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Posted on 23:47 by Paulo Ramires



Por José Goulão
O mundo está a encolher para o Ocidente, esse conceito geopolítico que ignora limites geográficos e pretende submeter o resto do mundo às suas «regras» e «valores partilhados», entre os quais o militarismo, o desprezo pelas pessoas, o expansionismo, a rapina de recursos naturais, a submissão ao casino financeiro e a um papel-moeda de que se desconhece o valor real, a cultura da guerra, a civilização única e cada vez mais alienante.
Direitos humanos e democracia-liberal? Bem, direitos exclusivos de uns humanos que são bastante mais humanos que os outros, a esmagadora maioria; e democracia realmente neoliberal, quer isso dizer assegurada por rituais cumpridos segundo guiões capazes de garantir o domínio absoluto das oligarquias e a financeirização da sociedade de modo a que as pessoas sejam mais abjectos que sujeitos. A maioria vota de tempos a tempos nos «vocacionados» para o poder que garantem esse desfecho, recomendados com recurso a métodos tão ilegais como asfixiantes pela propaganda institucional e a comunicação social de orientação única; o remanescente serve para compor o ramalhete do pluralismo virtual e pronto, respeita-se assim o único regime político aceitável e acima de qualquer crítica.
O mundo está a encolher para o Ocidente por ser essa a ordem natural das coisas uma vez que, em boa verdade, nenhum império sobreviveu às leis do tempo e às dinâmicas da História; e também por causa dos comportamentos do próprio Ocidente perante a guerra que em 2014 levou até à Ucrânia, embora queira fazer acreditar que o conflito se iniciou apenas em 24 de Fevereiro deste ano. Essa é mais uma mentira numa realidade de mentiras em que o próprio Ocidente vive, chegando a acreditar nela; e certamente por isso estamos a assistir a sucessivas rajadas nos próprios pés, acelerando o processo de transformação mundial e condenando o concílio dos senhores do mundo a um processo gradual de decomposição.
Uma clique dirigente à deriva
Apesar de a União Europeia ser conhecida como uma entidade antidemocrática – gerida por executivos não eleitos – autoritária, austeritária, ao serviço de uma percentagem ínfima da sociedade e desprezando os povos com uma arrogância cada vez mais ditatorial, será difícil encontrar na sua história uma clique dirigente tão incompetente e incapaz como a actual – onde ninguém se salva. Esta coincidência que não surpreende, uma vez que a chamada «classe política» é cada vez mais um palanque para medíocres convencidos, gera resultados muito mais trágicos do que em circunstâncias comuns porque se manifesta num momento crucial para a Europa e o mundo; uma época em que não será aconselhável proceder sem estratégia, à deriva, cumprindo ordens ditadas por interesses alheios e contraditórios, com a agravante de essa casta apodrecida o fazer com uma agressividade raivosa e irracional num cenário quase exclusivamente de faz-de-conta. E, contudo, é o futuro de todos e do planeta que está em causa.
Num momento em que sobretudo algumas publicações norte-americanas e britânicas ditas de «referência» começam a reconhecer que a guerra na Ucrânia parece não estar a decorrer segundo os planos e a propaganda ocidental, os dirigentes da União Europeia mantêm-se em negação dessa provável realidade e insistem no reforço das sanções à Rússia e no envio de armas para o regime falido de Kiev e o aparelho nazi que o sustenta. Ouvem-se, é certo, alguns apelos à realização de negociações de paz, designadamente da Itália, mas não passam ainda de vozes a pregar no deserto. A insistência na guerra continua a ser a perigosa aposta da casta dirigente europeia, sempre subserviente ao gang belicista que controla o teleponto do presidente Biden, ignorando até a voz avisada e experiente do dinossauro Henry Kissinger apelando à realização de negociações no prazo máximo de dois meses.
Kissinger sabe, como o sabem também os militares ucranianos que, à revelia de Zelensky e dos corpos nazis, tentam chegar a negociações com Moscovo, que o prolongamento da guerra torna cada vez mais sombrio o futuro da Ucrânia e dos interesses europeus e norte-americanos apostados em «enfraquecer a Rússia». Pode chegar-se ao limite de as necessárias e fundamentais iniciativas diplomáticas chegarem tarde de mais para a dinâmica militar russa, situação que será um triunfo caído dos céus para os círculos mais nacionalistas, reaccionários, expansionistas e neoczaristas de Moscovo capazes de superar o próprio Putin nessas tendências. O maior aliado desses extremistas continua a ser o socialista que faz de chefe da «diplomacia» da União Europeia, Josep Borrell, para quem a guerra em curso só tem solução militar. Uma sentença que continua a prevalecer em Bruxelas.
A obsessão de impor sucessivos pacotes de sanções contra a Rússia é outro sinal da vocação suicida dos dirigentes da União Europeia e que afectará duramente os povos dos Estados membros e de todo o continente, que não as oligarquias e respectivos serventes.
