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terça-feira, 26 de julho de 2022

DOCUMENTOS LIBERTADOS: CONSELHEIRO DO FACEBOOK "BOT" SECRETAMENTE EM PAGAMENTO DA AGÊNCIA DE MUDANÇAS DE REGIMES DOS EUA



Por Kit Klarenberg


Documentos partilhados com a MintPress revelam que a Valent Projects – uma empresa de comunicação sombria que assessora plataformas de mídia social, como o Facebook, em supostas campanhas de influência on-line apoiadas pelo Estado – recebeu US$ 1,2 milhão da frente de inteligência dos EUA USAID, por "combater a desinformação e o suporte a comunicações".

Essa relação até agora nunca foi reconhecida publicamente, e o resultado não se reflete nas contas publicadas da empresa.

Na direção de Valent, o Facebook purgou um grande número de contas e páginas sudanesas críticas ao governo apoiado pelo Ocidente, ajudando a manter uma controversa administração civil e militar no poder. Há também suspeitas de que a empresa pode ter desempenhado um papel na supressão em massa de vozes etíopes on-line apoiando o governo de Abiy Ahmed, e se opondo às tentativas dos EUA de derrubá-lo.

Valent Projects é a criação de Amil Khan, um veterano jornalista da BBC e da Reuters que se tornou profissional britânico de guerra de informações adjacente à inteligência. Por muitos anos, Khan trabalhou em projetos secretos do Ministério das Relações Exteriores na Síria. Lá, ele fez campanhas secretas contra o público nacional e internacional, treinou jornalistas e ativistas da oposição ostensivamente independentes para se comunicar efetivamente com a mídia, e forneceu apoio à propaganda a numerosos grupos armados treinados, financiados e armados por Londres e Washington.

Perversamente, mas talvez sem surpresas, dada a sua história profissional, Khan é agora um componente influente e bem remunerado da indústria internacional de contra-desinformação. Ele e sua empresa recebem grandes somas de uma variedade de clientes proeminentes – nem todos anunciados – para uma variedade de serviços duvidosos, incluindo o gerenciamento de campanhas de astroturf on-line e a identificação de supostas propagandas estrangeiras e "operações de informação" apoiadas pelo governo inimigo on-line.

A Khan considera a Valent Projects como "uma agência digital integrada que trabalha com clientes que querem fazer o bem no mundo". Mas documentos internos da empresa passados a este jornalista revelam anonimamente que sua desinformação que estoura esforços equivalem a um mecanismo de censura estatal profundamente sinistro.

Não há indicação de que Khan forneceu redes sociais de suas conexões comerciais à USAID ao fazer representações a eles sobre suposto "comportamento inautêntico", "atividade coordenada" e contas de trolls e bots em suas plataformas – representações que resultam em ativistas independentes, jornalistas e outros sendo permanentemente suspensos, e dissidências esmagadas online.

Por definição, essa atividade representa uma grave, invisível e totalmente inexplicável ameaça à capacidade de jornalistas independentes, acadêmicos, ativistas e cidadãos comuns em todo o mundo serem ouvidos online, se suas perspectivas contrariarem narrativas ocidentais estabelecidas. E representa mais um exemplo sinistro de como as principais plataformas de mídia social foram insidiosamente cooptadas e corrompidas pelos interesses de segurança nacional.

PROMOVENDO NOSSOS HOMENS NO SUDÃO

O papel ativo da Valent em obrigar as principais plataformas de mídia social a tomar medidas contra "redes" de trolls e bots em outros lugares foi bem divulgado. Em junho de 2021, por exemplo, 53 contas no Facebook, 51 páginas, três grupos e 18 contas do Instagram no Sudão, com mais de 1,8 milhão de seguidores "que visavam o público interno", ligados a indivíduos associados a um partido de oposição nacional, foram sumariamente purgadas.

"Encontramos essa rede depois de revisar informações sobre algumas de suas atividades compartilhadas por pesquisadores da Valent Projects", afirma um relatório da Meta sobre "comportamento inautêntico" naquele mês.

Esta foi uma das muitas defenestrações em massa de usuários de mídia social no Sudão realizadas pelo Facebook no período entre o golpe de abril de 2019 que derrubou o presidente de longa data Omar al-Bashir, e a tomada de poder pelos militares em outubro de 2021, ao qual Valent era central ou próximo.

Esses relatos, geralmente associados a elementos da oposição no país, foram várias acções alegadas ter se envolvido em "comportamento inautêntico coordenado" ao disseminar conteúdo crítico ao governo militar e civil do país, "[promovendo] interesses russos" e outras atividades malignas.

Embora alguém seja perdoado por concluir a partir do relatório "comportamento inautêntico" da Meta de que Valent se aproximou da rede social em uma capacidade independente, a empresa estava de fato agindo em nome do Escritório de Iniciativas de Transição (OTI) da Agência da USAID, que "fornece assistência rápida, flexível e de curto prazo direcionada à transição política chave".

Este é um eufemismo orwelliano para facilitar a mudança de regime. Embora nunca tenha sido admitido no mainstream, e duramente negado por funcionários em Washington, a USAID desde sua criação em 1961 serviu como um Cavalo de Tróia da inteligência dos EUA, ajudando a CIA e outras agências a minar governos "inimigos".

A penetração da Agência no Sudão após o golpe de 2019 foi extensa. Um explicador oficial da USAID diz abertamente que o evento representou uma oportunidade "histórica" para "mais interesses dos EUA" no país e na região mais ampla, sugerindo fortemente que o governo civil e militar de compartilhamento de poder foi criado pela OTI.

A administração recebeu então amplo apoio financeiro e material da USAID, seus representantes coordenando estreitamente com o gabinete do primeiro-ministro sudanês para "combater a desinformação e a desinformação". A Agência também financiou meios de comunicação independentes e ONGs, e apoiou "civis que defendem reformas democráticas", a fim de reforçar seu governo.

Numerosos relatórios de organizações líderes de direitos humanos publicados durante os dois anos de operação do executivo documentaram corrupção desenfreada e abusos flagrantes de poder por parte das autoridades, incluindo repressão assassina a protestos, prisão de ativistas sem acusação ou julgamento e fechamento de meios de comunicação da oposição. No momento em que a administração se desintegrou, não conseguiu implementar quase todas as reformas institucionais e legais delineadas em sua carta constitucional fundadora.

No entanto, não se sabe disso a partir de declarações de autoridades americanas. Em setembro de 2021, a chefe da USAID e notória falcão de guerra Samantha Power saudou o "esperançoso... progresso" em "alcançar um futuro democrático, inclusivo e pacífico beneficiando todos os sudaneses".

Para dizer o mínimo, a USAID tinha um interesse significativo em manter essa ficção grosseiramente distorcida, e silenciar detratores do executivo de compartilhamento de poder. Foi, sem dúvida, calculado que Washington se envolveu abertamente em redes sociais convincentes para desplataformar os denigradores da administração de má reputação, porém, prejudicaria ainda mais sua legitimidade no país e no exterior.

Daí a necessidade de empregar Projetos Valent para atingir esse objetivo, e dar uma imprimatur legitimante de "expertise" ostensivamente independente à censura estatal insidiosa.

'DESINFORMAÇÃO, DIVISÃO E GUERRA'

Também há dúvidas sobre o papel de Valent na Guerra Civil da Etiópia, que se arrasta desde novembro de 2020, e a censura online em massa que acompanhou a luta amarga.

O que começou como uma escaramuça regional limitada na qual as forças do governo responderam a ataques à infraestrutura militar e atrocidades perpetradas contra civis pela Frente de Libertação Popular de Tigray (TPLF) eventualmente passaram a engolir grande parte do país. Um movimento político-cum-partido que governou o país entre 1991 e 2018, o novo governo em Adis Abeba designou o TPLF como um grupo terrorista.

Durante seu período no poder, o TPLF, apoiado pelos EUA, fez da Etiópia "um dos lugares mais inóspitos do mundo", realizando ações cruéis "com a marca dos crimes contra a humanidade", segundo a Human Rights Watch. Bilhões incontáveis fornecidos em ajuda financeira foram desviados por funcionários do Estado e espirituosos para fora do país, e a Etiópia tornou-se o segundo pior carcereiro de jornalistas do continente.

Este histórico notório se reflete na conduta do TPLF na guerra civil. O grupo cometeu inúmeras atrocidades, incluindo estupros de gangues e múltiplos massacres de civis, e usou crianças extensivamente como escudos humanos. No entanto, esses abusos mal foram reconhecidos pelos jornalistas ocidentais.

Os esforços do governo eleito para acabar com o derramamento de sangue, e o tempo no cargo em geral, não foram sem culpa. Mas a administração, evidentemente, representa uma mudança bem-vinda para os eleitores etíopes, que a reelegeram em um deslizamento de terra esmagador em meados de 2021, mesmo com a carnificina instigada pelo TPLF em ritmo acelerado. No entanto, os meios de comunicação corporativos têm consistentemente enquadrado a acusação das autoridades sobre a guerra como um ataque assassino e não provocado à população em geral, com acusações de fome artificialmente fabricada, atrocidades em massa e limpeza étnica, se não genocídio total repetidamente abundando – embora nunca comprovado.

Autoridades em Washington têm em intervalos regulares também aberta e ansiosamente defendido o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea sobre a Etiópia, se não botas dos EUA no chão. Tais comentários são comuns em acúmulos de intervenção militar ocidental.

Em novembro de 2021, o jornalista independente Jeff Pearce divulgou uma gravação vazada de uma cúpula secreta do Zoom no início do mês entre diplomatas atuais e antigos dos EUA, Reino Unido e da UE e um representante sênior da TPLF. Durante a reunião, o TPLF foi ativamente encorajado a avançar sobre a capital da Etiópia e tomar o poder via força, o que apenas confirmou suspeitas de que Adis Abeba havia sido designado por Washington para a mudança de regime.

Em resposta a essa agressividade, muitos etíopes, membros da grande diáspora do país, e repórteres e pesquisadores independentes foram às redes sociais e começaram a coordenar através de aplicativos de mensagens para combater a propaganda de guerra perpetuada por políticos ocidentais, jornalistas e think tanks, em prol da agressão e exploração dos EUA em todo o Chifre da África.

Sua luta coletiva deu origem ao movimento No More, seu nome um apelo conciso, mas poderoso, para acabar com a "desinformação, divisão e guerra" em Adis Abeba e além – uma hashtag correspondente se espalhou como fogo nas plataformas de mídia social, e serviu como um grito de guerra em muitos protestos nas principais capitais ocidentais, onde etíopes e eritreias marcharam lado a lado contra o conflito e a intromissão imperial.

