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segunda-feira, 11 de julho de 2022

AFUNDANDO A PAZ NA EUROPA

No momento em que os Anglo-Saxões conseguiram já excluir a Rússia do Conselho da Europa, e se aprestam para a impedir de participar nas reuniões da OSCE, manobram agora para afundar a União Europeia ao criar uma estrutura concorrente na Europa Central : A Iniciativa dos Três Mares. Ao fazê-lo, retomam um velho projecto polaco que visa desenvolver essa região preservando-a de qualquer influência alemã ou russa.


Por Thierry Meyssan

O Conselho de Chefes de Estado e de Governo da União Europeia decidiu, em 23 de Janeiro de 2022, conceder à Ucrânia o estatuto de país candidato à adesão. A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, precisou que o caminho será longo (a Turquia tem este estatuto há 23 anos) para elevar este país ao nível exigido pela União, tanto em matérias económicas quanto políticas.

O gabinete do Presidente ucraniano havia já especificado que Kiev não espera ingressar na União, hoje ou amanhã, porque dispõe de um outro projecto, mas que o estatuto de candidato abre a via a um forte apoio financeiro de Bruxelas para que se possa aproximar dos padrões da União.

Com efeito, a Ucrânia partilha o projecto polaco (polonês-br) da Intermarium : uma aliança de todos os Estados situados entre o Mar Báltico e o Mar Negro.

A INTERMARIUM CONTRA A UNIÃO EUROPEIA

Este projecto assenta quer numa realidade geográfica como num passado histórico: a « República das duas Nações » (Coroa da Polónia e Grão-Ducado da Lituânia) dos séculos XVI a XVIII. Ele foi formulado a primeira vez durante a Revolução Polaca de 1830, pelo Príncipe Adam Jerzy Czartoryski, depois durante o período entre guerras pelo General polaco Józef Piłsudski, sob o nome de « Federação Międzymorze ». Piłsudski concebeu paralelamente uma ideologia visando libertar todos os povos da Europa Central da sua integração nos impérios germânico e sobretudo russo, o « prometeísmo ». Tal como o Titã, ele prometia aos homens progresso técnico que lhes permitisse libertarem-se dos seus suzeranos. Na prática, ele preferia os Germânicos aos Russos e não hesitou em aliar-se aos Austro-Húngaros e aos Alemães contra o Czar. Em 2016, uma terceira versão deste projecto foi apresentada pelo Presidente polaco, Andrzej Duda, sob o nome de «Iniciativa dos Três Mares » (o terceiro mar é o Adriático). Participaram nela onze estados. Eles passaram a doze há poucos dias.

Este projecto oferece, em princípio, uma resposta política legítima à ausência de fronteiras físicas na grande planície da Europa Central: mais vale unir-se do que se submeter ou fazer a guerra. No entanto, as coisas não são tão claras como parece : a República das duas Nações era uma confederação que permitia tanto ao Reino como ao Grão-Ducado manter o seu próprio funcionamento, enquanto Piłsudski concebia uma Federação na qual todos os povos se fundiriam e onde os Polacos teriam o predomínio. Todos os movimentos nacionalistas da Europa Central se referem à República das duas Nações, mas tiram daí conclusões muito diferentes.

Para os banderistas ucranianos, a República das Duas Nações é a herdeira da Ruténia criada pelos Vikings suecos, os Varégues ( ou Varangianos-ndT), o que é um pouco exagerado na medida em que seus territórios não se sobrepõem. Quando muito, pode dizer-se que culturalmente essas entidades têm pontos comuns. Para o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelenski, a República das Duas Nações é um bom exemplo de confederação que permite libertar-se ao mesmo tempo da Rússia... e da Alemanha que domina a União Europeia.

É por causa dos dirigentes políticos polacos e ucranianos apostarem neste projecto comum de Confederação Intermarium que o Presidente Zelensky pôde considerar, sem corar, ceder a Galícia Oriental à Polónia [1]. No entanto, em ambos os países, a extrema direita (no sentido totalitário do período entre guerras) pretende usar essa política para fazer avançar as suas ideias raciais.

A Polónia jamais jogou o jogo da União Europeia, da qual é membro desde 2004. Durante o seu período de candidatura à União, não hesitou em encaixar somas enormes, destinadas a reformar a sua agricultura, e em gastá-las para comprar aviões de guerra norte-americanos e ir fazer a guerra no Iraque sob ordens de Washington. Este truque de mãos havia sido concebido pelo Americano-Polaco Zbigniew Brzezinski e pela Americana-Francêsa Christine Lagarde [2]. Nada mudou: hoje Varsóvia está em perpétuo litígio com Bruxelas, nomeadamente a propósito do seu sistema judicial. A Ucrânia não terá qualquer problema em fazer o mesmo jogo duplo.

Este é o problema principal dos povos da Europa Central : eles procuram, legitimamente, afirmar-se sem os seus grandes vizinhos russo e alemão, mas não conseguem assumir-se sem lutar contra eles. No passado, esta doença pressionou-os sempre a confrontarem-se entre si.

O Príncipe Adam Jerzy Czartoryski acabou a sua vida no exílio em Paris e o General Piłsudski estabeleceu a sede do seu movimento prometeico igualmente em Paris. Em ambos os casos, tratava-se de escapar, ao mesmo tempo, à Alemanha e à Rússia. A lembrança deste período deu lugar, em 1945, à criação de uma rede de emigrantes da Europa Central trabalhando primeiro para o Vaticano, depois para os Serviços Secretos franceses e finalmente para os Anglo-Saxões (rede igualmente denominada Intermarium [3]). Reuniu os principais dirigentes em fuga aos Ustashas croatas, à Guarda de Ferro romena etc. Depois, em 1991, foi a constituição do « Grupo de Visegrád » (Hungria, Polónia, República Checa e Eslováquia). Hoje, os partidários deste projecto viram-se para os Anglo-Saxões, daí o apoio de Washington e Londres a Varsóvia e a Kiev. Assim, a Cimeira (Cúpula-br) da Iniciativa dos Três Mares em Varsóvia, em 2017, recebeu o Presidente norte-americano, Donald Trump. Enquanto que na Cimeira de 20 de Junho de 2022, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, intervindo por vídeo, solicitou e obteve de imediato a adesão do seu país.

O interesse dos Anglo-Saxões pelo projecto Intermarium é antigo. Um dos pais da geopolítica anglo-saxónica, Sir Halford Mackinder, havia identificado a Europa Central como o coração (Hartland) da Eurásia. Para ele, o Império Britânico só poderia controlar o mundo controlando primeiro esta região. Um dos seus discípulos, o Primeiro-Ministro Boris Johnson, precipitou-se pois para Kiev a fim de dar o seu apoio ao Presidente Zelensky. Todos os geopolíticos anglo-saxões retomaram as ideias de Mackinder, incluindo, é claro, Zbigniew Brzezinski, o qual foi com o Straussiano Paul Wolfowitz uma das duas principais figuras do colóquio de Washington, em 2000, que marcou a aliança entre os Estados Unidos e a Ucrânia [4].

Infelizmente, aqueles que empurram os Estados Unidos para o apoio do projecto Intermarium são figuras representativas do nacionalismo de extrema-direita. Assim, os conselheiros dos Presidentes Dwight Eisenhower e Ronald Reagan que os levaram a adoptar o conceito de « nações cativas (da URSS) » eram todos antigos colaboradores dos nazis, membros do Bloco das Nações Anti-Bolcheviques [5] ; os que organizaram o pré-citado congresso de 2000 foram os seus filhos; e hoje o mais importante deles é o Americano-Polaco Marek Jan Chodakiewicz, que não parou de minimizar os crimes dos nazis [6].

Todos os membros da Iniciativa dos Três Mares são membros da UE, salvo a Ucrânia. A maior parte considera espontaneamente que ela é para eles muito mais importante do que a UE, embora não tenha os mesmos meios. O facto de a Ucrânia ter a ela aderido três dias antes do reconhecimento do seu estatuto de candidato à UE atesta não só que essa é mais importante para ela, mas também que Bruxelas percebeu muito bem que devia aceitar todos os membros da Iniciativa dos Três Mares para não perder nenhum.

A prazo, esta lógica deverá levar os membros da Iniciativa dos Três Mares a deixar colectivamente a UE quando ela já não lhes for financeiramente proveitosa, porque jamais partilharam os seus objectivos políticos.

Desde logo, toda a arquitetura de segurança do continente é posta em causa. Ela repousava sobre dois pilares, por um lado o Conselho da Europa e por outro a Organização para a Cooperação e Segurança na Europa.

A RÚSSIA EMPURRADA PARA FORA DO CONSELHO DA EUROPA

O Conselho da Europa foi criado em 1949. Tratava-se para certos fundadores de basear a unidade europeia em princípios jurídicos comuns através de um Conselho de Estados e para outros, via uma Assembleia de parlamentares. No fim, juntaram os dois projectos, mas à época mantiveram fora os Soviéticos e seus países irmãos. A Rússia e os membros do Pacto de Varsóvia aderiram logo após a queda do Muro de Berlim.

Este Conselho dotou-se de duas instituições emblemáticas. Em primeiro lugar, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH). Infelizmente, este politizou-se no decurso dos últimos meses, manifestando uma evidente parcialidade face à Rússia. Por exemplo, reconheceu em Janeiro o direito de um cidadão russo cuspir no retrato oficial do Presidente da Federação da Rússia ( Processo Karuyev v. Rússia). Ou ainda, em Fevereiro de 2022, o direito de um cidadão russo perturbar uma manifestação pró-Putin exibindo um cartaz « Putin, melhor que Hitler! » ( Processo Manannikov v. Rússia). E acaba de censurar a lei russa que foi adoptada após as revoluções coloridas exigindo que as organizações políticas financiadas do estrangeiro o exibam em todas as suas publicações (Processo Ecodefence e outros v. Rússia).

A outra grande instituição, é a Comissão de Veneza que ajudou os Estados recém-independentes a assimilar as regras democráticas —Comissão que, diga-se de passagem, não tem parado de chamar a atenção da Ucrânia sobre os seus procedimentos administrativos e institucionais. [7]—.

Em última análise, os Ocidentais suspenderam o direito de voto da Rússia no Conselho da Europa com a alegação que esta estaria a tentar anexar a Ucrânia pela força. Ao que a Rússia, estupefacta, respondeu que jamais teve essa intenção e que se retirava de uma instituição que se tornara partidária.

A RÚSSIA IMPEDIDA DE PARTICIPAR NAS REUNIÕES DA OSCE

A outra plataforma intergovernamental é a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Ela foi criada por ocasião dos Acordos de Helsínquia, em 1973. Ao contrário das Nações Unidas, não é um local de arbitragem, mas apenas um fórum que permite a todos os actores do continente falar entre si livremente. Foi ela, por exemplo, que adoptou a Declaração de Istambul de 1999, também conhecida como « Carta da Segurança na Europa », que estabelece os dois grandes princípios (1) o direito de cada Estado escolher os aliados a seu gosto e (2) o dever de não ameaçar a segurança alheia garantindo a sua; princípios cujo desrespeito está na raiz do conflito entre os Estados Unidos e a Rússia [8].

