Março 2015

segunda-feira, 16 de março de 2015

UCRÂNIA: OS EUA QUEREM A GUERRA... EM SOLO EUROPEU

UCRÂNIA: OS EUA QUEREM A GUERRA... EM SOLO EUROPEU

Dez dias depois da assinatura dos Acordos de Minsk, David Cameron anunciou o envio de tropas britânicas para a Ucrânia. Uma semana mais tarde, John Sawers, o ex-chefe de Mi16 (a CIA britânica) afirmou que "a guerra contra a Rússia está apenas no início"

Por Boniface Musavuli


Não devemo-nos iludir sobre as intenções dos dirigentes norte-americanos: eles querem a guerra. Uma guerra que deve ocorrer no Velho Continente e deve fazer com que muitos europeus tantos quanto possível se envolvam num confronto militar com a Rússia. Os ucranianos, excepto uma grande revolta das massas devem renunciar ao seu país para servir de campo de batalha necessário ao conflito das grandes potências cujos conflitos lhe são alheios, uma vez que perderam o controle dos acontecimentos na "Praça Maidan", numa noite em Fevereiro de 2014.

Do Maidan à escalada militar

De qualquer forma, os mais recentes desenvolvimentos dos Estados Unidos dificilmente são tranquilizadores. Um ano depois dos acontecimentos de maidan, terrivelmente equivocados por "atlantistas", os Estados Unidos formalizaram a decisão de enviar para a Ucrânia cerca de 600 pára-quedistas pertencentes à 173º brigada aero-transportada. O anúncio foi feito segunda-feira pelo coronel Michael Foster, comandante da brigada, e confirmado por Ben Hodges, o principal comandante dos EUA na Europa. As primeiras unidades de combate da brigada devem ser posicionadas na Ucrânia a 8 de Março. Oficialmente, não irão para lutar, mas para treinar tropas ucranianas (na catástrofe de Donbass) no uso de armas norte-americanas no processo de transporte. [1]

Sobre precisamente o enviou de armas dos EUA para Kiev, é sabido que isso conduziria ao aumento reciproco dos recursos militares nas repúblicas autónomas do Leste (Donetsk e Lugansk) por Moscovo. Porque para a Rússia está fora de questão que as forças da NATO sejam implantadas, junto à fronteira russo-ucraniana, e eles não estão errados. Os russos nunca aceitaram ter sido enganados pelo Ocidente à margem da reunificação alemã. [2] Foi para tentar evitar esse risco de escalada militar que a França e a Alemanha decidiram no início de Fevereiro entrar em contacto directo com Vladimir Putin, sem consultar Washington. Foi para tranquilizar o líder do Kremlin que os franceses e alemães se irão opor ao envio de armas americanas aos ucranianos. [3] O presidente russo manteve-se aberto às propostas franco-alemãs, e concordou com os Acordos de  Minsk II[4], de 11 de Fevereiro de 2015. O problema com Minsk II é que houve duas ausências notáveis: a dos britânicos e a dos americanos. Não estão vinculados por tais acordos, assim eles vão continuar a alimentar o conflito.

É necessário que se matem uns aos outros pela América

Dez dias depois da assinatura dos Acordos de Minsk, David Cameron anunciou o envio de tropas britânicas para a Ucrânia. Uma semana mais tarde, John Sawers, o ex-chefe de Mi16 (a CIA britânica) afirmou que "a guerra contra a Rússia está apenas no início" [5]. Com o envio de unidades de combate para a Ucrânia por parte dos EUA, os britânicos juntaram-se aos seus primos americanos, que insistem que a situação continua a deteriorar-se e ela eventualmente se degradou. Obviamente que os exércitos americanos e britânicos não vão participar da linha de frente contra o exército russo. Essa implantação atlantista visa manter de forma sustentável uma atmosfera de ódio entre os povos, um ambiente permanente de violência e desolação.

Uma das estratégias utilizadas pelos maus decisores dos Estados Unidos contra os países a que se dirigem é atingir directamente as populações, quer por violência aleatória, quer por embargos, quer por humilhações em manter sistematicamente essas tragédias colectivas na parte de trás do "inimigo" que escolhem. Nós não devemos nos surpreender se as populações russas / russófonas se tornarem alvo de assassinatos indiscriminados e de fome causada intencionalmente, o que irá levá-los à procura de mais ajuda de Moscovo. A assistência de que Putin não vai negar-lhes sob o risco de alienar os russos a partir do interior. [6] Só que se envolver demais na Ucrânia, ou, quando for o caso, nos países bálticos, o presidente russo se tornará num "agressor". Exactamente a imagem que os média ocidentais e os líderes estrangeiros do Atlântico trabalham para lhe colar à pele. Portanto, as forças europeias, mais ou menos oficialmente, chamadas de "países agressores" por parte da Rússia. O início de uma engrenagem de assassinos no coração da Europa.

Confrontado com estas acções norte-americanas, somos tentados a dizer que eles são loucos, esses americanos! De forma alguma. Na realidade, os Estados Unidos, possuem um poder enorme, confiando que o conflito ucraniano irá envolver os europeus num confronto militar com a Rússia. [7] A esperança é que, não se use as armas estratégicas (cenário de suicídio), o solo americano deve ser preservado da devastação da guerra que começará. Quando tudo isto acabar, os europeus e os russos, independentemente do lado que vier a prevalecer sobre o outro, será arruinado economicamente mesmo que sem derramamento de sangue. Como no final da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, haverá um último poder de ultimo recurso: os Estados Unidos da América.

