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sexta-feira, 3 de outubro de 2025

QUEM FALHOU NO CASO DOS CAÇAS F35 AMERICANOS NA BASE DAS LAJES?

A passagem de três aviões vendidos pelos Estados Unidos a Israel pela Base das Lajes, nos Açores, sem o conhecimento do Ministério dos Negócios Estrangeiros causou polémica nos últimos dias e levou à chamada dos responsáveis do Governo ao Parlamento, após pedido dos partidos de esquerda. O primeiro-ministro desvaloriza a questão e considera que o mesmo foi apenas um "erro processual".


Por Anabela Góis 

O que é que aconteceu e porquê tanta controvérsia?

O caso foi divulgado na passada segunda-feira pelo El País, que noticiou a escala na Base das Lajes de um conjunto de seis caças furtivos, provenientes de Washington a caminho de Israel.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros começou por desmentir, mas depois - confrontado pelo Expresso que tinha vídeos de três desses aviões na base açoriana - acabou por confirmar a informação, adiantando, no entanto, que não tinha sido informado da situação e que iria, de resto, abrir um processo para apurar responsabilidade pela falha de comunicação.

Mas quem é que falhou? Foi o Ministério da Defesa?

Inicialmente parecia que sim, porque numa primeira nota o gabinete de Paulo Rangel disse que a comunicação sobre os vôos - que não lhe foi transmitida - tinha tido parecer favorável da Autoridade Aeronáutica, que depende do Ministério da Defesa.

Mas mais tarde - já com a polémica instalada -, o ministro esclareceu que a responsabilidade pela falha de informação foi afinal da exclusiva responsabilidade do Ministério dos Negócios Estrangeiros, chamando-lhe “uma falha interna de comunicação”.

Os Estados Unidos não tinham de informar Portugal da passagem dos aviões?

De acordo com Paulo Rangel, aí não houve falhas. Há uma autorização para os vôos dos Estados Unidos, através da Base das Lajes, que é regulada através de um acordo entre os dois países.

Na prática, os norte-americanos "fazem uma comunicação e, num prazo que é até muito curto, se não houver resposta, é considerado que a autorização está dada".

Quando se trata de vendas a Israel, a ordem é para que o Ministro dos Negócios Estrangeiros seja informado, o que não aconteceu neste caso.

Paulo Rangel assume que só soube o que se passou depois das perguntas dos jornalistas.

E se tivesse sido devidamente informado, o que é que aconteceria?

O ministro não diz o que faria. Paulo Rangel limitou-se a dizer que, se fosse material português seria travado.

Sendo estrangeiro, queria que fosse sinalizado, mas como não foi, diz que não pode avaliar "à posteriori" qual teria sido a decisão, ou seja, se Portugal se oporia ou não à escala dos F-35 nas Lajes.

E a oposição pede explicações?

Os partidos PS, PCP e Bloco de Esquerda querem ouvir os ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa no Parlamento, mas os bloquistas vão mais longe e pedem a demissão de Nuno Melo.

Argumentam que o ministro autorizou a passagem de aeronaves e material de guerra à revelia do ministro dos Negócios Estrangeiros, mostrando lealdade aos interesses de Israel e não ao Governo português.

O que diz o primeiro-ministro sobre este imbróglio?

O primeiro-ministro desvaloriza a situação, que reduz a um lamentável erro processual no Ministério dos Negócios Estrangeiros e diz que não é caso para demissões de ministros.

Luis Montenegro considera que foi uma decisão normal e não percebe as reações radicalizadas da oposição que atribui ao período de campanha eleitoral.



Fonte RR








DEPOIS DA NOVA ZELÂNDIA E DO JAPÃO, A CHINA ESTÁ A ENVIAR NAVIOS DE GUERRA PARA AS CARAÍBAS. QUER PROTEGER A VENEZUELA?

A China “exorta os Estados Unidos a não comprometerem a segurança da navegação, a liberdade e os interesses da Venezuela de acordo com o direito internacional.


Por Al-Manar

Pela primeira vez na história recente, a China decidiu enviar uma frota militar para proteger directamente a Venezuela contra uma ofensiva anunciada pelos Estados Unidos, revelou o site Capital da Economia. De acordo com este último, este acontecimento marca um confronto frontal entre duas superpotências mundiais e pode muito bem abrir caminho a uma nova Guerra Fria.

O site recorda que Pequim, que já investiu mais de 70 mil milhões de dólares no país, pretende defender o seu aliado estratégico, os seus interesses energéticos e, acima de tudo, a sua imagem como uma nova potência global capaz de desafiar os Estados Unidos mesmo na sua zona directa de influência.

Este conflito não é uma crise como qualquer outra. O que está em jogo hoje na Venezuela ultrapassa as fronteiras da América Latina. Trata-se de um cabo de guerra global entre Washington e Pequim que pode remodelar a geopolítica do século XXI.

Implantação americana e o pretexto da luta contra as drogas

A China criticou a implantação, por parte de Washington, dos destróieres da Marinha USS Gravely, USS Jason Dunham e USS Sampson perto da costa da Venezuela no final de Agosto.

Sublinhando que tal “prejudica seriamente” a paz regional, Pequim advertiu Washington para não interferir nos assuntos internos deste país latino-americano.

Expressando dúvidas sobre as alegações americanas para justificar este destacamento, o porta-voz do seu Ministério de Estado acusou os Estados Unidos de, sob o “pretexto da luta contra a droga”, terem implantado forças militares perto da Venezuela, afundado navios e detido barcos de pesca venezuelanos, o que “causou tensões na região”.

A China “exorta os Estados Unidos a não comprometerem a segurança da navegação, a liberdade e os interesses da Venezuela de acordo com o direito internacional, de modo a estabilizar a paz e a segurança”, acrescentou.

Desde o governo de Hugo Chávez, a Venezuela forjou laços militares estreitos com Pequim. Foi um dos primeiros países da ALC a comprar equipamento militar chinês. Os seus militares foram treinados na China e participaram em exercícios militares chineses. Actualmente, a China é o principal fornecedor de armas a Caracas, de acordo com a Direcção-Geral das Relações Internacionais e da Estratégia do Ministério das Forças Armadas de França.

Segundo o Capital de l’Économie, uma questão crucial domina todos os debates: os Estados Unidos atrever-se-ão a confrontar directamente a China no seu próprio “quintal” estratégico? Ou conseguirá Pequim impor um mundo multipolar, protegendo Caracas das ameaças americanas?

Nos últimos anos, a República Popular da China (RPC) reforçou significativamente a sua presença na América Latina e nas Caraíbas (ALC).

Tem concentrado os seus esforços em determinados sectores estratégicos de importância económica e geopolítica. Essa presença crescente na ALC é impulsionada pela busca de recursos naturais, pelo desejo de expandir a sua influência económica e pela intenção de contrabalançar a dos Estados Unidos na região, dado que alguns países latino-americanos procuram usar essa rivalidade em seu benefício.

Navios entre a Austrália e a Nova Zelândia

Em Fevereiro passado, três navios chineses cruzaram o Mar da Tasmânia, que separa a Austrália da Nova Zelândia. “Nunca vimos navios com esta capacidade tão perto das nossas costas – navios equipados para combate aéreo, terrestre e marítimo”, escreveram oficiais militares da Nova Zelândia, segundo a AFP.

Entre essa frota encontrava-se um destróier da classe Renhai, um dos navios de guerra mais avançados do mundo e o “caça de superfície mais capaz” de Pequim, de acordo com a mesma fonte.

Navios chineses entre duas ilhas japonesas

Em Setembro passado, um porta-aviões chinês e dois navios de guerra navegaram entre duas ilhas japonesas, perto de Taiwan.

Segundo o Ministério da Defesa japonês, “é a primeira vez que foi confirmado que um porta-aviões pertencente à Marinha chinesa navegou nas águas entre Yonaguni e Iriomote [ilhas]”.

O Japão relatou, no início deste mês, a violação do seu espaço aéreo por aeronaves militares chinesas, bem como movimentos de navios de guerra chineses e outras embarcações.

Construção naval chinesa: 200 vezes maior que a dos EUA

A BBC observa que, nas últimas duas décadas, a China intensificou o investimento na construção naval, relatando que mais de 60% das encomendas globais deste ano foram feitas a estaleiros chineses.

Segundo a emissora britânica, a China constrói mais navios do que qualquer outro país porque consegue fazê-lo mais rapidamente do que qualquer outro.

“A capacidade de construção naval da China é cerca de 200 vezes maior do que a dos Estados Unidos”, afirma Nick Childs, especialista marítimo do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, sediado em Londres.

Este avanço considerável aplica-se igualmente à sua marinha. A China possui agora a maior marinha do mundo, com 234 navios de guerra em serviço, contra 219 da Marinha dos EUA.

Fonte: Al-Manar

Tradução RD

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

COMO O MUNDO ESTÁ A RESPONDER À INTERCEPÇÃO DA FLOTILHA DE GAZA POR ISRAEL

Sindicatos italianos convocam greve geral enquanto protestos globais crescem em vários países incluindo Portugal e vários governos criticam Israel.

