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domingo, 19 de março de 2023

O DIA EM QUE A UE ACABOU - 22 DE SETEMBRO DE 2022


A irrelevância europeia, que se traduz também em negócios, em criação de riqueza, em participação nos grandes projetos do futuro foi a enterrar com o senhor Sholz a fazer de gato pingado e a dona Ursula a fazer de beata que lê os responsos fúnebres.

Por Carlos Matos Gomes

A História é em boa parte pontuada pelos acontecimentos que marcam o fim de uma dada ordem política. O império Romano findou em 476 quando o bárbaro Odoacro foi nomeado rei de Roma e enviou as insígnias imperiais ao imperador Zenão do império do romano do Oriente.

O antigo regime feudal europeu terminou com a tomada da Bastilha, a emergência da Inglaterra como potencia mundial, a passagem de uma potência continental para uma marítima começou com a derrota de Napoleão em Waterloo, o fim do império britânico aconteceu com a independência da Índia, o início do império americano ocorreu com o lançamento das bombas nucleares no Japão e com o dobrar do cerviz do imperador a reconhecer a derrota perante a devastação.

A União Europeia, uma entidade que vinha desde o final da II Guerra a fazer o seu caminho mais ou menos autónomo, reconhecendo que a Europa deixara de ser o centro do mundo em boa parte pelas suas guerras civis — duas guerras mundiais só no século XX — e que seria sensato aceitar um equilíbrio de poderes entre os europeus, defrontou sempre um inimigo concreto: os Estados Unidos.

Vários dirigentes americanos perguntaram ao longo dos anos o que era isso da Europa, se tinha telefone. Os Estados Unidos nunca aceitaram uma entidade política soberana europeia! E é esta recusa de aceitar a soberania da União Europeia e de cada um dos seus estados que determina e explica a política americana desde as primeiras tentativas de criar mecanismos de integração política, social e económica, a CECA, o Mercado Comum, a CEE.

Quanto a deixar que a soberania europeia dispusesse de um aparelho militar que sustentasse as suas políticas, nem pensar! A relação dos EUA com a Europa foi sempre de tipo colonial! Como o foi no Médio Oriente e na América Latina. Os Estados Unidos assumiram o estatuto de soberanos mundiais. Agitaram perigos, inventaram inimigos, ocuparam territórios.

Que os Estados Unidos tenham lançado um poderoso bombardeamento de manipulação a bramar que a Rússia invadira um país soberano (no caso liderado por uma oligarquia que eles lá haviam colocado) faz parte do modo de exercer o poder totalitário: o que é permitido ao senhor não o é ao servo! Também faz parte do principio da invasão do Oeste americano, tem a tem a força estabelece a lei. Os EUA penduraram no seu peito a estrela do xerife! Não são acusações, nem julgamentos morais, são factos!

A aceitação do facto teve e tem como consequência que os europeus se habituaram à servidão. Nenhum político europeu chega a um lugar relevante se não jurar fidelidade ao Padrinho. A Mafia também é um bom modelo para caraterizar as relações com a América.

Esta “rendição” europeia teve a qualidade de fazer os europeus considerarem os serviços domésticos uma atividade nobre e o abanar das orelhas um gesto de afirmação. Os Estados Unidos mandam os europeus olhar para a ponta do dedo e os europeus olham para a ponta do dedo. As leis que impõem aos outros não se lhes aplicam. Nem os conceitos.

A soberania é um dos conceitos com que eles humilham os europeus, como o dono de um cão faz atirando um pau para ele ir servilmente buscar e trazer-lhe à mão. Para os Estados Unidos, Cuba, Granada, o Chile, o Brasil, o Iraque, o Afeganistão, a Líbia não têm direito a soberania. São invadidos ou sabotados. Já a Ucrânia foi elevada à qualidade de soberania absoluta e inviolável.

Mas, ainda assim, os europeus foram encolhendo os ombros e disfarçando, considerando que estávamos a assistir a perversidades de uma potencia colonial sobre colónias, vizinhos turbulentos. Os europeus recorriam ao seu material genético colonial e atribuíam essas atitudes a um dever de civilização a povos do Terceiro Mundo.

A 22 de Fevereiro de 2022, os europeus, os que ainda não têm o cachaço completamente calejado pela canga, viram o império arrombar-lhes a porta da soberania sem um com licença! (A velha reflexão de Brecht: vieram buscar os judeus e eu não era judeu, depois os comunistas, depois os democratas… e agora entraram-me em casa!)

Os EUA impuseram à Europa o envolvimento num conflito com a Rússia a pretexto da gravíssima ofensa da soberania da Ucrânia, um Estado cujo regime eles criaram.

Para impor essa intervenção entenderam conveniente dar uma lição de domínio ao mais importante estado europeu: a Alemanha. Atacaram a soberania da Alemanha (um aliado), destruindo-lhe uma infraestrutura essencial, que o estado alemão havia decidido construir e, mais ainda, porque estava no caminho, atacar a soberania de outro estado europeu, a Suécia, realizando uma sabotagem nas suas águas territoriais e, mais ainda violando a soberania europeia e o seu modo de vida, causaram deliberadamente um desastre ambiental de dimensões desconhecidas e que ninguém, nem os serviçais locais, os ribeirinhos do Mar Báltico, se atrevem a reclamar, nem num murmúrio.

Todas as pessoas e todas as entidades recebem o tratamento que deixam que lhes façam. Os dirigentes europeus, no caso o chanceler alemão e a presidente da Comissão Europeia, se tivessem uma gota de caráter teriam respondido a Joe Biden quando ele proibiu a entrada em funcionamento do gasoduto Northern 2, a 7 de Fevereiro de 2022, na Casa Branca, na cara de um servo chamado Sholz e este pobre diabo alemão ficou mudo – como o genro que vive à conta da mulher e apanha um raspanete do sogro -, e a soberania europeia ficou como o gasoduto: em estilhaços. Perante esta abdicação (humilhante) nenhum dos grandes atores da cena internacional terá, doravante, qualquer consideração pela UE.

A irrelevância europeia, que se traduz também em negócios, em criação de riqueza, em participação nos grandes projetos do futuro foi a enterrar com o senhor Sholz a fazer de gato pingado e a dona Ursula a fazer de beata que lê os responsos fúnebres.

O que se esperava que alguém que fosse mais que uma lesma dissesse a Biden seria: É um assunto que me diz respeito. Eu também não me pronuncio sobre a exploração que o seu governo faz de petróleo no Alasca, nem das consequências da produção através das rochas oleosas. A Alemanha respeita a soberania dos EUA e exige que os EUA respeitem a nossa soberania. Elementar.

Há poucos dias, numa visita a Washington, a senhora que faz em Bruxelas o papel de moço de recados que Zelenski representa em Kiev agradecia a Biden ele ter mandado para a Europa o gás e o petróleo resultante do caríssimo processo de fracking que substituiu o barato russo, esquecendo-se de dizer que ao dobro do preço e a que custos ambientais!

A União Europeia, entidade soberana, com alguma autonomia no mundo terminou quando uma unidade da US Navy’s Diving and Salvage Center colocou os explosivos C4 junto ao pipeline, em águas territoriais suecas.

Sabe-se hoje através da recente publicação da investigação do jornalista Seymour Hersh que o planeamento da operação começara nove meses antes: «A decisão de Biden sabotar os pipelines foi tomada depois de nove meses de reuniões secretas no Conselho Nacional de Segurança em Washington para definir a melhor maneira de atingir o objetivo. Desde sempre a questão não foi SE a missão deveria realizar-se, mas como a realizar sem evidências flagrantes dos autores.»

Interrogado sobre as consequências de uma crise de energia na Europa, o ministro Americano dos negócios estrangeiros, Blinken, respondeu: “Foi uma tremenda oportunidade para de uma vez por todas afastarmos a dependência dos europeus da Rússia!”

Mais recentemente, Victoria Nuland, uma oficial da CIA que coordenou o golpe em Kiev que levaria Zelenski ao poder, a que declarou perante as dúvidas do embaixador americano a propósito da posição europeia: «Quero que a U E se foda!» e é hoje subsecretária de estado, expressou a sua satisfação pelas notícias da sabotagem do pipeline. “ A Administração está muito feliz por saber que o Nord Stream 2 é agora um bocado de ferro velho no fundo do mar!”

É com estes sérios defensores da soberania dos outros estados que estamos a defender a soberania do Zelenski na Ucrânia.

A União Europeia está no mesmo fundo do mar e nas mesmas condições do ferro velho do Nord Stream 2.

sábado, 14 de janeiro de 2023

OBJECTIVO DOS EUA É DEIXAR BRASIL FORA DOS BRICS, DIZ ANALISTA

"Sendo a liderança natural da América do Sul, presença do Brasil no Brics será sempre um problema para os EUA, diz professor de Relações Internacionais


No seu discurso de posse, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, falou em fortalecimento dos BRICS e reconstrução de mecanismos de integração latino-americana. Para o especialista ouvido pela Sputnik Brasil, os BRICS sempre vai ser um problema para os Estados Unidos e o Ocidente deve se mobilizar para tentar afastar o Brasil do grupo.

Ao comentar a reconstrução da inserção internacional do Brasil, Lula falou em seu discurso sobre a retoma de processos de integração regionais na América do Sul e na América Latina e destacou a importância de fortalecer os BRICS.

Já em seu primeiro mês de governo, Lula viajará à Argentina para participar da cimeira da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e, na sequência, fará uma escala no Uruguai. Numa de suas primeiras medidas, o novo governo retomou a participação do Brasil na CELAC, demonstrando que há uma real intenção na reconstrução dos mecanismos regionais.

"Nosso protagonismo [internacional] se concretizará pela retoma da integração sul-americana, a partir do Mercosul, da revitalização da Unasul [União de Nações Sul-Americanas] e demais instâncias de articulação soberana da região. Sobre esta base poderemos reconstruir o diálogo altivo e ativo com os Estados Unidos, a comunidade europeia, a China, os países do Oriente e outros atores globais, fortalecendo os BRICS, a cooperação com os países da África e rompendo o isolamento a que o país foi relegado", disse Lula no seu discurso de posse.

