A FUSÃO DAS GUERRAS: UCRÂNIA, IRÃO E A NOVA ORDEM GLOBAL
O República Digital faz todos os esforços para levar até si os melhores artigos de opinião e análise, se gosta de ler o RD considere contribuir para o RD a fim de continuar o seu trabalho de promover a informação alternativa e independente no RD. Apóie o RD porque ele é a alternativa portuguesa aos média corporativos. - IBAN: PT50 0033 0000 5006 6901 4320 5

quinta-feira, 30 de julho de 2026

A FUSÃO DAS GUERRAS: UCRÂNIA, IRÃO E A NOVA ORDEM GLOBAL

O conflito na Ucrânia e a guerra no Médio Oriente deixaram de ser teatros separados. Estão a fundir-se num único confronto global, onde Rússia, Irão e China se alinham contra um eixo que inclui os Estados Unidos, Israel e a Ucrânia, num cenário que redefine a geopolítica mundial.


O conflito na Ucrânia e a guerra no Médio Oriente deixaram de ser teatros separados. Estão a fundir-se num único confronto global, onde Rússia, Irão e China se alinham contra um eixo que inclui os Estados Unidos, Israel e a Ucrânia, num cenário que redefine a geopolítica mundial.

O Elo Russo-Iraniano: Uma Aliança Forjada pela Guerra

A relação entre Moscovo e Teerão atingiu um nível de cooperação sem precedentes. A guerra na Ucrânia aproximou os dois países, com sanções ocidentais a criarem as condições para uma colaboração estratégica profunda. A Rússia comprou mais de 4 mil milhões de dólares em sistemas de armas ao Irão, principalmente drones kamikaze Shahed, que têm sido usados diariamente contra alvos ucranianos. Em contrapartida, o Irão recebeu treino para pilotos, tecnologia de satélite e, segundo relatos, dados de inteligência para direcionar os seus ataques contra forças americanas e israelitas.

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou ter "evidências irrefutáveis" de que Moscovo está a partilhar informações de inteligência com Teerão, prolongando a guerra no Médio Oriente. "Os regimes na Rússia e no Irão são irmãos no ódio e por isso são irmãos em armas," declarou Zelensky.

Esta simbiose militar é particularmente evidente no domínio dos drones. A Rússia não só comprou centenas de drones iranianos, como estabeleceu a sua própria produção do modelo Shahed e, recentemente, inverteu o fluxo: Moscovo está agora a ajudar Teerão a modernizar os seus drones com lições aprendidas no campo de batalha ucraniano.

O apoio iraniano ao esforço de guerra russo vai muito além dos drones. O Irão forneceu à Rússia mais de 300.000 projéteis de artilharia, um milhão de munições diversas, 400 mísseis balísticos Fateh-110, além de mísseis antitanque e bombas planadoras.

A Resposta Ucraniana: Combater o Eixo no Médio Oriente

Perante esta aliança, a Ucrânia não ficou passiva. Kiev procurou ativamente abrir uma frente indireta contra o eixo russo-iraniano, oferecendo a sua experiência em defesa aérea e guerra com drones aos países do Golfo Pérsico.

Zelensky visitou a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Catar em março de 2026, assinando acordos de cooperação em defesa que incluem o fornecimento de tecnologia de drones interceptores e sistemas de alerta precoce. Os custos dos drones interceptores ucranianos são de apenas 10.000 dólares, uma fração do preço dos mísseis Patriot que os estados do Golfo têm usado para abater drones iranianos.

Com a Ucrânia a ajudar os países do Golfo a defenderem-se contra mísseis e drones iranianos, e a Rússia a fornecer inteligência para esses mesmos ataques, o Médio Oriente tornou-se efetivamente uma nova frente de batalha na guerra Ucrânia-Rússia.

A Posição da China: Equilíbrio Estratégico e Restrição

A China mantém-se como o ator mais enigmático neste tabuleiro. Embora seja parte integrante do eixo que alguns analistas designam como "CRINK" (China, Rússia, Irão, Coreia do Norte), Pequim tem adotado uma postura de equilíbrio calculado.