Por Erin Hale , Faisal Ali e agências de notícias

Israel interceptou a Flotilha Global Sumud (GSF) enquanto esta se dirigia para Gaza, o que gerou críticas rápidas de líderes globais, enquanto manifestantes se reuniam em cidades ao redor do mundo, incluindo Istambul, Atenas, Buenos Aires, Roma, Berlim e Madrid, para condenar o ataque.

Pelo menos 44 países estavam representados na flotilha de 500 pessoas, incluindo Estados Unidos, Reino Unido, Bélgica, Espanha, Malásia, Turquia e Colômbia.

As reacções dos líderes mundiais variaram entre condenações directas e apelos para que Israel forneça aos seus cidadãos detidos acesso a serviços consulares.

Palestina

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Palestina afirmou que «condena o ataque e a agressão de Israel contra a Flotilha Global Sumud» numa publicação na rede X. «A Flotilha Global Sumud tem o direito de livre passagem em águas internacionais, e Israel não deve interferir na sua liberdade de navegação, há muito reconhecida pelo direito internacional», acrescentou.

Turquia

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Turquia classificou a intervenção de Israel como «um acto de terrorismo» que violou o direito internacional e colocou em risco a vida de civis inocentes.

O ministério declarou ainda que as acções de Israel demonstraram que «as políticas fascistas e militaristas adoptadas pelo governo genocida de Netanyahu — que condenou Gaza à fome — não se limitam aos palestinianos».

Mais tarde, o presidente Recep Tayyip Erdoğan afirmou que Israel estava envolvido em «banditismo» por ter como alvo a flotilha, acrescentando: «A Türkiye apoia todos os passageiros esperançosos a bordo da flotilha. Estamos a tomar medidas para proteger os activistas e os nossos cidadãos a bordo da flotilha.»

Malásia

O primeiro-ministro Anwar Ibrahim pediu a libertação imediata dos cidadãos malaios. Numa declaração publicada na rede X, afirmou que tomaria «todas as medidas legais e fundamentadas para responsabilizar Israel».

Israel não só desconsiderou «os direitos básicos do povo palestiniano, mas também pisoteou a consciência da comunidade global», disse.

África do Sul

O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, apelou à libertação imediata dos participantes da flotilha e confirmou que entre os detidos se encontra o neto de Nelson Mandela, Nkosi Zwelivelile «Mandla» Mandela.

A declaração acrescentou: «A África do Sul apela a Israel para garantir que a carga vital transportada por esta flotilha chegue ao povo de Gaza, pois a flotilha representa solidariedade com Gaza, não confronto com Israel.»

Colômbia

O presidente Gustavo Petro anunciou na rede X que o seu governo estava a expulsar diplomatas israelitas e a cancelar o acordo de comércio livre da Colômbia em consequência das acções de Israel.

Acrescentou que a Colômbia «deve procurar todas as medidas adequadas, inclusive através dos tribunais israelitas», para garantir o regresso dos seus cidadãos.


Pessoas protestam para condenar a interceptação de navios da GSF, em frente à embaixada
dos EUA em Ancara, Turquia, 1 de Outubro de 2025 [Efekan Akyuz/Reuters]


O ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Antonio Tajani, disse à imprensa local que Israel lhe garantiu que não haveria «acções violentas» contra a flotilha.

Sindicatos italianos convocaram separadamente uma greve geral para sexta-feira, a fim de demonstrar solidariedade com a GSF e Gaza, após uma greve em Setembro da Unione Sindacale di Base e outros protestos em portos italianos.

A primeira-ministra do país, Giorgia Meloni, afirmou que o seu governo «fará tudo o que estiver ao seu alcance para garantir que essas pessoas possam regressar a Itália o mais depressa possível», mas criticou a flotilha e os protestos subsequentes organizados pelo maior sindicato italiano em solidariedade com os activistas, declarando que não trazem qualquer benefício ao povo palestiniano.

Reino Unido

O governo britânico declarou estar «muito preocupado» com a intercepção da flotilha por Israel e acrescentou que está em «contacto com as famílias de vários cidadãos britânicos envolvidos».

«A ajuda transportada pela flotilha deve ser entregue às organizações humanitárias no terreno para ser distribuída em segurança em Gaza.»

Alemanha

O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros apelou a Israel para «cumprir as suas obrigações ao abrigo do direito internacional e agir com proporcionalidade». Berlim acrescentou: «Também pedimos que seja garantida a protecção de todos os que se encontram a bordo; até onde sabemos, isso já foi assegurado.»

Espanha

Madrid divulgou um comunicado na quarta-feira exigindo que «a integridade física e os direitos dos cidadãos espanhóis sejam respeitados» e informou que as suas equipas consulares estavam a acompanhar a situação a partir de Nicósia e Jerusalém. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, declarou a jornalistas, à margem da Cimeira da União Europeia, que o seu governo estava a estender protecção diplomática a todos os cidadãos espanhóis a bordo da flotilha.

Grécia

A Grécia emitiu uma declaração conjunta com a Itália no início da semana, pedindo a Israel que «garanta a segurança dos participantes e permita todas as medidas de protecção consular».

Irlanda

O presidente irlandês, Michael D. Higgins, afirmou que Israel estava a impedir que ajuda essencial chegasse a Gaza. «A segurança e a protecção dos envolvidos neste exercício humanitário são uma preocupação para todos nós e para todas as nações de onde essas pessoas provêm», declarou num comunicado.

Paquistão

O primeiro-ministro Shehbaz Sharif condenou o que classificou de «ataque cobarde» das forças israelitas contra a flotilha, afirmando rezar pela libertação em segurança dos detidos. Sharif declarou: «Esta barbárie precisa de terminar. A paz precisa de uma oportunidade e a ajuda humanitária precisa de chegar a quem dela necessita.»

Bélgica

O ministro dos Negócios Estrangeiros belga, Maxime Prévot, pediu ao governo israelita que respeitasse o direito internacional, numa declaração publicada na rede X. Sublinhou que a sua prioridade principal era garantir que «os direitos dos nossos compatriotas fossem respeitados, que a sua segurança fosse assegurada e que pudessem regressar a casa o mais rapidamente possível».

França

O Ministério da Europa e dos Negócios Estrangeiros pediu a Israel que concedesse aos cidadãos franceses que participam na flotilha acesso a serviços consulares e que «lhes fosse permitido regressar a França sem atrasos indevidos».

O partido França Insubmissa, que contou com a participação de quase meia dúzia de deputados, acusou Israel de ter praticado um acto de «pirataria contra a Flotilha Global Sumud». Jean-Luc Mélenchon, líder do partido, chamou o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot, de «tolo incompetente», acusando-o de se alinhar com Netanyahu. «Ele envergonha o nosso país», escreveu na rede X.

Estados Unidos

No início da semana, vinte legisladores democratas pediram à Casa Branca que tomasse medidas para proteger a flotilha.

O Conselho de Relações Americano-Islâmicas (CAIR), o maior grupo de defesa dos muçulmanos nos EUA, afirmou que a acção de Israel contra a flotilha demonstra que o país «sequestraria activistas humanitários e se envolveria em pirataria em águas internacionais».

O vice-director executivo da organização, Edward Ahmed Mitchell, declarou: «Toda a nação que respeita o direito internacional deve condenar este ataque ilegal à Flotilha Global Sumud e tomar as suas próprias medidas para quebrar à força o cerco a Gaza.»


Fonte: Al Jazeera

Tradução RD















DEPUTADA, ATRIZ E ATIVISTA PORTUGUESA ENTRE AS DEZENAS DE DETIDAS ENQUANTO ISRAEL IMPEDE A FLOTILHA HUMANITÁRIA

Deputada Mariana Mortágua, a actriz Sofia Aparício e o activista Miguel Duarte estão entre os detidos pela marinha israelita, após a intercepção de 13 embarcações em águas internacionais.


A maior flotilha humanitária a ser enviada para levar ajuda a Gaza terminou ontem à noite da mesma forma que todas as outras: o exército israelita interrompeu a iniciativa, prendeu todos os envolvidos e agora está a conduzir «procedimentos de deportação».

Entre os detidos estão pelo menos três portugueses: a deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua, a actriz Sofia Aparício e o activista Miguel Duarte.

As autoridades portuguesas pediram que os cidadãos do país sejam tratados «com dignidade e sem violência» – e parece ser isso que está a acontecer.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel anunciou hoje que alguns dos activistas da flotilha serão transferidos para território israelita, antes dos procedimentos de deportação para a Europa.

De acordo com uma declaração da diplomacia israelita divulgada nas redes sociais, os cidadãos de vários países estão todos «seguros e com boa saúde».

Pelo menos 13 embarcações da flotilha foram interceptadas ontem à noite – uma delas teria sido abalroada em águas internacionais, de acordo com a organização da flotilha, Sumud Global.

Israel disse, como em flotilhas frustradas no passado, que antes da deportação os activistas assistiriam ao filme do massacre de cidadãos israelitas pelo Hamas, que deu início ao conflito actual.