Para Pedro Costa Júnior, professor de relações internacionais das Faculdades de Campinas (Facamp) e investigador da Universidade de São Paulo (USP), a integração entre os países da América Latina não é vista com bons olhos pelos Estados Unidos, mas o principal "problema" para o Ocidente é a promessa de fortalecimento dos BRICS.

"O grande inimigo externo dos EUA hoje é a China. E não só do governo Biden, essa é uma questão do Departamento de Estado, do Estado profundo, dos democratas e dos republicanos. Por isso os BRICS se torna um problema directo, mais do que a integração latino-americana, por conta da China — o grande inimigo — e da Rússia — por questões estratégicas e pela parceria firmada com a China. O desafio dos EUA hoje é o desafio chinês", afirma o especialista.

"O Brasil, sendo a liderança natural da América do Sul, estar nos BRICS sempre vai ser um problema para os EUA. Os EUA sempre vão tentar dinamitar essa relação", apontou.

A contenção da China, segundo o professor, é a política número um de Estado dos EUA hoje. É uma questão do Estado profundo. Onde a China avança, os EUA entram para conter, derrubar. Tudo que os EUA puderem e não puderem fazer para conter os BRICS, eles vão fazer".

"Para os EUA, os BRICS são um problema central. É um problema de Estado. [...] A entrada da Rússia e da China no continente vai ser sempre combatida. A primeira coisa que os EUA olham hoje é para os BRICS, e por isso eles não podem deixar que o Brasil fique nos BRICS."

Quanto à integração latino-americana, o professor destaca que a conjuntura de hoje é bem diferente da primeira onda que sacudiu a região. O cenário de polarização e crescimento da extrema-direita deixa os governos progressistas mais fragilizados e faz com que, para o analista, esse movimento de união não incomode tanto os EUA.

"A América Latina está rachada. Tem vitórias de esquerda, mas são vitórias apertadas. Além do Brasil, [foi assim] no Peru, no Chile e na Argentina. A polarização selvagem está pegando também por aqui. Para os EUA não interessa uma América Latina unida, mas o outro lado, da extrema-direita, também não. A extrema-direita está fora de controle, e isso se reflete em toda a América Latina. A integração sempre vai ser um problema, mas agora é um problema menor."

"Se não for Lula, Gabriel Boric [presidente do Chile], Alberto Fernández [presidente da Argentina], vai ser a extrema-direita no poder", completou.

Para Costa Júnior, o Brasil deve buscar a independência no cenário internacional, sem aderir a nenhum dos lados da disputa entre EUA e China, apesar de buscar o fortalecimento dos BRICS. O especialista destaca que a conjuntura mundial de 2023 é muito distinta da de 2003.

"O cenário de hoje é muito diferente do de 2003. Em 2003 [o sistema-mundo] estava muito engessado. Tinha uma China que não tinha se mostrado para o mundo ainda e uma Rússia que estava sendo reconstruída pelo [presidente Vladimir] Putin. Em 2003 havia muito pouca flexibilidade no mundo. Hoje há um sistema que tem possibilidades. O Brasil deve saber pendular, não deve se voltar nem para um lado nem para o outro para buscar favorecer os interesses nacionais. Tem espaço para isso."

Fonte: Sputnik 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

TODA A GENTE QUER ENTRAR NO EXPRESSO DOS BRICS

 

"A Eurásia está prestes a aumentar muito de tamanho, com países fazendo fila para se juntarem aos BRICS e à OCX, liderados pela China e pela Rússia", diz Pepe

Por Pepe Escobar

Comecemos com o que é de facto um conto sobre o comércio do Sul Global entre dois membros da Organização de Cooperação de Xangai (OCX). Em seu cerne está o já notório drone Shahed-136 – ou Geranium-2, em sua denominação russa: o AK-47 da guerra aérea pós-moderna.

Os Estados Unidos, em mais um característico ataque histérico transbordando de ironia, acusou Teerão de armar as Forças Armadas Russas. Tanto para Teerão quanto para Moscovo, o drone superstar, de ótimo custo-benefício e terrivelmente eficiente, usado no campo de batalha ucraniano, é um segredo de estado: seu uso desencadeou uma tempestade de negativas de ambos os lados. Se esses drones são made in Irão, ou se o projecto foi comprado e a fabricação tem lugar na Rússia (a opção mais realista) não faz a menor importância.

Os registros mostram que os Estados Unidos armam até o pescoço a Ucrânia contra a Rússia. O Império, na verdade, é um combatente na guerra, por intermédio de um bando de "consultores", conselheiros, treinadores, mercenários, armamento pesado, munições, inteligência via satélite e guerra eletrônica. E, no entanto, os funcionários imperiais juram que não participam da guerra. Eles, mais uma vez, mentem.

Bem-vindos a mais um exemplo explícito da "ordem mundial baseada em regras" em operação. É sempre o Hegêmona quem decide quais regras aplicar, e quando. Qualquer um que se contraponha a ele é um inimigo da "liberdade" e da "democracia", ou qualquer outro chavão, deverá ser – o que mais seria? – punido com sanções arbitrárias.

No caso do Irão, há décadas sancionado até a exaustão, o resultado foi, como seria de se esperar, uma outra ronda de sanções. O que é irrelevante. O que importa é que, segundo o Corpo de Guarda Revolucionário Islâmico do Irão, nada menos que 22 países – lista que vem crescendo – estão fazendo fila para pegar o bonde do Shahed.

Até mesmo o líder da Revolução Islâmica, o Aiatolá Ali Khamenei, alegremente entrou na onda, comentando que o Shahed-136 não precisa photoshop.

A corrida rumo aos BRICS+

O que o novo pacote de sanções contra o Irão realmente "conseguiu" foi desfechar mais um golpe na cada vez mais problemática assinatura do ressuscitado acordo nuclear em Viena. Mais petróleo iraniano no mercado, na verdade, seria um alívio para as dificuldades de Washington após a recente e o épico desprezo da OPEC+.

No entanto, um imperativo categórico continua existindo. A iranofobia – da mesma forma que a russofobia – sempre fala mais alto para os defensores da guerra straussianos-neocons que comandam a política externa americana e para seus vassalos europeus.

Então, aqui temos mais uma escalada hostil nas relações do Irão tanto com os Estados Unidos quanto com a União Europeia, uma vez que a junta não-eleita de Bruxelas também sancionou três generais iranianos.

Compare-se isso com o destino do drone turco Bayraktar TB2 – que, diferentemente das "flores no céu" (os gerânios russos) mostrou um péssimo desempenho em campo de batalha.

Kiev tentou convencer os turcos a usarem uma fábrica de armamentos da Motor Sich na Ucrânia ou abrirem uma nova empresa na Transcarpátia/Lviv para construir Bayraktars. O oligarca presidente da Motor Sich, Vyacheslav Boguslayev, de 84 anos de idade, foi acusado de traição por suas ligações com a Rússia, e talvez seja trocado por prisioneiros de guerra ucranianos.

Ao final, a negociação fracassou em razão do excepcional entusiasmo mostrado por Ancara em trabalhar para a construção de um novo centro de produção de gás na Turquia – uma sugestão pessoal do Presidente russo Vladimir Putin a seu colega turco Recep Tayyip Erdogan.

O que nos leva à interconexão cada vez maior entre os BRICS e os nove membros da OCX – à qual essa instância russa-iraniana de comércio militar está inextricavelmente ligada.

A OCX, liderada pela China e pela Rússia, é uma instituição paneurasiana cujo foco original era o combate ao terrorismo, mas que agora se volta cada vez mais para a cooperação geoeconômica – e geopolítica. Os BRICS, liderados pela tríade Rússia, Índia, e China, superpõem-se à agenda da OCX em termos geoeconômicos e geopolíticos, expandindo essa agenda para a África, América Latina e mais além: esse é o conceito dos BRICS+, analisado em detalhe num recente relatório do Clube Valdai , e plenamente abraçado pela parceria estratégica Rússia-China.

O relatório pesa os prós e contras de três cenários relacionados a possíveis candidatos aos BRICS+ no futuro próximo:

Primeiro, os países que foram convidados por Pequim para fazer parte da cimeira dos BRICS de 2017 (Egipto, Quênia, México, Tailândia, Tajiquistão).

Segundo, os países que fizeram parte do encontro de chanceleres dos  BRICS, em Maio do corrente ano (Argentina, Egipto, Indonésia, Cazaquistão, Nigéria, UEA, Arábia Saudita, Senegal, Tailândia).

Terceiro, as principais economias do G20 (Argentina, Indonésia, México, Arábia Saudita, Turquia).

E há também o Irão, que já demonstrou interesse em se juntar aos BRICS.

O Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, confirmou recentemente que "diversos países" estão morrendo de vontade de ingressar nos BRICS. Entre eles, um importantíssimo actor do Oeste Asiático: a Arábia Saudita.

O que é ainda mais surpreendente é que, há apenas três anos, no governo do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, o Príncipe Muhammad bin Salman (MbS) – o verdadeiro governante do país – estava resolvido a se juntar a uma espécie de OTAN árabe, na condição de aliado privilegiado do Império.

Fontes diplomáticas confirmam que no dia seguinte à retirada das tropas americanas do Afeganistão, os enviados de MbS começaram a negociar seriamente com Moscovo e Pequim.

Supondo-se que os BRICS alcancem o consenso necessário para a aprovação da candidatura de Riad em 2023, mal se pode imaginar as consequências avassaladoras dessa decisão para o petrodólar. Ao mesmo tempo, é importante não subestimar a capacidade dos controladores de criarem o caos.

A única razão pela qual Washington tolera o regime de Riad é o petrodólar. Não se pode permitir que os sauditas persigam uma política externa independente e verdadeiramente soberana. Se isso acontecer, o realinhamento geopolítico não irá afetar apenas a Arábia Saudita, mas também todo o Golfo Pérsico.

Mas é cada vez mais provável que isso aconteça, depois de a OPEC+ ter de fato escolhido o caminho BRICS/OCX liderado pela Rússia e pela China – no que pode ser interpretado como um preâmbulo brando para o fim do petrodólar.