A incompetente mas arrogante presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Layen, disse há poucos dias que a União Europeia não iria cortar a importação de petróleo da Rússia para não desestabilizar o mercado e provocar aumentos de preços que iriam «financiar a máquina de guerra de Moscovo», um argumento que, em teoria, faria algum sentido.
Porém, nos dias a seguir e ao cabo de uma acesa discussão, o Conselho Europeu decidiu, numa notável atitude coerência, aprovar o corte da maior parte das importações de petróleo russo. A decisão foi tão acalorada e difícil que logo surgiram os federalistas do costume, mais federalistas ainda que os federalistas, a defenderem a abolição do sistema de consenso para tomada de decisões no Conselho Europeu para que não aconteçam hesitações em situações tão transcendentes.
Que grande embrulhada!
Pois bem, os chefes de Estado e de governo da União Europeia decidiram que a partir do próximo Natal será suspensa a importação de 65% do petróleo russo. Os restantes 35%, que chegam pelo oleoduto Druzhba, também serão alvo de restrições com as quais se comprometeram a Alemanha e a Polónia. Se assim não for, os nazis de Kiev já ameaçaram bombardear a secção do oleoduto que passa pela Ucrânia.
Parece tudo fácil: a União Europeia deixa de importar petróleo da Rússia e vai buscar as quantidades equivalentes a outras fontes, nem que seja à Venezuela, país a quem impôs sanções e roubou o ouro, para que tudo volte a funcionar como dantes. E, como diz o volátil primeiro-ministro de Portugal, os preços dos combustíveis voltarão à normalidade quando acabar a guerra na Ucrânia. Uma grosseira falsificação da realidade sentenciada com a maior desfaçatez.
Os dirigentes europeus são, no mínimo, irresponsáveis ou ignorantes e mentirosos, ou tudo ao mesmo tempo, porque as coisas não funcionam assim.
Vale a pena reflectir um pouco sobre o que está em jogo para lá da simplicidade de cortar o petróleo russo e substituí-lo por outro. E tudo apenas em seis meses.
É muito duvidoso que a União Europeia consiga encontrar as quantidades de petróleo necessárias no mercado internacional e num período tão apertado de tempo. Por outro lado, a economia europeia funciona há décadas com base no petróleo russo barato e abundante, com características físicas e químicas há muito conhecidas e imutáveis, fluindo regularmente nas quantidades necessárias e sem interrupções. As refinarias, o aparelho industrial, a petroquímica, os transportes, os sistemas de aquecimento e a produção de derivados – gasolina, gasóleo, combustíveis para motores de avião, benzeno e outros – dos países da União Europeia estão há décadas afinados para trabalhar com as características do petróleo russo importado.
Tipos de petróleo oriundos de várias outras fontes e regiões, as misturas que venham a ser feitas entre eles, a inconstância e a variabilidade dessas próprias misturas e o desconhecimento que ainda existe quanto às suas características – isto no pressuposto de que seja encontrada no mercado a quantidade suficiente para abastecimento regular e constante – implicam uma reconversão dos aparelhos petrolífero e industrial europeus, a que devem adicionar-se as adaptações de transporte, de portos, do armazenamento e de toda a logística exigida para a transformação. E quando se fala de preços, esqueçamos o petróleo russo barato: as sanções impostas pelo Ocidente já colocaram o petróleo bruto bem acima dos 100 dólares por barril e elevaram os preços da energia nos Estados Unidos e na Europa para os níveis mais altos em 40 anos. Trata-se, relembra-se, apenas de um ponto de partida para preços que poderão ser estratosféricos em relação aos valores habituais, principalmente quando o petróleo russo for abolido, consequência a somar às decorrentes da perturbação dos mercados de gás natural devido, mais uma vez, à obsessão sancionadora dos dirigentes norte-americanos e europeus. Tendo em consideração o elevado número de variantes desconhecidas para tentar substituir o petróleo russo é impossível calcular até onde chegará a espiral dos preços da energia.
Dizem os especialistas que a mudança radical do tipo de petróleo consumido na União Europeia implica gastos de milhões de milhões de euros e trabalhos para muitos anos, não para seis meses; e que as transições prometidas para as energias renováveis não passam ainda de piadas postas a circular pelos novos/velhos oligarcas convertidos à «economia verde» como novo ramo da selvajaria neoliberal. E não esqueçamos também que os veículos eléctricos são carregados com energia gerada essencialmente por combustíveis fósseis, em busca dos quais continua acesa a corrida em todo o mundo – e certamente por muitos anos. As promessas de substituição dos produtos petrolíferos são, por ora, historinhas para ninar ingénuos.