Em Copenhaga, para uma reunião informal de líderes da UE, o primeiro-ministro Luís Montenegro disse: «A nossa expectativa é que tudo ocorra normalmente e que o regresso desses cidadãos portugueses também possa ocorrer sem incidentes».

O governo está «em contacto com as autoridades israelitas com vista à salvaguarda da situação destes portugueses», como «é da responsabilidade» de todos os cidadãos nacionais, «sendo certo que não pode ser ignorada a circunstância de uma destas pessoas ser, aliás, membro de um órgão de soberania».

Luís Montenegro referia-se aqui ao único deputado do Bloco de Esquerda que esteve ausente da política nacional durante semanas devido a esta iniciativa. Disse ainda que, para ele, a mensagem que a flotilha pretendia transmitir já tinha sido transmitida.

Material de origem: LUSA

O PLANO DE PAZ DE DONALD TRUMP PARA GAZA É NATIMORTO

Dou-lhe já a conclusão: os sionistas, e não apenas o primeiro-ministro israelita Netanyahu, rejeitam totalmente uma solução de dois Estados. Como resultado, o plano de paz de Donald Trump para Gaza está encerrado logo à partida. Natimorto.


Por Larry C. Johnson

O presidente Trump, durante uma conferência de imprensa na Casa Branca com Benjamin Netanyahu, revelou uma proposta detalhada para pôr fim à guerra Israel-Hamas em Gaza, que decorre desde Outubro de 2023 e deixou mais de 66.000 palestinianos mortos e destruição generalizada. O plano, oficialmente intitulado Plano Abrangente do Presidente Donald J. Trump para Acabar com o Conflito de Gaza, está estruturado como uma plataforma de 20 pontos (embora alguns relatórios lhe chamem de 21 pontos, possivelmente incluindo um preâmbulo introdutório). Enfatiza um cessar-fogo imediato, a libertação de reféns, o desarmamento do Hamas e a sua exclusão do governo de Gaza, supervisão internacional, reconstrução maciça e um caminho vago para a autodeterminação palestiniana. Netanyahu endossou o plano, declarando que este alcançou os objectivos de guerra de Israel, enquanto Trump advertiu que o Hamas deve aceitá-lo ou enfrentar a destruição total com o apoio dos EUA a Israel. O Hamas disse que não recebeu a proposta por escrito, mas que a estudaria de boa fé.

O plano baseia-se em elementos de ideias anteriores dos EUA (por exemplo, a estrutura dos Acordos de Abraão de Trump em 2020 e uma proposta franco-saudita) e em contribuições de figuras como o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, que participou nos conceitos de governação do pós-guerra. Foi apresentado pela primeira vez num rascunho de 21 pontos a líderes árabes e muçulmanos na Assembleia Geral das Nações Unidas em 24 de Setembro de 2025, recebendo apoio condicional de países como Egipto, Jordânia, Arábia Saudita e Catar, que saudaram os esforços para pôr termo à guerra, mas insistiram em que não haja deslocamento de habitantes de Gaza, a retirada total de Israel e uma solução de dois Estados. O presidente turco, Erdogan, elogiou os "esforços e liderança" de Trump para um cessar-fogo, enquanto a Autoridade Palestiniana expressou confiança na sua capacidade de encontrar um caminho para a paz.

Os críticos, incluindo a Jihad Islâmica Palestiniana, chamaram-lhe uma "receita para fazer explodir a região", argumentando que marginaliza os palestinianos e permite que estes sejam controlados pela segurança israelita. O plano evita o deslocamento forçado, mas permite partidas voluntárias, em contraste com a controversa ideia de Trump, de Fevereiro de 2025, de um redesenvolvimento liderado pelos EUA numa "Riviera do Médio Oriente" com um reassentamento maciço de habitantes de Gaza (um plano que gerou reacção e foi mais tarde suavizado). A maior pista de que este plano não passa de um engodo é a presença do genro de Trump, Jared Kushner, durante o anúncio. O sonho de Jared de construir resorts nas praias de Gaza permanece intacto.

Aqui estão os chamados destaques da proposta de Trump:

Cessar-fogo imediato e libertação de reféns – A guerra termina imediatamente após a sua aceitação mútua – Todas as operações militares cessam; congelamento das linhas de batalha – Libertação de cerca de 20 reféns vivos e corpos de 25 ou mais mortos dentro de 48 a 72 horas – Israel liberta milhares de prisioneiros palestinianos em troca – As hostilidades são interrompidas durante as negociações.

Desarmamento e amnistia do Hamas – O Hamas deve desarmar-se completamente, renunciar ao governo e dissolver-se como entidade militar – Amnistia para membros que se comprometam com a "coexistência pacífica" e o desmantelamento das armas; podem permanecer em Gaza – Passagem segura para aqueles que desejem partir para países anfitriões (sem deportação forçada) – Gaza torna-se uma "zona desradicalizada e livre de terrorismo" que não representa ameaça para os vizinhos.

Retirada e segurança israelita – Retirada gradual de Israel de toda a Gaza – Israel mantém um "perímetro de segurança/zona tampão" até que Gaza seja considerada segura contra ameaças terroristas (critérios indefinidos, potencialmente permanentes) – Implantação de uma Força Internacional de Estabilização (ISF), presumivelmente de estados árabes/muçulmanos (por exemplo, Egipto, Emirados Árabes Unidos), sob supervisão da ONU para transferência de segurança.

Governação e supervisão – Um comité palestiniano temporário tecnocrático e apolítico (palestinianos qualificados + peritos internacionais) gere os serviços do dia-a-dia (por exemplo, municípios, serviços públicos) – Supervisionado por um novo "Conselho de Paz", presidido por Trump, com membros incluindo Tony Blair e outros chefes de Estado – O Conselho supervisiona a estrutura e o financiamento até que a Autoridade Palestiniana (AP) conclua as reformas (em linha com o plano Trump de 2020 e a proposta saudita-francesa) e recupere o controlo – Nenhuma ocupação israelita ou anexação de Gaza ou da Cisjordânia.

Ajuda humanitária e reconstrução – Fluxo imediato e irrestrito de ajuda de acordo com o acordo de 19 de Janeiro de 2025: alimentos, água, suprimentos médicos, reabilitação de infraestruturas (água, electricidade, esgotos), hospitais, padarias, remoção de escombros – A passagem de Rafah é aberta em ambos os sentidos de acordo com mecanismos anteriores – "Plano de Desenvolvimento Trump": reconstruir Gaza para benefício dos residentes numa área próspera (por exemplo, centros económicos, sem detalhes sobre a visão da "Riviera") – Financiamento através de parceiros internacionais; ênfase na desradicalização e mudança de mentalidade através do diálogo inter-religioso.

Horizonte político de longo prazo – Diálogo liderado pelos EUA entre Israel e palestinianos para "coexistência pacífica" – O caminho para a autodeterminação/Estado palestiniano como uma "aspiração", subordinado às reformas da Autoridade Palestiniana, redesenvolvimento de Gaza e segurança – Promoção da "tolerância" através de mudanças narrativas; Gaza integrada na Cisjordânia como um estado potencial ao abrigo do direito internacional.

Trump aparentemente ignorou o discurso de Netanyahu na 80.ª Assembleia Geral das Nações Unidas em 26 de Setembro de 2025. O discurso foi provocador, concentrando-se nas acções militares de Israel em Gaza, acusações de genocídio contra Israel e ameaças regionais do Irão e do Hezbollah.

Quanto à solução de dois Estados – especificamente, a criação de um Estado palestiniano soberano – Netanyahu rejeitou-a explicitamente, descrevendo-a como uma concessão perigosa que permitiria novos ataques a Israel. Argumentou que tal estado inevitavelmente se tornaria um "estado terrorista" controlado por grupos como o Hamas, citando o ataque de 7 de Outubro de 2023 como prova de que o Estado palestiniano, nas condições actuais, representa uma ameaça existencial. A sua retórica enfatizou que Israel não aceitaria soluções impostas pela comunidade internacional, priorizando o controlo de segurança sobre a Cisjordânia (chamada Judéia e Samaria) e Gaza.

Na apresentação do plano hoje, durante a conferência de imprensa conjunta, Netanyahu endossou a proposta, mas evitou comprometer-se com um resultado de dois Estados. Disse: "Este plano atinge os objectivos de guerra de Israel – destruir a capacidade militar do Hamas, proteger as nossas fronteiras e garantir que Gaza não represente uma ameaça". Quando instado sobre a criação de um Estado palestiniano, desviou-se afirmando: "A paz requer segurança em primeiro lugar, não noções abstractas de soberania que ignoram a realidade". O vago "caminho para a autodeterminação" do plano de Trump permitiu evitar a rejeição explícita, mantendo o controlo de segurança de Israel sobre Gaza e a Cisjordânia.