A tríade Riad-Teerã-Ancara

O Irão comunicou o seu interesse em ingressar nos BRICS antes mesmo da Arábia Saudita. Segundo fontes diplomáticas do Golfo Pérsico, eles já estão envolvidos num canal algo confidencial com a mediação do Iraque, na tentativa de se organizarem para tal. A Turquia virá em seguida – nos BRICS, certamente, e possivelmente na OCX, onde Ancara hoje tem o status de observador extremamente interessado.

Agora, imaginem essa tríade – Riad, Teerã, Ancara – estreitamente ligadas a Rússia, Índia e China (o verdadeiro cerne dos BRICS), e futuramente na OCX, onde o Irão é, até agora, o único país do Oeste Asiático aceite como membro pleno.

O golpe estratégico desferido contra o Império quebrou todos os recordes. As discussões que levam aos  BRICS+ focam o desafiador caminho rumo a uma moeda global lastreada em commodities capaz de superar a primazia do dólar.

Diversos passos interligados apontam para uma simbiose cada vez maior entre os BRICS+ e a SCO. Os estados-membros desta última já chegaram a um acordo quanto a um roteiro para o aumento gradual do comércio em moedas nacionais com base em acordos mútuos.

O Banco Estatal da Índia – o maior emprestador do país – vem abrindo contas especiais em rúpias para o comércio relacionado com a Rússia.

O gás natural russo enviado à Turquia será pago 25% em liras turcas, com um desconto de 25% que Erdogan pediu pessoalmente a Putin.

O banco russo VTB lançou transferências para a China em yuans, contornando o SWIFT, enquanto o Sberbank começou a emprestar dinheiro na moeda chinesa. A gigante de energia russa Gazprom combinou com a China que os pagamentos por fornecimento de gás devem mudar para rublos e yuans, meio a meio.

O Irão e a Rússia estão unificando os seus sistemas bancários para conduzir comércio em rublos/rials.

O Banco Central do Egipto está tomando providências para estabelecer um índice para a libra egípcia – usando um grupo de moedas e o ouro – com o objetivo de afastar a moeda nacional do dólar.

E, também, há a saga do TurkStream. .

O presente do centro de gás

Ancara, há anos, vem tentando se posicionar como um centro privilegiado de gás Oriente-Ocidente. Após a sabotagem dos Nord Streams, Putin entregou de bandeja à Turquia a possibilidade de aumentar o fornecimento de gás para a União Europeia usando esse centro. O Ministério da Energia turco afirmou que Ancara e Moscovo, em princípio, já chegaram a um acordo.

Na prática, isso significa que a Turquia irá controlar o fluxo de gás não apenas da Rússia, mas também do Azerbaijão e de grande parte do Oeste Asiático, talvez incluindo até mesmo o Irão e a Líbia, no nordeste da África. Terminais de GNL no Egipto, na Grécia e na própria Turquia irão completar a rede.

O gás russo se desloca através dos gasodutos TurkStream e Blue Stream. A capacidade total dos gasodutos russos é de 39 mil milhões de metros cúbicos ao ano.

O TurkStream foi inicialmente projectado como um gasoduto de quatro linhas, com uma capacidade nominal de 63 mil milhões de metros cúbicos ao ano. Nas atuais circunstâncias, apenas duas linhas – com capacidade total de 31,5 mil milhões de metros cúbicos – foram construídas.

Portanto, uma extensão, em tese, é mais praticável – com a totalidade dos equipamentos de fabricação russa. O problema, mais uma vez, é a instalação dos dutos. Os navios a serem usados pertencem ao Allseas Group – e a Suíça faz parte da demência das sanções. No Mar Báltico, embarcações russas foram usadas para concluir a construção do Nord Stream 2. Mas, para uma extensão do TurkStream, seria necessária operar em profundidade oceânica muito maior.

O TurkStream não seria capaz de substituir completamente o Nord Stream, pois ele comporta volumes muito menores. A boa notícia para a Rússia é não ser alijada do mercado europeu. É evidente que a Gazprom só assumiria o significativo investimento necessário para a construção de uma extensão se houver garantias férreas quanto a sua segurança. A desvantagem é que a extensão também transportaria gás dos concorrentes da Rússia.

Aconteça o que acontecer, resta o facto de que o combo Estados Unidos-Reino Unido ainda exerce uma forte influência sobre a Turquia – e a BP, a Exxon Mobil e a Shell, por exemplo, participam de praticamente todos os projectos de extração de petróleo em todo o Oeste Asiático. Eles, portanto, certamente iriam interferir na operação dos centros de gás turcos, como também na determinação do preço do gás. Moscovo tem que pesar todas essas variáveis antes de se comprometer com o projeto.

A OTAN, é claro, ficará lívida de ódio. Mas nunca subestimem o Sultão Erdogan, especialista em minimizar riscos. Sua história de amor tanto com os BRICS quanto com a OCX está apenas começando.





quinta-feira, 6 de outubro de 2022

UM GASODUTO E UMA ESTÓRIA MAL CONTADA PARA BOI DORMIR


Por Paulo Milheiro da Costa


No seu extremo Sudoeste, entre a Suécia e a Alemanha, o mar Mar Báltico termina num estreito (bastante estreito), no meio do qual existe uma pequena ilha, mais pequena do que a Ilha da Madeira, que faz parte da Dinamarca.

O local é obviamente um ponto estratégico, porque é por ali que entra e sai do Báltico a esquadra russa, baseada em São Petersburgo. Atravessar esse ponto, no sentido Leste-Oeste é o único acesso ao Atlântico para a frota russa.]

Se é estratégico para os russos é também, por definição, para os americanos, que constantemente patrulham aquelas águas. À superfície e também debaixo de água. O Mar Báltico não é grande, pelo que Russos e Americanos, além de Suecos, Dinamarqueses, Finlandeses, Polacos, Alemães e até os minúsculos Balticos cruzam-se constantemente nessas águas e cada um sabe, em qualquer altura, onde estão os outros. É apertado, mas lá andam, tem de ser. Passar despercebido é quase impossível.

Aquela pequena ilha dinamarquesa que referi, que se chama Bornholm, está eriçada de antenas, sensores, câmaras vídeo e microfones acima e debaixo de água, vigiando e monitorizando tudo o que passa por ali, entrando ou saindo do Mar Báltico.

Tudo é visto, incluindo peixes. Tudo isto é operado por militares dinamarqueses e americanos.

Ora, os hoje célebres gasodutos russo/alemães (que são 3) passam por ali, assentes no fundo do mar envoltos em estruturas de cimento e aço, a 60 metros de profundidade. E inúmeras câmaras de vídeo vigiam-nos em permanência. Mas foi ali, naquele local com tanto trânsito e hiper vigiado 24/24, que os gasodutos foram rebentados deliberadamente.

A questão é: com este aparato todo de vigilância, como é que, sobretudo an ilha Bornholm, ninguém viu nem ouviu nada?!

Resposta: decorriam exercícios de forças americanas naquelas águas, conhecidos por todos, àquela hora. E apenas se podiam aproximar navios americanos autorizados. Um dos exercícios era manuseamento de explosivos debaixo de água.

Agora, podem dizer que isto são meras provas circunstanciais, o que é verdade. Também podem dizer que frotas de todos os países fazem exercícios, o que também é verdade.

Só não percebo como é que os russos conseguiram penetrar nessa zona hiper vigiada e rebentar com os seus próprios gasodutos, (que custaram muitos biliões) sem serem detectados, cometendo dessa forma o crime mais masoquista e mais inútil da História.

Mas a população da Europa, depois de ser submetida a muitos meses de desinformação ridícula, já acredita em tudo. É pena.



sábado, 24 de setembro de 2022

MOVIMENTO DA ALEMANHA PARA SE TORNAR NUMA POTÊNCIA MILITAR SERÁ SUICIDIO TANTO PARA BERLIM QUANTO PARA A UE


Por Martin Jay

Scholz e seus colegas não estão preocupados com a vitória de Putin. Eles estão preocupados com o impensável. Putin perdendo.

A questão do papel da Alemanha numa Europa militarizada não vai desaparecer. Ele continua surgindo ou retornando como uma erupção cutânea assistida pelo grupo de comentadores geopolíticos que podem ver o que muitas pessoas comuns não podem: a Alemanha retornando às suas raízes de superpotências militares.

Essa ideia de a Alemanha ter um exército poderoso foi frustrada por décadas, dada a enorme onda de opinião no país contra a repetição das aflições da história que atormentam as gerações mais velhas até hoje, que não se incomodam tanto com o horror da Terceira Reich, mas mais por derrotas no campo de batalha que deixaram cicatrizes até hoje que não são apenas visíveis, mas precisam ser arranhadas de vez em quando.

Olaf Scholz pertence a uma geração e a uma elite política que não pode esquecer a derrota humilhante tanto nos arredores de Moscovo, mas depois em Stalingrado. O papel da Alemanha em apoiar a Ucrânia no campo de batalha com equipamentos traz essas derrotas anteriores para a mente de Schilz como se fosse ontem.

E assim armar a Ucrânia é quase um dever público contra Putin, que é visto mais como um líder soviético ligado à história do que um moderno construindo um estado moderno. Mas ir mais longe e conseguir rearmar a Alemanha parece um gigantesco acto de suicídio tanto para ele como chanceler – e líder de um governo de coligação que se confunde com a política internacional – quanto para a geração política que ele representa.

Foi a guerra na Ucrânia que permitiu que a resistência habitual à ideia de “rearmamento” fosse interrompida para permitir que um parlamento de cães de guerra se abatesse sobre seu líder com seu plano de 100 mil milhões de euros para impulsionar o exército. O setor militar alemão não é apenas assediado por problemas de corrupção, mas também uma área incomumente sobrecarregada e complicada de gerenciar e pode levar algum tempo até que esse plano possa se materializar. Além disso, alguns argumentarão que 100 mil milhões de euros não é muito dinheiro quando se trata de modernizar o que sempre foi uma parte dilapidada dos gastos públicos. Não é o dinheiro que importa, mas as ideias que vêm com ele.

