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quarta-feira, 13 de setembro de 2023

A ARROGÂNCIA DE WASHINGTON E O SEGUIDISMO DOS EUROPEUS

Eis como se passa do topo à irrelevância. A Europa passa de território da 1ª e 2ª guerras, de berço das ideologias que moldam o nosso presente e futuro, para a irrelevância geoestratégica. Prescindindo de papel independente no mundo, entregando-a aos EUA, a Europa não tem uma estratégia de desenvolvimento, contentando-se com a gestão corrente das várias tendências liberais, made in USA; a Europa prescindiu da sua experiência histórica, deixando dominar-se pelo barbarismo infantil americano; a Europa prescindiu da sua soberania e com ela, da liberdade dos seus povos – cada um deles – para seguirem o seu caminho.

Por Hugo Dionísio


Na que foi talvez uma das reuniões do G20 com menos exposição mediática (o que se percebe), a última reunião deste grupo, em Nova Deli, foi frutuosa em respostas quanto ao conflito Atlântico-Russo, e não só. Perante o assumido falhanço, por parte da – territorialmente estática – “contra-ofensiva”, esta reunião demonstrou que a sobrevivência do poder hegemónico dos EUA, seja sob que forma for, se tornou mais importante que qualquer outra diatribe. O último G20 decretou o final anunciado do conflito Atlântico-Russo. Derrotada que está uma ofensiva planeada, apoiada e programada pela NATO, usando o sangue do povo ucraniano, só falta determinar o dia em que oficialmente tal acontecerá.

Relembro que, na última reunião, em Jacarta, Indonésia, o conflito entre a NATO e a Rússia, combatido na Ucrânia, foi razão suficiente para que os EUA tentassem – e conseguiram – partir o grupo em dois, dividindo-o entre campos opostos. O G7, dentro do G20, comportou-se como um gangue mafioso, praticante de bullying e ávido por discussão e conflitos, o que levou a inúmeras queixas e recriminações, por parte de dirigentes do sul global, quanto à falta de educação e elevação dos líderes ocidentais. O facto é que, no final, apenas ficou uma “declaração de líderes”. Mesmo de forma contida, era possível encontrar os ecos de condenação da “agressão Russa”.

Nesses tempos, a estratégia era clara. Estávamos em tempo de “isolamento da Rússia”, dos idos – e nunca cumpridos – “oil caps” (tectos de preço do petróleo) e da ilusão de uma “vitória rápida” que submetesse a Rússia de Putin. O tema “Ucrânia” era, à data, o único no ocidente dominado pelos EUA. No Sul global, este tema nunca esteve na ordem de prioridades. Nas pessoas do sul global com quem fui falando, a maioria mostrava um tom de perplexidade face à importância que o tema tinha no ocidente e face ao que o ocidente considerava ser a “rejeição internacional” da “agressão russa”. Ao contrário, o que me relatavam era, ou o desconhecimento, ou desinteresse ou mesmo a simpatia com o desafio russo. Com excepção das populações ocidentais e “ocidentalizadas” (onde quer que estejam), todos perceberam o que se passava na Ucrânia, pois tratava-se de um déjà-vu em relação ao que viram acontecer, vastas vezes, na sua própria terra.

A MÁQUINA DA MISTIFICAÇÃO SOCIAL

De lá para cá muito mudou. Enquanto a máquina de mistificação social decretava a vitória inequívoca das forças leais ao regime de Kiev, a Rússia continuou a cilindrar o exército contratado ao angariador de mão-de-obra forçada que é Zelensky, nunca lhe faltando armas nem homens. Ao contrário, ao regime de Kiev começou a faltar de tudo, chegando-se ao ponto de impedir a saída das mulheres do país, para que possam vestir a farda e irem morrer em nome de São Biden. A este respeito, importa falar de um anúncio nas TVs Ucranianas, apelando ao “patriotismo”, mostrando “orgulhosas” mulheres eslavas a equipar-se, pegar em armas e combater, demonstrando que os homens entre os 15 e os 70 anos já não são suficientes.

Entretanto, ao longo de todo o processo, tornou-se evidente que a Rússia não iria cair, isolar-se ou colapsar. Ao contrário, a Rússia demonstrou que um país grande, medianamente desenvolvido e rico em recursos naturais, auto-suficiente do ponto de vista alimentar e com uma base industrial e de competências invejáveis, pode desafiar as sanções do “inferno”. Algo que não está ao alcance de Cuba, da Venezuela ou da Coreia Popular, sendo aqui que se enganaram também os “think tankers”, comentadores e outros vendedores de quimeras ao serviço da hegemonia.

O resultado agravou-se com a expansão dos BRICS, a eleição de Lula da Silva, a viragem da Arábia Saudita e o colapso da África francófona. O facto de terem de ser os bancos americanos e os fundos de pensões dos trabalhadores a comprar os Títulos do Tesouro, também fez tocar as campainhas. Os EUA estão tão cheios da sua própria dívida e a vontade alheia em comprá-la é tão grande ou pequena que, agora, estão a despeja-la na sua privilegiada colónia: a Europa. Em Portugal já existem casos de gerentes bancários oferecerem aos clientes a compra de rentáveis “US Treasury Securities”. Querem tornar o ocidente refém da dívida americana para que seja ainda mais difícil deixar cair o Hégemon. A situação é tal que se tornou normal, nos EUA, divulgar dados mensais do emprego acima das expectativas dos mercados, logo para os corrigir nos dois meses seguintes. Em Junho haviam anunciado a criação de 185.000 empregos, para corrigirem agora em Setembro, para uns escassos 80.000. Os dados económicos, do PIB ao emprego, todos são manipulados e trabalhados de forma a manter tudo contente, mas assente em falsidades.

Não contentes com o desastre das sanções russas, que resultaram num falhanço total, também a guerra dos semicondutores, decretada à China, como instrumento da política de “contenção” do desenvolvimento desse país (como é que tipos que se dizem democratas podem estar de acordo com isto?!!!??) está a resultar num fracasso parecido. É o Bloomberg que vem escrever sobre o assunto e dizer que é a própria China que, ao longo da história, comprova não ser possível monopolizar e esconder o conhecimento. Os imperadores Chineses já o haviam tentado com a pólvora, papel, seda, armas de fogo, porcelana e por aí fora… O resultado é conhecido.

Daí que, só um país infantil e inexperiente, mas ávido por poder, poderia cair em tal armadilha. Visando criar suspeição e insegurança nas “supply chains” (cadeias de distribuição) chinesas, os EUA impediram a venda de chips avançados, das máquinas litográficas que os imprimem e dos componentes necessários para a sua fabricação. Como a história demonstra, até em desfavor dos próprios chineses, eis que o impensável acontece e a China tornou-se capaz de produzir chips de 7 nanómetros, passando a ser possível fazer telemóveis premium só com material nacional. Os 7 nanómetros ainda não a última geração (o novo Iphone já irá incorporar semicondutores de 3 nanómetros), mas todos vemos o que acontecerá. Há dois anos apenas, a China não era capaz de produzir nem os de 14 nanómetros. Em dois anos recuperou de um atraso de várias gerações. Não espantará que, mais um ano e recupere totalmente. Escala, vontade e direcção não lhe faltam.

O facto é que a grande vantagem que os EUA julgavam ter – os semicondutores de última geração –, a qual usavam para criar disrupções nas cadeias de abastecimento de produtos tecnológicos importantíssimos, como computadores, telefones e tudo o resto, está-se a esvair. A importância disto, em termos militares, inteligência artificial e supercomputação, é fundamental. Comparável a isto só quando acordaram para a vida com a URSS armada com bombas nucleares. Assim, a loucura é tanta que foi aberta uma caça às bruxas, pois, segundo a administração Biden, tal só foi possível através do copianço…. Afinal, a tecnologia de fronteira só pode sair das brilhantes cabeças do Vale do Silício, certo? No fundo, dos chineses e indianos do Vale do Silício. Ouvir as bocas da reacção neoliberal e neoconservadora sobre as “cópias” e o “roubo” de propriedade industrial pela China, equivale a acreditar que foram os EUA que inventaram o hambúrguer, a pizza e o cachorro-quente, ou melhor ainda, a roda, o fogo e a alavanca.

Aos poucos, o mundo hegemónico saído do final da guerra fria começou a esboroar-se, e depressa. O G20 demonstra que conter a China e criar uma divisão de águas, obrigando à criação de dois pólos, em que um (o dos EUA) combaterá o outro, passou a ser a grande estratégia. Voltámos ao “dividir para reinar” da guerra fria. Tudo para que, no final, volte a sobrar apenas um, o dos EUA. A ver vamos se assim será! Não me parece que o G20 tenha importância para tanto!