Lembremos que a Federação Russa nunca contestou o direito de ninguém em aderir à OTAN, mas o dos membros da OTAN em albergar bases militares norte-americanas. Os nossos leitores lembram-se que quando o Ministro russo dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br) da Rússia, Serguei Lavrov, escreveu a cada um de seus « parceiros » para lhes perguntar como conciliavam os dois princípios de Istambul com a instalação de equipamentos e pessoal militar norte-americanos na proximidade da Rússia nenhum ousou responder-lhe.

No entanto, a neutralidade deste fórum foi violada no mês de Abril quando novos funcionários da OSCE, mais precisamente antigos militares da OTAN, foram apanhados (pegos-br) em flagrante delito de espionagem no Donbass [9].

Como se isso não bastasse, o Reino Unido acaba de recusar os vistos necessários à delegação russa que devia assistir à Assembleia parlamentar anual da OSCE, de 2 a 6 de Julho de 2022, em Birmingham. Londres, que viola as suas obrigações, refugiou-se atrás das sanções nominais da União Europeia contra cada membro da delegação.

Por consequência, não apenas os documentos assinados pelos 57 Chefes de Estado e de Governo da OSCE deixaram de ter valor, como a administração desta organização se tornou numa arma de guerra e, em última análise, deixará de desempenhar o seu papel de fórum.

A arquitetura de segurança do continente europeu transforma-se, portanto, radicalmente. A prazo, a Europa Central irá formar um bloco, primeiro no seio da União Europeia e de seus candidatos, depois fora da União. A sua Defesa será garantida pelos Estados Unidos. Enquanto tal, as duas partes do continente, Ocidental e Oriental, deixarão de se comunicar. Isto será o culminar do plano dos geopolíticos anglo-saxões. Mas este projecto, se for concretizado, será instável. Primeiro, os Europeus Ocidentais tiveram sempre necessidade da Rússia e, depois, os povos da Europa Central viveram durante muito tempo num campo de batalha. Quando os Cavaleiros Teutónicos e os Cossacos não se enfrentavam no seu território, eles batiam-se entre si. Para que uma paz seja duradoura é preciso haver respeito por todos os protagonistas. Ao destruir todas as instituições de Segurança do continente, torna-se inevitável um conflito generalizado.


Fonte: Rede Voltaire


[1] “A Polónia e a Ucrânia”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 14 de Junho de 2022.


[2] «Con Christine Lagarde, la industria estadounidense entra al gobierno francés», por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 29 de junio de 2005.


[3] Unholy Trinity: The Vatican’s Nazis, Soviet Intelligence and the Swiss Banks, Mark Aarons & John Loftus, ‎St Martin’s Press (1998).


[4] “Ucrânia : a Segunda Guerra mundial continua”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Abril de 2022.


[5] Old Nazis, the New Right, and the Republican Party, Russ Bellant, South End Press (1991).


[6] lntermarium: The Land between the Black and Baltic Seas, Marek Jan Chodakiewicz, Routledge (2012).




[8] “A Rússia quer obrigar os EUA a respeitar a Carta das Nações Unidas”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Janeiro de 2022.


[9] “A OSCE expulsa de Lugansk por espionagem”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 19 de Abril de 2022.

domingo, 3 de julho de 2022

A PREPARAR AS NOSSAS CABECINHAS PARA A GUERRA NUCLEAR




Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 01/07/2022

1. Reunido em mangas de camisa num castelo alemão, o G7 actualizou as sanções à Rússia e as novas verdades sobre a guerra. De facto, foi o G7+1, pois, como sempre, Zelensky esteve presente por vídeo para pedir mais e mais sofisticadas armas, a tempo de poder decidir a guerra antes do Inverno.
Ficou-se a saber que, só dos americanos, ele recebe todos os meses armamento no valor de 7,5 mil milhões de dólares — um festim para as Lockheed Martin dos Estados Unidos. No final e sobre um horizonte de ruínas, alguém há-de ter de pagar isto e suponho que não sejam só os contribuintes americanos, mas todos os da NATO.

2. Na sua intervenção, Zelensky informou os outros de que na véspera os russos tinham atacado com mísseis um centro comercial onde se encontravam mil civis: dez tinham morrido nesse dia, 18 até hoje. Os russos argumentaram que não tinham atacado nenhum centro comercial mas sim um depósito de armas que ficava ao lado e que, ao incendiar-se, atingira com destroços o centro comercial. Como é óbvio, essa versão foi imediatamente descartada, em favor do “crime de guerra”.

3. Ao mesmo tempo que acrescentava o ouro à lista de bens russos cuja exportação passa a ficar proibida, o G7 insurgiu-se contra “o roubo e impedimento das exportações de cereais” ucranianos por parte da Rússia.

E depois de algum imbecil ter dito que pela primeira vez na História a Rússia utilizava a fome como arma de guerra (nunca terá ouvido falar de cercos nem de bloqueios de portos durante as guerras), desta vez o G7 “apelou” à Rússia para levantar o bloqueio aos portos ucranianos do Mar Negro, com Odessa à cabeça. Mas há aqui o típico problema da pescadinha: os russos nunca disseram que impediriam os navios-mercantes de irem buscar os cereais aos portos ucranianos, mas que o que impede isso é eles estarem minados pelos ucranianos. E estes, por sua vez, dizem que se retirarem as minas ficam indefesos perante a frota russa ao largo, pelo que a única saída seria a retirada desta. Mas para onde iria a frota russa? A resposta lógica era para ali ao lado, para a Crimeia e para o abrigo da sua base naval de Sebastopol. Mas isso não tranquilizaria os ucranianos, pois os russos poderiam regressar rapidamente a Odessa. A única coisa que os tranquilizaria era que a frota russa do Mar Negro se retirasse toda dali, atravessasse o Estreito e entrasse no Mediterrâneo — onde, não dispondo de nenhuma base, lhe restaria navegar meio mundo e ir acolher-se à outra costa marítima russa, no Báltico. Ou seja, abandonar o Mar Negro, onde está desde Catarina, a Grande, e deixar a sua costa sul e a Crimeia exposta a ataques navais dos seus inimigos — coisa que Moscovo, obviamente, jamais aceitará. A única solução é, pois, negociar com Putin, coisa que ninguém do lado “justo” quis ou quer fazer, seja qual for a razão. Fazê-lo passar sempre, não apenas pelo responsável pelo desencadear da guerra, que é, mas também pelo criminoso de guerra sempre à mão, é muito mais eficaz tendo em vista o objectivo final.

4. Por iniciativa dos Estados Unidos, os membros do G7 e não só mantêm congelados 300.000 milhões de dólares de reservas russas em bancos ocidentais. Putin respondeu parcialmente decretando que o serviço da dívida externa russa passaria então a ser pago em rublos. Assim fez esta semana, pagando em rublos uma tranche de 100 milhões de dólares à empresa privada que, por sua vez, deveria pagar aos detentores da dívida.

Seguindo ordens de Washington, a empresa não o fez e a Rússia foi declarada em default — a primeira vez desde a Revolução de 1917. Mas o mesmo G7 que acusou a Rússia de ter “roubado” a Ucrânia por ter vendido uma pequena parte de cereais que estavam na Mariupol conquistada aprovou uma ajuda económica de €27 mil milhões à Ucrânia até ao final deste ano, que será em parte financiada com o dinheiro das reservas russas “congeladas”. Congeladas, apropriadas e distribuídas, por ordem de nenhum tribunal, ao abrigo de nenhuma lei internacional e por resolução de nenhum organismo com competência para tal.

5. Por sugestão da secretária do Tesouro norte-americana, Janet Yellen, o G7 decidiu também começar a trabalhar num plano para estabelecer um tecto máximo ao petróleo e gás natural importado da Rússia. Convém recordar que antes de 24 de Fevereiro, a Europa importava 27% do petróleo e 75% do gás natural da Rússia, através do Nordstream I, a preços baratos e com poluição zero no transporte, e preparava-se para abrir o Nordstream II, uma parceria russo-alemã, que Joe Biden, na cara do chanceler Olaf Scholz, declarou imediatamente cancelada. E convém recordar também que os Estados Unidos, desde que adquiriram a tecnologia para explorar o shale gas (gás de xisto), se tornaram auto-suficientes em petróleo e gás, que agora irão exportar para a Europa substituindo-se aos russos, vendendo mais caro, com custos de transporte acrescidos e sendo que o gás deles, o GNL (gás natural liquefeito), envolve a construção de terminais próprios de armazenamento e é o combustível com maior impacto no aquecimento da atmosfera.

Mas, como disse Ursula von der Leyen, “a nossa reflexão estratégica, enquanto democracias, é a de construir o mundo de amanhã com parceiros que partilham das mesmas ideias”, exemplificando, no campo da energia, com os Estados Unidos, o Azerbaijão e o Catar (“Le Monde Diplomatique”, Junho). E poderíamos acrescentar a ‘democracia’ venezuelana, com quem a Administração Biden já abriu negociações com vista a levantar o embargo às exportações de petróleo.
A História está cheia de episódios destes, em que depois da tragédia acontecer, todos se perguntaram “porque é que não vimos o que ia acontecer, porque é que ninguém fez nada para o evitar”. A diferença é que nas tragédias anteriores não havia o factor nuclear.

Obviamente, a proposta de limitar o preço da energia não se aplica a todos os produtores, mas apenas aos russos. Para os outros, nomeadamente os nossos amigos americanos, grandes ganhadores económicos desta guerra, bem podem os europeus, os grandes sacrificados, juntamente com os africanos esperar em vão qualquer sinal de solidariedade: ela vai toda para a Ucrânia e para a NATO.

Resta saber o que têm os russos a dizer a esta extraordinária proposta dos sete senhores em mangas de camisa que deveriam representar as sete democracias liberais mais prósperas do mundo. Porque tudo isto é de uma imensa hipocrisia: a Europa continua a precisar desesperadamente da energia e dos cereais russos, mas, a reboque da NATO e dos Estados Unidos, embarca em bravatas que não apenas contrariam todos os princípios do seu credo liberal, como põem em risco a sua sobrevivência económica por décadas e todas as belas promessas de combate às alterações climáticas, agora substituídas pela reactivação em força das centrais a carvão (defendida até pelos Verdes alemães).

E se Putin se põe a fazer contas ao dinheiro que tem em caixa e ao tempo de guerra que ainda tem pela frente e decide, pura e simplesmente, cortar a energia à Europa?

6. Quem é que manda hoje na Europa? É Boris Johnson? Não, graças a Deus, é inglês. Macron? Não, capitulou em Kiev, juntamente com Draghi. Scholz? Não, é um homem perdido em tudo: ideias, estratégia, parceiros. Von der Leyen? Não, é um peão dos americanos, em cujas mãos pôs o destino da Europa, daqui para a frente condenando a UE e ela própria à irrelevância. Quem manda na Europa é o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg. Diferentemente de Ursula von der Leyen, ele não é peão dos americanos, é parceiro estratégico deles. E se também subjugou a Europa aos interesses americanos, não foi por falta de visão ou de cautela, foi por convicção, porque esse era o seu objectivo. Stoltenberg é o governador americano da Europa. Ele é quem aparece em todo o lado, anuncia, manda e decide tudo: que a Força de Intervenção Rápida da NATO se vai multiplicar por oito e encostar-se às fronteiras russas, numa típica manobra ‘defensiva’, igual à que conduziu à invasão da Ucrânia; quanto é que isso, mais o reapetrechamento militar, vai custar a cada membro da organização; como é que serão de futuro as relações de cada um com a China (de desconfiança e pré-confronto, já o disse); que leis é que a Suécia tem de alterar para passar a declarar os refugiados curdos como ‘terroristas’, como impõe o sultão Erdogan — esse paladino da paz e dos direitos humanos e que, ao contrário de Putin, não alimenta qualquer desejo de reconstruir um império passado.