Beijing fornece 90% dos bens considerados prioritários para o desenvolvimento militar russo, incluindo 70% das máquinas de produção de mísseis balísticos e 90% da microeletrónica necessária para construir mísseis, tanques e aeronaves. A China também é o principal comprador do petróleo iraniano, com um plano de investimento de 400 mil milhões de dólares em infraestruturas ao longo de 25 anos.

No entanto, Pequim recusou-se a oferecer apoio militar direto ao Irão durante os confrontos com Israel e os EUA. A China tem interesses económicos significativos nos estados do Golfo (que condenam as ações iranianas) e relações tecnológicas fortes com Israel. Como observam os especialistas, a China "nunca forneceu garantias de segurança" e prefere "a amizade sem limites" ao estatuto de aliado formal.

O objetivo de Pequim parece ser duplo: consolidar a sua posição económica na região e sobreviver à presidência de Trump sem uma guerra comercial em grande escala. A China apresenta-se como "um parceiro sensato para a paz" enquanto, nos bastidores, apoia silenciosamente o eixo anti-americano.

A Conexão Norte-Coreana: O Quarto Elemento

O eixo alarga-se ainda mais com a Coreia do Norte, que fornece à Rússia munições de artilharia (7 a 12 milhões de projéteis de 152 mm e 122 mm) e mais de 15.000 soldados, com previsão de um aumento para 40-45.000. A Coreia do Norte também forneceu mísseis de curto alcance KN-23 e KN-24, sistemas de lançamento de foguetes múltiplos e mísseis antitanque.

O Papel dos EUA e Israel: Coesão e Contradições

Os Estados Unidos e Israel coordenam a sua campanha contra o Irão, com ataques aéreos conjuntos a instalações nucleares e de mísseis. Israel, em particular, aproveita o momento para enfraquecer o que considera a principal ameaça existencial, contando com o apoio logístico e militar americano.

No entanto, existem tensões na aliança ocidental. Zelensky criticou a decisão de Trump de aliviar as sanções ao petróleo russo, uma medida que, segundo o líder ucraniano, dá à Rússia "uma sensação de impunidade e a capacidade de continuar a guerra". Por outro lado, a Ucrânia ofereceu assistência com drones aos EUA na guerra contra o Irão, mas foi rejeitada por Trump, que argumentou que "sabemos mais sobre drones do que ninguém".

A Ucrânia também se moveu para reforçar os seus próprios laços com os estados do Golfo, tentando reduzir o isolamento e criar novas fontes de apoio.

Implicações: A Ordem Mundial em Transformação

O que estamos a testemunhar é mais do que a convergência de dois conflitos regionais. É o surgimento de um confronto sistémico entre dois modelos de ordem mundial. De um lado, um eixo que desafia a hegemonia ocidental, liderado por uma aliança informal entre Rússia, China, Irão e Coreia do Norte (Multilateral). Do outro, os Estados Unidos, Israel e os seus aliados, tentando preservar a ordem estabelecida (Unilateral).

Segundo analistas, a guerra no Irão representa uma oportunidade para Moscovo e Pequim "minarem os interesses dos EUA, esgotarem o poder americano, obterem informações sobre sistemas militares dos EUA e corroerem a ordem liderada pelos EUA". O cenário ideal para este eixo é um "conflito de baixa intensidade e contínuo que prenda os Estados Unidos e empurre o Irão para uma dependência total" de Moscovo e Pequim.

A fusão destes conflitos não é, portanto, um acaso, mas o resultado de uma estratégia deliberada de atores que procuram reescrever as regras do sistema internacional. As guerras na Ucrânia e no Médio Oriente são agora capítulos de uma mesma narrativa: a luta pela definição da ordem mundial do século XXI.



Várias fontes/Paulo Ramires


Sem comentários :

Enviar um comentário

Apoie o RD

Enter your email address:

Delivered by FeedBurner