Neste quadro, falhado o “Afeganistão” ucraniano (não são palavras minhas, são dos neocons e neoliberais), há que acertar a táctica. Estrategicamente, Biden disse que isto iria demorar 10 anos. Talvez nunca chegue, mas isso é outra conversa. O facto é que, a declaração conjunta do G20 é bem clara: ao conflito Atlântico-Russo, apenas um parágrafo existe e para dizer um conjunto de generalidades sobre a guerra, territórios, soberania e integridade nacional. O nome “Rússia” não surge uma única vez! E Blinken disse que “a declaração” estava “a contento dos EUA”. Nem Ucrânia como vítima, nem Rússia como agressora, nada!

Quem não deve ter ficado nada agradado com isto deve ter sido o único judeu no mundo que coopera com nazis, o Sr. Z (se calhar a operação “Z” visava…). Na declaração não se fala em armas, não fala em censurar, perseguir ou isolar o povo russo, não se fala em trazer a galiciana Ucrânia ao G20, nada! Esquecimento total, como se não existisse! O tio Sam, perante a necessidade, fez como faz sempre: plantou, regou, colheu, comeu, mastigou e cuspiu! Garantir a “liderança” americana, só porque sim, tornou-se o único objectivo e, nesse plano, tal como ralham os republicanos há tanto tempo, é da China que vem a grande ameaça.

Daí que o G20, de tão importante que foi para os EUA, tão pouco importante foi para os outros (talvez com excepção da Índia)! Se para Rússia e China – sem representações ao mais alto nível – as discussões e declarações sobre multipolaridade, igualdade entre estados, desenvolvimento partilhado, mundo centrado no ser humano, respeito pelas culturas e características de cada um, necessidade de reforma do FMI, Banco Mundial e OMC, soam a vitória… A reunião lateral entre Brasil, Índia, África do Sul e EUA, visando acordar que todos estes quatro elegem o G20 como fórum para resolução de questões de interesse internacional… Tratando-se de três BRICS… Soa a pressão, divisão e canto da sereia, certo? Todos disseram que sim, sabendo desde logo que não caberá ao G20 esse papel, estando tal papel reservado a outros fóruns sem interferência parasitária. Albardar o burro à vontade do dono…. Foi o que fizeram!

FERROVIA LOBITO-CONGO

Facto novo e de enorme relevância: a unanimidade na aceitação da União Africana como membro do G20 é menos consensual do que pode parecer. Dependerá de África! Libertar-se-á, ou não? A África é um continente em disputa e o vencedor será aquela facção que dominar a maior parte. Para já, parece que os EUA ainda podem estar em vantagem, mas não por muito, pois a visão que os povos africanos têm do ocidente – e em especial da Europa – é muito negativa. O próprio momento escolhido, é interessante. Os EUA tencionam lançar a construção de vias de comunicação ferroviária entre Lobito (Angola) e a República Democrática do Congo, numa tentativa de colocar o G7 no mesmo plano que a China, em matéria de investimento em infraestruturas. Ao contrário da China, cujo financiamento sai de bancos públicos de fomento, a ver vamos se o capital privado ocidental (que outro não existe) considera rentáveis este tipo de investimentos, em detrimento do fácil retorno bolsista.

Quem ganha com isto tudo é a Índia (Bahrat, nome tradicional do país cada vez mais assumido por Modi), que se vai afirmando também como potência a ter em conta, governada por quadros de elevadíssimo nível intelectual (não é o caso de Modi, aparentemente), o que nos falta, e muito, na Europa. A Índia consegue fazer um G20 em que todos parecem sair a ganhar. E sem falar da infecção neonazi da Galícia.

Se esta vitória da Índia – e a nomeação de um indiano por Biden para o Banco Mundial – pode ser vista como uma facada na China, retirando-lhe o foco e criando ao seu lado um competidor de peso pela instalação da base industrial mundial, também é verdade que ela representa, em si mesma, uma concessão enorme.

Neste G20, os EUA tiveram de engolir várias coisas: a propaganda dos EUA como fundamentais na liderança global é inexistente; a necessidade de aceitarem uma ideia de multipolaridade; o foco sobre a Índia e não sobre os EUA; a impossibilidade de determinarem toda a agenda (ainda lá vem o slogan “um planeta, uma família, um futuro”); a incapacidade para dividirem o grupo; etc…

Para a Europa este G20 trouxe aos cegos do burgo a possibilidade de, mesmo assim, experimentarem um vislumbre da sua total irrelevância geoestratégica. Sozinha não aparece, e quando aparece é acompanhada dos seus mestres. A UE apenas aparece para pagar os investimentos em ferrovia na África e Médio Oriente. A ver vamos se vão ser feitos… Que esta gente… Não é de confiança!

O facto é que, deste G20, não sai uma única ideia Europeia. Ouvir a empregada doméstica Úrsula a dizer “o mundo está a olhar para nós” … Só pode dar vontade de rir.

Nesta disputa pela libertação do neocolonialismo hegemónico, à Europa vai caber o mesmo papel que coube à América Latina, na guerra fria. O pátio das traseiras do poder hegemónico. Hoje, a própria América Latina lá vai encontrando o seu caminho entre a luz da multipolaridade e as brumas das concessões aos EUA; a Ásia afirma-se como território âncora do crescimento mundial; a África prepara-se para usar a sua reserva humana e mineral para beneficiar com a disputa entre colossos… A Europa paga e não bufa. Não está em disputa, por isso…

Eis como se passa do topo à irrelevância. A Europa passa de território da 1ª e 2ª guerras, de berço das ideologias que moldam o nosso presente e futuro, para a irrelevância geoestratégica. Prescindindo de papel independente no mundo, entregando-a aos EUA, a Europa não tem uma estratégia de desenvolvimento, contentando-se com a gestão corrente das várias tendências liberais, made in USA; a Europa prescindiu da sua experiência histórica, deixando dominar-se pelo barbarismo infantil americano; a Europa prescindiu da sua soberania e com ela, da liberdade dos seus povos – cada um deles – para seguirem o seu caminho.

O BEIJA-MÃO DE MARCELO

Ver o presidente do meu país fazer a triste figura que fez, recentemente, na Ucrânia, aquando da tentativa de entrega da Ordem da Liberdade… Preferindo mentir (a si e a todos nós) a expor o neonazi Zelensky (como poderia ele, de um partido de extrema direita, receber a comenda de Abril, da Liberdade), o qual julgando-se superior (a Marcelo e a nós todos), recusou uma comenda nacional, Marcelo colocou-se de rastos, ao nível mais baixo que um ser rastejante se pode colocar.

Mal ou bem, Marcelo é presidente de um país com mil anos de história, com uma história mundial invejável; Marcelo é um professor catedrático, com milhares de páginas escritas; Marcelo é um político experiente, com uma carreira política invejável. Este mesmo Marcelo, que deveria valorizar-se a si próprio e ao país que representa, optou por branquear um farsante. Presidente de um país cujo súbito orgulho nacional foi implantado artificialmente e à pressão; um país que é governado por um regime saído de um golpe de estado neonazi; uma tal republica das bananas que, no acto de constituição do executivo, em 2014, por ordem de Biden foi buscar ministros que nunca haviam estado na Ucrânia; um país presidido por um farsante que nunca foi político, que a única coisa que havia feito na vida tinha sido ser comediante sem graça de um programa chamado “o servo do povo”, criado pela CIA para mais tarde se transformar no partido que o elegeria, às mãos da campanha eleitoral mais fraudulenta e enviesada da história de qualquer eleição. Deveria ser este farsante quem deveria rastejar perante os pés de Marcelo e não o contrário… Ao invés, e dando razão a quem diz que estamos mesmo no buraco, foi Marcelo quem optou por rastejar. Quando alguém com mérito é obrigado a rastejar perante um charlatão… Está tudo dito sobre a meritocracia “liberal” que a IL defende!

E rastejou tanto que se agachou em relação a quem foi esmagado e tem todas as razões para se sentir amargo e frustrado com este G20. Não tendo eu pena alguma da elite neonazi que domina o regime de Kiev, a verdade é que, se alguém tinha dúvidas, de que viria o tempo em que EUA deixariam cair a Ucrânia para o precipício da história, o G20 deu-nos todas as respostas sobre as prioridades do momento.

Bem sabiam os russos que, apesar dos cães ladrarem muito, a caravana lá ia passando!

A caravana já passou mas aqui ainda há quem ladre!

