O DECLÍNIO DO REGIME DOS EUA E AS SUAS GUERRAS NO MUNDO
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sábado, 7 de março de 2026

O DECLÍNIO DO REGIME DOS EUA E AS SUAS GUERRAS NO MUNDO

A guerra dos EUA contra o Irão é mais um episódio na crise da ordem imperialista construída por mais de um século pelas potências capitalistas para garantir a expansão da sua capital.


Por Carmen Parejo Rendón, jornalista espanhola

O conflito dos EUA com o resto do mundo – visível hoje em cenários como o Irão, entre outros – não é uma reacção conjuntural, mas a expressão de uma lógica histórica mais profunda. Compreendê-la exige analisar como a sua hegemonia global foi construída e por que motivo esse poder depende cada vez mais de confrontos permanentes.

A ascensão dos EUA como líder do centro imperialista mundial está ligada às duas guerras mundiais do século XX. A primeira foi, em essência, uma guerra entre potências europeias pela divisão colonial do planeta; a segunda ocorreu quando essas potências derrotadas ou insatisfeitas tentaram reconstruir impérios perdidos ou avançar para novos territórios.

Dessa confrontação nasceram projectos como o fascismo italiano e o nazismo alemão, que, como alertou Aimé Césaire, não fizeram mais do que aplicar na Europa os métodos de dominação que as potências coloniais praticavam há séculos na África, na Ásia e na América. Portanto, assim como não podemos separar o capitalismo do fascismo, também não podemos separá-lo do imperialismo que o gerou.

Foi nessa crise da ordem imperial europeia que o mapa do poder mundial mudou radicalmente. Entre a Normandia e o olhar devastador de Hiroxima e Nagasáqui, o declínio das antigas potências imperiais foi selado: o Japão foi derrotado e a Europa devastada, os seus impérios começaram a rachar e, nesse vazio histórico, os Estados Unidos emergiram como o novo centro do sistema capitalista internacional.

Mas essa nova hegemonia não surgiu de uma lógica diferente. A própria história americana foi marcada pelo mesmo impulso de expansão. Nascida como uma colónia europeia baseada na expulsão e extermínio dos povos indígenas, o seu crescimento territorial foi projectado desde a conquista do oeste e a anexação de territórios mexicanos até à dominação das Caraíbas e da América Latina.

Como Marx explicou, não são os povos que precisam de expandir, mas o capital, que busca incessantemente novos mercados, matérias-primas e espaços de investimento; uma dinâmica que impulsionou tanto a expansão dos antigos impérios europeus quanto a subsequente ascensão dos Estados Unidos.

No entanto, essa ascensão foi marcada por contradições profundas. A industrialização deu origem a um poderoso movimento operário que liderou intensas lutas sociais, ao qual o Estado, como instrumento de dominação do capital, respondeu com repressão, perseguição sindical e um constante reforço dos seus mecanismos de controlo político. Ao mesmo tempo, o século XX foi marcado por revoluções que desafiaram a ordem dominante — México em 1910, Rússia em 1917 e Cuba em 1959, entre outras — demonstrando que sistemas alternativos podiam ser construídos com base nos interesses dos trabalhadores e camponeses.

Nesse cenário de confronto global, Washington consolidou a sua hegemonia por meio da ordem económica que emergiu de Bretton Woods: o dólar tornou-se o eixo do sistema financeiro internacional, inicialmente respaldado pelo ouro e, após a sua dissolução em 1971, sustentado pela aliança com as monarquias do Golfo e pelo nascimento do sistema petrodólar.

Após o desaparecimento da União Soviética e do Bloco Socialista, a vitória definitiva desse modelo parecia confirmada; mas quando perdeu o seu principal antagonista, o sistema precisou de novos inimigos para justificar o seu aparato militar. Nesse vazio, o chamado 'Islão político' ocupou o lugar que o comunismo ocupava anteriormente. Assim, enquanto as Guerras do Golfo, do Iraque ou do Afeganistão foram apresentadas como uma luta contra o 'terrorismo', na verdade foram uma resposta ao controlo geopolítico de regiões estratégicas para o fornecimento de energia e a hegemonia dos EUA.

Nesse cenário regional, o Estado de Israel ocupa um lugar central. Fundado em 1948 após o fim do mandato colonial britânico sobre a Palestina, é um legado directo da ordem imperial europeia na Ásia Ocidental: um enclave que sobreviveu à descolonização e cujo controlo gradualmente se deslocou das antigas metrópoles europeias para o novo centro do poder imperial.

