VENEZUELA: CHINA RESPONDE COM FORÇA TOTAL
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

VENEZUELA: CHINA RESPONDE COM FORÇA TOTAL

 

Perante a agressão à Venezuela, a China respondeu com uma ofensiva económica, financeira, energética e tecnológica coordenada, sem recurso à força militar, atingindo directamente os pontos vitais do poder norte-americano. A acção chinesa demonstrou, na prática, a capacidade do mundo multipolar para desafiar a hegemonia dos Estados Unidos e acelerar a desdolarização global.


Por Dr. Kurt Grötsch*

A China condenou veementemente o sequestro e a violação da soberania da Venezuela. Sem grandes poses grandiloquentes ao estilo de Trump e Macron, tomou um conjunto de medidas, partindo do entendimento de que os Estados Unidos definiram o controlo do petróleo venezuelano como uma forma de travar a presença da China na América do Sul e impedir o seu desenvolvimento imparável.

A China adoptou uma série de medidas que visam a linha de flutuação do império norte-americano, porque a agressão contra a Venezuela constitui uma declaração de guerra à proposta de um mundo multipolar e aos BRICS.

Poucas horas após a notícia do sequestro do Presidente Maduro, Xi Jinping convocou uma reunião de emergência do Comité Permanente do Politburo, que durou exactamente 120 minutos. Não houve comunicados nem ameaças diplomáticas: houve o silêncio que precede a tempestade, porque essa reunião activou aquilo a que os estrategas chineses chamam a Resposta Integral Assimétrica, com o objectivo de responder a uma agressão contra parceiros do Hemisfério Ocidental, sendo a Venezuela a cabeça de praia para a América Latina no «quintal dos EUA».

A primeira fase da resposta chinesa foi activada às 9h15 da manhã de 4 de Janeiro, quando o Banco Popular da China anunciou discretamente a suspensão temporária de todas as transacções em dólares americanos com empresas ligadas ao sector da defesa dos EUA. A Boeing, a Lockheed Martin, a Raytheon e a General Dynamics acordaram nessa quinta-feira com a notícia de que todas as suas transacções com a China tinham sido congeladas sem aviso prévio. Às 11h43 do mesmo dia, a State Grid Corporation of China, que controla a maior rede eléctrica do planeta, anunciou a revisão técnica de todos os seus contratos com fornecedores norte-americanos de equipamentos eléctricos, o que implica que a China está a desacoplar-se da tecnologia americana.

Às 14h17, a China National Petroleum Corporation, a maior petrolífera estatal do mundo, anunciou a Reorganização Estratégica das suas rotas globais de abastecimento, o que significou a reactivação da arma energética, traduzida na anulação de contratos de fornecimento de petróleo a refinarias americanas no valor de 47 mil milhões de dólares anuais. Esse petróleo, que chegava à costa leste dos EUA, foi redireccionado para a Índia, Brasil, África do Sul e outros parceiros do Sul Global, o que determinou uma subida de 23% dos preços do petróleo numa única sessão de negociação. Mais importante ainda foi a mensagem estratégica: a China pode estrangular energeticamente os Estados Unidos sem disparar um único tiro.

Noutra jogada, a China Ocean Shipping Company, que controla aproximadamente 40% da capacidade global de transporte marítimo, implementou o que designou por Optimização de Rotas Operacionais, o que significou que os cargueiros chineses começaram a evitar o uso dos portos americanos. Long Beach, Los Angeles, Nova Iorque e Miami, dependentes da logística naval chinesa para manterem as suas cadeias de abastecimento, viram-se subitamente privados de 35% do seu tráfego normal de contentores, uma catástrofe para a Walmart, a Amazon, a Target e outras empresas que dependem de navios chineses para importar produtos fabricados na China, assistindo ao colapso parcial das suas cadeias de abastecimento em questão de horas.

O mais impactante de todas estas medidas foi o timing aplicado de forma simultânea, criando um efeito em cascata que amplificou exponencialmente o impacto económico. Não se tratou de uma escalada gradual, mas de um choque sistémico concebido para anular a capacidade de resposta americana.