Por este andar, devido a impossibilidade de substituir automaticamente o petróleo russo, dentro de meses o Ocidente mergulhará ainda mais na crise económica, na instabilidade dos fluxos energéticos; e a inflação, que alguns dizem agora ser passageira, implicará situações dolorosas na sociedade, sobretudo nos extratos mais desfavorecidos. Não por causa da «guerra de Putin» mas das sanções irracionais contra a Rússia impostas pelos dirigentes europeus e que se viram contra os povos europeus. Na guerra económica, onde «as coisas estão a correr mesmo muito mal», na opinião do editor de Economia do The Guardian, Larry Elliott, os dirigentes europeus não se limitam a dar tiros no pé. Outros saem-lhes pela culatra. E comprar petróleo à Líbia no mercado negro gerido por milícias terroristas ou adquirir à Índia petróleo que este país comprou à Rússia, mas agora com os preços multiplicados a uma potência bem elevada, são hipóteses bem à medida das brilhantes e desnorteadas cabeças dos nossos dirigentes.
Quanto à Rússia, segundo reconhecem publicações europeias como The Economist e o The Guardian, e até o New York Times nos Estados Unidos, nunca ganhou tanto dinheiro com a venda de petróleo, apesar de comercializar menos e de fazer descontos nos negócios com a China e a Índia.
Sanções à Rússia? Vejamos as conclusões de The Economist: «A venda de petróleo e gás para a maior parte do mundo continua ininterruptamente. O superavit comercial deve bater recordes nos próximos meses; em 2022 o superavit em conta corrente, que inclui comércio e alguns fluxos financeiros, pode chegar a 250 mil milhões de dólares (15% do PIB de 2021), mais do dobro dos 120 mil milhões» do ano passado.
Agora a palavra à CBS norte-americana: apesar do roubo das reservas cambiais russas no estrangeiro, «o rublo é a moeda com melhor desempenho do ano – ganhou mais de 40% ao dólar desde Janeiro», principalmente a partir do momento em que foi indexado ao ouro e não à divisa norte-americana. Além disso, ainda segundo a mesma fonte norte-americana, «o comércio de recursos naturais (russo) está em alta, embora haja quebra no volume de exportações – mas o aumento dos preços mais que compensa as quedas».
Quando ao gás natural, diz o francês Les Echos citando o Citibank, que a Rússia pode ganhar mais 100 mil milhões de dólares do que no ano passado, por causa das subidas de preços decorrentes das sanções, apesar das quais «os 27 da União Europeia continuam a enviar 200 milhões de dólares por dia para a Gazprom».
Simon Jenkins, colunista do The Guardian, chegou à seguinte conclusão: «enriquecendo em vez de empobrecer, Moscovo está a deixar os europeus com falta de gás e os africanos sem comida».
A asserção é parcialmente verdadeira. Mas arrasta com ela um outro mito, o da responsabilidade da Rússia pela «fome no mundo», que a realidade livre da propaganda desmente com toda a facilidade.
Obstrução aos cereais, uma história falsa
A narrativa sobre o agravamento da fome no mundo por causa da guerra na Ucrânia, sobretudo em consequência da actuação russa, é uma das mais descabeladas linhas de propaganda em circulação.
Então a fome no mundo não é uma situação sistémica resultante das práticas coloniais e imperiais, das guerras e destruições conduzidas maioritariamente pela NATO e seus membros, dos atentados ambientais, da utilização predatória de grandes áreas de terrenos agrícolas em países em desenvolvimento pelas transnacionais da agroindústria, da inutilização de terras aráveis pela corrida entre as grandes potências na caça aos recursos minerais, da desertificação decorrente das más práticas contra os ecossistemas?
Nada disso. A fome agrava-se porque, garante a opinião única, a Rússia impede a comercialização dos cereais ucranianos. É um dogma.
Façamos então contas e arrolemos alguns factos reais.
O mundo produz anualmente 800 milhões de toneladas de trigo e diz-se que a Ucrânia, considerada apenas o oitavo maior produtor, está pronta para exportar 20 milhões de toneladas, ou seja, 2,5%.
O trigo representa 20% dos produtos alimentares comercializados, segundo a FAO, pelo que a quota real ucraniana é de 0,5%, isto é, pouco mais do que nada. Entretanto, segundo órgãos oficiais dos Estados Unidos, os 20 milhões de trigo ucraniano representam somente exportações potenciais: na realidade, a quantidade comercializável para o estrangeiro não ultrapassa os seis a sete milhões de toneladas. Irrelevante, portanto: a falta do trigo ucraniano tem uma contribuição nula para o aumento da fome.
Acresce que o governo de Kiev tem elevadas responsabilidades nas dificuldades para a exportação do trigo produzido no país. As suas tropas minaram os portos que controlam no Mar Negro, principalmente o de Odessa e os mais próximos, e afundaram embarcações para barrar o acesso de navios às instalações. A Rússia e a Turquia dispuseram-se a desminar as águas e Moscovo comprometeu-se a criar e respeitar corredores humanitários para exportação de cereais. O presidente Zelensky e a sua corte nazi nem querem ouvir falar do assunto. Entretanto a Rússia desminou os portos de Mariupol e Berdiansk, que conquistou aos terroristas do Azov, e disponibilizou-os para a navegação internacional, incluindo embarcações ucranianas, através de corredores humanitários. Kiev continua a rejeitar.
