REPUBLICA DIGITAL

sábado, 12 de Abril de 2014

A UCRÂNIA E O MÉDIO ORIENTE NA DISPUTA ENTRE OCIDENTE E RÚSSIA

A UCRÂNIA E O MÉDIO ORIENTE NA DISPUTA ENTRE OCIDENTE E RÚSSIA


Campos de hidrocarbonetos em baixo e em cima os pipelines com centros de produção activos e em desenvolvimento

Por Paulo Ramires

Estão-se a reunir condições muito perigosas no sul da Ucrânia, mais concretamente em regiões como Donetsk, Lugansk, Kharkov, Slaviansk e outras, este tipo de caos pode conduzir a uma guerra civil - cenário pouco provável - como simplesmente pode significar a aproximação de eleições e das futuras negociações entre a Ucrânia, Rússia, Estados Unidos e União Europeia que se irão reunir a 17 de Abril, em Genebra, tão só quanto isso, mas tudo dependerá da atitude dos EUA em aumentar ainda mais o caos na região e das ambições porventura inquietantes da Rússia, note-se, que esta situação não é necessariamente desagradável a Washington, mas os custos para os europeus podem ser astronômicos, quer pela parte da ajuda à Ucrânia que irão suportar, quer em ficarem na posição da dependência de pelo menos duas super potências, os EUA e a Rússia. Chama-se a atenção para a situação caótica que existe na UE, com pontos de vista muitos distintos quer da política económica, quer da política externa, ou ainda na politica interna da União, que vai fomentando graus de elevados índices de descontentamento na população europeia, fazendo resurgir movimentos e partidos nacionalistas no espaço da UE, muitos deles com posições pouco simpáticas para a integração europeia, mas também não é do interesse dos EUA uma Europa coesa e forte - nunca foi - e mesmo a Rússia se interessa pouco por uma Europa demasiadamente unida e forte, pois isso dificultaria os seus interesses no continente, assim os europeus têm de apostar numa Europa unida, forte e solidária sem austeridade, e manterem-se equidistante das restantes potências, mantendo porém as diversas formas de cooperação no domínio económico e político, em particular para resolver a situação da Ucrânia que só será resolvida com os diverso intervenientes nela. Assim a cimeira que se avizinha poderá ser um importante passo para o princípio da sua resolução que passa pela estabilização política e do seu respectivo estatuto que a meu ver deveria ser neutral e democrática com a participação nos dois blocos económicos, no entanto as expectativas não são muito boas. Seria bom não esquecer que não obstante a dependência da Rússia dos mercados da Europa para o abastecimento do gás, o Kremlin deseja no entanto diversificar estes fornecimentos, ou seja, voltar-se bem mais para a Ásia central e oriental. Mas estas posições das superpotencias envolvem um vasto jogo geopolítico onde estão em  disputas enormes equações ainda por resolver.

Embora o estatuto da Crimeia seja já uma questão consumada, na verdade o resto não o é, existe muito ainda para ser discutido.


Mapa Geológico - Zona de hidratos de gás e carbonatos e as zonas de falhas - http://www.geomar.de