Esses esforços desafiaram de forma muito eficaz o consenso dominante sobre a guerra civil, no processo de sublinhar amplamente o potencial poder da mídia independente e das redes sociais. Se não fosse pelo trabalho de Crusading de No More et al, parece quase certo que Washington teria encenado alguma forma de intervenção direta para ajudar o TPLF a derrubar o governo etíope.

Isso só pode ser considerado uma tremenda conquista para o poder das pessoas. Mas a Valent Projects tinha ideias muito diferentes. Entre os documentos vazados revisados pela MintPress está um relatório sobre "comportamento inautêntico" e "redes coordenadas" on-line relacionadas à guerra civil etíope produzida pela empresa em maio de 2022.

Ele enquadra o aumento sísmico do clamor popular nos últimos 18 meses como um "complexo e sofisticado esforço de manipulação on-line" por parte de Adis Abeba, com os governos chinês e russo "apoiando, se não dirigindo" vastos exércitos de contas de trolls e bots para apoiar essa atividade, e promulgando narrativas "anti-imperialistas" através das mídias sociais para manipular "audiências específicas, Como parte de uma "campanha de influência on-line orquestrada".

Os métodos pelos quais Valent chega a essas conclusões sensacionais deixam muito a desejar. Para ser franco, seu relatório é um patchwork mal tecido de falácias lógicas peculiares, teóricos da conspiração paranoica, não sequiturs, alegações difamatórias e falsas, conjecturas conspiratórias, julgamentos de valor não suportados e inexplicáveis, e erros analíticos amadores.

Por exemplo, a suposição inicial da empresa – por razões não declaradas – era a esmagadora maioria das contas tuitando #NoMore eram automatizadas. Sua equipe de pesquisa analisou, portanto, 150 contas que usaram a hashtag com mais frequência usando botômetro para validar essa hipótese.

Apenas 20% foram considerados bots "prováveis", obviamente indicando que a maioria dos usuários eram pessoas reais. Mas Valent, em vez disso, concluiu que a "operação" russa e chinesa era de fato tão sofisticada, "muitas contas inautênticas" simplesmente escapou da detecção.

Para reforçar essa conclusão duvidosa e autoperpetuante, Valent "isolou" 49 dessas contas, que exibiam dados de localização, e descobriu que 30 haviam tuitado de seis "locais idênticos, dentro e fora da Etiópia". Isso sugere que todos eles estavam sendo executados "por um grupo individual ou pequeno de atores", a fim de criar a falsa impressão de que as interações entre essas contas eram "conversas online orgânicas".

Um site supostamente ligado a várias contas era a mundialmente famosa Trafalgar Square. Valent cita isso como "um sinal claro de falsificação", embora uma explicação muito mais lógica seja que esses usuários simplesmente listaram Londres como sua localização em seus perfis.

Trafalgar Square marca o ponto de onde todas as distâncias até a capital britânica são medidas, e assim representa o epicentro da cidade. Pesquisas por "Londres" através de mapas online invariavelmente diretos para a área como resultado. Como nativo da cidade e residente até hoje, é notável que Khan aparentemente não sabia disso.

SUPRESSÃO DIRECIONADA

Uma planilha do Excel que acompanha lista um grande número de contas que tuitaram conteúdo relacionado à guerra civil, dividido pela Valent em "sementes" – "contas que produzem conteúdo original e o introduzem no discurso"; "super-spreaders – "contas que pegam esse conteúdo e o amplificam"; e "endossadores" – "contas que interagem com o conteúdo para dar a aparência de engajamento orgânico às interações". Cada usuário também recebe um ranking botômetro de cinco.

Entre os relatos estão dezenas de etíopes, incluindo acadêmicos e ativistas, e jornalistas e pesquisadores ocidentais anti-imperialistas. Grande parte da taxa de contingente etíope é altamente alta na escala botômetro, embora testes acadêmicos mostrem que o software é "impreciso quando se trata de estimar bots", produzindo volumes significativos de falsos positivos e negativos, "especialmente" então quando as contas tweetam em um idioma diferente do inglês.

Sublinhando a imprecisão do Botometer, a conta oficial do meio de comunicação independente Breakthrough News está classificada em 3,3 na escala de inautenticidade, e destacada na planilha em vermelho ameaçador.

A Descoberta e seus fundadores Eugene Puryear e Rania Khalek aparecem repetidamente no relatório. Em novembro de 2021, eles viajaram para Adis Abeba para realizar relatórios in loco sobre a situação, o que Valent afirma estranhamente ser o componente inicial de uma "fase" dedicada da "operação de influência política" da China e da Rússia relacionada à guerra civil.

Isso se baseia na base falsa de que a tomada – que não recebe financiamento estatal ou corporativo, e é financiada principalmente através de doações e assinaturas de espectadores – é na verdade "apoiada pela Rússia".

A existência de tal "fase" é reprimida pela observação de que outras figuras falsamente acusadas de estarem "ligadas aos interesses do Estado russo" também se tornaram "mais ativas na formação do discurso" nas mídias sociais neste momento, empurrando uma narrativa "anti-imperialista" para "públicos de esquerda".

Mais uma vez, uma explicação totalmente mais sã poderia ser que o interesse e a produção de ativistas e jornalistas anti-imperiais e independentes foram estimulados por desenvolvimentos contínuos na crise, e eles relataram sobre eles em conformidade. Afinal, novembro foi quando a já mencionada gravação bombástica vazou e quando o TPLF simultaneamente expressou um desejo publicamente de empurrar para Adis Abeba.

Esse foi certamente o caso em meu respeito. Destaco-me proeminentemente no relatório como resultado de ter publicado independentemente um boletim substack sobre a gravação vazada, e Valent nivela uma série de acusações selvagens contra mim. Por exemplo, uma série de tweets sobre a empresa e Khan postados no início de dezembro de 2021 é enquadrado como um "ataque doxxing" que "demonstrou uma consciência das operações internas da Valent" e "sugeriu acesso às informações obtidas através de links de espionagem/segurança".

A "sofisticação" desse "ataque", argumenta o relatório, "reforça ainda mais a visão" de que a Rússia estava gerenciando uma "operação pró-etíope" de alto nível nas mídias sociais, apesar dos tweets estarem completamente sem relação com a Etiópia, e este jornalista não ter a menor ideia de que a empresa estava envolvida em trabalhos relacionados à guerra civil neste momento.

O relatório continua lamentando que, apesar de Valent relatar esses tweets no Twitter, a empresa não tomou nenhuma ação, o que se diz sugerir "uma falta de compromisso por parte da plataforma para aplicar suas políticas declaradas". Na realidade, a falha de resposta do Twitter foi provavelmente devido às informações incluídas nos tweets que estão sendo obtidas dos mecanismos de busca da internet e de recursos acessíveis publicamente, como o LinkedIn, e, portanto, nenhuma regra realmente foi quebrada.

‘TRANSIÇÃO POLÍTICA CHAVE'

Tal irracionalidade, inaptidão e incompetência seria divertida, exceto o enquadramento de valente de atividades online legítimas e orgânicas por atores genuínos da sociedade civil como atores da sociedade civil genuína como malignos, orquestrados, falsificados, inimigos dirigidos pelo Estado e em violação das regras estabelecidas da plataforma poderia muito bem ter influenciado as plataformas de mídia social a suprimir, se não a proibição total de um grande número de usuários, distorcendo perspectivas públicas e prejudicando reputações e meios de subsistência no processo.

Jornalistas independentes nomeados em documentos valentes, como o colaborador da Sputnik Wyatt Reed, disseram à MintPress que seu alcance online ruiu depois que eles relataram sobre a guerra civil. Muitas das contas sinalizadas pela Valent como bots – provavelmente erroneamente – foram permanentemente suspensas. Outros proeminentes ativistas pró-etíopes não nomeados no relatório, incluindo o cofundador do No More Simon Tesfamariam, também foram banidos sem aviso, explicação ou recurso. Enquanto isso, figuras proeminentes se envolveram em um discurso de ódio sobre os etíopes e nenhuma ação foi tomada.

Rania Khalek também alega que houve um "enorme mergulho" nas visualizações de vídeos inovadores relacionados à Etiópia depois que eles viajaram para Adis Abeba, apesar de sua produção inicial sobre a crise gerando um grande número. Jeff Pearce, que está listado na planilha como "historiador/propaganda [sic]", acredita que sua conta no Twitter agora será banida. Pearce disse à MintPress que,

Estou muito chateado que Valent tem a ousadia de difamar a mim e aos meus colegas como ativos do Kremlin, ou parte de alguma operação de informação dirigida por Moscou. É mais do que ridículo e insultante. Eu condenei publicamente a invasão da Rússia à Ucrânia em várias ocasiões – você pode assistir a um discurso que fiz sobre a guerra no início deste ano no meu canal no YouTube."

"Viajamos à Etiópia várias vezes, entrevistamos testemunhas, investigamos massacres, vimos hospitais, universidades e museus vandalizados e saqueados pelo TPLF", acrescentou. "Publiquei documentos que provam que os funcionários da ONU ignoraram crimes de guerra e não fizeram nada para ajudar seus próprios funcionários quando foram agredidos e sequestrados. Você pode fazer o que quiser, mas não pode transformar a realidade de mais de 100 milhões de pessoas."

CONTRA-DESINFORMAÇÃO COMO GOLPE DE ESTADO

Se o trabalho de Valent na Etiópia também foi conduzido para a USAID é uma questão aberta, mas os paralelos com suas operações sudanesas são claros e coaduns. Pode ser significativo que Samantha Power tenha sido uma das vozes mais proeminentes agitadas pela intervenção dos EUA na guerra civil, declarando em agosto de 2021 que "todas as opções estão sobre a mesa" para lidar com a crise.

Além disso, o relatório Valent sobre "comportamento inautêntico" afirma que a empresa identificou "operações de informação no Oriente Médio e na África", enquanto outros documentos vazados referem-se a Valent ajudando a "apoiar governos recém-democratizados" a lidar com a "desinformação" para a USAID – sugerindo que vários outros países, e suas populações, na mira da Agência, também estiveram na linha de fogo da visão distorcida de Khan.

É evidente que há uma necessidade urgente de que as plataformas de mídia social revisem toda e qualquer suspensão motivada por informações fornecidas pela Valent Projects. É inevitável que um número incontável de jornalistas, ativistas, acadêmicos e vozes autênticas da sociedade civil tenham sido expurgados nos motivos mais absurdos e injustos imagináveis como resultado das intervenções de Khan. A única questão é quem foi o alvo, e onde.