Tudo isto, todo este imenso poder, Stoltenberg conquistou-o em breves quatro meses que tudo mudaram, tirando partido da reforma de Merkel na Alemanha, da escabrosa leviandade de Boris Johnson e da senilidade galopante de Joe Biden. E, sobretudo, do trágico e imperdoável erro de cálculo de Vladimir Putin. E tudo isto, todo este poder, todas estas decisões, todas estas mudanças nas nossas vidas, ele impôs aos europeus sem nunca nos consultar, sem nunca nos perguntar nada, apenas manobrando entre os grandes e explorando as suas fraquezas disfarçadas de forças.

Se ninguém o travar, este norueguês que se tornou dono da Europa sem que nenhum europeu tivesse votado nele vai-nos levar até à guerra nuclear com a Rússia. A História está cheia de episódios destes, em que depois da tragédia acontecer todos se perguntaram “porque é que não vimos o que ia acontecer, porque é que ninguém fez nada para o evitar”. A diferença é que nas tragédias anteriores não havia o factor nuclear.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

O OCIDENTE EM DECOMPOSIÇÃO



Por José Goulão

O mundo está a encolher para o Ocidente, esse conceito geopolítico que ignora limites geográficos e pretende submeter o resto do mundo às suas «regras» e «valores partilhados», entre os quais o militarismo, o desprezo pelas pessoas, o expansionismo, a rapina de recursos naturais, a submissão ao casino financeiro e a um papel-moeda de que se desconhece o valor real, a cultura da guerra, a civilização única e cada vez mais alienante.

Direitos humanos e democracia-liberal? Bem, direitos exclusivos de uns humanos que são bastante mais humanos que os outros, a esmagadora maioria; e democracia realmente neoliberal, quer isso dizer assegurada por rituais cumpridos segundo guiões capazes de garantir o domínio absoluto das oligarquias e a financeirização da sociedade de modo a que as pessoas sejam mais abjectos que sujeitos. A maioria vota de tempos a tempos nos «vocacionados» para o poder que garantem esse desfecho, recomendados com recurso a métodos tão ilegais como asfixiantes pela propaganda institucional e a comunicação social de orientação única; o remanescente serve para compor o ramalhete do pluralismo virtual e pronto, respeita-se assim o único regime político aceitável e acima de qualquer crítica.

O mundo está a encolher para o Ocidente por ser essa a ordem natural das coisas uma vez que, em boa verdade, nenhum império sobreviveu às leis do tempo e às dinâmicas da História; e também por causa dos comportamentos do próprio Ocidente perante a guerra que em 2014 levou até à Ucrânia, embora queira fazer acreditar que o conflito se iniciou apenas em 24 de Fevereiro deste ano. Essa é mais uma mentira numa realidade de mentiras em que o próprio Ocidente vive, chegando a acreditar nela; e certamente por isso estamos a assistir a sucessivas rajadas nos próprios pés, acelerando o processo de transformação mundial e condenando o concílio dos senhores do mundo a um processo gradual de decomposição.

Uma clique dirigente à deriva

Apesar de a União Europeia ser conhecida como uma entidade antidemocrática – gerida por executivos não eleitos – autoritária, austeritária, ao serviço de uma percentagem ínfima da sociedade e desprezando os povos com uma arrogância cada vez mais ditatorial, será difícil encontrar na sua história uma clique dirigente tão incompetente e incapaz como a actual – onde ninguém se salva. Esta coincidência que não surpreende, uma vez que a chamada «classe política» é cada vez mais um palanque para medíocres convencidos, gera resultados muito mais trágicos do que em circunstâncias comuns porque se manifesta num momento crucial para a Europa e o mundo; uma época em que não será aconselhável proceder sem estratégia, à deriva, cumprindo ordens ditadas por interesses alheios e contraditórios, com a agravante de essa casta apodrecida o fazer com uma agressividade raivosa e irracional num cenário quase exclusivamente de faz-de-conta. E, contudo, é o futuro de todos e do planeta que está em causa.

Num momento em que sobretudo algumas publicações norte-americanas e britânicas ditas de «referência» começam a reconhecer que a guerra na Ucrânia parece não estar a decorrer segundo os planos e a propaganda ocidental, os dirigentes da União Europeia mantêm-se em negação dessa provável realidade e insistem no reforço das sanções à Rússia e no envio de armas para o regime falido de Kiev e o aparelho nazi que o sustenta. Ouvem-se, é certo, alguns apelos à realização de negociações de paz, designadamente da Itália, mas não passam ainda de vozes a pregar no deserto. A insistência na guerra continua a ser a perigosa aposta da casta dirigente europeia, sempre subserviente ao gang belicista que controla o teleponto do presidente Biden, ignorando até a voz avisada e experiente do dinossauro Henry Kissinger apelando à realização de negociações no prazo máximo de dois meses.

Kissinger sabe, como o sabem também os militares ucranianos que, à revelia de Zelensky e dos corpos nazis, tentam chegar a negociações com Moscovo, que o prolongamento da guerra torna cada vez mais sombrio o futuro da Ucrânia e dos interesses europeus e norte-americanos apostados em «enfraquecer a Rússia». Pode chegar-se ao limite de as necessárias e fundamentais iniciativas diplomáticas chegarem tarde de mais para a dinâmica militar russa, situação que será um triunfo caído dos céus para os círculos mais nacionalistas, reaccionários, expansionistas e neoczaristas de Moscovo capazes de superar o próprio Putin nessas tendências. O maior aliado desses extremistas continua a ser o socialista que faz de chefe da «diplomacia» da União Europeia, Josep Borrell, para quem a guerra em curso só tem solução militar. Uma sentença que continua a prevalecer em Bruxelas.

A obsessão de impor sucessivos pacotes de sanções contra a Rússia é outro sinal da vocação suicida dos dirigentes da União Europeia e que afectará duramente os povos dos Estados membros e de todo o continente, que não as oligarquias e respectivos serventes.

A incompetente mas arrogante presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Layen, disse há poucos dias que a União Europeia não iria cortar a importação de petróleo da Rússia para não desestabilizar o mercado e provocar aumentos de preços que iriam «financiar a máquina de guerra de Moscovo», um argumento que, em teoria, faria algum sentido.

Porém, nos dias a seguir e ao cabo de uma acesa discussão, o Conselho Europeu decidiu, numa notável atitude coerência, aprovar o corte da maior parte das importações de petróleo russo. A decisão foi tão acalorada e difícil que logo surgiram os federalistas do costume, mais federalistas ainda que os federalistas, a defenderem a abolição do sistema de consenso para tomada de decisões no Conselho Europeu para que não aconteçam hesitações em situações tão transcendentes.

Que grande embrulhada!

Pois bem, os chefes de Estado e de governo da União Europeia decidiram que a partir do próximo Natal será suspensa a importação de 65% do petróleo russo. Os restantes 35%, que chegam pelo oleoduto Druzhba, também serão alvo de restrições com as quais se comprometeram a Alemanha e a Polónia. Se assim não for, os nazis de Kiev já ameaçaram bombardear a secção do oleoduto que passa pela Ucrânia.

Parece tudo fácil: a União Europeia deixa de importar petróleo da Rússia e vai buscar as quantidades equivalentes a outras fontes, nem que seja à Venezuela, país a quem impôs sanções e roubou o ouro, para que tudo volte a funcionar como dantes. E, como diz o volátil primeiro-ministro de Portugal, os preços dos combustíveis voltarão à normalidade quando acabar a guerra na Ucrânia. Uma grosseira falsificação da realidade sentenciada com a maior desfaçatez.

Os dirigentes europeus são, no mínimo, irresponsáveis ou ignorantes e mentirosos, ou tudo ao mesmo tempo, porque as coisas não funcionam assim.

Vale a pena reflectir um pouco sobre o que está em jogo para lá da simplicidade de cortar o petróleo russo e substituí-lo por outro. E tudo apenas em seis meses.

É muito duvidoso que a União Europeia consiga encontrar as quantidades de petróleo necessárias no mercado internacional e num período tão apertado de tempo. Por outro lado, a economia europeia funciona há décadas com base no petróleo russo barato e abundante, com características físicas e químicas há muito conhecidas e imutáveis, fluindo regularmente nas quantidades necessárias e sem interrupções. As refinarias, o aparelho industrial, a petroquímica, os transportes, os sistemas de aquecimento e a produção de derivados – gasolina, gasóleo, combustíveis para motores de avião, benzeno e outros – dos países da União Europeia estão há décadas afinados para trabalhar com as características do petróleo russo importado.

Tipos de petróleo oriundos de várias outras fontes e regiões, as misturas que venham a ser feitas entre eles, a inconstância e a variabilidade dessas próprias misturas e o desconhecimento que ainda existe quanto às suas características – isto no pressuposto de que seja encontrada no mercado a quantidade suficiente para abastecimento regular e constante – implicam uma reconversão dos aparelhos petrolífero e industrial europeus, a que devem adicionar-se as adaptações de transporte, de portos, do armazenamento e de toda a logística exigida para a transformação. E quando se fala de preços, esqueçamos o petróleo russo barato: as sanções impostas pelo Ocidente já colocaram o petróleo bruto bem acima dos 100 dólares por barril e elevaram os preços da energia nos Estados Unidos e na Europa para os níveis mais altos em 40 anos. Trata-se, relembra-se, apenas de um ponto de partida para preços que poderão ser estratosféricos em relação aos valores habituais, principalmente quando o petróleo russo for abolido, consequência a somar às decorrentes da perturbação dos mercados de gás natural devido, mais uma vez, à obsessão sancionadora dos dirigentes norte-americanos e europeus. Tendo em consideração o elevado número de variantes desconhecidas para tentar substituir o petróleo russo é impossível calcular até onde chegará a espiral dos preços da energia.

Dizem os especialistas que a mudança radical do tipo de petróleo consumido na União Europeia implica gastos de milhões de milhões de euros e trabalhos para muitos anos, não para seis meses; e que as transições prometidas para as energias renováveis não passam ainda de piadas postas a circular pelos novos/velhos oligarcas convertidos à «economia verde» como novo ramo da selvajaria neoliberal. E não esqueçamos também que os veículos eléctricos são carregados com energia gerada essencialmente por combustíveis fósseis, em busca dos quais continua acesa a corrida em todo o mundo – e certamente por muitos anos. As promessas de substituição dos produtos petrolíferos são, por ora, historinhas para ninar ingénuos.

Por este andar, devido a impossibilidade de substituir automaticamente o petróleo russo, dentro de meses o Ocidente mergulhará ainda mais na crise económica, na instabilidade dos fluxos energéticos; e a inflação, que alguns dizem agora ser passageira, implicará situações dolorosas na sociedade, sobretudo nos extratos mais desfavorecidos. Não por causa da «guerra de Putin» mas das sanções irracionais contra a Rússia impostas pelos dirigentes europeus e que se viram contra os povos europeus. Na guerra económica, onde «as coisas estão a correr mesmo muito mal», na opinião do editor de Economia do The Guardian, Larry Elliott, os dirigentes europeus não se limitam a dar tiros no pé. Outros saem-lhes pela culatra. E comprar petróleo à Líbia no mercado negro gerido por milícias terroristas ou adquirir à Índia petróleo que este país comprou à Rússia, mas agora com os preços multiplicados a uma potência bem elevada, são hipóteses bem à medida das brilhantes e desnorteadas cabeças dos nossos dirigentes.

