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segunda-feira, 28 de agosto de 2023

'ESTAMOS NUM MUNDO MULTIPOLAR EM QUE OS BRICS SÃO MAIORES QUE OS G7 E OS EUA NÃO ACEITAM', DIZ ECONOMISTA JEFFREY SACHS

O economista também explicou que a Europa, por sua vez, tem sido decepcionante porque não há uma única voz no continente neste momento que tenha uma "perspectiva geopolítica que seja sequer inteligível". Para Sachs, a maior surpresa é "a incapacidade da Europa de ter uma compreensão coerente desta" situação global atual.


O renomado economista norte-americano, Jeffrey Sachs, acredita que os EUA estão demonstrando uma relutância obstinada em aceitar a realidade de um mundo multipolar, o que aumenta o risco de conflitos globais. Em uma entrevista recente ao Die Weltwoche suíço, Sachs criticou fortemente a abordagem de Washington ao atual cenário geopolítico. "Já estamos num mundo pós-americano e pós-ocidental. Estamos num mundo verdadeiramente multipolar. Estamos num mundo onde os países dos BRICS são maiores que os países dos G7, [...] e os EUA não aceitam essa transição", comentou o especialista.

De acordo com Sachs, que foi conselheiro de numerosos líderes políticos, a Casa Branca continua convencida de que gere um mundo em que apenas a Rússia e a China são desafiadoras e o restante deveria aceitar esta realidade. "Na minha opinião, os EUA estão um quarto de século atrasados", disse ele.

O economista também explicou que a Europa, por sua vez, tem sido decepcionante porque não há uma única voz no continente neste momento que tenha uma "perspectiva geopolítica que seja sequer inteligível". Para Sachs, a maior surpresa é "a incapacidade da Europa de ter uma compreensão coerente desta" situação global atual.

"Poderíamos estar caminhando para um mundo de enormes conflitos e desastres, ou poderíamos estar caminhando para um mundo onde algum líder inteligente e não-octogenário dos EUA se levantasse e dissesse: 'Já não precisamos tanto da OTAN, mas sim, precisamos é ter relações normais com a China, a Índia, a Rússia, o Brasil e a UE' e de repente as coisas seriam muito diferentes", concluiu o especialista.



Fonte: Sputnik

sábado, 26 de agosto de 2023

O CASO DO NIGER NÃO É UM GOLPE TÍPICO

O líder da junta militar do Níger, general Abdourahamane Tchiani.

O golpe é certamente uma medida contra a presença francesa no Níger, mas esse sentimento anti-francês não englobou a presença militar dos EUA no país.


Por Vijay Prashad

Em 26 de julho de 2023, a guarda presidencial do Níger avançou contra o presidente em exercício, Mohamed Bazoum, e conduziu um golpe de Estado. Uma breve disputa entre as várias Forças Armadas do país terminou com todos os ramos concordando com a remoção de Bazoum e a criação de uma Junta Militar liderada pelo comandante da Guarda Presidencial, general Abdourahamane «Omar» Tchiani. Este é o quarto país da região do Sahel, em África, a sofrer um golpe de Estado – os outros três são Burkina Faso, Guiné e Mali. O novo governo anunciou que deixaria de permitir que a França se apropriasse do urânio do Níger (uma em cada três lâmpadas na França é alimentada pelo urânio proveniente do campo de Arlit, no norte do Níger).

«Este é o quarto país da região do Sahel, em África, a sofrer um golpe de Estado – os outros três são Burkina Faso, Guiné e Mali.»

O governo de Tchiani revogou toda a cooperação militar com a França, o que significa que os 1500 soldados franceses no país terão de começar a fazer as malas (como fizeram em Burkina Faso e Mali). Enquanto isso, não houve nenhuma declaração pública sobre a Base Aérea 201, a instalação dos Estados Unidos em Agadèz, a mil quilómetros da capital do país, Niamei. Trata-se da maior base de drones do mundo, e ela é fundamental para as operações dos EUA em todo o Sahel. As tropas dos EUA foram instruídas, por enquanto, a permanecer na base, e os voos de drones foram suspensos. O golpe é certamente uma medida contra a presença francesa no Níger, mas esse sentimento anti-francês não englobou a presença militar dos EUA no país.

Intervenções

Horas depois de o golpe se ter consolidado, os principais Estados ocidentais – especialmente a França e os Estados Unidos – condenaram-no, e pediram a restituição de Bazoum, que foi imediatamente detido pelo novo governo. Mas nem a França nem os Estados Unidos pareciam querer liderar uma resposta ao golpe. No início deste ano, os governos da França e dos EUA estavam preocupados com uma insurgência no norte de Moçambique que afetava os ativos do campo de gás natural da Total-Exxon na costa de Cabo Delgado. Em vez de enviar tropas francesas e norte-americanas, o que teria polarizado a população e aumentado o sentimento antiocidental, a França e os Estados Unidos fizeram um acordo para que o Ruanda enviasse as suas tropas para Moçambique. As tropas do Ruanda entraram na província do norte de Moçambique e puseram fim à insurgência. Ambas as potências ocidentais parecem favorecer uma solução do «tipo Ruanda» para o golpe no Níger, mas em vez de Ruanda entrar no Níger, a esperança era que a CEDEAO – a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental – enviasse as suas forças para restituir Bazoum ao poder.

«Em vez de enviar tropas francesas e norte-americanas, o que teria polarizado a população e aumentado o sentimento antiocidental, a França e os Estados Unidos fizeram um acordo para que o Ruanda enviasse as suas tropas para Moçambique.»

Um dia após o golpe, a CEDEAO também o condenou. A CEDEAO engloba quinze estados da África Ocidental e, nos últimos anos, suspendeu Burkina Faso e Mali de suas atividades por causa dos golpes de Estado nesses países; o Níger também foi suspenso da CEDEAO alguns dias após o golpe. Formado em 1975 como um bloco económico, o agrupamento decidiu enviar forças de manutenção da paz em 1990 para o centro da Guerra Civil da Libéria – apesar de não haver um mandato nesse sentido em sua missão original. Desde então, a CEDEAO enviou suas tropas de pacificação para vários países da região, incluindo Serra Leoa e Gâmbia. Pouco tempo depois do golpe no Níger, a CEDEAO impôs um embargo ao país que incluía a suspensão do direito do país a transações comerciais básicas com seus vizinhos, o congelamento dos ativos do Banco Central do Níger mantidos em bancos regionais e a interrupção da assistência externa (que representa 40% do orçamento do Níger). A declaração mais marcante foi a de que a CEDEAO tomaria «todas as medidas necessárias para restaurar a ordem constitucional». O prazo de 6 de agosto dado pela CEDEAO expirou porque o bloco não conseguiu chegar a um acordo sobre o envio de tropas para o outro lado da fronteira. A CEDEAO solicitou que uma «força de prontidão» fosse formada e estivesse pronta para invadir o Níger. Em seguida, a CEDEAO disse que se reuniria em 12 de agosto em Acra, Gana, para analisar suas opções. Essa reunião foi cancelada por «razões técnicas». Manifestações em massa nos principais países da CEDEAO, como Nigéria e Senegal, contra uma invasão militar da CEDEAO no Níger induziram seus próprios políticos a apoiar uma intervenção. Seria ingénuo sugerir que nenhuma intervenção é possível. Os acontecimentos estão a ocorrer muito rapidamente e não há motivo para suspeitar que a CEDEAO não intervirá antes do final de agosto.

Golpes no Sahel

Quando a CEDEAO aventou a possibilidade de uma intervenção no Níger, os governos militares de Burkina Faso e Mali disseram que isso seria uma «declaração de guerra», não apenas contra o Níger, mas também contra os seus países. Em 2 de agosto, um dos principais líderes do golpe no Níger, o general Salifou Mody, viajou para Bamako (Mali) e Ouagadougou (Burkina Faso) para discutir a situação na região e coordenar uma resposta à possibilidade de uma intervenção militar da CEDEAO – ou do Ocidente – no Níger. Dez dias depois, o general Moussa Salaou Barmou foi para Conacri (Guiné) para buscar o apoio desse país ao Níger junto ao líder do governo militar do país, Mamadi Doumbouya. Já foram apresentadas sugestões para que o Níger – um dos países mais importantes do Sahel – faça parte das conversas para a formação de uma federação que inclua Burkina Faso, Guiné e Mali. Essa seria uma federação de países que sofreram golpes para derrubar o que foram considerados governos pró-ocidentais que não atendiam às expectativas de populações cada vez mais empobrecidas.

A história do golpe no Níger torna-se, em parte, a história do que a jornalista comunista Ruth First chamou de «o contágio do golpe» em seu notável livro, The Barrel of the Gun: Political Power in Africa and the Coup d’états (O cano das armas: poder político na África e os golpes de Estado, em tradução livre), de 1970. Ao longo dos últimos trinta anos, a política nos países do Sahel deteriorou-se seriamente. Partidos com histórico nos movimentos de libertação nacional, até mesmo os movimentos socialistas (como o partido de Bazoum), entraram em colapso, tornando-se representantes de suas elites, que são intermediárias de uma agenda ocidental. A guerra entre a França, os EUA e a NATO na Líbia em 2011 permitiu que grupos jihadistas saíssem da Líbia e se dirigissem para o sul da Argélia e para o Sahel (quase metade do Mali está nas mãos de formações ligadas à Al-Qaeda). A entrada dessas forças deu às elites locais e ao Ocidente a justificativa para restringir ainda mais as limitadas liberdades sindicais e extirpar a esquerda das fileiras dos partidos políticos consolidados. Não é que os líderes dos principais partidos políticos sejam de direita ou de centro-direita, mas sim que, independentemente de sua orientação, eles não têm independência real diante da vontade de Paris e Washington. Eles se tornaram – para usar um termo local – «fantoches» do Ocidente.

«Ao longo dos últimos trinta anos, a política nos países do Sahel deteriorou-se seriamente. Partidos com histórico nos movimentos de libertação nacional, até mesmo os movimentos socialistas (como o partido de Bazoum), entraram em colapso, tornando-se representantes das suas elites, que são intermediárias de uma agenda ocidental.»