Mas tudo isto não passa de teatro político para o público americano. A posição de Netanyahu sobre a solução de dois Estados tem sido consistente desde Outubro de 2023:

  • 18 de Janeiro de 2024 (Conferência de Imprensa): Netanyahu rejeitou os apelos dos EUA por um Estado palestiniano, dizendo: "Em qualquer acordo futuro, Israel deve ter controlo de segurança sobre todo o território a oeste do rio Jordão. Isto colide com a ideia de soberania [para os palestinianos]." Argumentou que um Estado palestiniano se tornaria uma "base terrorista" como Gaza após a retirada de 2005.

  • Fevereiro de 2024 (Declaração do Gabinete): Em meio às propostas dos EUA e dos árabes para um plano pós-guerra em Gaza com horizonte de dois Estados, o governo de Netanyahu aprovou uma resolução rejeitando "ditames internacionais" para um Estado palestiniano, declarando que "causaria danos sem precedentes a Israel" e recompensaria o terrorismo de 7 de Outubro. Enfatizou: "Israel continuará a opor-se ao reconhecimento unilateral de um Estado palestiniano".

  • 17 de Julho de 2024 (discurso no Knesset): Diante da renovada pressão internacional, Netanyahu reiterou: "Não permitiremos o estabelecimento de um estado terrorista na Judéia e Samaria [Cisjordânia] que coloque em risco a nossa existência. A resposta é não." Citou o controlo de Gaza pelo Hamas como prova de que a criação de um Estado palestiniano levaria a uma militância apoiada pelo Irão.

Não creio que Netanyahu tenha mudado de ideias. Também acredito que a maior parte da sua reunião privada com Trump foi gasta a discutir a próxima ronda de ataques ao Irão. Tanto para o Prémio Nobel da Paz de Trump. Nem Trump nem Netanyahu falam seriamente de uma conclusão pacífica para a guerra genocida de Israel. Os assassínios continuarão.


Fonte: Son of a New American Revolution via Réseau International


Tradução RD



quarta-feira, 1 de outubro de 2025

A EUROPA SOB A NATO: DIVIDE ET IMPERA

Como a OTAN transformou a Europa em vassalo de Washington. A Otter argumenta que a OTAN, desde o seu início, serviu para manter a Europa subordinada ao controlo dos EUA, bloqueando os laços com a Rússia e impondo a vassalagem sob o pretexto de defesa.


Por The Otter

Foi o primeiro secretário-geral da OTAN, Lord Hastings Ismay, que afirmou que o objectivo da aliança é «manter a União Soviética fora, os americanos dentro e os alemães para baixo». Essa admissão contundente revela a verdadeira intenção do papel fundamental da OTAN não como uma aliança para defesa mútua, mas em subordinar a Europa aos interesses dos EUA.

A OTAN é retratada como um baluarte contra ameaças externas que protegem o chamado Ocidente, mas ao longo da sua história suprimiu sistematicamente a autonomia europeia, drenou economicamente o continente e impediu laços económicos estratégicos com a Rússia. Apesar da narrativa actual de que a Europa não paga a sua parte, que o actual secretário-geral Mark Rutte endossou alegremente ao chamar Donald Trump de «papá», a verdade é que a Europa pagou um preço amplo enquanto se permitia ser vassalo pela América.

Charles de Gaulle advertiu que a Europa se tornaria um protectorado dos Estados Unidos e, olhando para trás agora, o seu aviso parece profético. Da Crise de Suez ao Nord Stream 2, os Estados Unidos defenderam contra os interesses europeus por meio da OTAN. A União Europeia transformou-se em estados fantoches subservientes sob um país que corrói persistentemente a sua independência.

Reconstruir a Europa à imagem da América

No final da Segunda Guerra Mundial, a Europa estava em ruínas. Os EUA procuraram remodelar o continente em alinhamento com os seus interesses estratégicos. A OTAN foi criada em 4 de Abril de 1949, como uma organização de defesa colectiva sob o Artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte. O seu objectivo tácito era a prevenção do militarismo alemão; no entanto, os Estados Unidos, com o entendimento de que a remilitarização alemã era inevitável, em 1955 integraram a Alemanha Ocidental à OTAN. Isso encerrou a ocupação aliada da Alemanha, mas o rearmamento foi alcançado sob estrita supervisão da aliança. Em vez de reduzir o número de bases militares na Alemanha, o governo dos EUA aumentou o seu número sob os auspícios de conter a União Soviética, quando na realidade isso era uma proverbial bota no pescoço da Alemanha. Documentos desclassificados revelam que a intenção dos Estados Unidos era uma «dupla contenção» da Alemanha e da União Soviética. Assim começa a vassalagem da Europa através da OTAN.

A pressão americana através da OTAN trouxe a próxima humilhação da Europa em 1956. O Reino Unido e a França invadiram o Egipto com a ajuda de Israel para recuperar o controlo do Canal de Suez, que o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser havia nacionalizado, impingindo o controlo da Companhia Francesa do Canal de Suez. A Crise de Suez ameaçou a autonomia europeia e uma importante rota comercial. O presidente dos EUA, Dwight D. Eisenhower, procurou preservar a influência dos EUA nos países árabes, impedindo-os de se alinharem com a União Soviética. O governo dos Estados Unidos vinha defendendo a descolonização, e permitir o aventureirismo franco-britânico teria minado a credibilidade da América. Eisenhower ameaçou reter o apoio financeiro da Grã-Bretanha, levando a um recuo humilhante expondo os limites do poder europeu sem a aprovação dos EUA. As nações europeias foram disciplinadas, aprendendo que acções independentes poderiam convidar represálias americanas, consolidando ainda mais a sua dependência de Washington.

Supressão da vontade da Europa pós-Guerra Fria

À medida que a Guerra Fria chegava ao fim em 1990 e as negociações sobre a reunificação alemã estavam em andamento, o secretário de Estado dos EUA, James Baker, e o chanceler alemão, Helmut Kohl, garantiram ao líder soviético Mikhail Gorbachev que a OTAN não se expandiria «uma polegada para leste». No entanto, essas promessas foram rapidamente desconsideradas. Em 1999, a OTAN incorporou a Polónia, a Hungria e a República Checa, empurrando as suas fronteiras para mais perto da Rússia, apesar dos debates internos europeus sobre estruturas de segurança alternativas.

Essa expansão suprimiu as propostas europeias nascentes para uma arquitectura de segurança pan-continental mais inclusiva que poderia ter promovido a independência do domínio dos EUA. A França e a Alemanha estavam a discutir a revitalização de organizações como a União da Europa Ocidental para criar um sistema de segurança europeu mais amplo. Os formuladores de políticas americanos viam essas alternativas como uma ameaça à influência americana. Os Estados Unidos começaram a promover activamente o alargamento da OTAN para manter a Europa amarrada a estruturas transatlânticas. Isso não apenas alienou a Rússia, mas também garantiu que a Europa permanecesse dependente da liderança militar e da tomada de decisões dos EUA.

O mito do «aproveitador»

O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou repetidamente que os membros europeus da OTAN não pagam as suas «dívidas», o que implica um fardo financeiro para os EUA. Na realidade, a OTAN não tem «quotas» nem «contas» – as contribuições são voluntárias com base na orientação de 2% do PIB acordada em 2014. As nações europeias contribuem com cerca de 2,27% do seu PIB colectivo, mas esses países têm um PIB menor do que os Estados Unidos, tornando as suas contribuições monetárias significativamente menores. Os EUA oferecem 3,2% do seu PIB à OTAN, tornando a sua contribuição marginalmente maior. As novas metas de gastos de 5% por Estado-membro colocarão uma pressão significativa sobre as economias europeias já maltratadas, consolidando ainda mais que a OTAN serve como um porrete para atacar as nações europeias.

Apesar de investir mais dinheiro, os Estados Unidos beneficiam substancialmente dos protocolos de padronização da OTAN, que garantem a interoperabilidade. Isso efectivamente impede que as nações europeias comprem equipamentos militares de empresas americanas. De acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, as importações de armas pelos estados europeus aumentaram 155% entre 2015-19 e 2020-24, com os EUA a fornecerem 64% das importações dos membros europeus da OTAN durante esse período. Isso equivale a biliões em transferências. As vendas de armas dos Estados Unidos totalizam 318,7 mil milhões de dólares, com a Europa a responder por 35% desse valor. A Europa gastou aproximadamente 111,5 mil milhões de dólares em armas americanas em 2024 (esse número exclui a Ucrânia), enquanto a contribuição dos EUA para o orçamento da OTAN é de 15,9% dos 4,6 mil milhões de euros, tornando a sua contribuição total de 731 milhões de euros – ou uma pequena fracção (cerca de 0,0026%) do PIB dos EUA. As alegações de Trump de que a Europa está cheia de «aproveitadores» consideram apenas parte da equação, já que os Estados Unidos lucram mais de cem mil milhões de dólares das nações europeias por meio do mandato da OTAN.