O governo ucraniano pode também exportar trigo – e consta que está a fazê-lo – através do Danúbio e da Roménia; através da Hungria; igualmente através da Polónia, desde que se façam acertos nas bitolas ferroviárias. E também poderia fazê-lo pelo território da Bielorrússia com acesso aos portos do Báltico. Mas essa via está barrada pelas sanções impostas contra Minsk.
Seja como for, a questão do «congelamento» do trigo ucraniano é um falso problema e sem qualquer interferência na situação alimentar mundial. É fruto de uma propaganda doentia.
Já a questão do trigo, dos fertilizantes e dos compostos para fertilizantes russos tem realmente impacto na alimentação europeia e mundial; porém, o governo russo não tem qualquer responsabilidade na situação. Os produtos apenas não são comercializados devido às sanções impostas pelo Ocidente a Moscovo, nada mais do que isso. A Rússia, o maior exportador mundial, teria capacidade para comercializar 37 milhões de toneladas de trigo este ano e 50 milhões em 1922/23. Contudo, é natural que nem todo esse volume fique retido em território russo porque a maior parte do mundo não aderiu às sanções e está disponível para encontrar maneiras de as contornar – tanto mais que não têm qualquer legalidade e não foram assumidas através da ONU. Trata-se apenas de «regras» arbitrárias impostas pelo Ocidente colonial. Subvertê-las é um acto de inteligência, resistência – e de sobrevivência.
Mas as sanções impostas à Rússia perturbam, de facto, o panorama alimentar mundial e em África sente-se já, por exemplo, a falta de fertilizantes e de potássio para fertilizantes. É natural que assim seja: Moscovo representa um quarto do comércio mundial de fertilizantes; e a Rússia e a Bielorrússia, igualmente submetida a sanções, são responsáveis por 45% dos fertilizantes potássicos. Mais uma vez, sejamos claros e objectivos: as dificuldades agravadas sentidas na situação alimentar mundial não decorrem da «guerra na Ucrânia» mas das sanções impostas à Rússia pelo Ocidente geopolítico – menos de 15% da população mundial.
É natural, portanto, que cresça no mundo o interesse de cada vez mais países numa nova ordem mundial multipolar ancorada na afirmação crescente de potências com a Rússia e a China. As medidas práticas de contestação da ditadura do dólar e de instituições imperiais como o FMI e o Banco Mundial surgem e reforçam-se através de novas formas de cooperação regionais e transnacionais; e as transacções comerciais e os movimentos financeiros com base em commodities, matérias-primas e outros recursos naturais começaram a substituir o dólar. É a tentativa de restaurar uma economia internacional com base em recursos tangíveis e não em papel verde impresso às toneladas e à medida das necessidades especulativas de uma sociedade financeirizada em que os oligarcas jogam em casinos globalistas de onde a economia virtual expulsou praticamente a economia real assente em riqueza palpável.
Na recente cimeira do Fórum Económico Mundial, o cenáculo do neoliberalismo, não foi apenas Kissinger quem deitou água gelada na euforia arrogante do globalismo ortodoxo e do «Great Reset», o «grande reinício» para impor um neoliberalismo «renovado» em bases «ecológicas». James Diman, representante do gigante bancário JP Morgan, vaticinou que «um furacão económico está a chegar».
O neoliberalismo, como instrumento do imperialismo e do colonialismo globalista, parece ter começado a abanar à medida que a ordem mundial unipolar vai perdendo terreno. São sinais significativos de que o Ocidente geopolítico entrou em decomposição.


Por Daniel Vaz de Carvalho, in Resistir, 16/03/2022
“Trinta anos após o fim da Guerra Fria, estamos enfrentando um esforço determinado para redefinir a ordem multilateral.
É um ato de desafio. É um manifesto revisionismo, o manifesto para rever a ordem mundial”
Josep Borell, Alto Representante da UE
“Nós não aceitamos ser dominados pela NATO”
S. Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia
1 – Os contextos
Com o fim da URSS, os EUA declararam-se vencedores da Guerra Fria. Detêm mais de 750 bases militares em 80 países diferentes, o dólar reserva monetária global. Desde então acharam poder definir as regras de governo de todos os países e sancioná-los, agredi-los ou mesmo invadi-los se as violassem. Criaram-se assim duas suposições que se mostraram fatalmente erradas: que o monopólio dos EUA sobre o uso da força duraria para sempre e que os EUA poderiam continuar a impor uma ordem mundial “baseada em regras”, as suas.
Estas ilusões terminaram com a intervenção da Rússia na Síria. Os EUA enfrentam uma nova era em que não podem mais mudar os regimes pela força das armas ou sanções, depois dos danos causados pelos conflitos EUA/NATO no Afeganistão, Iraque, Síria, Iémen, Líbia, Jugoslávia, etc, ou as sanções a Cuba, Coreia do Norte, Venezuela, Rússia, China, etc.
O estatuto a que os EUA se promoveram não comporta nem admite potências como a Rússia e a China. O ressurgimento da Rússia não estava nos planos imperialistas. A Rússia foi buscar ao seu passado soviético na cultura, ciência, avanços militares, a força para se libertar do estatuto de colónia que lhe queriam impor e ser desmembrada.
