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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

COMO FUNCIONAM OS DISTÚRBIOS NO IRÃO?

O Irão tem mais de 90 milhões de habitantes. Muitos deles apoiam o seu sistema de governo. Alguns milhares de adolescentes barulhentos não vão derrubá-lo.


The Moon of Alabama, revista digital americana

De dois em dois anos, a CIA e o Mossad instigam motins para uma mudança de regime no Irão. Estas tentativas inevitavelmente falham.

Actualmente, milhares de jovens estão a incendiar carros, mesquitas, lojas e esquadras da polícia durante a noite em várias cidades do Irão. Polícias armados atiram e matam polícias. Todas estas células são coordenadas por conexões de Internet.

Normalmente, leva uma ou duas semanas às forças do governo iraniano encontrar as conexões, localizar os líderes e desmantelá-los. Este processo pode demorar um pouco mais desta vez, já que algumas células terroristas foram equipadas com terminais Starlink.

Como escreve o porta-voz não oficial da CIA, David Ignatius, no Washington Post:

«Uma questão mais complexa para Washington é se deve contrabandear terminais Starlink para reverter o bloqueio de Internet imposto por Teerão na sexta-feira. A administração Biden considerou esta estratégia durante os protestos "Mulher, Vida, Liberdade" de 2022 e 2023, mas decidiu não a fazer por medo de que isso pusesse em risco rotas cruciais de contrabando usadas pela CIA e pela inteligência israelita. Talvez desta vez, o benefício supere o custo.»

Isto praticamente confirma que estes terminais já estão lá.

Entretanto, a Rússia desenvolveu equipamentos que permitem detectar terminais activos Starlink pelo ar. O Irão já recebeu cópias e em breve produzirá o suficiente para cobrir as suas cidades.

Ignatius também afirma que os distúrbios são diferentes desta vez porque visam instalar um fantoche patrocinado pelos Estados Unidos e Israel:

«A revolta deste ano é motivada mais pela raiva perante os fracassos económicos do Irão do que pelas regras islâmicas repressivas dos aiatolás. A taxa anual de inflação do Irão atingiu 42% em Dezembro, e a sua moeda perdeu mais de metade do valor no ano passado. Outra diferença este ano é que muitos manifestantes apoiam Reza Pahlavi, filho do Xá do Irão deposto na revolução de 1979. Isto dá a esta rebelião um tom mais conservador, nacionalista persa, e talvez uma visão retrógrada. Talvez este seja o momento 'MIGA' do Irão.»

Que Reza Pahlavi é tão irrelevante para o Irão quanto qualquer um pode ser. A sua campanha actual para angariar apoio mais activo, ou seja, violento, à mudança de regime por parte do governo Trump é patrocinada por Israel.

Conforme noticiado pelo Haaretz em Outubro de 2025:

«No início de 2023, Reza Pahlavi fez a sua primeira visita oficial a Israel. Ele é filho do último Xá do Irão, deposto na Revolução Islâmica de 1979 e substituído pelo regime dos aiatolás. Questionado sobre as reacções que recebia após a sua visita a Israel, o arqui-inimigo do Irão disse que as reacções foram na sua maioria positivas. Ele também indicava jornalistas para as suas redes sociais: "não acredite só em mim, pesquise nas redes sociais... no Twitter, Instagram, em qualquer plataforma", disse ele. "Se fizer a sua própria pesquisa, não precisa pedir-me. A resposta está diante dos seus olhos."»

A resposta de Pahlavi é particularmente relevante à luz das conclusões do Haaretz e do TheMarker, o jornal económico do Haaretz. Acontece que uma campanha de influência digital em larga escala estava em andamento em persa, operada a partir de Israel e financiada por uma entidade privada com apoio governamental.

A campanha promove a imagem pública de Pahlavi e amplifica os apelos para restaurar a monarquia. Baseia-se em "avatares", personagens falsos que se passam por cidadãos iranianos nas redes sociais. Foram inicialmente descobertos por investigadores de redes sociais em Israel e no estrangeiro.

A campanha utiliza as ferramentas agora típicas da engenharia social:

Segundo fontes que falaram ao TheMarker e ao Haaretz, desde o início da guerra em Gaza e após a visita de Pahlavi, uma operação online começou a operar como parte de uma campanha israelita ainda mais ampla para influenciar o discurso nas redes sociais, que também inclui campanhas em inglês e alemão.

Segundo cinco fontes com conhecimento directo do projecto, falantes nativos de persa foram recrutados para a operação. Três delas confirmaram a conexão entre o projecto e esta campanha específica, e afirmaram ter testemunhado a rede a espalhar mensagens pró-Pahlavi.

Segundo fontes, a campanha incluiu contas falsas em plataformas como X e Instagram e usou ferramentas de inteligência artificial para ajudar a espalhar narrativas importantes, elaborar as suas mensagens e gerar conteúdo.

A inteligência artificial também é usada para criar imagens e vídeos de tumultos em lugares do Irão onde não houve nenhum.

O Irão tem mais de 90 milhões de habitantes. Muitos deles apoiam o seu sistema de governo. Alguns milhares de adolescentes barulhentos não vão derrubá-lo.



Tradução RD


VENEZUELA: CHINA RESPONDE COM FORÇA TOTAL

 

Perante a agressão à Venezuela, a China respondeu com uma ofensiva económica, financeira, energética e tecnológica coordenada, sem recurso à força militar, atingindo directamente os pontos vitais do poder norte-americano. A acção chinesa demonstrou, na prática, a capacidade do mundo multipolar para desafiar a hegemonia dos Estados Unidos e acelerar a desdolarização global.


Por Dr. Kurt Grötsch*

A China condenou veementemente o sequestro e a violação da soberania da Venezuela. Sem grandes poses grandiloquentes ao estilo de Trump e Macron, tomou um conjunto de medidas, partindo do entendimento de que os Estados Unidos definiram o controlo do petróleo venezuelano como uma forma de travar a presença da China na América do Sul e impedir o seu desenvolvimento imparável.

A China adoptou uma série de medidas que visam a linha de flutuação do império norte-americano, porque a agressão contra a Venezuela constitui uma declaração de guerra à proposta de um mundo multipolar e aos BRICS.

Poucas horas após a notícia do sequestro do Presidente Maduro, Xi Jinping convocou uma reunião de emergência do Comité Permanente do Politburo, que durou exactamente 120 minutos. Não houve comunicados nem ameaças diplomáticas: houve o silêncio que precede a tempestade, porque essa reunião activou aquilo a que os estrategas chineses chamam a Resposta Integral Assimétrica, com o objectivo de responder a uma agressão contra parceiros do Hemisfério Ocidental, sendo a Venezuela a cabeça de praia para a América Latina no «quintal dos EUA».

A primeira fase da resposta chinesa foi activada às 9h15 da manhã de 4 de Janeiro, quando o Banco Popular da China anunciou discretamente a suspensão temporária de todas as transacções em dólares americanos com empresas ligadas ao sector da defesa dos EUA. A Boeing, a Lockheed Martin, a Raytheon e a General Dynamics acordaram nessa quinta-feira com a notícia de que todas as suas transacções com a China tinham sido congeladas sem aviso prévio. Às 11h43 do mesmo dia, a State Grid Corporation of China, que controla a maior rede eléctrica do planeta, anunciou a revisão técnica de todos os seus contratos com fornecedores norte-americanos de equipamentos eléctricos, o que implica que a China está a desacoplar-se da tecnologia americana.

Às 14h17, a China National Petroleum Corporation, a maior petrolífera estatal do mundo, anunciou a Reorganização Estratégica das suas rotas globais de abastecimento, o que significou a reactivação da arma energética, traduzida na anulação de contratos de fornecimento de petróleo a refinarias americanas no valor de 47 mil milhões de dólares anuais. Esse petróleo, que chegava à costa leste dos EUA, foi redireccionado para a Índia, Brasil, África do Sul e outros parceiros do Sul Global, o que determinou uma subida de 23% dos preços do petróleo numa única sessão de negociação. Mais importante ainda foi a mensagem estratégica: a China pode estrangular energeticamente os Estados Unidos sem disparar um único tiro.

Noutra jogada, a China Ocean Shipping Company, que controla aproximadamente 40% da capacidade global de transporte marítimo, implementou o que designou por Optimização de Rotas Operacionais, o que significou que os cargueiros chineses começaram a evitar o uso dos portos americanos. Long Beach, Los Angeles, Nova Iorque e Miami, dependentes da logística naval chinesa para manterem as suas cadeias de abastecimento, viram-se subitamente privados de 35% do seu tráfego normal de contentores, uma catástrofe para a Walmart, a Amazon, a Target e outras empresas que dependem de navios chineses para importar produtos fabricados na China, assistindo ao colapso parcial das suas cadeias de abastecimento em questão de horas.