Biliões de dólares em contratos de reconstrução, um enorme golpe sob a tutela das nações europeias e a preservação dos Estados Unidos, e do seu estatuto como uma «super-potência global».


Boniface Musavuli | 6 de Março de 2015

sábado, 14 de março de 2015

CHOMSKY: A INVASÃO DO IRAQUE ESTÁ NA ORIGEM DE GRUPOS COMO O ESTADO ISLÂMICO

CHOMSKY: A INVASÃO DO IRAQUE ESTÁ NA ORIGEM DE GRUPOS COMO O ESTADO ISLÂMICO

Nesta entrevista ao Jacobin, Noam Chomsky explica as raízes do EI e por que os Estados Unidos e os seus aliados são responsáveis pelo surgimento do grupo. Em particular, argumenta que a invasão do Iraque de 2003 provocou as divisões sectárias que provocaram a desestabilização da sociedade iraquiana. O resultado foi um clima onde os radicais apoiados pelos sauditas prosperaram. Entrevista de David Barsamian.

Pode-se ter a certeza de que à medida que o conflito se desenvolva,
eles vão ficar mais extremistas. Os mais brutais, mais duros grupos
vão ganhar predominância. É o que acontece quando a violência se
torna no meio de interacção. É quase automático.
O Médio Oriente está em chamas, da Líbia ao Iraque. Há novos grupos jihadistas. As atenções focam-se no Estado Islâmico. Que pensa deste grupo e das suas origens?

Há uma entrevista interessante a Graham Fuller, publicada há dias. Trata-se de um ex-agente da CIA, um dos principais analistas do Médio Oriente. O título é “Os Estados Unidos criaram o Estado Islâmico”. Esta é uma das teorias da conspiração, das milhares que há no Médio Oriente.

Mas esta vem de outra fonte: do coração do establishment dos EUA. Fuller apressa-se a esclarecer que não quer dizer que os EUA decidiram dar existência ao EI e depois financiá-lo. O que ele sustenta – e eu acho uma opinião correta – é que os EUA criaram o ambiente do qual nasceu e se desenvolveu o EI. Em parte, a abordagem foi o padrão martelada: esmaga-se aquilo de que não se gosta.

Em 2003, o Reino Unido e os EUA invadiram o Iraque, um grande crime. Ainda esta noite, o Parlamento britânico concedeu ao governo a autoridade para bombardear o Iraque de novo. A invasão foi devastadora. O Iraque já tinha sido virtualmente destruído, em primeiro lugar pela guerra de dez anos contra o Irão, na qual, diga-se de passagem, o Iraque foi apoiado pelos EUA; e logo em seguida, pela década de sanções económicas.

Estas foram descritas como “genocidas” pelos respeitados diplomatas internacionais que as administraram, e ambos se demitiram em protesto. As sanções devastaram a sociedade civil, reforçaram o ditador, forçando a população a depender dele para sobreviver. Esse é provavelmente o motivo de não ter seguido o mesmo caminho de todo um grupo de ditadores que foram derrubados.

Finalmente, os EUA decidiram atacar o país em 2003. O ataque é comparado por muitos iraquianos à invasão mongol ocorrida mil anos antes.Terrivelmente destrutiva. Centenas de milhares de pessoas mortas, milhões de refugiados, milhões de outras pessoas deslocadas, destruição de riquezas arqueológicas do país dos tempos da Suméria.

Um dos efeitos da invasão foi imediatamente instituir divisões sectárias. Parte do fulgor da força de invasão e do seu director civil, Paul Bremer, foi separar as seitas, sunitas, xiitas, curdos e provocar os conflitos entre elas. Num par de anos, havia um enorme, brutal conflito sectário incitado pela invasão.

Para comprovar isto basta olhar para Bagdade. Se virmos um mapa de, digamos, 2002, trata-se de uma cidade misturada: sunitas e xiitas vivem nos mesmos bairros, por vezes nem se sabe quem é sunita ou xiita. É como saber se os seus amigos são de um grupo protestante ou de outro. Havia diferenças, mas não hostilidade.

De facto, durante alguns anos ambos os lados diziam: nunca haverá conflitos sunitas-xiitas. Estamos demasiado misturados na natureza das nossas vidas. Mas em 2006 já havia uma guerra enraivecida. Esse conflito espalhou-se a toda a região. Hoje, toda ela está dividida pelos conflitos sunitas-xiitas.

PORQUE NÃO PODE O ESTADO ISLÂMICO SER ERRADICADO ?

A dinâmica natural de um conflito como esse é que os elementos mais extremistas começam a ser predominantes. Tinham raízes. As raízes vêm do maior aliado dos EUA, a Arábia Saudita, que tem sido o principal aliado dos EUA na região desde que Washington se envolveu seriamente, de facto desde a fundação do estado saudita. É uma espécie de ditadura familiar. O motivo é ter uma quantidade enorme de petróleo.