A Alemanha está agora usando a guerra da Ucrânia para fazer o impensável, muitos acreditam em liderar um programa para dar à UE o seu próprio exército, que provavelmente não será chamado de “exército da UE”, pois não será dirigido por Bruxelas, mas por Berlim. Com este novo movimento, que representa uma mudança tão sísmica para os líderes da Alemanha, a Alemanha começará a pensar em abrir as suas asas e agir como uma mini superpotência em torno dos hotspots do mundo na África e no Médio Oriente. E já existem outros estados-membros da UE que enviariam as suas tropas, para apoiar essa nova iniciativa militar alemã, e é por isso que o exército da UE pelo nome menos, mas pela prática, evoluirá dando tanto à UE a única coisa que sonhou desde que o bloco surgiu nos anos 60, mas também a mãe de todos os pesadelos ao mesmo tempo.

Uma das razões pelas quais a Alemanha precisa gastar esse dinheiro em primeiro lugar em militares é que os seus próprios stockes estão acabando devido ao envio de muitos kits para a Ucrânia e também promessas feitas aos países vizinhos de fornecer novos tanques no caso deles enviarem os seus antigos russos/soviéticos para Kiev. E depois há as promessas que a Alemanha fez de enviar novos tanques Leopard para o regime da Ucrânia.

Então, no papel, há muitas promessas que já estão a ser quebradas. Segundo relatos, as promessas de enviar armas de longo alcance para a Ucrânia já foram quebradas, então é preciso perguntar se as promessas de enviar os tanques são aquelas que podem ser levadas a sério. A Alemanha está confusa sobre a Ucrânia e quais devem ser seus objetivos, o que explica a natureza caprichosa das decisões de Scholz e as promessas que muitas vezes acabam sendo falsas.

Mas a verdadeira decisão por trás dos gastos é defender a Alemanha. Scholz e os seus colegas não estão preocupados com a vitória de Putin. Eles estão preocupados com o impensável. Putin perdendo. Neste caso, os alemães estão preocupados com um ataque à própria pátria alemã com apenas a Polônia dividindo a Rússia e a Alemanha.

Além de levantar a questão óbvia de uma total falta de confiança na OTAN para impedir ou evitar tal movimento de Putin, isso não é um bom presságio para a Europa, ou para o futuro da OTAN. Se tal ataque acontecesse, talvez até mesmo em solo polaco, e a OTAN não agisse rapidamente, então a credibilidade desta organização entraria em colapso em poucos minutos e a Alemanha estaria mais uma vez travando uma guerra com a Rússia, com as oportunidades não parecerem boas hoje, com base nas lições da história.

A decisão da Alemanha de romper com a OTAN e formar a sua própria organização de manutenção da paz, que funcionários da UE em Bruxelas chamarão de exército da UE – ou um 'pilar' dentro da OTAN - apresenta uma série de problemas para a maioria dos EUA. Biden pode muito bem receber tal iniciativa, pois pode ser considerada uma maneira de aliviar os americanos do dever de conflito, certamente na Europa e certamente no pior cenário com a Rússia, na qual ele já indicou que não envolverá tropas dos EUA - um dos as razões pelas quais ele não quer provocar Putin enviando artilharia de longo alcance capaz de atingir a própria Rússia. Mas, a longo prazo, um exército da UE dentro ou fora de uma estrutura da OTAN só pode se tornar um problema maior em vez de uma solução para o conflito global em geral e certamente na Ucrânia.

Não é uma ideia nova ter um contingente tão 'dissidente' de países da OTAN. Ironicamente, foi a América que mostrou ao mundo que era capaz de fazer isso sozinha no Afeganistão, onde nunca foi relatado que os EUA tinham o seu próprio contingente independente de soldados não pertencentes à OTAN, que descobri quando trabalhei lá em 2008 e que oficiais dos EUA estavam sempre envergonhados para falar; eles estavam lá para o caso de a operação liderada pela OTAN – chamada ISIF – nem sempre ter saído exactamente como Washington queria, disseram-me generais americanos.

Assim, os americanos dificilmente podem apontar o dedo para a Alemanha e acusá-la de ser a mosca na sopa se seguirem em frente com as suas ambições militares. Mas certamente prejudicará as relações EUA-UE, pois os EUA não serão mais uma força dominante. Além disso, a operação liderada pela Alemanha pode ter objetivos diferentes da OTAN nos pontos críticos do mundo, o que colocará mais pressão nas relações comerciais, tanto multilateral quanto unilateralmente com a UE. Até agora, a UE segue em grande parte Washington em quase todas as grandes iniciativas políticas e, portanto, este é realmente um passo no escuro, mas que muitos federalistas hardcore em Bruxelas vão dar as boas-vindas. Para a própria Alemanha, o movimento está repleto de armadilhas, pois há muitos cenários além da mera manutenção da paz na África, onde toda a ideia pode explodir na cara daqueles que a defendem, incluindo os cães de guerra em Bruxelas, que sentirão uma nova onda de estados-membros do tipo Brexit que perderam uma identidade dentro da UE, provavelmente começando pela Hungria. 'Quanto maior você é, mais forte você cai' não é apenas um ditado que se aplica a Putin. Será mais adequado para a cruz alemã em uniformes, mais ainda os que têm uma braçadeira azul de Bruxelas.


Fonte: strategic-culture.org

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

O OCIDENTE ISOLA A RÚSSIA OU A RÚSSIA ISOLA O OCIDENTE?




Por Gordon M. Hahn

O facto é que ambas são verdadeiras. Washington e Bruxelas estão expulsando a Rússia em grande parte, embora não totalmente, do Ocidente. Moscovo está isolando o Ocidente do “resto” com a participação ansiosa da China e de outros parceiros e vem fazendo isso há algum tempo.

Liderado por Washington, o Ocidente foi consideravelmente longe ao expulsar a Rússia da política, economia e cultura ocidentais desde a invasão russa da Ucrânia em 24 de fevereiro.

O problema é que a Rússia e a China há muito se preparam para o dia em que uma ruptura completa com o Ocidente seria necessária em vista de seus interesses nacionais como Moscovo e Pequim os veem.

China, Rússia e vários parceiros estão copiando a organização internacional ocidental representada por instituições como a UE e a OTAN, mas em formato maior. As invenções da Rússia, a União Económica da Eurásia (EEU), a organização BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai (SCO), e a Iniciativa One Belt One Road (OBORI) da China são os precursores institucionais de um sistema global alternativo ao do Ocidente e por ele dominado.

UE, OTAN, FMI e Banco Mundial. Essas estruturas estão agora se tornando as plataformas para uma deserção completa do Ocidente por grande parte do “resto” econômica, financeira, política e até cultural e militar.

O projeto global da China e da Rússia abrange planos de desdolarização, a criação de bancos alternativos e outras instituições económicas, incluindo o comércio de energia, já estavam em andamento antes da nova guerra ucraniana. Todas essas instituições e políticas estão agora movendo-se em alta velocidade rumo à criação de uma comunidade internacional alternativa que funcionará de forma autónoma e próspera sem o Ocidente.

A parceria estratégica sino-russa, formada há mais de duas décadas em resposta ao mau manejo dos EUA de seu status hegemónico após a Guerra Fria, iniciou essa tendência. A falta de magnanimidade dos Estados Unidos em relação à Rússia pós-soviética manifestada pela expansão da OTAN, o revolucionarismo americano refletido pelas políticas de promoção da democracia e revoluções coloridas fomentadas pelos EUA , a arrogância e hipocrisia ocidentais com base em sua alegada superioridade enraizada em seu republicanismo levaram a Rússia a abraçar a China. Ambas estas potências procuraram proteger sua respectiva soberania e segurança nacional em face da expansão da OTAN e das instituições internacionais dominadas pelo Ocidente.

Posteriormente, uma China em ascensão mais poderosa do que a Rússia apoiou economicamente as iniciativas dos BRICS e da SCO da Rússia e desenvolveu sua própria atualização dessas ideias – OBORI, que poderia liderar tendo sido seu iniciador, projetista e financiador. A motivação de Pequim é semelhante à de Moscovo, embora os motivos da motivação por vezes sejam diferentes.

Moscovo opôs-se com unhas e dentes à expansão da OTAN; Pequim sentiu que Washington resistiria à ascensão da China ao status de superpotência e de um sistema internacional bipolar ou multipolar.

A Rússia temia revoluções coloridas em sua vizinhança e entre seus aliados na Europa Oriental (Sérvia e Ucrânia), Eurásia (Geórgia e potencialmente também noutros lugares), Síria e em casa. Pequim temia interferência ocidental, em particular americana, em seus assuntos internos em Taiwan , Tibete e Xingjiang.

Os EUA agora consolidaram e intensificaram ainda mais a parceria estratégica sino-russa por meio da provocação, depois punindo agressivamente e rejeitando ainda mais Moscovo após a invasão da Ucrânia pela Rússia, ao mesmo tempo em que desafiam a China em relação à venda de armas a Taiwan e até ameaçam intervir militarmente para defender a ilha separatista com decisão de Pequim de reuni-la sob a soberania do continente pela força.

Os temores chineses sobre Taiwan devido a essa postura agressiva dos americanos fizeram com que Pequim percebesse a Ucrânia como uma caligrafia escrita na parede. Assim, a China apoiou moralmente a guerra da Rússia na Ucrânia e acelerou os esforços conjuntos com Moscovo para construir um sistema mundial alternativo.

É a China que agora está pedindo a adição de novos membros ao BRICS (Arábia Saudita, Turquia, Argentina e Indonésia, as prováveis ​​adições iminentes) e SCO (Irão). Ambas as partes estão intensificando os movimentos para desdolarizar suas economias e comércio e construir um novo sistema monetário-financeiro projetado que será vinculado aos estados parceiros do BRICS, SCO e OBORI.

Este conjunto interligado de organizações internacionais é uma rede de redes que liga muito do resto – o não-ocidente – já, com muito espaço e razão para haver expansão. As dezenas de estados-membros e observadores dessas organizações já incluem as cinco nações mais populosas do mundo, depois dos EUA – China, Índia, Indonésia, Paquistão e Brasil – e bem mais da metade da população mundial.

Uma razão pela qual há potencial para expansão quase ilimitada é a própria “política de portas abertas” dessas organizações, que não impõe exigências no que respeita ao tipo de regime existente nos possíveis estados-membros. Um regime autoritário é tão bem-vindo quanto um democrático.