O mais impactante de todas estas medidas foi o timing aplicado de forma simultânea, criando um efeito em cascata que amplificou exponencialmente o impacto económico. Não se tratou de uma escalada gradual, mas de um choque sistémico concebido para anular a capacidade de resposta americana.

O Governo norte-americano ainda não tinha assimilado o golpe quando a China activou um novo pacote de medidas: a mobilização do Sul Global. Às 4h22 do mesmo dia 4 de Janeiro, o Ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, ofereceu ao Brasil, Índia, África do Sul, Irão, Turquia, Indonésia e a outros 23 países condições comerciais preferenciais imediatas a qualquer Estado que se comprometesse publicamente a não reconhecer qualquer governo venezuelano que chegasse ao poder pela mão criminosa dos Estados Unidos.

Em menos de 24 horas, 19 países aceitaram a oferta, sendo o Brasil o primeiro, seguido da Índia, África do Sul e México. Trata-se da materialização prática do Mundo Multipolar em Acção. A China conseguiu formar instantaneamente uma coligação anti-americana utilizando a arma dos incentivos económicos.

A cereja no topo do bolo surgiu a 5 de Janeiro, quando Pequim activou a arma financeira: o sistema chinês de pagamentos interbancários transfronteiriços anunciou a expansão da sua capacidade operacional para absorver qualquer transacção global que pretendesse evitar o sistema SWIFT, controlado por Washington. Isto significa que a China disponibilizou ao mundo uma alternativa plenamente funcional ao sistema financeiro ocidental. Qualquer país, corporação ou banco que pretenda negociar sem depender da infra-estrutura financeira americana pode utilizar o sistema chinês, que é 97% mais barato e mais rápido. A resposta foi imediata e massiva: nas primeiras 48 horas de funcionamento, foram processadas transacções no valor de 89 mil milhões de dólares. Os bancos centrais de 34 países abriram contas operacionais no sistema chinês, o que representa uma desdolarização acelerada de uma das mais importantes fontes de financiamento dos Estados Unidos.

Na frente tecnológica, a China, que controla 60% da produção mundial de terras raras — elementos críticos para o fabrico de semicondutores e componentes electrónicos — anunciou restrições temporárias à exportação de terras raras para qualquer país que tivesse apoiado o sequestro do Presidente Nicolás Maduro. Apple, Microsoft, Google e Intel — todas as gigantes tecnológicas americanas dependentes de cadeias de abastecimento chinesas para componentes críticos — encontram-se alarmadas, pois os seus sistemas de produção poderão entrar em colapso no prazo de semanas.

Cada movimento chinês atinge o coração económico do império norte-americano.

O que fez a China a favor da Venezuela?, perguntam amigos e inimigos do Governo. O exposto acima é a explicação de que, sem declarar guerra, a China age.



*KURT GRÖTSCH é licenciado em Filologia e Psicologia, doutorado pela Universidade de Nuremberga, MBA pela ESDEN, Madrid, e detentor da Cruz Federal do Mérito da Alemanha. Iniciou a sua investigação sobre experiências e emoções na cultura e no turismo na década de 1990, apresentando a sua abordagem Emotionware no Congresso TILE (Trends in Leisure and Entertainment, Estrasburgo, 1998). É professor e conferencista na Universidade de Erlangen-Nuremberga e em numerosas universidades e centros de investigação na Europa, Ásia e América Latina. Em 1982, fundou o Instituto da Francónia para a Comunicação. Em 1987, dirigiu o Centro Cultural Tandem (Madrid). Em 1993, foi director-geral de Marketing do El Parque de los Descubrimientos (Sevilha) e Chief Project Manager do parque temático da Exposição Universal de Hanôver 2000. Em 1998, fundou a empresa Trillennium e a Escola de Empreendedorismo. Desde 2006, é director do Museu de Dança Flamenca Cristina Hoyos (Sevilha). É sócio de diversas associações turísticas e culturais, membro da Comissão das Indústrias Culturais da CEA, fundador e CEO da empresa Chinese Friendly International em 2011, posteriormente Silk Road Experience Group. É co-fundador e vice-presidente da Cátedra China e embaixador da Minzu University of China.












domingo, 11 de janeiro de 2026

O IRÃO LAMENTA AS MORTES ATRIBUÍDAS AOS EUA E A ISRAEL

Manifestações no Irão, pelo menos 42[Act,48] agentes de segurança morreram durante os distúrbios em andamento, segundo agências de notícias locais.


Um cartaz publicado pela Tasnim, afirmando que manifestantes
 no Irão "reviveram as memórias do ISIS em meio à
 brutalidade." © Agência de notícias Tasnim
Teerão declarou três dias de luto para homenagear as vítimas dos mortais distúrbios nacionais, que chamou de "batalha" contra os EUA e Israel, informou a agência semi-oficial iraniana Tasnim no domingo.

Os piores protestos dos últimos anos abalaram o Irão a partir do final de Dezembro, provocados pela forte desvalorização do rial e pela crescente crise económica na nação assolada por sanções.

A agitação rapidamente se espalhou para várias cidades, com incêndios criminosos e confrontos resultando em inúmeras mortes tanto entre as forças de segurança iranianas quanto entre civis transeuntes, segundo relatos locais. A revista Time informou que pelo menos 200 pessoas foram mortas, enquanto a media estatal iraniana estimou o número de dezenas de mortos, incluindo um número semelhante de agentes de segurança que morreram durante os distúrbios.

"A nação iraniana experimentou em primeira mão como os criminosos terroristas urbanos cometeram violência semelhante à do ISIS", anunciou o governo iraniano, segundo a Tasnim. "Até hoje, tal violência não foi vista, excepto no comportamento do ISIS treinado pelos americanos."

Mais cedo no domingo, o presidente Masoud Pezeshkian acusou os Estados Unidos e Israel de interferirem nos distúrbios. O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, ecoou a alegação, partilhando um vídeo gráfico mostrando multidões atacando policias, espancando-os até a morte e incendiando os seus corpos.

"Isso parece um 'protesto' pela LIBERDADE? Ou exactamente o tipo de cenas que a administração dos EUA NUNCA toleraria dentro das suas próprias fronteiras?" escreveu numa publicação no X.

Um bloqueio total da internet em todo o país foi imposto na semana passada, que ainda estava em vigor na época da redação. Poucos dias antes, uma conta de media social associada à agência de inteligência Mossad de Israel apoiou abertamente os distúrbios e afirmou ter agentes embutidos na multidão.

O presidente dos EUA, Donald Trump, também incentivou os protestos e fez alusão à intervenção militar.


Fonte RT

Tradução RD

TRUMP ORDENA PLANO PARA INVADIR A GROENLÂNDIA – MEDIA

Se o presidente dos EUA prosseguir com a operação, isso pode levar à "destruição da OTAN por dentro", segundo o Daily Mail.


O presidente dos EUA, Donald Trump, ordenou que os seus comandantes seniores elaborassem um plano para uma possível invasão da Groenlândia – uma medida que pode levar ao colapso completo da OTAN, informou o Daily Mail no sábado, citando fontes.

O presidente dos EUA há muito tempo busca tomar o controlo da Groenlândia, um território autônomo sob soberania dinamarquesa, citando preocupações de segurança e a necessidade de dissuadir a Rússia e a China, sem excluir uma opção militar para capturar a ilha. Essa posição o colocou em conflito com os membros europeus da OTAN, que se uniram em torno da Dinamarca.

Segundo o Daily Mail, Trump pediu ao Comando Conjunto de Operações Especiais que preparasse planos de invasão, mas o Estado-Maior Conjunto está reagindo, argumentando que a medida seria ilegal e careceria de apoio do Congresso. Uma fonte disse ao jornal que generais seniores "tentaram distrair Trump falando sobre medidas menos controversas", como um "ataque ao Irão".

O relatório afirmou que o esforço para tomar a Groenlândia foi liderado por vários conselheiros de Trump, incluindo o assessor político Stephen Miller, que se sentiram encorajados pelo recente ataque dos EUA à Venezuela e agora querem agir rapidamente para garantir a segurança da ilha antes que a Rússia ou a China possam agir.

Uma fonte diplomática alertou que a invasão poderia levar à "destruição da OTAN por dentro." Ele acrescentou que alguns "oficiais europeus suspeitam que esse seja o verdadeiro objetivo da facção radical MAGA em torno de Trump... Ocupar a Groenlândia poderia forçar os europeus a abandonar a OTAN. Se Trump quiser acabar com a OTAN, essa pode ser a forma mais conveniente de fazer isso."

Diplomatas britânicos citados pelo Daily Mail sugeriram que Trump vê a operação na Groenlândia como uma forma de distrair os eleitores americanos do estado da economia dos EUA antes das eleições de meio de mandato. Nesse sentido, uma das fontes do veículo sugeriu que Trump poderia adoptar uma abordagem escalatória no curto prazo antes de avançar para um compromisso.