Sem nenhum instrumento político confiável, os setores rurais e pequeno-burgueses desprezados do país recorrem a seus filhos nas Forças Armadas em busca de liderança. Pessoas como o capitão Ibrahim Traoré (nascido em 1988), de Burkina Faso, que foi criado na província rural de Mouhoun, e o coronel Assimi Goïta (nascido em 1988), que vem da cidade do mercado de gado e reduto militar de Kati, representam perfeitamente essas frações de classe mais amplas. As suas comunidades foram totalmente abandonadas pelos duros programas de austeridade do Fundo Monetário Internacional, pelo roubo de seus recursos pelas multinacionais ocidentais e pelos pagamentos para as guarnições militares ocidentais no país. Conformando populações abandonadas, sem uma plataforma política real para falar em seu nome, essas comunidades se uniram em torno dos seus jovens militares. Tratam-se de «golpes de coronéis» – agrupamentos de pessoas comuns que não têm outra opção – e não de «golpes de general» – agrupamentos das elites para impedir o avanço político do povo. É por isso que o golpe no Níger está sendo defendido em manifestações de massa, de Niamei às pequenas e remotas cidades que fazem fronteira com a Líbia. Quando viajei para essas regiões antes da pandemia, ficou claro que o sentimento anti-francês não encontrava outro canal de expressão a não ser a esperança de que um golpe militar trouxesse de volta líderes como Thomas Sankara, de Burkina Faso, que havia sido assassinado em 1987. O capitão Traoré, de fato, usa uma boina vermelha como Sankara, fala com a franqueza esquerdista de Sankara e até imita a sua dicção. Mas seria um erro considerar esses homens como sendo de esquerda, pois eles são movidos pela raiva em relação ao fracasso das elites e da política ocidental. Eles não chegam ao poder com uma agenda bem elaborada, construída a partir de tradições políticas de esquerda.

Os líderes militares do Níger formaram um gabinete de 21 pessoas chefiado por Ali Mahaman Lamine Zeine, um civil que foi ministro das Finanças num governo anterior e trabalhou no Banco Africano de Desenvolvimento no Chade. Os líderes militares são proeminentes no gabinete. Resta saber se a nomeação desse gabinete liderado por civis dividirá as fileiras da CEDEAO. Certamente, as forças imperialistas ocidentais – principalmente os Estados Unidos, com tropas no território do Níger – não gostariam de ver esse torque de golpes manter-se vigente. A Europa – por meio da liderança francesa – deslocou as fronteiras do seu continente do norte do Mar Mediterrâneo para o sul do Deserto do Saara, subornando os estados do Sahel num projeto conhecido como G-5 Sahel. Agora, com governos anti-franceses em três desses estados (Burkina Faso, Mali e Níger) e com a possibilidade de problemas nos dois estados restantes (Chade e Mauritânia), a Europa terá de se retirar para o seu litoral. As sanções para esvaziar o apoio de massas aos novos governos aumentarão, e a possibilidade de intervenção militar pairará sobre a região como um abutre faminto.

Fonte: globetrotter.media

domingo, 20 de agosto de 2023

A UE NÃO TEM FORÇA DE VONTADE POLÍTICA PRÓPRIA

A situação da Ucrânia é clara. Washington vai garantir a segurança militar, fazendo com que as suas empresas beneficiem de um grande número de encomendas europeias de armas, enquanto os europeus vão suportar os custos da reconstrução pós-guerra, algo para o qual a Alemanha está mais bem preparada do que para aumentar as suas forças militares. A guerra é também uma espécie de ensaio geral para uma confrontação dos Estados Unidos com a China, na qual não será fácil contar com o apoio europeu.


Na véspera da cimeira da NATO, o The New York Times publicou um artigo da autoria de Gray Anderson e Thomas Meaney  intitulado “A NATO não é o que diz ser”. (Ver aqui).

No início do artigo abordam-se acontecimentos recentes, incluindo a admissão da Finlândia na NATO e o convite da Suécia, seguido de uma revelação extremamente importante:

 “Desde o início da sua existência, a NATO nunca se preocupou primordialmente com o reforço militar. Com 100 divisões em plena Guerra Fria sob o seu controlo, uma pequena fração dos efetivos do Pacto de Varsóvia, a organização não podia descartar a possibilidade de ter de repelir uma invasão soviética e mesmo as armas nucleares do continente estavam sob o controlo de Washington. Pelo contrário, o seu objetivo era atrair a Europa Ocidental para um projeto muito mais vasto, liderado pelos EUA, de uma ordem mundial em que a proteção americana servisse de alavanca para obter concessões noutras questões, como o comércio e a política monetária. Foi surpreendentemente bem-sucedida no cumprimento dessa missão”.

O artigo conta ainda como, apesar da relutância de alguns países da Europa de Leste em aderir à NATO, estes foram arrastados para tal, tendo sido usados todo o tipo de truques e manipulações. Os ataques a Nova Iorque em 2001 serviram os interesses da Casa Branca, que declarou uma “guerra global contra o terrorismo”, estabelecendo, de facto, esse mesmo terror, tanto literalmente (Iraque, Afeganistão) como figurativamente, encurralando com pontapés os novos membros da NATO. Isto foi feito porque estes países eram mais fáceis de controlar através da NATO.

Os autores também mencionam tarefas mais estratégicas dos EUA, dizendo que “a NATO está a funcionar exatamente como pretendido pelos planificadores norte-americanos do pós-guerra, levando a Europa a depender do poder dos EUA, o que reduz o seu espaço de manobra. Longe de ser um programa de caridade dispendioso, a NATO assegura a influência dos EUA na Europa a um preço barato. As contribuições dos EUA para a NATO e outros programas de ajuda à segurança na Europa constituem uma pequena fração do orçamento anual do Pentágono, menos de 6%, de acordo com uma estimativa recente.

A situação da Ucrânia é clara. Washington vai garantir a segurança militar, fazendo com que as suas empresas beneficiem de um grande número de encomendas europeias de armas, enquanto os europeus vão suportar os custos da reconstrução pós-guerra, algo para o qual a Alemanha está mais bem preparada do que para aumentar as suas forças militares. A guerra é também uma espécie de ensaio geral para uma confrontação dos Estados Unidos com a China, na qual não será fácil contar com o apoio europeu.

Para além da NATO, há um segundo elemento-chave controlado por Washington. É a União Europeia. Há mais de sete anos, o British Telegraph revelou que a UE não passava de um projeto da CIA (Ver aqui).

Nesse artigo afirmava-se que a Declaração Schuman, que deu o mote para a reconciliação franco-alemã e que conduziu gradualmente à criação da União Europeia, foi inventada pelo Secretário de Estado americano Dean Acheson durante uma reunião no Departamento de Estado.

O Comité Americano para a Europa Unida, presidido por William J. Donovan, que durante os anos de guerra dirigiu o Gabinete de Serviços Estratégicos, com base no qual foi criada a Agência Central de Informações, era a principal organização de fachada da CIA. Outro documento mostra que, em 1958, este comité financiou o movimento europeu em 53,5%. O seu conselho incluía Walter Bedell Smith e Allen Dulles, que dirigiram a CIA nos anos cinquenta.

Por último, é igualmente conhecido o papel dos Estados Unidos na criação e imposição do Tratado de Lisboa à UE. Washington precisava dele para facilitar o controlo de Bruxelas através dos seus fantoches.

Mas, atualmente, nem isso parece ser suficiente para os Estados Unidos. No dia anterior, num artigo publicado no The Financial Times, o antigo embaixador dos EUA na União Europeia, Stuart Eizenstat, foi citado como tendo dito que era necessária uma nova estrutura transatlântica entre os EUA e a UE, comparável à NATO, para resolver os problemas modernos. (Ver aqui).

Ele apontou para a necessidade de criar um novo formato de coordenação, ou seja, de facto, a criação dos Estados Unidos da América e da Europa, onde os Estados europeus seriam, por todos os meios, apêndices dos Estados Unidos, cumprindo a vontade política de Washington.

Por conseguinte, todas as declarações e afirmações da Alemanha e da França sobre a sua autonomia estratégica podem ser consideradas palavras ocas de sentido.

Ducunt Volentem Fata, Nolentem Trahunt (“os destinos conduzem os que querem e arrastam os que não querem”), como se dizia na Roma antiga. Pode ser desagradável para muitos europeus aperceberem-se deste facto. No entanto, o facto é que os países da Europa estão a ser arrastados pelos colarinhos para onde não querem ir.


Original aqui.

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

PARA ALÉM DO NÍGER: COMO A CEDEAO SE TORNOU UM INSTRUMENTO DO IMPERIALISMO OCIDENTAL EM ÁFRICA




Por Alan Macleod [*]

De modo surpreendente, o Níger está a transformar-se na linha de frente da nova Guerra Fria. Ontem, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), composta por 15 membros, ordenou a "ativação" e o "destacamento" de forças militares "de prontidão" no país, uma medida que ameaça desencadear uma guerra internacional de grandes proporções, capaz de fazer a Síria parecer mais pequena.

Em 26 de Julho, um grupo de oficiais nigerinos derrubou o governo corrupto de Mohamed Bazoum. A ação, que a junta apresenta como uma revolta patriótica contra um fantoche ocidental, é amplamente popular no país e muitos dos vizinhos do Níger declararam que qualquer ataque será considerado como um ataque a toda a sua soberania. Os EUA e a França também estão a considerar uma ação militar, enquanto muitos no Níger apelam à ajuda russa.

Assim, o mundo espera para ver se a região será arrastada para uma guerra que promete atrair muitas das grandes potências mundiais. Mas o que é a CEDEAO e porque é que tantos em África vêm a organização como um instrumento do neocolonialismo ocidental?

"PARTE DE UMA CABALA CORRUPTA

Mesmo antes de a poeira assentar no Níger, a CEDEAO entrou em ação, impondo uma zona de exclusão aérea e duras sanções económicas, incluindo o congelamento dos bens nacionais do Níger e a suspensão de todas as sanções financeiras. A Nigéria suspendeu o fornecimento de eletricidade ao seu vizinho do norte. O bloco regional também veio imediatamente em defesa de Bazoum, emitindo uma declaração ameaçadora a afirmar que iria "tomar todas as medidas necessárias", incluindo "o uso da força", para restaurar a ordem constitucional. A CEDEAO também deu ao novo governo militar um prazo para se retirar ou enfrentar as consequências. Esse prazo já passou e as tropas da CEDEAO a preparar-se para entrar em ação.