O Reino Unido, antes dos EUA, preferia habitualmente o islamismo radical ao nacionalismo laico. E quando os EUA assumiram o seu papel, na essência seguiram o mesmo padrão. O islamismo radical tem o centro na Arábia Saudita. É o mais extremista, radical estado islâmico do mundo. Faz o Irão parecer um país tolerante e moderno por comparação e, evidentemente, as partes laicas do Médio Oriente árabe ainda mais.

Não só é orientado por uma versão extremista do Islão, a versão salafista wahabista, como também é um estado missionário. Usa os seus enormes recursos do petróleo para promulgar estas doutrinas por toda a região. Cria escolas, mesquitas, clérigos por toda a parte, do Paquistão ao Norte de África.

A doutrina abraçada pelo Estado Islâmico é uma versão extremista do extremismo saudita. Cresceu ideologicamente da mais extremista forma do Islão, a versão saudita, e os conflitos que foram engendrados pelo martelo dos EUA que esmagou o Iraque espalhou-se agora para todo o lado. É o que Fuller quer dizer.

A Arábia Saudita não só fornece o núcleo ideológico que levou ao extremismo radical do EI, como também o financia. Não o governo saudita, mas os ricos sauditas e kuwaitianos e outros dão fundos e apoio ideológico a estes grupos jihadistas que florescem por todo o lado. O ataque à região levado a cabo por britânicos e os EUA é a fonte onde tudo isto tem origem. Foi o que Fuller quis dizer ao afirmar que os EUA criaram o EI.

Pode-se ter a certeza de que à medida que o conflito se desenvolva, eles vão ficar mais extremistas. Os mais brutais, mais duros grupos vão ganhar predominância. É o que acontece quando a violência se torna no meio de interacção. É quase automático. Isto é assim tanto nos bairros quanto nos assuntos internacionais. As dinâmicas são perfeitamente evidentes. É o que está a acontecer. É de onde vem o EI. Se conseguirem destruir o EI, terão de lidar com algo mais extremista.

E os média são obedientes. No discurso de 10 de setembro, Obama citou dois países como histórias de sucesso da estratégia de contra-insurgência dos EUA. Que países são esses? Somália e Iémene. Toda a gente devia estar de queixo caído, mas no dia seguinte o silêncio era total, não havia comentários sobre isto.

O caso da Somália é particularmente horrendo. O Iémene é mau demais. A Somália é um país extremamente pobre. Não vou falar da história toda. Mas um dos grandes sucessos da política de contra-terror da administração Bush foi que conseguiram fechar uma instituição de caridade, a Barakat, que abastecia o terrorismo na Somália. Grande excitação na imprensa. Grande triunfo.

Uns meses depois, os factos começaram a ganhar a luz do dia. A instituição de caridade não tinha absolutamente nada a ver com o terrorismo na Somália. Tinha a ver sim com a banca, o comércio, os hospitais. Mantinha de certa forma viva a economia somali, profundamente empobrecida e abalada. Ao fechar a instituição, a administração Bush acabou com isto. Foi a contribuição para a contra-insurgência. Foram-lhe dedicadas umas poucas linhas, que podem ser lidas em livros sobre finanças internacionais. É o que foi feito à Somália.

Houve um momento em que os chamados Tribunais Islâmicos, uma organização islâmica, tinha conseguido uma espécie de paz na Somália. Não era um regime bonito, mas pelo menos era pacífico e o povo estava mais ou menos a aceitá-lo. Os EUA não o toleraram, e apoiaram uma invasão etíope para destruí-lo e fazer toda a região numa enorme confusão. Grande sucesso.

O Iémene tem também a sua história de terror.


Esta é a tradução de uma parte da entrevista publicada no site informativo Jacobin.
Traduzido por Luis Leiria para o Esquerda.net

quarta-feira, 11 de março de 2015

PORQUE NÃO PODE O ESTADO ISLÂMICO SER ERRADICADO ?

PORQUE NÃO PODE O ESTADO ISLÂMICO SER ERRADICADO ?

Os esforços «para minar e, finalmente, destruir» o EI falharam, e podemos nos aventurar a supor que eles nunca terão sucesso. Isto porque, como um instrumento de influência sobre o sistema das relações internacionais, o Estado Islâmico é essencial para aqueles que dirigem a política da elite global.

Por Pavel Urintsev


Os recentes acontecimentos envolvendo ataques terroristas em vários países realizadas em nome de jihadistas e as mobilizações para uma guerra contra o extremismo islâmico estão a forçar a uma reflexão sobre o porquê da batalha de longo prazo com os grupos muçulmanos radicais estejam a ser um total fracasso.

Na sequência dos trágicos acontecimentos em França e na Dinamarca em Janeiro e Fevereiro, quando caricaturas inflamadas do profeta Maomé deram origem a uma série de assassinatos, os políticos europeus declararam quase por unanimidade, que os ataques islâmicos contra os valores europeus são uma ameaça para toda a comunidade global. Obviamente, que não há pontos de comparação à escala dos eventos em Paris e Copenhaga com, digamos, com a morte de milhares de crianças por causa da fome em África, que são infinitamente menos preocupante para o mundo ocidental. Ao mesmo tempo, o nível excepcionalmente elevado de apoio dos media para mostrar o extremismo islâmico, na qual os média ocidentais apresentam como um dos maiores males do mundo, não pode deixar de sugerir que não são só os seus defensores que têm interesse na existência desse mal, mas também aqueles que estão travando uma luta tão inflexível contra ele.