UCRÂNIA NO CÉREBRO

Em 7 de junho, foi revelado que Khan também estava trabalhando em estreita colaboração com o jornalista britânico Paul Mason em um esforço para desplataformar a Zona Cinza, como parte de uma cruzada pessoal mais ampla contra a anti-guerra, anti-imperialista que restou sobre a questão da Ucrânia.

E-mails vazados entre os dois expuseram como Mason sugeriu submeter a Grayzone – que ele acreditava ser uma operação de inteligência chinesa e bizarramente – para "desplataforma implacável" através de ataques "legais nucleares completos", sondas oficiais por órgãos do governo e cortar o site e seus colaboradores de fontes de doação online, como PayPal.

Este foi um destino que a MintPress News, seu fundador Mnar Adley e o escritor sênior Alan MacLeod sofreram em maio deste ano – um desenvolvimento notório mason falou de aprovação nos e-mails vazados. Na realidade, a MintPress não apoia o governo russo, e funcionários como MacLeod condenaram publicamente Vladimir Putin por suas ações.

No entanto, o conflito na Ucrânia aumentou o poder dos governos ocidentais de ditar diretamente o que é ou não é verdade, e quais são suas populações e não podem saber, exponencialmente. No entanto, sua capacidade de distorcer e censurar no exterior é limitada, se não totalmente em declínio – e é aí que entra a Valent Projects.

Como tal, os documentos vazados revisados pela MintPress iluminam um propósito até então inexplorado de supressão on-line e desplataforma: mudança de regime. Filtrando pontos de vista problemáticos e fatos inconvenientes nos países-alvo, os governos podem ser desestabilizados, e quem ou o que os substitui entrincheirados no poder, com audiências nacionais e estrangeiras privadas de acesso a todo e qualquer ponto de vista crítico.

À medida que a Nova Guerra Fria se torna consideravelmente mais quente a cada dia, os serviços de Khan certamente se tornarão cada vez mais procurados. Nem ele nem seu estado e patrocinadores quase estatais podem ter sucesso.

segunda-feira, 11 de julho de 2022

AFUNDANDO A PAZ NA EUROPA

No momento em que os Anglo-Saxões conseguiram já excluir a Rússia do Conselho da Europa, e se aprestam para a impedir de participar nas reuniões da OSCE, manobram agora para afundar a União Europeia ao criar uma estrutura concorrente na Europa Central : A Iniciativa dos Três Mares. Ao fazê-lo, retomam um velho projecto polaco que visa desenvolver essa região preservando-a de qualquer influência alemã ou russa.


Por Thierry Meyssan

O Conselho de Chefes de Estado e de Governo da União Europeia decidiu, em 23 de Janeiro de 2022, conceder à Ucrânia o estatuto de país candidato à adesão. A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, precisou que o caminho será longo (a Turquia tem este estatuto há 23 anos) para elevar este país ao nível exigido pela União, tanto em matérias económicas quanto políticas.

O gabinete do Presidente ucraniano havia já especificado que Kiev não espera ingressar na União, hoje ou amanhã, porque dispõe de um outro projecto, mas que o estatuto de candidato abre a via a um forte apoio financeiro de Bruxelas para que se possa aproximar dos padrões da União.

Com efeito, a Ucrânia partilha o projecto polaco (polonês-br) da Intermarium : uma aliança de todos os Estados situados entre o Mar Báltico e o Mar Negro.

A INTERMARIUM CONTRA A UNIÃO EUROPEIA

Este projecto assenta quer numa realidade geográfica como num passado histórico: a « República das duas Nações » (Coroa da Polónia e Grão-Ducado da Lituânia) dos séculos XVI a XVIII. Ele foi formulado a primeira vez durante a Revolução Polaca de 1830, pelo Príncipe Adam Jerzy Czartoryski, depois durante o período entre guerras pelo General polaco Józef Piłsudski, sob o nome de « Federação Międzymorze ». Piłsudski concebeu paralelamente uma ideologia visando libertar todos os povos da Europa Central da sua integração nos impérios germânico e sobretudo russo, o « prometeísmo ». Tal como o Titã, ele prometia aos homens progresso técnico que lhes permitisse libertarem-se dos seus suzeranos. Na prática, ele preferia os Germânicos aos Russos e não hesitou em aliar-se aos Austro-Húngaros e aos Alemães contra o Czar. Em 2016, uma terceira versão deste projecto foi apresentada pelo Presidente polaco, Andrzej Duda, sob o nome de «Iniciativa dos Três Mares » (o terceiro mar é o Adriático). Participaram nela onze estados. Eles passaram a doze há poucos dias.

Este projecto oferece, em princípio, uma resposta política legítima à ausência de fronteiras físicas na grande planície da Europa Central: mais vale unir-se do que se submeter ou fazer a guerra. No entanto, as coisas não são tão claras como parece : a República das duas Nações era uma confederação que permitia tanto ao Reino como ao Grão-Ducado manter o seu próprio funcionamento, enquanto Piłsudski concebia uma Federação na qual todos os povos se fundiriam e onde os Polacos teriam o predomínio. Todos os movimentos nacionalistas da Europa Central se referem à República das duas Nações, mas tiram daí conclusões muito diferentes.

Para os banderistas ucranianos, a República das Duas Nações é a herdeira da Ruténia criada pelos Vikings suecos, os Varégues ( ou Varangianos-ndT), o que é um pouco exagerado na medida em que seus territórios não se sobrepõem. Quando muito, pode dizer-se que culturalmente essas entidades têm pontos comuns. Para o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelenski, a República das Duas Nações é um bom exemplo de confederação que permite libertar-se ao mesmo tempo da Rússia... e da Alemanha que domina a União Europeia.

É por causa dos dirigentes políticos polacos e ucranianos apostarem neste projecto comum de Confederação Intermarium que o Presidente Zelensky pôde considerar, sem corar, ceder a Galícia Oriental à Polónia [1]. No entanto, em ambos os países, a extrema direita (no sentido totalitário do período entre guerras) pretende usar essa política para fazer avançar as suas ideias raciais.

A Polónia jamais jogou o jogo da União Europeia, da qual é membro desde 2004. Durante o seu período de candidatura à União, não hesitou em encaixar somas enormes, destinadas a reformar a sua agricultura, e em gastá-las para comprar aviões de guerra norte-americanos e ir fazer a guerra no Iraque sob ordens de Washington. Este truque de mãos havia sido concebido pelo Americano-Polaco Zbigniew Brzezinski e pela Americana-Francêsa Christine Lagarde [2]. Nada mudou: hoje Varsóvia está em perpétuo litígio com Bruxelas, nomeadamente a propósito do seu sistema judicial. A Ucrânia não terá qualquer problema em fazer o mesmo jogo duplo.

Este é o problema principal dos povos da Europa Central : eles procuram, legitimamente, afirmar-se sem os seus grandes vizinhos russo e alemão, mas não conseguem assumir-se sem lutar contra eles. No passado, esta doença pressionou-os sempre a confrontarem-se entre si.

O Príncipe Adam Jerzy Czartoryski acabou a sua vida no exílio em Paris e o General Piłsudski estabeleceu a sede do seu movimento prometeico igualmente em Paris. Em ambos os casos, tratava-se de escapar, ao mesmo tempo, à Alemanha e à Rússia. A lembrança deste período deu lugar, em 1945, à criação de uma rede de emigrantes da Europa Central trabalhando primeiro para o Vaticano, depois para os Serviços Secretos franceses e finalmente para os Anglo-Saxões (rede igualmente denominada Intermarium [3]). Reuniu os principais dirigentes em fuga aos Ustashas croatas, à Guarda de Ferro romena etc. Depois, em 1991, foi a constituição do « Grupo de Visegrád » (Hungria, Polónia, República Checa e Eslováquia). Hoje, os partidários deste projecto viram-se para os Anglo-Saxões, daí o apoio de Washington e Londres a Varsóvia e a Kiev. Assim, a Cimeira (Cúpula-br) da Iniciativa dos Três Mares em Varsóvia, em 2017, recebeu o Presidente norte-americano, Donald Trump. Enquanto que na Cimeira de 20 de Junho de 2022, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, intervindo por vídeo, solicitou e obteve de imediato a adesão do seu país.

O interesse dos Anglo-Saxões pelo projecto Intermarium é antigo. Um dos pais da geopolítica anglo-saxónica, Sir Halford Mackinder, havia identificado a Europa Central como o coração (Hartland) da Eurásia. Para ele, o Império Britânico só poderia controlar o mundo controlando primeiro esta região. Um dos seus discípulos, o Primeiro-Ministro Boris Johnson, precipitou-se pois para Kiev a fim de dar o seu apoio ao Presidente Zelensky. Todos os geopolíticos anglo-saxões retomaram as ideias de Mackinder, incluindo, é claro, Zbigniew Brzezinski, o qual foi com o Straussiano Paul Wolfowitz uma das duas principais figuras do colóquio de Washington, em 2000, que marcou a aliança entre os Estados Unidos e a Ucrânia [4].

Infelizmente, aqueles que empurram os Estados Unidos para o apoio do projecto Intermarium são figuras representativas do nacionalismo de extrema-direita. Assim, os conselheiros dos Presidentes Dwight Eisenhower e Ronald Reagan que os levaram a adoptar o conceito de « nações cativas (da URSS) » eram todos antigos colaboradores dos nazis, membros do Bloco das Nações Anti-Bolcheviques [5] ; os que organizaram o pré-citado congresso de 2000 foram os seus filhos; e hoje o mais importante deles é o Americano-Polaco Marek Jan Chodakiewicz, que não parou de minimizar os crimes dos nazis [6].

Todos os membros da Iniciativa dos Três Mares são membros da UE, salvo a Ucrânia. A maior parte considera espontaneamente que ela é para eles muito mais importante do que a UE, embora não tenha os mesmos meios. O facto de a Ucrânia ter a ela aderido três dias antes do reconhecimento do seu estatuto de candidato à UE atesta não só que essa é mais importante para ela, mas também que Bruxelas percebeu muito bem que devia aceitar todos os membros da Iniciativa dos Três Mares para não perder nenhum.

A prazo, esta lógica deverá levar os membros da Iniciativa dos Três Mares a deixar colectivamente a UE quando ela já não lhes for financeiramente proveitosa, porque jamais partilharam os seus objectivos políticos.

Desde logo, toda a arquitetura de segurança do continente é posta em causa. Ela repousava sobre dois pilares, por um lado o Conselho da Europa e por outro a Organização para a Cooperação e Segurança na Europa.

