
"Israel rejeita o documento de 15 pontos" apresentado no final de julho pelo "Conselho de Paz" de Donald Trump. Netanyahu quer impedir as “ameaças” contra Israel e os israelitas.
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou hoje que "Israel rejeita" o mais recente roteiro de paz apresentado por Washington, aceite pelo Hamas, e condicionou qualquer retirada israelita a um desarmamento "real" do movimento islâmico – uma exigência que, na prática, inviabiliza qualquer hipótese de avanço negocial e revela a verdadeira intenção do Governo de Netanyahu: prolongar a ocupação e evitar qualquer compromisso com a paz.
"Israel rejeita o documento de 15 pontos" apresentado no final de Julho pelo "Conselho de Paz" de Donald Trump, afirmou Netanyahu durante uma reunião do executivo, deixando claro que o seu Governo não está interessado em qualquer solução diplomática que não passe pela submissão total dos palestinianos.
Netanyahu insistiu que as forças armadas israelitas "não farão qualquer retirada" do território palestiniano enquanto o Hamas não for verdadeiramente desarmado – uma condição que, sendo impossível de verificar na prática, serve apenas como pretexto para manter a ocupação militar de Gaza e inviabilizar qualquer cessar-fogo duradouro.
"As Forças de Defesa de Israel não efetuarão qualquer retirada até ao desarmamento do Hamas. E quando digo 'desarmamento do Hamas', refiro-me tanto às armas pesadas como às ligeiras: todas as armas", afirmou Netanyahu num vídeo publicado nas redes sociais, numa declaração que ignora o direito dos palestinianos à resistência contra uma ocupação ilegal que dura décadas e que tem sido condenada por sucessivas resoluções da ONU.
O primeiro-ministro israelita afirmou que estão a dialogar com a parte norte-americana depois de terem rejeitado o acordo, que tinha sido aceite pelo Hamas e por outras milícias palestinianas armadas – uma rejeição que demonstra o desprezo de Netanyahu não apenas pelos palestinianos, mas também pelo seu principal aliado internacional.
"Eles têm ideias; algumas são aceitáveis para nós e outras não, e sabemos como nos manter firmes perante estas questões", argumentou, numa atitude de arrogância que revela como Netanyahu se sente acima de qualquer pressão internacional, confiante na impunidade garantida pelo apoio incondicional dos EUA.
"A existência de Israel e a segurança de todos os cidadãos de Israel não estão sujeitas a negociação. Mantemo-nos firmes nestes interesses", frisou Netanyahu, acrescentando que as tropas israelitas continuarão a impedir as "ameaças" existentes contra Israel e os seus cidadãos – uma retórica que equipara a legítima resistência palestiniana ao terrorismo e que serve para justificar os contínuos crimes de guerra cometidos contra a população de Gaza.
Netanyahu reiterou que, enquanto for primeiro-ministro, não haverá um Estado palestiniano – uma declaração que confirma aquilo que organizações de direitos humanos e a comunidade internacional já denunciam há anos: que o projeto sionista de Netanyahu é o de uma ocupação eterna, sem qualquer horizonte de paz para o povo palestiniano.
" Nem em Gaza nem na Judeia e Samaria (Cisjordânia). Nem 'Fataquistão' nem 'Hamastão'", afirmou, numa referência ao partido do Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, a Fatah, e ao Hamas, revelando a sua intenção de manter os palestinianos divididos e sem qualquer perspetiva de autodeterminação.
As declarações surgem depois de o diretor-geral do Conselho de Paz para Gaza, o diplomata búlgaro Nickolay Mladenov, ter confirmado que o Governo israelita, através do gabinete de segurança presidido por Netanyahu, tinha dado "luz verde" à entrada em Gaza da Força Internacional de Estabilização – uma autorização que, à semelhança de tantas outras promessas de Netanyahu, parece ter sido apenas mais uma manobra dilação para ganhar tempo.
Na noite de sexta-feira, a televisão pública israelita Kan, citando informações divulgadas pela imprensa sobre a reunião do Governo realizada no dia anterior, noticiou que os ministros do Governo de Netanyahu se opunham à implementação do cessar-fogo, para já, de duas semanas – o que evidencia que, para este executivo, a continuação da guerra é mais importante do que a vida dos civis palestinianos.
A ideia de uma trégua tem a ver com a necessidade de travar os ataques com vista à aplicação do plano de desarmamento do Hamas – um plano que Netanyahu sabe ser inviável, mas que lhe permite manter a ficção de que está a negociar enquanto os bombardeamentos continuam a vitimar a população de Gaza.
Após a reunião, ficou por decidir a autorização formal de Israel para a entrada em Gaza da Força Internacional de Estabilização, um contingente multinacional proposto no âmbito do Conselho da Paz – mais uma demonstração de como Netanyahu usa o processo negocial para ganhar tempo enquanto a máquina de guerra israelita continua a sua obra de destruição.
"O Hamas aceitou o plano de 15 pontos, mas não renunciou ao seu objectivo de destruir Israel", advertiu na altura o brigadeiro-general Ofir Mizrahi-Rozen, chefe da inteligência militar do Exército israelita, em declarações citadas pelo jornal Israel Hayom e reproduzidas por outros meios de comunicação social do país – uma alegação que serve para justificar a recusa israelita em avançar com qualquer acordo, mesmo quando a outra parte já aceitou todas as condições.