Nos últimos 13 anos, desde que os EUA declararam uma «guerra global contra o terror» e invadiram o Afeganistão em seu nome, o terrorismo no mundo não diminuiu. Ele tem crescido. As organizações terroristas começaram a aparecer, desaparecer e a reaparecer com uma regularidade nunca antes vista. Após os ataques terroristas do 11 de Setembro a Al-Qaeda e Osama bin Laden, que permanecem numa incógnita para os próximos dez anos, foram declarados como sendo o principal inimigo da humanidade. Washington anunciou uma cruzada contra esse inimigo, que foi usada para ajudar a fortalecer a posição da «única superpotência» no Próximo e Médio Oriente. Com o tempo, os média mundiais gradualmente começaram a concentrar menos atenção na al-Qaeda, o relatório veio com o assassinato de bin Laden em 2011, mas nada disso foi prova da eficácia da guerra do Ocidente contra o terror. A cruzada declarada pelo Ocidente também não foi levado a um fim. Os terroristas foram simplesmente substituídos por outros que estão ainda mais sedentos de sangue, e que agora já ameaçam criar um «califado mundial». A Al-Qaeda foi substituída pelo Estado Islâmico (EI), à comunidade internacional foi rapidamente apresentado com um novo inimigo de significância global, e a América, mais uma vez se apressou em apresentar-se como a salvadora da humanidade: a 11 de Setembro de 2014, Barack Obama declarou guerra ao Estado Islâmico. 

O extremismo islâmico e a muito tocante guerra dos Estados Unidos contra ele são um instrumento unificado para influenciar o sistema moderno das relações internacionais. Essa influência é provocada tanto pela consolidação da posição dos EUA nas regiões geopoliticamente sensíveis do mundo onde esta guerra se desenrola, e pela desestabilização de governos cujas políticas não atendem às expectativas de Washington. O crescendo de animosidade religiosa na Europa, a rápida ascensão da desconhecida organização terrorista, o Estado Islâmico, o filme profissional das execuções para serem mostradas ao mundo, e o aparecimento de jihadistas em muitos dos pontos quentes do mundo, incluindo as fronteiras da Rússia, tudo isto faz parte do um esquema muito maior do que aquele que está a ser elaborado pelos islamitas.

O que podemos ver neste esquema ? A exibição contínua de execuções de pessoas nomeadas como inimigas do Estado Islâmico por todos os canais de televisão ao redor do mundo, que tem sido uma prática abominável por algum tempo agora. As execuções em massa que ocorrem em algum lugar do Próximo Oriente não desencadeiam em qualquer lugar perto do mesmo tipo de protesto na Europa e nos EUA como, por exemplo, o assassinato de algumas pessoas em França e na Dinamarca. Mas, então, estas execuções televisionadas apoiam e fortalecem o compromisso na batalha de hoje contra um mal universal, que tem substituído a al-Qaeda, e cujo papel é actualmente ocupado pelo Estado Islâmico. Na Europa, por sua vez, os muçulmanos ainda continua a ser provocados por caricaturas do profeta Maomé, declarações anti-muçulmanas, as propostas para a introdução da pena de morte e assim por diante. E tudo isto combinado aumenta as tensões e cria a aparência de uma ameaça global por um lado, e aumenta o caos controlado notório por outro lado. Por enquanto, ainda não há nenhum outro resultado visível da guerra do Ocidente contra o terror emergente sob a bandeira do Islão.

É portanto, também não surpreendente que a guerra contra o EI, que agora já se arrasta há mais de seis meses e na qual Washington envolveu oficialmente 60 estados, é aparentemente para não ser levada a sério. O que tem produzido a operação Resolução Inerente, que começou no Iraque em Agosto de 2014 e foi transferida para a Síria em Setembro ? Mais de 2000 ataques aéreos e com o apoio dos curdos que lutam contra EI tem alegadamente destruídos 7.000 milicianos e conquistou 700 quilómetros quadrados, apenas um pouco mais de 1 por cento do território conquistado pelo Estado Islâmico. O líder do EI Abu Bakr al-Baghdadi, que se declarou o califa, tornou-se tão evasivo como bin Laden tinha sido. A Resolução Inerente está a custar aos EUA $ 8,3 milhões de dólares por dia, o que também parece frívolo quando comparada com os custos associados com as guerras no Iraque e no Afeganistão, que alcançaram $ 800 milhões dólares por dia.