A RÚSSIA EMPURRADA PARA FORA DO CONSELHO DA EUROPA

O Conselho da Europa foi criado em 1949. Tratava-se para certos fundadores de basear a unidade europeia em princípios jurídicos comuns através de um Conselho de Estados e para outros, via uma Assembleia de parlamentares. No fim, juntaram os dois projectos, mas à época mantiveram fora os Soviéticos e seus países irmãos. A Rússia e os membros do Pacto de Varsóvia aderiram logo após a queda do Muro de Berlim.

Este Conselho dotou-se de duas instituições emblemáticas. Em primeiro lugar, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH). Infelizmente, este politizou-se no decurso dos últimos meses, manifestando uma evidente parcialidade face à Rússia. Por exemplo, reconheceu em Janeiro o direito de um cidadão russo cuspir no retrato oficial do Presidente da Federação da Rússia ( Processo Karuyev v. Rússia). Ou ainda, em Fevereiro de 2022, o direito de um cidadão russo perturbar uma manifestação pró-Putin exibindo um cartaz « Putin, melhor que Hitler! » ( Processo Manannikov v. Rússia). E acaba de censurar a lei russa que foi adoptada após as revoluções coloridas exigindo que as organizações políticas financiadas do estrangeiro o exibam em todas as suas publicações (Processo Ecodefence e outros v. Rússia).

A outra grande instituição, é a Comissão de Veneza que ajudou os Estados recém-independentes a assimilar as regras democráticas —Comissão que, diga-se de passagem, não tem parado de chamar a atenção da Ucrânia sobre os seus procedimentos administrativos e institucionais. [7]—.

Em última análise, os Ocidentais suspenderam o direito de voto da Rússia no Conselho da Europa com a alegação que esta estaria a tentar anexar a Ucrânia pela força. Ao que a Rússia, estupefacta, respondeu que jamais teve essa intenção e que se retirava de uma instituição que se tornara partidária.

A RÚSSIA IMPEDIDA DE PARTICIPAR NAS REUNIÕES DA OSCE

A outra plataforma intergovernamental é a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Ela foi criada por ocasião dos Acordos de Helsínquia, em 1973. Ao contrário das Nações Unidas, não é um local de arbitragem, mas apenas um fórum que permite a todos os actores do continente falar entre si livremente. Foi ela, por exemplo, que adoptou a Declaração de Istambul de 1999, também conhecida como « Carta da Segurança na Europa », que estabelece os dois grandes princípios (1) o direito de cada Estado escolher os aliados a seu gosto e (2) o dever de não ameaçar a segurança alheia garantindo a sua; princípios cujo desrespeito está na raiz do conflito entre os Estados Unidos e a Rússia [8].

Lembremos que a Federação Russa nunca contestou o direito de ninguém em aderir à OTAN, mas o dos membros da OTAN em albergar bases militares norte-americanas. Os nossos leitores lembram-se que quando o Ministro russo dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br) da Rússia, Serguei Lavrov, escreveu a cada um de seus « parceiros » para lhes perguntar como conciliavam os dois princípios de Istambul com a instalação de equipamentos e pessoal militar norte-americanos na proximidade da Rússia nenhum ousou responder-lhe.

No entanto, a neutralidade deste fórum foi violada no mês de Abril quando novos funcionários da OSCE, mais precisamente antigos militares da OTAN, foram apanhados (pegos-br) em flagrante delito de espionagem no Donbass [9].

Como se isso não bastasse, o Reino Unido acaba de recusar os vistos necessários à delegação russa que devia assistir à Assembleia parlamentar anual da OSCE, de 2 a 6 de Julho de 2022, em Birmingham. Londres, que viola as suas obrigações, refugiou-se atrás das sanções nominais da União Europeia contra cada membro da delegação.

Por consequência, não apenas os documentos assinados pelos 57 Chefes de Estado e de Governo da OSCE deixaram de ter valor, como a administração desta organização se tornou numa arma de guerra e, em última análise, deixará de desempenhar o seu papel de fórum.

A arquitetura de segurança do continente europeu transforma-se, portanto, radicalmente. A prazo, a Europa Central irá formar um bloco, primeiro no seio da União Europeia e de seus candidatos, depois fora da União. A sua Defesa será garantida pelos Estados Unidos. Enquanto tal, as duas partes do continente, Ocidental e Oriental, deixarão de se comunicar. Isto será o culminar do plano dos geopolíticos anglo-saxões. Mas este projecto, se for concretizado, será instável. Primeiro, os Europeus Ocidentais tiveram sempre necessidade da Rússia e, depois, os povos da Europa Central viveram durante muito tempo num campo de batalha. Quando os Cavaleiros Teutónicos e os Cossacos não se enfrentavam no seu território, eles batiam-se entre si. Para que uma paz seja duradoura é preciso haver respeito por todos os protagonistas. Ao destruir todas as instituições de Segurança do continente, torna-se inevitável um conflito generalizado.


Fonte: Rede Voltaire


[1] “A Polónia e a Ucrânia”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 14 de Junho de 2022.


[2] «Con Christine Lagarde, la industria estadounidense entra al gobierno francés», por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 29 de junio de 2005.


[3] Unholy Trinity: The Vatican’s Nazis, Soviet Intelligence and the Swiss Banks, Mark Aarons & John Loftus, ‎St Martin’s Press (1998).


[4] “Ucrânia : a Segunda Guerra mundial continua”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Abril de 2022.


[5] Old Nazis, the New Right, and the Republican Party, Russ Bellant, South End Press (1991).


[6] lntermarium: The Land between the Black and Baltic Seas, Marek Jan Chodakiewicz, Routledge (2012).




[8] “A Rússia quer obrigar os EUA a respeitar a Carta das Nações Unidas”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Janeiro de 2022.


[9] “A OSCE expulsa de Lugansk por espionagem”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 19 de Abril de 2022.

domingo, 3 de julho de 2022

A PREPARAR AS NOSSAS CABECINHAS PARA A GUERRA NUCLEAR




Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 01/07/2022

1. Reunido em mangas de camisa num castelo alemão, o G7 actualizou as sanções à Rússia e as novas verdades sobre a guerra. De facto, foi o G7+1, pois, como sempre, Zelensky esteve presente por vídeo para pedir mais e mais sofisticadas armas, a tempo de poder decidir a guerra antes do Inverno.
Ficou-se a saber que, só dos americanos, ele recebe todos os meses armamento no valor de 7,5 mil milhões de dólares — um festim para as Lockheed Martin dos Estados Unidos. No final e sobre um horizonte de ruínas, alguém há-de ter de pagar isto e suponho que não sejam só os contribuintes americanos, mas todos os da NATO.

2. Na sua intervenção, Zelensky informou os outros de que na véspera os russos tinham atacado com mísseis um centro comercial onde se encontravam mil civis: dez tinham morrido nesse dia, 18 até hoje. Os russos argumentaram que não tinham atacado nenhum centro comercial mas sim um depósito de armas que ficava ao lado e que, ao incendiar-se, atingira com destroços o centro comercial. Como é óbvio, essa versão foi imediatamente descartada, em favor do “crime de guerra”.

3. Ao mesmo tempo que acrescentava o ouro à lista de bens russos cuja exportação passa a ficar proibida, o G7 insurgiu-se contra “o roubo e impedimento das exportações de cereais” ucranianos por parte da Rússia.

E depois de algum imbecil ter dito que pela primeira vez na História a Rússia utilizava a fome como arma de guerra (nunca terá ouvido falar de cercos nem de bloqueios de portos durante as guerras), desta vez o G7 “apelou” à Rússia para levantar o bloqueio aos portos ucranianos do Mar Negro, com Odessa à cabeça. Mas há aqui o típico problema da pescadinha: os russos nunca disseram que impediriam os navios-mercantes de irem buscar os cereais aos portos ucranianos, mas que o que impede isso é eles estarem minados pelos ucranianos. E estes, por sua vez, dizem que se retirarem as minas ficam indefesos perante a frota russa ao largo, pelo que a única saída seria a retirada desta. Mas para onde iria a frota russa? A resposta lógica era para ali ao lado, para a Crimeia e para o abrigo da sua base naval de Sebastopol. Mas isso não tranquilizaria os ucranianos, pois os russos poderiam regressar rapidamente a Odessa. A única coisa que os tranquilizaria era que a frota russa do Mar Negro se retirasse toda dali, atravessasse o Estreito e entrasse no Mediterrâneo — onde, não dispondo de nenhuma base, lhe restaria navegar meio mundo e ir acolher-se à outra costa marítima russa, no Báltico. Ou seja, abandonar o Mar Negro, onde está desde Catarina, a Grande, e deixar a sua costa sul e a Crimeia exposta a ataques navais dos seus inimigos — coisa que Moscovo, obviamente, jamais aceitará. A única solução é, pois, negociar com Putin, coisa que ninguém do lado “justo” quis ou quer fazer, seja qual for a razão. Fazê-lo passar sempre, não apenas pelo responsável pelo desencadear da guerra, que é, mas também pelo criminoso de guerra sempre à mão, é muito mais eficaz tendo em vista o objectivo final.

4. Por iniciativa dos Estados Unidos, os membros do G7 e não só mantêm congelados 300.000 milhões de dólares de reservas russas em bancos ocidentais. Putin respondeu parcialmente decretando que o serviço da dívida externa russa passaria então a ser pago em rublos. Assim fez esta semana, pagando em rublos uma tranche de 100 milhões de dólares à empresa privada que, por sua vez, deveria pagar aos detentores da dívida.

Seguindo ordens de Washington, a empresa não o fez e a Rússia foi declarada em default — a primeira vez desde a Revolução de 1917. Mas o mesmo G7 que acusou a Rússia de ter “roubado” a Ucrânia por ter vendido uma pequena parte de cereais que estavam na Mariupol conquistada aprovou uma ajuda económica de €27 mil milhões à Ucrânia até ao final deste ano, que será em parte financiada com o dinheiro das reservas russas “congeladas”. Congeladas, apropriadas e distribuídas, por ordem de nenhum tribunal, ao abrigo de nenhuma lei internacional e por resolução de nenhum organismo com competência para tal.