Índia democrática, Brasil e África do Sul juntam-se à China e à Rússia autoritárias no BRICS. Índia como um estado observador na SCO. Nenhum estado ocidental está participando de nenhuma dessas iniciativas. O Ocidente está isolado deles, e os líderes do resto, China, Rússia e até a Índia, estão se isolando dele. O resto não-ocidental se absteve de aderir às sanções do Ocidente contra a Rússia, e a Índia democrática expressou simpatia pela posição russa sobre esta e várias outras questões.

Finalmente, lenta mas seguramente, uma anti-OTAN está surgindo entre alguns no "resto". A SCO viu o desenvolvimento de um aspecto militar se infiltrando na instituição desde sua fundação, há cerca de duas décadas. Conduz manobras militares e outras formas de cooperação militar e de inteligência, e seus oito estados membros plenos (China, Rússia, Cazaquistão, Tadjiquistão, Quirguistão, Índia, Paquistão e Uzbequistão), quatro estados membros observadores (Bielorrússia, Irã, Mongólia) , e Afeganistão), e nove parceiros de diálogo (membros da OTAN Turquia, Arábia Saudita, Egito, Armênia, Azerbaijão, Camboja, Nepal, Catar e Sri Lanka) constituem mais da metade da população mundial. O Irão, um membro observador, está buscando e provavelmente receberá em breve a adesão plena. As limitações de apoio entre o resto do Ocidente em sua guerra pela expansão da OTAN para a Ucrânia foram claramente demonstradas em 20 de julho, quando a cúpula do MERCOSUL dos estados latino-americanos Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai se recusou a permitir que o presidente ucraniano Volodomyr Zelenskiy discursasse na reunião. https://www.barrons.com/.../mercosur-trade-bloc-denies...).

Ao mesmo tempo, China, Rússia e Irão estão prestes a realizar manobras militares navais na Venezuela com foco em uma possível invasão dos EUA em nome/a pedido da Colômbia (https://10news.org/2022/07/for-the-first -time-russia-iran-and-china-will-conduct-military-maneuvers-in-venezuela/).

O Ocidente pode achar mais de seu interesse permitir que o que considera os sistemas autoritários menos eficientes persista entre seus concorrentes, se assim o preferirem, ao mesmo tempo em que fortalece seus próprios sistemas cada vez mais insuficientemente republicanos e engaja seus concorrentes no comércio e no desenvolvimento.

Se a governança republicana é realmente superior – e eu acredito que seja – então, com o tempo, outros descobrirão isso. Mas o modelo tem que ser convincente e não forçado a sua adoção.

Enquanto isso, nós e nossos concorrentes no Ocidente deveríamos voltar às mesas de negociação para acabar com a guerra na Ucrânia, criar novas arquiteturas políticas e de segurança europeias e globais, resolver disputas económicas e comerciais e trabalhar para integrar a economia global em um contexto mais equilibrado, mas ordem económica ainda competitiva e descentralizada que protege todos os estados das maquinações de globalistas autoritários e grandes potências intransigentes.

A outra opção para tudo isso – isolamento duplo, um mundo dividido, caos socioeconómico crescente e confronto militar – poderia terminar de forma extremamente desagradável e talvez não menos grave para o Ocidente.

terça-feira, 26 de julho de 2022

DOCUMENTOS LIBERTADOS: CONSELHEIRO DO FACEBOOK "BOT" SECRETAMENTE EM PAGAMENTO DA AGÊNCIA DE MUDANÇAS DE REGIMES DOS EUA



Por Kit Klarenberg


Documentos partilhados com a MintPress revelam que a Valent Projects – uma empresa de comunicação sombria que assessora plataformas de mídia social, como o Facebook, em supostas campanhas de influência on-line apoiadas pelo Estado – recebeu US$ 1,2 milhão da frente de inteligência dos EUA USAID, por "combater a desinformação e o suporte a comunicações".

Essa relação até agora nunca foi reconhecida publicamente, e o resultado não se reflete nas contas publicadas da empresa.

Na direção de Valent, o Facebook purgou um grande número de contas e páginas sudanesas críticas ao governo apoiado pelo Ocidente, ajudando a manter uma controversa administração civil e militar no poder. Há também suspeitas de que a empresa pode ter desempenhado um papel na supressão em massa de vozes etíopes on-line apoiando o governo de Abiy Ahmed, e se opondo às tentativas dos EUA de derrubá-lo.

Valent Projects é a criação de Amil Khan, um veterano jornalista da BBC e da Reuters que se tornou profissional britânico de guerra de informações adjacente à inteligência. Por muitos anos, Khan trabalhou em projetos secretos do Ministério das Relações Exteriores na Síria. Lá, ele fez campanhas secretas contra o público nacional e internacional, treinou jornalistas e ativistas da oposição ostensivamente independentes para se comunicar efetivamente com a mídia, e forneceu apoio à propaganda a numerosos grupos armados treinados, financiados e armados por Londres e Washington.

Perversamente, mas talvez sem surpresas, dada a sua história profissional, Khan é agora um componente influente e bem remunerado da indústria internacional de contra-desinformação. Ele e sua empresa recebem grandes somas de uma variedade de clientes proeminentes – nem todos anunciados – para uma variedade de serviços duvidosos, incluindo o gerenciamento de campanhas de astroturf on-line e a identificação de supostas propagandas estrangeiras e "operações de informação" apoiadas pelo governo inimigo on-line.

A Khan considera a Valent Projects como "uma agência digital integrada que trabalha com clientes que querem fazer o bem no mundo". Mas documentos internos da empresa passados a este jornalista revelam anonimamente que sua desinformação que estoura esforços equivalem a um mecanismo de censura estatal profundamente sinistro.

Não há indicação de que Khan forneceu redes sociais de suas conexões comerciais à USAID ao fazer representações a eles sobre suposto "comportamento inautêntico", "atividade coordenada" e contas de trolls e bots em suas plataformas – representações que resultam em ativistas independentes, jornalistas e outros sendo permanentemente suspensos, e dissidências esmagadas online.

Por definição, essa atividade representa uma grave, invisível e totalmente inexplicável ameaça à capacidade de jornalistas independentes, acadêmicos, ativistas e cidadãos comuns em todo o mundo serem ouvidos online, se suas perspectivas contrariarem narrativas ocidentais estabelecidas. E representa mais um exemplo sinistro de como as principais plataformas de mídia social foram insidiosamente cooptadas e corrompidas pelos interesses de segurança nacional.

PROMOVENDO NOSSOS HOMENS NO SUDÃO

O papel ativo da Valent em obrigar as principais plataformas de mídia social a tomar medidas contra "redes" de trolls e bots em outros lugares foi bem divulgado. Em junho de 2021, por exemplo, 53 contas no Facebook, 51 páginas, três grupos e 18 contas do Instagram no Sudão, com mais de 1,8 milhão de seguidores "que visavam o público interno", ligados a indivíduos associados a um partido de oposição nacional, foram sumariamente purgadas.

"Encontramos essa rede depois de revisar informações sobre algumas de suas atividades compartilhadas por pesquisadores da Valent Projects", afirma um relatório da Meta sobre "comportamento inautêntico" naquele mês.

Esta foi uma das muitas defenestrações em massa de usuários de mídia social no Sudão realizadas pelo Facebook no período entre o golpe de abril de 2019 que derrubou o presidente de longa data Omar al-Bashir, e a tomada de poder pelos militares em outubro de 2021, ao qual Valent era central ou próximo.

Esses relatos, geralmente associados a elementos da oposição no país, foram várias acções alegadas ter se envolvido em "comportamento inautêntico coordenado" ao disseminar conteúdo crítico ao governo militar e civil do país, "[promovendo] interesses russos" e outras atividades malignas.

Embora alguém seja perdoado por concluir a partir do relatório "comportamento inautêntico" da Meta de que Valent se aproximou da rede social em uma capacidade independente, a empresa estava de fato agindo em nome do Escritório de Iniciativas de Transição (OTI) da Agência da USAID, que "fornece assistência rápida, flexível e de curto prazo direcionada à transição política chave".

Este é um eufemismo orwelliano para facilitar a mudança de regime. Embora nunca tenha sido admitido no mainstream, e duramente negado por funcionários em Washington, a USAID desde sua criação em 1961 serviu como um Cavalo de Tróia da inteligência dos EUA, ajudando a CIA e outras agências a minar governos "inimigos".

A penetração da Agência no Sudão após o golpe de 2019 foi extensa. Um explicador oficial da USAID diz abertamente que o evento representou uma oportunidade "histórica" para "mais interesses dos EUA" no país e na região mais ampla, sugerindo fortemente que o governo civil e militar de compartilhamento de poder foi criado pela OTI.

A administração recebeu então amplo apoio financeiro e material da USAID, seus representantes coordenando estreitamente com o gabinete do primeiro-ministro sudanês para "combater a desinformação e a desinformação". A Agência também financiou meios de comunicação independentes e ONGs, e apoiou "civis que defendem reformas democráticas", a fim de reforçar seu governo.

Numerosos relatórios de organizações líderes de direitos humanos publicados durante os dois anos de operação do executivo documentaram corrupção desenfreada e abusos flagrantes de poder por parte das autoridades, incluindo repressão assassina a protestos, prisão de ativistas sem acusação ou julgamento e fechamento de meios de comunicação da oposição. No momento em que a administração se desintegrou, não conseguiu implementar quase todas as reformas institucionais e legais delineadas em sua carta constitucional fundadora.

No entanto, não se sabe disso a partir de declarações de autoridades americanas. Em setembro de 2021, a chefe da USAID e notória falcão de guerra Samantha Power saudou o "esperançoso... progresso" em "alcançar um futuro democrático, inclusivo e pacífico beneficiando todos os sudaneses".

Para dizer o mínimo, a USAID tinha um interesse significativo em manter essa ficção grosseiramente distorcida, e silenciar detratores do executivo de compartilhamento de poder. Foi, sem dúvida, calculado que Washington se envolveu abertamente em redes sociais convincentes para desplataformar os denigradores da administração de má reputação, porém, prejudicaria ainda mais sua legitimidade no país e no exterior.