O Governo norte-americano ainda não tinha assimilado o golpe quando a China activou um novo pacote de medidas: a mobilização do Sul Global. Às 4h22 do mesmo dia 4 de Janeiro, o Ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, ofereceu ao Brasil, Índia, África do Sul, Irão, Turquia, Indonésia e a outros 23 países condições comerciais preferenciais imediatas a qualquer Estado que se comprometesse publicamente a não reconhecer qualquer governo venezuelano que chegasse ao poder pela mão criminosa dos Estados Unidos.

Em menos de 24 horas, 19 países aceitaram a oferta, sendo o Brasil o primeiro, seguido da Índia, África do Sul e México. Trata-se da materialização prática do Mundo Multipolar em Acção. A China conseguiu formar instantaneamente uma coligação anti-americana utilizando a arma dos incentivos económicos.

A cereja no topo do bolo surgiu a 5 de Janeiro, quando Pequim activou a arma financeira: o sistema chinês de pagamentos interbancários transfronteiriços anunciou a expansão da sua capacidade operacional para absorver qualquer transacção global que pretendesse evitar o sistema SWIFT, controlado por Washington. Isto significa que a China disponibilizou ao mundo uma alternativa plenamente funcional ao sistema financeiro ocidental. Qualquer país, corporação ou banco que pretenda negociar sem depender da infra-estrutura financeira americana pode utilizar o sistema chinês, que é 97% mais barato e mais rápido. A resposta foi imediata e massiva: nas primeiras 48 horas de funcionamento, foram processadas transacções no valor de 89 mil milhões de dólares. Os bancos centrais de 34 países abriram contas operacionais no sistema chinês, o que representa uma desdolarização acelerada de uma das mais importantes fontes de financiamento dos Estados Unidos.

Na frente tecnológica, a China, que controla 60% da produção mundial de terras raras — elementos críticos para o fabrico de semicondutores e componentes electrónicos — anunciou restrições temporárias à exportação de terras raras para qualquer país que tivesse apoiado o sequestro do Presidente Nicolás Maduro. Apple, Microsoft, Google e Intel — todas as gigantes tecnológicas americanas dependentes de cadeias de abastecimento chinesas para componentes críticos — encontram-se alarmadas, pois os seus sistemas de produção poderão entrar em colapso no prazo de semanas.

Cada movimento chinês atinge o coração económico do império norte-americano.

O que fez a China a favor da Venezuela?, perguntam amigos e inimigos do Governo. O exposto acima é a explicação de que, sem declarar guerra, a China age.



*KURT GRÖTSCH é licenciado em Filologia e Psicologia, doutorado pela Universidade de Nuremberga, MBA pela ESDEN, Madrid, e detentor da Cruz Federal do Mérito da Alemanha. Iniciou a sua investigação sobre experiências e emoções na cultura e no turismo na década de 1990, apresentando a sua abordagem Emotionware no Congresso TILE (Trends in Leisure and Entertainment, Estrasburgo, 1998). É professor e conferencista na Universidade de Erlangen-Nuremberga e em numerosas universidades e centros de investigação na Europa, Ásia e América Latina. Em 1982, fundou o Instituto da Francónia para a Comunicação. Em 1987, dirigiu o Centro Cultural Tandem (Madrid). Em 1993, foi director-geral de Marketing do El Parque de los Descubrimientos (Sevilha) e Chief Project Manager do parque temático da Exposição Universal de Hanôver 2000. Em 1998, fundou a empresa Trillennium e a Escola de Empreendedorismo. Desde 2006, é director do Museu de Dança Flamenca Cristina Hoyos (Sevilha). É sócio de diversas associações turísticas e culturais, membro da Comissão das Indústrias Culturais da CEA, fundador e CEO da empresa Chinese Friendly International em 2011, posteriormente Silk Road Experience Group. É co-fundador e vice-presidente da Cátedra China e embaixador da Minzu University of China.












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