5. Por sugestão da secretária do Tesouro norte-americana, Janet Yellen, o G7 decidiu também começar a trabalhar num plano para estabelecer um tecto máximo ao petróleo e gás natural importado da Rússia. Convém recordar que antes de 24 de Fevereiro, a Europa importava 27% do petróleo e 75% do gás natural da Rússia, através do Nordstream I, a preços baratos e com poluição zero no transporte, e preparava-se para abrir o Nordstream II, uma parceria russo-alemã, que Joe Biden, na cara do chanceler Olaf Scholz, declarou imediatamente cancelada. E convém recordar também que os Estados Unidos, desde que adquiriram a tecnologia para explorar o shale gas (gás de xisto), se tornaram auto-suficientes em petróleo e gás, que agora irão exportar para a Europa substituindo-se aos russos, vendendo mais caro, com custos de transporte acrescidos e sendo que o gás deles, o GNL (gás natural liquefeito), envolve a construção de terminais próprios de armazenamento e é o combustível com maior impacto no aquecimento da atmosfera.

Mas, como disse Ursula von der Leyen, “a nossa reflexão estratégica, enquanto democracias, é a de construir o mundo de amanhã com parceiros que partilham das mesmas ideias”, exemplificando, no campo da energia, com os Estados Unidos, o Azerbaijão e o Catar (“Le Monde Diplomatique”, Junho). E poderíamos acrescentar a ‘democracia’ venezuelana, com quem a Administração Biden já abriu negociações com vista a levantar o embargo às exportações de petróleo.
A História está cheia de episódios destes, em que depois da tragédia acontecer, todos se perguntaram “porque é que não vimos o que ia acontecer, porque é que ninguém fez nada para o evitar”. A diferença é que nas tragédias anteriores não havia o factor nuclear.

Obviamente, a proposta de limitar o preço da energia não se aplica a todos os produtores, mas apenas aos russos. Para os outros, nomeadamente os nossos amigos americanos, grandes ganhadores económicos desta guerra, bem podem os europeus, os grandes sacrificados, juntamente com os africanos esperar em vão qualquer sinal de solidariedade: ela vai toda para a Ucrânia e para a NATO.

Resta saber o que têm os russos a dizer a esta extraordinária proposta dos sete senhores em mangas de camisa que deveriam representar as sete democracias liberais mais prósperas do mundo. Porque tudo isto é de uma imensa hipocrisia: a Europa continua a precisar desesperadamente da energia e dos cereais russos, mas, a reboque da NATO e dos Estados Unidos, embarca em bravatas que não apenas contrariam todos os princípios do seu credo liberal, como põem em risco a sua sobrevivência económica por décadas e todas as belas promessas de combate às alterações climáticas, agora substituídas pela reactivação em força das centrais a carvão (defendida até pelos Verdes alemães).

E se Putin se põe a fazer contas ao dinheiro que tem em caixa e ao tempo de guerra que ainda tem pela frente e decide, pura e simplesmente, cortar a energia à Europa?

6. Quem é que manda hoje na Europa? É Boris Johnson? Não, graças a Deus, é inglês. Macron? Não, capitulou em Kiev, juntamente com Draghi. Scholz? Não, é um homem perdido em tudo: ideias, estratégia, parceiros. Von der Leyen? Não, é um peão dos americanos, em cujas mãos pôs o destino da Europa, daqui para a frente condenando a UE e ela própria à irrelevância. Quem manda na Europa é o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg. Diferentemente de Ursula von der Leyen, ele não é peão dos americanos, é parceiro estratégico deles. E se também subjugou a Europa aos interesses americanos, não foi por falta de visão ou de cautela, foi por convicção, porque esse era o seu objectivo. Stoltenberg é o governador americano da Europa. Ele é quem aparece em todo o lado, anuncia, manda e decide tudo: que a Força de Intervenção Rápida da NATO se vai multiplicar por oito e encostar-se às fronteiras russas, numa típica manobra ‘defensiva’, igual à que conduziu à invasão da Ucrânia; quanto é que isso, mais o reapetrechamento militar, vai custar a cada membro da organização; como é que serão de futuro as relações de cada um com a China (de desconfiança e pré-confronto, já o disse); que leis é que a Suécia tem de alterar para passar a declarar os refugiados curdos como ‘terroristas’, como impõe o sultão Erdogan — esse paladino da paz e dos direitos humanos e que, ao contrário de Putin, não alimenta qualquer desejo de reconstruir um império passado.

Tudo isto, todo este imenso poder, Stoltenberg conquistou-o em breves quatro meses que tudo mudaram, tirando partido da reforma de Merkel na Alemanha, da escabrosa leviandade de Boris Johnson e da senilidade galopante de Joe Biden. E, sobretudo, do trágico e imperdoável erro de cálculo de Vladimir Putin. E tudo isto, todo este poder, todas estas decisões, todas estas mudanças nas nossas vidas, ele impôs aos europeus sem nunca nos consultar, sem nunca nos perguntar nada, apenas manobrando entre os grandes e explorando as suas fraquezas disfarçadas de forças.

Se ninguém o travar, este norueguês que se tornou dono da Europa sem que nenhum europeu tivesse votado nele vai-nos levar até à guerra nuclear com a Rússia. A História está cheia de episódios destes, em que depois da tragédia acontecer todos se perguntaram “porque é que não vimos o que ia acontecer, porque é que ninguém fez nada para o evitar”. A diferença é que nas tragédias anteriores não havia o factor nuclear.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

O OCIDENTE EM DECOMPOSIÇÃO



Por José Goulão

O mundo está a encolher para o Ocidente, esse conceito geopolítico que ignora limites geográficos e pretende submeter o resto do mundo às suas «regras» e «valores partilhados», entre os quais o militarismo, o desprezo pelas pessoas, o expansionismo, a rapina de recursos naturais, a submissão ao casino financeiro e a um papel-moeda de que se desconhece o valor real, a cultura da guerra, a civilização única e cada vez mais alienante.

Direitos humanos e democracia-liberal? Bem, direitos exclusivos de uns humanos que são bastante mais humanos que os outros, a esmagadora maioria; e democracia realmente neoliberal, quer isso dizer assegurada por rituais cumpridos segundo guiões capazes de garantir o domínio absoluto das oligarquias e a financeirização da sociedade de modo a que as pessoas sejam mais abjectos que sujeitos. A maioria vota de tempos a tempos nos «vocacionados» para o poder que garantem esse desfecho, recomendados com recurso a métodos tão ilegais como asfixiantes pela propaganda institucional e a comunicação social de orientação única; o remanescente serve para compor o ramalhete do pluralismo virtual e pronto, respeita-se assim o único regime político aceitável e acima de qualquer crítica.

O mundo está a encolher para o Ocidente por ser essa a ordem natural das coisas uma vez que, em boa verdade, nenhum império sobreviveu às leis do tempo e às dinâmicas da História; e também por causa dos comportamentos do próprio Ocidente perante a guerra que em 2014 levou até à Ucrânia, embora queira fazer acreditar que o conflito se iniciou apenas em 24 de Fevereiro deste ano. Essa é mais uma mentira numa realidade de mentiras em que o próprio Ocidente vive, chegando a acreditar nela; e certamente por isso estamos a assistir a sucessivas rajadas nos próprios pés, acelerando o processo de transformação mundial e condenando o concílio dos senhores do mundo a um processo gradual de decomposição.

Uma clique dirigente à deriva

Apesar de a União Europeia ser conhecida como uma entidade antidemocrática – gerida por executivos não eleitos – autoritária, austeritária, ao serviço de uma percentagem ínfima da sociedade e desprezando os povos com uma arrogância cada vez mais ditatorial, será difícil encontrar na sua história uma clique dirigente tão incompetente e incapaz como a actual – onde ninguém se salva. Esta coincidência que não surpreende, uma vez que a chamada «classe política» é cada vez mais um palanque para medíocres convencidos, gera resultados muito mais trágicos do que em circunstâncias comuns porque se manifesta num momento crucial para a Europa e o mundo; uma época em que não será aconselhável proceder sem estratégia, à deriva, cumprindo ordens ditadas por interesses alheios e contraditórios, com a agravante de essa casta apodrecida o fazer com uma agressividade raivosa e irracional num cenário quase exclusivamente de faz-de-conta. E, contudo, é o futuro de todos e do planeta que está em causa.

Num momento em que sobretudo algumas publicações norte-americanas e britânicas ditas de «referência» começam a reconhecer que a guerra na Ucrânia parece não estar a decorrer segundo os planos e a propaganda ocidental, os dirigentes da União Europeia mantêm-se em negação dessa provável realidade e insistem no reforço das sanções à Rússia e no envio de armas para o regime falido de Kiev e o aparelho nazi que o sustenta. Ouvem-se, é certo, alguns apelos à realização de negociações de paz, designadamente da Itália, mas não passam ainda de vozes a pregar no deserto. A insistência na guerra continua a ser a perigosa aposta da casta dirigente europeia, sempre subserviente ao gang belicista que controla o teleponto do presidente Biden, ignorando até a voz avisada e experiente do dinossauro Henry Kissinger apelando à realização de negociações no prazo máximo de dois meses.

Kissinger sabe, como o sabem também os militares ucranianos que, à revelia de Zelensky e dos corpos nazis, tentam chegar a negociações com Moscovo, que o prolongamento da guerra torna cada vez mais sombrio o futuro da Ucrânia e dos interesses europeus e norte-americanos apostados em «enfraquecer a Rússia». Pode chegar-se ao limite de as necessárias e fundamentais iniciativas diplomáticas chegarem tarde de mais para a dinâmica militar russa, situação que será um triunfo caído dos céus para os círculos mais nacionalistas, reaccionários, expansionistas e neoczaristas de Moscovo capazes de superar o próprio Putin nessas tendências. O maior aliado desses extremistas continua a ser o socialista que faz de chefe da «diplomacia» da União Europeia, Josep Borrell, para quem a guerra em curso só tem solução militar. Uma sentença que continua a prevalecer em Bruxelas.

A obsessão de impor sucessivos pacotes de sanções contra a Rússia é outro sinal da vocação suicida dos dirigentes da União Europeia e que afectará duramente os povos dos Estados membros e de todo o continente, que não as oligarquias e respectivos serventes.

A incompetente mas arrogante presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Layen, disse há poucos dias que a União Europeia não iria cortar a importação de petróleo da Rússia para não desestabilizar o mercado e provocar aumentos de preços que iriam «financiar a máquina de guerra de Moscovo», um argumento que, em teoria, faria algum sentido.

Porém, nos dias a seguir e ao cabo de uma acesa discussão, o Conselho Europeu decidiu, numa notável atitude coerência, aprovar o corte da maior parte das importações de petróleo russo. A decisão foi tão acalorada e difícil que logo surgiram os federalistas do costume, mais federalistas ainda que os federalistas, a defenderem a abolição do sistema de consenso para tomada de decisões no Conselho Europeu para que não aconteçam hesitações em situações tão transcendentes.