Fonte:  canalfactual.wordpress.com

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

AFINAL A JUNTA MILITAR DO NIGER É UM INSTRUMENTO DO PENTAGANO. O OBJECTIVO DOS EUA É REMOVER A FRANÇA DE ÁFRICA

O chamado "Movimento Popular Anti-imperialismo" (integrado por progressistas anti-guerra, sindicatos, etc.) foi deliberadamente enganado. A junta militar do CNSP do Níger não está comprometida em combater o neocolonialismo patrocinado pelos EUA na África subsaariana. Muito pelo contrário: a liderança militar do CNSP é (indiretamente) controlada pelo Pentágono.

Por Prof Michel Chossudovsky

Publicado pela primeira vez em 24 de Agosto de 2023, revisto e actualizado em 29 de Agosto de 2023

Introdução

De acordo com relatos, "Um Movimento Popular Anti-imperialista" se desenrolou espontaneamente em toda a África Ocidental francófona em apoio ao Conseil National pour la sauvegarde de la Patrie (CNSP) do Níger, que chegou ao poder em 26 de Julho de 2023 em um golpe de Estado militar contra o governo eleito do presidente Mohamed Bazoum, que é apoiado pelo presidente da França, Emmanuel Macron. Bazoum foi um dos fundadores em 1990 do "Parti Nigerien pour la Democratie et le Socialisme".

As manifestações no Níger de apoiantes do governo do CNSP visaram em grande parte a França que pedia a retirada das tropas francesas.

"Os manifestantes tentaram invadir a embaixada francesa para expressar a sua indignação com as décadas de dominação colonial e neocolonial que o seu país sofreu." (Notícias da Libertação)

Pressionada pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) (liderada pelo presidente da Nigéria, Bola Ahmed Tinubu), bem como pela União Africana e pela ONU, a junta militar do Níger "recusou-se a reinstalar o Presidente deposto" (8 de Agosto de 2023).

"O presidente da Nigéria, Bola Tinubu, (...) que agora preside aos 15 membros da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), tinha ameaçado, poucos dias depois da ascensão ao poder do CNSP, liderar uma intervenção militar para reimpor Bazoum. (Relatório da Agenda Negra, grifo nosso)

Nos últimos acontecimentos, milhares de jovens se reuniram no estádio de Niamey, para se inscreverem como voluntários em defesa de seu país.

As ameaças da CEDEAO contribuíram para "construir uma maior animosidade contra a França e os EUA".

Esse "movimento anti-imperialista" é uma realidade? Ou é falso?

Enquanto a CEDEAO é retratada como uma organização que (não oficialmente) serve os interesses neocoloniais da França e dos EUA, as pessoas em toda a África Ocidental desconhecem o papel do Conseil National pour la Sauvegarde de la Patrie (CNSP) do Níger.

O chamado "Movimento Popular Anti-imperialismo" (integrado por progressistas anti-guerra, sindicatos, etc.) foi deliberadamente enganado. A junta militar do CNSP do Níger não está comprometida em combater o neocolonialismo patrocinado pelos EUA na África subsaariana. Muito pelo contrário: a liderança militar do CNSP é (indiretamente) controlada pelo Pentágono.

Pelo menos cinco membros seniores da Junta Militar do Níger receberam seu treino nos EUA.

O general Abdourahamane Tiani, que liderou o golpe de Estado e que atualmente é chefe da Junta Militar do CNSP, recebeu o seu treino militar na Faculdade de Assuntos de Segurança Internacional (CISA) da Universidade de Defesa Nacional (NDU). A CISA é o "carro-chefe do Departamento de Defesa dos EUA para educação e construção de capacidade de parceiros no combate ao terrorismo, guerra irregular e dissuasão integrada no nível estratégico" (grifo nosso)

O brigadeiro-general Barmou, que atualmente representa a junta militar, realizou seu treinamento militar nos EUA em Fort Moore, Columbus, Geórgia e na Universidade de Defesa Nacional (ND)

O brigadeiro-general Barmou e sua equipe são categorizados pelo The Wall Street Journal como "os mocinhos":

"No centro do golpe do Níger está um dos generais favoritos da América... [General Barmou]". Nas palavras de Victoria Nuland (7 de Agosto de 2023):

"... O general Barmou, ex-coronel Barmou, é alguém que trabalhou muito de perto com as Forças Especiais dos EUA ao longo de muitos e muitos anos."

Tacitamente reconhecidos pelo vice-secretário de Estado dos EUA, Nuland, tanto o general A. Tiani quanto o brigadeiro-general Barmou em termos de seu perfil militar e histórico são "amigos da América".

Esses "mocinhos" – que têm a "bênção NeoCon" de Victoria Nuland – liderariam um verdadeiro movimento popular contra o imperialismo norte-americano? A resposta é óbvia!

O que deve ser entendido é que Paris exerce a sua influência neocolonial dentro da CEDEAO, enquanto Washington controla ambos os lados. ou seja, a CEDEAO, bem como a Junta Militar do CNSP do Níger. Também controla numerosos governos africanos em todo o continente.

Visivelmente, há um embate entre os EUA e a França, mal reconhecido pelos média. O que está desenrolando-se é a criação de divisões políticas dentro da África Ocidental, o que poderia levar a um conflito armado.

A maioria dos analistas não reconheceu que a Junta Militar do CNSP tem uma relação próxima com o Pentágono. O governo Biden se recusou casualmente a descrever a deposição do presidente M. Barmou como um "golpe de Estado" ou uma "mudança de regime".

Lembre-se do Movimento de Protesto de 2013 no Egito, que também foi caracterizado por um movimento de protesto em massa (que foi objeto de manipulação):
  • A média retratou as Forças Armadas egípcias como amplamente "apoiantes" do movimento de protesto, sem abordar a estreita relação entre os líderes por trás do golpe militar e os seus homólogos americanos.
  • Não tenhamos ilusões. Embora existam divisões importantes dentro das Forças Armadas, a cúpula do Egito acaba por receber as suas ordens do Pentágono.
  • O ministro da Defesa, general Abdul Fatah Al-Sisi, que instigou o Golpe de Estado dirigido contra o presidente Morsi, é formado pela Escola Superior de Guerra dos EUA, em Carlisle, Pensilvânia.
  • O general Al Sisi esteve em ligação permanente por telefone com o secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel, desde o início do movimento de protesto. (Michel Chossudovsky, 4 de Julho de 2013)
Objetivo tácito de Washington é "Remover a França da África"

O presidente deposto Mohamed Bazoum tem o apoio do presidente da França, Emmanuel Macron. Bazoum foi removido por uma junta militar que é diretamente apoiada pelo Pentágono.

O objetivo tácito da missão de Victoria Nuland [7 de Agosto de 2023] era, em última instância, "negociar", claro que extraoficialmente o "alinhamento" de Niamey com Washington contra Paris". Este objectivo foi, no essencial, alcançado.

Além disso, "a USAFRICOM tem uma base militar no Níger. Os militares dos EUA têm colaborado rotineiramente com os seus homólogos nigerinos que agora operam sob os auspícios da Junta Militar do CNSP.

Em 2022, Mali e Burkina Faso já tinham "preparado o terreno". Corte de laços com a França

Cronologia dos Golpes Militares. Todos com ligações diretas ou indiretas com o Pentágono

Mali: 24 de Maio de 2021, Coronel Assimi Goita

Guiné Conacri, 5 de Setembro de 2021, Comandante Mamady Doumbouya

Burkina Faso: 30 de Setembro de 2022. Capitão Ibrahim Traoré

Níger: 26 de julho de 2023, General Abdourahamane Tiani

Mali

Apesar da sua retórica anticolonial em grande parte dirigida contra a França, o chefe de Estado (interino) do Mali, coronel Assimi Goita, também é um instrumento fiel do Pentágono. Ele recebeu seu treino militar nos EUA, enquanto também colaborava ativamente com as Forças Especiais do Exército dos EUA ("Boinas Verdes"). Confirmado pelo WP, o coronel Assimi Goita participou de um programa de treino da USAFRICOM conhecido como Flintstock. Ele também estudou na Joint Special Operations University na Base Aérea de MacDill, na Flórida.

Vale lembrar que, no final de Janeiro de 2022, a República do Mali, liderada pelo coronel Assimi Goita – que é um "amigo da América" e um instrumento do Pentágono – já havia preparado o terreno para "Remover a França da África".



O coronel Assimi Goita (imagem acima) emitiu uma diretriz para "acabar com os laços diplomáticos, militares e econômicos com a França". Ele também confirmou o fim da adesão do Mali à CEDEAO.

Ao mesmo tempo, ele anunciou que o francês seria abolido como língua oficial do Mali.

Isso lembra-me o Ruanda sob Paul Kagame, que – a partir do final dos anos 1990 – se tornou um "protetorado dos EUA" de língua inglesa na África Central.