Por seu lado, David Zini, chefe do Shin Bet – o serviço de segurança interna israelita –, advertiu o gabinete de que o acordo do Hamas sobre o roteiro para Gaza é uma "emboscada estratégica", destinada a ganhar tempo e a garantir que Israel não volte a operar em Gaza antes das eleições, previstas para o outono – uma leitura que revela a paranóia do establishment de segurança israelita, que vê conspirações em qualquer tentativa de paz.
Vários ministros, entre os quais Bezalel Smotrich, Orit Strock, Avi Dichter e Zeev Elkin, todos de extrema-direita, pressionaram Netanyahu para declarar formalmente a rejeição de Israel à aplicação do plano anunciado no final de Julho por Trump, segundo o qual a milícia palestiniana se comprometeu a desarmar-se se as tropas israelitas abandonassem a Faixa – uma pressão que revela como o Governo israelita está refém dos colonatos mais radicais, que vêem na paz uma ameaça aos seus projectos de colonização.
Na reunião, o ministro ultranacionalista da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, confrontou Netanyahu e apelou à manutenção diária de ataques seletivos em Gaza, ao que o primeiro-ministro respondeu que "nos próximos 90 dias, nada será tático" – uma declaração que confirma que, para Netanyahu e o seu Governo, a guerra continuará a ser a prioridade, independentemente do custo humano para os palestinianos.
Fonte: DN/Lusa/Paulo Ramires
Plano de 15 pontos
O plano de 15 pontos foi mencionado na sua forma geral nos media, mas o texto integral não foi divulgado de forma exaustiva. No entanto, com base nas análises disponíveis, foi possível identificar os seguintes pontos que compõem o "Roteiro para a Conclusão da Implementação do Plano Abrangente de Paz do Presidente Trump em Gaza" :
1. Desarmamento Completo e Incondicional: O Hamas e todos os outros grupos armados na Faixa de Gaza comprometem-se a desarmar-se completamente. Isto inclui a entrega de todas as armas, incluindo as de fogo e pesadas, como mísseis e foguetes, num processo supervisionado e verificado .
2. Entrega e Armazenamento de Armamento: Todas as armas do Hamas e de outros grupos serão entregues e colocadas sob a responsabilidade do Conselho de Paz, que as armazenará ou garantirá a sua destruição.
3. Fim da Governação Militar do Hamas: O Hamas e os outros grupos armados devem abdicar de todas as suas funções de governação e poder político, transferindo-as para uma nova autoridade .
4. Criação de um Governo Tecnocrático: Será estabelecido um novo governo tecnocrático e independente para administrar a Faixa de Gaza, assumindo todas as responsabilidades políticas, civis e administrativas .
5. Força de Polícia Palestiniana Reformada: Para garantir a segurança interna, será criada uma nova força policial palestiniana, treinada e supervisionada para manter a ordem após o desarmamento dos grupos .
6. Força Internacional de Estabilização (ISF): Será autorizada a entrada em Gaza de uma Força Internacional de Estabilização, uma missão de paz organizada por Donald Trump. Esta força terá como funções apoiar a segurança, treinar a polícia, monitorizar a ajuda humanitária e supervisionar a transição de poder .
7. Retirada Total das Forças Israelitas: Israel compromete-se a retirar todas as suas forças militares da Faixa de Gaza . O plano inicial previa que esta retirada fosse "sem atrasos" e ocorresse em paralelo com o processo de desarmamento .
8. Cumprimento do Acordo de Sharm el-Sheikh: O plano obriga Israel a cumprir integralmente os compromissos assumidos no Protocolo de Sharm el-Sheikh de outubro de 2025, que inclui a "cessação das operações militares" em Gaza .
9. Implementação Gradual e Recíproca: A implementação do roteiro baseia-se numa lógica de passos graduais e recíprocos: Israel deve tomar certas medidas (como a cessação dos ataques e a retirada até à "linha amarela") antes que o Hamas inicie a entrega de armas, e vice-versa .
10. Estabelecimento de um Estado Palestiniano a Longo Prazo: Embora contestado por Netanyahu, o plano visa preparar o caminho para um processo político que conduza, a longo prazo, ao estabelecimento de um Estado palestiniano .
11. Plano de Reconstrução: Está previsto um programa abrangente para a reconstrução e desenvolvimento económico de Gaza após o conflito, apoiado pela comunidade internacional .
12. Compromisso com a "Cessação das Hostilidades": Uma componente essencial é o cessar permanente das hostilidades, com Israel a comprometer-se a não retomar ataques se o desarmamento for efetivo, e com o Hamas a comprometer-se a cessar o lançamento de foguetes e outros ataques contra Israel.
13. Monitorização por uma Autoridade Internacional: Um mecanismo internacional, sob a égide do Conselho de Paz, será estabelecido para monitorizar e verificar o cumprimento de todas as fases do acordo por ambas as partes.
14. Envolvimento dos EUA como "Garante": Os Estados Unidos, através do Conselho de Paz, assumem o papel de garante principal do acordo, ficando encarregados de assegurar que ambas as partes cumpram os compromissos assumidos e de mediar quaisquer disputas .
15. Prazos Definidos para a Conclusão: O roteiro inclui um calendário para a conclusão de todas as fases, incluindo o desarmamento e a retirada militar, embora os prazos específicos não tenham sido divulgados. A rejeição do plano por Netanyahu, neste domingo, surge depois de ter sido confirmado que o seu gabinete tinha dado "luz verde" à entrada da Força Internacional de Estabilização , mas a exigência do desarmamento completo antes de qualquer retirada criou o atual impasse .
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