Não se trata apenas concretamente da Ucrânia, mas sim do Médio Oriente, Euroásia, Europa e Ásia. O Irão detém as terceiras reservas de petróleo do mundo, com uma estimativa de mais de 560 biliões de barris e com a capacidade em 140 biliões de barris de renovação dessas mesmas reservas, só em Março de 2012 foram descobertas 20 biliões de barris de petróleo. Em relação às reservas de gás, o Irão é o segundo país do mundo com as maiores reservas logo depois da Rússia, mas no entanto foram achadas recentemente colossais jazidas de gás na plataforma marinha síria, estas reservas de gás estendem-se a Israel, este país tem várias reservas de gás também na sua zona marítima, mas também na plataforma do Líbano, a juntar a estes países, estão partes do território palestino, para além do Iraque com reservas de petróleo, mas situado entre a Síria e o Irão. A incluir a estas descobertas junta-se Chipre. Trata-se de um complexo mapa de um jogo de interesses muito vasto. Para a exploração destas reservas de gás serão necessárias a instalação de diversas infraestruturas de exploração bem como os respectivos "pipelines" que terão de passar por diversos locais. Mas também a Crimeia tem reservas de gás natural e no que se refere ao Skifska offshore existem questões muito divergentes entre os diversos países envolvidos. Ora adicionalmente a este facto é justamente na Crimeia que atravessa o gasoduto que se dirige à Europa Ocidental e que é responsável por 25 por cento da saída de gás para a Europa Ocidental. É vital economicamente. É vital militarmente. Assim, a Rússia não desistiu dela. Mas o ocidente não quer desistir também, pois tem os seus próprios interesses também. Nestas disputas não podemos esquecer a China muito interessada no Europa e em particular no leste europeu onde deseja desenvolver a sua politica de "parceria estratégica global" e de "boa-vizinhança".

Com uma possível instabilidade no fornecimento do gás vindo da Rússia [preços do gás], é a própria região da península ibérica que ganha uma nova importância, embora que ainda apenas no longo prazo, através do fornecimento de gás proveniente do norte de África.

Paulo Ramires


Projectos internacionais de gasodutos

Projectos internacionais de gasodutos e oleodutos







segunda-feira, 7 de Abril de 2014

COMO A EUROPA SE ENCAIXA NA DIPLOMACIA CHINESA POR MU CHUNSHAN

COMO A EUROPA SE ENCAIXA NA DIPLOMACIA CHINESA POR MU CHUNSHAN


Por Mu Chunshan

A China está a reforçar os laços com a Europa com vista a novos objectivos diplomáticos e prioridades para Pequim.

Por algum tempo, a diplomacia chinesa tem usado o seguinte ditado: "Grandes potências são a chave, os países vizinhos são os mais importantes, os países em desenvolvimento são a fundação, e o multilateralismo é uma arena importante". A maioria das relações diplomáticas da China podem ser categorizadas usando este fórmula. O relacionamento China-U.S. é, naturalmente, uma grande relação de poder. Os laços China-Japão podem ser considerada uma relação de países vizinhos. A relações entre a China e a Índia são as relações entre os países em desenvolvimento. As relações entre a China e as organizações internacionais, como a Organização das Nações Unidas são uma parte importante da diplomacia multilateral chinesa. Mas a que classe pertence a relação China-Europa ?

Na verdade, a relação China-Europa pode ser dividida em dois níveis: o nível continental e o nível nacional. Do âmbito nacional, a Europa pode ser dividida em mais diversos níveis secundários: a nova Europa vs a velha Europa, ou Europa pobre vs Europa rica.

Com o contínuo avanço da integração europeia, a relação entre China e a Europa mostra pelo menos três tipos de relações - As relações China-União Europeia (UE), as relações China-Zona Euro, e as relações entre a China e cada um dos países europeus. Assim, as relações China-Europa realmente se encaixam em várias categorias: a diplomacia entre grandes potências (por exemplo, as relações China-Alemanha e China-Reino Unido), a diplomacia entre países em desenvolvimento (por exemplo, as relações entre a China e alguns países economicamente subdesenvolvidos da Europa de Leste), e as relações diplomáticas multilaterais (por exemplo, a cooperação China-UE). Portanto, de acordo com o ditado acima, as relações China-Europa são "fundamentais", uma "fundação", e uma "arena importante." E nós não podemos descartar que ele venha a ser vista como a "mais importante" no futuro.

No entanto, as relações China-Europa não são de todo poderosas. Aos olhos do chinês comum, as relações mais dignas de atenção são os laços diplomáticos da China com os EUA e o Japão, assim como a Coreia do Sul e países do sudeste asiático. Porque essas relações estão intimamente relacionados com os interesses vitais da China, elas desencadeiam mais preocupações e consciencialização da parte das pessoas. Por outro lado, embora as relações China-Europa começam em bom tom, o tema parece tanto remoto como intelectual.