Quanto à Rússia, segundo reconhecem publicações europeias como The Economist e o The Guardian, e até o New York Times nos Estados Unidos, nunca ganhou tanto dinheiro com a venda de petróleo, apesar de comercializar menos e de fazer descontos nos negócios com a China e a Índia.

Sanções à Rússia? Vejamos as conclusões de The Economist: «A venda de petróleo e gás para a maior parte do mundo continua ininterruptamente. O superavit comercial deve bater recordes nos próximos meses; em 2022 o superavit em conta corrente, que inclui comércio e alguns fluxos financeiros, pode chegar a 250 mil milhões de dólares (15% do PIB de 2021), mais do dobro dos 120 mil milhões» do ano passado.

Agora a palavra à CBS norte-americana: apesar do roubo das reservas cambiais russas no estrangeiro, «o rublo é a moeda com melhor desempenho do ano – ganhou mais de 40% ao dólar desde Janeiro», principalmente a partir do momento em que foi indexado ao ouro e não à divisa norte-americana. Além disso, ainda segundo a mesma fonte norte-americana, «o comércio de recursos naturais (russo) está em alta, embora haja quebra no volume de exportações – mas o aumento dos preços mais que compensa as quedas».

Quando ao gás natural, diz o francês Les Echos citando o Citibank, que a Rússia pode ganhar mais 100 mil milhões de dólares do que no ano passado, por causa das subidas de preços decorrentes das sanções, apesar das quais «os 27 da União Europeia continuam a enviar 200 milhões de dólares por dia para a Gazprom».

Simon Jenkins, colunista do The Guardian, chegou à seguinte conclusão: «enriquecendo em vez de empobrecer, Moscovo está a deixar os europeus com falta de gás e os africanos sem comida».

A asserção é parcialmente verdadeira. Mas arrasta com ela um outro mito, o da responsabilidade da Rússia pela «fome no mundo», que a realidade livre da propaganda desmente com toda a facilidade.

Obstrução aos cereais, uma história falsa

A narrativa sobre o agravamento da fome no mundo por causa da guerra na Ucrânia, sobretudo em consequência da actuação russa, é uma das mais descabeladas linhas de propaganda em circulação.

Então a fome no mundo não é uma situação sistémica resultante das práticas coloniais e imperiais, das guerras e destruições conduzidas maioritariamente pela NATO e seus membros, dos atentados ambientais, da utilização predatória de grandes áreas de terrenos agrícolas em países em desenvolvimento pelas transnacionais da agroindústria, da inutilização de terras aráveis pela corrida entre as grandes potências na caça aos recursos minerais, da desertificação decorrente das más práticas contra os ecossistemas?

Nada disso. A fome agrava-se porque, garante a opinião única, a Rússia impede a comercialização dos cereais ucranianos. É um dogma.

Façamos então contas e arrolemos alguns factos reais.

O mundo produz anualmente 800 milhões de toneladas de trigo e diz-se que a Ucrânia, considerada apenas o oitavo maior produtor, está pronta para exportar 20 milhões de toneladas, ou seja, 2,5%.

O trigo representa 20% dos produtos alimentares comercializados, segundo a FAO, pelo que a quota real ucraniana é de 0,5%, isto é, pouco mais do que nada. Entretanto, segundo órgãos oficiais dos Estados Unidos, os 20 milhões de trigo ucraniano representam somente exportações potenciais: na realidade, a quantidade comercializável para o estrangeiro não ultrapassa os seis a sete milhões de toneladas. Irrelevante, portanto: a falta do trigo ucraniano tem uma contribuição nula para o aumento da fome.

Acresce que o governo de Kiev tem elevadas responsabilidades nas dificuldades para a exportação do trigo produzido no país. As suas tropas minaram os portos que controlam no Mar Negro, principalmente o de Odessa e os mais próximos, e afundaram embarcações para barrar o acesso de navios às instalações. A Rússia e a Turquia dispuseram-se a desminar as águas e Moscovo comprometeu-se a criar e respeitar corredores humanitários para exportação de cereais. O presidente Zelensky e a sua corte nazi nem querem ouvir falar do assunto. Entretanto a Rússia desminou os portos de Mariupol e Berdiansk, que conquistou aos terroristas do Azov, e disponibilizou-os para a navegação internacional, incluindo embarcações ucranianas, através de corredores humanitários. Kiev continua a rejeitar.

O governo ucraniano pode também exportar trigo – e consta que está a fazê-lo – através do Danúbio e da Roménia; através da Hungria; igualmente através da Polónia, desde que se façam acertos nas bitolas ferroviárias. E também poderia fazê-lo pelo território da Bielorrússia com acesso aos portos do Báltico. Mas essa via está barrada pelas sanções impostas contra Minsk.

Seja como for, a questão do «congelamento» do trigo ucraniano é um falso problema e sem qualquer interferência na situação alimentar mundial. É fruto de uma propaganda doentia.

Já a questão do trigo, dos fertilizantes e dos compostos para fertilizantes russos tem realmente impacto na alimentação europeia e mundial; porém, o governo russo não tem qualquer responsabilidade na situação. Os produtos apenas não são comercializados devido às sanções impostas pelo Ocidente a Moscovo, nada mais do que isso. A Rússia, o maior exportador mundial, teria capacidade para comercializar 37 milhões de toneladas de trigo este ano e 50 milhões em 1922/23. Contudo, é natural que nem todo esse volume fique retido em território russo porque a maior parte do mundo não aderiu às sanções e está disponível para encontrar maneiras de as contornar – tanto mais que não têm qualquer legalidade e não foram assumidas através da ONU. Trata-se apenas de «regras» arbitrárias impostas pelo Ocidente colonial. Subvertê-las é um acto de inteligência, resistência – e de sobrevivência.

Mas as sanções impostas à Rússia perturbam, de facto, o panorama alimentar mundial e em África sente-se já, por exemplo, a falta de fertilizantes e de potássio para fertilizantes. É natural que assim seja: Moscovo representa um quarto do comércio mundial de fertilizantes; e a Rússia e a Bielorrússia, igualmente submetida a sanções, são responsáveis por 45% dos fertilizantes potássicos. Mais uma vez, sejamos claros e objectivos: as dificuldades agravadas sentidas na situação alimentar mundial não decorrem da «guerra na Ucrânia» mas das sanções impostas à Rússia pelo Ocidente geopolítico – menos de 15% da população mundial.

É natural, portanto, que cresça no mundo o interesse de cada vez mais países numa nova ordem mundial multipolar ancorada na afirmação crescente de potências com a Rússia e a China. As medidas práticas de contestação da ditadura do dólar e de instituições imperiais como o FMI e o Banco Mundial surgem e reforçam-se através de novas formas de cooperação regionais e transnacionais; e as transacções comerciais e os movimentos financeiros com base em commodities, matérias-primas e outros recursos naturais começaram a substituir o dólar. É a tentativa de restaurar uma economia internacional com base em recursos tangíveis e não em papel verde impresso às toneladas e à medida das necessidades especulativas de uma sociedade financeirizada em que os oligarcas jogam em casinos globalistas de onde a economia virtual expulsou praticamente a economia real assente em riqueza palpável.

Na recente cimeira do Fórum Económico Mundial, o cenáculo do neoliberalismo, não foi apenas Kissinger quem deitou água gelada na euforia arrogante do globalismo ortodoxo e do «Great Reset», o «grande reinício» para impor um neoliberalismo «renovado» em bases «ecológicas». James Diman, representante do gigante bancário JP Morgan, vaticinou que «um furacão económico está a chegar».

O neoliberalismo, como instrumento do imperialismo e do colonialismo globalista, parece ter começado a abanar à medida que a ordem mundial unipolar vai perdendo terreno. São sinais significativos de que o Ocidente geopolítico entrou em decomposição.



sábado, 11 de junho de 2022

O CONFLITO NATO-UE / OPINIÃO



Por Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 10/06/2022


Voltando aos primórdios da união de facto, ou do casamento forçado entre a NATO e a UE.
As causas longínquas do que, com a guerra da Ucrânia, se veio a revelar um inultrapassável conflito, com um vencedor e um vencido, os EUA vitoriosos e a União Europeia destroçada (apesar de se agitar), encontram-se na entrada dos EUA na II Guerra Mundial

Os Estados Unidos entraram na II GM e intervieram na Europa não por motivos ideológicos (defesa da democracia, ou dos direitos do homem, ou de uma civilização), mas por motivos de interesse estratégico, de substituição da Europa (a Inglaterra) como centro do mundo. Esse estatuto de potência imperial implicava, à semelhança da Inglaterra imperial e colonial (sua antecessora), dispor de supremacia marítima e aérea, de dominar o sistema de trocas comerciais e o financeiro, de, em suma, substituir a Royal Navy pela US Navy (mais a USAF), substituir a libra pelo dólar, a City por Wall Street. A língua inglesa manter-se-ia o latim do novo império.

As causas da II GM são eminentemente económicas e sociais, uma questão de poder. A revolução russa criara esperanças de tomada de poder pelo proletariado industrial e essa esperança teve como réplica a reação violenta dos detentores do poder na Europa (o nazismo e o fascismo e governos autoritários em Inglaterra e em França).

Os banqueiros e industriais alemães pensaram exatamente o mesmo que os banqueiros e industriais ingleses e americanos. Era necessário derrotar, se possível no ovo, os revolucionários socialistas e comunistas. Daí as boas, as excelentes relações entre a Inglaterra, a Alemanha e os Estados Unidos. Daí a complacência com que os “democratas” ingleses e americanos viram a ascensão do nazismo e do fascismo, daí a recusa das democracias europeias apoiarem os republicanos espanhóis. Daí, por fim, a relutância dos EUA em entrar na guerra, esperando que os europeus se digladiassem e mutuamente se enfraquecessem.

Daí, ainda, imediatamente antes da guerra, as frustes tentativas de conjugação de esforços com a URSS, que acabaria por ser deixada isolada contra os alemães. As divergências no movimento internacional socialista e comunista europeu também facilitaram muito a tarefa de manter o essencial das relações sociais dos regimes saídos da revolução industrial.

A questão do nazismo nunca foi uma preocupação para as classes dirigentes inglesas e americanas. O governo inglês, os seus parlamentares, os “comuns” e os “lordes”, mantiveram uma política de boa relação, para não dizer de cumplicidade com a Alemanha nazi. Não é necessário recordar as simpatias de Eduardo VII, o duque de Windsor, pela Alemanha de Hitler, ordeira e anticomunista.

Apenas quando a Alemanha ocupou a França e ameaçou fazer dela uma base de ataque às ilhas Britânicas soaram os alarmes e Churchill surgiu a dirigir a resistência. Mas os americanos continuaram de fora — a guerra era entre europeus. Roosevelt, em 1940, afirmava na campanha eleitoral que ia manter os EUA fora da guerra. Em 1941 Churchill pedia armas aos americanos — ferramentas — mas foi muito longo e difícil o processo de autorização do Congresso — e o secretário de Estado da Guerra, Henry L. Stimson, teve de lembrar que os EUA haviam permanecido seis anos sem se incomodarem com o facto de a Alemanha se estar a rearmar. (Kimball, Warren. Forged in War: Roosevelt, Churchill and the Second World War. New York: William Morrow & Co., 1997)

Apenas em Agosto de 1941 Roosevelt e Churchill se encontram e a entrada dos americanos na guerra obedeceu à análise que estes fizeram quanto aos seus interesses no presente e no futuro. Nada de idealismos, nem de defesa de princípios.

