O FUTURO DO PRÓXIMO ORIENTE

sexta-feira, 6 de março de 2015

O FUTURO DO PRÓXIMO ORIENTE

O FUTURO DO PRÓXIMO ORIENTE

Desde há vários meses, Barack Obama tenta modificar a política norte-americana no Próximo-Oriente de maneira a eliminar o Emirado Islâmico com a ajuda da Síria. Mas ele não o consegue fazer, por um lado porque durante anos não parou de afirmar que o presidente al-Assad devia sair, e por outro lado porque os seus aliados regionais apoiam o Emirado islâmico contra a Síria. Portanto, as coisas evoluem lentamente de modo que ele deverá lá chegar dentro em breve. Assim, parece que todos os Estados que apoiavam o Emirado Islâmico pararam de o fazer, abrindo a via para uma redistribuição das fichas.
 
 
Por Thierry Meyssan


O mundo espera a conclusão de um acordo global entre Washington e Teerão sob o pretexto ridículo de acabar com um programa nuclear militar, que já não existe mais desde o fim da guerra lançada pelo Iraque (1980-1988). Ele incidiria sobre a protecção de Israel, em troca do reconhecimento da influência iraniana no Próximo-Oriente e em África.

No entanto, tal só deverá ter lugar após as eleições israelitas (israelenses-br) de 17 de Março de 2015. A esperada derrota de Netanyahu refaria os laços entre Washington e Telavive, e facilitará o acordo com Teerão.

Neste contexto, as elites norte-americanas tentam pôr-se de acordo sobre a sua política futura, enquanto os aliados europeus dos Estados Unidos estão preparando-se para alinhar com o que será a nova política dos EUA.

A procura de consenso nos Estados Unidos

Após dois anos de política incoerente, Washington tenta elaborar um consenso sobre aquilo que deveria ser a sua política no «Próximo Oriente Alargado».

1. A 22 de Outubro de 2014, a Rand Corporation, principal “think tank” do lobby industrial militar, modificou radicalmente a sua posição. Depois de ter feito campanha pela destruição da República Árabe da Síria, afirma agora que, para os Estados Unidos e Israel, a pior coisa que pode acontecer é a queda do presidente Assad [1].

2. A 14 de Janeiro de 2015, o presidente emérito do C.F.R. (Council on Foreign Relations-Conselho de Relações Exteriores-ndT), o clube das elites dos E.U.A, Leslie Gleb, alertava contra as divisões na administração Obama, que ameaçam a sua autoridade no mundo. Ele preconizou uma espécie de nova «Comissão Baker-Hamilton» para rever, de cima para baixo, a política externa [2].

3. A 24 de Janeiro, o New York Times publicava um editorial apoiando a viragem da Rand Corporation e apelando a uma mudança completa de política em relação à Síria [3].

4. A 6 de Fevereiro, a administração Obama lançou a sua nova doutrina estratégica. Não se trata mais, agora, de garantir a segurança de Israel destruindo a Síria para isso, mas, antes, criando uma aliança militar regional com as monarquias muçulmanas sionistas. No máximo, o Emirado Islâmico («Daesh») poderia ser utilizado para impedir a Síria de levantar a cabeça, e de voltar a jogar um papel político regional [4].

5. A 10 de Fevereiro, a National Security Network (NSN)-(Rede Nacional de Segurança-ndT), um “think tank” bi-partidário que tenta divulgar a geopolítica nos Estados Unidos, publicava um relatório sobre as opções possíveis face ao Emirado Islâmico. Ele passava em revista as opiniões de uma quarentena de especialistas e concluía pela necessidade de «conter, depois destruir» o Emirado Islâmico, apoiando-se primeiro no Iraque, depois na Síria de Bashar al-Assad. A NSN foi fundada por Rand Beers, um antigo conselheiro de John Kerry, actualmente sub-secretário de Segurança Interna [5].

6. A 11 de Fevereiro, a administração Obama apresentava ao Congresso um pedido para o uso da força militar contra o Emirado Islâmico, que relegava às urtigas a ideia de derrubar o Presidente Assad e de destruir a Síria [6].

7. A 23 de Fevereiro, o novo secretário da Defesa Ashton Carter, reunia peritos para um jantar de trabalho. Ele ouviu as suas opiniões durante 5 horas sem revelar o seu próprio ponto de vista. Carter achava por bem verificar, por si mesmo, o trabalho da NSN. Entre os seus convidados encontrava-se não apenas o antigo embaixador dos E.U. na Síria, Robert S. Ford, e velhos veteranos dos “think-tanks”, como também Clare Lockhart, conhecido pelos seus laços com o mundo da Finança; ou ainda o presidente da Escola de Jornalismo de Columbia, Steve Coll, para avaliar as possíveis reacções dos media (mídia-br) [7].

O que mudou no terreno

Durante os últimos meses vários factores evoluíram no terreno.