Enquanto os Estados Unidos lucram muito com as compras de armas europeias, as indústrias domésticas de armas estagnam devido a essa dependência forçada. Os países europeus da OTAN obtêm dois terços das suas importações dos Estados Unidos, prejudicando fabricantes locais como a alemã Rheinmetall ou a francesa Thales. O custo desta realidade tem um impacto negativo na inovação europeia e no crescimento do emprego. A previsão da primavera de 2025 da Comissão Europeia alerta que aumentar os gastos com defesa para cumprir as metas da OTAN pode exacerbar isso, já que indústrias nacionais fragmentadas lutam para competir, levando a custos mais altos e inovação reduzida. Os Estados Unidos drenam a Europa de forma vampírica enquanto reclamam das suas próprias decisões políticas de gastar uma quantia exorbitante do seu PIB em defesa.

Entramos numa realidade geopolítica em que a Europa se tornará mais dependente das armas dos EUA para preencher a lacuna para as novas metas de 5% do PIB para 2032. A inovação vai cambalear à medida que as empresas europeias tiverem de se concentrar em aumentar a escala para atender ao aumento da procura, colocando a P&D em segundo plano. A Europa está a perder mais autonomia em vez de a aumentar através destes novos objectivos de despesa.

A arma energética: impedir os laços euro-russos

Os imperativos estratégicos da OTAN estenderam-se além das alianças militares para interromper activamente o potencial da Europa para uma integração económica mais profunda com a Rússia, particularmente no sector da energia. Os laços energéticos euro-russos têm sido vistos como uma ameaça à hegemonia americana, levando à oposição vocal dos Estados Unidos a projectos como o Nord Stream 2 e contribuindo para o pivô forçado da Europa para alternativas mais caras. Essa interferência isolou a Europa do gás russo acessível, ao mesmo tempo em que enriqueceu os exportadores de energia dos EUA, exacerbando a pressão económica num continente que já enfrenta custos crescentes de energia.

Os gasodutos Nord Stream, projectados para fornecer gás natural russo directamente à Alemanha sob o Mar Báltico, representaram um caminho para a segurança energética e custos mais baixos para a Europa, potencialmente reduzindo os preços em 30-40% por meio de fornecimento diversificado. Os EUA opuseram-se veementemente ao Nord Stream 2 desde o início, enquadrando-o como uma ferramenta para a influência russa que contornaria a Ucrânia e minaria a unidade europeia. Em 2019, o governo Trump impôs sanções sob a Lei de Protecção à Segurança Energética da Europa, que visava empresas envolvidas na construção de gasodutos. Esforços bipartidários do Congresso foram lançados para interromper o projecto, citando preocupações com a capacidade da Rússia de «armar» a energia.

O ponto culminante veio com a sabotagem dos oleodutos em Setembro de 2022, que libertou enormes emissões de metano. Alegações de envolvimento americano (e ucraniano) surgiram repetidamente, incluindo relatos de mergulhadores da Marinha dos EUA a plantar explosivos durante o exercício BALTOPS 22 da OTAN, com assistência norueguesa na detonação. O incidente efectivamente cortou um importante elo euro-russo, forçando a Europa a uma diversificação apressada que favoreceu os fornecedores americanos. Os embarques de Gás Natural Liquefeito (GNL) para a Europa atingiram um recorde de 8,5 milhões de toneladas métricas em Dezembro de 2024. Em Maio de 2025, a UE importou 4,6 mil milhões de metros cúbicos de GNL dos EUA mensalmente, com os EUA a responderem por 50,7% do total das importações de GNL da UE no 1.º trimestre de 2025 – acima dos níveis insignificantes anteriores a 2022.

Multipolaridade como solução

O passado agora é passado, e a Europa está agora numa posição em que as acções da OTAN ao longo das décadas impediram laços económicos frutíferos com a Rússia, o que poderia de facto ter evitado a Guerra da Ucrânia, ao mesmo tempo em que proporcionava a tão necessária segurança energética. Essas relações podem curar-se com o tempo, mas a Europa não deve esperar que as estrelas se alinhem. Ela deve acordar para a realidade de que o seu potencial está amarrado por Washington e pelas suas bases militares que colonizam o continente.

Se a Europa não conseguir olhar além do albatroz estrelado em volta do pescoço, corre o risco de ser permanentemente vassalagem pelos Estados Unidos. Consertar o relacionamento com a Rússia pode não estar nas cartas no momento, mas a Europa pode olhar além do Ocidente para o Oriente e a África. A Nigéria e Moçambique estão prontos para fornecer GNL para a Europa, o que poderia ser acelerado com investimentos europeus. A Europa tem a capacidade de proteger as suas fontes de energia e fortalecer a sua economia se for corajosa o suficiente para deixar de ser um cachorrinho de estimação de uma economia que a parasita.

Os líderes europeus afirmam buscar «autonomia estratégica», mas a menos que percebam o dano que a OTAN causou ao continente, nunca serão soberanos. O mundo está a caminhar para a multipolaridade, já que as tarifas de Trump embaralharam o sistema económico global de maneiras antes consideradas inimagináveis. Novas alianças estão a formar-se, e antigos inimigos como a Índia e a China estão a começar a ter relações calorosas. Estão a formar-se blocos comerciais que excluirão os Estados Unidos devido à sua natureza caprichosa. A escrita está na parede, mas os líderes europeus lerão a mensagem já gravada no futuro à frente?



Fonte: https://www.multipolarpress.com

Tradução RD



terça-feira, 30 de setembro de 2025

A INICIATIVA DO BLOCO OCIDENTAL PARA CONTRARIAR A HEGEMONIA DA CHINA EM ÁFRICA: O CORREDOR DO LOBITO


Os Estados Unidos estão cientes de que precisam aumentar e sustentar a sua influência em África para solidificar a sua hegemonia global. Têm pouca escolha senão fazê-lo em coordenação com os países da União Europeia (UE), que estabeleceram vastas colónias no passado e mantêm laços históricos, políticos e económicos com o continente. Mas sendo a China o parceiro comercial mais importante em grande parte do continente, a tarefa do Bloco Ocidental está mais difícil do que nunca.


Por Suleiman Karan

Muitas das estrelas em ascensão entre as economias em desenvolvimento deste século emergirão de África. Apesar de séculos de exploração, o "Continente Negro" continua a ser uma fonte potencial de riqueza para a economia mundial, rico em recursos subterrâneos e de superfície. Mais importante ainda, as tendências demográficas indicam que África está preparada para vantagens significativas. A população do continente, que era de 1,304 mil milhões em 1 de Janeiro de 2025, deverá atingir 2,5 mil milhões até 2050. Isto é significativo não apenas em termos de densidade populacional, mas também pela proporção de jovens na população total. Em outras palavras, uma população massiva e dinâmica possui vasto potencial como força de trabalho. Outro ponto-chave são as tendências de consumo de África. O facto de essa população densa estar também ávida por consumo aumenta a importância e o apelo de África para o comércio mundial. Isto significa que África não é apenas uma fonte de recursos, mas também tem o potencial de se tornar um mercado massivo. Estamos a falar de um mercado que pode revitalizar a economia mundial no futuro.

A África do Sul, o Egipto, Marrocos, a Argélia, a Etiópia, o Quénia, a Nigéria, o Gana, o Gabão, o Senegal, a Guiné e a República Democrática do Congo (RDC) são países proeminentes, tanto pelas suas populações como pelos seus recursos naturais. É altamente provável que essas nações desempenhem um papel de liderança na ascensão do continente. Banhado pelo Mar Mediterrâneo a norte, pelo Oceano Índico a leste e pelo Oceano Atlântico a oeste, o continente terá igualmente importância estratégica para futuros corredores comerciais mundiais.


A CHINA ESTÁ MUITO À FRENTE, MAS…

Por todas essas razões, parece que África se tornará a principal arena de competição para as grandes potências a partir do segundo quartel deste século. A China já vem realizando investimentos significativos no continente há muito tempo. A ascensão da influência económica de Pequim em África é inegável. Em 2009, a China ultrapassou os Estados Unidos como o maior parceiro comercial do continente, e o seu volume comercial recente é quatro vezes superior ao comércio EUA-África. Esta situação alarmou os formuladores de políticas norte-americanos relativamente ao declínio da influência dos Estados Unidos no continente, despertando o seu interesse em investimentos em desenvolvimento e infra-estruturas para melhorar e facilitar os laços económicos EUA-África. Uma dessas iniciativas é o Corredor Comercial do Lobito. Proposto pela primeira vez em 2023, o Corredor do Lobito é uma ferrovia de 1.300 quilómetros que se estende de leste a oeste através da Zâmbia, da República Democrática do Congo e de Angola.

Qualquer iniciativa dos Estados Unidos em África deve alcançar e criar o potencial para competir com a estratégia de envolvimento mais abrangente e de longo prazo da China. Na última década, a China vem conduzindo essas actividades por meio da sua Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), um enorme projecto de infra-estruturas e desenvolvimento económico que abrange a Ásia, a Europa e África. Até ao momento, os governos de muitas nações africanas assinaram memorandos de entendimento relacionados com a BRI, e esta iniciativa facilitou biliões de dólares em investimentos para a construção de estradas, portos, ferrovias e outras infra-estruturas críticas. Só em 2023, aproximadamente 21,7 mil milhões de dólares em empréstimos fluíram da BRI para África. Incluindo investimentos no âmbito da BRI e outros acordos bilaterais, estima-se que a China tenha investido um total de 2,23 biliões de dólares em África desde 2005.