A entrada dos EUA na guerra no teatro da Europa, com os elevadíssimos custos de sangue e recursos (estamos agora a relembrar o desembarque da Normandia), foi já feita como uma ação da “grande América”, de que, é certo, os europeus retiraram o proveito de um modelo liberal de sociedade (a parte ocidental, herdeira do liberalismo inglês) e o de um sistema de segurança social à custa da livre concorrência dos mercados (a parte oriental, agrícola e herdeira de regimes medievais absolutistas).

A NATO surgiu para impor a soberania dos EUA a metade da Europa e para não permitir o ressurgimento de uma Europa autónoma. E claro, para impedir uma União Europeia! Não só para impedir uma Europa unificada como principalmente a aliança da Europa Ocidental com a URSS.

Este objetivo de separação das Europas é e foi visível nas manobras para impedir que partidos comunistas europeus se aproximassem do poder, caso de Itália e França. Foi visível na campanha que logo após a II Guerra Churchill conduziu contra a URSS, de demonização dos seus dirigentes e desvalorização do seu papel na derrota da Alemanha nazi. A URSS representou neste jogo o papel do homem do saco com que nas histórias infantis se leva as crianças a obedecer às ordens paternas. Os europeus foram tratados como infantes sem discernimento e muitos continuam a acreditar nas fábulas.
A alternativa ao comunismo — à mudança da essência do poder — foi oferecer aos europeus da órbita americana um estado de bem-estar através das sociais-democracias e das democracias cristãs.

O welfare state, que está a ser desmantelado diante dos nossos olhos nesta guerra da Ucrânia, para proveito dos sistemas privados e neoliberais de saúde e pensões, segundo o modelo americano, foi a moeda de troca da aceitação do estatuto colonial. Dir-se-á que foi um colonialismo confortável.

Foi, de facto, mas a leveza e o bom trato dos serviçais não altera a essência do estatuto de servidão e este será exercido com todo o rigor sempre que os servos se julguem libertos! Os americanos vão deixar de pagar os subsídios de férias, de desemprego e os serviços nacionais de saúde e de pensões dos europeus. Será uma das consequências desta guerra.

A paz do pós- Segunda Guerra na Europa não foi uma benesse da NATO, nem, logo, dos americanos. Não foi grátis, muito pelo contrário. A paz na Europa foi conseguida à custa do fim dos impérios coloniais europeus na Ásia e em África — à custa das guerras na Coreia, na China, Indochina, na Palestina, no Médio Oriente, no Congo, no Tanganica, e mais recentemente na Guiné, em Angola e em Moçambique, e, ainda mais perto, na Jugoslávia, no Iraque e na Síria.

A NATO serviu para retirar os europeus do Mundo e deixá-lo para as duas superpotências. Na Europa, a NATO, tal como o Pacto de Varsóvia, serviram como forças de imposição da ordem política e social interna, sufocando movimentos políticos e sociais alternativos: a agitação radical da Alemanha e da Itália, o Maio de 68 em França, as revoltas de Praga e de Budapeste, por exemplo.

Pergunta-se muitas vezes se o mundo sem a NATO seria melhor? Seria diferente. Teria uma distribuição de riqueza diferente, de certeza, uma justiça social diferente… um estatuto diferente de dignidade dos povos. Teria um sistema de alianças mais flexível, com mais direitos para os povos de regiões do mundo que não controlam os seus territórios e matérias-primas, que são forçados a trocas desiguais.

Por fim, fala-se atualmente em aumentar despesas militares para fazer frente, de novo, à ameaça russa. A questão não é, como alguns movimentos antimilitaristas a têm colocado, de optar entre os canhões ou a manteiga. A questão é a de ter aparelhos militares adequados às ameaças e aos objetivos e ter liberdade para os utilizar.

Liberdade de ação é um dos princípios da guerra, quem a não tem, é vencido. A Europa da União Europeia não tem e escusa de gastar recursos a fingir de conta que conta.

terça-feira, 22 de março de 2022

CONSEQUÊNCIAS DA GUERRA




Por Carlos Matos Gomes

Consequências da Guerra (2)

Esta invasão e esta guerra destruíram o precário e periclitante equilíbrio de forças em que o mundo tinha vivido desde o fim da Guerra Fria e da implosão da URSS. Esta é a sua primeira consequência.

As discussões sobre uma (mais uma)”nova ordem mundial” destes últimos anos costumavam girar à volta de duas visões alternativas: Para uns deveria assentar num acordo entre as 3 principais potências (EUA, Rússia e China) capaz de impulsionar a cooperação multilateral.

Para outros, aquela ordem deveria resultar do estabelecimento de esferas de influência que, uma vez respeitadas, constituiriam a forma mais segura e eficaz de estabelecer a paz no mundo, ou uma situação de conflito adormecido.

Esta invasão revelou a escolha das oligarquias das 3 superpotências e do anexo que é a União Europeia.

Como tem acontecido com frequência ao longo da história um acontecimento imprevisto ou de consequências mal calculadas provocou uma rutura e desencadeou um confronto.

O que estava em jogo desde o fim da URSS e da emergência da China como superpotência militar e económica era e é dividir o mundo, não em três fatias, mas mantê-lo na lógica bipolar do duelo. Desde os anos 90 do século passado que se trava a guerra insidiosa de eliminar um dos competidores, neste caso a Rússia, para que os dois outros, os EUA e a China, se possam defrontar num duelo que segue o argumento dos filmes de gangues mafiosos, ou de cena final de filme de cowboys.

A Rússia não aceitou servir de cordeiro sacrificado e desencadeou uma guerra por antecipação. Escolheu o tempo que considerou ser-lhe mais favorável para combater, já que o lugar, a Ucrânia fora escolhido pelo adversário, os EUA.

O que está em jogo nesta invasão pode ser interpretado como o primeiro ato de uma manobra de conquista de poder — militar e económico — para estabelecer uma posição de domínio numa «Nova Ordem Mundial». O que está em causa é a distribuição do poder entre oligarquias reunidas à volta de 3 vértices e em 3 zonas de concentração de interesses.

Independentemente do resultado das operações militares, da maior ou menor destruição, dos futuros estatutos territoriais, das lideranças políticas, uma coisa é certa: a Ucrânia passou à condição de ferida aberta no coração da Europa. Uma ferida que ninguém saberá quando sarará, e se sarará!

O resultado já visível das decisões tomadas pelos dirigentes políticos americanos e europeus tiveram como consequência dividir o mundo em dois blocos, um constituído pelos EUA e os seus satélites da NATO, mais a Austrália, o “velho Ocidente”, e outro constituído pela Rússia, a China e porventura a Índia.

Esta guerra expulsou a Rússia da Europa! Expulsou-a militar, política, científica e até civilizacionalmente. Veja-se o corte de relações de organização universitárias e de investigação europeias e americanas com congéneres russas, de cancelamento de encontros científicos e culturais, de proibição de concertos de música ou de bailado, de colóquios sobre literatura. Tolstoi passou a ser asiático, assim como Tchaikovski! A presidente da Comissão Europeia afirmou com a energia que se lhe conhece e com a alegria vivaça de uma missionária que a Ucrânia de Zelenski fazia parte da família europeia. A Rússia não!

Uma das consequências desta guerra foi uma amputação histórica, já que a geográfica era impossível de materializar, a não ser com um Muro. Mais um!

A divisão do mundo resultante da expulsão da Rússia da Europa, com a criação de dois blocos gerará um mais conjunto de fronteiras e barreiras. As sanções económicas americanas à Rússia provocarão a mais rápida criação de uma moeda de troca internacional alternativa do dólar, constituída pelo rublo, o yuan e a rupia. Os europeus pagarão mais caro as emissões de dólares pelos EUA.

As sanções tecnológicas conduzirão a sistemas de transmissão de dados alternativos à Internet e tendencialmente incompatíveis, o que obrigará a redundâncias e aos respetivos custos.

A cooperação na área do ambiente, dos mares, do espaço, da saúde será reduzida e desenvolvida por cada um dos blocos, segundo os seus interesses. O comércio mundial entre os dois blocos será limitado e controlado, mesmo que a China procure atenuar os efeitos.

Esta guerra apresentada como um conflito de sociedades livres e solidárias contra sociedades agressivas e egoístas terá como efeito reduzir a solidariedade internacional e a cooperação: os refugiados de todo o mundo, as vítimas de guerras e calamidades serão ainda mais abandonados.

As Nações Unidas e as suas Agências serão ainda mais desprezadas, da ACNUR à UNICEF, da UNESCO à OMS. A cooperação nas várias áreas da investigação científica será restringida ao interior do respetivo bloco.

Deixaremos de ser cidadãos do mundo. Seremos regionalizados, racializados, bloqueados. Seremos todos o «outro» em metade do mundo!

E a União Europeia? Trauteia!

Percebe-se com clareza a estratégia e os objetivos dos Estados Unidos, da Rússia e a China. Percebe-se até o papel de atores secundários, da Turquia, do Irão, de Israel, na fronteira do conflito. O que de todo não se percebe é o papel da União Europeia, no centro do conflito, teatro de operações, base de ataque, base logística, base de recolha de refugiados!

Os europeus vão sofrer com inflação, desvio de verbas destinadas à melhoria das condições de vida, dos serviços de saúde, de educação, de segurança social — que serão privatizados porque não haverá recursos para eles -, de defesa do ambiente, de transição energética, para transferir verbas para um estupido rearmamento, e estúpido porque inútil, apenas lucrativo para os negociantes de armamento, as empresas do complexo militar-industrial americano.

Os europeus vão sofrer uma violenta degradação do seu emprego, em particular do emprego qualificado e bem pago. As indústrias que produzem bens e serviços de alto valor acrescentado serão americanas. O aeroespacial será americano. A Airbus, por exemplo, será inviabilizada em favor da Boeing, como aconteceu com a Embraer brasileira, a EADS (Eurospace, Aeronautical and Defense Systems) que agrega a indústria aeronáutica e aeroespacial europeia e inclui entre outras grandes empresas a Airbus, a Eurocopter, a Rolls-Royce –Turbomeca (produtores de turbinas que concorrem com a General Electric GE) desaparecerão porque o complexo militar-industrial da muito liberal América não aprecia a concorrência.

Os tão “satisfeitinhos consigomesmo” dirigentes da União Europeia afirmam sorridentes e efusivos que estão unidos. Se existissem jornalistas e não sacristãos para dizer ámen haveria que lhes perguntar porque estão satisfeitos e o que têm preparado para o futuro.

Esta guerra é também um furúnculo de onde se está a reunir e a purgar o pior que existe na humanidade, e na Europa, em particular. Os grupos neonazis que integram as forças da Rússia e da Ucrânia, o Wagner Group, o Russian Imperial Movement (RIM), uma organização paramilitar supremacista branca russa compete no mesmo plano com o conhecido Regimento Azov da Ucrânia, mas na retaguarda destes estão outros movimentos totalitários irmãos, nacionalistas, supremacistas instalados no topo do poder político de estados da União Europeia na Polónia, um estado teocrático e racista, na Hungria, na Roménia, na Eslováquia, nos países bálticos.