A Junta Militar da Guiné-Conacri, liderada pelo coronel Mamady Doumbouya (que liderou o Golpe de Estado em Setembro de 2021), recebeu o presidente do Ruanda, Paul Kagame (Abril de 2023), em Conacri, afirmando que se inspirou no "modelo ruandês" de Paul Kagame.


Burquina Faso

Ibrahim Traoré

Em Burkina Faso, o capitão Ibrahim Traoré (em cima) chegou ao poder num golpe militar (30 de Setembro de 2022). Após a sua confirmação como chefe da Junta Militar, em 5 de Outubro de 2022, ele ordenou a retirada das forças francesas.



Um padrão semelhante parece estar a desenrolar-se no Níger?

Em desenvolvimentos recentes, a Junta Militar do CNSP solicitou ao embaixador francês Sylvain Itte que deixasse o Níger dentro de 48 horas.

Por sua vez, tanto Mali como Burkina Faso confirmaram o seu compromisso de enviar tropas para o Níger, se necessário. Eles endossaram totalmente a Junta Militar do CNSP do Níger.

O papel de Victoria Nuland

Victoria Nuland, agindo em nome do governo Biden, desempenhou um papel fundamental. Ela esteve em Niamey de 7 a 8 de Agosto de 2023 para reuniões com a Junta Militar, bem como numa "delegação interagências" anterior no ano passado para Burkina Faso, Mali, Mauritânia e Níger. (16 a 23 de Outubro de 2022).

Ironicamente,o golpe militar de Burkina Faso liderado pelo capitão Ibrahim Traoré ocorreu menos de 3 semanas antes da missão de Victoria Nuland no Sahel:
  • "Fomos para a região em força. Estávamos a analisar, em particular, como está a funcionar a estratégia dos EUA para o Sahel. Esta é uma estratégia que implementámos há cerca de um ano para tentar trazer mais coerência aos nossos esforços para apoiar o aumento da segurança, ...
  • No Burkina, no Níger e na Mauritânia, estamos a trabalhar muito de perto com esses militares, com a sua gendarmaria, com as suas forças contraterroristas para os apoiar no seu esforço para repelir e proteger as suas populações deste veneno no Mali". (Victoria Nuland, citada em Rollingstone, Fevereiro de 2023)
Ao povo da África. Em Solidariedade

Numa ironia amarga, o processo de "descolonização francesa" (ou seja, "Paris fora da África") não garante a instauração de formas democráticas de governo. Muito pelo contrário, tende a favorecer o desenvolvimento hegemônico do neocolonialismo norte-americano e a militarização do continente africano, que deve ser combatida com veemência.

Um padrão de militarização dos EUA (juntamente com a imposição de políticas macroeconômicas neoliberais de "tratamento de choque") desenrolou-se em vários países francófonos da África subsaariana.

Fonte: https://www.globalresearch.ca


domingo, 10 de setembro de 2023

HIPOCRISIA DA UE EM RELAÇÃO À COMPRA SECRETA DE GNL COM RETÓRICA ANTI-MOSCOVO NO MEIO

A Global Witness, órgão de vigilância ambiental, revelou que os países da UE compraram 21,6 milhões de metros cúbicos de GNL russo entre janeiro e julho deste ano, um aumento substancial de 40% em comparação com antes da guerra. A Comissão Europeia reconheceu esses números, mas argumentou que eles não fornecem o quadro completo.


A União Europeia está criticando Moscou e, ao mesmo tempo, aumentando suas compras de GNL russo em 40% em comparação com os níveis pré-guerra, beneficiando-se de suprimentos mais acessíveis do que os dos Estados Unidos.

As autoridades da UE preferiram manter os dados de GNL privados, pois revelaram uma verdade incômoda.

A Global Witness, órgão de vigilância ambiental, revelou que os países da UE compraram 21,6 milhões de metros cúbicos de GNL russo entre janeiro e julho deste ano, um aumento substancial de 40% em comparação com antes da guerra. A Comissão Europeia reconheceu esses números, mas argumentou que eles não fornecem o quadro completo.

A partir de fevereiro de 2022, a UE cessou todas as importações de carvão russo, reduziu as importações de petróleo russo em cerca de 90% e cortou as importações totais de gás russo em cerca de dois terços, de acordo com Tim McPhie, porta-voz de energia da UE.

Desde fevereiro de 2022, a UE encerrou todas as importações de carvão russo. Reduziu as importações de petróleo russo em cerca de 90% e reduzimos as importações totais de gás russo em cerca de dois terços.

Tim McPhie, porta-voz da UE para a Energia

Apesar das críticas contínuas à Rússia, a UE continuou sendo o maior cliente de GNL russo de janeiro a julho, e não há indicação de que isso tenha mudado desde então.

A maior parte do GNL russo é entregue à Espanha, Bélgica e França, com outros países da UE como Holanda, Grécia, Portugal, Finlândia, Itália e Suécia também abrindo seus portos para o combustível. Em seguida, é distribuído a outros membros da UE.

Ursula Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, fez uma avaliação sombria da economia russa há um ano, mas nos meses seguintes às suas declarações, a UE pagou à Rússia 5,3 mil milhões de euros pelo gás natural liquefeito.

O setor financeiro da Rússia está em suporte de vida. A indústria russa está em frangalhos

Ursula Von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia

Especialistas argumentam que os líderes da UE estão exibindo dois pesos e duas medidas em relação à Rússia e se fazendo parecer inconsistentes.

Já não ouvimos Ursula von der Leyen dizer que a economia russa está em frangalhos porque (a) economia europeia está em frangalhos E se cortarmos o gás e o petróleo da Rússia, então, aqui na Europa, estaríamos em apuros.

Elijah Magnier, Analista de Política Externa da UE

Alguns apontam que a pobreza está aumentando na UE, sugerindo que o escândalo do GNL é mais uma evidência de que indivíduos influentes com laços estreitos com a indústria de armas estão impulsionando a guerra na Ucrânia.


Fonte: https://geopolitics.co/

sábado, 9 de setembro de 2023

A UCRÂNIA ESTÁ EM SITUAÇÃO MUITO COMPLICADA

“A Europa está com mais problemas económicos do que nós. A Alemanha está em profunda recessão”, disse Myers. "Os europeus não vão suportar mais encargos económicos. Eles precisam de uma rampa de saída."

Um novo ministro da Defesa, uma visita encorajadora do secretário de Estado dos EUA e mais mil milhões de dólares em ajuda alimentaram o optimismo na Ucrânia esta semana. Mas eles terão um impacto na guerra?

Autoridades da Ucrânia e dos EUA dizem que sim. Alguns especialistas não estão convencidos.

IO ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, em um briefing na quarta-feira em Kiev, onde o secretário de Estado Antony Blinken anunciou mais um pacote de ajuda no montante de mil milhões de dólares, disse que todos aqueles que acham que a Ucrânia e os EUA não permanecerão juntos "até à vitória, .receberam hoje um novo sinal de que estão errados."

Blinken foi igualmente positivo, dizendo que o progresso da contra-ofensiva da Ucrânia acelerou nas últimas semanas e que o novo pacote de ajuda "ajudará a sustentá-lo e a criar um maior impulso".

Steven Myers, veterano da Força Aérea, membro do painel consultivo do Departamento de Estado e especialista em Rússia, diz que a "linha partidária" da administração Biden é que a Ucrânia está a vencer e que a Rússia deve ceder ao Ocidente ou tornar-se um "vassalo da China". Myers diz que o novo ministro da Defesa da Ucrânia, Rustem Umerov, um tapinha nas costas de Blinken e o mais recente pacote de ajuda não alterarão dramaticamente a luta da Ucrânia contra o seu vizinho muito maior.

“Não existe uma contra-estratégia eficaz disponível para os ucranianos”, disse Myers. "Os ucranianos estão em sérios apuros."

Myers disse ao USA TODAY que os ucranianos usam "alfinetadas" e notícias sobre a retomada de terras para mostrar  ao Ocidente que há avanços - mas são menos transparentes sobre o custo em termos de vidas ucranianas.

“Eles não falam sobre os contra-ataques dos russos, que não se importam em ganhar ou manter terreno na zona de morte e são especialistas em montar armadilhas”, disse ele.

As incursões ucranianas em território russo geralmente resultam em drones quebrando janelas de arranha-céus em Moscovo. Um ataque com foguete russo na quarta-feira contra a cidade de Kostiantynivka, no leste da Ucrânia, atingiu um mercado no centro da cidade, matando 17 civis horas depois de Blinken ter chegado a Kiev.

ESTRATÉGIA DE SAÍDA PRECISA-SE

A Ucrânia e o Ocidente precisam urgentemente de uma estratégia de saída, disse Myers.