Salientamos três contextos desta crise. A primeira reflexão é sobre a tese Leninista de que capitalismo e guerra são inseparáveis. Um mundo de paz só é possível em socialismo. Os propagandistas do sistema capitalista argumentam que o comércio livre e a democracia são obstáculos às guerras: as democracias nunca se atacaram e o comércio livre acaba por sobrepor-se a quaisquer outros interesses. Esquecem que a maioria das guerras do mundo moderno e mesmo antes tiveram origem precisamente no desejo ou necessidade de expandir e dominar mercados. Quanto à democracia o raciocínio está certo quando por democracia se define o que os EUA entendem como tal, a partir daqui tudo passa a ser possível contra os “outros”.
A segunda reflexão é a diabolização dos que são designados adversários. Assim acontece a todos que defendem a soberania, escolhem outro modelo de sistema político e/ou económico, que pretendam controlar transnacionais ou movimentos financeiros no seu país. Como disse o antigo diplomata Alastair Crooke, com a incapacidade de escutar o “outro”, de compreender as suas razões e interesses próprios, fecha-se a via diplomática. A negociação e a diplomacia ficam comprometidas com a diabolização dos interlocutores e a fraseologia maniqueísta. A liderança dos EUA perdeu quase inteiramente a capacidade de empatia, a capacidade de “ouvir o outro”, tornou-se “um livro fechado”. Toma então lugar a tese de Clausewitz: a guerra é a política por outros meios.
Note-se que Hitler e o nazismo nunca foram diabolizados antes da guerra se iniciar. Mesmo depois de 1939, a França e a Inglaterra preparavam-se para alinhar com a Alemanha contra a URSS no caso da Finlândia.
A terceira reflexão é o papel dos media. Para controlar as pessoas fazem com que percam a memória, ignorem factos passados e impõem uma narrativa. Desde que a Rússia começou a libertar-se do pesadelo instituído por Ieltsin e pretendeu assumir um papel de igualdade na cena internacional, à semelhança de Roma relativamente a Cartago, foi desencadeado o clamor de Delenda est Rússia. Atualmente, no espaço EUA/NATO a desinformação atingiu um nível inaudito de falsidades e absurdos, agravada com o bloqueio da informação russa.
Diz Caitlin Johnstone, durante cinco anos fomos bombardeados com narrativas histéricas anti-russas. Os falsos escândalos da Rússia foram inventados pela inteligência dos EUA para fabricar consentimento para um confronto com a Rússia e preservar a hegemonia unipolar dos EUA.
Há dois pesos e duas medidas conforme as agressões são cometidas “por nós” (EUA/NATO) ou “por eles”. Quando misseis Patriot caiam sobre uma indefesa Bagdade o que passou nos media não foi revolta, nem empatia pelo sofrimento e morte de civis, foi a contemplação admirativa pelo poder militar e tecnológico dos EUA. Quando a Sérvia foi bombardeada durante 78 dias, para o atual secretário-geral da ONU, A. Guterres, tratava-se de defender os “direitos humanos.”
Com este argumento (ou outro) desde 2001 a 2018 as guerras EUA/NATO teriam morto pelo menos 2 milhões de pessoas, tudo pelas “boas causas” da NATO. Cidades como Fallujah, Ramadi, Sirte, Kobane, Mosul e Raqqa reduzidas a escombros, guerras que mergulharam sociedades inteiras em violência e caos sem fim.
Não se trata da parte dos EUA/NATO de defender a Ucrânia, se não teria sido aceite o tratado de segurança coletivo na Europa, proposto por Putin, posto de parte com evasivas e exigências sobre a Rússia quanto à movimentação de tropas no seu território, enquanto informalmente a Ucrânia era alinhada com a NATO.
Um texto do jornal Guardian recordava, citando numerosas personalidades que desde os anos 1990 advertiam que expandir a NATO para Leste conduziria à guerra. Estas advertências foram ignoradas. Agora o projeto “Mobilidade Militar” obriga a Áustria, a Suécia e a Finlândia a fornecer capacidades de transporte para que a NATO possa transferir suas forças armadas.
Com as agressões pós 2001 a NATO mostrou que não é uma organização defensiva: é um dos meios militares para os EUA imporem o poder global. Quebrando o acordo com Gorbachov, a NATO expandiu-se para 14 países do Leste. A Rússia ficou confinada nas suas fronteiras, Moscovo a minutos de ser atingida a partir de bases da NATO e as suas relações externas condicionadas por sanções desde que a Rússia renasceu do abismo para onde as camarilhas de Gorbatchov e Ieltsin a tinham levado. (ver textos de Dimitri Rogozin aqui e aqui). Com novas expansões previstas na Ucrânia, Geórgia, falhadas na Bielorrússia e Cazaquistão, estavam criadas as condições para “uma tempestade perfeita”.