Não é pois a defesa de valores e princípios resultantes do liberalismo e da Revolução Francesa, de Justiça, Igualdade e Solidariedade que a União Europeia está a defender com a sua política relativamente à invasão da Ucrânia pela Rússia.

Também não é a obtenção de vantagens económicas: os europeus vão empobrecer com as suas opções e pagar mais pelos produtos essenciais. Nem sequer com desgraça União Europeia lucrará: a reconstrução da Ucrânia será feita por empresas chinesas, e serão chineses os trabalhadores, não os refugiados da Europa.

Se não existem razões de ética, de princípios que justifiquem a opção da UE, se não existem vantagens económicas, se não há questões de segurança, a pergunta que se faz ao ver os sorrisos abertos dos dirigentes europeus é a mesma que se faz às hienas: de que se riem as hienas?

Que objetivos propõem os dirigentes europeus para a Europa neste conflito, porque deles depende o futuro dos povos europeus para o próximo longo futuro?

Independentemente da opinião que cada um de nós possa ter sobre a UE, ela existe, nós fazemos parte dela. Sem ela cada Estado seria ainda mais irrelevante do que o conjunto já é e parece aceitar ser, mas com ela neste estado e com este naipe de dirigentes estamos, enquanto europeus e nacionais dos Estados Europeus, na mesma posição em que os Estados Unidos colocaram Zelenski, o seu homem, na posição dos entalados. Em Portugal temos a figura de Martim Moniz.

O que se ouve dos dirigentes da UE é um discurso absurdo, paradoxal: solidariedade com os refugiados!

Mas como se materializa a solidariedade, tomando a situação da Ucrânia como de irreversível domínio russo e de inultrapassável animosidade com a Rússia, dado que a União cortou todas as pontes? Receber os refugiados temporariamente para os reenviar de regresso? Mas que novo poder estará em Kiev para os receber?

E com quem negociará a UE, se atirou a Rússia para a Ásia, ao cortar relações políticas, económicas, financeiras, culturais, até universitárias, se atirou a Rússia para a órbita da China, que cobrará o seu apoio.

A outra parte do discurso dos dirigentes da UE é ainda mais irracional: o discurso do rearmamento da UE. Esse rearmamento é inútil, estúpido a vários títulos. A Europa vai comprar armas americanas (F35 da Lockheed, para a Alemanha, p.ex), carros de combate, navios, artilharia… uma sofisticada e caríssima parafernália em que todos os dinky toys dependem do GPS americano! Sem os satélites americanos todos estão cegos.

A Europa não tem uma política militar aeroespacial, não dispõe de um sistema de geolocalização, sequer! Também não tem redes de transmissão de dados (internet) e também não tem armas nucleares para dissuasão. Por fim: os Estados Unidos jamais permitirão que a Europa seja uma grande potência militar. Quer apenas uma força auxiliar, não um competidor.

A supremacia política e militar dos Estados Unidos traduzir-se-á numa supremacia económica, com resultados devastadores para o emprego dos europeus e para a sua qualidade de vida. Não só o estado social será substituído pelo estado liberal americano — destruição de serviços públicos e segurança social — mas as grandes companhias de alta tecnologia serão americanas. A Europa aumentará a dependência energética dos EUA assim como a dependência alimentar.

O gás russo irá para a China, assim como os seus cereais e os da Ucrânia. Os dirigentes da UE trocaram a dependência diversificada, pela dependência de um só fornecedor!

O que podem fazer os cidadãos europeus neste novo mundo para contrariar esta nova e negra ordem mundial?

Mandatar alguém de boa índole, de fora das cúrias das capitais europeias, sem falsos sorrisos, perguntar a Joe Biden, na sua visita imperial à Europa a 24 de Março, a que preço os Estados Unidos fornecerão gás e cereais à Europa, que lugar terá a UE no programa espacial americano, que liberdade terá a UE para fazer contratos noutra moeda que não seja o dólar, por exemplo. E por fim, perguntar-lhe se, para viver em paz na Europa, os Estados Unidos vão exigir aos europeus, como nos Estados Unidos nos tempos do macharthismo, se serão obrigados a assinar uma declaração anti russa, ou a usar uma estrela vermelha na roupa caso o não façam.

sexta-feira, 18 de março de 2022

COMO COMEÇOU, COMO TERMINARÁ


Por Daniel Vaz de Carvalho, in Resistir, 16/03/2022

“Trinta anos após o fim da Guerra Fria, estamos enfrentando um esforço determinado para redefinir a ordem multilateral.

É um ato de desafio. É um manifesto revisionismo, o manifesto para rever a ordem mundial”

Josep Borell, Alto Representante da UE

“Nós não aceitamos ser dominados pela NATO”

S. Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia

1 – Os contextos

Com o fim da URSS, os EUA declararam-se vencedores da Guerra Fria. Detêm mais de 750 bases militares em 80 países diferentes, o dólar reserva monetária global. Desde então acharam poder definir as regras de governo de todos os países e sancioná-los, agredi-los ou mesmo invadi-los se as violassem. Criaram-se assim duas suposições que se mostraram fatalmente erradas: que o monopólio dos EUA sobre o uso da força duraria para sempre e que os EUA poderiam continuar a impor uma ordem mundial “baseada em regras”, as suas.

Estas ilusões terminaram com a intervenção da Rússia na Síria. Os EUA enfrentam uma nova era em que não podem mais mudar os regimes pela força das armas ou sanções, depois dos danos causados pelos conflitos EUA/NATO no Afeganistão, Iraque, Síria, Iémen, Líbia, Jugoslávia, etc, ou as sanções a Cuba, Coreia do Norte, Venezuela, Rússia, China, etc.

O estatuto a que os EUA se promoveram não comporta nem admite potências como a Rússia e a China. O ressurgimento da Rússia não estava nos planos imperialistas. A Rússia foi buscar ao seu passado soviético na cultura, ciência, avanços militares, a força para se libertar do estatuto de colónia que lhe queriam impor e ser desmembrada.

Salientamos três contextos desta crise. A primeira reflexão é sobre a tese Leninista de que capitalismo e guerra são inseparáveis. Um mundo de paz só é possível em socialismo. Os propagandistas do sistema capitalista argumentam que o comércio livre e a democracia são obstáculos às guerras: as democracias nunca se atacaram e o comércio livre acaba por sobrepor-se a quaisquer outros interesses. Esquecem que a maioria das guerras do mundo moderno e mesmo antes tiveram origem precisamente no desejo ou necessidade de expandir e dominar mercados. Quanto à democracia o raciocínio está certo quando por democracia se define o que os EUA entendem como tal, a partir daqui tudo passa a ser possível contra os “outros”.

A segunda reflexão é a diabolização dos que são designados adversários. Assim acontece a todos que defendem a soberania, escolhem outro modelo de sistema político e/ou económico, que pretendam controlar transnacionais ou movimentos financeiros no seu país. Como disse o antigo diplomata Alastair Crooke, com a incapacidade de escutar o “outro”, de compreender as suas razões e interesses próprios, fecha-se a via diplomática. A negociação e a diplomacia ficam comprometidas com a diabolização dos interlocutores e a fraseologia maniqueísta. A liderança dos EUA perdeu quase inteiramente a capacidade de empatia, a capacidade de “ouvir o outro”, tornou-se “um livro fechado”. Toma então lugar a tese de Clausewitz: a guerra é a política por outros meios.

Note-se que Hitler e o nazismo nunca foram diabolizados antes da guerra se iniciar. Mesmo depois de 1939, a França e a Inglaterra preparavam-se para alinhar com a Alemanha contra a URSS no caso da Finlândia.

A terceira reflexão é o papel dos media. Para controlar as pessoas fazem com que percam a memória, ignorem factos passados e impõem uma narrativa. Desde que a Rússia começou a libertar-se do pesadelo instituído por Ieltsin e pretendeu assumir um papel de igualdade na cena internacional, à semelhança de Roma relativamente a Cartago, foi desencadeado o clamor de Delenda est Rússia. Atualmente, no espaço EUA/NATO a desinformação atingiu um nível inaudito de falsidades e absurdos, agravada com o bloqueio da informação russa.

Diz Caitlin Johnstone, durante cinco anos fomos bombardeados com narrativas histéricas anti-russas. Os falsos escândalos da Rússia foram inventados pela inteligência dos EUA para fabricar consentimento para um confronto com a Rússia e preservar a hegemonia unipolar dos EUA.

Há dois pesos e duas medidas conforme as agressões são cometidas “por nós” (EUA/NATO) ou “por eles”. Quando misseis Patriot caiam sobre uma indefesa Bagdade o que passou nos media não foi revolta, nem empatia pelo sofrimento e morte de civis, foi a contemplação admirativa pelo poder militar e tecnológico dos EUA. Quando a Sérvia foi bombardeada durante 78 dias, para o atual secretário-geral da ONU, A. Guterres, tratava-se de defender os “direitos humanos.”

Com este argumento (ou outro) desde 2001 a 2018 as guerras EUA/NATO teriam morto pelo menos 2 milhões de pessoas, tudo pelas “boas causas” da NATO. Cidades como Fallujah, Ramadi, Sirte, Kobane, Mosul e Raqqa reduzidas a escombros, guerras que mergulharam sociedades inteiras em violência e caos sem fim.

Não se trata da parte dos EUA/NATO de defender a Ucrânia, se não teria sido aceite o tratado de segurança coletivo na Europa, proposto por Putin, posto de parte com evasivas e exigências sobre a Rússia quanto à movimentação de tropas no seu território, enquanto informalmente a Ucrânia era alinhada com a NATO.

Um texto do jornal Guardian recordava, citando numerosas personalidades que desde os anos 1990 advertiam que expandir a NATO para Leste conduziria à guerra. Estas advertências foram ignoradas. Agora o projeto “Mobilidade Militar” obriga a Áustria, a Suécia e a Finlândia a fornecer capacidades de transporte para que a NATO possa transferir suas forças armadas.

Com as agressões pós 2001 a NATO mostrou que não é uma organização defensiva: é um dos meios militares para os EUA imporem o poder global. Quebrando o acordo com Gorbachov, a NATO expandiu-se para 14 países do Leste. A Rússia ficou confinada nas suas fronteiras, Moscovo a minutos de ser atingida a partir de bases da NATO e as suas relações externas condicionadas por sanções desde que a Rússia renasceu do abismo para onde as camarilhas de Gorbatchov e Ieltsin a tinham levado. (ver textos de Dimitri Rogozin aqui e aqui). Com novas expansões previstas na Ucrânia, Geórgia, falhadas na Bielorrússia e Cazaquistão, estavam criadas as condições para “uma tempestade perfeita”.

A Ucrânia tornou-se a frente avançada contra a Rússia. Os EUA entregaram à Ucrânia, desde 2014, 2,4 mil milhões de dólares em material militar, incluindo 450 milhões em 2021 (agora destruído). Desde 2014, a UE e instituições financeiras europeias entregaram mais de 17 mil milhões de euros à Ucrânia, e um plano de investimentos de 6 mil milhões de euros, sem condições, o que não foi feito para Portugal ou a Grécia. O FMI, violando as suas próprias regras de garantias financeiras, proporcionou 1,7 mil milhões de dólares em 2015, e estava a preparar-se com o BM para entregar mais 5,2 mil milhões. [NR]

Estavam previstos exercícios militares com cinco potências da NATO nas regiões orientais da Ucrânia e realizar “ações defensivas, a fim de restaurar a fronteira do Estado.” Claro que “restaurar as fronteiras do Estado” nunca seria com ações “defensivas”.