Que grande embrulhada!

Pois bem, os chefes de Estado e de governo da União Europeia decidiram que a partir do próximo Natal será suspensa a importação de 65% do petróleo russo. Os restantes 35%, que chegam pelo oleoduto Druzhba, também serão alvo de restrições com as quais se comprometeram a Alemanha e a Polónia. Se assim não for, os nazis de Kiev já ameaçaram bombardear a secção do oleoduto que passa pela Ucrânia.

Parece tudo fácil: a União Europeia deixa de importar petróleo da Rússia e vai buscar as quantidades equivalentes a outras fontes, nem que seja à Venezuela, país a quem impôs sanções e roubou o ouro, para que tudo volte a funcionar como dantes. E, como diz o volátil primeiro-ministro de Portugal, os preços dos combustíveis voltarão à normalidade quando acabar a guerra na Ucrânia. Uma grosseira falsificação da realidade sentenciada com a maior desfaçatez.

Os dirigentes europeus são, no mínimo, irresponsáveis ou ignorantes e mentirosos, ou tudo ao mesmo tempo, porque as coisas não funcionam assim.

Vale a pena reflectir um pouco sobre o que está em jogo para lá da simplicidade de cortar o petróleo russo e substituí-lo por outro. E tudo apenas em seis meses.

É muito duvidoso que a União Europeia consiga encontrar as quantidades de petróleo necessárias no mercado internacional e num período tão apertado de tempo. Por outro lado, a economia europeia funciona há décadas com base no petróleo russo barato e abundante, com características físicas e químicas há muito conhecidas e imutáveis, fluindo regularmente nas quantidades necessárias e sem interrupções. As refinarias, o aparelho industrial, a petroquímica, os transportes, os sistemas de aquecimento e a produção de derivados – gasolina, gasóleo, combustíveis para motores de avião, benzeno e outros – dos países da União Europeia estão há décadas afinados para trabalhar com as características do petróleo russo importado.

Tipos de petróleo oriundos de várias outras fontes e regiões, as misturas que venham a ser feitas entre eles, a inconstância e a variabilidade dessas próprias misturas e o desconhecimento que ainda existe quanto às suas características – isto no pressuposto de que seja encontrada no mercado a quantidade suficiente para abastecimento regular e constante – implicam uma reconversão dos aparelhos petrolífero e industrial europeus, a que devem adicionar-se as adaptações de transporte, de portos, do armazenamento e de toda a logística exigida para a transformação. E quando se fala de preços, esqueçamos o petróleo russo barato: as sanções impostas pelo Ocidente já colocaram o petróleo bruto bem acima dos 100 dólares por barril e elevaram os preços da energia nos Estados Unidos e na Europa para os níveis mais altos em 40 anos. Trata-se, relembra-se, apenas de um ponto de partida para preços que poderão ser estratosféricos em relação aos valores habituais, principalmente quando o petróleo russo for abolido, consequência a somar às decorrentes da perturbação dos mercados de gás natural devido, mais uma vez, à obsessão sancionadora dos dirigentes norte-americanos e europeus. Tendo em consideração o elevado número de variantes desconhecidas para tentar substituir o petróleo russo é impossível calcular até onde chegará a espiral dos preços da energia.

Dizem os especialistas que a mudança radical do tipo de petróleo consumido na União Europeia implica gastos de milhões de milhões de euros e trabalhos para muitos anos, não para seis meses; e que as transições prometidas para as energias renováveis não passam ainda de piadas postas a circular pelos novos/velhos oligarcas convertidos à «economia verde» como novo ramo da selvajaria neoliberal. E não esqueçamos também que os veículos eléctricos são carregados com energia gerada essencialmente por combustíveis fósseis, em busca dos quais continua acesa a corrida em todo o mundo – e certamente por muitos anos. As promessas de substituição dos produtos petrolíferos são, por ora, historinhas para ninar ingénuos.

Por este andar, devido a impossibilidade de substituir automaticamente o petróleo russo, dentro de meses o Ocidente mergulhará ainda mais na crise económica, na instabilidade dos fluxos energéticos; e a inflação, que alguns dizem agora ser passageira, implicará situações dolorosas na sociedade, sobretudo nos extratos mais desfavorecidos. Não por causa da «guerra de Putin» mas das sanções irracionais contra a Rússia impostas pelos dirigentes europeus e que se viram contra os povos europeus. Na guerra económica, onde «as coisas estão a correr mesmo muito mal», na opinião do editor de Economia do The Guardian, Larry Elliott, os dirigentes europeus não se limitam a dar tiros no pé. Outros saem-lhes pela culatra. E comprar petróleo à Líbia no mercado negro gerido por milícias terroristas ou adquirir à Índia petróleo que este país comprou à Rússia, mas agora com os preços multiplicados a uma potência bem elevada, são hipóteses bem à medida das brilhantes e desnorteadas cabeças dos nossos dirigentes.

Quanto à Rússia, segundo reconhecem publicações europeias como The Economist e o The Guardian, e até o New York Times nos Estados Unidos, nunca ganhou tanto dinheiro com a venda de petróleo, apesar de comercializar menos e de fazer descontos nos negócios com a China e a Índia.

Sanções à Rússia? Vejamos as conclusões de The Economist: «A venda de petróleo e gás para a maior parte do mundo continua ininterruptamente. O superavit comercial deve bater recordes nos próximos meses; em 2022 o superavit em conta corrente, que inclui comércio e alguns fluxos financeiros, pode chegar a 250 mil milhões de dólares (15% do PIB de 2021), mais do dobro dos 120 mil milhões» do ano passado.

Agora a palavra à CBS norte-americana: apesar do roubo das reservas cambiais russas no estrangeiro, «o rublo é a moeda com melhor desempenho do ano – ganhou mais de 40% ao dólar desde Janeiro», principalmente a partir do momento em que foi indexado ao ouro e não à divisa norte-americana. Além disso, ainda segundo a mesma fonte norte-americana, «o comércio de recursos naturais (russo) está em alta, embora haja quebra no volume de exportações – mas o aumento dos preços mais que compensa as quedas».

Quando ao gás natural, diz o francês Les Echos citando o Citibank, que a Rússia pode ganhar mais 100 mil milhões de dólares do que no ano passado, por causa das subidas de preços decorrentes das sanções, apesar das quais «os 27 da União Europeia continuam a enviar 200 milhões de dólares por dia para a Gazprom».

Simon Jenkins, colunista do The Guardian, chegou à seguinte conclusão: «enriquecendo em vez de empobrecer, Moscovo está a deixar os europeus com falta de gás e os africanos sem comida».

A asserção é parcialmente verdadeira. Mas arrasta com ela um outro mito, o da responsabilidade da Rússia pela «fome no mundo», que a realidade livre da propaganda desmente com toda a facilidade.

Obstrução aos cereais, uma história falsa

A narrativa sobre o agravamento da fome no mundo por causa da guerra na Ucrânia, sobretudo em consequência da actuação russa, é uma das mais descabeladas linhas de propaganda em circulação.

Então a fome no mundo não é uma situação sistémica resultante das práticas coloniais e imperiais, das guerras e destruições conduzidas maioritariamente pela NATO e seus membros, dos atentados ambientais, da utilização predatória de grandes áreas de terrenos agrícolas em países em desenvolvimento pelas transnacionais da agroindústria, da inutilização de terras aráveis pela corrida entre as grandes potências na caça aos recursos minerais, da desertificação decorrente das más práticas contra os ecossistemas?

Nada disso. A fome agrava-se porque, garante a opinião única, a Rússia impede a comercialização dos cereais ucranianos. É um dogma.

Façamos então contas e arrolemos alguns factos reais.

O mundo produz anualmente 800 milhões de toneladas de trigo e diz-se que a Ucrânia, considerada apenas o oitavo maior produtor, está pronta para exportar 20 milhões de toneladas, ou seja, 2,5%.

O trigo representa 20% dos produtos alimentares comercializados, segundo a FAO, pelo que a quota real ucraniana é de 0,5%, isto é, pouco mais do que nada. Entretanto, segundo órgãos oficiais dos Estados Unidos, os 20 milhões de trigo ucraniano representam somente exportações potenciais: na realidade, a quantidade comercializável para o estrangeiro não ultrapassa os seis a sete milhões de toneladas. Irrelevante, portanto: a falta do trigo ucraniano tem uma contribuição nula para o aumento da fome.

Acresce que o governo de Kiev tem elevadas responsabilidades nas dificuldades para a exportação do trigo produzido no país. As suas tropas minaram os portos que controlam no Mar Negro, principalmente o de Odessa e os mais próximos, e afundaram embarcações para barrar o acesso de navios às instalações. A Rússia e a Turquia dispuseram-se a desminar as águas e Moscovo comprometeu-se a criar e respeitar corredores humanitários para exportação de cereais. O presidente Zelensky e a sua corte nazi nem querem ouvir falar do assunto. Entretanto a Rússia desminou os portos de Mariupol e Berdiansk, que conquistou aos terroristas do Azov, e disponibilizou-os para a navegação internacional, incluindo embarcações ucranianas, através de corredores humanitários. Kiev continua a rejeitar.

O governo ucraniano pode também exportar trigo – e consta que está a fazê-lo – através do Danúbio e da Roménia; através da Hungria; igualmente através da Polónia, desde que se façam acertos nas bitolas ferroviárias. E também poderia fazê-lo pelo território da Bielorrússia com acesso aos portos do Báltico. Mas essa via está barrada pelas sanções impostas contra Minsk.

Seja como for, a questão do «congelamento» do trigo ucraniano é um falso problema e sem qualquer interferência na situação alimentar mundial. É fruto de uma propaganda doentia.

Já a questão do trigo, dos fertilizantes e dos compostos para fertilizantes russos tem realmente impacto na alimentação europeia e mundial; porém, o governo russo não tem qualquer responsabilidade na situação. Os produtos apenas não são comercializados devido às sanções impostas pelo Ocidente a Moscovo, nada mais do que isso. A Rússia, o maior exportador mundial, teria capacidade para comercializar 37 milhões de toneladas de trigo este ano e 50 milhões em 1922/23. Contudo, é natural que nem todo esse volume fique retido em território russo porque a maior parte do mundo não aderiu às sanções e está disponível para encontrar maneiras de as contornar – tanto mais que não têm qualquer legalidade e não foram assumidas através da ONU. Trata-se apenas de «regras» arbitrárias impostas pelo Ocidente colonial. Subvertê-las é um acto de inteligência, resistência – e de sobrevivência.