Separadamente, o Daily Telegraph informou que membros europeus da OTAN estão discutindo possíveis desdobramentos para a Groenlândia, incluindo tropas, navios e aeronaves, para proteger o Ártico e aliviar as preocupações de Trump.


Fonte: RT


Tradução RD



sábado, 10 de janeiro de 2026

A GEOPOLÍTICA DA RAPINA: TRUMP, OS ESTADOS UNIDOS E A GUERRA PELO CONTROLO ENERGÉTICO GLOBAL

A ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela visa sobretudo o controlo estratégico do petróleo e a contenção da China e dos BRICS, usando a energia como arma geopolítica. Longe de qualquer discurso democrático, trata-se de uma lógica imperial de dominação e exclusão dos rivais no hemisfério americano.


Por Paulo Ramires

A invasão da Venezuela e o rapto do Presidente Nicolás Maduro por parte da administração Trump não têm, ao contrário do discurso oficial norte-americano, uma relação directa com a simples comercialização de petróleo nem com alegadas preocupações humanitárias ou democráticas. O cerne da questão é muito mais profundo e estrutural: trata-se do controlo absoluto de um dos maiores activos energéticos do planeta. As reservas petrolíferas venezuelanas, avaliadas em mais de 300 mil milhões de barris, representam um valor aproximado de 17 biliões de dólares, uma magnitude que explica, por si só, a obsessão estratégica de Washington.

Esse controlo não era, nem poderia ser, exercido enquanto Nicolás Maduro permanecesse no poder. A soberania venezuelana sobre os seus recursos naturais, ainda que imperfeita e sujeita a constrangimentos internos, constituía um obstáculo intransponível aos interesses norte-americanos. Foi precisamente por isso que a administração Trump optou por uma estratégia extrema: remover o chefe de Estado legitimamente constituído e substituí-lo por uma figura mais dócil aos desígnios de Washington, neste caso Delcy Rodríguez, abrindo caminho à apropriação indirecta do petróleo venezuelano por interesses estrangeiros.

Coloca-se então uma questão fundamental: porque querem os Estados Unidos controlar o petróleo da Venezuela se, como o próprio Marco Rubio afirma, a América não necessita desse petróleo para garantir o seu abastecimento energético? A resposta revela a hipocrisia do discurso oficial. O problema não é a necessidade norte-americana, mas sim a dependência chinesa. A China compra cerca de 90% do petróleo venezuelano, integrando-o numa estratégia de diversificação energética que reduz a sua vulnerabilidade face ao dólar e aos mercados controlados por Washington.

Ao desestabilizar a Venezuela, os Estados Unidos atingem vários objectivos simultâneos. Por um lado, pressionam o Irão, outro actor central no fornecimento energético fora da órbita americana. Por outro, provocam uma quebra significativa no acesso da China a petróleo não regulado pelos Estados Unidos, estimada em cerca de 70%. Este movimento constitui um verdadeiro ataque estratégico à arquitectura económica dos BRICS, cuja ambição declarada é reduzir a hegemonia do dólar e criar alternativas monetárias ao sistema financeiro dominado por Washington.

Estamos, portanto, perante uma ameaça directa à moeda e ao projecto político-económico dos BRICS, uma demonstração de força destinada a recordar aos rivais que os Estados Unidos continuam dispostos a usar todos os meios, incluindo golpes de Estado, sanções ilegais, bloqueios e intervenções militares,  para preservar a sua supremacia global. A mensagem é clara: qualquer tentativa de escapar ao controlo do dólar ou de estabelecer relações energéticas independentes será punida.

Este comportamento enquadra-se numa lógica mais ampla de exclusão geopolítica. Os Estados Unidos não toleram a presença de potências rivais, como a China ou a Rússia, no hemisfério sul, que consideram ainda hoje como a sua esfera natural de influência, numa leitura actualizada e agressiva da velha Doutrina Monroe. A América Latina continua a ser vista como um quintal estratégico, onde a soberania dos povos é secundária face aos interesses de Washington.

Este mesmo padrão repete-se noutros pontos do globo. A Groenlândia próxima geograficamente dos EUA, rica em terras raras, ouro, petróleo e gás natural, tornou-se igualmente alvo da cobiça norte-americana. A presença chinesa na região, através de investimentos e operações económicas, é encarada como uma ameaça inaceitável. Mais uma vez, a resposta dos Estados Unidos não passa pela cooperação internacional ou pelo respeito do direito internacional, mas pela tentativa de afastar os rivais da sua vizinhança geopolítica imediata.

É neste jogo de forças que Trump e a elite política norte-americana se movem. Não se trata de democracia, nem de direitos humanos, nem de segurança internacional. Trata-se de poder, controlo e domínio. Trata-se de impedir, a qualquer custo, o surgimento de um mundo multipolar onde os Estados Unidos deixem de ditar regras, moedas, fluxos energéticos e destinos nacionais.

A Venezuela, como antes o Iraque, a Líbia ou a Síria, surge assim não como uma ameaça real, mas como uma vítima de uma estratégia imperial que se recusa a aceitar os limites do seu próprio declínio. O que está em causa não é apenas o futuro de um país, mas a tentativa desesperada de prolongar uma hegemonia construída à custa da instabilidade, da guerra e da pilhagem sistemática dos recursos alheios.


Fonte República Digital


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

TRUMP DIZ QUE 'NÃO PRECISA' DO DIREITO INTERNACIONAL

O presidente dos EUA afirmou que está vinculado apenas pela sua "própria moralidade" após uma incursão militar contra a Venezuela e ameaças de anexar a Groenlândia.


O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que não precisa seguir o direito internacional e é guiado unicamente pelo que descreveu como sua própria moralidade.

O comentário vem após o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro por comandos americanos no último sábado. Também nos últimos dias, Trump e vários funcionários da sua administração repetiram que os EUA tomariam posse do território autônomo da Groenlândia, da Dinamarca, de uma forma ou de outra.

Em entrevista ao The New York Times na quarta-feira, o presidente dos EUA deixou claro que não se deixaria restringir no exercício dos seus poderes como comandante-em-chefe. "Minha própria moralidade. Minha própria mente. É a única coisa que pode me parar."

"Eu não preciso do direito internacional", afirmou.

Quando pressionado sobre se realmente achava que Washington não precisava seguir as normas globais, Trump pareceu suavizar um pouco a sua posição. No entanto, o republicano apressou-se em acrescentar que "depende da sua definição de direito internacional", sugerindo que a palavra final sobre a sua aplicabilidade aos EUA seria exclusivamente dele.

Na quinta-feira, Trump assinou um memorando suspendendo o apoio a um total de 66 organizações, agências e comissões internacionais, incluindo vários órgãos da ONU, "que operam contra os interesses nacionais dos EUA, segurança, prosperidade económica ou soberania."

Em sua entrevista ao Times, o presidente dos EUA insistiu ainda mais na insistência de que a Groenlândia deveria ficar sob o controlo de Washington.

Falando à CNN na segunda-feira, o vice-chefe de gabinete de Trump para políticas, Stephen Miller, reiterou que a "posição formal" de Washington é que "os EUA devem ter a Groenlândia como parte do aparato geral de segurança."

No mesmo dia, a primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen disse acreditar que "o presidente dos EUA deve ser levado a sério quando diz que quer a Groenlândia." Ela alertou que "se os EUA atacassem militarmente outro país da OTAN, tudo pararia – inclusive a própria OTAN."

No início desta semana, um grupo de vários líderes da UE, além do Reino Unido, emitiram uma declaração conjunta cuidadosamente redigida defendendo o status da Groenlândia como parte do Reino da Dinamarca.



Fonte RT

Tradução RD



quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A EUROPA E A OTAN NÃO PODERÃO IMPEDIR QUE OS ESTADOS UNIDOS ANEXEM A GROENLÂNDIA

A Europa não tem um plano de acção em resposta à anexação da Gronelândia pelos Estados Unidos. Em caso de uma captura militar da ilha, a NATO e a UE ficariam paralisadas. Os líderes europeus contentam-se com declarações lacónicas, esperando evitar um desentendimento com Trump.


Por Alexandre Lemoine

Donald Trump está a reafirmar as suas reivindicações sobre a Gronelândia, e a reacção da Europa permanece surpreendentemente defensiva. Muitos estados, é claro, confirmam a soberania da ilha árctica. Mas além das declarações públicas, fica claro que, em caso de crise real, não há um plano unificado, escreve o Die Welt.