2 – A Situação

Que ganhou a Ucrânia, pacífica até então, com o golpe de 2014? Foi usada contra a Rússia, mostrando que o imperialismo apenas consegue espalhar o caos onde intervém, criando esta situação ao recusar os direitos da Rússia na segurança europeia. O que se passa tem pouco a ver com a Ucrânia, em si, mas na obsessão dos falcões de Washington com a Rússia e Putin, nunca aceitando a ascensão da Rússia que eclipsaria o controlo dos EUA sobre a restante Europa.

O acordo de Minsk (2014), nunca cumprido pela Ucrânia com apoio da NATO, foi uma forma de ganhar tempo, para ser rearmada e treinada pela NATO para voltar a atacar o Donbass. Na primavera de 2021, Zelensky anunciou que a Ucrânia retomaria a Crimeia à força. A Rússia então organizou grandes manobras militares. Em novembro, a Ucrânia declarou que retomaria o Donbass à força. A Rússia novamente encenou manobras militares, mas desta vez a situação piorou ainda mais. A partir de meados de fevereiro, os monitores da OSCE em torno de Donbass relatavam um aumento das violações do cessar-fogo e explosões.

A “operação especial da Rússia para desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia” começou após um pedido de assistência militar feito pelas recém-reconhecidas repúblicas populares de Lugansk e Donetsk. O presidente russo salientou que os habitantes russófonos têm sido sujeitos a um genocídio nessa região. “A Rússia não começou ações militares, está a terminá-las após oito anos de guerra no Donbass. “Durante todos esses oito anos, tentámos apelar à consciência do Ocidente e lidar com esse regime, que adquiriu todos os traços do ultra-radicalismo e do neonazismo. Durante esse tempo, 13 a 14 mil pessoas foram mortas. Mais de 500 crianças foram mortas ou feridas. Os EUA/NATO nada fizeram, limitaram-se a olhar para o lado.

Note-se que o Donbass recusou-se a aceitar a violação da Constituição ucraniana pelo golpe de Estado fomentado pelos EUA. A Ucrânia após 2014, não passou de um peão sacrificado no tabuleiro internacional (Caitlin Jonhstone). O que a situação atual mostra é que os EUA provocam problemas globalmente, mas são incapazes de os resolver.

Em primeiro lugar, a Rússia não podia ficar ociosa diante da situação em que a NATO controla a sua zona estratégica circundante, expandindo-se mesmo para os países da Comunidade de Estados Independentes (CEI) ameaçando a sua segurança. Acima de tudo, a Rússia não permite que a Ucrânia sirva de base militar para ameaçá-la com armas nucleares, agravada com a descoberta (certamente já de conhecimento dos serviços secretos russos) de laboratórios de armas biológicas na Ucrânia.

Nos dois primeiros dias da operação de “desmilitarizarão e desnazificação” da Ucrânia, o exército russo tinha destruído 821 alvos da infraestrutura militar da Ucrânia, aeródromos militares, postos de comando, centros de comunicação, sistemas de mísseis antiaéreos S-300 e Osa, estações de radar, aviões de combate, helicópteros, veículos aéreos não tripulados, assim como veículos blindados, sistemas de foguetes de lançamento múltiplo e veículos militares especiais. Foram destruídas oito embarcações militares da Marinha Ucraniana” e estabelecido o controlo total sobre a cidade de Melitopol, no sul do país. Em 01 de março, o acesso ao mar de Azov pelas tropas ucranianas ficou completamente bloqueado. Em 05 de março, o total de alvos da infraestrutura militar da Ucrânia destruídos era de 2 037, segundo o Ministério da Defesa russo.

Na RTP-3 (25/fev/21h30) o general Cunha dos Santos, expôs, com a competência que não existe nos “comentadores”, que sem cobertura aérea o exército ucraniano deixa de fazer sentido em termos militares modernos. O apelo à população civil para se armar e lutar é mandar essas pessoas para a morte. É um sinal de fraqueza, não uma atitude digna. Colocar artilharia pesada e lança foguetes no interior de cidades é proibido pela convenção de Genebra. (criar escudos humanos). Os líderes ocidentais incentivaram este governo ucraniano (…) tiveram um comportamento no limite do criminoso.

E este comportamento persiste. A UE vai dar 500 milhões de euros em armas e combustível para a Ucrânia, embora os apoios sociais e a empresas em dificuldades devido às sanções à Rússia tenham de sair dos Orçamentos de Estado – mais endividamento…

O dilema para os russos é a luta nas cidades. Eles querem que no fim haja ucranianos amigos. Isto complica-se com o problema de limpar os nazis de Mariupol sabendo que usam as pessoas da cidade como reféns. O mesmo problema existe, em menor grau, noutras cidades. Em 11 de março, 12 corredores humanitários estavam ativos em quatro regiões para permitir retirar civis. Entretanto fechava-se o cerco a Kiev e Kviv.

As sanções, usadas indiscriminadamente pelos EUA contra quem não lhe agrada, não resultaram com Cuba, Coreia do Norte, Venezuela, Irão, Rússia ou China, etc, o que mostra os limites de poder e o declínio do império incapaz de levar de vencida os que não se lhe submetem.

O atual plano de “sanções do inferno“, proibindo exportações de energia da Rússia é um tiro nos pés, ou mesmo mais acima, para a UE. Cerca de 45% do gás natural da UE veio da Rússia em 2021, a Rússia também é o maior fornecedor de petróleo da Europa. Washington está a aproveitar o sentimento de insegurança que reina na UE para intensificar em seu benefício a crise. As consequências das sanções foram com detalhe analisadas por Pepe Escobar, Irina Slav, Michael Hudson.

Nesta situação a UE coloca-se ao nível do Egito aquando protetorado britânico em que quem mandava eram os Altos Comissários Gerais britânicos, que acumulavam a função de cônsules gerais do Império Britânico no Egito. A NATO tornou-se um órgão de formulação de política externa da UE que aceita ser um “apêndice” obediente ao ponto de não dominar os seus interesses económicos.

3 – Cenários

No I Ching, livro das adivinhações chinês, há um capítulo sobre as crises. Ali diz-se que quando uma crise está iminente há sempre três avisos, quando chega o último já nada a impede. Os dois primeiros avisos foram desprezados pelos EUA/NATO, o terceiro identificamo-lo no discurso de Putin de 21 de fevereiro. Antes Vladimir Putin comunicou aos EUA/NATO os limites das suas linhas vermelhas, esperando uma resposta concreta desde novembro de 2021, após o que, tomaria contra medidas. Podemos agora distinguir três cenários e mais um:

– Um acordo de segurança na Europa entre a NATO e a Rússia, mas tal será improvável tanto na visão da Rússia como da China até que surja uma nova ordem mundial. Concluíram que não é mais possível partilhar uma sociedade global com os EUA, determinados a impor ao mundo uma hegemonia em que as suas leis e determinações se sobrepõem à soberania, decisões de outros países e mesmo da ONU.

– Os custos económicos e humanos das sanções serão tão catastróficos que Putin seria deposto por pró-oligarcas ocidentais. Desde 2014 são aplicadas sanções à Rússia. A economia russa provou ser notavelmente à prova de sanções. Hoje a economia da Rússia é muito mais resiliente a sanções do que era em 2014. A história das “sanções do Inferno” não é credível. O resultado pode bem ser a desdolarização da economia global e uma escassez maciça de matérias-primas à escala mundial. Neste cenário a UE é o perdedor económico e político principal.

A votação na ONU contra a Rússia mostra que a “comunidade internacional” liderada pelos EUA encolhe: embora tenha recolhido 141 votos a favor, 5 votos contra e 35 abstenções (a Venezuela perdeu direito de voto por dívidas à ONU) mostrou que em temos populacionais a maioria do globo não alinha com os EUA. Quanto às “sanções do inferno” são seguidas somente pela UE, Albânia, Reino Unido, Islândia, Canadá, Nova Zelândia, Noruega, Coreia do Sul, Macedónia do Norte, Singapura, EUA, Ucrânia, Montenegro, Suíça, Japão e Taiwan, mais cinco mini-Estados: Andorra, Liechtenstein, Micronésia, Mónaco, San Marino. Veja-se que nesta conjuntura África, América Latina, Ásia, se afastam da chamada “comunidade internacional”. A propaganda diz: “a Rússia está isolada”…

– Outro cenário que os EUA/NATO preparam é envolver a Rússia numa guerra de guerrilha tornando os custos da invasão proibitivos em termos de perdas militares e económicas. Segundo a Rússia os mercenários enviados pelo Ocidente não serão considerados combatentes. Segundo o direito internacional, eles não têm direito a receber o estatuto de prisioneiro de guerra e “o melhor que pode acontecer em caso de serem presos é enfrentar responsabilidade criminal.”

No caso de a Rússia expulsar o governo Zelensky do país, os EUA, como nada aprenderam com a “experiência” Guaidó e outras, podem preparar um governo ucraniano no exílio e uma longa rebelião apoiada por milhares de milhões de dólares.

Neste cenário os “comentadores” acham que quanto mais longo for o conflito mais difícil será a China apoiar a Rússia. Mas têm pouco a que se agarrar. A “amizade China-Rússia é sólida como a rocha e livre de interferências de quaisquer terceiras partes”, disse o conselheiro de Estado e ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi. “Como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, China e Rússia são importantes vizinhos e parceiros estratégicos um do outro. Estes laços são uma das relações bilaterais mais cruciais do mundo, a nossa cooperação não só traz benefícios e bem-estar para nossos povos, mas também contribui para a paz, estabilidade e desenvolvimento mundial.”

– Uma guerra mundial não é um cenário que possa ser posto de parte. A Rússia afirma lutar pela sua existência, mas também os EUA como império global. Sem esta condição em que se tornariam os EUA, um país ultra endividado?

Vladimir Putin avisou que quem tentasse impedir a Rússia de atingir os seus objetivos na Ucrânia iria sofrer “consequências nunca vistas na sua história”, dias mais tarde, perante a hipótese de intervenção direta da NATO, foi ordenado que as forças de dissuasão nucleares russas fossem colocadas em modo especial de serviço de combate. A Rússia é uma das duas potências nucleares mais poderosas, tendo vantagens numa gama de armas de última geração.

Em vez de ter o realismo de reconhecer os interesses russos ao longo de sua fronteira ocidental – e buscar um terreno comum de colaboração sobre os problemas mundiais e não intervenção nas políticas internas de cada Estado, os EUA escolheram o confronto, com o risco de um conflito militar crescente.

O fim da invasão e da guerra na Ucrânia só pode ser garantido se a própria segurança da Rússia for garantida. A segurança é em grande parte indivisível. Este é um princípio fundamental em que a Rússia insiste com razão. Porém o Ocidente recusou-se a reconhecer os direitos iguais da Rússia na organização da segurança europeia – que levaria ao fim do controlo dos EUA sobre a Europa.