Os esforços «para minar e, finalmente, destruir» o EI falharam, e podemos nos aventurar a supor que eles nunca terão sucesso. Isto porque, como um instrumento de influência sobre o sistema das relações internacionais, o Estado Islâmico é essencial para aqueles que dirigem a política da elite global. Em particular, o Islão radical é essencial para o principal sector avançado da civilização ocidental no Oriente - Israel. Podemos, portanto, supor que o islamismo vai continuar a manter a sua bandeira preta no alto, as imagens em vídeo que descrevem as execuções exemplares de «inimigos do Islão» continuarão a ser repetidas e tornar-se-ão ainda mais horríveis, a guerra contra o Estado islâmico vai se estender para cada vez mais vastas áreas, e os Estados Unidos vão chamar os outros a juntarem-se a guerras contra esta ameaça à humanidade sob a sua liderança. Quantas pessoas pretendem saber se este caminho que se estende até ao infinito escuro poderá tornar-se nos meios para a auto-destruição da civilização ocidental ?

sexta-feira, 6 de março de 2015

O FUTURO DO PRÓXIMO ORIENTE

O FUTURO DO PRÓXIMO ORIENTE

Desde há vários meses, Barack Obama tenta modificar a política norte-americana no Próximo-Oriente de maneira a eliminar o Emirado Islâmico com a ajuda da Síria. Mas ele não o consegue fazer, por um lado porque durante anos não parou de afirmar que o presidente al-Assad devia sair, e por outro lado porque os seus aliados regionais apoiam o Emirado islâmico contra a Síria. Portanto, as coisas evoluem lentamente de modo que ele deverá lá chegar dentro em breve. Assim, parece que todos os Estados que apoiavam o Emirado Islâmico pararam de o fazer, abrindo a via para uma redistribuição das fichas.
 
 
Por Thierry Meyssan


O mundo espera a conclusão de um acordo global entre Washington e Teerão sob o pretexto ridículo de acabar com um programa nuclear militar, que já não existe mais desde o fim da guerra lançada pelo Iraque (1980-1988). Ele incidiria sobre a protecção de Israel, em troca do reconhecimento da influência iraniana no Próximo-Oriente e em África.

No entanto, tal só deverá ter lugar após as eleições israelitas (israelenses-br) de 17 de Março de 2015. A esperada derrota de Netanyahu refaria os laços entre Washington e Telavive, e facilitará o acordo com Teerão.

Neste contexto, as elites norte-americanas tentam pôr-se de acordo sobre a sua política futura, enquanto os aliados europeus dos Estados Unidos estão preparando-se para alinhar com o que será a nova política dos EUA.

A procura de consenso nos Estados Unidos

Após dois anos de política incoerente, Washington tenta elaborar um consenso sobre aquilo que deveria ser a sua política no «Próximo Oriente Alargado».

1. A 22 de Outubro de 2014, a Rand Corporation, principal “think tank” do lobby industrial militar, modificou radicalmente a sua posição. Depois de ter feito campanha pela destruição da República Árabe da Síria, afirma agora que, para os Estados Unidos e Israel, a pior coisa que pode acontecer é a queda do presidente Assad [1].

2. A 14 de Janeiro de 2015, o presidente emérito do C.F.R. (Council on Foreign Relations-Conselho de Relações Exteriores-ndT), o clube das elites dos E.U.A, Leslie Gleb, alertava contra as divisões na administração Obama, que ameaçam a sua autoridade no mundo. Ele preconizou uma espécie de nova «Comissão Baker-Hamilton» para rever, de cima para baixo, a política externa [2].

3. A 24 de Janeiro, o New York Times publicava um editorial apoiando a viragem da Rand Corporation e apelando a uma mudança completa de política em relação à Síria [3].

4. A 6 de Fevereiro, a administração Obama lançou a sua nova doutrina estratégica. Não se trata mais, agora, de garantir a segurança de Israel destruindo a Síria para isso, mas, antes, criando uma aliança militar regional com as monarquias muçulmanas sionistas. No máximo, o Emirado Islâmico («Daesh») poderia ser utilizado para impedir a Síria de levantar a cabeça, e de voltar a jogar um papel político regional [4].

5. A 10 de Fevereiro, a National Security Network (NSN)-(Rede Nacional de Segurança-ndT), um “think tank” bi-partidário que tenta divulgar a geopolítica nos Estados Unidos, publicava um relatório sobre as opções possíveis face ao Emirado Islâmico. Ele passava em revista as opiniões de uma quarentena de especialistas e concluía pela necessidade de «conter, depois destruir» o Emirado Islâmico, apoiando-se primeiro no Iraque, depois na Síria de Bashar al-Assad. A NSN foi fundada por Rand Beers, um antigo conselheiro de John Kerry, actualmente sub-secretário de Segurança Interna [5].

6. A 11 de Fevereiro, a administração Obama apresentava ao Congresso um pedido para o uso da força militar contra o Emirado Islâmico, que relegava às urtigas a ideia de derrubar o Presidente Assad e de destruir a Síria [6].

7. A 23 de Fevereiro, o novo secretário da Defesa Ashton Carter, reunia peritos para um jantar de trabalho. Ele ouviu as suas opiniões durante 5 horas sem revelar o seu próprio ponto de vista. Carter achava por bem verificar, por si mesmo, o trabalho da NSN. Entre os seus convidados encontrava-se não apenas o antigo embaixador dos E.U. na Síria, Robert S. Ford, e velhos veteranos dos “think-tanks”, como também Clare Lockhart, conhecido pelos seus laços com o mundo da Finança; ou ainda o presidente da Escola de Jornalismo de Columbia, Steve Coll, para avaliar as possíveis reacções dos media (mídia-br) [7].

O que mudou no terreno

Durante os últimos meses vários factores evoluíram no terreno.