A Ucrânia tornou-se a frente avançada contra a Rússia. Os EUA entregaram à Ucrânia, desde 2014, 2,4 mil milhões de dólares em material militar, incluindo 450 milhões em 2021 (agora destruído). Desde 2014, a UE e instituições financeiras europeias entregaram mais de 17 mil milhões de euros à Ucrânia, e um plano de investimentos de 6 mil milhões de euros, sem condições, o que não foi feito para Portugal ou a Grécia. O FMI, violando as suas próprias regras de garantias financeiras, proporcionou 1,7 mil milhões de dólares em 2015, e estava a preparar-se com o BM para entregar mais 5,2 mil milhões. [NR]
Estavam previstos exercícios militares com cinco potências da NATO nas regiões orientais da Ucrânia e realizar “ações defensivas, a fim de restaurar a fronteira do Estado.” Claro que “restaurar as fronteiras do Estado” nunca seria com ações “defensivas”.
2 – A Situação
Que ganhou a Ucrânia, pacífica até então, com o golpe de 2014? Foi usada contra a Rússia, mostrando que o imperialismo apenas consegue espalhar o caos onde intervém, criando esta situação ao recusar os direitos da Rússia na segurança europeia. O que se passa tem pouco a ver com a Ucrânia, em si, mas na obsessão dos falcões de Washington com a Rússia e Putin, nunca aceitando a ascensão da Rússia que eclipsaria o controlo dos EUA sobre a restante Europa.
O acordo de Minsk (2014), nunca cumprido pela Ucrânia com apoio da NATO, foi uma forma de ganhar tempo, para ser rearmada e treinada pela NATO para voltar a atacar o Donbass. Na primavera de 2021, Zelensky anunciou que a Ucrânia retomaria a Crimeia à força. A Rússia então organizou grandes manobras militares. Em novembro, a Ucrânia declarou que retomaria o Donbass à força. A Rússia novamente encenou manobras militares, mas desta vez a situação piorou ainda mais. A partir de meados de fevereiro, os monitores da OSCE em torno de Donbass relatavam um aumento das violações do cessar-fogo e explosões.
A “operação especial da Rússia para desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia” começou após um pedido de assistência militar feito pelas recém-reconhecidas repúblicas populares de Lugansk e Donetsk. O presidente russo salientou que os habitantes russófonos têm sido sujeitos a um genocídio nessa região. “A Rússia não começou ações militares, está a terminá-las após oito anos de guerra no Donbass. “Durante todos esses oito anos, tentámos apelar à consciência do Ocidente e lidar com esse regime, que adquiriu todos os traços do ultra-radicalismo e do neonazismo. Durante esse tempo, 13 a 14 mil pessoas foram mortas. Mais de 500 crianças foram mortas ou feridas. Os EUA/NATO nada fizeram, limitaram-se a olhar para o lado.
Note-se que o Donbass recusou-se a aceitar a violação da Constituição ucraniana pelo golpe de Estado fomentado pelos EUA. A Ucrânia após 2014, não passou de um peão sacrificado no tabuleiro internacional (Caitlin Jonhstone). O que a situação atual mostra é que os EUA provocam problemas globalmente, mas são incapazes de os resolver.
Em primeiro lugar, a Rússia não podia ficar ociosa diante da situação em que a NATO controla a sua zona estratégica circundante, expandindo-se mesmo para os países da Comunidade de Estados Independentes (CEI) ameaçando a sua segurança. Acima de tudo, a Rússia não permite que a Ucrânia sirva de base militar para ameaçá-la com armas nucleares, agravada com a descoberta (certamente já de conhecimento dos serviços secretos russos) de laboratórios de armas biológicas na Ucrânia.
Nos dois primeiros dias da operação de “desmilitarizarão e desnazificação” da Ucrânia, o exército russo tinha destruído 821 alvos da infraestrutura militar da Ucrânia, aeródromos militares, postos de comando, centros de comunicação, sistemas de mísseis antiaéreos S-300 e Osa, estações de radar, aviões de combate, helicópteros, veículos aéreos não tripulados, assim como veículos blindados, sistemas de foguetes de lançamento múltiplo e veículos militares especiais. Foram destruídas oito embarcações militares da Marinha Ucraniana” e estabelecido o controlo total sobre a cidade de Melitopol, no sul do país. Em 01 de março, o acesso ao mar de Azov pelas tropas ucranianas ficou completamente bloqueado. Em 05 de março, o total de alvos da infraestrutura militar da Ucrânia destruídos era de 2 037, segundo o Ministério da Defesa russo.
Na RTP-3 (25/fev/21h30) o general Cunha dos Santos, expôs, com a competência que não existe nos “comentadores”, que sem cobertura aérea o exército ucraniano deixa de fazer sentido em termos militares modernos. O apelo à população civil para se armar e lutar é mandar essas pessoas para a morte. É um sinal de fraqueza, não uma atitude digna. Colocar artilharia pesada e lança foguetes no interior de cidades é proibido pela convenção de Genebra. (criar escudos humanos). Os líderes ocidentais incentivaram este governo ucraniano (…) tiveram um comportamento no limite do criminoso.