É crucial recordar que todo o fluxo financeiro tem objectivos e consequências geopolíticas. Por meio desse poder financeiro, a China conseguiu garantir acesso a quantidades significativas de minerais e terras raras de África. A República Democrática do Congo (RDC), onde empresas chinesas detêm 72% de todas as minas de cobalto e cobre, é um exemplo disso. Do mesmo modo, na Guiné, rica em depósitos de bauxite, as empresas chinesas são as principais interessadas na mina de minério de ferro de Simandou.

COM O OBJECTIVO DE REDUZIR O DOMÍNIO CHINÊS

Os Estados Unidos estão cientes de que precisam aumentar e sustentar a sua influência em África para solidificar a sua hegemonia global. Têm pouca escolha senão fazê-lo em coordenação com os países da União Europeia (UE), que estabeleceram vastas colónias no passado e mantêm laços históricos, políticos e económicos com o continente. No entanto, até que ponto poderão alcançar uma cooperação coordenada e vantajosa para todos com o Reino Unido, a França e outras nações da UE não é assim tão claro. Afinal, estes eram os mesmos países com os quais competiam no continente até há pouco tempo. Para dar um exemplo recente, quando a França estava a ser expulsa dos países do Sahel, há alguns anos, não faltaram autoridades americanas em Washington a esfregar as mãos de alegria. Washington planeava preencher o vazio deixado pela França na região. Contudo, os governos com mentalidade de independência nacional na região parecem ter frustrado esse sonho americano por enquanto. A visão de nigerinos a protestar com bandeiras russas durante as tensões políticas no Níger pode talvez ser vista como um símbolo do despertar anti-ocidental em África. As declarações do presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traoré, são outro exemplo.

Sendo a China o parceiro comercial mais importante em grande parte do continente, a tarefa do Bloco Ocidental está mais difícil do que nunca. Na verdade, parece que terão de se concentrar mais em obter o que puderem da região do que em derrotar a China de facto. O Corredor do Lobito, um projecto concebido pelos Estados Unidos no sul do continente para rivalizar com a BRI, é uma parte fundamental desse objectivo — embora se conseguirá atingir o seu propósito ainda seja uma incógnita por agora.

UMA IMAGEM “MULTILATERAL” SOB A LIDERANÇA DOS EUA

Quase dois anos se passaram desde o início do projecto. Anunciado no Fórum Global Gateway da União Europeia em Outubro de 2023, o projecto reúne o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), a Corporação Financeira da África (FCA), os Estados Unidos e a Comissão Europeia para construir em conjunto uma ferrovia ligando o noroeste da Zâmbia ao Porto do Lobito, na costa atlântica de Angola.

A estrutura de financiamento do Corredor do Lobito assemelha-se à da BRI, com os Estados Unidos a assumirem o papel de “facilitador principal”, como principal financiador do investimento. Desde o início do projecto até Setembro de 2024, Washington forneceu mais de 3 mil milhões de dólares em financiamento em diversos sectores, incluindo transporte e logística, agricultura, energia limpa, saúde e acesso digital. Uma parte significativa do financiamento é canalizada por meio da Parceria para Infra-estrutura e Investimento Global (PGI), uma iniciativa conjunta dos países do G7, estabelecida em 2022, que visa desempenhar um papel mais importante na infra-estrutura global.

O Corredor do Lobito tenta apresentar-se como uma alternativa. Em primeiro lugar, parece adoptar uma perspectiva mais multilateral do que um projecto típico da BRI, procurando parcerias com actores regionais como o BAD, que tem sido um apoiante activo do corredor desde o início. O envolvimento do BAD atende a dois propósitos cruciais. A nível financeiro, ajuda a distribuir o ónus financeiro da angariação de fundos para projectos de infra-estrutura, que têm uma perspectiva de rentabilidade a longo prazo. Isso fica evidente nos 1,6 mil milhões de dólares que o BAD ajudou a angariar em 2023. A nível político, o BAD ajuda a aliviar as preocupações com a hegemonia de grandes potências como os Estados Unidos ou a China. A abordagem multilateral também envolve actores externos no processo. Por exemplo, o Banco Mundial forneceu 300 milhões de dólares para uma iniciativa local complementar, marcando o primeiro projecto de infra-estrutura para o qual o banco contribuiu em África desde 2002. A Comissão Europeia também se comprometeu a realizar estudos de viabilidade ambiental e social para limitar o impacto em habitats vulneráveis ao longo da rota do Corredor do Lobito. Em outras palavras, vem com uma transformação “verde”!

PEDRAS FUNDAMENTAIS QUE REVIVEM MEMÓRIAS DO COLONIALISMO

O propósito do Corredor do Lobito também é conhecido, pois visa construir novas infra-estruturas em países em desenvolvimento com falta de capital. Esta infra-estrutura está a ser construída não porque seja lucrativa por si só, mas porque permite outras actividades económicas rentáveis. O projecto prevê a construção de aproximadamente 550 quilómetros de uma nova linha férrea na Zâmbia, de Jimbe, na fronteira, a Chingola, no cinturão do cobre zambiano. Esta nova linha ligar-se-á a uma linha recém-construída em Angola, na fronteira, que por sua vez se ligará à linha férrea de Benguela existente, em Luacano. O resultado será um novo corredor comercial que dará à Zâmbia acesso ao Oceano Atlântico. O projecto inclui também a construção de cerca de 260 quilómetros de estradas vicinais e a reabilitação da linha férrea de Benguela, com 120 anos de existência.

No entanto, não se deve esquecer que África tem memória. Vale a pena salientar que, para muitos africanos, a ferrovia de Benguela evoca a exploração brutal da era colonial — e não apenas a ferrovia, mas a exploração selvagem, sangrenta e implacável dos europeus! Isso, talvez, deixando de lado outras desvantagens, seja o calcanhar de Aquiles do Bloco Ocidental na sua competição com a China.

PARA GARANTIR O FORNECIMENTO DE CURTO PRAZO DE MINERAIS ESTRATÉGICOS

Por esse motivo, os países europeus e os Estados Unidos parecem estar a seguir o exemplo da BRI para evitar reviver más lembranças. O Corredor do Lobito procura desenvolver uma abordagem que também satisfaça os africanos, ao mesmo tempo que realiza investimentos em infra-estrutura, como o fortalecimento da infra-estrutura dos países participantes e o aumento do volume do seu comércio externo. Isso, é claro, é um meio para atingir um fim último.

O projecto prevê que os fluxos comerciais se desloquem para oeste ao longo da rota do Oceano Atlântico. O objectivo é garantir o fornecimento de minerais de terras raras e metais industriais, matérias-primas estratégicas para os sectores da energia verde, veículos eléctricos, tecnologia de baterias, TI e telecomunicações. Como é sabido, a China detém a hegemonia global no mercado de minerais de terras raras, e os Estados Unidos e a União Europeia pretendem reduzir esse domínio, mesmo que seja apenas um pouco. Chamemos a isto um bónus do projecto! A República Democrática do Congo é extremamente rica nesses minerais. De facto, o país possui grande riqueza em muitos minerais estratégicos.

A nova ferrovia no projecto do Corredor do Lobito tem o potencial de estabelecer linhas de abastecimento tanto da República Democrática do Congo (RDC) como da Zâmbia, ligando o cinturão de cobre zambiano a um porto atlântico pela primeira vez. O cobre, o metal industrial mais importante, tornou-se uma matéria-prima estratégica ainda mais crítica, especialmente com a transição verde. Anteriormente, as exportações de metal da Zâmbia tendiam a fluir para leste a partir do Porto de Dar es Salaam, na Tanzânia. Desta vez, o primeiro carregamento de cobre para os Estados Unidos foi carregado num navio porta-contentores do Porto do Lobito, em Angola. Este carregamento seguiu uma série de carregamentos de cobre para portos europeus e do Sudeste Asiático desde que a Lobito Atlantic Railway assumiu a concessão em Janeiro deste ano. Este é um indicador de que o acesso das minas no “cinturão de cobre do Congo” aos mercados ocidentais, particularmente os Estados Unidos, aumentará. E tal linha de abastecimento é vital para que as empresas americanas mantenham a sua competitividade em relação às empresas chinesas.