Na verdade, desde que a nova liderança sob Xi Jinping assumiu o poder no ano passado, as relações China-Europa têm vindo a sofrer uma mudança subtil. Elas estão-se a tornar "mais locais", adicionando elementos que agradam à população em geral. Abaixo, vou dar uma visão geral do desenvolvimento do ano passado nas relações China-Europa.

Primeiro de tudo, economia e comércio ainda mantêm o lugar mais importante nas relações China-Europa.


No ano passado, em quatro viagens intensivas de Xi Jinping no exterior, ele não visitou a Europa (excepto a Rússia, que não é considerada membro do grupo europeu por círculos diplomáticos da China). Durante o primeiro ano de Xi, ele esteve disposto a voar por mais de 20 horas para visitar distantes distinos como África e a América Latina, mas ele não pôs os pés no continente europeu. Isto não foi um erro diplomático, mas sim parte de um outro plano.

Como principal líder militar e político da China, Xi Jinping a sua primeira ronda de viagens ao exterior foi uma espécie de declaração política. Por exemplo, a sua primeira visita ao exterior foi à Rússia, que tinha uma clara implicação política. Além disso, Xi pagou visitas à África e à América Latina, onde colocou a sua ênfase em projectos de ajudas que reflectem que a China valoriza mais a política do que o comércio económico. Mesmo as componentes económicas e comerciais indispensáveis ​​dessas visitas ao estrangeiro eram relativamente fracas. Num exemplo ainda mais evidente, a reunião entre Xi e Obama em Junho passado ao estado Annenberg, serviu como um exemplo clássico de interacção política, em vez de cooperação económica.

Apenas a partir do itinerário da primeira rodada de visitas ao estrangeiro de Xi, podemos ver que a ênfase diplomática da China à Europa não está em fazer declarações políticas. Ampliando essa impressão, no ano passado, o "Premier" Li Keqiang, que está encarregado dos assuntos económicos, fez três viagens ao exterior, dos quais dois foram para a Europa. Ele, naturalmente, discutiu a cooperação económica e comercial com os líderes europeus. Isso prova como os líderes chineses de topo vêem o estatuto da diplomacia europeia, sobrevalorizam a cooperação económica diplomática da Europa. Afinal, a UE é o maior parceiro comercial da China e a China é o segundo maior parceiro comercial da UE. Este relacionamento mutuamente benéfico é a melhor força para manter a amizade entre China e Europa.

Em segundo lugar, a Europa é cada vez mais um palco para a China para falar politicamente.

No segundo semestre do ano passado, especialmente depois da conferência sobre diplomacia e trabalhos com países vizinhos do Comité Central, na noite de Outubro, as relações China-Europa aqueceram bastante. Havia muitos sinais externos. Em primeiro lugar, a cimeira UE- China foi realizada em Pequim em Novembro, marcando pela primeira vez os novos líderes da China que se iriam reunir com os líderes europeus. Esta cimeira foi realmente um "reposicionamento" da relação diplomática. Em seguida, no final de 2013 o primeiro-ministro holandês Mark Rutte iniciou uma tendência de líderes europeus que passaram a visitar a China com uma missão de "fact-finding" após o "Terceiro Plenum". Depois de Rutte, o primeiro-ministro britânico David Cameron e o primeiro-ministro francês Jean- Marc Ayrault foram à China em busca de oportunidades de cooperação. Por fim, a visita de Li Keqiang para a Europa Central e Oriental, alargado e aprofundado mais a diplomacia da China para a Europa. O aumento das boas relações da China-Europa continuou com recente turnê européia de Xi Jinping. As relações diplomáticas entre os dois lados no entanto pareceram ficar tensas rapidamente, e as razões eram fortemente provocatórias.