E este comportamento persiste. A UE vai dar 500 milhões de euros em armas e combustível para a Ucrânia, embora os apoios sociais e a empresas em dificuldades devido às sanções à Rússia tenham de sair dos Orçamentos de Estado – mais endividamento…
O dilema para os russos é a luta nas cidades. Eles querem que no fim haja ucranianos amigos. Isto complica-se com o problema de limpar os nazis de Mariupol sabendo que usam as pessoas da cidade como reféns. O mesmo problema existe, em menor grau, noutras cidades. Em 11 de março, 12 corredores humanitários estavam ativos em quatro regiões para permitir retirar civis. Entretanto fechava-se o cerco a Kiev e Kviv.
As sanções, usadas indiscriminadamente pelos EUA contra quem não lhe agrada, não resultaram com Cuba, Coreia do Norte, Venezuela, Irão, Rússia ou China, etc, o que mostra os limites de poder e o declínio do império incapaz de levar de vencida os que não se lhe submetem.
O atual plano de “sanções do inferno“, proibindo exportações de energia da Rússia é um tiro nos pés, ou mesmo mais acima, para a UE. Cerca de 45% do gás natural da UE veio da Rússia em 2021, a Rússia também é o maior fornecedor de petróleo da Europa. Washington está a aproveitar o sentimento de insegurança que reina na UE para intensificar em seu benefício a crise. As consequências das sanções foram com detalhe analisadas por Pepe Escobar, Irina Slav, Michael Hudson.
Nesta situação a UE coloca-se ao nível do Egito aquando protetorado britânico em que quem mandava eram os Altos Comissários Gerais britânicos, que acumulavam a função de cônsules gerais do Império Britânico no Egito. A NATO tornou-se um órgão de formulação de política externa da UE que aceita ser um “apêndice” obediente ao ponto de não dominar os seus interesses económicos.
3 – Cenários
No I Ching, livro das adivinhações chinês, há um capítulo sobre as crises. Ali diz-se que quando uma crise está iminente há sempre três avisos, quando chega o último já nada a impede. Os dois primeiros avisos foram desprezados pelos EUA/NATO, o terceiro identificamo-lo no discurso de Putin de 21 de fevereiro. Antes Vladimir Putin comunicou aos EUA/NATO os limites das suas linhas vermelhas, esperando uma resposta concreta desde novembro de 2021, após o que, tomaria contra medidas. Podemos agora distinguir três cenários e mais um:
– Um acordo de segurança na Europa entre a NATO e a Rússia, mas tal será improvável tanto na visão da Rússia como da China até que surja uma nova ordem mundial. Concluíram que não é mais possível partilhar uma sociedade global com os EUA, determinados a impor ao mundo uma hegemonia em que as suas leis e determinações se sobrepõem à soberania, decisões de outros países e mesmo da ONU.
– Os custos económicos e humanos das sanções serão tão catastróficos que Putin seria deposto por pró-oligarcas ocidentais. Desde 2014 são aplicadas sanções à Rússia. A economia russa provou ser notavelmente à prova de sanções. Hoje a economia da Rússia é muito mais resiliente a sanções do que era em 2014. A história das “sanções do Inferno” não é credível. O resultado pode bem ser a desdolarização da economia global e uma escassez maciça de matérias-primas à escala mundial. Neste cenário a UE é o perdedor económico e político principal.
A votação na ONU contra a Rússia mostra que a “comunidade internacional” liderada pelos EUA encolhe: embora tenha recolhido 141 votos a favor, 5 votos contra e 35 abstenções (a Venezuela perdeu direito de voto por dívidas à ONU) mostrou que em temos populacionais a maioria do globo não alinha com os EUA. Quanto às “sanções do inferno” são seguidas somente pela UE, Albânia, Reino Unido, Islândia, Canadá, Nova Zelândia, Noruega, Coreia do Sul, Macedónia do Norte, Singapura, EUA, Ucrânia, Montenegro, Suíça, Japão e Taiwan, mais cinco mini-Estados: Andorra, Liechtenstein, Micronésia, Mónaco, San Marino. Veja-se que nesta conjuntura África, América Latina, Ásia, se afastam da chamada “comunidade internacional”. A propaganda diz: “a Rússia está isolada”…
– Outro cenário que os EUA/NATO preparam é envolver a Rússia numa guerra de guerrilha tornando os custos da invasão proibitivos em termos de perdas militares e económicas. Segundo a Rússia os mercenários enviados pelo Ocidente não serão considerados combatentes. Segundo o direito internacional, eles não têm direito a receber o estatuto de prisioneiro de guerra e “o melhor que pode acontecer em caso de serem presos é enfrentar responsabilidade criminal.”
No caso de a Rússia expulsar o governo Zelensky do país, os EUA, como nada aprenderam com a “experiência” Guaidó e outras, podem preparar um governo ucraniano no exílio e uma longa rebelião apoiada por milhares de milhões de dólares.