Os Estados membros da CEDEAO podem, portanto, ser forçados a enviar as suas tropas para o Níger. No entanto, muitos países estão a resistir a essa perspetiva. No entanto, o bloco parece ainda inflexível quanto à possibilidade de uma ação militar a qualquer momento. "Estamos decididos a pôr cobro a esta situação, mas a CEDEAO não vai dizer aos golpistas quando e onde vamos atacar. Essa é uma decisão operacional que será tomada pelos chefes de Estado", explicou Abdel-Fatau Musah, o comissário do grupo para os assuntos políticos, paz e segurança.

Apesar de ainda não ter atuado, a ameaça de invasão está longe de ser inócua. Desde 1990, a CEDEAO lançou intervenções militares em sete países da África Ocidental, a última das quais na Gâmbia, em 2017.

Esta resposta desiludiu muitos observadores. O jornalista Eugene Puryear, por exemplo, descreveu o bloco como "parte de uma camarilha corrupta que está diretamente ligada às potências imperiais ocidentais para manter os africanos pobres".

Essas potências ocidentais alinharam-se imediatamente com a posição da CEDEAO. "Os Estados Unidos saúdam e elogiam a forte liderança dos Chefes de Estado e de Governo da CEDEAO na defesa da ordem constitucional no Níger, ações que respeitam a vontade do povo do Níger e se alinham com os princípios consagrados da CEDEAO e da União Africana de 'tolerância zero para mudanças inconstitucionais'", diz um comunicado de imprensa do Departamento de Estado

África prepara-se para a guerra
Na sequência do golpe de Estado no Níger e da destituição do fantoche francês do cargo presidencial, a organização da África Ocidental CEDEAO, que está sob o controlo total dos EUA e da França, anunciou que iria atacar o Níger.... Países que pretendem atacar o Níger.
- Megatron (@Megatron_ron) August 1, 2023

O governo francês considerou o golpe "completamente ilegítimo" e afirmou que "apoia com firmeza e determinação os esforços da CEDEAO para derrotar esta tentativa de golpe". "A UE também se associou à primeira resposta da CEDEAO a esta questão", declarou Josep Borrell, Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros, dando sinal verde à intervenção.

A subsecretária interina dos EUA, Victoria Nuland, também deu a entender que os EUA estão a considerar a possibilidade de invadir o próprio Níger. "Não é nosso desejo ir para lá, mas eles [a nova junta militar] podem levar-nos a esse ponto", disse Nuland sobre a sua recente viagem ao Níger, onde, segundo ela, teve uma reunião "extremamente franca e por vezes bastante difícil" com os novos dirigentes.

Uma medida da proximidade entre a CEDEAO e os Estados Unidos é o apoio contínuo de Washington à organização. Ao longo de 2022, o Departamento de Estado emitiu declarações apoiando a posição da CEDEAO sobre o Mali (outro país onde o exército depôs um governo impopular apoiado pelo Ocidente). "Os Estados Unidos elogiam as fortes ações tomadas pela CEDEAO em defesa da democracia e da estabilidade no Mali", escreveu o Departamento de Estado. Também emitiu memorandos semelhantes reafirmando o seu apoio inabalável às ações da CEDEAO contra os golpes militares na Guiné e no Burkina Faso. Este facto tem levado muitos críticos a encarar a CEDEAO como pouco mais do que um peão dos EUA.

Embora Washington tenha apresentado a situação como a defesa da democracia pela CEDEAO contra o autoritarismo, a realidade é mais complexa. Em primeiro lugar, muitos dos governos dos seus Estados membros têm credenciais democráticas decididamente duvidosas. O Presidente Alassane Ouattara da Costa do Marfim, por exemplo, violou a lei do limite de mandatos do país e foi controversamente empossado para um terceiro mandato no ano passado. Os protestos contra a sua tomada de poder foram reprimidos, causando dezenas de mortos. Entretanto, o governo do Presidente do Senegal, Macky Sall, proibiu o principal partido da oposição e aprisionou o seu líder.

Além disso, a reação da CEDEAO aos golpes de Estado está longe de ser uniforme. Depois de Paul-Henri Sandaogo Damiba ter tomado o poder no Burkina Faso em 2022, a CEDEAO recusou-se sequer a impor sanções, quanto mais a considerar uma invasão. Em vez disso, limitou-se a pedir a Damiba que apresentasse um calendário para um "regresso razoável à ordem constitucional". A sua indiferença face aos acontecimentos pode dever-se à sua visão firmemente pró-ocidental e ao facto de ter sido treinado pelos militares e pelo Departamento de Estado dos EUA.

A liderança sénior da CEDEAO está também profundamente ligada ao poder dos EUA. Como observaram os jornalistas Alex Rubinstein e Kit Klarenberg, o presidente do bloco, Bola Tinbu, "passou anos a lavar milhões para traficantes de heroína em Chicago" e depois tornou-se uma fonte chave do Departamento de Estado para analisar a África Ocidental. O antigo presidente da CEDEAO, Mahamadou Issoufou, era também um "firme aliado do Ocidente", nas palavras da revista The Economist, embora muitos em África possam utilizar uma linguagem menos neutra para o descrever.

Neste sentido, pode ser aplicável comparar a CEDEAO a outros organismos regionais dominados pelos EUA, como a Organização dos Estados Americanos (OEA). Embora a OEA seja formalmente independente, tem-se alinhado consistentemente com Washington e atacado países inimigos como a Venezuela e Cuba. Um documento da USAID (uma organização governamental dos EUA) assinalava que a OEA era um instrumento crucial para "promover os interesses dos EUA no hemisfério ocidental, contrariando a influência de países anti-EUA" como Cuba e a Venezuela.

DOMINAÇÃO ECONÓMICA

A CEDEAO faz remontar o seu projeto de integração africana a 1945 e à criação do franco CFA, uma medida que juntou as colónias africanas de França numa única união monetária. A moeda, ainda hoje utilizada por 14 países africanos, estava artificialmente indexada ao franco francês e depois ao euro, o que significava que importar e exportar para França (e mais tarde para a zona euro) era muito barato, mas importar e exportar para o resto do mundo era proibitivamente caro.

Assim, mesmo após a independência formal, o franco CFA prendeu os países africanos [francófonos] à subserviência económica de Paris. Como resultado, muitos governos africanos continuam impotentes para promover mudanças políticas e económicas sérias, uma vez que não controlam a sua própria política monetária.

Do ponto de vista económico, esta situação tem sido uma bênção para a França, que beneficia de uma enorme base de recursos a partir da qual pode extrair matérias-primas a preços artificialmente baixos, bem como de um mercado de exportação cativo. Significou também que a França manteve um bom grau de controlo sobre as suas antigas colónias. Sem África", disse o antigo presidente francês François Mitterrand, "a França não terá história no século XXI".

Mas este sistema económico injusto também beneficiou as elites africanas, que podem importar os luxos franceses e europeus a uma taxa de câmbio anormal. Permitiu-lhes também desviar dinheiro africano para bancos europeus, e as autoridades francesas não hesitam em fechar os olhos a esta prática. A França continua a deter metade das reservas de ouro dos países do franco CFA.

O resultado foi a estagnação e o subdesenvolvimento da África francófona. Atualmente, o PIB real per capita do Níger é significativamente mais baixo do que na altura da sua independência formal de França, em 1960. A França continua a ser, de longe, o seu maior parceiro comercial e a economia do Níger gira em torno da exportação de urânio para Paris. Este é utilizado para fornecer energia nuclear barata ao país. No entanto, o cidadão comum nigerino vê poucos ou nenhuns benefícios deste acordo. Como afirmou a Oxfam em 2013: "Em França, uma em cada três lâmpadas é acesa com urânio do Níger. No Níger, quase 90% da população não tem acesso à eletricidade. Esta situação não pode continuar. Assim, em grande medida, a prosperidade da França baseia-se no sofrimento africano e vice-versa.

Isto explica o sentimento anti-colonial generalizado na África Ocidental. O golpe militar de Julho foi desencadeado por manifestações públicas contra a decisão do governo de Bazoum de acolher tropas francesas no país, mesmo depois de a sua presença no Mali ter precipitado um golpe no ano passado. A nova junta do Níger suspendeu as exportações de ouro e urânio para França. "Abaixo a França, fora as bases estrangeiras" foi o grito de guerra dos manifestantes que saíram às ruas da capital, Niamey, e de outras cidades do país.

Bazoum, no entanto, manteve-se firmemente leal à França. Numa entrevista ao Financial Times, em maio, defendeu Paris com o argumento de que "a França é um alvo fácil para o discurso populista de certas opiniões, especialmente nas redes sociais entre os jovens africanos". Assim, sem Bazoum, o Níger pode deixar de ser o aliado número um do Ocidente na região para se tornar um adversário.

INTEGRAÇÃO REGIONAL, GUERRA REGIONAL?

A CEDEAO impõe aos seus Estados membros medidas económicas rigorosas aprovadas pelo Ocidente, obrigando-os a obedecer a leis económicas neoliberais que dificultam a saída do ciclo da dívida e do subdesenvolvimento e que contribuíram para dificultar a realização de mudanças pacíficas e democráticas e, ironicamente, estimularam uma vaga de insurreições militares em toda a região.

O golpe de Estado no Níger segue-se a ações semelhantes no Mali em 2020 e 2021, no Burkina Faso (duas em 2022) e na Guiné (2021). Todos se posicionaram como revoltas progressistas, patrióticas e anti-imperialistas contra uma ordem económica criada pelo Ocidente. Os quatro países estão atualmente suspensos da CEDEAO.

Um grande número de Estados rejeitou a posição do Ocidente e da CEDEAO. "As autoridades da República da Guiné desvinculam-se das sanções impostas pela CEDEAO", escreveu o governo guineense, qualificando-as de "ilegítimas e desumanas" e "exortando a CEDEAO a refletir".