“A Europa está com mais problemas económicos do que nós. A Alemanha está em profunda recessão”, disse Myers. "Os europeus não vão suportar mais encargos económicos. Eles precisam de uma rampa de saída."

Sean McFate, professor da Universidade de Syracuse e membro sénior do grupo de reflexão apartidário Atlantic Council, alinha-se com Myers. Ele apoia a mudança dos ministros da Defesa, dizendo que as alegações de corrupção forçaram a isso. Mas isso não mudará o curso da guerra, disse ele.

McFate diz que os EUA confiaram em tácticas de guerra convencionais no Vietname, no Iraque e no Afeganistão – e perderam.

No entanto, os EUA não mudaram de táctica na Ucrânia, diz ele. A Rússia cometeu os mesmos erros no início na Ucrânia, com a sua malfadada ofensiva contra Kiev, disse McFate ao USA TODAY. Agora, o Kremlin depende de ferramentas de guerra mais modernas, disse ele, como o controlo da informação e das tropas mercenárias.

“As coisas não vão a lugar nenhum para a Ucrânia”, disse McFate. "As guerras já não são vencidas como a Segunda Guerra Mundial, tomando as terras do inimigo, matando as suas tropas e hasteando a sua bandeira sobre a sua capital."


Fonte: USA TODAY

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

A REVOLTA DO TERCEIRO MUNDO VS A GRANDESA DOS EUA

Além disso, com a Ucrânia tão alinhada com o Ocidente – usando tanques da Otan, mercenários da Otan e dinheiro da Otan para processar sua defesa – grande parte do mundo não percebe um valentão empurrando o seu vizinho forte, mas sim um valentão americano usando o seu lacaio ucraniano para projectos de realpolitik contra a Rússia. Esta é uma visão particularmente popular na China, é claro. Mas, a julgar por editoriais e comentários de código aberto, também é amplamente difundido em lugares como África e Índia, onde muitas pessoas veem a Rússia de forma positiva por causa da sua oposição aos Estados Unidos.

Por Christopher Roach

Embora perder uma guerra e dar um golpe no prestígio possa ser um processo doloroso, os interesses do povo americano exigem o desmantelamento do império americano.

Nos meus tempos de debate no ensino médio, as equipas de debate político frequentemente concluíam os seus argumentos com um desfile extremo e um tanto absurdo de horrores. Isso era uma prova da sua inteligência e criatividade, além de estar morto errado trazia poucas consequências. Por meio de cadeias complicadas de lógica, eles argumentaram que alguma pequena mudança na política ambiental ou comercial levaria à guerra nuclear ou ao domínio dos EUA pelo "sul global".

Mesmo assim, tudo isso me pareceu ridículo. Como poderia o Terceiro Mundo, com as suas fomes e golpes periódicos, ameaçar os Estados Unidos? Naquela época, éramos totalmente dominantes sobre o mundo inteiro após o colapso da União Soviética e do Pacto de Varsóvia.

Muita coisa mudou.

O nascimento do movimento dos não-alinhados

Durante a Guerra Fria, as várias nações da periferia atuaram, de certa forma, como juízes dos dois sistemas concorrentes. Enquanto os Estados Unidos e a União Soviética foram acusados de manipular o Terceiro Mundo por razões egoístas, a manipulação foi nos dois sentidos. Sendo tímidos, os líderes do Terceiro Mundo muitas vezes conseguiram espremer benefícios reais, como projetos de infraestrutura, equipamentos militares com desconto e outras formas de ajuda, ficando do lado de um lado ou de outro.

Durante a Guerra Fria, as nações do Terceiro Mundo tiveram receio de serem obrigadas a tomar partido, arriscando conflitos ortogonais aos seus próprios interesses e sacrificando a sua soberania por dependência excessiva de um patrono. É por isso que o movimento não-alinhado ganhou poder, com a Índia em particular na vanguarda, onde se juntou a nações interessadas do Médio Oriente, África e América Latina.

Essas nações, que haviam conquistado soberania apenas muito recentemente dos seus senhores coloniais, eram compreensivelmente sensíveis à sua independência. Eles não queriam trocar uma estrutura colonial formal por uma informal.

Quando a Guerra Fria terminou, os Estados Unidos permaneceram a única superpotência por algum tempo, mas, em vez de alcançar o assentimento mundial, isso alimentou a inveja, o medo e o ressentimento. Não mais capazes de traçar o seu próprio caminho, cada nação tornou-se subordinada em algum nível ao poder americano.

Idealismo agressivo alimenta antiamericanismo

No auge do seu poder militar, a partir da presidência Clinton, os líderes americanos começaram a adoptar um "idealismo" agressivo que se propôs a mudar o caráter, os valores e os costumes de outros países. Intervenções puramente "humanitárias" como Kosovo e Somália tornaram-se comuns.

No Iraque e no Afeganistão, esse idealismo significava feminismo e democracia. No Leste Europeu, significou a promoção dos direitos dos homossexuais e do secularismo, alienando os conservadores e religiosos que um dia idealizaram os Estados Unidos. Na América Latina, o idealismo exigiu o capitalismo e afrouxou as restrições comerciais.

A invocação de "Liberdade" e "Democracia", embora soe nobre e idealista aos nossos ouvidos, começou a soar como uma ameaça às nações que estavam em descompasso com as classes dominantes do Ocidente. A intervenção militar unilateral americana em lugares tão diversos como Panamá, Iraque, Sérvia, Síria e Líbia fez com que as nações à margem desconfiassem de que poderiam ser as próximas.

Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul – os chamados BRICS – não têm muito em comum. Eles têm sistemas econômicos e políticos diversos, línguas distintas, histórias muito diferentes, e membros apareceram em ambos os lados das alianças da Guerra Fria. Mas eles partilham uma orientação comum ao poder americano: a nossas aspirações de manter o status de "única superpotência" ameaçam o seu poder nacional e a sua independência. Percebendo isso como um jogo de soma zero, eles buscam desviar a atenção mundial, a prosperidade e o poder dos Estados Unidos e os seus aliados da Europa Ocidental.

Entre esses concorrentes americanos, China e Rússia destacam-se acima de tudo. Através da sua aliança de facto, eles agora dominam a massa de terra euroasiática. A sua capacidade industrial revelou vantagens significativas numa guerra de desgaste. E, finalmente, com a sua história como antigos inimigos americanos, eles têm uma resistência habitual e forte à interferência americana nos seus destinos.

Embora a conduta da Rússia e da China seja facilmente compreendida, a crescente e diversificada coligação antiamericana, juntamente com a disposição dessas outras nações de aceitar a liderança russa e chinesa, precisa de explicação. O cerne da questão é a soberania. As exigências e desejos americanos actualmente restringem cada uma das nações dos BRICS e as muitas nações menores do Terceiro Mundo, seja em energia, bancos centrais, sanções, comércio ou mesmo políticas domésticas em questões como feminismo e direitos dos gays.

O "mundo multipolar" proposto tem muito ímpeto porque não requer submissão a um determinado modelo chinês ou russo de governança interna. Rússia e China são majoritariamente agnósticas em relação a assuntos internos, ao contrário dos Estados Unidos "idealistas". Em vez disso, a alternativa promove uma distribuição mais orgânica (e potencialmente caótica) de energia do sistema actual.

Finalmente, nem a Rússia nem a China conseguiram deslocar os Estados Unidos. Assim, no máximo, eles podem inaugurar um mundo de "multipolaridade", onde todos os países serão menos restringidos, e países maiores como eles têm, no máximo, força regional.

Guerra na Ucrânia agora existencial para o Império Americano

A actual guerra na Ucrânia está trazendo muitas coisas à tona. Os Estados Unidos e a Europa imaginavam que o resto do mundo veria o conflito como uma jogada de moralidade: um grande e poderoso valentão dominando o seu vizinho inocente e despretensioso. De facto, é assim que a maioria dos líderes e muitas pessoas no Ocidente percebem os acontecimentos.

Mas esta tem sido uma venda difícil no Terceiro Mundo, que é a principal razão pela qual as sanções têm enfrentado resistência. Enquanto a Rússia é maior que a Ucrânia, a Ucrânia é grande em relação às suas províncias separatistas do leste, com quem mantém um conflito desde 2014. Como a maioria das nações em desenvolvimento começou como movimentos anticoloniais de libertação nacional, as tentativas da Ucrânia de reintegrar à força o Oriente não parecem tão diferentes dos tipos de lutas que Brasil e Índia tiveram durante os seus movimentos de independência.