A «oposição moderada» síria desapareceu completamente. Ela foi absorvida pelo Daesh. A tal ponto que os Estados Unidos não conseguem encontrar os combatentes, que poderiam formar, para construir uma «nova Síria». O antigo embaixador Robert S. Ford, (hoje em dia assalariado do “think-tank” do AIPAC), que havia organizado as manifestações de 2011, e apoiou até ao fim esta «oposição moderada», oficialmente mudou de posição. Agora, ele pensa que a única oposição real na Síria é composta por jiadistas, que seria extremamente perigoso armar um pouco mais [8]. Retrospectivamente, parecia que a terminologia «oposição moderada» designava, não combatentes civilizados, mas, sim, sírios prontos a trair o seu país aliando-se para tal com Israel. Aliás, eles nem o escondiam [9]. Desde o princípio, esta oposição era de facto dirigida por membros da al-Qaida (como o Líbio Abdelhakim Belhaj, depois o Iraquiano Abou Bakr el-Baghdadi) e dedicava-se às piores atrocidades (aí incluído o canibalismo) [10]. Ora, todos estes líderes são hoje em dia responsáveis no Emirado Islâmico.

Israel parou, a 28 de Janeiro de 2015, (resposta do Hezbolla ao assassinato de vários líderes na Síria), o seu apoio às organizações jiadistas na Síria. Durante três anos e meio Telavive forneceu-lhes armas, cuidou dos seus feridos nos seus hospitais militares, apoiou as suas operações com a sua aviação – pretendendo sempre, em cada uma das ocasiões, estar a lutar contra as transferências de armas para o Hezbolla libanês — e, em última instância, confiava-lhes a segurança da sua fronteira nos Montes Golãs, em detrimento das forças da ONU.

O novo rei da Arábia Saudita, Salman, afastou o príncipe Bandar, a 30 de Janeiro de 2015, e interditou a todos o apoio ao Emirado Islâmico. Assim, o Reino parou de desempenhar um papel na manipulação do terrorismo internacional; uma função que lhe tinha sido confiada pela CIA após a revolução islâmica iraniana de 1979, e que foi durante 35 anos a sua carta mestra.

Identicamente, a Turquia também, desde 6 de Fevereiro, e a demissão do chefe do MIT – os seus serviços secretos — Hakan Fidan, parece ter deixado de apoiar os jiadistas. Além disso, na noite de 21 para 22 de Fevereiro, o exército turco entrou ilegalmente uma trintena de quilómetros na Síria, para remover as cinzas de Suleiman Shah, o avô do fundador do Império Otomano, do relicário que ela detêm nos termos do Tratado de Ancara (1921). Apesar de uma impressionante exibição de força, o exército turco não combateu contra o Emirado Islâmico, o qual controla a zona. Os restos de Suleiman Shah acabaram não sendo repatriados, mas, sim, depositados um pouco mais longe, ainda em território da Síria. Desta maneira, a Turquia mostrava que não tem a intenção de agir contra o Emirado Islâmico, e que ela conserva as suas ambições anti-sírias.

As opções possíveis dos E.U.

Seis opções são, actualmente, discutidas em Washington :

Destruir o Emirado Islâmico, depois destruir a Síria, é o ponto de vista da empresa Raytheon, primeiro produtor mundial de mísseis, defendido pelo seu lobista Stephen Hadley, o antigo conselheiro de segurança nacional de George W. Bush. É fazer a guerra pela guerra, sem levar em conta os interesses nacionais. Este ponto de vista maximalista não é apoiado por nenhum responsável político, é apenas formulado através dos média, para fazer inclinar a balança no sentido da mais ampla guerra possível.

Apoio no Emirado Islâmico para destruir a Síria, sobre o decalque do modelo de alianças concluídas durante a Guerra do Vietname (Vietnã-br). É a opinião do presidente da Comissão Senatorial das Forças Armadas, John McCain, apesar da memória da queda de Saigão, em 1975. É extremamente caro (20 a 30 biliões de dólares por ano durante muitos e longos anos), arriscado e impopular. Assistiríamos, imediatamente, a uma intervenção directa do Irão e da Rússia, e o conflito tomaria uma dimensão mundial. Ninguém, nem mesmo McCain, é capaz de explicar por que é que os Estados Unidos se deveriam lançar numa tal operação, que apenas aproveitaria ao estado de Israel.

Enfraquecer, depois destruir o Emirado Islâmico, coordenando aí bombardeamentos norte-americanos com tropas terrestres aliadas, incluindo grupos da «oposição síria moderada» (que já não existe). Depois, utilizar estes grupos da oposição (?) unicamente para manter a pressão sobre a Síria. Esta é a actual posição contra-terrorista da administração Obama. Está orçada em 4 a 9 biliões de dólares por ano. No entanto, supondo que se criou uma «oposição síria moderada», não se vê como a Força Aérea dos E.U. iria eliminar o Daesh, quando ela se viu incapaz de destruir os Talibãs no Afeganistão, apesar de já levar 13 anos de guerra, sem mencionar os exemplos da Somália ou o actual impasse francês no Mali.