Daí a necessidade de empregar Projetos Valent para atingir esse objetivo, e dar uma imprimatur legitimante de "expertise" ostensivamente independente à censura estatal insidiosa.

'DESINFORMAÇÃO, DIVISÃO E GUERRA'

Também há dúvidas sobre o papel de Valent na Guerra Civil da Etiópia, que se arrasta desde novembro de 2020, e a censura online em massa que acompanhou a luta amarga.

O que começou como uma escaramuça regional limitada na qual as forças do governo responderam a ataques à infraestrutura militar e atrocidades perpetradas contra civis pela Frente de Libertação Popular de Tigray (TPLF) eventualmente passaram a engolir grande parte do país. Um movimento político-cum-partido que governou o país entre 1991 e 2018, o novo governo em Adis Abeba designou o TPLF como um grupo terrorista.

Durante seu período no poder, o TPLF, apoiado pelos EUA, fez da Etiópia "um dos lugares mais inóspitos do mundo", realizando ações cruéis "com a marca dos crimes contra a humanidade", segundo a Human Rights Watch. Bilhões incontáveis fornecidos em ajuda financeira foram desviados por funcionários do Estado e espirituosos para fora do país, e a Etiópia tornou-se o segundo pior carcereiro de jornalistas do continente.

Este histórico notório se reflete na conduta do TPLF na guerra civil. O grupo cometeu inúmeras atrocidades, incluindo estupros de gangues e múltiplos massacres de civis, e usou crianças extensivamente como escudos humanos. No entanto, esses abusos mal foram reconhecidos pelos jornalistas ocidentais.

Os esforços do governo eleito para acabar com o derramamento de sangue, e o tempo no cargo em geral, não foram sem culpa. Mas a administração, evidentemente, representa uma mudança bem-vinda para os eleitores etíopes, que a reelegeram em um deslizamento de terra esmagador em meados de 2021, mesmo com a carnificina instigada pelo TPLF em ritmo acelerado. No entanto, os meios de comunicação corporativos têm consistentemente enquadrado a acusação das autoridades sobre a guerra como um ataque assassino e não provocado à população em geral, com acusações de fome artificialmente fabricada, atrocidades em massa e limpeza étnica, se não genocídio total repetidamente abundando – embora nunca comprovado.

Autoridades em Washington têm em intervalos regulares também aberta e ansiosamente defendido o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea sobre a Etiópia, se não botas dos EUA no chão. Tais comentários são comuns em acúmulos de intervenção militar ocidental.

Em novembro de 2021, o jornalista independente Jeff Pearce divulgou uma gravação vazada de uma cúpula secreta do Zoom no início do mês entre diplomatas atuais e antigos dos EUA, Reino Unido e da UE e um representante sênior da TPLF. Durante a reunião, o TPLF foi ativamente encorajado a avançar sobre a capital da Etiópia e tomar o poder via força, o que apenas confirmou suspeitas de que Adis Abeba havia sido designado por Washington para a mudança de regime.

Em resposta a essa agressividade, muitos etíopes, membros da grande diáspora do país, e repórteres e pesquisadores independentes foram às redes sociais e começaram a coordenar através de aplicativos de mensagens para combater a propaganda de guerra perpetuada por políticos ocidentais, jornalistas e think tanks, em prol da agressão e exploração dos EUA em todo o Chifre da África.

Sua luta coletiva deu origem ao movimento No More, seu nome um apelo conciso, mas poderoso, para acabar com a "desinformação, divisão e guerra" em Adis Abeba e além – uma hashtag correspondente se espalhou como fogo nas plataformas de mídia social, e serviu como um grito de guerra em muitos protestos nas principais capitais ocidentais, onde etíopes e eritreias marcharam lado a lado contra o conflito e a intromissão imperial.

Esses esforços desafiaram de forma muito eficaz o consenso dominante sobre a guerra civil, no processo de sublinhar amplamente o potencial poder da mídia independente e das redes sociais. Se não fosse pelo trabalho de Crusading de No More et al, parece quase certo que Washington teria encenado alguma forma de intervenção direta para ajudar o TPLF a derrubar o governo etíope.

Isso só pode ser considerado uma tremenda conquista para o poder das pessoas. Mas a Valent Projects tinha ideias muito diferentes. Entre os documentos vazados revisados pela MintPress está um relatório sobre "comportamento inautêntico" e "redes coordenadas" on-line relacionadas à guerra civil etíope produzida pela empresa em maio de 2022.

Ele enquadra o aumento sísmico do clamor popular nos últimos 18 meses como um "complexo e sofisticado esforço de manipulação on-line" por parte de Adis Abeba, com os governos chinês e russo "apoiando, se não dirigindo" vastos exércitos de contas de trolls e bots para apoiar essa atividade, e promulgando narrativas "anti-imperialistas" através das mídias sociais para manipular "audiências específicas, Como parte de uma "campanha de influência on-line orquestrada".

Os métodos pelos quais Valent chega a essas conclusões sensacionais deixam muito a desejar. Para ser franco, seu relatório é um patchwork mal tecido de falácias lógicas peculiares, teóricos da conspiração paranoica, não sequiturs, alegações difamatórias e falsas, conjecturas conspiratórias, julgamentos de valor não suportados e inexplicáveis, e erros analíticos amadores.

Por exemplo, a suposição inicial da empresa – por razões não declaradas – era a esmagadora maioria das contas tuitando #NoMore eram automatizadas. Sua equipe de pesquisa analisou, portanto, 150 contas que usaram a hashtag com mais frequência usando botômetro para validar essa hipótese.

Apenas 20% foram considerados bots "prováveis", obviamente indicando que a maioria dos usuários eram pessoas reais. Mas Valent, em vez disso, concluiu que a "operação" russa e chinesa era de fato tão sofisticada, "muitas contas inautênticas" simplesmente escapou da detecção.

Para reforçar essa conclusão duvidosa e autoperpetuante, Valent "isolou" 49 dessas contas, que exibiam dados de localização, e descobriu que 30 haviam tuitado de seis "locais idênticos, dentro e fora da Etiópia". Isso sugere que todos eles estavam sendo executados "por um grupo individual ou pequeno de atores", a fim de criar a falsa impressão de que as interações entre essas contas eram "conversas online orgânicas".

Um site supostamente ligado a várias contas era a mundialmente famosa Trafalgar Square. Valent cita isso como "um sinal claro de falsificação", embora uma explicação muito mais lógica seja que esses usuários simplesmente listaram Londres como sua localização em seus perfis.

Trafalgar Square marca o ponto de onde todas as distâncias até a capital britânica são medidas, e assim representa o epicentro da cidade. Pesquisas por "Londres" através de mapas online invariavelmente diretos para a área como resultado. Como nativo da cidade e residente até hoje, é notável que Khan aparentemente não sabia disso.

SUPRESSÃO DIRECIONADA

Uma planilha do Excel que acompanha lista um grande número de contas que tuitaram conteúdo relacionado à guerra civil, dividido pela Valent em "sementes" – "contas que produzem conteúdo original e o introduzem no discurso"; "super-spreaders – "contas que pegam esse conteúdo e o amplificam"; e "endossadores" – "contas que interagem com o conteúdo para dar a aparência de engajamento orgânico às interações". Cada usuário também recebe um ranking botômetro de cinco.

Entre os relatos estão dezenas de etíopes, incluindo acadêmicos e ativistas, e jornalistas e pesquisadores ocidentais anti-imperialistas. Grande parte da taxa de contingente etíope é altamente alta na escala botômetro, embora testes acadêmicos mostrem que o software é "impreciso quando se trata de estimar bots", produzindo volumes significativos de falsos positivos e negativos, "especialmente" então quando as contas tweetam em um idioma diferente do inglês.

Sublinhando a imprecisão do Botometer, a conta oficial do meio de comunicação independente Breakthrough News está classificada em 3,3 na escala de inautenticidade, e destacada na planilha em vermelho ameaçador.

A Descoberta e seus fundadores Eugene Puryear e Rania Khalek aparecem repetidamente no relatório. Em novembro de 2021, eles viajaram para Adis Abeba para realizar relatórios in loco sobre a situação, o que Valent afirma estranhamente ser o componente inicial de uma "fase" dedicada da "operação de influência política" da China e da Rússia relacionada à guerra civil.

Isso se baseia na base falsa de que a tomada – que não recebe financiamento estatal ou corporativo, e é financiada principalmente através de doações e assinaturas de espectadores – é na verdade "apoiada pela Rússia".

A existência de tal "fase" é reprimida pela observação de que outras figuras falsamente acusadas de estarem "ligadas aos interesses do Estado russo" também se tornaram "mais ativas na formação do discurso" nas mídias sociais neste momento, empurrando uma narrativa "anti-imperialista" para "públicos de esquerda".

Mais uma vez, uma explicação totalmente mais sã poderia ser que o interesse e a produção de ativistas e jornalistas anti-imperiais e independentes foram estimulados por desenvolvimentos contínuos na crise, e eles relataram sobre eles em conformidade. Afinal, novembro foi quando a já mencionada gravação bombástica vazou e quando o TPLF simultaneamente expressou um desejo publicamente de empurrar para Adis Abeba.

Esse foi certamente o caso em meu respeito. Destaco-me proeminentemente no relatório como resultado de ter publicado independentemente um boletim substack sobre a gravação vazada, e Valent nivela uma série de acusações selvagens contra mim. Por exemplo, uma série de tweets sobre a empresa e Khan postados no início de dezembro de 2021 é enquadrado como um "ataque doxxing" que "demonstrou uma consciência das operações internas da Valent" e "sugeriu acesso às informações obtidas através de links de espionagem/segurança".

A "sofisticação" desse "ataque", argumenta o relatório, "reforça ainda mais a visão" de que a Rússia estava gerenciando uma "operação pró-etíope" de alto nível nas mídias sociais, apesar dos tweets estarem completamente sem relação com a Etiópia, e este jornalista não ter a menor ideia de que a empresa estava envolvida em trabalhos relacionados à guerra civil neste momento.