Além disso, com a Ucrânia tão alinhada com o Ocidente – usando tanques da OTAN, mercenários da OTAN e dinheiro da OTAN para processar a sua defesa – grande parte do mundo não percebe um valentão empurrando o seu vizinho forte, mas sim um valentão americano usando o seu lacaio ucraniano para projectos de realpolitik contra a Rússia. Esta é uma visão particularmente popular na China, é claro. Mas, a julgar por editoriais e comentários de código aberto, também é amplamente difundido em lugares como África e Índia, onde muitas pessoas veem a Rússia de forma positiva por causa da sua oposição aos Estados Unidos.

Até agora, o poder americano repousava na verdadeira superioridade americana em economia, poder militar e influência cultural. Os Estados Unidos derrotaram o Iraque na primeira Guerra do Golfo, saíram da Guerra Fria intactos e ricos, e logo passaram a projectar poder com grande habilidade nos primeiros dias das campanhas do Afeganistão e do Iraque. Mas, desde então, partimos do Afeganistão e do Iraque sem uma vitória. Em paralelo, espalhamos o caos na Líbia e na Síria, não conseguindo concluir as operações de mudança de regime nesta última.

A destreza militar americana não é mais indiscutível ou inevitável, minando a reivindicação mais ampla dos EUA como a "única superpotência". Tudo isso era evitável, mas, tendo se estendido demais, a evidência visível do declínio americano agora se confirma. É o que acontece quando uma nação é governada por pessoas desleais, míopes e tolas.

Para dizer o óbvio, perder a guerras nunca é bom para um império. Os impérios otomano e russo dissolveram-se sob as tensões da Primeira Guerra Mundial. Enquanto parte dos aliados vitoriosos, a Segunda Guerra Mundial cimentou o status subordinado da França e do Reino Unido, e os seus impérios desmoronaram após a guerra. Finalmente, e mais recentemente, a União Soviética separou-se após a sua custosa e controversa campanha no Afeganistão.

As tentativas da Rússia de afirmar o poder no seu próximo exterior alimentaram o interesse dos EUA na actual Guerra da Ucrânia. A teoria era que perseguiríamos nossos interesses no barato, evitando desafios à hegemonia americana, com o benefício adicional de que os ucranianos estariam fazendo a morte. Por causa de nossa superioridade militar e econômica, os apoiantes alegaram que a guerra mataria os russos, enfraqueceria os seus militares e desestabilizaria o domínio de Putin no poder.

Os defensores da guerra realmente não consideraram o que aconteceria no caso inverso. E se não fosse a Rússia, mas os Estados Unidos se viram desgastados economicamente, perdendo armas críticas e difíceis de substituir numa guerra de desgaste, demonstrando visivelmente a sua impotência e fraqueza no cenário mundial? As mesmas consequências terríveis pretendidas para a Rússia não aconteceriam agora conosco?

De facto, eles fariam. Felizmente, a segurança americana real não depende da continuação do domínio americano do globo, nem da prosperidade americana. Na verdade, a nossa prosperidade diminuiu à medida que as exigências do complexo industrial militar e do gigantesco Estado social desvalorizam a nossa moeda e empobrecem os contribuintes. Além disso, a nossas aspirações de manter o status da única superpotência nos colocaram em perigo, alimentando o antiamericanismo, ao mesmo tempo em que encorajamos compromissos morais significativos em casa.

Embora perder uma guerra e dar um golpe no prestígio possa ser um processo doloroso, os interesses do povo americano exigem o desmantelamento do império americano. O nosso curso actual corre o risco de manifestar os cenários terríveis e outrora implausíveis populares no circuito de debates do ensino médio. É hora de mudar de rumo.




Christopher Roach é advogado em consultório particular baseado na Flórida. Ele é formado pela Universidade de Chicago e já foi publicado por The Federalist, American Greatness, Takimag, The Journal of Property Rights in Transition, Washington Legal Foundation, Marine Corps Gazette e Orlando Sentinel. As opiniões apresentadas são exclusivamente suas.

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

EUA E UE COMEÇAM A DIVERGIR SOBRE A UCRÂNIA

Os EUA e a Europa estão a dividir-se por causa da Ucrânia

A ala populista do Partido Republicano abandonaria Kiev – e colocaria em perigo a aliança militar mais bem sucedida do mundo.

Por Phillips Payson O'Brien

A Europa e os Estados Unidos estão à beira da mais importante dissociação consciente nas relações internacionais em décadas.

Desde 1949, a NATO tem sido a única constante na segurança mundial. Inicialmente uma aliança entre os Estados Unidos, o Canadá e 10 países da Europa Ocidental, a OTAN venceu a Guerra Fria e desde então expandiu-se para incluir quase toda a Europa. Tem sido o grupo de segurança mais bem sucedido na história global moderna. Mas também poderá entrar em colapso até 2025.

A causa deste colapso seria a profunda diferença de perspectiva entre a ala populista do Partido Republicano – que é liderada por Donald Trump, mas que agora constitui claramente a maioria do Partido Republicano – e as preocupações de segurança existencial de grande parte da Europa.

O catalisador imediato para o colapso seria a guerra na Ucrânia. Quando a facção dominante dentro de um dos dois principais partidos políticos americanos não consegue ver sentido em ajudar um país com mentalidade democrática a combater os invasores russos, isso sugere que o centro do espectro político mudou de uma forma que tornará os EUA um aliado menos confiável da Europa. Esta última deve preparar-se em consonância.

As últimas semanas revelaram que a perspectiva pró-Rússia e anti-OTAN de Trump não é apenas um breve interlúdio na política republicana; a suspeita sobre o envolvimento americano no apoio à Ucrânia é agora o consenso do coração populista do partido.

Durante o debate presidencial do Partido Republicano na semana passada, Ron DeSantis e Vivek Ramaswamy – os dois candidatos mais empenhados em apelar à nova base trumpista do partido – argumentaram contra mais ajuda à Ucrânia.

DeSantis fê-lo suavemente, prometendo condicionar qualquer ajuda adicional a uma maior assistência europeia e dizendo que preferia enviar tropas para a fronteira entre os EUA e o México. Ramaswamy foi mais estridente: descreveu a situação actual como “desastrosa” e apelou à cessação completa e imediata do apoio dos EUA à Ucrânia. Mais tarde, Ramaswamy foi ainda mais longe, dizendo basicamente que a Ucrânia deveria ser dividida; Vladimir Putin ficaria com uma grande parte do país.

Trump não participou no debate, mas anteriormente minimizou o interesse dos EUA numa vitória ucraniana e pareceu favorecer concessões territoriais da Ucrânia à Rússia. Ele, DeSantis e Ramaswamy estão todos a jogar para os mesmos eleitores – que, segundo sugerem as sondagens, representam cerca de três quartos do eleitorado republicano.







Todas as reações
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POR TRÁS DA EXPANSÃO DOS BRICS

Quando os BRICS encorajarem este tipo de acordos comerciais bilaterais, em que os saldos também são resolvidos não através de um aumento da dívida do país deficitário, mas através da compra de mais bens a esse país, terão dado um contributo significativo para melhorar o funcionamento da economia mundial. Seriam então uma verdadeira alternativa à ordem económica mundial dominada pelo imperialismo.

Por Prabhat Patnaik

Na cimeira de Joanesburgo dos países BRICS, foi decidido expandir o grupo para além dos seus cinco iniciais, nomeadamente Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul,
a fim de incluir mais seis países. São eles: Argentina, Egito, Irão, Etiópia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Ao que parece, estes seis novos países foram escolhidos a partir de uma lista de vinte e dois que estavam ansiosos por juntar-se ao grupo BRICS. Além disso, fontes governamentais da África do Sul, a qual preside atualmente os BRICS, revelaram que até 40 países estavam interessados em aderir ao grupo. Surge naturalmente a questão: porque subitamente os BRICS se tornaram tão populares?

Muitos viram os BRICS como uma tentativa de alguns grandes países, excluídos da "mesa alta" dos países imperialistas, de se afirmarem e de desempenharem um papel mais significativo nos assuntos mundiais, um papel de acordo com o que pensam merecer. Mas os BRICS são um grupo muito heterogéneo: A Rússia e a China são, de qualquer modo, membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas com poder de veto, estando um deles atualmente em guerra com os países da "mesa alta" e o outro a ser vilipendiado como o seu "inimigo principal"; por isso, a questão de se sentirem "excluídos" simplesmente não se coloca. E quanto aos restantes membros, os BRICS, enquanto organismo, não desempenhou qualquer papel fundamental em qualquer situação mundial desde a sua formação. Assim, estes membros restantes também não podem ser vistos como meros aspirantes a um papel mais importante nos assuntos mundiais (pois, se o fossem, teriam sido mais pró-activos). Do mesmo modo, a mera aquisição de maior importância não pode ser o motivo que leva tantos países a quererem aderir aos BRICS.