Os governos do Mali e do Burkina Faso foram muito mais longe. Num comunicado conjunto, estes países saudaram a destituição de Bazoum, descrevendo o acontecimento como o facto de o Níger "tomar o seu destino nas suas próprias mãos e responder perante a história pela sua total soberania". Em conjunto, denunciaram as "organizações regionais" [i.e. a CEDEAO] por imporem sanções que "aumentam o sofrimento das populações e põem em perigo o espírito do pan-africanismo". Mas, talvez o mais importante, declararam sem rodeios que viriam em auxílio militar do Níger em caso de invasão da CEDEAO. "Qualquer intervenção militar contra o Níger significaria uma declaração de guerra contra o Burkina Faso e o Mali", escreveram. A Argélia, que partilha uma longa fronteira com o Níger, também avisou que não ficará de braços cruzados se o Ocidente ou os seus fantoches atacarem o Níger.

O pan-africanismo, o projeto anti-imperialista que procura criar uma irmandade de nações em África para se desenvolverem de forma independente, tem experimentado um renascimento na África Ocidental nos últimos tempos. O Burkina Faso e o Mali, vizinhos do Níger a oeste, estão em fase avançada de fusão numa federação. "O processo está em curso", disse Ibrahim Traoré, o carismático líder militar do Burkina Faso, revelando que os seus exércitos estão agora tão integrados que "é realmente o mesmo exército". O líder militar carismático do Burkina Faso revelou que os seus exércitos estão atualmente tão integrados que "são realmente o mesmo exército":

Não podemos excluir a ideia de outro Estado se juntar a nós... Se houver outros Estados interessados (iremos certamente abordar a Guiné) e se outros estiverem interessados, temos de aderir. É isso que os jovens exigem.

A CEDEAO manifestou-se fortemente contra a ideia, mas Traoré manteve-se desafiante. "Vamos lutar, mas África tem de se unir. Quanto mais unidos estivermos, mais eficazes seremos", disse. Traoré tem-se apresentado como um líder radical ao estilo de Thomas Sankara, o líder revolucionário marxista do Burkina Faso entre 1983 e 1987. Com uma boina vermelha, como Sankara, Traoré coloca questões como "Porque é que a África rica em recursos continua a ser a região mais pobre do mundo?" e descreve muitos dos seus colegas líderes africanos como "fantoches nas mãos dos imperialistas". Gosta de citar o líder cubano Che Guevara e aliou o seu país à Nicarágua e à Venezuela.

POSTO AVANÇADO COLONIAL

Os nigerinos, apoiem ou não o golpe, estão fartos de serem tratados como um posto avançado colonial. Bazoum, que chegou ao poder numa eleição controversa e disputada em 2021, viu os seus índices de aprovação caírem a pique depois de ter sido anunciado que o Níger iria acolher milhares de tropas francesas anteriormente expulsas do Mali e do Burkina Faso. A presença destes soldados precipitou golpes de Estado em ambos os países e desencadeou imediatamente manifestações de cólera no Níger. Bazoum, descrito pela BBC como um "aliado ocidental fundamental", não percebeu o ambiente e deu as boas-vindas às tropas. Atualmente, o Níger alberga cerca de 1.500 soldados franceses, bem como muitos outros das forças armadas alemãs, italianas e americanas. O novo governo militar deu instruções à França para retirar as suas tropas.

O Níger é a pedra angular da operação militar dos EUA em África e acolhe cerca de 1100 pessoas em seis bases. Em 2019, os EUA abriram a Base Aérea 201, um enorme aeródromo de 110 milhões de dólares que utiliza para realizar operações de drones em toda a região do Sahel. A razão declarada para as tropas estrangeiras é ajudar a região a lidar com o terrorismo islâmico. Mas a ameaça do terrorismo islâmico só surgiu com a destruição da Líbia pela NATO em 2011 (outro país com o qual o Níger faz fronteira). O ataque da aliança militar transformou a Líbia, de uma nação com um dos mais elevados padrões de vida de África, num Estado falhado dirigido por jihadistas, repleto de mercados de escravos a céu aberto.

Por isso, o golpe goza de um apoio generalizado no país. Uma sondagem publicada pela revista The Economist no início desta semana revelou que 73% dos nigerinos querem que a junta militar permaneça no poder e apenas 27% querem o regresso de Bazoum.

Dezenas de milhares de pessoas encheram o estádio Seyni Kountché em Niamey para exprimir o seu desejo de independência e denunciar as ameaças de intervenção americana ou francesa. "Se as forças da CEDEAO decidirem atacar o nosso país, antes de chegarem ao palácio presidencial, terão de passar por cima dos nossos corpos, derramar o nosso sangue. Fá-lo-emos [dar a vida] com orgulho porque não temos outro país, só temos o Níger. Desde 26 de julho que o nosso país decidiu assumir a sua independência e soberania", afirmou o manifestante Ibrahim Bana.

O PAPEL DA RÚSSIA

Enquanto a Rússia é vista no Ocidente como um regime autoritário e nefasto que interfere noutras nações, grande parte de África vê Moscovo de forma positiva. A União Soviética apoiou geralmente as lutas pela independência de África e a Federação Russa nunca invadiu qualquer nação africana. Quase todos os Estados africanos participaram na cimeira Rússia-África em Julho, ao passo que apenas quatro líderes africanos participaram numa reunião oficial com o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky no ano passado. A mesma sondagem do Economist perguntou aos nigerinos em que potência estrangeira confiavam mais. Sessenta por cento escolheram a Rússia. Apenas cerca de 1 em cada 10 escolheu os EUA, um número ainda menor escolheu a França e nenhum escolheu a Grã-Bretanha.

Bandeiras russas são agora uma visão comum em Niamey e muitos esperam algum tipo de ajuda de Moscovo. No entanto, o Presidente deposto Bazoum foi às páginas de The Washington Post a fim de apelar à ajuda dos EUA, advertindo que "toda a região central do Sahel pode cair sob influência russa através do Grupo Wagner". De facto, o Wagner foi convidado por vários governos africanos, incluindo o Mali, que vêm a força mercenária russa como um contrapeso às tropas ocidentais. O líder do Grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, aprovou recentemente o golpe, embora Moscovo tenha sido muito mais relutante em tomar partido.

A grande preocupação de muitos é que os combates no Níger desencadeiem uma guerra mais vasta entre as nações da África Ocidental que, sem dúvida, pedirão ajuda à Europa e aos Estados Unidos. Se isso acontecer, os governos militares do Mali, do Burkina Faso e do Níger irão sem dúvida pedir ajuda à Rússia, transformando a situação em algo semelhante à guerra civil síria, mas em grande escala.

Na sequência da invasão russa da Ucrânia, a França cortou as importações de energia da Rússia, tornando mais crucial o urânio do Níger para as suas envelhecidas centrais nucleares. No entanto, qualquer tentativa de mudança de regime no Níger para retomar o fornecimento de urânio irritará a Argélia, com a qual assinou recentemente um acordo de importação de gás natural. A posição francesa está, portanto, repleta de contradições e complicações.

À medida que o poder ocidental diminui, começa a nascer um mundo multipolar. Neste nascimento, os povos da África Ocidental sonham com um futuro diferente. O tempo dirá se os golpes militares se revelam uma força libertadora ou ações que em nada ajudam os povos oprimidos da região. No entanto, uma coisa é certa: os EUA e a França não estão satisfeitos com as mudanças que estão a ocorrer e vão lutar para manter o seu controlo sobre África. Para o efeito, a CEDEAO tem-se revelado um importante instrumento ao seu dispor. No entanto, com tantos interesses em conflito e tantas forças relutantes em chegar a um compromisso, a situação no Níger ameaça tornar-se uma guerra internacional que chamará a atenção do mundo para uma das regiões mais negligenciadas do planeta.



[*] Redator sénior da MintPress News. Doutorou-se em 2017, publicou dois livros, Bad News From Venezuela: Twenty Years of Fake News e Misreporting e Propaganda in the Information Age: Still Manufacturing Consent e uma série de artigos académicos. Contribuiu para FAIR.org, The Guardian, Salon, The Grayzone, Jacobin Magazine e Common Dreams.


terça-feira, 4 de julho de 2023

A GUERRA POR PROCURAÇÃO DOS EUA/NATO NA UCRÂNIA É UM DESASTRE SEM PRECEDENTES

Quem responderá pelas incontáveis vidas perdidas, pelos milhões de deslocados e pelas economias e meios de vida americanos e europeus lançados na desorganização? Todos os pretensos líderes ocidentais, bem como os media sem vergonha que propagandeiam a guerra, são uma galeria de patifes que, a seu tempo, terão de enfrentar um escrutínio abrasador por parte do seu público, quando as galinhas voltarem inexoravelmente para casa.

Cada vez mais, a guerra por procuração na Ucrânia contra a Rússia pode ser vista como uma derrota desastrosa para os Estados Unidos e a NATO. Este resultado espantoso deveria estar nas manchetes mundiais. Ao invés disso, a máquina de interpretação dos media ocidentais está em sobressalto acerca de um motim fracassado na Rússia, o qual, numa escala objetiva de acontecimentos importantes, é relativamente menor em comparação com o escândalo colossal dos EUA/NATO.

A contraofensiva ucraniana, que dura há um mês, não conseguiu fazer qualquer mossa nas defesas russas, apesar dos milhares de milhões de dólares e de euros em armamento fornecidos ao regime de Kiev pelo bloco da NATO. Trata-se de uma calamidade e de um escândalo verdadeiramente espantosos. A morte e a destruição completamente desnecessárias são obscenas – semelhantes aos massacres da Primeira Guerra Mundial efetuados por generais de poltrona e políticos.

Mesmo responsáveis ocidentais e o regime corrupto e cúpido de Kiev estão a admitir timidamente que a tão apregoada contraofensiva – que foi saudada durante meses como um esperado golpe de misericórdia contra as forças russas – é um fracasso. Milhares de soldados ucranianos, bem como forças especiais da NATO que se encontram secretamente no terreno, foram mortos. Centenas de tanques e veículos de infantaria foram pulverizados pelo superior poder de fogo russo.

É um massacre e uma orgia de negociatas de guerra que as elites políticas americanas e europeias, juntamente com os seus serviçais mediáticos, têm promovido incessantemente.

Será o inferno pagar pelos governantes americanos e europeus que apostaram tudo na sua nefanda ambição da “derrota estratégica da Rússia” (sob o disfarce mistificatório da “defesa da democracia” num regime nazi!)