A «oposição moderada» síria desapareceu completamente. Ela foi absorvida pelo Daesh. A tal ponto que os Estados Unidos não conseguem encontrar os combatentes, que poderiam formar, para construir uma «nova Síria». O antigo embaixador Robert S. Ford, (hoje em dia assalariado do “think-tank” do AIPAC), que havia organizado as manifestações de 2011, e apoiou até ao fim esta «oposição moderada», oficialmente mudou de posição. Agora, ele pensa que a única oposição real na Síria é composta por jiadistas, que seria extremamente perigoso armar um pouco mais [8]. Retrospectivamente, parecia que a terminologia «oposição moderada» designava, não combatentes civilizados, mas, sim, sírios prontos a trair o seu país aliando-se para tal com Israel. Aliás, eles nem o escondiam [9]. Desde o princípio, esta oposição era de facto dirigida por membros da al-Qaida (como o Líbio Abdelhakim Belhaj, depois o Iraquiano Abou Bakr el-Baghdadi) e dedicava-se às piores atrocidades (aí incluído o canibalismo) [10]. Ora, todos estes líderes são hoje em dia responsáveis no Emirado Islâmico.

Israel parou, a 28 de Janeiro de 2015, (resposta do Hezbolla ao assassinato de vários líderes na Síria), o seu apoio às organizações jiadistas na Síria. Durante três anos e meio Telavive forneceu-lhes armas, cuidou dos seus feridos nos seus hospitais militares, apoiou as suas operações com a sua aviação – pretendendo sempre, em cada uma das ocasiões, estar a lutar contra as transferências de armas para o Hezbolla libanês — e, em última instância, confiava-lhes a segurança da sua fronteira nos Montes Golãs, em detrimento das forças da ONU.

O novo rei da Arábia Saudita, Salman, afastou o príncipe Bandar, a 30 de Janeiro de 2015, e interditou a todos o apoio ao Emirado Islâmico. Assim, o Reino parou de desempenhar um papel na manipulação do terrorismo internacional; uma função que lhe tinha sido confiada pela CIA após a revolução islâmica iraniana de 1979, e que foi durante 35 anos a sua carta mestra.

Identicamente, a Turquia também, desde 6 de Fevereiro, e a demissão do chefe do MIT – os seus serviços secretos — Hakan Fidan, parece ter deixado de apoiar os jiadistas. Além disso, na noite de 21 para 22 de Fevereiro, o exército turco entrou ilegalmente uma trintena de quilómetros na Síria, para remover as cinzas de Suleiman Shah, o avô do fundador do Império Otomano, do relicário que ela detêm nos termos do Tratado de Ancara (1921). Apesar de uma impressionante exibição de força, o exército turco não combateu contra o Emirado Islâmico, o qual controla a zona. Os restos de Suleiman Shah acabaram não sendo repatriados, mas, sim, depositados um pouco mais longe, ainda em território da Síria. Desta maneira, a Turquia mostrava que não tem a intenção de agir contra o Emirado Islâmico, e que ela conserva as suas ambições anti-sírias.

As opções possíveis dos E.U.

Seis opções são, actualmente, discutidas em Washington :

Destruir o Emirado Islâmico, depois destruir a Síria, é o ponto de vista da empresa Raytheon, primeiro produtor mundial de mísseis, defendido pelo seu lobista Stephen Hadley, o antigo conselheiro de segurança nacional de George W. Bush. É fazer a guerra pela guerra, sem levar em conta os interesses nacionais. Este ponto de vista maximalista não é apoiado por nenhum responsável político, é apenas formulado através dos média, para fazer inclinar a balança no sentido da mais ampla guerra possível.

Apoio no Emirado Islâmico para destruir a Síria, sobre o decalque do modelo de alianças concluídas durante a Guerra do Vietname (Vietnã-br). É a opinião do presidente da Comissão Senatorial das Forças Armadas, John McCain, apesar da memória da queda de Saigão, em 1975. É extremamente caro (20 a 30 biliões de dólares por ano durante muitos e longos anos), arriscado e impopular. Assistiríamos, imediatamente, a uma intervenção directa do Irão e da Rússia, e o conflito tomaria uma dimensão mundial. Ninguém, nem mesmo McCain, é capaz de explicar por que é que os Estados Unidos se deveriam lançar numa tal operação, que apenas aproveitaria ao estado de Israel.

Enfraquecer, depois destruir o Emirado Islâmico, coordenando aí bombardeamentos norte-americanos com tropas terrestres aliadas, incluindo grupos da «oposição síria moderada» (que já não existe). Depois, utilizar estes grupos da oposição (?) unicamente para manter a pressão sobre a Síria. Esta é a actual posição contra-terrorista da administração Obama. Está orçada em 4 a 9 biliões de dólares por ano. No entanto, supondo que se criou uma «oposição síria moderada», não se vê como a Força Aérea dos E.U. iria eliminar o Daesh, quando ela se viu incapaz de destruir os Talibãs no Afeganistão, apesar de já levar 13 anos de guerra, sem mencionar os exemplos da Somália ou o actual impasse francês no Mali.