Além disso, o problema desta explicação é que ela ignora a economia política subjacente à atual situação mundial, marcada por uma crise económica do capitalismo mundial, uma crise que até os economistas conservadores e do establishment chamam de "estagnação secular".

Nesta situação de crise, as velhas instituições internacionais parecem singularmente inadequadas, e os países imperialistas parecem absolutamente incapazes de as modificar, ou de as alterar, ou de fazer novas inovações institucionais, a fim de enfrentar a situação. Os BRICS surgem neste contexto como uma inovação prometedora. A popularidade dos BRICS, por outras palavras, é uma manifestação da crise, uma expressão da falta de confiança no arranjo imperial até agora existente, para lidar com a crise. Isto não faz dos BRICS um agrupamento "anti-imperialista": alguns países que o integram são, sem dúvida, anti-imperialistas, mas não se pode dizer que países como o Egipto, a Etiópia, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos se estejam a revoltar contra o imperialismo ao aderirem aos BRICS. Embora não sejam anti-imperialistas, estão a olhar para um arranjo alternativo de promessas que pensam poder dar-lhes um apoio crucial nos tempos que se seguem.

Nos BRICS ampliados agora existente há três tipos distintos de países (que não se excluem mutuamente): países contra os quais o imperialismo impôs "sanções" unilaterais ou medidas protecionistas punitivas; países produtores de petróleo e de gás natural; e países que já estão a passar por dificuldades no meio da atual crise mundial ou que provavelmente as terão nos próximos tempos. A China, a Rússia e o Irão exemplificam a primeira categoria; a Rússia, o Irão, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos exemplificam a segunda; e o Egipto, a Etiópia e a Argentina a terceira (com o Brasil e a Índia preocupados com o desenrolar da crise e interessados em acordos alternativos).

Para os países que estão sujeitos a sanções imperialistas unilaterais que são impostas mesmo sem qualquer autorização do Conselho de Segurança, os BRICS oferecem um arranjo potencial para contornar essas sanções. Nesse sentido, a inclusão do Irão nos BRICS é talvez mais significativa do que qualquer outra medida adotada na Cimeira de Joanesburgo. O Irão não só tem sido sujeito a severas sanções, como foi o primeiro país a ser excluído do acesso às suas próprias reservas de divisas mantidas em bancos metropolitanos, o que constituiu uma clara violação das regras do jogo capitalista concebidas pelos próprios países imperialistas. Desde então, estes atos de "banditismo" internacional tornaram-se bastante comuns, sendo a Rússia a mais recente vítima, na sequência da guerra da Ucrânia: também ela não foi autorizada a aceder às suas próprias reservas cambiais detidas em bancos estrangeiros. A adesão aos BRICS permite a estes países "sancionados" sair da marginalidade em que o imperialismo os quer aprisionar.

Os produtores de petróleo e de gás natural estão a ver os preços dos seus produtos a cair devido à recessão mundial e têm tentado manter esses preços reduzindo a produção em resposta à redução da procura. Isto é contra a vontade explícita dos Estados Unidos. De facto, numa ocasião, os Estados Unidos enviaram vários emissários, incluindo até o próprio Biden, à Arábia Saudita a fim de pedir a este país que se opusesse a um corte na produção na reunião da OPEP+ que se realizaria na altura; mas esta pressão dos Estados Unidos não funcionou. Desde então, houve mais ocasiões em que a OPEP+ anunciou cortes na produção. Para que, no futuro, os produtores de petróleo tenham autonomia suficiente para decidir sobre a produção de petróleo, desafiando a vontade dos Estados Unidos, parece essencial uma diversificação das suas relações, afastando-se da dependência exclusiva dos Estados Unidos, sem se tornarem necessariamente antagónicos em relação a este país. Para eles, a adesão aos BRICS é um meio para essa diversificação.

Para o terceiro grupo de países, ou seja, o Egito, a Argentina e a Etiópia, que têm economias gravemente debilitadas, e o Brasil, a Índia e a África do Sul, cujas economias, embora também debilitadas, estão menos gravemente afetadas, a atração dos BRICS reside noutro ponto, nomeadamente na possibilidade de comércio em moeda local que contorne o dólar. O Brasil e a China celebraram recentemente um acordo de comércio em moeda local, tal como a Índia e os Emirados Árabes Unidos; e é provável que venham a ser celebrados mais acordos deste tipo entre os membros dos BRICS nos próximos dias, o que constitui um grande atrativo para aderir aos BRICS.

Os valores relativos das moedas dos países que celebram tais acordos são fixos e o dólar não é necessário nem como unidade de conta nem como meio de circulação no comércio entre eles. Estes acordos, ao ampliarem efetivamente a disponibilidade do meio circulante entre estes países e ao tornarem essa ampliação o resultado de decisões tomadas pelos próprios países (que podem aumentar a sua oferta de moeda à vontade), facilitam o comércio entre eles, que deixa de estar condicionado por uma eventual escassez de dólares.

No entanto, isto só responde à metade do problema. O que é necessário, além disso, é que a balança comercial entre esses países seja resolvida pelo facto de o país excedentário comprar bens e serviços ao país deficitário, se não imediatamente, pelo menos durante um certo período de tempo. Por outras palavras, o comércio em moeda local aumenta o stock de liquidez na economia mundial, mas não resolve o problema da dívida externa resultante do comércio entre os países que celebram um acordo deste tipo.

Quando os BRICS encorajarem este tipo de acordos comerciais bilaterais, em que os saldos também são resolvidos não através de um aumento da dívida do país deficitário, mas através da compra de mais bens a esse país, terão dado um contributo significativo para melhorar o funcionamento da economia mundial. Seriam então uma verdadeira alternativa à ordem económica mundial dominada pelo imperialismo.

A nova diretora do Banco dos BRICS, Dilma Rousseff, antiga presidente do Brasil, deixou claro que o banco não tem qualquer intenção de conceder empréstimos para a liquidação ou o serviço da dívida, nem ao terceiro mundo em geral nem aos países membros; não reduziria, portanto, a necessidade de o terceiro mundo recorrer ao FMI para esse efeito e de sofrer a "austeridade" por ele imposta. Mas ela está interessada em expandir o comércio em moeda local e também em conceder empréstimos para infraestruturas aos países do terceiro mundo, o que contribuiria de alguma forma para afrouxar o controlo das instituições dominadas pelo imperialismo.

Tem havido muita discussão entre os círculos de esquerda dos países membros sobre o que significa exactamente os BRICS para o imperialismo. Alguns argumentam que, embora sejam anti-imperialistas, não são anti-capitalistas; mas mesmo chamar-lhe anti-imperialista é um exagero grosseiro. Um grupo com líderes como Modi, MBS (da Arábia Saudita) e Sisi (do Egipto) não pode ser chamado de anti-imperialista. O que faz, no entanto, é enfraquecer, pelo menos em certa medida, o domínio monopolista das instituições imperialistas sobre a economia mundial – e isso é certamente um desenvolvimento positivo. Não constitui, por si só, um golpe contra o imperialismo, mas cria um cenário mais favorável para que os trabalhadores de todo o mundo possam desferir um golpe contra o imperialismo.

https://peoplesdemocracy.in/2023/0903_pd/behind-brics-expansion

O APELO DESPERADO DE VICTÓRIA NULAND À COOPERAÇÃO AFRICANA PARA REVERTER O GOLPE POPULAR DE NIGER

Por Anya Parampil

Uma autoridade sul-africana encontrou uma despreparada e "desesperada" Victoria Nuland, implorando por ajuda local para reverter o golpe popular no Níger. A recente conferência dos BRICS pode dar a Nuland ainda mais para se preocupar.

Quando a vice-secretária de Estado interina dos EUA, Victoria Nuland, viajou para a África do Sul em 29 de Julho, a sua reputação como um instrumento contundente dos interesses hegemônicos de Washington a precedeu.

De acordo com uma autoridade sul-africana veterana que participou de reuniões com o diplomata sênior dos EUA em Pretória, no entanto, Nuland e a sua equipa estavam comprovadamente despreparados para lidar com os recentes acontecimentos no continente africano - particularmente o golpe militar que removeu o governo pró-ocidental do Níger horas antes de ela lançar a sua turnê de várias paradas pela região.

"Em mais de 20 anos trabalhando com os americanos, nunca os vi tão desesperados", disse o funcionário ao The Grayzone, falando sob condição de anonimato.