O relatório continua lamentando que, apesar de Valent relatar esses tweets no Twitter, a empresa não tomou nenhuma ação, o que se diz sugerir "uma falta de compromisso por parte da plataforma para aplicar suas políticas declaradas". Na realidade, a falha de resposta do Twitter foi provavelmente devido às informações incluídas nos tweets que estão sendo obtidas dos mecanismos de busca da internet e de recursos acessíveis publicamente, como o LinkedIn, e, portanto, nenhuma regra realmente foi quebrada.

‘TRANSIÇÃO POLÍTICA CHAVE'

Tal irracionalidade, inaptidão e incompetência seria divertida, exceto o enquadramento de valente de atividades online legítimas e orgânicas por atores genuínos da sociedade civil como atores da sociedade civil genuína como malignos, orquestrados, falsificados, inimigos dirigidos pelo Estado e em violação das regras estabelecidas da plataforma poderia muito bem ter influenciado as plataformas de mídia social a suprimir, se não a proibição total de um grande número de usuários, distorcendo perspectivas públicas e prejudicando reputações e meios de subsistência no processo.

Jornalistas independentes nomeados em documentos valentes, como o colaborador da Sputnik Wyatt Reed, disseram à MintPress que seu alcance online ruiu depois que eles relataram sobre a guerra civil. Muitas das contas sinalizadas pela Valent como bots – provavelmente erroneamente – foram permanentemente suspensas. Outros proeminentes ativistas pró-etíopes não nomeados no relatório, incluindo o cofundador do No More Simon Tesfamariam, também foram banidos sem aviso, explicação ou recurso. Enquanto isso, figuras proeminentes se envolveram em um discurso de ódio sobre os etíopes e nenhuma ação foi tomada.

Rania Khalek também alega que houve um "enorme mergulho" nas visualizações de vídeos inovadores relacionados à Etiópia depois que eles viajaram para Adis Abeba, apesar de sua produção inicial sobre a crise gerando um grande número. Jeff Pearce, que está listado na planilha como "historiador/propaganda [sic]", acredita que sua conta no Twitter agora será banida. Pearce disse à MintPress que,

Estou muito chateado que Valent tem a ousadia de difamar a mim e aos meus colegas como ativos do Kremlin, ou parte de alguma operação de informação dirigida por Moscou. É mais do que ridículo e insultante. Eu condenei publicamente a invasão da Rússia à Ucrânia em várias ocasiões – você pode assistir a um discurso que fiz sobre a guerra no início deste ano no meu canal no YouTube."

"Viajamos à Etiópia várias vezes, entrevistamos testemunhas, investigamos massacres, vimos hospitais, universidades e museus vandalizados e saqueados pelo TPLF", acrescentou. "Publiquei documentos que provam que os funcionários da ONU ignoraram crimes de guerra e não fizeram nada para ajudar seus próprios funcionários quando foram agredidos e sequestrados. Você pode fazer o que quiser, mas não pode transformar a realidade de mais de 100 milhões de pessoas."

CONTRA-DESINFORMAÇÃO COMO GOLPE DE ESTADO

Se o trabalho de Valent na Etiópia também foi conduzido para a USAID é uma questão aberta, mas os paralelos com suas operações sudanesas são claros e coaduns. Pode ser significativo que Samantha Power tenha sido uma das vozes mais proeminentes agitadas pela intervenção dos EUA na guerra civil, declarando em agosto de 2021 que "todas as opções estão sobre a mesa" para lidar com a crise.

Além disso, o relatório Valent sobre "comportamento inautêntico" afirma que a empresa identificou "operações de informação no Oriente Médio e na África", enquanto outros documentos vazados referem-se a Valent ajudando a "apoiar governos recém-democratizados" a lidar com a "desinformação" para a USAID – sugerindo que vários outros países, e suas populações, na mira da Agência, também estiveram na linha de fogo da visão distorcida de Khan.

É evidente que há uma necessidade urgente de que as plataformas de mídia social revisem toda e qualquer suspensão motivada por informações fornecidas pela Valent Projects. É inevitável que um número incontável de jornalistas, ativistas, acadêmicos e vozes autênticas da sociedade civil tenham sido expurgados nos motivos mais absurdos e injustos imagináveis como resultado das intervenções de Khan. A única questão é quem foi o alvo, e onde.

UCRÂNIA NO CÉREBRO

Em 7 de junho, foi revelado que Khan também estava trabalhando em estreita colaboração com o jornalista britânico Paul Mason em um esforço para desplataformar a Zona Cinza, como parte de uma cruzada pessoal mais ampla contra a anti-guerra, anti-imperialista que restou sobre a questão da Ucrânia.

E-mails vazados entre os dois expuseram como Mason sugeriu submeter a Grayzone – que ele acreditava ser uma operação de inteligência chinesa e bizarramente – para "desplataforma implacável" através de ataques "legais nucleares completos", sondas oficiais por órgãos do governo e cortar o site e seus colaboradores de fontes de doação online, como PayPal.

Este foi um destino que a MintPress News, seu fundador Mnar Adley e o escritor sênior Alan MacLeod sofreram em maio deste ano – um desenvolvimento notório mason falou de aprovação nos e-mails vazados. Na realidade, a MintPress não apoia o governo russo, e funcionários como MacLeod condenaram publicamente Vladimir Putin por suas ações.

No entanto, o conflito na Ucrânia aumentou o poder dos governos ocidentais de ditar diretamente o que é ou não é verdade, e quais são suas populações e não podem saber, exponencialmente. No entanto, sua capacidade de distorcer e censurar no exterior é limitada, se não totalmente em declínio – e é aí que entra a Valent Projects.

Como tal, os documentos vazados revisados pela MintPress iluminam um propósito até então inexplorado de supressão on-line e desplataforma: mudança de regime. Filtrando pontos de vista problemáticos e fatos inconvenientes nos países-alvo, os governos podem ser desestabilizados, e quem ou o que os substitui entrincheirados no poder, com audiências nacionais e estrangeiras privadas de acesso a todo e qualquer ponto de vista crítico.

À medida que a Nova Guerra Fria se torna consideravelmente mais quente a cada dia, os serviços de Khan certamente se tornarão cada vez mais procurados. Nem ele nem seu estado e patrocinadores quase estatais podem ter sucesso.

segunda-feira, 11 de julho de 2022

AFUNDANDO A PAZ NA EUROPA

No momento em que os Anglo-Saxões conseguiram já excluir a Rússia do Conselho da Europa, e se aprestam para a impedir de participar nas reuniões da OSCE, manobram agora para afundar a União Europeia ao criar uma estrutura concorrente na Europa Central : A Iniciativa dos Três Mares. Ao fazê-lo, retomam um velho projecto polaco que visa desenvolver essa região preservando-a de qualquer influência alemã ou russa.


Por Thierry Meyssan

O Conselho de Chefes de Estado e de Governo da União Europeia decidiu, em 23 de Janeiro de 2022, conceder à Ucrânia o estatuto de país candidato à adesão. A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, precisou que o caminho será longo (a Turquia tem este estatuto há 23 anos) para elevar este país ao nível exigido pela União, tanto em matérias económicas quanto políticas.

O gabinete do Presidente ucraniano havia já especificado que Kiev não espera ingressar na União, hoje ou amanhã, porque dispõe de um outro projecto, mas que o estatuto de candidato abre a via a um forte apoio financeiro de Bruxelas para que se possa aproximar dos padrões da União.

Com efeito, a Ucrânia partilha o projecto polaco (polonês-br) da Intermarium : uma aliança de todos os Estados situados entre o Mar Báltico e o Mar Negro.

A INTERMARIUM CONTRA A UNIÃO EUROPEIA

Este projecto assenta quer numa realidade geográfica como num passado histórico: a « República das duas Nações » (Coroa da Polónia e Grão-Ducado da Lituânia) dos séculos XVI a XVIII. Ele foi formulado a primeira vez durante a Revolução Polaca de 1830, pelo Príncipe Adam Jerzy Czartoryski, depois durante o período entre guerras pelo General polaco Józef Piłsudski, sob o nome de « Federação Międzymorze ». Piłsudski concebeu paralelamente uma ideologia visando libertar todos os povos da Europa Central da sua integração nos impérios germânico e sobretudo russo, o « prometeísmo ». Tal como o Titã, ele prometia aos homens progresso técnico que lhes permitisse libertarem-se dos seus suzeranos. Na prática, ele preferia os Germânicos aos Russos e não hesitou em aliar-se aos Austro-Húngaros e aos Alemães contra o Czar. Em 2016, uma terceira versão deste projecto foi apresentada pelo Presidente polaco, Andrzej Duda, sob o nome de «Iniciativa dos Três Mares » (o terceiro mar é o Adriático). Participaram nela onze estados. Eles passaram a doze há poucos dias.

Este projecto oferece, em princípio, uma resposta política legítima à ausência de fronteiras físicas na grande planície da Europa Central: mais vale unir-se do que se submeter ou fazer a guerra. No entanto, as coisas não são tão claras como parece : a República das duas Nações era uma confederação que permitia tanto ao Reino como ao Grão-Ducado manter o seu próprio funcionamento, enquanto Piłsudski concebia uma Federação na qual todos os povos se fundiriam e onde os Polacos teriam o predomínio. Todos os movimentos nacionalistas da Europa Central se referem à República das duas Nações, mas tiram daí conclusões muito diferentes.

Para os banderistas ucranianos, a República das Duas Nações é a herdeira da Ruténia criada pelos Vikings suecos, os Varégues ( ou Varangianos-ndT), o que é um pouco exagerado na medida em que seus territórios não se sobrepõem. Quando muito, pode dizer-se que culturalmente essas entidades têm pontos comuns. Para o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelenski, a República das Duas Nações é um bom exemplo de confederação que permite libertar-se ao mesmo tempo da Rússia... e da Alemanha que domina a União Europeia.

É por causa dos dirigentes políticos polacos e ucranianos apostarem neste projecto comum de Confederação Intermarium que o Presidente Zelensky pôde considerar, sem corar, ceder a Galícia Oriental à Polónia [1]. No entanto, em ambos os países, a extrema direita (no sentido totalitário do período entre guerras) pretende usar essa política para fazer avançar as suas ideias raciais.