Enfraquecer, e depois destruir o Emirado Islâmico, coordenando para isso bombardeamentos norte-americanos com as únicas forças capazes de vencer no terreno: os exércitos sírio e iraquiano. Esta é a posição mais interessante, porque pode ser apoiada quer pelo Irão como pela Rússia. Colocaria, de novo, os Estados Unidos na posição de liderança mundial, como aquando da «Tempestade no Deserto» contra o Iraque de Saddam Hussein, e ganharia de certeza. No entanto, isso exigiria parar as campanhas de demonização da Síria, do Irão e da Rússia. Esta opção é apoiada pela NSN e corresponde, manifestamente, ao que o governo de Barack Obama desejaria fazer.

A contenção do Emirado Islâmico, depois a sua degradação progressiva até o levar a um tamanho aceitável. Nesta opção, a prioridade seria a de proteger o Iraque, sendo que os combates importantes seriam deslocados para a Síria.

O cerco. Não se trataria, mais, de combater o Emirado Islâmico, mas de o isolar de modo a evitar a sua propagação. As populações sob o seu controlo seriam então abandonadas à sua própria sorte. É a solução mais económica, mas a menos honrosa, defendida por Kenneth Pollack.

Conclusão

Estes elementos facilmente permitem prever o futuro: em poucos meses, talvez até mesmo a partir do final de Março, Washington e Teerão conseguirão alcançar um acordo global. Os Estados Unidos irão renovar o contacto com a Síria, seguidos de perto pelos Estados europeus, incluindo a França. Irá descobrir-se que a al-Assad não é, afinal, nem um ditador nem um torturador. Portanto, a guerra contra a Síria chegará ao seu fim, enquanto as principais forças jihadistas serão eliminadas por uma verdadeira coligação (coalizão-br) internacional. Quando tudo tiver acabado os jihadistas sobreviventes serão enviados pela CIA para o Cáucaso russo ou o Xinjiang chinês.

voltairenet.org

Tradução: Alva




Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. A ultima obra em francês: L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

_______________________________

[1] Alternative Futures for Syria. Regional Implications and Challenges for the United States, (Ing- « Alternativas Futuras para a Síria. Implicações Regionais e Desafios para os Estados Unidos»- ndT), Andrew M. Liepman, Brian Nichiporuk, Jason Killmeyer, Rand Corporation, October 22, 2014.

[2] “This Is Obama’s Last Foreign Policy Chance” (Ing- « Esta é a última “chance” de Obama na Política Externa»- ndT), Leslie Gelb, The Daily Beast, January 14, 2015.

[3] “Shifting Realities in Syria” (Ing- «Realidades em Mudança na Síria»- ndT), The Editorial Board, The New York Times Sunday Review, 24 janvier 2015.

[4] National Security Strategy (Ing-«Estratégia de Segurança Nacional»- ndT) , White House, February 6, 2015.

[5] Confronting the Islamic State. An Assessment of U.S. Strategic Options (Ing- «Confrontando o Emirado Islâmico. Uma avaliação das Opções Estratégicas dos E.U.A»- ndT), Policy Report by J. Dana Stuster & Bill French, Foreword by Maj. Gen. Paul Eaton, National Security Network, February 10, 2015.

[6] “Joint resolution to authorize the limited use of the United States Armed Forces against the Islamic State of Iraq and the Levant (Proposal)” (Ing- « Resolução Conjunta para autorizar o uso limitado das Forças Armadas dos E.U. contra o Estado Islâmico no Iraque e no Levante-(Proposta)»- ndT), by Barack Obama, Voltaire Network, 11 February 2015.

[7] “Ash Carter Seeks Fresh Eyes on Global Threats” (Ing- «Ash Carter Procura Novas Abordagens para as Ameaças Globais»- ndT), Dion Nissenbaum, Wall Street Journal, February 24, 2015.

[8] “Ex-Ambassador: CIA Wrong On Not Wanting To Arm Syrian Rebels” (Ing-« Ex- Embaixador : CIA Errada por Não Querer Armar os Rebeldes Sírios»- ndT), Akbar Shahid Ahmed, The Huffington Post, October 22, 2014.

[9] « Leader Sees New Syria, Without Iran Ties » (Ing-«Líder Encara uma Nova Síria, Sem Laços com o Irão»- ndT), Jay Solomon et Nourmalas, Wall Street Journal, 2 décembre 2011.

[10] Abbou Sakkar, comandante de uma brigada do Exército sírio livre come o coração e o fígado de um soldado sírio, num registo vídeo que ele difundiu em maio de 2013. A propósito das exacções do Exército sírio livre sobre as quais a imprensa ocidental jamais deu a mínima notícia, ver a conferência da jornalista russa Anastasia Kopova.

domingo, 1 de março de 2015

TIROS NAS COSTAS DA OPOSIÇÃO REPERCUTEM NAS MURALHAS DO KREMLIN

TIROS NAS COSTAS DA OPOSIÇÃO REPERCUTEM NAS MURALHAS DO KREMLIN

Em busca do equilíbrio Historicamente, a política russa tem oscilado entre duas grandes correntes – ocidentalizante (que procura aproximar o país dos padrões civilizacionais e políticos europeus, considerados genericamente superiores e em relação aos quais têm uma espécie de complexo de inferioridade) e eslavófila – que defende que a Rússia tem um padrão próprio de civilização que nada deve a qualquer outro e fomenta portanto o nacionalismo e a solidariedade pan-eslava.