As consequências políticas para o Presidente dos EUA, Joe Biden, farão com que o desastre da sua retirada do Afeganistão em 2021 pareça um piquenique, uma vez que as eleições presidenciais se aproximam no próximo ano.

Quanto à União Europeia, cujos líderes têm seguido servilmente a loucura de Washington na Ucrânia, as repercussões do caos económico e político irão fatalmente minar esta entidade já cambaleante.

Em última análise, não há como escapar à iminente crise geopolítica sísmica, não importa quanto os desgovernantes elitistas ocidentais se contorçam para evitar a responsabilização.

O tumulto provocado pelo caso Prigozhin na Rússia, na semana passada, em que se assistiu a uma tentativa de motim por parte do chefe da empresa militar privada Wagner, surgiu numa altura conveniente para os EUA e a UE. Distraiu momentaneamente a atenção do desastre absoluto que Washington e os seus aliados da NATO criaram na Ucrânia. Mas, à medida que a charada Prigozhin se dissipa, o foco das atenções certamente virar-se-á para o escândalo muito maior da derrota liderada pelo Ocidente na Ucrânia.

Quem responderá pelas incontáveis vidas perdidas, pelos milhões de deslocados e pelas economias e meios de vida americanos e europeus lançados na desorganização? Todos os pretensos líderes ocidentais, bem como os media sem vergonha que propagandeiam a guerra, são uma galeria de patifes que, a seu tempo, terão de enfrentar um escrutínio abrasador por parte do seu público, quando as galinhas voltarem inexoravelmente para casa.

No entanto, é preocupante que a curto prazo os governantes enlouquecidos de Washington e da Europa não mostrem qualquer ligação com a realidade e não voltem atrás na sua obsessão pela guerra.

Esta semana, o suposto principal diplomata da União Europeia, Josep Borrell, está a propor transformar o chamado Mecanismo Europeu de Apoio à Paz num “fundo de defesa da Ucrânia”. A UE já comprometeu mais de €50 mil milhões do dinheiro dos contribuintes para escorar o regime neonazi de Kiev. Agora, burocratas não eleitos como Borrell querem tornar todo o propósito da UE num banqueiro para a guerra na Ucrânia.

A Dinamarca assumiu esta semana a liderança dos demais Estados europeus para iniciar um programa de treino de pilotos destinado a ucranianos e outros mercenários da NATO a fim de pilotarem os caças F-16 fabricados nos EUA.

A Casa Branca de Biden também está prestes a aprovar o fornecimento à Ucrânia de mísseis ATACMS de longo alcance, capazes de lançar ataques a território russo. Biden já gastou US$150 mil milhões de dinheiro público para proteger o regime corrupto de Kiev, cujo exército e armas da NATO foram destruídos. (É claro que este é um negócio super-lucrativo e auto-reforçado para o complexo militar-industrial dos EUA e os seus proxenetas políticos em Washington, incluindo Biden).

Por outras palavras, ao invés de ficarem preocupados perante a realidade de que a guerra proxy liderada pelos EUA na Ucrânia contra a Rússia está condenada, a administração Biden e os seus lacaios europeus estão a dobrar a aposta. Estão presos pelos seus próprios coletes-de-força ideológicos, por interesses pessoais corruptos, pelos lucros de guerra a curto prazo da elite e pela russofobia.

Os líderes ocidentais estão mesmo a fazer a dedução distorcida de que o motim falhado na Rússia é mais uma razão para os EUA e a NATO aumentarem o armamento ao regime de Kiev. Antony Blinken, o secretário de Estado americano, regozijou-se esta semana com a suposta oportunidade de infligir uma derrota estratégica à Rússia. Tal pensamento é completamente ilusório e insanamente perigoso.

O conflito na Ucrânia poderia terminar num curto espaço de tempo. Nunca deveria ter começado. A solução para acabar com a violência é a mesma que foi defendida por Moscovo desde há muito tempo: formular acordos de segurança geopolítica e, em particular, a neutralidade da Ucrânia em relação à adesão à NATO.

Os governantes ocidentais nada aprenderam. Antes da cimeira da NATO, a realizar-se dentro de duas semanas em Vilnius, em 11 e 12 de julho, a Grã-Bretanha e outros países apelam a que a adesão da Ucrânia seja acelerada. Tal medida consolidará o caminho para uma guerra total com a Rússia.

Continuar a armar a Ucrânia e insistir na adesão à NATO não é simplesmente cavar um buraco mais fundo para si próprio. É empurrar a situação para o abismo.

Vassily Nebenzia, embaixador da Rússia nas Nações Unidas, disse esta semana ao Conselho de Segurança: “Para esta guerra terminar, os mestres americanos devem dar ordens aos seus vassalos. A ausência de tais sinais e ordens só indica uma coisa: os Estados Unidos não têm necessidade ou desejo de acabar com o conflito, mas têm um apetite pela sua continuação e antecipam o momento em que a Rússia será derrotada, de preferência [na interpretação dos EUA] estrategicamente. Quero dizer-vos que isso não irá acontecer”.

O representante russo acrescentou esta advertência sombria: “Tendo-se desligado completamente da realidade, o Ocidente está deliberadamente a provocar uma confrontação direta entre potências nucleares”.

Há um pressentimento de que, ao invés de assumir a responsabilidade pelas suas culpas quanto à Ucrânia, a elite ocidental prefere iniciar a Terceira Guerra Mundial.

Esta é a mais deplorável constatação acerca da classe política ocidental e a sua chamada democracia liberal. Trata-se de uma cabala fascista disposta a suicidar o mundo.

Até um ponto indefinido, a formidável dissuasão militar da Rússia pode impedir a cabala ocidental de realizar os seus delírios belicistas e, desse modo, expor cada vez mais o sistema psicopático ocidental pelo que ele é. Mas, para uma transição histórica para um mundo mais pacífico, cabe aos povos do Ocidente deitar abaixo o seu sistema belicista e pedir contas aos seus criminosos maus líderes. Se nesse ínterim puder ser evitada a Terceira Guerra Mundial.

Fonte:
Strategic Culture Foundation, Resistir, 02/07/2023

ORGANIZAÇÃO DE COOPERAÇÃO DE XANGAI VAI AUMENTAR INTERCÂMBIOS EM SEGURANÇA, DIZ PUTIN


O presidente russo, Vladimir Putin, discursou nesta terça-feira (4) na cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, quando afirmou que o grupo aumentará o intercâmbio em segurança. Segundo ele, a OCX está comprometida a criar uma ordem mundial mais justa. 

"A nossa organização está firmemente comprometida em construir uma ordem mundial verdadeiramente justa e multipolar. Uma ordem mundial baseada no direito internacional, nos princípios universalmente reconhecidos de cooperação mutuamente respeitosa de Estados soberanos com o papel de coordenação central das Nações Unidas", disse Putin. O presidente acrescentou que a Rússia apoia o projeto de declaração conjunta da OCX, que "reflete abordagens consolidadas para questões internacionais". Putin também disse que a Rússia apoia a concessão de adesão à OCX da Bielorrússia.

Mais diferenças geopolíticas aparecem globalmente - Putin também destacou no seu discurso que mais e mais diferenças geopolíticas aparecem no mundo, e a segurança global está se deteriorando. Putin disse à OCX que a organização está desempenhando um papel mais importante na manutenção da estabilidade no cenário global.

“Isso é especialmente significativo nas condições atuais, quando as contradições geopolíticas estão se tornando mais agudas. A degradação do sistema de segurança internacional continua”, disse Putin na cimeira. O presidente também disse que uma guerra híbrida está em andamento contra a Rússia no momento.

"E agora, de facto, uma guerra híbrida está a ser travada contra nós, sanções ilegítimas contra a Rússia estão sendo usadas numa escala sem precedentes", disse Putin, acrescentando que a "anti-Rússia" estava sendo criada perto da fronteira do país com a Ucrânia há muito tempo.

Fonte: brasil247.com

domingo, 21 de maio de 2023

OS QUE SE OPÕE AO GOVERNO DA UCRÂNIA ESTÃO PRESOS OU MORTOS


Por Maxim Goldarb

A Ucrânia foi por muito tempo considerado o país mais livre do espaço ex-soviético. Até há dez anos, partidos políticos e organizações públicas de todas as cores e uma variedade de meios de comunicação operavam livremente na Ucrânia e opositores políticos, jornalistas e ativistas podiam criticar abertamente e sem medo das autoridades. Qualquer tentativa de evitar críticas às atividades das autoridades convertia-se num grande escândalo, de modo que eram poucas essas tentativas.

Mas tudo mudou espetacularmente desde o [golpe do] Euromaidan 2014. O regime oligárquico de extrema-direita que assumiu o poder com uma ideologia nacionalista começou a perseguir aos seus opositores utilizando métodos terroristas.

O exemplo mais trágico não de perseguição, mas de assassinatos do regime no poder em Kiev contra opositores ideológicos ocorreu em Odessa em 2 de maio de 2014, quando militantes nacionalistas com total conivência e assistência das autoridades impediram as atividades antifascistas que ocorriam na Casa dos Sindicatos incendiando o prédio, o que fez com que muitas pessoas se atirassem pelas janelas para fugir das chamas e acabar com a vida quando caíssem no chão. Mais de 40 pessoas foram mortas então, incluindo Vadim Papura, membro do Komsomol (união de jovens comunistas), bem como Andrei Brazhevsky, membro da organização de esquerda Borotba.

Ninguém foi punido por este crime, embora os que participaram no ataque estejam registados em muitas fotografias e vídeos. Como se isto fosse pouco, um dos organizadores do massacre tornou-se mais tarde presidente do Parlamento ucraniano e outro entrou no Parlamento nas listas do partido do ex-presidente Poroshenko.

O mesmo aconteceu com os assassinatos de vários políticos e jornalistas conhecidos da oposição mortos depois de 2014: a ex-deputada do Partido Socialista Ucraniano, Valentina Semenyuk-Samsonenko, (assassinato disfarçado de suicídio em 27 de agosto de 2014); o ex-deputado, organizador de ações da oposição Oleg Kalashnikov (morto a 15 abril de 2015); o popular escritor e publicitário antifascista Oles Buzina (morto em 16 de abril de 2015) e muitos outros. Do mesmo modo as atividades do maior partido de esquerda do país naquela época, o Partido Comunista da Ucrânia foram proibidas.