Vejo três razões para isso. Em primeiro lugar, a conferência sobre diplomacia e trabalhos com países vizinhos do Comité Central do PCC, na noite de Outubro colocou mais ênfase na diplomacia da China, com os seus países vizinhos. A ideia de uma grande vizinhança surgiu nesta ocasião. Para muitos estudiosos, além dos 14 países que fazem fronteira com a China, na verdade, a amplitude da diplomacia de grande vizinhança inclui outros países geograficamente próximos da China (por exemplo, países em todo o oceano de China, ou países adjacentes [vizinhos] à China) . Alguns países da Europa Central e de Leste são ainda incluídos na dimensão diplomática desta importante "Grande Vizinhança", que exige mais esforços para gerir essas relações. Em segundo lugar, o “New Silk Road Economic Zone” proposto por Xi Jinping realmente traz uma nova oportunidade para a cooperação China-Europa. Este conceito amplia o limite ocidental da Rota da Seda, Europa, com destaque para as ideias e importância da Europa para o desenvolvimento político e económico da China. Em terceiro lugar, na medida em que as relações sino-japonesas vão ficando tensas, a China vai necessitando urgentemente de apoio de terceiros.

Portanto, uma guerra de palavras entre a China e o Japão chegou pela primeira vez às embaixadas europeias dos dois países. Quando Xi Jinping visitou a Europa, ele criticou publicamente o Japão, na Alemanha. A China pode se unir-se com outros e aprender com a vontade dos países europeus para refutar o nazismo e reflectir sobre a história. A Europa involuntariamente tornou-se num palco político para a China, fornecendo um novo campo para a cooperação China- Europa, que é de grande importância para a China.


A partir desta perspectiva, o futuro da Europa vai desfrutar de uma posição mais privilegiada na diplomacia chinesa. Em menos de um ano, Xi Jinping e Li Keqiang pagaram visitas à Alemanha, e durante a visita de Xi, ele promoveu as relações sino-alemãs de uma "parceria estratégica global." Comparando a "parceria estratégica global" entre a China e a UE, as relações sino-alemão parecem ser ainda mais importantes. Uma maior ênfase sobre as relações China-Alemanha, na verdade, reflecte uma preocupação crescente da China para a Europa como um todo. Afinal, a Alemanha é um país líder na UE e da zona do euro, e até certo ponto representa a voz da Europa. No futuro, podemos ver a China melhorar ainda mais as suas relações com outros países europeus, ou mesmo com a UE.

Em terceiro lugar, a Europa é uma necessidade para a China para equilibrar as suas relações para com os Estados Unidos e a Rússia.

Como dito acima, o desenvolvimento das relações sino-japonesas precisa de uma terceira parte para actuar como um ponto de apoio. Da mesma forma, as relações China-Europa não podem escapar a terceiros, cujos comportamentos irão influenciar a relação China-Europa. Por muitos anos, os Estados Unidos têm actuado como esta terceira parte, que teve uma influência em muitos eventos importantes na relações China-Europa. Por exemplo, a Europa tem mantido um embargo de arma à China desde 1989 - por sugestão e insistência dos Estados Unidos. Embora alguns países da Europa os países tenham diferentes pontos de vista, isso deve-se em grande parte à grande influência dos Estados Unidos sobre a União Europeia, que "manipula" o caminho das relações China-Europa.

No entanto, como a diplomacia chinesa se tornou na mais pró-activa, o desenvolvimento da China tornou-se uma grande oportunidade para a Europa. Mais políticos europeus têm, inevitavelmente, já vindo a reconhecer essa tendência histórica. Portanto, será fácil e eficaz para a China de usar o "cartão de Europa" contra os EUA no futuro. Após a cimeira Mundial de Segurança Nuclear, em Haia, Holanda, Xi e Obama fizeram uma visita à Europa. As suas viagens foram comparados naturalmente pelos meios de comunicação. Os meios de comunicação paquistaneses muito sensíveis observaram que, embora os EUA e a Europa ambos pertençam à mesma aliança de civilizações ocidentais, Obama não pode dar à Europa os "nutrientes" de que necessita com urgência, como mercados económicos e empregos. Devido a isso, a Europa prefere a China para ser o seu "novo melhor amigo."