A Polónia jamais jogou o jogo da União Europeia, da qual é membro desde 2004. Durante o seu período de candidatura à União, não hesitou em encaixar somas enormes, destinadas a reformar a sua agricultura, e em gastá-las para comprar aviões de guerra norte-americanos e ir fazer a guerra no Iraque sob ordens de Washington. Este truque de mãos havia sido concebido pelo Americano-Polaco Zbigniew Brzezinski e pela Americana-Francêsa Christine Lagarde [2]. Nada mudou: hoje Varsóvia está em perpétuo litígio com Bruxelas, nomeadamente a propósito do seu sistema judicial. A Ucrânia não terá qualquer problema em fazer o mesmo jogo duplo.

Este é o problema principal dos povos da Europa Central : eles procuram, legitimamente, afirmar-se sem os seus grandes vizinhos russo e alemão, mas não conseguem assumir-se sem lutar contra eles. No passado, esta doença pressionou-os sempre a confrontarem-se entre si.

O Príncipe Adam Jerzy Czartoryski acabou a sua vida no exílio em Paris e o General Piłsudski estabeleceu a sede do seu movimento prometeico igualmente em Paris. Em ambos os casos, tratava-se de escapar, ao mesmo tempo, à Alemanha e à Rússia. A lembrança deste período deu lugar, em 1945, à criação de uma rede de emigrantes da Europa Central trabalhando primeiro para o Vaticano, depois para os Serviços Secretos franceses e finalmente para os Anglo-Saxões (rede igualmente denominada Intermarium [3]). Reuniu os principais dirigentes em fuga aos Ustashas croatas, à Guarda de Ferro romena etc. Depois, em 1991, foi a constituição do « Grupo de Visegrád » (Hungria, Polónia, República Checa e Eslováquia). Hoje, os partidários deste projecto viram-se para os Anglo-Saxões, daí o apoio de Washington e Londres a Varsóvia e a Kiev. Assim, a Cimeira (Cúpula-br) da Iniciativa dos Três Mares em Varsóvia, em 2017, recebeu o Presidente norte-americano, Donald Trump. Enquanto que na Cimeira de 20 de Junho de 2022, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, intervindo por vídeo, solicitou e obteve de imediato a adesão do seu país.

O interesse dos Anglo-Saxões pelo projecto Intermarium é antigo. Um dos pais da geopolítica anglo-saxónica, Sir Halford Mackinder, havia identificado a Europa Central como o coração (Hartland) da Eurásia. Para ele, o Império Britânico só poderia controlar o mundo controlando primeiro esta região. Um dos seus discípulos, o Primeiro-Ministro Boris Johnson, precipitou-se pois para Kiev a fim de dar o seu apoio ao Presidente Zelensky. Todos os geopolíticos anglo-saxões retomaram as ideias de Mackinder, incluindo, é claro, Zbigniew Brzezinski, o qual foi com o Straussiano Paul Wolfowitz uma das duas principais figuras do colóquio de Washington, em 2000, que marcou a aliança entre os Estados Unidos e a Ucrânia [4].

Infelizmente, aqueles que empurram os Estados Unidos para o apoio do projecto Intermarium são figuras representativas do nacionalismo de extrema-direita. Assim, os conselheiros dos Presidentes Dwight Eisenhower e Ronald Reagan que os levaram a adoptar o conceito de « nações cativas (da URSS) » eram todos antigos colaboradores dos nazis, membros do Bloco das Nações Anti-Bolcheviques [5] ; os que organizaram o pré-citado congresso de 2000 foram os seus filhos; e hoje o mais importante deles é o Americano-Polaco Marek Jan Chodakiewicz, que não parou de minimizar os crimes dos nazis [6].

Todos os membros da Iniciativa dos Três Mares são membros da UE, salvo a Ucrânia. A maior parte considera espontaneamente que ela é para eles muito mais importante do que a UE, embora não tenha os mesmos meios. O facto de a Ucrânia ter a ela aderido três dias antes do reconhecimento do seu estatuto de candidato à UE atesta não só que essa é mais importante para ela, mas também que Bruxelas percebeu muito bem que devia aceitar todos os membros da Iniciativa dos Três Mares para não perder nenhum.

A prazo, esta lógica deverá levar os membros da Iniciativa dos Três Mares a deixar colectivamente a UE quando ela já não lhes for financeiramente proveitosa, porque jamais partilharam os seus objectivos políticos.

Desde logo, toda a arquitetura de segurança do continente é posta em causa. Ela repousava sobre dois pilares, por um lado o Conselho da Europa e por outro a Organização para a Cooperação e Segurança na Europa.

A RÚSSIA EMPURRADA PARA FORA DO CONSELHO DA EUROPA

O Conselho da Europa foi criado em 1949. Tratava-se para certos fundadores de basear a unidade europeia em princípios jurídicos comuns através de um Conselho de Estados e para outros, via uma Assembleia de parlamentares. No fim, juntaram os dois projectos, mas à época mantiveram fora os Soviéticos e seus países irmãos. A Rússia e os membros do Pacto de Varsóvia aderiram logo após a queda do Muro de Berlim.

Este Conselho dotou-se de duas instituições emblemáticas. Em primeiro lugar, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH). Infelizmente, este politizou-se no decurso dos últimos meses, manifestando uma evidente parcialidade face à Rússia. Por exemplo, reconheceu em Janeiro o direito de um cidadão russo cuspir no retrato oficial do Presidente da Federação da Rússia ( Processo Karuyev v. Rússia). Ou ainda, em Fevereiro de 2022, o direito de um cidadão russo perturbar uma manifestação pró-Putin exibindo um cartaz « Putin, melhor que Hitler! » ( Processo Manannikov v. Rússia). E acaba de censurar a lei russa que foi adoptada após as revoluções coloridas exigindo que as organizações políticas financiadas do estrangeiro o exibam em todas as suas publicações (Processo Ecodefence e outros v. Rússia).

A outra grande instituição, é a Comissão de Veneza que ajudou os Estados recém-independentes a assimilar as regras democráticas —Comissão que, diga-se de passagem, não tem parado de chamar a atenção da Ucrânia sobre os seus procedimentos administrativos e institucionais. [7]—.

Em última análise, os Ocidentais suspenderam o direito de voto da Rússia no Conselho da Europa com a alegação que esta estaria a tentar anexar a Ucrânia pela força. Ao que a Rússia, estupefacta, respondeu que jamais teve essa intenção e que se retirava de uma instituição que se tornara partidária.

A RÚSSIA IMPEDIDA DE PARTICIPAR NAS REUNIÕES DA OSCE

A outra plataforma intergovernamental é a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Ela foi criada por ocasião dos Acordos de Helsínquia, em 1973. Ao contrário das Nações Unidas, não é um local de arbitragem, mas apenas um fórum que permite a todos os actores do continente falar entre si livremente. Foi ela, por exemplo, que adoptou a Declaração de Istambul de 1999, também conhecida como « Carta da Segurança na Europa », que estabelece os dois grandes princípios (1) o direito de cada Estado escolher os aliados a seu gosto e (2) o dever de não ameaçar a segurança alheia garantindo a sua; princípios cujo desrespeito está na raiz do conflito entre os Estados Unidos e a Rússia [8].

Lembremos que a Federação Russa nunca contestou o direito de ninguém em aderir à OTAN, mas o dos membros da OTAN em albergar bases militares norte-americanas. Os nossos leitores lembram-se que quando o Ministro russo dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br) da Rússia, Serguei Lavrov, escreveu a cada um de seus « parceiros » para lhes perguntar como conciliavam os dois princípios de Istambul com a instalação de equipamentos e pessoal militar norte-americanos na proximidade da Rússia nenhum ousou responder-lhe.

No entanto, a neutralidade deste fórum foi violada no mês de Abril quando novos funcionários da OSCE, mais precisamente antigos militares da OTAN, foram apanhados (pegos-br) em flagrante delito de espionagem no Donbass [9].

Como se isso não bastasse, o Reino Unido acaba de recusar os vistos necessários à delegação russa que devia assistir à Assembleia parlamentar anual da OSCE, de 2 a 6 de Julho de 2022, em Birmingham. Londres, que viola as suas obrigações, refugiou-se atrás das sanções nominais da União Europeia contra cada membro da delegação.

Por consequência, não apenas os documentos assinados pelos 57 Chefes de Estado e de Governo da OSCE deixaram de ter valor, como a administração desta organização se tornou numa arma de guerra e, em última análise, deixará de desempenhar o seu papel de fórum.

A arquitetura de segurança do continente europeu transforma-se, portanto, radicalmente. A prazo, a Europa Central irá formar um bloco, primeiro no seio da União Europeia e de seus candidatos, depois fora da União. A sua Defesa será garantida pelos Estados Unidos. Enquanto tal, as duas partes do continente, Ocidental e Oriental, deixarão de se comunicar. Isto será o culminar do plano dos geopolíticos anglo-saxões. Mas este projecto, se for concretizado, será instável. Primeiro, os Europeus Ocidentais tiveram sempre necessidade da Rússia e, depois, os povos da Europa Central viveram durante muito tempo num campo de batalha. Quando os Cavaleiros Teutónicos e os Cossacos não se enfrentavam no seu território, eles batiam-se entre si. Para que uma paz seja duradoura é preciso haver respeito por todos os protagonistas. Ao destruir todas as instituições de Segurança do continente, torna-se inevitável um conflito generalizado.


Fonte: Rede Voltaire


[1] “A Polónia e a Ucrânia”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 14 de Junho de 2022.


[2] «Con Christine Lagarde, la industria estadounidense entra al gobierno francés», por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 29 de junio de 2005.


[3] Unholy Trinity: The Vatican’s Nazis, Soviet Intelligence and the Swiss Banks, Mark Aarons & John Loftus, ‎St Martin’s Press (1998).


[4] “Ucrânia : a Segunda Guerra mundial continua”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Abril de 2022.


[5] Old Nazis, the New Right, and the Republican Party, Russ Bellant, South End Press (1991).


[6] lntermarium: The Land between the Black and Baltic Seas, Marek Jan Chodakiewicz, Routledge (2012).




[8] “A Rússia quer obrigar os EUA a respeitar a Carta das Nações Unidas”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Janeiro de 2022.


[9] “A OSCE expulsa de Lugansk por espionagem”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 19 de Abril de 2022.

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