Mas as sanções impostas à Rússia perturbam, de facto, o panorama alimentar mundial e em África sente-se já, por exemplo, a falta de fertilizantes e de potássio para fertilizantes. É natural que assim seja: Moscovo representa um quarto do comércio mundial de fertilizantes; e a Rússia e a Bielorrússia, igualmente submetida a sanções, são responsáveis por 45% dos fertilizantes potássicos. Mais uma vez, sejamos claros e objectivos: as dificuldades agravadas sentidas na situação alimentar mundial não decorrem da «guerra na Ucrânia» mas das sanções impostas à Rússia pelo Ocidente geopolítico – menos de 15% da população mundial.

É natural, portanto, que cresça no mundo o interesse de cada vez mais países numa nova ordem mundial multipolar ancorada na afirmação crescente de potências com a Rússia e a China. As medidas práticas de contestação da ditadura do dólar e de instituições imperiais como o FMI e o Banco Mundial surgem e reforçam-se através de novas formas de cooperação regionais e transnacionais; e as transacções comerciais e os movimentos financeiros com base em commodities, matérias-primas e outros recursos naturais começaram a substituir o dólar. É a tentativa de restaurar uma economia internacional com base em recursos tangíveis e não em papel verde impresso às toneladas e à medida das necessidades especulativas de uma sociedade financeirizada em que os oligarcas jogam em casinos globalistas de onde a economia virtual expulsou praticamente a economia real assente em riqueza palpável.

Na recente cimeira do Fórum Económico Mundial, o cenáculo do neoliberalismo, não foi apenas Kissinger quem deitou água gelada na euforia arrogante do globalismo ortodoxo e do «Great Reset», o «grande reinício» para impor um neoliberalismo «renovado» em bases «ecológicas». James Diman, representante do gigante bancário JP Morgan, vaticinou que «um furacão económico está a chegar».

O neoliberalismo, como instrumento do imperialismo e do colonialismo globalista, parece ter começado a abanar à medida que a ordem mundial unipolar vai perdendo terreno. São sinais significativos de que o Ocidente geopolítico entrou em decomposição.



sábado, 11 de junho de 2022

O CONFLITO NATO-UE / OPINIÃO



Por Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 10/06/2022


Voltando aos primórdios da união de facto, ou do casamento forçado entre a NATO e a UE.
As causas longínquas do que, com a guerra da Ucrânia, se veio a revelar um inultrapassável conflito, com um vencedor e um vencido, os EUA vitoriosos e a União Europeia destroçada (apesar de se agitar), encontram-se na entrada dos EUA na II Guerra Mundial

Os Estados Unidos entraram na II GM e intervieram na Europa não por motivos ideológicos (defesa da democracia, ou dos direitos do homem, ou de uma civilização), mas por motivos de interesse estratégico, de substituição da Europa (a Inglaterra) como centro do mundo. Esse estatuto de potência imperial implicava, à semelhança da Inglaterra imperial e colonial (sua antecessora), dispor de supremacia marítima e aérea, de dominar o sistema de trocas comerciais e o financeiro, de, em suma, substituir a Royal Navy pela US Navy (mais a USAF), substituir a libra pelo dólar, a City por Wall Street. A língua inglesa manter-se-ia o latim do novo império.

As causas da II GM são eminentemente económicas e sociais, uma questão de poder. A revolução russa criara esperanças de tomada de poder pelo proletariado industrial e essa esperança teve como réplica a reação violenta dos detentores do poder na Europa (o nazismo e o fascismo e governos autoritários em Inglaterra e em França).

Os banqueiros e industriais alemães pensaram exatamente o mesmo que os banqueiros e industriais ingleses e americanos. Era necessário derrotar, se possível no ovo, os revolucionários socialistas e comunistas. Daí as boas, as excelentes relações entre a Inglaterra, a Alemanha e os Estados Unidos. Daí a complacência com que os “democratas” ingleses e americanos viram a ascensão do nazismo e do fascismo, daí a recusa das democracias europeias apoiarem os republicanos espanhóis. Daí, por fim, a relutância dos EUA em entrar na guerra, esperando que os europeus se digladiassem e mutuamente se enfraquecessem.

Daí, ainda, imediatamente antes da guerra, as frustes tentativas de conjugação de esforços com a URSS, que acabaria por ser deixada isolada contra os alemães. As divergências no movimento internacional socialista e comunista europeu também facilitaram muito a tarefa de manter o essencial das relações sociais dos regimes saídos da revolução industrial.

A questão do nazismo nunca foi uma preocupação para as classes dirigentes inglesas e americanas. O governo inglês, os seus parlamentares, os “comuns” e os “lordes”, mantiveram uma política de boa relação, para não dizer de cumplicidade com a Alemanha nazi. Não é necessário recordar as simpatias de Eduardo VII, o duque de Windsor, pela Alemanha de Hitler, ordeira e anticomunista.

Apenas quando a Alemanha ocupou a França e ameaçou fazer dela uma base de ataque às ilhas Britânicas soaram os alarmes e Churchill surgiu a dirigir a resistência. Mas os americanos continuaram de fora — a guerra era entre europeus. Roosevelt, em 1940, afirmava na campanha eleitoral que ia manter os EUA fora da guerra. Em 1941 Churchill pedia armas aos americanos — ferramentas — mas foi muito longo e difícil o processo de autorização do Congresso — e o secretário de Estado da Guerra, Henry L. Stimson, teve de lembrar que os EUA haviam permanecido seis anos sem se incomodarem com o facto de a Alemanha se estar a rearmar. (Kimball, Warren. Forged in War: Roosevelt, Churchill and the Second World War. New York: William Morrow & Co., 1997)

Apenas em Agosto de 1941 Roosevelt e Churchill se encontram e a entrada dos americanos na guerra obedeceu à análise que estes fizeram quanto aos seus interesses no presente e no futuro. Nada de idealismos, nem de defesa de princípios.

A entrada dos EUA na guerra no teatro da Europa, com os elevadíssimos custos de sangue e recursos (estamos agora a relembrar o desembarque da Normandia), foi já feita como uma ação da “grande América”, de que, é certo, os europeus retiraram o proveito de um modelo liberal de sociedade (a parte ocidental, herdeira do liberalismo inglês) e o de um sistema de segurança social à custa da livre concorrência dos mercados (a parte oriental, agrícola e herdeira de regimes medievais absolutistas).

A NATO surgiu para impor a soberania dos EUA a metade da Europa e para não permitir o ressurgimento de uma Europa autónoma. E claro, para impedir uma União Europeia! Não só para impedir uma Europa unificada como principalmente a aliança da Europa Ocidental com a URSS.

Este objetivo de separação das Europas é e foi visível nas manobras para impedir que partidos comunistas europeus se aproximassem do poder, caso de Itália e França. Foi visível na campanha que logo após a II Guerra Churchill conduziu contra a URSS, de demonização dos seus dirigentes e desvalorização do seu papel na derrota da Alemanha nazi. A URSS representou neste jogo o papel do homem do saco com que nas histórias infantis se leva as crianças a obedecer às ordens paternas. Os europeus foram tratados como infantes sem discernimento e muitos continuam a acreditar nas fábulas.
A alternativa ao comunismo — à mudança da essência do poder — foi oferecer aos europeus da órbita americana um estado de bem-estar através das sociais-democracias e das democracias cristãs.

O welfare state, que está a ser desmantelado diante dos nossos olhos nesta guerra da Ucrânia, para proveito dos sistemas privados e neoliberais de saúde e pensões, segundo o modelo americano, foi a moeda de troca da aceitação do estatuto colonial. Dir-se-á que foi um colonialismo confortável.

Foi, de facto, mas a leveza e o bom trato dos serviçais não altera a essência do estatuto de servidão e este será exercido com todo o rigor sempre que os servos se julguem libertos! Os americanos vão deixar de pagar os subsídios de férias, de desemprego e os serviços nacionais de saúde e de pensões dos europeus. Será uma das consequências desta guerra.

A paz do pós- Segunda Guerra na Europa não foi uma benesse da NATO, nem, logo, dos americanos. Não foi grátis, muito pelo contrário. A paz na Europa foi conseguida à custa do fim dos impérios coloniais europeus na Ásia e em África — à custa das guerras na Coreia, na China, Indochina, na Palestina, no Médio Oriente, no Congo, no Tanganica, e mais recentemente na Guiné, em Angola e em Moçambique, e, ainda mais perto, na Jugoslávia, no Iraque e na Síria.

A NATO serviu para retirar os europeus do Mundo e deixá-lo para as duas superpotências. Na Europa, a NATO, tal como o Pacto de Varsóvia, serviram como forças de imposição da ordem política e social interna, sufocando movimentos políticos e sociais alternativos: a agitação radical da Alemanha e da Itália, o Maio de 68 em França, as revoltas de Praga e de Budapeste, por exemplo.

Pergunta-se muitas vezes se o mundo sem a NATO seria melhor? Seria diferente. Teria uma distribuição de riqueza diferente, de certeza, uma justiça social diferente… um estatuto diferente de dignidade dos povos. Teria um sistema de alianças mais flexível, com mais direitos para os povos de regiões do mundo que não controlam os seus territórios e matérias-primas, que são forçados a trocas desiguais.

Por fim, fala-se atualmente em aumentar despesas militares para fazer frente, de novo, à ameaça russa. A questão não é, como alguns movimentos antimilitaristas a têm colocado, de optar entre os canhões ou a manteiga. A questão é a de ter aparelhos militares adequados às ameaças e aos objetivos e ter liberdade para os utilizar.

Liberdade de ação é um dos princípios da guerra, quem a não tem, é vencido. A Europa da União Europeia não tem e escusa de gastar recursos a fingir de conta que conta.

terça-feira, 22 de março de 2022

CONSEQUÊNCIAS DA GUERRA




Por Carlos Matos Gomes

Consequências da Guerra (2)

Esta invasão e esta guerra destruíram o precário e periclitante equilíbrio de forças em que o mundo tinha vivido desde o fim da Guerra Fria e da implosão da URSS. Esta é a sua primeira consequência.

As discussões sobre uma (mais uma)”nova ordem mundial” destes últimos anos costumavam girar à volta de duas visões alternativas: Para uns deveria assentar num acordo entre as 3 principais potências (EUA, Rússia e China) capaz de impulsionar a cooperação multilateral.

Para outros, aquela ordem deveria resultar do estabelecimento de esferas de influência que, uma vez respeitadas, constituiriam a forma mais segura e eficaz de estabelecer a paz no mundo, ou uma situação de conflito adormecido.