Além disso, a crise da Crimeia deu uma nova cor à viagem de Xi à Europa. A Rússia tornou-se progressivamente uma terceira parte nas relações China-Europa. As relações entre a China e a Rússia chegaram a um alto nível político, com os dois desfrutando de uma "parceria estratégica abrangente", um nível além de uma "parceria estratégica global". "Cooperativa" Isso significa que os dois lados vão trabalhar em conjunto para um objectivo comum, o que implica que eles são quase-aliados.


Mas o desenvolvimento das relações China-Rússia não significa que a China irá abandonar relações China-Europa. Pelo contrário, as relações China-Europa são necessárias para equilibrar as relações China-Rússia. Todavia, nas futuras relações China-Europa haverá mais oportunidades para o desenvolvimento.

Tomemos a questão da Crimeia como um exemplo. China tem mantido uma postura relativamente objectiva e neutra, ganhando a compreensão e apoio de alguns países europeus. A crise da Crimeia oferece à China uma oportunidade de manter um equilíbrio adequado entre a Rússia e a Europa sem afectar os seus interesses nacionais. A China está a usar a Europa como um mecanismo de equilíbrio entre os Estados Unidos e a Rússia a fim de se tornar numa importante consideração para o desenvolvimento de relações China-Europa no futuro.


Mu Chunshan é um jornalista com sede em Pequim. Anteriormente, Mu fez parte de um projecto de pesquisa no Ministério Educação investigando a influência dos médias estrangeiros na formação da imagem da China. Ele foi reporter a partir do Médio Oriente, África, Rússia e de toda a Ásia.

Cortesia The Diplomat

Tradução do original por Paulo Ramires



O responsável pelo RD volta a salientar que os artigos de opinião e análise reflectem apenas a visão dos autores como referido, não consistindo necessariamente na convergência de pontos de vista.  

segunda-feira, 31 de Março de 2014

DISCURSO DE VLADIMIR PUTIN SOBRE A INTEGRAÇÃO DA CRIMEIA NA RÚSSIA


DISCURSO DE VLADIMIR PUTIN SOBRE A INTEGRAÇÃO DA CRIMEIA NA RÚSSIA




Discurso de Vladimir Putin relativo à integração da Ucrânia de 18 de Março: 

Membros do Conselho da Federação, deputados à Duma, boa tarde. Representantes da República da Crimeia e Sebastopol estão hoje conosco. Cidadãos da Rússia que estão conosco hoje, moradores da Crimeia e de Sebastopol.

Caros amigos, nos reunimos hoje em conexão com uma questão que tem significação vital, histórica, para todos nós. Dia 16 de março realizou-se um referendo na Crimeia, que seguiu todos os procedimentos democráticos e normas internacionais.

Mais de 82% do eleitorado compareceu para votar. Mais de 96% deles manifestaram-se a favor da união com a Rússia. Esses números falam por eles mesmos.

Para compreender a razão por trás dessa escolha, basta conhecer a história da Crimeia e o que Rússia e Crimeia sempre significara uma para a outra.

Tudo na Crimeia fala por nossa história e nosso orgulho partilhado. Ali está a antiga Khersones, onde o príncipe Vladimir foi batizado. Uma destinação espiritual para adotar a Ortodoxia predeterminou a base geral da cultura, da civilização e dos valores humanos que unem os povos de Rússia, Ucrânia e Bielorrússia. Os túmulos dos soldados russos que com bravura trouxeram a Crimeia para o Império Russo também estão na Crimeia. E há também Sebastopol – cidade legendária, com longa história, uma fortaleza que serviu como local de nascimento da Frota Russa do Mar Negro. A Crimeia é Balaklava e Kerch, Malakhov Kurgan e Sapun Ridge. Cada um desses lugares é caro aos nossos corações e simboliza a glória militar e destacada coragem dos russos.