Por muito tempo, foi difícil para muitos europeus imaginar que os Estados Unidos poderiam apropriar o território de um aliado. No entanto, Trump nunca escondeu as suas reivindicações sobre a Gronelândia, uma ilha árctica pertencente à Dinamarca. «Precisamos da Gronelândia sob uma perspectiva de segurança nacional», Trump enfatizou novamente no domingo. Segundo ele, a ilha tem imensa importância estratégica, mas a Dinamarca «não será capaz de lidar com isso». «Vamos falar sobre a Gronelândia em vinte dias», disse Trump.

Tais declarações já foram feitas no passado, mas a prisão do líder venezuelano Nicolás Maduro pelas forças especiais dos EUA no fim de semana parece ter dado confiança ao presidente dos EUA e ressaltado a sua disposição em demonstrar a sua força. A publicação na rede social X por Katie Miller, esposa do vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, agravou ainda mais o fogo: ela publicou um mapa da Gronelândia nas cores da bandeira americana com a grande inscrição «SOON» (em breve). Isso não tranquilizou os aliados. Para muitos europeus, o risco de uma tentativa de capturar a Gronelândia é agora mais concreto do que nunca. Isto não apenas representa um sério desafio à aliança ocidental, mas também levanta a questão de o que a Europa realmente poderia opor a Washington numa situação crítica.

Se ouvirmos as conversas nas capitais europeias, temos a impressão de que ela dificilmente poderia opor-se. Ainda assim, os europeus estão a tentar não parecer totalmente impotentes. Os vizinhos do norte foram os primeiros a apoiar publicamente a Dinamarca após os últimos sinais de Washington. «A Gronelândia é parte integrante do Reino da Dinamarca», escreveu o primeiro-ministro norueguês Jonas Gahr Støre no X. E o presidente finlandês Alexander Stubb, cujas relações com o presidente dos EUA são consideradas particularmente boas, enfatizou: «Ninguém decide pela Gronelândia e pela Dinamarca, excepto a própria Gronelândia e a Dinamarca.»

Na terça-feira, 6 de Janeiro, sete países europeus expressaram a sua solidariedade com a ilha árctica numa declaração conjunta. «A Gronelândia pertence ao seu povo», diz o documento. Somente a Dinamarca e a Gronelândia têm o poder de decidir sobre assuntos que envolvem Dinamarca e Gronelândia. Entre os signatários estão, além do chanceler Friedrich Merz, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer e o presidente francês Emmanuel Macron.

As consequências práticas que poderiam resultar disso permanecem incertas. Os europeus enfrentam uma tarefa difícil: por um lado, mostrar firmeza e, por outro, não entrar em conflito com o aliado mais poderoso. Isto é particularmente doloroso para Copenhaga: a Dinamarca não quer provocar Washington, mas é forçada a reafirmar que as reivindicações territoriais dos EUA em solo dinamarquês são inaceitáveis para ela.

Na segunda-feira, 5 de Janeiro, a primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen alertou severamente em entrevista à televisão dinamarquesa TV2 sobre um possível colapso da arquitectura de segurança ocidental: «Se os Estados Unidos escolherem atacar militarmente outro país da NATO, então tudo acabou. Incluindo a nossa NATO, e portanto a segurança estabelecida desde o fim da Segunda Guerra Mundial», disse a primeira-ministra dinamarquesa, afirmando que estava a fazer «tudo o que era possível para garantir que isso não fosse verdade».

Na realidade, a NATO não está preparada para tal cenário. Na segunda-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Johann Wadephul, disse que a NATO deveria «em princípio» defender a Gronelândia, já que ela pertence a um Estado-membro, a Dinamarca. Mas a situação não é assim tão simples. A obrigação de assistência mútua prevê apoio a um aliado no caso de um ataque externo contra um país da NATO. O tratado não estipula o que deve ser feito caso um país da NATO ataque outro.

Portanto, os europeus não podem contar com a NATO, e são inevitavelmente eles mesmos que se tornam o foco da atenção dos Estados Unidos. Mas, além das palavras de apoio, os governos europeus até agora têm sido surpreendentemente mesquinhos com declarações públicas. Não está claro como seria a assistência europeia em caso de tentativa de capturar à força a Gronelândia.

O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot, mencionou repetidamente o envio de tropas europeias à Gronelândia em caso de ameaças militares. No entanto, as palavras não foram traduzidas em acção. No Palácio do Eliseu, as questões sobre uma possível «anexação» da Gronelândia são descritas como «hipotéticas». Os assessores diplomáticos do presidente francês enfatizam que Macron leva este assunto extremamente a sério. Mas, segundo eles, cabe à Dinamarca dizer o que espera da França.

Se os americanos atacassem a Gronelândia, Copenhaga poderia pedir ajuda sob o Artigo 42(7) do Tratado da União Europeia (TUE). Isto obriga os Estados-membros da UE a fornecer assistência mútua em caso de agressão armada: «Uma vez activada por um Estado-membro sob ataque, todos os outros Estados-membros devem prestar assistência em resposta.»

O problema é que a UE provavelmente não teria meios para responder a uma anexação militar da Gronelândia pelos Estados Unidos de qualquer forma. Além disso, a própria segurança da Europa depende significativamente dos Estados Unidos.

E Washington também está ciente disso. Questionado pela CNN se a administração descartava ou não uma operação militar para tomar a Gronelândia, o vice-chefe do gabinete do presidente dos EUA, Stephen Miller, respondeu: «Ninguém vai lutar militarmente com os Estados Unidos pelo futuro da Gronelândia. Não faz sentido.»




Fonte: https://www.observateur-continental.fr


Tradução RD


domingo, 4 de janeiro de 2026

A BLITZKRIEG AMERICANA SOBRE A VENEZUELA: NINGUÉM ESTÁ SEGURO

A incursão militar e o sequestro de Nicolás Maduro mostram o quão normalizado se tornou o ultrajante.

Por Tarik Cyril Amar, historiador e especialista em política internacional.

Após cinco meses – na verdade, duas décadas e meia – de preparativos cada vez mais intensos por meio de guerras diplomáticas, econômicas e clandestinas crescentes, os EUA finalmente executaram uma invasão total de mudança de regime na Venezuela. O ataque final, focado no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores da capital Caracas, foi breve. Mas a campanha certamente não foi sem derramamento de sangue. Embora saibamos pouco sobre o que exatamente aconteceu no terreno, os ataques perfeitamente criminosos de Washington contra supostos barcos de contrabando no mar, que serviram como o núcleo da sequência de propaganda preparatória do ataque, já mataram mais de 100 vítimas, sem falar nas vítimas negligenciadas das sanções.

Então, o que autoridades americanas chamaram de "ataque em grande escala" contra a Venezuela nas primeiras horas de 3 de janeiro teve como alvo não apenas Caracas, mas vários locais em todo o país. Por algum motivo, a resistência a essa operação "sombria e mortal" (nas palavras do presidente Donald Trump) parece ter sido mínima. Diante do longo e muito visível aumento militar, bem como da campanha de guerra psicológica que precedeu esses ataques noturnos, é difícil acreditar que tenham sido uma surpresa. Traição, subversão e acordos secretos e desagradáveis podem muito bem ter tido um papel.

Embora tais coisas provavelmente permaneçam obscuras por um tempo – ou para sempre – outros aspectos mais importantes da invasão dos EUA à Venezuela são inequívocamente claros: é absolutamente, irremediavelmente ilegal, uma violação massiva e aberta da Carta da ONU que proibi guerras de agressão. Até mesmo alguns dos vassalos 'atlanticistas' mais leais da Europa precisam admitir isso, por exemplo, um recente artigo de opinião no jornal ultra-mainstream alemão Die Zeit.

Os pretextos de Washington são, como tantas vezes, insultos frágeis para todos com um pouco de juízo. Venezuela e Maduro não estão contribuindo com nada significativo – se é que contribui com algo – para os próprios e intermináveis problemas de drogas dos Estados Unidos, nem em relação à cocaína nem ao fentanil. E a eleição de Maduro em 2024 pode ter sido justa ou não. O ponto decisivo e conclusivo é que tais questões devem ser tratadas dentro de um país soberano e nunca podem justificar uma intervenção militar externa. Ou quem será o próximo? Alemanha pela forma extremamente duvidosa (expressão educada) com que seus partidos tradicionais bloquearam a Nova Esquerda BSW do parlamento, em algo que pode muito bem ser um golpe frio?

Dizeres bizarros, também ouvidos recentemente, sobre Irã e Venezuela, também são pretextos. Mas, indiretamente, elas apontam para algumas verdades reais. Maduro foi punido por ousar defender abertamente as vítimas palestinas do genocídio que Israel e os EUA estão cometendo juntos atualmente. E políticos israelenses, sempre os verdadeiros valentões, já aproveitaram a oportunidade do ataque de Trump à Venezuela para ameaçar o Irã com violência semelhante. Trump, por sua vez, fez questão de situar seu ataque no contexto do assassinato do general iraniano Qassem Soleimani e do igualmente criminoso ataque ao Irã durante a "Operação Martelo da Meia-Noite."