OBJECTIVO: INCLUIR A TANZÂNIA NO CORREDOR

Os Estados Unidos também pretendem expandir o Corredor do Lobito. Essa estratégia de expansão surgiu em Agosto de 2024, quando Helaina Matza, Coordenadora Especial do PGI no Departamento de Estado dos Estados Unidos, anunciou que as negociações estavam em curso para estender o corredor até à Tanzânia. Com isso, Washington revelou o seu plano de criar um “Corredor Transafricano” mais abrangente, ligando os oceanos Atlântico e Índico. Essa medida deve ser vista não apenas como um objectivo comercial, mas como uma manobra geoeconómica. Com isso, Washington pretende restringir um pouco o comércio África-China em rápido crescimento ao longo da rota do Oceano Índico e tornar-se um actor eficaz nessa rota. Matza também acrescentou que a reforma da ferrovia de Benguela, a primeira fase do Corredor do Lobito, estava a progredir sem problemas e que as remessas de cobre estavam a fluir da RDC para os Estados Unidos pela primeira vez.

A segunda e mais ambiciosa fase, a construção de uma nova ferrovia na Zâmbia, aguardava a conclusão dos estudos de viabilidade. A decisão de abrir todos os minerais de terras raras nos depósitos ao longo do corredor para o comércio com o leste via Dar es Salaam pode parecer ilógica para o Bloco Ocidental à primeira vista. No entanto, isso provavelmente faz parte de uma estratégia de longo prazo.

Em primeiro lugar, a infra-estrutura já existe em grande parte, na forma da Linha Tazara, que liga Dar es Salaam, no Oceano Índico, a Kapiri Mposhi, na Zâmbia. A ligação com o Corredor do Lobito, em Chingola, exigiria aproximadamente 200 quilómetros de novas construções. Em segundo lugar, a implementação do Corredor Transafricano poderia fortalecer o perfil de soft power do PGI, que afirma ser motivado sobretudo pela promoção da boa governação e do crescimento económico regional.

QUANDO O DINHEIRO ACABA…

O Corredor do Lobito é um passo significativo para o Bloco Ocidental, mas pode ser um projecto que chega um pouco tarde demais. Embora o investimento estrangeiro directo da China em África tenha atingido uma média de 4 mil milhões de dólares entre 2019 e 2021, superior ao dos países ocidentais, o valor do investimento directo dos Estados Unidos diminuiu em alguns anos. No entanto, a vantagem competitiva dominante de Pequim enfraqueceu recentemente. A desaceleração económica pós-pandemia e o aperto nas linhas de crédito fizeram com que os investimentos relacionados com a BRI em África caíssem de 16,5 mil milhões de dólares em 2021 para 7,5 mil milhões em 2023 — uma queda de 55%. Uma sensação de fadiga com a BRI surgiu à medida que as percepções sobre ela pioraram em muitas regiões entre 2017 e 2022, em parte devido às crescentes preocupações com a dívida nos países da BRI. Afinal, investimentos massivos em infra-estrutura e superestrutura exigem financiamento vultoso, e cada empréstimo precisa ser pago.

A ÁFRICA PODERIA LUCRAR COM ESTA RIVALIDADE

Em resumo, essa é a situação para as partes envolvidas. O caminho à frente está pavimentado com vantagens e desvantagens. Então, ainda é possível para Washington posicionar-se em África? Ou esses investimentos são suficientes? Não é fácil dar uma resposta clara a essas perguntas por enquanto. É verdade que o Corredor do Lobito e projectos semelhantes enfrentam desafios reais; os sucessos da China no desenvolvimento de infra-estrutura e o crescente interesse dos africanos em Pequim são factos inegáveis. Como resultado, as relações económicas e diplomáticas entre Pequim e os países africanos estão a fortalecer-se. O continente abriga 54 Estados, cada um com as suas próprias necessidades de desenvolvimento e experiências — tanto positivas como negativas — de interacção com a China. E se há algo que pode unir os africanos em meio a essa diversidade, é a necessidade partilhada de capital e investimento em infra-estrutura.

Parece que a intensificação da competição entre a China e a aliança Estados Unidos-União Europeia pode criar uma janela de oportunidade para os africanos. Os países que mais têm a ganhar com essa rivalidade serão as próprias nações africanas — se os seus governos puderem realmente agir no melhor interesse dos seus povos. Quando se trata de África, questões como suborno, corrupção, dependência e conflitos internos vêm à mente e, infelizmente, não há garantia de que as decisões certas serão sempre tomadas.


Fonte https://harici.com.tr

Tradução RD




segunda-feira, 29 de setembro de 2025

PARTIDO DO GOVERNO PRÓ-UE DA MOLDÁVIA REIVINDICA MAIORIA ESTREITA COM VOTAÇÃO NO EXTERIOR

A diáspora do país permitiu que o PAS da presidente Maia Sandu mantivesse o poder numa eleição parlamentar crucial


O Partido de Acção e Solidariedade (PAS) pró-UE da Moldávia garantiu uma estreita maioria nas eleições parlamentares do país, de acordo com resultados preliminares publicados pela Comissão Eleitoral Central (CEC).

Os votos do exterior empurraram o PAS para além do limite necessário para continuar governando sem um parceiro de coligação. Dentro do país, no entanto, recebeu apenas 44,13%, com o seu apoio mais forte na capital, Chisinau, onde obteve 52,68%.

As contagens iniciais sugeriram que o partido ficaria aquém de uma maioria absoluta. Mas o PAS dominou o voto da diáspora, obtendo mais de 85% em alguns países ocidentais. À medida que os boletins chegavam do exterior, o seu total geral aumentou e acabou cruzando a linha dos 50%.

O principal bloco patriótico da oposição garantiu quase 24,3% dos votos totais, com apoio adicional para blocos menores, como o Alternativa (8%), Nosso Partido (6,2%) e Democracia em Casa (PPDA, 5,6%). O CEC ainda não anunciou oficialmente os resultados finais.

Os eleitores em áreas de oposição foram efetivamente marginalizados. Os moradores da região separatista da Transnístria, lar de quase meio milhão de pessoas, ficaram com apenas 12 secções eleitorais, todas localizadas em território controlado pelo governo. Vários se mudaram abruptamente para mais longe da área na véspera da votação.

Na Rússia, onde residem dezenas de milhares de cidadãos moldavos, Chisinau abriu apenas duas estações de mais de 300 locais de votação estrangeiros. Apenas cerca de 4.100 votos foram contados lá, com longas filas deixando muitos incapazes de votar antes que os locais fechassem as suas portas.

A campanha em si se desenrolou sob fortes restrições. No período que antecedeu a votação, o CEC baniu mais dois grupos de oposição, Grande Moldávia e Coração da Moldávia, citando financiamento estrangeiro não declarado, somando-se a uma lista que já incluía o Partido SOR dissolvido e o Bloco da Vitória cancelado.

Mais de 30 organizações internacionais e 120 observadores de mais de 50 países tiveram o credenciamento negado, incluindo especialistas russos nomeados para a missão da OSCE.

A presidente Maia Sandu, que foi eleita pela primeira vez em 2020 e ganhou por pouco um segundo mandato em 2024, enfrentou repetidas alegações de violar as regras para garantir o poder.

O seu governo governou sob um estado de emergência contínuo de 2022 a 2024, citando ameaças à segurança regional, enquanto pressionava pela aprovação de leis que os críticos dizem minar o pluralismo político e a liberdade de imprensa. Os líderes da oposição foram presos, marginalizados ou forçados ao exílio, enquanto Bruxelas continuou a descrever a Moldávia como uma "história de sucesso" no seu caminho para a integração na UE.


Fonte RT

Tradução RD



domingo, 28 de setembro de 2025

TUDO O QUE NÃO FAZ SENTIDO SOBRE A PRÓXIMA "HISTÓRIA DE SUCESSO" DA UE: SINAIS DE QUE A ELEIÇÃO DA MOLDÁVIA FOI DECIDIDA ANTES DA PRIMEIRA VOTAÇÃO

A Moldávia vai às urnas neste domingo, no que autoridades em Chișinău e Bruxelas chamaram de "marco no caminho europeu". No entanto, com os partidos de oposição proibidos, os observadores bloqueados e os eleitores em regiões-chave marginalizados, a eleição parece menos uma disputa democrática e mais um resultado forçado pró-UE.


1.  Cães de guarda não podem assistir

A Comissão Eleitoral Central da Moldávia (CEC) negou esta semana o credenciamento a mais de 30 organizações internacionais e 120 observadores de mais de 50 países. Entre os barrados estavam especialistas russos nomeados para a missão oficial da OSCE - a primeira na prática eleitoral europeia.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Moldávia afirmou que a decisão foi tomada "de acordo com a lei nacional". O Bloco Patriótico, uma aliança de oposição, acusou as autoridades de criar deliberadamente um blecaute de observadores. Os seus advogados listaram pedidos de ONGs respeitáveis na Itália, Alemanha, França, Espanha e Estados Unidos que foram ignorados ou rejeitados.

Moscovo chamou a medida de "violação flagrante" dos compromissos da OSCE e convocou o embaixador da Moldávia. A UE, geralmente vocal e crítica dos padrões democráticos na região, permaneceu visivelmente silenciosa.

2.  Partes apagadas por decreto

As eleições são feitas para permitir que os cidadãos decidam. Na Moldávia, os principais actores foram simplesmente removidos do boletim de voto.