Esta invasão revelou a escolha das oligarquias das 3 superpotências e do anexo que é a União Europeia.

Como tem acontecido com frequência ao longo da história um acontecimento imprevisto ou de consequências mal calculadas provocou uma rutura e desencadeou um confronto.

O que estava em jogo desde o fim da URSS e da emergência da China como superpotência militar e económica era e é dividir o mundo, não em três fatias, mas mantê-lo na lógica bipolar do duelo. Desde os anos 90 do século passado que se trava a guerra insidiosa de eliminar um dos competidores, neste caso a Rússia, para que os dois outros, os EUA e a China, se possam defrontar num duelo que segue o argumento dos filmes de gangues mafiosos, ou de cena final de filme de cowboys.

A Rússia não aceitou servir de cordeiro sacrificado e desencadeou uma guerra por antecipação. Escolheu o tempo que considerou ser-lhe mais favorável para combater, já que o lugar, a Ucrânia fora escolhido pelo adversário, os EUA.

O que está em jogo nesta invasão pode ser interpretado como o primeiro ato de uma manobra de conquista de poder — militar e económico — para estabelecer uma posição de domínio numa «Nova Ordem Mundial». O que está em causa é a distribuição do poder entre oligarquias reunidas à volta de 3 vértices e em 3 zonas de concentração de interesses.

Independentemente do resultado das operações militares, da maior ou menor destruição, dos futuros estatutos territoriais, das lideranças políticas, uma coisa é certa: a Ucrânia passou à condição de ferida aberta no coração da Europa. Uma ferida que ninguém saberá quando sarará, e se sarará!

O resultado já visível das decisões tomadas pelos dirigentes políticos americanos e europeus tiveram como consequência dividir o mundo em dois blocos, um constituído pelos EUA e os seus satélites da NATO, mais a Austrália, o “velho Ocidente”, e outro constituído pela Rússia, a China e porventura a Índia.

Esta guerra expulsou a Rússia da Europa! Expulsou-a militar, política, científica e até civilizacionalmente. Veja-se o corte de relações de organização universitárias e de investigação europeias e americanas com congéneres russas, de cancelamento de encontros científicos e culturais, de proibição de concertos de música ou de bailado, de colóquios sobre literatura. Tolstoi passou a ser asiático, assim como Tchaikovski! A presidente da Comissão Europeia afirmou com a energia que se lhe conhece e com a alegria vivaça de uma missionária que a Ucrânia de Zelenski fazia parte da família europeia. A Rússia não!

Uma das consequências desta guerra foi uma amputação histórica, já que a geográfica era impossível de materializar, a não ser com um Muro. Mais um!

A divisão do mundo resultante da expulsão da Rússia da Europa, com a criação de dois blocos gerará um mais conjunto de fronteiras e barreiras. As sanções económicas americanas à Rússia provocarão a mais rápida criação de uma moeda de troca internacional alternativa do dólar, constituída pelo rublo, o yuan e a rupia. Os europeus pagarão mais caro as emissões de dólares pelos EUA.

As sanções tecnológicas conduzirão a sistemas de transmissão de dados alternativos à Internet e tendencialmente incompatíveis, o que obrigará a redundâncias e aos respetivos custos.

A cooperação na área do ambiente, dos mares, do espaço, da saúde será reduzida e desenvolvida por cada um dos blocos, segundo os seus interesses. O comércio mundial entre os dois blocos será limitado e controlado, mesmo que a China procure atenuar os efeitos.

Esta guerra apresentada como um conflito de sociedades livres e solidárias contra sociedades agressivas e egoístas terá como efeito reduzir a solidariedade internacional e a cooperação: os refugiados de todo o mundo, as vítimas de guerras e calamidades serão ainda mais abandonados.

As Nações Unidas e as suas Agências serão ainda mais desprezadas, da ACNUR à UNICEF, da UNESCO à OMS. A cooperação nas várias áreas da investigação científica será restringida ao interior do respetivo bloco.

Deixaremos de ser cidadãos do mundo. Seremos regionalizados, racializados, bloqueados. Seremos todos o «outro» em metade do mundo!

E a União Europeia? Trauteia!

Percebe-se com clareza a estratégia e os objetivos dos Estados Unidos, da Rússia e a China. Percebe-se até o papel de atores secundários, da Turquia, do Irão, de Israel, na fronteira do conflito. O que de todo não se percebe é o papel da União Europeia, no centro do conflito, teatro de operações, base de ataque, base logística, base de recolha de refugiados!

Os europeus vão sofrer com inflação, desvio de verbas destinadas à melhoria das condições de vida, dos serviços de saúde, de educação, de segurança social — que serão privatizados porque não haverá recursos para eles -, de defesa do ambiente, de transição energética, para transferir verbas para um estupido rearmamento, e estúpido porque inútil, apenas lucrativo para os negociantes de armamento, as empresas do complexo militar-industrial americano.

Os europeus vão sofrer uma violenta degradação do seu emprego, em particular do emprego qualificado e bem pago. As indústrias que produzem bens e serviços de alto valor acrescentado serão americanas. O aeroespacial será americano. A Airbus, por exemplo, será inviabilizada em favor da Boeing, como aconteceu com a Embraer brasileira, a EADS (Eurospace, Aeronautical and Defense Systems) que agrega a indústria aeronáutica e aeroespacial europeia e inclui entre outras grandes empresas a Airbus, a Eurocopter, a Rolls-Royce –Turbomeca (produtores de turbinas que concorrem com a General Electric GE) desaparecerão porque o complexo militar-industrial da muito liberal América não aprecia a concorrência.

Os tão “satisfeitinhos consigomesmo” dirigentes da União Europeia afirmam sorridentes e efusivos que estão unidos. Se existissem jornalistas e não sacristãos para dizer ámen haveria que lhes perguntar porque estão satisfeitos e o que têm preparado para o futuro.

Esta guerra é também um furúnculo de onde se está a reunir e a purgar o pior que existe na humanidade, e na Europa, em particular. Os grupos neonazis que integram as forças da Rússia e da Ucrânia, o Wagner Group, o Russian Imperial Movement (RIM), uma organização paramilitar supremacista branca russa compete no mesmo plano com o conhecido Regimento Azov da Ucrânia, mas na retaguarda destes estão outros movimentos totalitários irmãos, nacionalistas, supremacistas instalados no topo do poder político de estados da União Europeia na Polónia, um estado teocrático e racista, na Hungria, na Roménia, na Eslováquia, nos países bálticos.

Não é pois a defesa de valores e princípios resultantes do liberalismo e da Revolução Francesa, de Justiça, Igualdade e Solidariedade que a União Europeia está a defender com a sua política relativamente à invasão da Ucrânia pela Rússia.

Também não é a obtenção de vantagens económicas: os europeus vão empobrecer com as suas opções e pagar mais pelos produtos essenciais. Nem sequer com desgraça União Europeia lucrará: a reconstrução da Ucrânia será feita por empresas chinesas, e serão chineses os trabalhadores, não os refugiados da Europa.

Se não existem razões de ética, de princípios que justifiquem a opção da UE, se não existem vantagens económicas, se não há questões de segurança, a pergunta que se faz ao ver os sorrisos abertos dos dirigentes europeus é a mesma que se faz às hienas: de que se riem as hienas?

Que objetivos propõem os dirigentes europeus para a Europa neste conflito, porque deles depende o futuro dos povos europeus para o próximo longo futuro?

Independentemente da opinião que cada um de nós possa ter sobre a UE, ela existe, nós fazemos parte dela. Sem ela cada Estado seria ainda mais irrelevante do que o conjunto já é e parece aceitar ser, mas com ela neste estado e com este naipe de dirigentes estamos, enquanto europeus e nacionais dos Estados Europeus, na mesma posição em que os Estados Unidos colocaram Zelenski, o seu homem, na posição dos entalados. Em Portugal temos a figura de Martim Moniz.

O que se ouve dos dirigentes da UE é um discurso absurdo, paradoxal: solidariedade com os refugiados!

Mas como se materializa a solidariedade, tomando a situação da Ucrânia como de irreversível domínio russo e de inultrapassável animosidade com a Rússia, dado que a União cortou todas as pontes? Receber os refugiados temporariamente para os reenviar de regresso? Mas que novo poder estará em Kiev para os receber?

E com quem negociará a UE, se atirou a Rússia para a Ásia, ao cortar relações políticas, económicas, financeiras, culturais, até universitárias, se atirou a Rússia para a órbita da China, que cobrará o seu apoio.

A outra parte do discurso dos dirigentes da UE é ainda mais irracional: o discurso do rearmamento da UE. Esse rearmamento é inútil, estúpido a vários títulos. A Europa vai comprar armas americanas (F35 da Lockheed, para a Alemanha, p.ex), carros de combate, navios, artilharia… uma sofisticada e caríssima parafernália em que todos os dinky toys dependem do GPS americano! Sem os satélites americanos todos estão cegos.

A Europa não tem uma política militar aeroespacial, não dispõe de um sistema de geolocalização, sequer! Também não tem redes de transmissão de dados (internet) e também não tem armas nucleares para dissuasão. Por fim: os Estados Unidos jamais permitirão que a Europa seja uma grande potência militar. Quer apenas uma força auxiliar, não um competidor.

A supremacia política e militar dos Estados Unidos traduzir-se-á numa supremacia económica, com resultados devastadores para o emprego dos europeus e para a sua qualidade de vida. Não só o estado social será substituído pelo estado liberal americano — destruição de serviços públicos e segurança social — mas as grandes companhias de alta tecnologia serão americanas. A Europa aumentará a dependência energética dos EUA assim como a dependência alimentar.

O gás russo irá para a China, assim como os seus cereais e os da Ucrânia. Os dirigentes da UE trocaram a dependência diversificada, pela dependência de um só fornecedor!

O que podem fazer os cidadãos europeus neste novo mundo para contrariar esta nova e negra ordem mundial?

Mandatar alguém de boa índole, de fora das cúrias das capitais europeias, sem falsos sorrisos, perguntar a Joe Biden, na sua visita imperial à Europa a 24 de Março, a que preço os Estados Unidos fornecerão gás e cereais à Europa, que lugar terá a UE no programa espacial americano, que liberdade terá a UE para fazer contratos noutra moeda que não seja o dólar, por exemplo. E por fim, perguntar-lhe se, para viver em paz na Europa, os Estados Unidos vão exigir aos europeus, como nos Estados Unidos nos tempos do macharthismo, se serão obrigados a assinar uma declaração anti russa, ou a usar uma estrela vermelha na roupa caso o não façam.

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