Não é difícil entender as verdadeiras razões do ataque americano à Venezuela, em parte porque autoridades americanas, incluindo o próprio Trump, falaram abertamente sobre elas. A Venezuela possui as maiores reservas nacionais de petróleo do mundo e, além disso, depósitos significativos de ouro, terras raras e outras matérias-primas.

Trump afirmou que muitas dessas riquezas de alguma forma pertencem realmente aos EUA e suas empresas (o mesmo para ele, pelo menos) e prometeu reconquistá-las, o que ele está fazendo agora. A ganância, simples assim, é um dos principais motores dessa suja Blitzkrieg contra uma vítima militarmente de fato indefesa. Como o próprio Trump admitiu, trata-se de "uma enorme quantidade de riqueza."

Mas ganância não é tudo. Também há geopolítica. Como a recente interferência eleitoral de Washington na Argentina e Honduras, a pressão contínua sobre o Brasil (atualmente diminuindo um pouco, mas quem sabe por quanto tempo), Colômbia (que Trump ameaça com um destino semelhante ao da Venezuela), Nicarágua e Cuba. Some a isso o perdão descarado de um verdadeiro chefão do tráfico político de Honduras, o ataque à Venezuela também é uma aplicação do que foi chamado de "Doutrina Donroe". O significado desta última é, em essência, simples: é a velha e ruim Doutrina Monroe – que remonta a mais de 200 anos – mas ainda pior.

Marco Rubio, ex-dimissor de Trump e agora conselheiro e executor obséquioso (como Secretário de Estado e Conselheiro de Segurança Nacional, uma combinação não vista desde os dias malignos de Henry Kissinger, criminoso de guerra extraordinário), fez questão de ressaltar a ameaça contra Cuba em particular. Além de Trump, a política externa dos EUA está nas mãos de um homem absolutamente implacável, com um interesse pessoal no Caribe e na América Latina em geral, e ambições de ser o sucessor de Trump como presidente.

Como acabou de ser detalhado na nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, Washington dará atenção especial aos seus vizinhos e vítimas do sul, que sofrem há muito tempo. Um "Corolário Trump", que deliberadamente ecoa o antigo "corolário" imperialista do presidente Theodore Roosevelt, visa cimentar a dominação dos EUA por todos os meios e garantir o 'quintal' do império americano cada vez mais firmemente, instalando e sustentando marionetes e suprimindo a resistência.

Por último, mas não menos importante, os EUA também vão intensificar a antiga política de privar os países latino-americanos de sua própria política externa – mais um elemento essencial da soberania – punindo-os por construir relações com 'estrangeiros', principalmente agora com a China, mas também com a Rússia. Esse foi um dos muitos 'pecados' da Venezuela, e ninguém na região terá perdido a dura lição que Washington acabou de aplicar.

Trump não consegue imaginar o fracasso. Ele declarou que "a dominação americana no hemisfério ocidental nunca mais será questionada. Não vai acontecer." Mas, claro, na realidade, o fracasso é uma possibilidade real para ele tanto quanto para outros mortais arrogantes. A longo prazo ou não tão longo, sua estratégia hiper-imperialista violenta pode muito bem fracassar. Pode até provocar uma reação devastadora. No entanto, como tantas vezes nos EUA, seus fiascos também deixam suas vítimas em ruínas.

Enquanto isso, até mesmo o confiável defensor do imperialismo americano Hal Brands alertou que os métodos de Trump podem sair pela culatra ao estabelecer um precedente, por exemplo, sobre como a China pode um dia decidir lidar com Taiwan. A comparação é profundamente, demagogicamente falha, já que Pequim tem uma reivindicação plausível sobre Taiwan, enquanto Washington não tem nenhuma sobre a Venezuela ou sobre o sequestro de Maduro e sua esposa, como Brands tenta fingir, embaraçosamente.

E, para ser honesto, mesmo que Brands não tenha percebido de sua posição na Cátedra Henry Kissinger, os EUA há muito criaram precedentes após precedentes para quebrar todas as leis, todas as regras e todas as normas morais básicas, como ao co-perpetrar o genocídio de Gaza com Israel. Mas o ataque à Venezuela acrescenta mais um aspecto à ilegalidade americana.

Ironicamente, alguns que querem ser amigos de Washington nunca entenderão o egoísmo absoluto e a imoralidade da política americana. Duas dessas figuras cômicamente desajustadas são Vladimir Zelensky, da Ucrânia, e Maria Corina Machado, da Venezuela.

Zelensky costumava postar sobre "avistar" operativos russos na Venezuela, tentando se aproximar fazendo uma contribuição pessoal para o cerco dos EUA ao país. Agora, como um 'cliente' obstinado e cada vez mais inútil, ele pode muito bem ser alvo de uma mudança de regime americano. Machado, que se esforçou indecentemente para mostrar aos americanos o quanto está pronta para obedecê-los e trair seu país e seus recursos, acabou de ser descartada como um capacho usado por Trump. Em sua coletiva de imprensa triunfalista, o presidente americano a mencionou de passagem – como alguém que não tem o que é preciso para liderar a Venezuela. Adeus salário de traição e puxa-porção. Para de arremessar, Maria, você acabou de ser demitida. Jolani entrou no corte de subordinado, você não.

Ironicamente, o escandaloso recebimento do Prêmio Nobel da Paz por Machado pode tê-la prejudicado no final. Trump é um homem ciumento, e é certo que ele achava que o prêmio deveria ter ido para ele. E, de certa forma, ele até tem razão. Embora ele não mereça de forma alguma, realmente não se pode negar que Machado merecia mais. O Prêmio Nobel da Paz há muito tempo é uma piada doentia. Mas seu uso como parte de uma campanha de preparação para invasão ainda se destaca como particularmente hediondo. Hora de acabar com essa farsa vergonhosa.

De modo geral, a coletiva de imprensa do presidente americano foi uma atuação genuína de Trump, com sua habitual grandiloquência em plena exibição. Reivindicando o crédito pessoal pelo ataque "espetacular" à Venezuela, ele o elogiou como "uma das demonstrações mais impressionantes, eficazes e poderosas do poder e competência militar americana" e um feito igual que não se via desde a Segunda Guerra Mundial. Trump estava ocupado demais se gabando para notar que suas próprias revelações sobre a operação implicavam um cenário menos heroico: foi usada força "esmagadora" dos EUA, e nenhum soldado americano ou mesmo "equipamento" foi perdido. Seja lá o que fosse, não foi uma grande – nem justa – luta.

O presidente dos EUA confirmou em grande parte o que já sabemos – os EUA querem basicamente todos os produtos da Venezuela, mas o petróleo está no topo da lista de desejos. Washington acredita que deve "governar" o país até que uma "transição de liderança" possa ser planejada, ou seja, a instalação de um regime fantoche, obviamente. Em outras palavras, uma aplicação franca do que a força é certa, com apenas um mínimo de brincadeira retórica sobre como os venezuelanos comuns se beneficiarão e "também serão cuidados." Se isso soa involuntariamente ameaçador, é porque é. E tudo isso sob a sombra da mesma armada dos EUA que acabou de atacar o país e está pronta para fazer isso novamente, sempre que Washington quiser. Política de gângsteres 101.

À sua maneira, a conferência de imprensa do presidente representou algo importante sobre essa guerra. Ou seja, o quão estranhamente normal o absoluto anômalo se tornou. O que Washington acabou de fazer é um horror da criminalidade, ganância e arrogância. Mas também era o que era de se esperar. O mesmo vale para as reações ridiculamente hipócritas de seus vassalos OTAN-UE, que acreditam que o melhor que podem fazer é "observar". Boa sorte com isso!

Em um mundo mais normal – embora longe de ser perfeito –, todos finalmente entenderiam que o estado rebelde mais perigoso do mundo, de longe, são os EUA. Isso é verdade tanto em capacidade quanto em pura insanidade moral, corrupção e brutalidade. Em um mundo mais normal, até os piores antagonistas encontrariam uma forma de cooperar para conter e dissuadir esse Godzilla geopolítico em alta velocidade. Mas, até o momento, tal mundo ainda não está surgindo. A multipolaridade sozinha não será suficiente.


Fonte: RT

Tradução RD



TRIBUNAL SUPREMO DA VENEZUELA NOMEIA DELCY RODRÍGUEZ PRESIDENTE

Sucessora, até ver, de Maduro, é descrita como combativa e influente. Antes de assumir a vice-presidência, dirigiu uma mão cheia de ministérios desde os primórdios do chavismo.


O Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela ordenou este sábado que a vice-presidente Delcy Rodríguez assuma o cargo de presidente interina da República Bolivariana da Venezuela, na sequência da detenção do presidente Nicolás Maduro numa operação militar conduzida pelos Estados Unidos. 