Enfraquecer, e depois destruir o Emirado Islâmico, coordenando para isso bombardeamentos norte-americanos com as únicas forças capazes de vencer no terreno: os exércitos sírio e iraquiano. Esta é a posição mais interessante, porque pode ser apoiada quer pelo Irão como pela Rússia. Colocaria, de novo, os Estados Unidos na posição de liderança mundial, como aquando da «Tempestade no Deserto» contra o Iraque de Saddam Hussein, e ganharia de certeza. No entanto, isso exigiria parar as campanhas de demonização da Síria, do Irão e da Rússia. Esta opção é apoiada pela NSN e corresponde, manifestamente, ao que o governo de Barack Obama desejaria fazer.

A contenção do Emirado Islâmico, depois a sua degradação progressiva até o levar a um tamanho aceitável. Nesta opção, a prioridade seria a de proteger o Iraque, sendo que os combates importantes seriam deslocados para a Síria.

O cerco. Não se trataria, mais, de combater o Emirado Islâmico, mas de o isolar de modo a evitar a sua propagação. As populações sob o seu controlo seriam então abandonadas à sua própria sorte. É a solução mais económica, mas a menos honrosa, defendida por Kenneth Pollack.

Conclusão

Estes elementos facilmente permitem prever o futuro: em poucos meses, talvez até mesmo a partir do final de Março, Washington e Teerão conseguirão alcançar um acordo global. Os Estados Unidos irão renovar o contacto com a Síria, seguidos de perto pelos Estados europeus, incluindo a França. Irá descobrir-se que a al-Assad não é, afinal, nem um ditador nem um torturador. Portanto, a guerra contra a Síria chegará ao seu fim, enquanto as principais forças jihadistas serão eliminadas por uma verdadeira coligação (coalizão-br) internacional. Quando tudo tiver acabado os jihadistas sobreviventes serão enviados pela CIA para o Cáucaso russo ou o Xinjiang chinês.

voltairenet.org

Tradução: Alva




Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. A ultima obra em francês: L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

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[1] Alternative Futures for Syria. Regional Implications and Challenges for the United States, (Ing- « Alternativas Futuras para a Síria. Implicações Regionais e Desafios para os Estados Unidos»- ndT), Andrew M. Liepman, Brian Nichiporuk, Jason Killmeyer, Rand Corporation, October 22, 2014.

[2] “This Is Obama’s Last Foreign Policy Chance” (Ing- « Esta é a última “chance” de Obama na Política Externa»- ndT), Leslie Gelb, The Daily Beast, January 14, 2015.

[3] “Shifting Realities in Syria” (Ing- «Realidades em Mudança na Síria»- ndT), The Editorial Board, The New York Times Sunday Review, 24 janvier 2015.

[4] National Security Strategy (Ing-«Estratégia de Segurança Nacional»- ndT) , White House, February 6, 2015.

[5] Confronting the Islamic State. An Assessment of U.S. Strategic Options (Ing- «Confrontando o Emirado Islâmico. Uma avaliação das Opções Estratégicas dos E.U.A»- ndT), Policy Report by J. Dana Stuster & Bill French, Foreword by Maj. Gen. Paul Eaton, National Security Network, February 10, 2015.

[6] “Joint resolution to authorize the limited use of the United States Armed Forces against the Islamic State of Iraq and the Levant (Proposal)” (Ing- « Resolução Conjunta para autorizar o uso limitado das Forças Armadas dos E.U. contra o Estado Islâmico no Iraque e no Levante-(Proposta)»- ndT), by Barack Obama, Voltaire Network, 11 February 2015.

[7] “Ash Carter Seeks Fresh Eyes on Global Threats” (Ing- «Ash Carter Procura Novas Abordagens para as Ameaças Globais»- ndT), Dion Nissenbaum, Wall Street Journal, February 24, 2015.

[8] “Ex-Ambassador: CIA Wrong On Not Wanting To Arm Syrian Rebels” (Ing-« Ex- Embaixador : CIA Errada por Não Querer Armar os Rebeldes Sírios»- ndT), Akbar Shahid Ahmed, The Huffington Post, October 22, 2014.

[9] « Leader Sees New Syria, Without Iran Ties » (Ing-«Líder Encara uma Nova Síria, Sem Laços com o Irão»- ndT), Jay Solomon et Nourmalas, Wall Street Journal, 2 décembre 2011.

[10] Abbou Sakkar, comandante de uma brigada do Exército sírio livre come o coração e o fígado de um soldado sírio, num registo vídeo que ele difundiu em maio de 2013. A propósito das exacções do Exército sírio livre sobre as quais a imprensa ocidental jamais deu a mínima notícia, ver a conferência da jornalista russa Anastasia Kopova.

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