Por Carlos Fino

Subitamente, sexta-feira à noite, quando se dirigia a pé para casa, numa ponte a poucos metros do Kremlin, em pleno centro de Moscovo, Boris Nemtsov – antigo vice-primeiro ministro e um dos mais populares líderes da oposição liberal russa – foi cobardemente assassinado a sangue frio com seis tiros nas costas. A sua morte provocou choque e espanto generalizados. Compreende-se porquê: embora o clima político se tenha agudizado bastante desde o início da guerra na Ucrânia, com as dificuldades económicas a aumentarem de dia para dia devido à acção conjugada das sanções ocidentais e da quebra no preço do petróleo, há já quase uma década que não se registava um assassinato político na capital russa. O presidente Pútin nega terminantemente qualquer envolvimento, considerando a morte de Nemtsov “um crime cruel encomendado com o objectivo de pura provocação”. Mas não se livra da suspeita. Primeiro, porque o próprio Nemtsov afirmara, poucas semanas antes, recear que Pútin o quisesse liquidar. Depois, e talvez sobretudo, porque se vive na Rússia, desde que Pútin regressou à presidência, em 2012, um ambiente de crescente tensão , com o presidente russo a considerar os opositores uma “quinta coluna” interna ao serviço dos inimigos externos do país. Ora Nemtsov, de todas as figuras da oposição liberal, era a voz que mais alto e mais frequentemente se ouvia, criticando frontalmente Pútin, acusando-o de envolvimento na corrupção e de fomentar a guerra no país vizinho. Boris afirmara mesmo recentemente que iria em breve expor provas do envolvimento militar da Rússia na Ucrânia, que o Kremlin sempre negou. Esses eram aliás os temas principais da manifestação que os liberais tinham convocado para domingo e que acabou por ser substituída por uma marcha em homenagem a Nemtsov. A verdade, porém, é que, afastados da maioria dos media, os opositores liberais desfrutam hoje de fraco apoio (centrado sobretudo nos meios urbanos) e não constituem um perigo iminente para o poder instalado, a ponto de gerarem planos homicidas. Os apoiantes do actual regime fazem mesmo notar que Pútin desfruta agora, segundo as pesquisas, de 86% de aprovação popular, pelo que não teria qualquer necessidade de recorrer a meios tão drásticos de eliminar os seus adversários. Então, quem teria interesse no crime? Há sempre a tese conspirativa dos serviços secretos estrangeiros, visando abalar o regime e desestabilizar o país, como insinuam alguns dos aliados de Pútin. Os media estatais russos não descartam , também, uma possível ligação ao terrorismo islâmico, tendo em conta as posições frontais assumidas por Nemtsov no caso dos crimes contra o Charlie Hebdo. Alguns políticos russos da oposição sugerem, entretanto, que outras forças podem estar na origem do crime: desde gente afastada do poder pelas denúncias de corrupção feitas por Nemtsov até círculos mais obscuros do interior do próprio regime, que assim estariam criando dificuldades a Pútin, tanto interna como externamente. Em busca do equilíbrio Historicamente, a política russa tem oscilado entre duas grandes correntes – ocidentalizante (que procura aproximar o país dos padrões civilizacionais e políticos europeus, considerados genericamente superiores e em relação aos quais têm uma espécie de complexo de inferioridade) e eslavófila – que defende que a Rússia tem um padrão próprio de civilização que nada deve a qualquer outro e fomenta portanto o nacionalismo e a solidariedade pan-eslava. Nemtsov foi vice primeiro-ministro de Ieltsin no anos 90, a época conturbada que se seguiu ao fim do regime comunista, em que reformas liberais radicais provocaram uma baixa drástica do nível de vida, não deixando por isso muitas saudades. Esses foram, também, os anos de maior aproximação ao Ocidente. A subida de Pútin ao poder, no ano 2000, já se faz numa onda contrária a essa, mais eslavófila e desconfiada das intenções ocidentais, traços que só se têm vindo a acentuar nos últimos anos. País de extremos, de oito ou oitenta, a Rússia tem dificuldade em encontrar soluções de equilíbrio entre esses dois pólos. Gorbachev, o último dirigente que o tentou, falhou redondamente: quis reformar para conservar, mas hesitou e acabou por perder o Estado e o poder. Hoje, a Rússia parece defrontar-se de novo com esse dilema: entre Pútin e os seus aliados comunistas e nacionalistas, os eslavófilos, por um lado; os companheiros de Nemtsov, os ocidentalistas, por outro, será possível algum entendimento? Até agora, parecia que não. Muitos dos principais opositores receiam que assim vá continuar, temendo mesmo que este crime tenha aberto um período de ainda maior repressão e caça às bruxas. “Não temos medo” – foi o lema, bem significativo - do desfile de domingo. Mas os seis tiros que ceifaram a vida a Boris Nemtsov repercutiram com fragor nas muralhas do Kremlin, causando profunda emoção em todo o país. O seu impacto pode, por isso, contribuir para um raro momento transversal de reflexão nacional em que os líderes de um lado e do outro se questionem sobre os perigos de continuar a aprofundar o fosso que os separa. Se assim for, a morte prematura de Boris Nemtsov, seja quem for que a tenha provocado, não terá sido em vão. Esperemos que as piores previsões não se confirmem.

Brasília, 01 de Março de 2015

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