A sua aliança com Washington não é uma dependência invertida, mas a continuidade desse mesmo aparato de dominação sob outra direcção. Às vezes discute-se se Israel é o cão ou a cauda; na realidade, ambos fazem parte do mesmo corpo. Israel actua como um posto militar na região enquanto Washington protege esse enclave para garantir a sua dominação sobre o coração energético do sistema mundial.

No entanto, essa ordem imperial herdada do século XX não demorou a mostrar as suas fissuras. A partir dos anos 2000, novas tensões começaram a surgir no sistema internacional. A invasão do Iraque em 2003 revelou os limites do poder militar dos EUA, enquanto um ciclo político emergiu na América Latina que questionava abertamente a hegemonia de Washington. O "fim da história" proclamado nos anos 1990 não foi apenas prematuro, mas profundamente equivocado.

No seu cerne, o problema para os EUA está numa contradição difícil de sustentar: a enorme estrutura económica criada por décadas de acumulação precisa de ser constantemente expandida, mas num mundo onde novas potências e regiões estão a surgir e a exigir maior autonomia, essa margem de expansão está a diminuir. Quando o crescimento deixa de satisfazer as necessidades do capital, a concorrência torna-se mais agressiva e, consequentemente, a política externa assume formas cada vez mais violentas.

Cada administração reflectiu, à sua maneira, esta deriva: George W. Bush articulou a 'guerra das civilizações' após o 11 de Setembro; Barack Obama expandiu o uso de drones e intervenções indirectas; Joe Biden consolidou novas doutrinas estratégicas, incluindo a possibilidade do uso preventivo de armas nucleares. O reaparecimento de Donald Trump condensa muitas destas tendências: um império cada vez mais ansioso por preservar a sua posição dominante, uma sociedade profundamente fragmentada e o surgimento de correntes reaccionárias que sempre fizeram parte da história americana, mas que hoje alcançam uma visibilidade sem precedentes no poder estatal.

Quando o crescimento deixa de satisfazer as necessidades do capital, a concorrência torna-se mais agressiva e, consequentemente, a política externa assume formas cada vez mais violentas.

É neste contexto que a actual agressão contra o Irão deve ser compreendida. Não é apenas mais uma intervenção. O Irão não é um estado isolado nem uma pequena nação cercada por bases americanas, mas sim uma potência regional com uma estrutura militar considerável e localizada na encruzilhada estratégica entre a Ásia Ocidental, a Ásia Central e o Cáucaso, além de manter laços cada vez mais próximos com a Rússia e a China. No entanto, não é uma potência agressora que projecta bases militares por todo o planeta. O que está em jogo é o seu direito de defender a sua soberania contra a agressão militar, económica e política dos Estados Unidos e do seu principal aliado regional, Israel, que actualmente está em paralelo a perpetrar genocídio contra a população de Gaza.

Alimentar este ninho de vespas pode desencadear reacções em cadeia do Oeste Asiático até às fronteiras sul da Rússia ou ao oeste da China. Não seria um conflito local, mas mais um episódio na crise da ordem imperialista construída por mais de um século pelas potências capitalistas – primeiro europeias e depois americanas – para garantir a expansão do seu capital.

Na Ucrânia, a OTAN promoveu uma guerra por procuração contra a Rússia; hoje a pressão também é dirigida contra o Irão, enquanto a rivalidade com a China reorganiza a política mundial. Isto não é um conflito 'civilizacional', mas a reacção de um imperialismo em crise que tenta preservar pela força uma ordem internacional projectada para sustentar a sua dominação económica e estratégica.

E aí reside o maior perigo do nosso tempo. Um regime em profunda crise – aliado a outro, no mesmo processo de decomposição (Israel) – parece cada vez mais disposto a usar confrontos externos para sustentar uma ordem fracturada. Mas a guerra que poderiam desencadear não seria apenas contra o Irão, mas contra qualquer tentativa de superar o sistema imperialista que domina o mundo há décadas. Por isso, hoje é mais urgente do que nunca levantar um slogan claro de todos os cantos do planeta: não à guerra do imperialismo contra o Irão e contra o mundo.



Fonte: https://observatoriocrisis.com


Tradução RD




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