Após uma luta dolorosa a Europa buscará a reconciliação. A América será mais lenta: os falcões de Washington tentarão redobrar esforços. E será a situação económica que poderá em última análise determinar o “quando”. (Alastair Crooke)

A questão é: como terminará este conflito. Tal como as paixões (no dizer dos psicólogos) ou termina na loucura ou pelo esgotamento. De qualquer forma, o império ao levar a Ucrânia à destruição para submeter a Rússia, já garantiu o fim do mundo unipolar. Destruídas infraestruturas militares ucranianas criadas pela NATO e os batalhões nazis como o Azov, que mantêm refém o povo de Mariupol, capturando os seus líderes, vivos ou mortos. A Rússia está em condições de negociar uma nova arquitetura política para a Ucrânia, libertada de fascistas poderosos e sendo restauradas políticas pacíficas. Os próprios ucranianos devem decidir, como continuar a viver. Uma Ucrânia Federal reconhecendo a independência das Republicas de Lugansk e de Donetsk incluíndo Mariupol tal como após a proclamação desta República em 2014, perdida depois para as forças ucranianas, será o plano russo. Funcionará?

O verdadeiro terrorismo mediático desencadeado – em contradição com o que enviados especiais relatam no terreno! – encobre a impotência ocidental, impedindo a tomada de consciência dos povos para as crises e perigos existentes. É urgente um novo padrão de política externa de cooperação internacional e desmilitarização.

O empenho dos EUA em criar um conflito na Ucrânia foi um erro estratégico que pode bem ser o fim da Europa da NATO. A situação permanecerá com todos os perigos latentes até os povos se questionarem por que terão de pagar por armas dos EUA que apenas os colocam em perigo, pagar preços mais altos pelo GNL e petróleo, pagar mais por cereais e matérias-primas antes produzidas na Rússia e perder exportações.

Outros teatros de confronto geostratégico desenrolam-se com a China no Mar do Sul da China, com Taiwan e no Médio Oriente. No Médio Oriente há uma tentativa de contenção do Irão e da China. O ataque de drones aos Emirados Árabes Unidos, aliados dos EUA, em janeiro (reivindicado pelos hutis) está ligado ao controlo do estreito de Bab al Mandeb, essencial para a Nova Rota da Seda Marítima da China. O seu controlo pelos EUA compromete os objetivos chineses e enfraquece a Comunidade Económica do Leste Asiático. Justificativa suficiente de Washington para o apoio à guerra no Iémene. Mas os hutis dão aos Emirados Árabes uma escolha amarga: atacar suas cidades ou ceder no estratégico Bab al-Mandeb.

Tudo isto faz parte do evoluir de uma nova ordem mundial, um novo modelo geostratégico, cuja evolução depende de quanto os protagonistas (EUA e aliados versus Rússia e China) possam resistir nos conflitos atuais.

[NR] Aos valores mencionados devem-se acrescentar os US$13,6 mil milhões aprovados por Biden em 24/Fev/2022 de ajuda militar e humanitária à Ucrânia.   A soma dos valores dados a fundo perdido para a Ucrânia é superior à soma dos valores emprestados a Portugal + Grécia durante o período em que estiveram sob a tutela de Troikas (UE, FMI e BCE).


quarta-feira, 3 de novembro de 2021

EM RISCO DE EXTRADIÇÃO, JULIO ASSANGE É ALVO DE SILENCIOS DOS MÉDIA OCIDENTAIS



A iniquidade deve parar. Julian Assange deve ser libertado imediatamente.

Quanto mais tempo durar a caricatura da prisão de Julian Assange, mais a sua situação se expõe à corrupção do governo dos Estados Unidos e de seus aliados ocidentais.

Ele foi perseguido sob três presidências dos EUA: Obama, Trump e agora Biden. Isso mostra a continuidade de uma política criminal sistemática para destruir a liberdade de expressão e o jornalismo independente.

Esta semana, o governo dos EUA apelou de uma decisão anterior do tribunal britânico em Janeiro contra a extradição de Assange para os Estados Unidos. Houve dois dias de audiências no Supremo Tribunal de Londres esta semana. Dois juízes irão agora deliberar nas próximas semanas se devem manter a decisão anterior do tribunal inferior ou conceder o pedido de extradição dos EUA. Nenhuma data foi definida para a decisão. Se os dois juízes anularem a decisão em favor de Assange, a sua equipa de defesa legal pode apelar da decisão no Supremo Tribunal Britânico. E assim a saga macabra continua.

Já Assange (50) está detido há dois anos e meio em confinamento solitário numa prisão de segurança máxima, a famosa prisão de Belmarsh, onde apenas os criminosos mais perigosos são mantidos. Mesmo que ele nunca tenha sido condenado por nenhum crime. Esse abuso grosseiro de processo legal foi novamente demonstrado esta semana, quando Assange apareceu no tribunal por meio de um link de vídeo. Ele não tem acesso adequado à sua equipe jurídica. A saúde de Assange sofreu muito durante a sua prisão, com médicos alertando que novas detenções podem resultar em morte.

O jornalista e editor australiano, que fundou a organização de denúncias Wikileaks, ganhou fama internacional por volta de 2010 com sua exposição de crimes de guerra e crimes contra a humanidade nos Estados Unidos. O seu corajoso serviço ao interesse público rendeu-lhe vários prémios. Em 2012, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Suécia conspiraram na armadilha de Assange usando um caso forjado de agressão sexual que mais tarde foi arquivado por falta de provas. Quando Assange escapou da fiança durante o caso inicial em Londres, ele fugiu para a embaixada do Equador, onde obteve asilo político. Num desenvolvimento bizarro, ele permaneceu confinado na embaixada por quase sete anos. Em Abril de 2019, uma mudança de governo no Equador permitiu que a polícia britânica prendesse Assange e o jogasse em Belmarsh.

O que a terrível saga ilustra é que Assange foi sujeito a implacável perseguição política pelos Estados Unidos, com a ajuda e a cumplicidade das autoridades britânicas.

Cada passo ao longo do caminho da longa e tortuosa perseguição serviu para expor a vingança e a corrupção do establishment americano, bem como dos seus homólogos britânicos e europeus. Dos crimes de guerra, tortura, vigilância global ilegal, golpes e maquinações antidemocráticas, ao clímax repugnante da crucificação pessoal de Julian Assange sob o véu cínico de extradição legal e acusações de espionagem.

O caso contra Assange nunca deveria ter sido aberto em primeiro lugar. A sua contribuição para o interesse público foi fenomenalmente importante. A sua exposição de crimes de guerra pelos EUA e seus aliados no Iraque, Afeganistão e outras intervenções imperialistas está no mesmo nível de Daniel Ellsberg, que revelou os crimes da Guerra do Vietname por meio de sua divulgação dos documentos do Pentágono em 1971. Ellsberg juntou-se a muitos outros figuras internacionais pedindo a libertação de Assange. Indiscutivelmente, o que Assange revelou por meio do Wikileaks foi ainda mais significativo do que o de Ellsberg, pois o primeiro chamou a atenção internacional para um sistema global de corrupção de Washington.

Mesmo enquanto confinado na embaixada do Equador, a organização de Assange teve sucesso em trazer mais ignomínia sobre os EUA ao expor os arquivos do Vault 7 da CIA. Essa exposição de sucesso mostrou como o serviço de inteligência americano estava espionando cidadãos e governos em todo o mundo. Foi essa denúncia que aumentou a determinação dos EUA por vingança. Como um relatório de investigação do Yahoo! Notícias reveladas recentemente, foi então que o chefe da CIA Mike Pompeo lançou esforços para sequestrar e até assassinar Assange. Isso foi em 2017, quando Assange nem mesmo foi acusado pelos EUA por suposta espionagem. Isso significa que os EUA estavam dispostos a assassinar um jornalista inocente simplesmente porque ele expôs os seus crimes globais e maciços. As últimas acusações de espionagem só foram apresentadas em 2019, quando Assange foi preso pela polícia britânica.

Como o irmão de Assange, Gabriel Shipton, observou esta semana numa entrevista , o governo dos EUA encontrou uma cobertura legal para sequestrá-lo. Isso é o que está acontecendo agora. Assange está em confinamento solitário por nenhum crime condenado. Se for extraditado para os Estados Unidos, poderá apanhar 175 anos de prisão sob a acusação de espionagem. O seu único “crime” real é que o seu jornalismo de princípios expôs os crimes de Washington. É isso que está em jogo. Não apenas o direito à liberdade e à vida para Julian Assange, mas também os direitos mais amplos para todos nós de conhecimento público, jornalismo independente, liberdade de expressão e justiça. Todos esses direitos deveriam ser consagrados pelos EUA e seus aliados ocidentais. Evidentemente, isso é uma mentira e essa é a verdade chocante.

Fora do Tribunal Supremo de Londres nesta semana, a editora-chefe do Wikileaks Kristinn Hrafnsson disse a apoiantes e aos média que as garantias tardias dos EUA de cuidados médicos para Assange e condições prisionais mais fáceis são "inúteis". A implicação é que os EUA estão tentando desesperadamente aplacar a raiva pública e dar aos juízes britânicos espaço legal para conceder a extradição. Não há dúvida de que, se Assange for enviado para os Estados Unidos, ele morrerá. Esse é o objectivo não dito.

Hrafnsson disse que os dois juízes têm apenas duas opções: manter a decisão anterior de não extraditar Julian Assange ou de facto proferir uma sentença de morte.

A suposta autoridade moral dos Estados Unidos e dos seus aliados ocidentais é exposta como um amontoado de mentiras fétidas e fraudulentas. O processo legal contra Assange foi um processo premeditado de sequestro e assassinato judicial.

Os relatos confiáveis ​​de uma conspiração da CIA para matar Assange orquestrada nos mais altos escalões do governo dos Estados Unidos deveriam ter sido suficientes para que o caso de extradição fosse arquivado. O mesmo ocorreu com as confissões de fabricação de uma testemunha importante para os Estados Unidos, o vigarista islandês Sigurdur Ingi Thordarson.

Com algumas honrosas exceções , os média corporativos ocidentais terem sido silenciosos sobre essa farsa. Essa mesma média espalhou manchetes intermináveis ​​sobre o caso duvidoso do vigarista russo Alexei Navalny e afirmações bizarras de que o governo russo tentou envenená-lo. No início deste mês, o Parlamento Europeu atribuiu o seu “prestigioso” Prémio Sakharov pela Liberdade a Navalny, que cumpre uma pena de prisão na Rússia por condenação por peculato. Os governos europeus nada fizeram pela liberdade de Assange. Eles usam prémios e expressam “preocupação” com a conveniência política para servir a uma agenda como no caso duvidoso de Navalny. Mas num caso genuíno de injustiça, Assange, há um silêncio vergonhoso e, portanto, cumplicidade.

O governo australiano não fez nada para ajudar Assange. Gabriel Shipton diz que as autoridades australianas trataram o seu irmão como um mochileiro que perdeu o seu passaporte, como uma pessoa que é um incómodo trivial.

Canberra está ocupada demais sugando Washington para promover uma agenda de guerra criminosa contra a China.

A ironia cruel é que o trabalho da vida de Julian Assange de expor os crimes do governo ocidental e a corrupção está no seu ponto mais forte agora, embora ele esteja trancado em confinamento solitário numa prisão britânica de segurança máxima.

O caso contra ele “nasceu podre”, como Stella Moris, a sua noiva e mãe dos seus dois filhos, afirmou com veemência esta semana. A iniquidade deve parar. Julian Assange deve ser libertado imediatamente.

Fonte: Strategic Culture Foundation.

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