
O alvo final dessa reorganização violenta do mundo é a China. Destruir o Irão significa desmontar o muro geopolítico e energético que protege a consolidação de um mundo multipolar. Isso significa enfraquecer os corredores eurasiáticos (a Iniciativa do Cinturão e Rota), interromper fluxos estratégicos e enviar uma mensagem inequívoca a Pequim: a ordem unipolar não cederá sem provocar uma conflagração.
Por José Manuel Rivero
O Relógio do Juízo Final nunca esteve tão perto da meia-noite. A agressão militar perpetrada em 28 de Fevereiro de 2026 pelos Estados Unidos, em acção conjunta com Israel, contra a República Islâmica do Irão constitui um ponto sem retorno na história contemporânea. Não estamos a enfrentar um conflito isolado ou uma simples escalada das tensões no Médio Oriente. Estamos a testemunhar a execução de um plano hegemónico friamente calculado que ameaça arrastar todo o planeta para um holocausto nuclear.
O encerramento do Estreito de Ormuz, previsível e agora uma realidade, não é apenas um dano colateral desta agressão, mas o epicentro de um terramoto geoeconómico que em breve irá fracturar seriamente as economias ocidentais, atingindo a União Europeia, reduzida ao triste estado de vassalagem dos interesses atlantistas. Ormuz não é apenas uma passagem marítima: é o ponto nodal onde a energia, as finanças e o poder militar convergem. Quem controla Ormuz determina a produção material do sistema mundial.
Para entender a escala e as origens deste ataque, é crucial aplicar uma perspectiva histórica abrangente que conecte os fios da economia política às decisões militares. Nada do que aconteceu é improvisado. A agressão militar contra a Venezuela em 3 de Janeiro não foi um incidente isolado, mas a fase preliminar e indispensável deste ataque ao Irão. A lógica do capital na sua fase imperial é inexorável: perante a certeza de que atacar Teerão desencadearia o encerramento do Estreito de Ormuz – e, assim, o estrangulamento do fluxo global de energia – Washington precisava desesperadamente de garantir a sua própria retaguarda material. Ao conquistar e tomar o controlo das vastas reservas de petróleo da Venezuela, os Estados Unidos garantiram o seu abastecimento de petróleo bruto, protegendo-se da crise energética que agora deliberadamente desencadearam para sufocar os seus concorrentes e subordinar ainda mais os seus aliados europeus. O petróleo, como sempre, está no centro de toda decisão imperial, mas desta vez não é apenas a motivação económica; é também uma ferramenta para impor a disciplina e os espólios que financiam a máquina de guerra.
Esta ofensiva não surge da força do império, mas da sua mais profunda crise orgânica. Os Estados Unidos estão a passar por uma fase de decadência estrutural: dívida colossal, crescente divisão social, descrédito institucional e uma perda relativa de centralidade produtiva em relação ao eixo asiático. Quando a liderança moral e intelectual do sistema começa a deteriorar-se, o uso da coerção substitui a capacidade de consenso. A guerra surge então como uma tentativa desesperada de restaurar uma hegemonia em declínio.
Neste contexto, a administração Trump lançou o seu país numa guerra regional – com potencial real para se tornar global – sem autorização efectiva do Congresso, demonstrando até que ponto o equilíbrio constitucional é comprometido quando o bloco governante percebe uma ameaça à sua posição histórica. Assim, a democracia liberal revela a sua natureza instrumental: tolerada enquanto garantir estabilidade, supérflua quando a dominação exige acção rápida e concentração de poder.
Mas o que é mais alarmante não é apenas a natureza unilateral desta política, mas quem realmente está a ditar esta abordagem de terra queimada. A administração Trump foi praticamente sequestrada pelos elementos mais beligerantes do sionismo. Este sequestro da política externa não pode ser explicado apenas por afinidades ideológicas, mas por mecanismos de coerção muito mais sombrios e estruturais, onde a chantagem vem directamente do sionismo e opera como um instrumento de dominação sobre a Sala Oval. A sombra dos dossiês de Epstein e a consequente rede de cumplicidade e extorsão representam a ferramenta perfeita da entidade sionista para quebrar qualquer resistência em Washington, forçando os Estados Unidos a agir como a ala armada das suas ambições expansionistas e destrutivas. Isto não é uma aliança de iguais; é uma relação de submissão imposta por meio de chantagem, na qual o interesse nacional americano é subordinado aos desígnios de um projecto colonial sionista, o "Grande Israel", que precisa da guerra e do extermínio da população árabe (genocídio em Gaza) e da população persa para ser realizado.
O tabuleiro geopolítico também foi manipulado por meio de uma operação massiva de distracção. As conversas entre Estados Unidos e Rússia sobre o conflito na Ucrânia provaram ser uma tática de atraso. Enquanto Moscovo estava envolvida em negociações intermináveis, qualquer possibilidade de resposta coordenada à ofensiva sequencial contra a Venezuela e o Irão foi quebrada. A antiga máxima imperial de bater gradualmente é novamente aplicada com precisão cirúrgica.
Não nos enganemos: o Irão não é o destino final. O alvo final desta reorganização violenta do mundo é a China. Destruir o Irão significa desmontar o muro geopolítico e energético que protege a consolidação de um mundo multipolar. Isso significa enfraquecer os corredores eurasiáticos (a Iniciativa do Cinturão e Rota), interromper fluxos estratégicos e enviar uma mensagem inequívoca a Pequim: a ordem unipolar não cederá sem provocar uma conflagração.
A dimensão mais perturbadora é a nuclear. O Irão está preparado para retaliação com mísseis hipersónicos de última geração; mas Israel possui capacidades nucleares. Num contexto de crise hegemónica, cálculos racionais podem dar lugar a dinâmicas de expansão excessiva, de prestígio ou de sobrevivência política. Cada fase da escalada reduz as margens de contenção.
A União Europeia, estrategicamente subordinada e dependente da energia, enfrenta uma tempestade perfeita: inflação importada, queda na produção e tensões sociais. A sua suposta autonomia estratégica está mais uma vez a esvanecer-se perante a disciplina atlântica. O continente parece ter de absorver os custos de uma guerra concebida além das suas fronteiras.
Não estamos a testemunhar uma derivação do sistema, mas sim a sua lógica rudimentar. Quando uma potência percebe que o seu ciclo histórico está em declínio, pode escolher incendiar o mundo em vez de aceitar a transição. A guerra deixa de ser a excepção e torna-se o método de reorganização.
O abismo nuclear não é retórico. É a consequência extrema de uma hegemonia que, incapaz de se sustentar por consenso, recorre à força total para preservar a sua primazia. Cada bomba que cai sobre Teerão aproxima um pouco mais a humanidade do limite do extermínio.
Perante esta deriva, a neutralidade é cumplicidade. A história não é um destino ditado pelas elites; é uma correlação dinâmica de forças. Se a sociedade civil permanecer passiva, o bloco governante imporá a sua solução militar para a crise, correndo o risco de levar a humanidade ao holocausto. Se, pelo contrário, uma vontade colectiva consciente de paz for articulada, a trajectória pode ser modificada.
O tempo está a acabar. E desta vez, meia-noite não é uma metáfora.
Fonte: chinabeyondthewall.org,
Tradução por Old Hunter e RD