Pretória estava bem ciente da reputação agressiva de Nuland, mas quando chegou a Pretória, o funcionário a descreveu como "totalmente tomada de surpresa" pelos ventos de mudança que envolviam a região. O golpe de Julho que viu uma junta militar popular chegar ao poder no Níger seguiu-se a golpes militares no Mali e no Burkina Faso, igualmente inspirados pelo sentimento anticolonial em massa.

Embora Washington até agora tenha se recusado a caracterizar os acontecimentos na capital nigerina de Niamey, como um golpe, a fonte sul-africana confirmou que Nuland buscou a ajuda da África do Sul para responder a conflitos regionais, incluindo no Níger, onde enfatizou que Washington não apenas realizou investimentos financeiros significativos, mas também manteve 1.000 das suas próprias tropas. Para Nuland, a percepção de que ela estava negociando a partir de uma posição de fraqueza provavelmente foi um despertar rude.

Servindo a ambas as partes e avançando o império, uma mudança de regime de cada vez

Ao longo da última década e meia, Victoria Nuland estabeleceu-se como uma das agentes mais pesadas – e eficazes – das operações de mudança de regime dirigidas pelo Ocidente dentro do Departamento de Estado. Como esposa do estratega arqui-neoconservador, Robert Kagan, que assessorou tanto o candidato presidencial republicano, Mitt Romney, quanto a democrata, Hillary Clinton, Nuland incorporou o consenso intervencionista que prevaleceu em ambos os partidos na era pré-Trump. Na verdade, o seu primeiro cargo de alto nível ficou sob a supervisão do vice-presidente Dick Cheney, quando ele a nomeou para servir como sua vice-chefe de gabinete.

Quando Nuland retornou ao governo como especialista em Rússia no Departamento de Estado do presidente Barack Obama, ela liderou a campanha secreta para desestabilizar a Ucrânia, impulsionando o Golpe de Maidan de 2014 que desencadeou o conflito civil que se seguiu ao país e, finalmente, uma guerra por procuração ocidental com a Rússia que dura até hoje.

"Desde a independência da Ucrânia em 1991, os Estados Unidos têm apoiado os ucranianos à medida que eles constroem habilidades e instituições democráticas", gabou-se Nuland, então secretária de Estado adjunta para Assuntos Europeus, durante uma palestra em dezembro de 2013 perante a Fundação EUA-Ucrânia em Kiev, ladeado por um painel promocional da corporação Chevron.

"Investimos mais de cinco mil milhões de dólares para ajudar a Ucrânia nesses e em outros objetivos", continuou, articulando o apoio de Washington ao que descreveu como "aspirações europeias" da Ucrânia.

Nuland repetiu a revelação sem querer durante uma entrevista de 2014 a Christiane Amanpour, da CNN. Dias antes de seu discurso, ela e o então presidente dos Estados Unidos. O embaixador na Ucrânia, Geoffrey Pyatt, distribuiu "biscoitos de liberdade" aos ucranianos que ocupavam a Praça Maidan, em Kiev, em protesto contra a decisão do presidente Viktor Yanukovych de, nas palavras de Nuland, "fazer uma pausa na rota para a Europa".

Cerca de três meses depois, a prolongada campanha de distúrbios no Maidan desalojou com sucesso o governo de Yanukovych, resultando na instalação de um regime decididamente pró-UE (e abertamente pró-nazista) em Kiev que prontamente ganharia o título de "nação mais corrupta da Europa". Dias antes da saída de Yanukovych, um áudio publicado revelou que Nuland e o embaixador Pyatt estavam selecionando ativamente as figuras da oposição que assumiriam o poder em Kiev no caso do sucesso de Maidan.

"Foda-se a UE", ela infamemente comentou durante o telefonema de 7 de fevereiro de 2014, uma aparente resposta aos líderes europeus que se opunham ao esforço de desestabilização do seu governo na Ucrânia.

Quase uma década após a campanha de Nuland em Kiev, no entanto, a capacidade de Washington de ditar a política soberana dos Estados estrangeiros é cada vez mais limitada - particularmente na África do Sul e na região circundante.

Na África, o sol se põe no mundo unipolar

A emergência de uma nova ordem global esteve em evidência quando chefes de Estado do Brasil, Índia, China e África do Sul se reuniram para a 15ª Cimeira Presidencial anual dos BRICS em Joanesburgo ao longo da semana de 21 de Agosto. Enquanto os média ocidentais destacaram a ausência do presidente russo, Vladimir Putin, na cimeira como evidência de profundas divisões dentro dos BRICS (o ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, participou da cimeira no lugar de Putin), o bloco acabou emitindo uma declaração unânime em 24 de Agosto de que estenderia a adesão plena à Argentina, Egipto, Etiópia, Irão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

"Os BRICS são um grupo diversificado de nações", tuitou o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, que presidiu à cimeira, após anunciar os resultados da histórica Declaração de Joanesburgo 2 dos BRICS diante de uma sala repleta de imprensa internacional. "É uma parceria igualitária de países que têm visões diferentes, mas uma visão partilhada para um mundo melhor."

De fato, os líderes dos BRICS destacaram a importância da função do grupo como uma organização "baseada em consenso", construída sobre a base do multilateralismo e um compromisso com os princípios consagrados na Carta da ONU. Isso contrasta fortemente com alianças como o G20, que, embora ostensivamente comprometido com o intercâmbio multilateral, é visto por Washington e os seus aliados como um fórum através do qual impor sua própria visão de mundo.

A arrogância ocidental foi particularmente palpável quando a Índia assumiu a presidência do G20 em 2023, quando autoridades americanas e europeias travaram uma campanha inútil para pressionar Nova Délhi a excluir a Rússia das reuniões do grupo, apesar do status de membro permanente de Moscovo.

"Não devemos voltar à Guerra Fria"

À margem da cimeira dos BRICS, conversei com o Ministro do Comércio, Indústria e Concorrência da África do Sul, Ebrahim Patel, sobre o propósito dos BRICS.

"Os BRICS querem defender um mundo em que todos se beneficiem, não se trata de tentar entrar numa nova Guerra Fria", comentou Patel.

"A Guerra Fria não foi um bom momento para a humanidade", continuou Patel, que presidiu ao Fórum Empresarial dos BRICS em Joanesburgo, quando questionado se os EUA e a Europa poderiam aceitar o intercâmbio multilateral como algo diferente de um ataque aos interesses hegemônicos ocidentais. "Não devemos voltar a uma Guerra Fria com dois blocos polarizadores, mas precisamos que as vozes do Sul Global estejam lá ajudando a moldar a arquitetura da governança e a maneira como os seres humanos interagem."

Então os BRICS são uma aliança antiocidental?

"Haverá muitos casos de má interpretação, mas defendemos um mundo unido, reconhecendo que países e empresas competirão", explicou Patel. "Isso é saudável, e sustentar essa competição deve ser uma profunda colaboração e cooperação entre as nações."

Questionado sobre o que torna o compromisso dos BRICS com o multilateralismo diferente de blocos como o G20, Patel ofereceu uma janela sobre como os BRICS realmente operam.

"Quando os chefes de Estado se sentam juntos, eles dizem: 'ok, como podemos levar o dial adiante?' A construção de consensos é um processo lento. É um processo desigual. Mas isso significa que as decisões que são tomadas têm um apoio sólido."

Após dois dias de deliberações em Joanesburgo, durante os quais os delegados consideraram os pedidos de adesão de cerca de duas dezenas de nações, os BRICS chegaram ao consenso para admitir seis Estados que expandirão drasticamente a sua participação na economia internacional e no mercado de recursos.

Após a entrada formal dos novos membros no bloco em fevereiro próximo, os BRICS incluirão 6 dos 10 maiores produtores de petróleo do mundo, 50% das reservas mundiais de gás natural e 37% do PIB global ajustado pela paridade do poder de compra (PPC). A participação do G20 no PIB global atualmente é de 30%. Com a adição da Argentina e da Arábia Saudita, os BRICS também contarão com seis nações permanentes do G20 entre o seu próprio bloco de membros.

"É aquele processo lento e demorado de construção de consensos", refletiu o ministro Patel sobre o sucesso dos BRICS. "Mas é mais sólido. Dura mais."

Graças aos BRICS, o notório projecto de Robert Kagan para que os EUA sirvam como uma hegemonia global "benevolente" pode ser ultrapassado pela visão do mundo em desenvolvimento para um século que honre a independência política, a autodeterminação e a soberania territorial de todos os Estados. Será que a geração de funcionários americanos que vem depois de Nuland aceitará o lugar de Washington neste mundo multipolar ou insistirá em ir à luta?

Anya Parampil é uma jornalista baseada em Washington, D.C. Ela produziu e relatou vários documentários, incluindo reportagens in loco da península coreana, Palestina, Venezuela e Honduras.


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