Neste cenário os “comentadores” acham que quanto mais longo for o conflito mais difícil será a China apoiar a Rússia. Mas têm pouco a que se agarrar. A “amizade China-Rússia é sólida como a rocha e livre de interferências de quaisquer terceiras partes”, disse o conselheiro de Estado e ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi. “Como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, China e Rússia são importantes vizinhos e parceiros estratégicos um do outro. Estes laços são uma das relações bilaterais mais cruciais do mundo, a nossa cooperação não só traz benefícios e bem-estar para nossos povos, mas também contribui para a paz, estabilidade e desenvolvimento mundial.”
– Uma guerra mundial não é um cenário que possa ser posto de parte. A Rússia afirma lutar pela sua existência, mas também os EUA como império global. Sem esta condição em que se tornariam os EUA, um país ultra endividado?
Vladimir Putin avisou que quem tentasse impedir a Rússia de atingir os seus objetivos na Ucrânia iria sofrer “consequências nunca vistas na sua história”, dias mais tarde, perante a hipótese de intervenção direta da NATO, foi ordenado que as forças de dissuasão nucleares russas fossem colocadas em modo especial de serviço de combate. A Rússia é uma das duas potências nucleares mais poderosas, tendo vantagens numa gama de armas de última geração.
Em vez de ter o realismo de reconhecer os interesses russos ao longo de sua fronteira ocidental – e buscar um terreno comum de colaboração sobre os problemas mundiais e não intervenção nas políticas internas de cada Estado, os EUA escolheram o confronto, com o risco de um conflito militar crescente.
O fim da invasão e da guerra na Ucrânia só pode ser garantido se a própria segurança da Rússia for garantida. A segurança é em grande parte indivisível. Este é um princípio fundamental em que a Rússia insiste com razão. Porém o Ocidente recusou-se a reconhecer os direitos iguais da Rússia na organização da segurança europeia – que levaria ao fim do controlo dos EUA sobre a Europa.
Após uma luta dolorosa a Europa buscará a reconciliação. A América será mais lenta: os falcões de Washington tentarão redobrar esforços. E será a situação económica que poderá em última análise determinar o “quando”. (Alastair Crooke)
A questão é: como terminará este conflito. Tal como as paixões (no dizer dos psicólogos) ou termina na loucura ou pelo esgotamento. De qualquer forma, o império ao levar a Ucrânia à destruição para submeter a Rússia, já garantiu o fim do mundo unipolar. Destruídas infraestruturas militares ucranianas criadas pela NATO e os batalhões nazis como o Azov, que mantêm refém o povo de Mariupol, capturando os seus líderes, vivos ou mortos. A Rússia está em condições de negociar uma nova arquitetura política para a Ucrânia, libertada de fascistas poderosos e sendo restauradas políticas pacíficas. Os próprios ucranianos devem decidir, como continuar a viver. Uma Ucrânia Federal reconhecendo a independência das Republicas de Lugansk e de Donetsk incluíndo Mariupol tal como após a proclamação desta República em 2014, perdida depois para as forças ucranianas, será o plano russo. Funcionará?
O verdadeiro terrorismo mediático desencadeado – em contradição com o que enviados especiais relatam no terreno! – encobre a impotência ocidental, impedindo a tomada de consciência dos povos para as crises e perigos existentes. É urgente um novo padrão de política externa de cooperação internacional e desmilitarização.
O empenho dos EUA em criar um conflito na Ucrânia foi um erro estratégico que pode bem ser o fim da Europa da NATO. A situação permanecerá com todos os perigos latentes até os povos se questionarem por que terão de pagar por armas dos EUA que apenas os colocam em perigo, pagar preços mais altos pelo GNL e petróleo, pagar mais por cereais e matérias-primas antes produzidas na Rússia e perder exportações.
Outros teatros de confronto geostratégico desenrolam-se com a China no Mar do Sul da China, com Taiwan e no Médio Oriente. No Médio Oriente há uma tentativa de contenção do Irão e da China. O ataque de drones aos Emirados Árabes Unidos, aliados dos EUA, em janeiro (reivindicado pelos hutis) está ligado ao controlo do estreito de Bab al Mandeb, essencial para a Nova Rota da Seda Marítima da China. O seu controlo pelos EUA compromete os objetivos chineses e enfraquece a Comunidade Económica do Leste Asiático. Justificativa suficiente de Washington para o apoio à guerra no Iémene. Mas os hutis dão aos Emirados Árabes uma escolha amarga: atacar suas cidades ou ceder no estratégico Bab al-Mandeb.
Tudo isto faz parte do evoluir de uma nova ordem mundial, um novo modelo geostratégico, cuja evolução depende de quanto os protagonistas (EUA e aliados versus Rússia e China) possam resistir nos conflitos atuais.
[NR] Aos valores mencionados devem-se acrescentar os US$13,6 mil milhões aprovados por Biden em 24/Fev/2022 de ajuda militar e humanitária à Ucrânia. A soma dos valores dados a fundo perdido para a Ucrânia é superior à soma dos valores emprestados a Portugal + Grécia durante o período em que estiveram sob a tutela de Troikas (UE, FMI e BCE).
