
Albanese acusa a ONU de falta de "coragem" e "integridade", reforçando ser "vergonhoso" que a "própria organização tenha parcerias com organizações que estão ligadas ao genocídio".
A relatora especial da ONU para os territórios palestinianos ocupados, Francesca Albanese, acusou esta terça-feira a comunidade internacional de passividade face a alegadas violações cometidas por Israel e disse que a própria Organização das Nações Unidas “parece o Titanic”.
Numa conferência de imprensa em Genebra para falar sobre o seu mais recente relatório, sobre a “tortura e genocídio” cometidos nos territórios palestinianos – que apresentou na véspera perante o Conselho de Direitos Humanos da ONU –, Albanese deplorou o “sistema de cumplicidade” que acusa de permitir a Israel continuar a cometer abusos e teceu fortes críticas à própria ONU, que comparou a “um navio a afundar”.
“Ontem [segunda-feira], ao ouvir os Estados-membros [durante a apresentação do relatório], tive um sentimento forte de que a ONU parece um navio a afundar. Parece um Titanic, e eu sinto-me como um dos elementos da orquestra no Titanic“, afirmou.
A relatora reforçou que “é chocante” a postura da comunidade internacional quando “a acção não pode esperar mais”, lamentando que “a desumanização de todo um povo continue a ser normalizada”.
“E não é porque não saibam. Há relatos de violações de palestinianos, incluindo crianças, desde 1948 […] Como é que à luz de todos os factos que têm sido expostos, continuam a armar Israel, a dar-lhe proteção política? Porque há um sistema de cumplicidade”, acusou.
Questionada sobre se as suas críticas se dirigem ao Conselho de Segurança da ONU ou se são mais alargadas, Francesca Albanese respondeu que, “quando há um genocídio, é preciso coragem” para intervir, e considerou que “o que falta nesta organização é coragem, ou integridade”.
“O que acho vergonhoso é que a própria organização tenha parcerias com organizações que estão ligadas ao genocídio e utilize ferramentas produzidas no sistema que Israel desenvolveu para destruir o povo palestiniano”, disse, voltando a dirigir críticas às grandes empresas tecnológicas, que, num relatório adotado em 2025, acusou de serem cúmplices e de estarem a lucrar com o que se passa nos territórios palestinianos, ao fornecerem infra-estruturas, dados e ferramentas que facilitam a vigilância, a segregação e a destruição dos palestinianos.
Albanese disse lembrar-se da “decepção” que sentiu ao saber que ONU celebrou parcerias com as mesmas grandes empresas tecnológicas, lembrando que, “15 dias depois de as denunciar”, foi sancionada pelos Estados Unidos.
“O sistema tem problemas e, hoje, não fazemos parte da solução, fazemos parte do problema”, lamentou.
A relatora especial, que, na segunda-feira, pediu a abertura de uma investigação e mandados de captura contra três ministros israelitas – Israel Katz (Defesa), Itamar Ben-Gvir (Segurança Nacional), e Bezalel Smotrich (Finanças) –, por alegada responsabilidade na tortura de palestinianos, comentou esta terça-feira que “Israel cometeu historicamente abusos, mas aquilo a que se assiste hoje não é apenas detenções em massa, é a normalização dos abusos durante essas detenções”.
De acordo com Albanese, as práticas de abuso documentadas incluem “espancamentos violentos, fracturas de ossos intencionais, imobilização prolongada com algemas e venda nos olhos, privação de sono, privação de alimentos, recusa de cuidados médicos, abuso sexual e violações”, infligidas tanto a mulheres como a homens e crianças.
“Mesmo fora de paredes das prisões, as provas demonstram que a tortura tornou-se uma característica distintiva da conduta de Israel em todos os territórios ocupados, não só para punir, mas para quebrar as pessoas […] Não é incidental, é projetado. A tortura tornou-se um empreendimento coletivo, defendido politicamente, produzido socialmente e absolvido publicamente”, denunciou.
Fonte: Lusa+Observador
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