A EUROPA E A OTAN NÃO PODERÃO IMPEDIR QUE OS ESTADOS UNIDOS ANEXEM A GROENLÂNDIA
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A EUROPA E A OTAN NÃO PODERÃO IMPEDIR QUE OS ESTADOS UNIDOS ANEXEM A GROENLÂNDIA

A Europa não tem um plano de acção em resposta à anexação da Gronelândia pelos Estados Unidos. Em caso de uma captura militar da ilha, a NATO e a UE ficariam paralisadas. Os líderes europeus contentam-se com declarações lacónicas, esperando evitar um desentendimento com Trump.


Por Alexandre Lemoine

Donald Trump está a reafirmar as suas reivindicações sobre a Gronelândia, e a reacção da Europa permanece surpreendentemente defensiva. Muitos estados, é claro, confirmam a soberania da ilha árctica. Mas além das declarações públicas, fica claro que, em caso de crise real, não há um plano unificado, escreve o Die Welt.

Por muito tempo, foi difícil para muitos europeus imaginar que os Estados Unidos poderiam apropriar o território de um aliado. No entanto, Trump nunca escondeu as suas reivindicações sobre a Gronelândia, uma ilha árctica pertencente à Dinamarca. «Precisamos da Gronelândia sob uma perspectiva de segurança nacional», Trump enfatizou novamente no domingo. Segundo ele, a ilha tem imensa importância estratégica, mas a Dinamarca «não será capaz de lidar com isso». «Vamos falar sobre a Gronelândia em vinte dias», disse Trump.

Tais declarações já foram feitas no passado, mas a prisão do líder venezuelano Nicolás Maduro pelas forças especiais dos EUA no fim de semana parece ter dado confiança ao presidente dos EUA e ressaltado a sua disposição em demonstrar a sua força. A publicação na rede social X por Katie Miller, esposa do vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, agravou ainda mais o fogo: ela publicou um mapa da Gronelândia nas cores da bandeira americana com a grande inscrição «SOON» (em breve). Isso não tranquilizou os aliados. Para muitos europeus, o risco de uma tentativa de capturar a Gronelândia é agora mais concreto do que nunca. Isto não apenas representa um sério desafio à aliança ocidental, mas também levanta a questão de o que a Europa realmente poderia opor a Washington numa situação crítica.

Se ouvirmos as conversas nas capitais europeias, temos a impressão de que ela dificilmente poderia opor-se. Ainda assim, os europeus estão a tentar não parecer totalmente impotentes. Os vizinhos do norte foram os primeiros a apoiar publicamente a Dinamarca após os últimos sinais de Washington. «A Gronelândia é parte integrante do Reino da Dinamarca», escreveu o primeiro-ministro norueguês Jonas Gahr Støre no X. E o presidente finlandês Alexander Stubb, cujas relações com o presidente dos EUA são consideradas particularmente boas, enfatizou: «Ninguém decide pela Gronelândia e pela Dinamarca, excepto a própria Gronelândia e a Dinamarca.»

Na terça-feira, 6 de Janeiro, sete países europeus expressaram a sua solidariedade com a ilha árctica numa declaração conjunta. «A Gronelândia pertence ao seu povo», diz o documento. Somente a Dinamarca e a Gronelândia têm o poder de decidir sobre assuntos que envolvem Dinamarca e Gronelândia. Entre os signatários estão, além do chanceler Friedrich Merz, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer e o presidente francês Emmanuel Macron.

As consequências práticas que poderiam resultar disso permanecem incertas. Os europeus enfrentam uma tarefa difícil: por um lado, mostrar firmeza e, por outro, não entrar em conflito com o aliado mais poderoso. Isto é particularmente doloroso para Copenhaga: a Dinamarca não quer provocar Washington, mas é forçada a reafirmar que as reivindicações territoriais dos EUA em solo dinamarquês são inaceitáveis para ela.

Na segunda-feira, 5 de Janeiro, a primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen alertou severamente em entrevista à televisão dinamarquesa TV2 sobre um possível colapso da arquitectura de segurança ocidental: «Se os Estados Unidos escolherem atacar militarmente outro país da NATO, então tudo acabou. Incluindo a nossa NATO, e portanto a segurança estabelecida desde o fim da Segunda Guerra Mundial», disse a primeira-ministra dinamarquesa, afirmando que estava a fazer «tudo o que era possível para garantir que isso não fosse verdade».

Na realidade, a NATO não está preparada para tal cenário. Na segunda-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Johann Wadephul, disse que a NATO deveria «em princípio» defender a Gronelândia, já que ela pertence a um Estado-membro, a Dinamarca. Mas a situação não é assim tão simples. A obrigação de assistência mútua prevê apoio a um aliado no caso de um ataque externo contra um país da NATO. O tratado não estipula o que deve ser feito caso um país da NATO ataque outro.

Portanto, os europeus não podem contar com a NATO, e são inevitavelmente eles mesmos que se tornam o foco da atenção dos Estados Unidos. Mas, além das palavras de apoio, os governos europeus até agora têm sido surpreendentemente mesquinhos com declarações públicas. Não está claro como seria a assistência europeia em caso de tentativa de capturar à força a Gronelândia.

O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot, mencionou repetidamente o envio de tropas europeias à Gronelândia em caso de ameaças militares. No entanto, as palavras não foram traduzidas em acção. No Palácio do Eliseu, as questões sobre uma possível «anexação» da Gronelândia são descritas como «hipotéticas». Os assessores diplomáticos do presidente francês enfatizam que Macron leva este assunto extremamente a sério. Mas, segundo eles, cabe à Dinamarca dizer o que espera da França.

Se os americanos atacassem a Gronelândia, Copenhaga poderia pedir ajuda sob o Artigo 42(7) do Tratado da União Europeia (TUE). Isto obriga os Estados-membros da UE a fornecer assistência mútua em caso de agressão armada: «Uma vez activada por um Estado-membro sob ataque, todos os outros Estados-membros devem prestar assistência em resposta.»

O problema é que a UE provavelmente não teria meios para responder a uma anexação militar da Gronelândia pelos Estados Unidos de qualquer forma. Além disso, a própria segurança da Europa depende significativamente dos Estados Unidos.

E Washington também está ciente disso. Questionado pela CNN se a administração descartava ou não uma operação militar para tomar a Gronelândia, o vice-chefe do gabinete do presidente dos EUA, Stephen Miller, respondeu: «Ninguém vai lutar militarmente com os Estados Unidos pelo futuro da Gronelândia. Não faz sentido.»




Fonte: https://www.observateur-continental.fr


Tradução RD


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