Além disto, políticos, jornalistas e ativistas de oposição, muitos deles da esquerda, foram espancados, presos e encarcerados nos últimos anos, sob falsas acusações de "alta traição" e outras acusações manifestamente políticas. Foi assim, concretamente, com os jornalistas Vasily Muravitsky, Dmitry Vasilets, Pavel Volkov e o ativista de direitos humanos Ruslan Kotsaba, entre outros. É característico que, uma vez em tribunal, e apesar da pressão das autoridades, essas acusações geralmente desmoronavam-se e revelavam-se completamente insustentáveis.

A situação política vem piorando ano após ano, especialmente desde que Vladimir Zelensky se tornou presidente da Ucrânia. O motivo formal para a eliminação completa dos resquícios de liberdades civis e o início de uma repressão política aberta foi o conflito militar que começou na Ucrânia em fevereiro de 2022.

Todos os partidos da oposição na Ucrânia, maioritariamente de esquerda, entre as quais se encontra a União de Forças de Esquerda (por um Novo Socialismo), do qual sou líder, foram banidos com base em acusações inventadas e falsas de ser "pró-russo".

Ao mesmo tempo, o único membro do parlamento ucraniano que foi abertamente trabalhar com as autoridades criadas pela Rússia no território da Ucrânia, Oleksiy Kovalyov, representava o partido do presidente Zelensky, Servo do Povo. Além disso, ao longo da guerra, o partido no poder viu-se abalado por grandes escândalos de corrupção que minam a autoridade dos representantes públicos aos olhos do povo e destroem os restos de autoridade da Ucrânia aos olhos da comunidade mundial como, nomeadamente, os casos do Chefe Adjunto da Gabinete do Presidente, Kyrylo Tymoshenko; o Ministro da Defesa, Oleksiy Reznikov e seu vice, Vyacheslav Shapovalov; o vice-ministro de Desenvolvimento das Comunidades, Territórios e Infraestruturas Vasily Lozinsky; o Presidente do Conselho de Administração da Naftogaz Ukrainy Andriy Kobolev; o Chefe da Administração Militar Regional de Dnepropetrovsk Valentyn Reznichenko, entre outros. Apesar do facto de que esta "atividade" do partido no poder é uma ameaça direta à segurança e existência do país, por algum motivo, ainda não foi proibida pelas autoridades.

O Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) deteve vários líderes de opinião e jornalistas que fizeram comentários nos media antes da guerra e criticaram o governo. Todos eles foram acusado de promover uma postura pró-Rússia, alta traição, espionagem, propaganda, etc.

Uma longa lista de detenções, desaparecimentos e mortes

Em Fevereiro-Março 2022 bloguistas e jornalistas conhecidos foram presos sob a acusação de alta traição e prisão preventiva, como Dmitry Dzhangirov (de ideologia de esquerda, colaborou com o nosso partido), Yan Taksyur (de ideologia de esquerda), Dmitry Marunich, Mikhail Pogrebinsky, Yuri Tkachev, etc. O motivo para a sua prisão não foi de forma alguma traição, mas o medo das autoridades à sua posição pública, que não coincidia com a oficial.

Em Março de 2022, o historiador Alexander Karevin, conhecido pela sua cidadania ativa, desapareceu sem deixar vestígios após agentes da SBU irem a sua casa. Karevin tinha criticado repetidas vezes a ação das autoridades ucranianas no terreno das ciências humanas, da política linguística e da memória histórica. Em fevereiro de 2023, Dmitry Skvortsov, um publicitário e bloguista ortodoxo, foi preso num mosteiro perto de Kiev e levado para um centro de detenção preventiva.

Em Março de 2022, em Kiev, a advogada e ativista de direitos humanos conhecida pela sua posição antifascista, Olena Berezhnaya, foi enviada para a prisão preventiva por suspeita de traição (nos termos do artigo 111 do Código Penal). Esta ativista tinha falado no Conselho de Segurança da ONU, em dezembro de 2021, sobre as ilegalidades que estavam a acontecer na Ucrânia.

Em 3 de Março de 2022, os irmãos Alexander e Mikhail Kononovichi, ativistas antifascistas, foram presos em Kiev acusados de violar o Artigo 109 do Código Penal da Ucrânia ("Ações direcionadas") para mudar pela força a ordem constitucional ou tomar o poder do Estado. Foram colocados num centro de detenção provisória até o final de 2022, onde foram espancados e torturados, sendo-lhes negada assistência médica em tempo útil.

Em Maio de 2022, em Dnipro, o SBU prendeu Mikhail Tsarev, irmão do ex-candidato o presidente presidencial, Oleg Tsarev, acusado de "desestabilizar o situação sociopolítica na região". Em Dezembro de 2022, foi condenado por terrorismo a cinco anos de prisão.

Em 7 de Março, 2022, seis ativistas da organização de oposição Patriotas para a Vida desapareceram sem deixar vestígios em Severodonetsk, em Maio um dos líderes do grupo Azov, Maxim Zhorin, colocou na Internet uma foto dos seus cadáveres, afirmando que "eles tinham sido executados" e que os seus assassinatos estavam relacionados com os cargos que desempenhavam e tinham sido realizados por estruturas paramilitares.

Em 12 de Janeiro, 2023, Sergei Titov, residente em Belaya Tserkov, uma pessoa deficiente, quase cega, com uma doença mental, foi preso e internado num centro de detenção preventiva por "sabotador". Em 2 de Março, foi noticiado que ele tinha morrido no centro.

Desde Novembro 2022, Dmitry Shymko, de Khmelnytsky, está nas masmorras por suas convicções políticas.

Centenas são perseguidos por distribuírem conteúdo político online

As autoridades têm sob rígido controlo o espaço de informação da Ucrânia, incluindo Internet. Quaisquer publicações pessoais na Internet de cidadãos sobre erros na frente, corrupção das autoridades e dos militares ou sobre mentiras dos funcionários, são declaradas crime. Essas pessoas, além dos bloguistas e administradores dos canais do Telegram, estão sujeitos a assédio por parte da polícia e do SBU.

De acordo com o SBU, na primavera deste ano, 26 canais do Telegram foram bloqueados nos quais as pessoas se informavam mutuamente sobre as convocatórias de mobilização. Seis administradores foram registados e considerados suspeitos. Deste modo foram bloqueadas páginas operando nas regiões de Ivano-Frankivsk, Cherkasy, Vinnitsa, Chernivtsi, Kiev, Lviv e Odessa, as quais estavam subscritas mais de 400 000 utilizadores. Os administradores destas páginas enfrentam dez anos de prisão.

Em Março de 2022, foi introduzido no Código Penal da Ucrânia o artigo 436-2 sobre "Justificação, reconhecimento como lícito, negação de agressão armada da Federação Russa contra a Ucrânia, glorificação dos seus participantes”, que na verdade é dirigido contra qualquer cidadão da Ucrânia que pense algo diferente da posição política oficial.

Esta norma está formulada de tal forma que, no essencial, prevê a punição de “delito de pensamento”: palavras, frases ditas não só em público, mas também numa conversa privada, escrita num canal privado ou numa mensagem SMS enviada por telefone. Na verdade estamos a falar da invasão da vida privada do cidadãos, dos seus pensamentos. Isto viu-se confirmado pela aplicação da lei: até Março de 2023, havia 380 condenações no registo de decisões judiciais por simples conversas na rua e "likes" na Internet, incluindo penas reais de prisão.

Assim, em Junho 2022, em Dnipro, um morador de Mariupol que em Março de 2022 afirmou que o bombardeamento de civis e infraestruturas civis de Mariupol tinha sido executado por militares das Forças Armadas da Ucrânia foi condenado a 5 anos de prisão. Outra sentença, baseada numa conversa telefónica em Março de 2023, foi ditada contra um morador de Odessa, condenado a dois anos de liberdade condicional por conversas "antipatrióticas e anti-Estado" através de um telemóvel.

Um morador do aldeia de Maly Bobrik na região de Sumy, que em Abril de 2022, estando no seu quintal na presença de três pessoas, aprovou as ações das autoridades russas em relação à Ucrânia e que não admitiu logo a sua culpa, foi condenado sob o Artigo 436-2 do Código Penal em Junho de 2022 a uma pena real de seis meses de prisão.

Pelo menos 25 ucranianos foram condenados por "atividades antiucranianas" nas redes sociais. Segundo a investigação, aqueles residentes na Ucrânia distribuíam símbolos "Z", bandeiras russas nas suas páginas e qualificavam a invasão como "libertação".

Eles também impuseram sentenças não apenas àqueles que distribuíram essas publicações, mas também aos que "gostaram" (expressando a sua aprovação nas redes sociais) – pelo menos os textos de dois acórdãos dizem que os chamados "likes" tinham o objetivo de "levar a ideia para uma ampla gama de pessoas de mudança das fronteiras do território da Ucrânia" e "justificar a agressão armada da Federação Russa”. A justificação dos investigadores foi que as páginas pessoais têm acesso aberto e as publicações com “likes” podem ser vistas por muita gente.

Assim, em Maio de 2022, em Uman, uma pensionista foi condenada a dois anos de prisão com um período suspensão de um ano, pelo facto “que devido à rejeição das atuais autoridades ucranianas [...] ter colocado os chamados "likes" na rede de Internet Odnoklassniki numa série de publicações que justificavam a agressão armada do Federação Russa contra a Ucrânia”.

Em Kremenchug em Maio de 2022, nos termos do artigo 436.º-2 do Código Penal de Ucrânia, foi condenado um cidadão da Ucrânia, que sob pseudónimo falou no Odnoklassniki sobre os nazistas na Ucrânia e o desenvolvimento de armas biológicas financiadas pelo Pentágono.

A repressão usada pelo atual governo para lutar contra quem discorde converteu a Ucrânia no Estado mais carente de liberdade da Europa, um Estado onde qualquer um que se atreva a opor-se às autoridades, à oligarquia, ao nacionalismo e ao neonazismo arrisca a liberdade e, muitas vezes, a vida.