Numa decisão da sua Câmara Constitucional, o Supremo Tribunal determinou que Rodríguez deve exercer as funções presidenciais “com o objetivo de garantir a continuidade administrativa e a defesa integral da nação”, face à ausência forçada de Maduro. O tribunal referiu ainda que vai debater o quadro legal aplicável para assegurar a continuidade do Estado e da governação. 

A detenção de Maduro, ocorrida na madrugada de sábado durante uma operação dos EUA em Caracas, desencadeou uma crise sem precedentes na política venezuelana. O líder foi levado para Nova Iorque e enfrenta acusações judiciais nos Estados Unidos, num desenvolvimento que provocou forte contestação internacional e questionamentos sobre a legalidade da intervenção. 

Rodríguez, que tem servido como vice-presidente desde 2018 e acumula cargos relevantes no executivo venezuelano, foi rapidamente empossada em funções presidenciais no Palácio de Miraflores, com a promessa de “calma, unidade e resistência contra a agressão estrangeira”. Mesmo assim, em declarações televisivas, ela reafirmou que Maduro permanece como “presidente legítimo” e condenou a ação dos EUA como tentativa de mudança de regime. 

Militares e altos responsáveis do governo declararam lealdade ao novo executivo interino, mas analistas apontam que a verdadeira autoridade política ainda está em disputa, com figuras-chave do aparelho estatal a manterem influência significativa.


sábado, 3 de janeiro de 2026

O ATAQUE DOS EUA À VENEZUELA PROVA O DESMORONAMENTO DA 'ORDEM MUNDIAL' PÓS-SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – FICO

Países grandes e fortes agora usam força militar sem mandato da ONU, desrespeitando abertamente o direito internacional, disse o primeiro-ministro eslovaco.


O ataque dos EUA à Venezuela prova ainda mais que a ordem mundial do pós-Segunda Guerra Mundial está se desmoronando, disse o primeiro-ministro eslovaco Robert Fico no sábado.

Poucas horas antes, as forças dos EUA realizaram ataques aéreos contra o rico país sul-americano e capturaram o seu presidente, Nicolás Maduro, e a sua esposa. Ambos foram levados de volta para os EUA e acusados de conspiração contra o tráfico de drogas – alegações que Maduro nega há muito tempo, argumentando que Washington buscava mudança de regime e recursos venezuelanos.

O presidente Donald Trump disse que, com Maduro deposto, os EUA vão "comandar" a Venezuela e garantir a sua indústria petrolífera.

"A acção militar dos EUA na Venezuela é mais uma evidência do colapso da ordem mundial criada após a Segunda Guerra Mundial," Fico disse num comunicato publicado nas redes sociais.

"O direito internacional não se aplica, a força militar é usada sem mandato do Conselho de Segurança da ONU, e todos que são grandes e fortes fazem o que querem para promover os seus próprios interesses", disse ele.

Fico acrescentou que, como líder de um país pequeno, ele rejeita esse tipo de "subversão do direito internacional", pois rejeitou a invasão dos EUA ao Iraque, "o não reconhecimento do Kosovo como estado soberano", o "uso da força militar russa na Ucrânia", bem como a avaliação da situação em Gaza.

O primeiro-ministro eslovaco disse que se perguntava como a UE reagiria formalmente ao ataque dos EUA, que, segundo ele, "merece condenação."

"Ou ele condenará o uso da força militar dos EUA na Venezuela e será consistente com sua posição sobre a guerra na Ucrânia, ou permanecerá, como de costume, hipócritamente autojustificado."

O chefe da política externa da UE, Kaja Kallas, pediu "moderação" numa publicação no X no sábado, pedindo a adesão à Carta da ONU.

Enquanto isso, China e Rússia condenaram veementemente os ataques dos EUA.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo classificou os ataques e a captura de Maduro de uma "violação inaceitável da soberania de um Estado independente" e pediu a Washington que liberte o presidente venezuelano.


Fonte: RT

Tradução RD


VENEZUELA SOLICITA REUNIÃO EMERGENCIAL DO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU SOBRE 'AGRESSÃO CRIMINOSA' DOS EUA

A Venezuela solicitou uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU após ataques dos EUA nas primeiras horas de sábado, que o presidente Donald Trump alegou terem levado ao sequestro do presidente Nicolás Maduro.


Caracas solicitou a reunião em resposta à "agressão criminosa perpetrada pelo governo dos EUA contra nossa nação", disse o ministro das Relações Exteriores Yvan Gil em um comunicado no Telegram no sábado.

"Nenhum ataque covarde prevalecerá contra a força deste povo, que sairá vitorioso", acrescentou Gil.

Em uma carta à ONU, o Representante Permanente da Venezuela, Samuel Moncada, condenou a "guerra colonial" de Washington contra seu país.

Ele afirmou que a ação militar dos EUA foi projetada para derrubar o governo Maduro e instalar um regime "fantoche" que permitiria o saque dos recursos naturais da Venezuela, incluindo as maiores reservas de petróleo do mundo.

Incêndio em Fuerte Tiuna, o maior complexo militar da Venezuela, é visto de longe após uma
série de explosões em Caracas em 3 de Janeiro de 2026. (AFP)


Moncada pediu ao Conselho de Segurança que condenasse o ataque, exija o fim das operações armadas e responsabilize Washington por "crimes de agressão" contra a Venezuela.

Venezuela declara estado de emergência

O ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, declarou estado de emergência em toda a Venezuela, relatando que as forças dos EUA haviam atacado o maior complexo militar do país em Caracas, bem como pontos estratégicos nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira.

Segundo Padrino López, helicópteros de combate dos EUA também dispararam mísseis e foguetes que atingiram áreas residenciais, colocando populações civis em risco. Um balanço preliminar das baixas está sendo compilado.

López alertou que o ataque da administração Trump à Venezuela coloca em risco a estabilidade regional. "Uma Venezuela livre e independente, e reitero que a pátria é um valor supremo. Eles nos atacaram, mas não vão nos quebrar."

Anteriormente, Trump descreveu os ataques como uma "operação em grande escala contra a Venezuela", dizendo que Maduro e sua esposa haviam sido sequestrados.

Mais tarde naquele dia, a Procuradora-Geral dos EUA, Pam Bondi, disse em uma postagem na rede social X que o casal enfrentará acusações criminais em Nova York, incluindo conspiração contra narcoterrorismo, importação de cocaína e posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos.

Membros da Guarda Nacional fazem guarda em Fuerte Tiuna, o maior complexo militar
 da Venezuela, em Caracas, no dia 3 de Janeiro de 2026, (A


Bondi disse que eles "em breve enfrentarão toda a ira da justiça americana em solo americano nos tribunais americanos."

A ação militar dos EUA segue meses de pressão sobre a Venezuela, incluindo o aumento de forças na América do Sul e ataques a embarcações no Pacífico oriental e no Caribe, acusadas de transportar drogas.

Maduro rejeitou as acusações, chamando-as de pretexto para a Casa Branca atacar o país sul-americano.



Fonte PressTV

Tradução RD



quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

MENSAGEM DE ANO NOVO 2026 DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA




Boa noite.

Queridos Compatriotas,

2026 – cinquenta anos de Constituição. Quarenta anos de adesão à Europa. Trinta anos de Comunidade de Língua Portuguesa. Que ano, não digo único, mas singular, que hoje começa.

Ano Novo, vida nova – diz o povo.

E, neste início de 2026, é esse o voto de tantos por todo o mundo.

Desejando a paz duradoura na Ucrânia, no Médio Oriente, também no Sudão e em tantos outros conflitos no globo.

Respeitando os valores e princípios da Carta das Nações Unidas e o Direito Internacional. E respeitando, sobretudo, a dignidade das pessoas.

Um ano com mais desenvolvimento, mais justiça, mais liberdade, mais igualdade e mais solidariedade.

O mesmo desejo vale para nós, vale para Portugal.

Ano novo, vida nova.

Também com mais saúde, mais educação, mais habitação, mais justiça, ainda mais crescimento, ainda mais emprego e menor pobreza e desigualdade. E, sempre, mais tolerância, mais concordância, mais instinto, mais do que instinto, intuição, sentido de coesão nacional.

Com ideias, soluções e pessoas novas.

É essa a natureza e a força da Democracia.

O povo escolhe livremente o que quer e quem quer para o futuro.

Com a esperança de que seja diferente e melhor do que o passado.

Ideias, soluções e pessoas.

E essa é, também, a minha esperança, e digo mais, essa é, mais do que esperança, a minha certeza: melhor futuro do que passado.

Certeza por uma razão decisiva – que se chama Portugueses.

Esses Portugueses que, há quase novecentos anos, nascidos ou acolhidos, cá dentro e lá fora, fazem, todos os dias, Portugal. Tal como os descreveu, agora faz 125 anos, em 1900, o grande escritor Eça de Queiroz.