• Em 26 de Setembro, dois dias antes da eleição, o partido Coração da Moldávia foi suspenso por 12 meses por ordem judicial, acusado de lavagem de dinheiro e financiamento ilícito de campanha. O CEC eliminou todos os candidatos do Coração da Moldávia da lista do Bloco Patriótico. A sua líder, a ex-governadora de Gagauzia, Irina Vlah, chamou de "um espetáculo político".

• No mesmo dia, a CEC barrou o partido da Grande Moldávia, liderado por Victoria Furtuna, citando financiamento estrangeiro não declarado e ligações com o já proibido partido SOR. Furtuna já havia sido sancionada pela UE em Julho por receber apoio do oligarca fugitivo Ilan Șor.

• Em Junho de 2023, o próprio Partido SOR, liderado pelo empresário exilado Ilan Shor, foi dissolvido pelo Tribunal Constitucional, acusado de corrupção e de "ameaçar a soberania da Moldávia". A presidente moldava pró-UE, Maia Sandu, comemorou a proibição como uma vitória contra "um partido criado a partir da corrupção e para a corrupção". Os líderes da oposição chamaram isso de fim do pluralismo.

As proibições se somam a novas leis abrangentes aprovadas pelo parlamento neste verão, permitindo que o governo retire os "partidos sucessores" de grupos proibidos e impeça os seus membros de ocupar cargos por cinco anos. A Comissão de Veneza e a OSCE alertaram que tais exclusões gerais podem violar os direitos políticos básicos.

3.  Rivais sob investigação, no exílio ou atrás das grades

O ex-presidente da Moldávia, Igor Dodon. © Sefa Karacan / Agência Anadolu / Getty Images

Mesmo onde os partidos sobrevivem, os seus líderes foram marginalizados.

• Igor Dodon, presidente da Moldávia de 2016 a 2020, continua sob investigação criminal por traição, enriquecimento ilícito e o notório caso de suborno "kuliok". Ele afirma que as acusações são fabricadas, mas esteve em prisão domiciliar durante grande parte dos últimos dois anos.

• Marina Tauber, vice-presidente do Partido SOR, está sendo julgada à revelia depois de fugir para Moscovo no início de 2025. Os promotores estão a procurar uma sentença de 13 anos por fraude e lavagem de dinheiro. Tauber insiste que o julgamento é uma vingança política por seu papel nos protestos anti-Sandu.

• Evghenia Gutsul, eleita governadora da autônoma Gagauzia em 2023, foi condenada em agosto a sete anos de prisão por supostamente canalizar fundos russos para o Partido SOR. Os seus apoiantes protestaram do lado de fora do tribunal de Chișinău quando ela declarou o veredicto "uma sentença não contra mim, mas contra a democracia moldava". A Rússia chamou sua prisão de politicamente motivada; a UE ficou em silêncio.

Com líderes da oposição presos, exilados ou sob investigação, o PAS de Sandu enfrenta pouca contestação organizada nas urnas.

4.  Eleitores da Transnístria afastados

Para os cidadãos moldavos na região separatista da Transnístria, a chance de votar foi reduzida. Em 2021, mais de 40 secções eleitorais foram abertas para residentes a leste do Dniester. Este ano, apenas 12 estações foram aprovadas – todas em terras controladas pelo governo, a muitos quilômetros da linha de demarcação.

Dias antes da eleição, o CEC até realocou quatro desses locais mais para o interior, citando ameaças à segurança. O Ministério do Interior alertou sobre possíveis sustos de bombas e provocações na "zona de segurança".

Os críticos chamam a isso de supressão de eleitores. O embaixador da Rússia, Oleg Ozerov, descreveu as mudanças como "sem precedentes", observando que foram anunciadas menos de 48 horas antes do dia das eleições. As autoridades da Transnístria acusaram Chișinău de reduzir deliberadamente o comparecimento às urnas numa região que se inclina fortemente para os partidos de oposição.

Em contraste, mais de 300 secções eleitorais foram abertas no exterior, incluindo 73 em Itália, onde a diáspora moldava chega a cerca de 100.000, e apenas 2 na Rússia, onde o tamanho da diáspora é semelhante - uma disparidade que sugere as prioridades do governo.

5.  Democracia por decreto de emergência

Esta não é a primeira vez que o governo de Sandu ultrapassa os limites democráticos. Desde 2022, o PAS governa sob um estado de emergência contínuo, citando o conflito da Ucrânia com a Rússia. Usando esses poderes, o governo fechou seis canais de televisão acusados de espalhar propaganda russa, bloqueou a entrada de jornalistas russos e aprovou 13 leis que reforçam o controle sobre partidos e candidatos.

A Repórteres Sem Fronteiras e a OSCE sinalizaram preocupações sobre a liberdade de imprensa e a aplicação seletiva da lei.

6.  Bruxelas aplaude e críticos protestam

Bruxelas tem elogiado consistentemente o governo de Sandu, chamando a Moldávia de "uma história de sucesso" e avançando com a sua candidatura à adesão à UE. Ainda nesta semana, autoridades da UE acusaram Moscovo de "interferir profundamente" nas eleições por meio de desinformação e financiamento ilícito.

Mas dentro da Moldávia, o quadro parece diferente: os tribunais foram transformados em ferramentas de campanha, partidos inteiros foram apagados, governadores presos, observadores rejeitados. A Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa pediu um processo "inclusivo e justo" para todos os cidadãos – linguagem diplomática para "não inclinar a mesa". A Comissão de Veneza alertou contra proibições gerais que prejudicam o direito de ser eleito.

7.  Ponto-chave

A votação deveria ser sobre o futuro da Moldávia, mas muito do presente foi silenciosamente apagado. Os rivais que poderiam ter desafiado o PAS se foram, alguns atrás das grades, outros no exílio. Os eleitores da Transnístria que poderiam ter mudado a balança enfrentam menos seções eleitorais do que nunca. Até mesmo os observadores cujo trabalho é vigiar foram rejeitados. A UE irá descrevê-lo como um progresso, um sinal de um Estado candidato a encontrar os seus pés democráticos.

Dentro da Moldávia, muitos veem algo completamente diferente: uma coroação disfarçada de concurso, o último acto de uma história em que o roteiro foi escrito muito antes do dia das eleições.

Fonte RT

Tradução RD




RESULTADOS PRELIMINARES DAS ELEIÇÕES PARLAMENTARES DA MOLDÁVIA: O PAS NA LIDERANÇA



"Não reconheceremos as eleições falsificadas. Estamos protestando pacificamente. Moldávia! Vitória!", disse Igor Dodon, líder do PSRM e um dos líderes do bloco. Dodon pediu aos apoiadores que participem de uma nova manifestação em frente ao Parlamento amanhã, enfatizando que os protestos serão pacíficos: "Vamos protestar pacificamente, não vamos nos permitir ser provocados. Saímos para defender nosso voto. O PAS perdeu essas eleições. Se amanhã será diferente, significa que eles falsificaram." O líder do PSRM insistiu na mobilização dos cidadãos e reiterou as acusações de fraude eleitoral.





MOLDÁVIA PROÍBE OUTRO PARTIDO PRÓ-RÚSSIA DAS ELEIÇÕES PARLAMENTARES

A autoridade eleitoral da Moldávia excluiu o partido político pró-russo Grande Moldávia de participar da votação parlamentar de domingo devido a suspeitas de financiamento ilegal.


A autoridade eleitoral da Moldávia excluiu o partido político pró-russo Grande Moldávia de participar da votação parlamentar de domingo devido a suspeitas de financiamento ilegal, disseram fontes oficiais no sábado.

A decisão foi tomada na noite de sexta-feira. É o segundo partido pró-Rússia excluído poucos dias após a votação, em meio a preocupações sobre a suposta interferência de Moscou, o processo eleitoral do país e o futuro das aspirações de Chisinau de ingressar na União Europeia.

A Comissão Eleitoral Central da Moldávia excluiu o partido Grande Moldávia (Moldova Mare) depois que a polícia, a segurança e a inteligência descobriram que ele usava financiamento ilegal e fundos estrangeiros, disse a comissão.

A líder da Grande Moldávia, Victoria Furtuna, afirmou que a decisão é tendenciosa e será apelada, segundo a Moldpress.

A autoridade eleitoral descobriu que o partido usou recursos financeiros não declarados e é suspeito de fornecer dinheiro aos eleitores na tentativa de influenciar o resultado.

As autoridades também suspeitam que o partido estava agindo como sucessor de um partido anteriormente ilegal, liderado pelo magnata pró-russo fugitivo Ilan Shor. Shor, que nega qualquer irregularidade, mora em Moscou.

A votação parlamentar de domingo é vista como um ponto de virada para a Moldávia, uma ex-república soviética e país candidato à UE.

O Partido da Acção e Solidariedade (PAS), pró-europeu, liderado pela presidente Maia Sandu, tem maioria parlamentar desde 2021. No entanto, as pesquisas mostram que pode perder sua maioria, já que os partidos de oposição cortejam os eleitores preocupados com o alto custo de vida, o aumento da pobreza e a desaceleração da economia.

Com informações da Reuters





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