Fonte: rebelion.org

sexta-feira, 14 de abril de 2023

EUA ESTÃO A TENTAR ARRASTAR TODOS PARA O CONFLITO DA UCRÂNIA, MAS A HUNGRIA NÃO ESTÁ INTERESSADA, DIZ ORBÁN

"Se uma guerra mundial estourar, será uma guerra nuclear", observou o primeiro-ministro húngaro

TASS - Os Estados Unidos não desistiram de seu objetivo de envolver todos os que puderem no conflito militar na Ucrânia, mas a Hungria permanecerá do lado da paz, disse o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, à estação de rádio Kossuth nesta sexta-feira (14).

O chefe de governo enfatizou que os EUA "não abandonaram o seu plano de forçar todos a uma aliança militar", fornecendo armas à Ucrânia e apoiando as hostilidades contínuas. Em conexão com isso, ele reiterou que a ameaça do conflito ucraniano se transformar numa nova guerra mundial vem crescendo a cada dia que passa.

"E se uma guerra mundial estourar, será uma guerra nuclear", observou Orbán. Em sua opinião, a actual escalada do conflito na Ucrânia atesta o facto de que os países [combatentes] estão literalmente "a centímetros do uso de armas nucleares".

Sputnik - A Ucrânia é um país inexistente financeiramente, assim que os EUA e a Europa deixarem de apoiá-la, o conflito terminará, disse o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán.

A Europa está gastando dezenas de mil milhões de dólares na manutenção da Ucrânia, deixando faltar para a própria economia da Europa e não podendo continuar indefinidamente, disse o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán.

"Basicamente, a Ucrânia é um país financeiramente inexistente. A queda nos indicadores econômicos é enorme, o que é perfeitamente compreensível por causa da guerra".

"Obviamente, a Ucrânia não pode financiar-se. A questão é se estamos apoiando a Ucrânia. E no momento em que os EUA e a Europa disserem não a essa pergunta, a guerra terá terminado", disse Orbán à Rádio Kossuth.

De acordo com Orbán, a Europa gasta muito dinheiro na manutenção da Ucrânia, deixando faltar para a própria economia europeia e sendo difícil continuar para sempre.

"Pagamos pensões ucranianas, contas, mantemos instituições públicas, saúde, educação. E estas são somas enormes, várias dezenas de mil milhões de euros, que faltam à economia europeia. E obviamente isso não pode continuar indefinidamente", acrescentou ele.

Desde o início do conflito, a Hungria tem se oposto às sanções contra os combustíveis russos e ao envio de armas para a Ucrânia.

No início de março do ano passado, o parlamento húngaro emitiu um decreto proibindo o fornecimento de armas para Kiev a partir do território do país.

Anteriormente, o primeiro-ministro sugeriu que o conflito na Ucrânia devesse terminar na mesa de negociações o mais rápido possível, devido aos seus custos, e que seria errado para a Hungria colocar os interesses da Ucrânia acima dos interesses de seu próprio povo.


domingo, 2 de abril de 2023

POR QUE O SISTEMA INTERNACIONAL BASEADO NO DÓLAR ESTÁ DESFAZENDO-SE

Washington é arrogante demais para compreender a nova maneira pela qual os EUA são percebidos no exterior. O mundo vê o sistema de moeda de reserva baseado no dólar como o dispositivo de punição de Washington, e o mundo vê a dívida baseada no dólar se expandindo, enquanto a procura por dólares diminui. O resultado será uma queda no valor cambial de instrumentos financeiros denominados em dólar, como ações e títulos.


Por Paulo Craig Roberts


As taxas de juros mais altas do Federal Reserve após 12 anos de taxas de juros zero estão desvalorizando o lado dos ativos dos balanços dos bancos. Isso assusta os depositantes e eles retiram seus depósitos. Os depositantes também estão retirando seu dinheiro porque podem obter taxas de juros muito mais altas em títulos seguros do Tesouro dos EUA. De acordo com alguns relatórios, US $ 1 bilião já foi retirado dos bancos dos EUA. A Bloomberg está relatando rumores de que o império de US $ 7 biliões da Schwab com base em taxas baixas está rachando com as perdas de títulos. Diante dessa vulnerabilidade do sistema financeiro, o Federal Reserve elevou ainda mais as taxas de juros.

Há também o problema dos derivados cambiais e de taxas de juro. Ninguém sabe o risco desses instrumentos. O próprio dólar dos EUA está em declínio em uso como moeda de reserva mundial. Alarmado pelo armamento do dólar por Washington com sanções e confiscos, grande parte do mundo está se organizando para abandonar o uso do dólar para liquidar as contas do comércio internacional, mas a oferta de dólares não está diminuindo. Isso implica uma queda no valor de troca do dólar. A deslocalização da manufatura e da produção de alimentos tornou os EUA fortemente dependentes das importações. Uma perda no valor de câmbio do dólar resultante de países que estabelecem seus saldos comerciais em outras moedas significa um aumento acentuado na inflação dos EUA.

O Federal Reserve não tem a inteligência para pensar nas consequências de sua política de taxas de juros mais altas. O governo federal não pode compreender as consequências da deslocalização para o déficit comercial dos EUA ou as consequências da continuação de enormes déficits orçamentários dos EUA para o mercado do Tesouro.

Washington é arrogante demais para compreender a nova maneira pela qual os EUA são percebidos no exterior. O mundo vê o sistema de moeda de reserva baseado no dólar como o dispositivo de punição de Washington, e o mundo vê a dívida baseada no dólar se expandindo, enquanto a procura por dólares diminui. O resultado será uma queda no valor cambial de instrumentos financeiros denominados em dólar, como ações e títulos.

O colapso da União Soviética deu a Washington a oportunidade de liderar o mundo num caminho de paz e desenvolvimento económico. Mas os neoconservadores não resistiram à sua tentativa de hegemonia mundial e lançaram vinte e cinco anos de guerra. Wall Street e executivos corporativos de olho em bônus não conseguiram resistir à desindustrialização dos EUA, localizando a manufatura dos EUA no exterior, impulsionando assim o crescimento econômico chinês em vez do crescimento económico americano. Essas grandes falhas indicam o fracasso total dos formuladores de políticas dos EUA.

A revogação da Lei Glass-Steagall nos últimos dias do século 20 lançou os EUA no século 21 num caminho de instabilidade financeira. Nada foi feito para corrigir isso, e nada foi feito para corrigir o erro de offshoring ou a falha em controlar a oferta de dívida pública. À medida que os países se afastam do uso do dólar para liquidar transações internacionais, um excesso de dólares resultará em inflação dos EUA e declínio dos padrões de vida americanos.

Discutindo a gravidade da situação do nosso país com Michael Hudson, é difícil encontrar esperança. Admitir que erros estão sendo cometidos implica reconhecer que estamos no caminho errado e que a China, a Rússia e os governos que se alinham com eles estão em um curso melhor, usando seus bancos para financiar a riqueza industrial em vez de atuar como casinos de corretagem e lidar com arbitragem financeira e alavancagem de dívida. Nenhum formulador de políticas americano correrá o risco de ser perguntado "por que você apoia as políticas de Xi e Putin?" Que eles, e não nós, temos a política certa não é um pensamento permitido.

domingo, 19 de março de 2023

O DIA EM QUE A UE ACABOU - 22 DE SETEMBRO DE 2022


A irrelevância europeia, que se traduz também em negócios, em criação de riqueza, em participação nos grandes projetos do futuro foi a enterrar com o senhor Sholz a fazer de gato pingado e a dona Ursula a fazer de beata que lê os responsos fúnebres.

Por Carlos Matos Gomes

A História é em boa parte pontuada pelos acontecimentos que marcam o fim de uma dada ordem política. O império Romano findou em 476 quando o bárbaro Odoacro foi nomeado rei de Roma e enviou as insígnias imperiais ao imperador Zenão do império do romano do Oriente.

O antigo regime feudal europeu terminou com a tomada da Bastilha, a emergência da Inglaterra como potencia mundial, a passagem de uma potência continental para uma marítima começou com a derrota de Napoleão em Waterloo, o fim do império britânico aconteceu com a independência da Índia, o início do império americano ocorreu com o lançamento das bombas nucleares no Japão e com o dobrar do cerviz do imperador a reconhecer a derrota perante a devastação.

A União Europeia, uma entidade que vinha desde o final da II Guerra a fazer o seu caminho mais ou menos autónomo, reconhecendo que a Europa deixara de ser o centro do mundo em boa parte pelas suas guerras civis — duas guerras mundiais só no século XX — e que seria sensato aceitar um equilíbrio de poderes entre os europeus, defrontou sempre um inimigo concreto: os Estados Unidos.

Vários dirigentes americanos perguntaram ao longo dos anos o que era isso da Europa, se tinha telefone. Os Estados Unidos nunca aceitaram uma entidade política soberana europeia! E é esta recusa de aceitar a soberania da União Europeia e de cada um dos seus estados que determina e explica a política americana desde as primeiras tentativas de criar mecanismos de integração política, social e económica, a CECA, o Mercado Comum, a CEE.

Quanto a deixar que a soberania europeia dispusesse de um aparelho militar que sustentasse as suas políticas, nem pensar! A relação dos EUA com a Europa foi sempre de tipo colonial! Como o foi no Médio Oriente e na América Latina. Os Estados Unidos assumiram o estatuto de soberanos mundiais. Agitaram perigos, inventaram inimigos, ocuparam territórios.

Que os Estados Unidos tenham lançado um poderoso bombardeamento de manipulação a bramar que a Rússia invadira um país soberano (no caso liderado por uma oligarquia que eles lá haviam colocado) faz parte do modo de exercer o poder totalitário: o que é permitido ao senhor não o é ao servo! Também faz parte do principio da invasão do Oeste americano, tem a tem a força estabelece a lei. Os EUA penduraram no seu peito a estrela do xerife! Não são acusações, nem julgamentos morais, são factos!

A aceitação do facto teve e tem como consequência que os europeus se habituaram à servidão. Nenhum político europeu chega a um lugar relevante se não jurar fidelidade ao Padrinho. A Mafia também é um bom modelo para caraterizar as relações com a América.