É dele esse retrato, de cada um de nós, de todos nós, de Portugal. Que ele faz, a propósito, de uma personagem de um romance seu e escreve: “A franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade. Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua ideia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris. A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito pratico, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre d’Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda e o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre.

E Eça chega ao fim desta descrição e põe na boca de outra personagem a pergunta: “Sabem vocês quem me lembra Gonçalo?” E a resposta é Portugal.

Queridos Compatriotas,

Com qualidades e coragem excecionais, que, de longe, superam os defeitos.

Assim somos há quase novecentos anos. Assim seremos sempre.

Muito boa noite.

Um feliz 2026!


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

ISRAEL PROÍBE ONGS EM GAZA, MAS NOTÓRIA EMPRESA MERCENÁRIA CONTRATA ATIRADOR DE ELITE

Será que Israel e o governo Trump reviveriam o projecto distópico da Fundação Humanitária de Gaza, que semeou fome e morte sob o disfarce de ajuda humanitária?


Por Max Blumenthal para o The Grayzone, em 31 de dezembro de 2025

Para continuar o genocídio em Gaza com impunidade, Israel proibiu 37 organizações humanitárias internacionais de entrarem no enclave costeiro devastado sob ocupação militar. Apenas cinco organizações humanitárias conseguem operar dentro de Gaza actualmente.

Em contraste, uma das empresas mercenárias dos EUA encarregada de garantir a segurança dos locais da Fundação Humanitária de Gaza, que esteve presente durante as piores fases da fome em Gaza, onde pelo menos 3.000 civis palestinianos foram mortos a tiros enquanto buscavam ajuda, publicou um anúncio solicitando ex-soldados das forças especiais para operações ofensivas.

Em Dezembro passado, a empresa privada de mercenários UG Solutions, que foi marcada por vários escândalos, anunciou que estava recrutando um

"Atirador experiente para contribuir para operações baseadas em inteligência, identificando, validando e atualizando alvos operacionais". O candidato deverá "desenvolver, validar e manter listas de alvos operacionais de acordo com os processos de segmentação aprovados".

Anthony Aguilar, tenente-coronel aposentado do Exército dos EUA e ex-Boinas Verdes que expôs abusos de direitos humanos da UG Solutions em Gaza, disse-me que acredita que a proibição de Israel às 37 organizações humanitárias internacionais prenuncia o retorno da UG Solutions por meio de uma versão reestruturada do programa da Fundação Humanitária de Gaza sob controle israelita.

Embora ainda não esteja claro onde será preenchido o gerente de operações de "alvo" da UG Solutions e se está a ser considerado para futuras operações em Gaza, Aguilar afirma que

"Isso mostra que os Estados Unidos, por meio de contratados paramilitares, agora participarão directamente ou fornecerão dados de alvos ao exército israelita."

Para abrir caminho para uma proibição total de organizações humanitárias internacionais, o Ministério dos Assuntos da Diáspora de Israel, ligado aos serviços de inteligência, exigiu que todo o pessoal das ONGs humanitárias provasse que não apoia os apelos ao boicote a Israel, não tolera a luta armada e não se opõe à existência de Israel como um Estado exclusivamente judeu. nem que estejam activamente envolvidos em actividades destinadas a deslegitimar o Estado de Israel.

Eles também devem demonstrar que nunca questionaram a história do Holocausto nem contestaram relatos oficiais israelitas de 7 de Outubro, incluindo, presumivelmente, alegações de "violações coletivos" e "bebês decapitados" por palestinianos.

Israel também exigiu que o Médicos Sem Fronteiras forneça aos administradores de ocupação da COGAT os dados de identificação da sua equipa e doadores, um passo sem precedentes por parte em conflito que poucas, se é que alguma, organização humanitária pode respeitar.

O governo israelita está claramente a usar esses novos e excessivamente restritivos padrões de registo como pretexto para impedir que a maioria das organizações humanitárias internacionais respeitáveis entrem em Gaza. A entidade do apartheid está, assim, tentando privar os palestinianos que vivem dentro da linha amarela de ocupação dos seus meios de subsistência, para forçá-los a deixar Gaza ou se estabelecer numa das "cidades inteligentes" de alta tecnologia, semelhantes a campos de concentração, planeadas no projecto distópico "Projecto Sunrise" promovido pelos seguidores de Trump. Steve Witkoff e Jared Kushner.

Eles então seriam "tomados" por uma organização mercenária como a UG Solutions, e alvos, presos ou fuzilados se ousassem resistir.

Abaixo está uma lista de todas as organizações humanitárias que o Estado de Israel proibiu em Gaza:

1. Ação contra o Hambre - Acção Contra a Fome

2. Auxílio à Ação

3. Alianza por la Solidaridad

4. Artsen zonder Grenzen (Médicos Sem Fronteiras, Países Baixos)

5. Campanha pelos Filhos da Palestina (PCC Japão)

6. CUIDADO

7. DanChurchAid

8. Conselho Dinamarquês de Refugiados

9. Handicap International - Humanidade e Inclusão

10. Centro Internacional de Voluntariado do Japão

11. Médicos do Mundo (FRANÇA)

12. Médicos da Suíça Mundial

13. Médicos Sem Fronteiras Bélgica

14. Médicos Sem Fronteiras França

15. Médicos del Mundo (Espanha)

16. Corpo de Misericórdia

17. MSF Espanha - Médicos Sem Fronteiras Espanha

18. CONSELHO NORUEGUÊS DE REFUGIADOS

19. Oxfam Novib

20. Primeira Emergência Internacional

21. Terre des hommes Lausanne

22. O Comitê Internacional de Resgate (IRC)

23. WeWorld-GVC

24. World Vision International

25. Relief International

26. Fondazione AVSI

27. Movimento pela Paz – MPDL

28. Comitê de Serviço dos Amigos Americanos (AFSC)

29. Medico International

30. PSAS - A Associação de Solidariedade com a Palestina na Suécia

31. Defesa Internacional para Crianças

32. Assistência Médica para Palestinos – Reino Unido

33. Caritas Internationalis

34. Caritas Jerusalém

35. Igrejas de conselho do Oriente Próximo

36. OXFAM Quebec

37. Holanda War Child



Tradução RD


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

PAZ PROIBIDA: POR QUE AS ELITES OCIDENTAIS TEMEM MAIS O FIM DO CONFLITO NA UCRÂNIA DO QUE A PRÓPRIA GUERRA

No conflito ucraniano, a paz já não é o objectivo, mas sim o perigo. Não para as pessoas que pagam o preço, mas para as elites ocidentais presas numa narrativa de vitória que se tornou impossível de manter.


Por Mounir Kilani

À medida que a guerra se arrasta, qualquer paz realista aparece como uma admissão de fracasso que preferem adiar, mesmo que isso signifique prolongar o conflito além do razoável.

A Paz Torna-se Suspeita: Uma Reflexão sobre o Significado da Paz em Tempos de Guerra

No conflito ucraniano, a paz tornou-se mais perigosa que a guerra. Não para as populações que a sofrem, mas para as elites ocidentais que são prisioneiras de uma narrativa que já não podem negar sem desabar.

Houve um tempo em que a paz era o horizonte natural de toda a guerra. Hoje, ela tornou-se um objecto suspeito.

A simples menção a negociação, compromisso ou estabilização é imediatamente interpretada como uma fraqueza moral, uma capitulação estratégica ou até mesmo uma traição.

No conflito ucraniano, esta reversão é marcante: quanto mais dura a guerra, mais inaceitável parece a paz – não para quem a sofre, mas para quem a conta.

Este paradoxo merece ser questionado, não do ponto de vista das emoções, mas do ponto de vista da realidade: o que a paz ainda significa em tempos de guerra prolongada? E por que hoje parece mais perigosa do que continuar a luta?

Quando a paz só vale a pena se parecer uma vitória

No discurso dominante do Ocidente, a paz é aceitável apenas sob uma condição: que ela assuma a forma de uma vitória clara, legível e moralmente satisfatória. Qualquer outro resultado é desclassificado antecipadamente.

Negociação torna-se uma traição, o compromisso uma fraqueza, a estabilização uma ameaça futura.

No entanto, esta concepção é historicamente frágil. As grandes pazes do século XX – imperfeitas, incompletas, muitas vezes injustas – quase nunca corresponderam a vitórias puramente morais.

Eram resultado de lutas de poder, exaustão mútua, cálculos frios, por vezes cínicos. Elas puseram fim aos combates sem reparar todas as injustiças. No entanto, permitiram que as sociedades respirassem novamente.

A história, precisamente, oferece um laboratório cruel para avaliar estas pazes imperfeitas.

