça-a com sanções até que ela esteja alinhada. A Itália pode ser multada em 3 mil e 400 milhões de euros.

O governo italiano assume uma postura independente numa infinidade de questões. É vista como favorável à Rússia nos seus pedidos de levantamento, ou pelo menos facilitar, as sanções contra a Federação Russa. O primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, acredita que Moscovo deveria ser readmitida no G7. O primeiro-ministro italiano visitou Moscovo no final de Outubro, saudando a Rússia como um jogador global essencial e convidando Putin para visitar a Itália. Apesar das medidas punitivas impostas pela UE que estão em vigor, o Sr. Conte assinou uma série de acordos de comércio e investimento. No ano passado, o partido da maioria parlamentar russa, Rússia Unida, e a Lega Nord (Liga do Norte) da Itália, um membro da coligação governamental, assinaram um acordo de cooperação. O conselho regional em Veneto, onde o vice primeiro-ministro Matteo Salvini detém uma posição forte, reconheceu a Crimeia como parte da Rússia em 2016.

A Áustria é outro membro da UE amiga da Rússia. Mesmo o recente "escândalo de espionagem" que foi obviamente encenado por forças externas para estragar essa relação bilateral, não conseguiu prejudicar essa relação. "Somos um país que tem bons contactos com a Rússia, estamos voltados para o diálogo, isso não mudará no futuro", disse o chanceler austríaco, Sebastian Kurz, falando aos repórteres em 14 de Novembro. O conservador Partido do Povo e a extrema-direita O Partido da Liberdade - os membros da coligação dominante - estão bem dispostos em relação a Moscovo e não apoiam a política de sanções da UE.

A Hungria é outro membro da UE amiga da Rússia. No mês passado, o parlamento europeu votou para iniciar o procedimento de sanções do Artigo 7 contra a Hungria. O governo liderado pelo primeiro-ministro Victor Orban foi acusado de silenciar os media, atacar ONGs e remover juízes independentes. O lançamento dos procedimentos estipulados no artigo abre as portas para sanções. A Hungria poderia eventualmente ser temporariamente privada dos direitos de voto na UE. Na realidade, o país está a ser punido por se recusar a receber imigrantes.

Esta é a segunda vez que os procedimentos do artigo 7º são activados. A primeira vez foi no ano passado, quando a Comissão Europeia colocou esse artigo em acção contra a Polónia sobre as suas reformas judiciais. É necessária uma votação unânime para suspender os direitos de voto da Hungria e introduzir sanções. Esse movimento provavelmente será bloqueado pela Polónia. Por sua vez, a Hungria disse que aguentaria Varsóvia se a UE lançasse procedimentos para puni-la. As duas nações estão unidas nos seus esforços para se apoiarem mutuamente e se defender das invasões de Bruxelas num momento em que o bloco está a passar pelos momentos mais difíceis de sua história.

A Hungria, a Polónia e a Rússia estão a tentar chamar a atenção da Europa para a ameaça à democracia e à paz que emana da Ucrânia - um problema que foi em grande parte abafado pela liderança da UE.

A Eslováquia é outro estado membro da UE para nutrir o que alguns chamam de "laços especiais" com a Rússia. Nunca ficou contente com as sanções contra Moscovo e disse isso abertamente. No mês passado, o seu novo primeiro-ministro, Peter Pellegrini, pediu à UE que revisse a política de sanções.

Uma disputa diplomática também foi encenada na Grécia, mas, como no caso da Áustria, pode ter obscurecido esses laços históricos, mas não conseguiu cortá-los. Chipre sempre foi amigável em relação a Moscovo, mas Nicósia e Atenas não estão em posição de proteger a sua independência, já que ambos estão endividados e dependentes de empréstimos externos.

A batalha entre Bruxelas e Roma acontece num momento em que a Europa se prepara para as eleições para o Parlamento Europeu em Maio de 2019. Medidas punitivas tomadas pela UE contra a Itália certamente levarão a um crescente apoio público àquele governo que enfrenta pressões para defender o seu povo. Aumentará o número de eurocéticos italianos que ganham lugares. Com tantos países insatisfeitos com a liderança da UE, é difícil prever o resultado. Em breve haverá outras pessoas no comando que têm pontos de vista bastante diferentes sobre os problemas enfrentados pela UE, bem como sobre o futuro do bloco. Tudo pode mudar, incluindo o relacionamento com a Rússia e as sanções que se tornaram tão impopulares que resultaram que muitos líderes nacionais desafiam abertamente a sabedoria de tal política imposta por alguns poucos poderosos.

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