Esta “rendição” europeia teve a qualidade de fazer os europeus considerarem os serviços domésticos uma atividade nobre e o abanar das orelhas um gesto de afirmação. Os Estados Unidos mandam os europeus olhar para a ponta do dedo e os europeus olham para a ponta do dedo. As leis que impõem aos outros não se lhes aplicam. Nem os conceitos.

A soberania é um dos conceitos com que eles humilham os europeus, como o dono de um cão faz atirando um pau para ele ir servilmente buscar e trazer-lhe à mão. Para os Estados Unidos, Cuba, Granada, o Chile, o Brasil, o Iraque, o Afeganistão, a Líbia não têm direito a soberania. São invadidos ou sabotados. Já a Ucrânia foi elevada à qualidade de soberania absoluta e inviolável.

Mas, ainda assim, os europeus foram encolhendo os ombros e disfarçando, considerando que estávamos a assistir a perversidades de uma potencia colonial sobre colónias, vizinhos turbulentos. Os europeus recorriam ao seu material genético colonial e atribuíam essas atitudes a um dever de civilização a povos do Terceiro Mundo.

A 22 de Fevereiro de 2022, os europeus, os que ainda não têm o cachaço completamente calejado pela canga, viram o império arrombar-lhes a porta da soberania sem um com licença! (A velha reflexão de Brecht: vieram buscar os judeus e eu não era judeu, depois os comunistas, depois os democratas… e agora entraram-me em casa!)

Os EUA impuseram à Europa o envolvimento num conflito com a Rússia a pretexto da gravíssima ofensa da soberania da Ucrânia, um Estado cujo regime eles criaram.

Para impor essa intervenção entenderam conveniente dar uma lição de domínio ao mais importante estado europeu: a Alemanha. Atacaram a soberania da Alemanha (um aliado), destruindo-lhe uma infraestrutura essencial, que o estado alemão havia decidido construir e, mais ainda, porque estava no caminho, atacar a soberania de outro estado europeu, a Suécia, realizando uma sabotagem nas suas águas territoriais e, mais ainda violando a soberania europeia e o seu modo de vida, causaram deliberadamente um desastre ambiental de dimensões desconhecidas e que ninguém, nem os serviçais locais, os ribeirinhos do Mar Báltico, se atrevem a reclamar, nem num murmúrio.

Todas as pessoas e todas as entidades recebem o tratamento que deixam que lhes façam. Os dirigentes europeus, no caso o chanceler alemão e a presidente da Comissão Europeia, se tivessem uma gota de caráter teriam respondido a Joe Biden quando ele proibiu a entrada em funcionamento do gasoduto Northern 2, a 7 de Fevereiro de 2022, na Casa Branca, na cara de um servo chamado Sholz e este pobre diabo alemão ficou mudo – como o genro que vive à conta da mulher e apanha um raspanete do sogro -, e a soberania europeia ficou como o gasoduto: em estilhaços. Perante esta abdicação (humilhante) nenhum dos grandes atores da cena internacional terá, doravante, qualquer consideração pela UE.

A irrelevância europeia, que se traduz também em negócios, em criação de riqueza, em participação nos grandes projetos do futuro foi a enterrar com o senhor Sholz a fazer de gato pingado e a dona Ursula a fazer de beata que lê os responsos fúnebres.

O que se esperava que alguém que fosse mais que uma lesma dissesse a Biden seria: É um assunto que me diz respeito. Eu também não me pronuncio sobre a exploração que o seu governo faz de petróleo no Alasca, nem das consequências da produção através das rochas oleosas. A Alemanha respeita a soberania dos EUA e exige que os EUA respeitem a nossa soberania. Elementar.

Há poucos dias, numa visita a Washington, a senhora que faz em Bruxelas o papel de moço de recados que Zelenski representa em Kiev agradecia a Biden ele ter mandado para a Europa o gás e o petróleo resultante do caríssimo processo de fracking que substituiu o barato russo, esquecendo-se de dizer que ao dobro do preço e a que custos ambientais!

A União Europeia, entidade soberana, com alguma autonomia no mundo terminou quando uma unidade da US Navy’s Diving and Salvage Center colocou os explosivos C4 junto ao pipeline, em águas territoriais suecas.

Sabe-se hoje através da recente publicação da investigação do jornalista Seymour Hersh que o planeamento da operação começara nove meses antes: «A decisão de Biden sabotar os pipelines foi tomada depois de nove meses de reuniões secretas no Conselho Nacional de Segurança em Washington para definir a melhor maneira de atingir o objetivo. Desde sempre a questão não foi SE a missão deveria realizar-se, mas como a realizar sem evidências flagrantes dos autores.»

Interrogado sobre as consequências de uma crise de energia na Europa, o ministro Americano dos negócios estrangeiros, Blinken, respondeu: “Foi uma tremenda oportunidade para de uma vez por todas afastarmos a dependência dos europeus da Rússia!”

Mais recentemente, Victoria Nuland, uma oficial da CIA que coordenou o golpe em Kiev que levaria Zelenski ao poder, a que declarou perante as dúvidas do embaixador americano a propósito da posição europeia: «Quero que a U E se foda!» e é hoje subsecretária de estado, expressou a sua satisfação pelas notícias da sabotagem do pipeline. “ A Administração está muito feliz por saber que o Nord Stream 2 é agora um bocado de ferro velho no fundo do mar!”

É com estes sérios defensores da soberania dos outros estados que estamos a defender a soberania do Zelenski na Ucrânia.

A União Europeia está no mesmo fundo do mar e nas mesmas condições do ferro velho do Nord Stream 2.

sábado, 14 de janeiro de 2023

OBJECTIVO DOS EUA É DEIXAR BRASIL FORA DOS BRICS, DIZ ANALISTA

"Sendo a liderança natural da América do Sul, presença do Brasil no Brics será sempre um problema para os EUA, diz professor de Relações Internacionais


No seu discurso de posse, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, falou em fortalecimento dos BRICS e reconstrução de mecanismos de integração latino-americana. Para o especialista ouvido pela Sputnik Brasil, os BRICS sempre vai ser um problema para os Estados Unidos e o Ocidente deve se mobilizar para tentar afastar o Brasil do grupo.

Ao comentar a reconstrução da inserção internacional do Brasil, Lula falou em seu discurso sobre a retoma de processos de integração regionais na América do Sul e na América Latina e destacou a importância de fortalecer os BRICS.

Já em seu primeiro mês de governo, Lula viajará à Argentina para participar da cimeira da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e, na sequência, fará uma escala no Uruguai. Numa de suas primeiras medidas, o novo governo retomou a participação do Brasil na CELAC, demonstrando que há uma real intenção na reconstrução dos mecanismos regionais.

"Nosso protagonismo [internacional] se concretizará pela retoma da integração sul-americana, a partir do Mercosul, da revitalização da Unasul [União de Nações Sul-Americanas] e demais instâncias de articulação soberana da região. Sobre esta base poderemos reconstruir o diálogo altivo e ativo com os Estados Unidos, a comunidade europeia, a China, os países do Oriente e outros atores globais, fortalecendo os BRICS, a cooperação com os países da África e rompendo o isolamento a que o país foi relegado", disse Lula no seu discurso de posse.

Para Pedro Costa Júnior, professor de relações internacionais das Faculdades de Campinas (Facamp) e investigador da Universidade de São Paulo (USP), a integração entre os países da América Latina não é vista com bons olhos pelos Estados Unidos, mas o principal "problema" para o Ocidente é a promessa de fortalecimento dos BRICS.

"O grande inimigo externo dos EUA hoje é a China. E não só do governo Biden, essa é uma questão do Departamento de Estado, do Estado profundo, dos democratas e dos republicanos. Por isso os BRICS se torna um problema directo, mais do que a integração latino-americana, por conta da China — o grande inimigo — e da Rússia — por questões estratégicas e pela parceria firmada com a China. O desafio dos EUA hoje é o desafio chinês", afirma o especialista.

"O Brasil, sendo a liderança natural da América do Sul, estar nos BRICS sempre vai ser um problema para os EUA. Os EUA sempre vão tentar dinamitar essa relação", apontou.

A contenção da China, segundo o professor, é a política número um de Estado dos EUA hoje. É uma questão do Estado profundo. Onde a China avança, os EUA entram para conter, derrubar. Tudo que os EUA puderem e não puderem fazer para conter os BRICS, eles vão fazer".

"Para os EUA, os BRICS são um problema central. É um problema de Estado. [...] A entrada da Rússia e da China no continente vai ser sempre combatida. A primeira coisa que os EUA olham hoje é para os BRICS, e por isso eles não podem deixar que o Brasil fique nos BRICS."

Quanto à integração latino-americana, o professor destaca que a conjuntura de hoje é bem diferente da primeira onda que sacudiu a região. O cenário de polarização e crescimento da extrema-direita deixa os governos progressistas mais fragilizados e faz com que, para o analista, esse movimento de união não incomode tanto os EUA.

"A América Latina está rachada. Tem vitórias de esquerda, mas são vitórias apertadas. Além do Brasil, [foi assim] no Peru, no Chile e na Argentina. A polarização selvagem está pegando também por aqui. Para os EUA não interessa uma América Latina unida, mas o outro lado, da extrema-direita, também não. A extrema-direita está fora de controle, e isso se reflete em toda a América Latina. A integração sempre vai ser um problema, mas agora é um problema menor."

"Se não for Lula, Gabriel Boric [presidente do Chile], Alberto Fernández [presidente da Argentina], vai ser a extrema-direita no poder", completou.

Para Costa Júnior, o Brasil deve buscar a independência no cenário internacional, sem aderir a nenhum dos lados da disputa entre EUA e China, apesar de buscar o fortalecimento dos BRICS. O especialista destaca que a conjuntura mundial de 2023 é muito distinta da de 2003.

"O cenário de hoje é muito diferente do de 2003. Em 2003 [o sistema-mundo] estava muito engessado. Tinha uma China que não tinha se mostrado para o mundo ainda e uma Rússia que estava sendo reconstruída pelo [presidente Vladimir] Putin. Em 2003 havia muito pouca flexibilidade no mundo. Hoje há um sistema que tem possibilidades. O Brasil deve saber pendular, não deve se voltar nem para um lado nem para o outro para buscar favorecer os interesses nacionais. Tem espaço para isso."

Fonte: Sputnik 

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