  • Versalhes e Trianon (1919-1920) encerraram a Grande Guerra humilhando os perdedores. Eram "funcionais" para impedir o massacre, mas ao cultivar um ressentimento profundo, prepararam um conflito ainda mais terrível.
  • Yalta (1945), um acto de Realpolitik por excelência, dividiu a Europa e estabeleceu uma paz aterrorizante, porém estável, evitando a guerra directa por meio século.
  • Dayton (1995) congelou o conflito bósnio por linhas étnicas. Parou os massacres, ao custo de um Estado disfuncional e de uma paz que, trinta anos depois, permanece num gotejamento internacional.

A lição é dupla.

Primeiro, uma paz imposta pode ser preferível a uma guerra prolongada, pois salva vidas imediatamente e permite uma respiração social essencial.

Mas, em segundo lugar, a sua funcionalidade tem uma vida útil. Depende da capacidade de transformar hostilidade em aceitação resignada.

Uma paz "real" não é, portanto, apenas uma cessação dos combates baseada num equilíbrio de poder. Também é um equilíbrio suficientemente internalizado para não se tornar o fermento de uma guerra de vingança.

Seria um erro confundir o armistício – a simples trégua técnica – com uma paz duradoura. A primeira é frequentemente necessária; a segunda é um processo político infinitamente mais complexo.

Recusar qualquer paz que não seja idealizada é colocar uma exigência abstracta acima do custo humano real. É tornar a guerra uma condição permanente.

Uma permanência que é ainda mais paradoxal porque se baseia em capacidades materiais, industriais e humanas que estão a desgastar-se, inclusive do lado daqueles que afirmam apoiá-la.

A proposta russa: uma paz realista no mundo real

A proposta de paz russa merece ser examinada pelo que é, não pelo que a narrativa ocidental gostaria que fosse. Não é nem generosa nem moral.

Baseia-se numa lógica de realismo estratégico: o fim dos combates, a neutralização militar da Ucrânia, o reconhecimento dos factos territoriais resultantes do conflito.

Esta proposição assume uma verdade que o Ocidente se recusa a admitir: as guerras modernas raramente terminam com a vitória total de um lado. Elas terminam com uma estabilização imposta por limites materiais, humanos e industriais.

A capacidade de prolongar um conflito depende menos da vontade política do que da realidade dos stocks, da produção e da aceitação do sacrifício.

A Rússia não busca uma paz ideal; busca uma paz funcional, garantindo a sua segurança a longo prazo. Esta abordagem pode ser considerada dura, assimétrica, brutal.

Mas é coerente e ancorada na realidade. Observa o que é, enquanto a elite ocidental continua a falar sobre o que deveria ser – ao custo de uma lacuna crescente entre promessas públicas e capacidades reais.

Racionalidade estratégica versus fuga utópica

É aqui que ocorre a fratura essencial.

A Rússia pensa em termos de segurança, profundidade estratégica e sustentabilidade. A elite ocidental raciocina em termos de narrativa, credibilidade moral e símbolos a serem preservados.

Enquanto Moscovo aceita uma paz imperfeita, mas estabilizadora, as capitais ocidentais temem uma paz que revelaria o fracasso das suas promessas iniciais.

Pois reconhecer a necessidade de compromisso seria reconhecer que a vitória anunciada não era alcançável – e que a guerra se prolongou além do que era sustentável.

A continuação da guerra torna-se então menos uma escolha estratégica e mais uma corrida narrativa desenfreada. Pontos decisivos são prometidos, vitórias adiadas.

A guerra é mantida não porque seja vencível, mas porque uma paz realista seria narrativamente insuportável.

A Armadilha do Colapso: Paz Através da Derrota

Esta lógica encontra o seu macabro ponto de equilíbrio num cenário que todos temem, mas para o qual todos, tacitamente, se estão a preparar: o do colapso ucraniano.

Este colapso não seria um desaparecimento súbito, mas uma erosão gradual e irreversível da capacidade de resistência.

Teria o rosto do cansaço do último batalhão, da linha da frente que está a ceder devido à ausência de combatentes para a segurar.

Seria política e social: uma erosão da coesão nacional perante a magnitude do sacrifício, acelerada pela percepção de um apoio ocidental vacilante.

Também seria demográfico: uma sangria duradoura da população activa, um exílio irreversível e a transformação da Ucrânia num estado em suporte de vida.

A Ucrânia tornar-se-ia então um Estado militarmente falhado, forçado a aceitar os termos de Moscovo a partir de uma posição de fraqueza absoluta.

Neste cenário, a Rússia ditaria um ditame, muito mais severo do que qualquer oferta actual de negociação.

As cláusulas seriam simples, brutais e sem apelo:
  • Anexação total de territórios muito além das linhas actuais.
  • Desmilitarização total e unilateral do restante da Ucrânia.
  • Estabelecimento de um governo fantoche em Kiev, alinhado com Moscovo.
  • Liquidação programada da identidade nacional ucraniana como um projecto separado.

Esta "paz" não passaria de uma capitulação incondicional, selando a transformação da Ucrânia num protetorado.

As consequências iriam muito além do teatro ucraniano.

Para a Europa e a NATO, seria o choque estratégico e moral mais sério desde o fim da Guerra Fria. A prova contundente do limite das garantias de segurança ocidentais.

Para a Ucrânia, um trauma civilizacional. O Estado-nação, como projecto soberano, ficaria em pausa por uma geração.

Este cenário é exactamente o que torna a paz "suspeita". Para os decisores ocidentais, negociar hoje significa aceitar uma derrota limitada. Esperar por um colapso é arriscar uma derrota catastrófica.

A continuação da guerra torna-se um cálculo desesperado: é melhor enfraquecer Rússia e Ucrânia num conflito congelado do que testemunhar o colapso final.

A rejeição de uma paz imperfeita é a escolha de lutar uma derrota certa, porém adiada, em vez de selar uma derrota certa e imediata.

Um cálculo geopolítico feito à custa de uma nação reduzida ao estatuto de peões.

A Europa invadida: um mito funcional

O argumento de uma Rússia pronta para invadir a Europa desempenha um papel central. Não como uma análise militar séria, mas como uma ferramenta para desqualificar qualquer paz negociada.

Ao transformar um conflito regional numa ameaça civilizacional global, esta narrativa torna qualquer saída política impossível por definição.

Também desempenha um papel essencial no âmbito doméstico: disciplinar a opinião pública, justificar gastos excepcionais, instalar uma economia de guerra sem declarar guerra.

No entanto, nada na postura russa corresponde a um projecto de invasão da Europa Ocidental. Tudo aponta para o desejo de redefinir a arquitectura de segurança europeia.

Confundir estas duas lógicas é menos uma questão de análise e mais de instrumentalização do medo.

O cessar-fogo ocidental: nem paz nem fim

O Ocidente não rejeita qualquer interrupção dos combates. Defende um cessar-fogo vago, reversível e juridicamente ambíguo.

Um congelamento do conflito que salvaria a face sem decidir as questões fundamentais. Uma pausa tática, não uma paz.

A Rússia, por outro lado, busca uma estabilização duradoura e formalizada com garantias concretas.

Esta discrepância explica a incompatibilidade actual: um quer adiar o fim, o outro quer fixá-lo – sabendo que cada mês adicional endurece as condições para uma paz futura.

O custo humano sacrificado pela narrativa

Nesta oposição, o custo humano torna-se secundário. Os mortos são integrados no discurso como uma necessidade abstracta. A guerra permanece aceitável enquanto estiver longe.

Uma pergunta permanece, porém: quantas mortes mais serão necessárias para que uma paz realista finalmente se torne aceitável?

Em que momento a fidelidade a uma narrativa se transforma em irresponsabilidade moral?

Reabilitando a paz real

Apoiar uma paz proposta pela Rússia não significa idealizar a Rússia. Significa reconhecer que, em algum momento, a racionalidade estratégica é melhor do que a utopia moral.

A paz nem sempre é justa. Mas a guerra prolongada nunca o é.

Recusar qualquer paz imperfeita é muitas vezes escolher uma guerra perfeita – perfeita especialmente para aqueles que não a vivem.

A reunião de 28 de Dezembro entre Zelensky e Donald Trump, apresentada como "progresso" rumo à paz, não levou a nenhum acordo concreto, confirmando que a conversa sobre paz permanece aceitável desde que não seja traduzida numa decisão política real.

Quando a paz se torna uma ameaça à narrativa

A paz tornou-se duvidosa porque põe fim a uma história que alguns preferem continuar a contar.

A proposta russa, por mais dura que seja, tem o mérito de existir na realidade. A narrativa ocidental, por outro lado, está a afastar-se um pouco mais a cada dia.

Hoje, fazer a paz já não é apenas uma escolha estratégica. É um acto de verdade política.

Não é a paz que assusta hoje.

É isso que ela revela.




Fonte: https://reseauinternational.net

Tradução RD




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