Crimeia é mistura única de diferentes povos, culturas e tradições. O que torna a Crimeia semelhante à Rússia como um todo, onde jamais se perdeu um único grupo étnico ao longo dos séculos. Russos e ucranianos, tártaros crimeanos e povos de outras etnias sempre viveram lado a lado na Crimeia, sem perder a própria identidade, suas tradições, seu idioma e sua fé.

Vale lembrar que a população total da península da Crimeia é hoje de 2,2 milhões de pessoas, das quais quase 1,5 milhões são russos; 350 mil são ucranianos que predominantemente consideram o russo como seu idioma nativo; e cerca de 290-300 mil são tártaros crimeanos, os quais, como o referendo mostrou, também votaram pela união à Rússia.

É verdade que houve tempo em que os tártaros crimeanos foram tratados com terrível injustiça, como vários outros povos na URSS. Só posso dizer uma coisa, nesse caso: milhões de pessoas de várias etnias sofreram naquelas repressões, primariamente os próprios russos.

Os tártaros crimeanos retornaram à região natal. Entendo que temos de empreender todas as decisões necessárias, políticas e legislativas, para finalizar a reabilitação dos tártaros crimeanos, restaurar todos os seus direitos e devolver-lhes o nome limpo que sempre tiveram.

Temos grande respeito pelos povos de todos os grupos étnicos que vivem na Crimeia. Essa é a casa comum deles todos, terra mãe deles todos, e é pleno direito de todos – e sei que a população local apoia essa ideia – que a Crimeia tenha três idiomas nacionais com direitos iguais: o russo, o ucraniano e o tártaro.

Colegas,

No coração e mente do povo, a Crimeia sempre foi parte inseparável da Rússia. Essa firme convicção é baseada na verdade e na justiça e foi transmitida de geração a geração ao longo do tempo, sob todas as circunstâncias, apesar das muitas mudanças dramáticas pelas quais passou nosso país ao longo de todo o século 20.

Depois da revolução, os bolcheviques, por várias razões – e que Deus as julgue – acrescentaram várias partes do sul histórico russo à República da Ucrânia. Foi feito sem qualquer consideração à constituição étnica da população, e essas áreas hoje formam o sudeste da Ucrânia. Depois, em 1954, foi decidida a transferência da região crimeana para a Ucrânia, junto com Sebastopol, apesar de essa já ser cidade federal. Foi iniciativa pessoal do chefe do Partido Comunista, Nikita Khrushchev. O que havia por trás de sua iniciativa – um desejo de obter o apoio do establishment político ucraniano; ou de expiação, pelas repressões massivas dos anos 1930s na Ucrânia, é coisa que cabe aos historiadores identificar.

O que conta hoje é que aquela decisão foi tomada numa clara violação das normas constitucionais então vigentes. Foi decisão tomada nas coxias. Naturalmente, em estado totalitário ninguém se deu o trabalho de consultar os cidadãos da Crimeia e de Sebastopol. Eles foram apresentados ao fato consumado. As pessoas, é claro, perguntaram-se por que a Crimeia teria sido convertida em parte da Ucrânia. Mas no todo – e isso tem de ser dito bem claramente – e todos sabemos disso, aquela decisão foi tratada como uma superficialidade, porque o território foi transferido dentro das fronteiras de um mesmo Estado. Naquele momento, ninguém imaginaria que Ucrânia e Rússia pudessem vir a dividir-se e tornarem-se dois estados separados. Mas foi o que aconteceu.

Infelizmente, o que parecia impossível tornou-se realidade. A URSS esfacelou-se. As coisas aconteceram tão rapidamente que poucos se aperceberam o quanto foram eventos realmente dramáticos e quais as consequências que deles adviriam. Muita gente, na Rússia e na Ucrânia, como também em outras repúblicas, esperavam que a Comunidade de Estados Independentes [ing.Commonwealth of Independent States] então criada tornar-se-ia a nova forma para os novos estados. Foi-lhes dito que haveria moeda comum, um único espaço econômico, forças armadas conjuntas; mas tudo isso não passou jamais de promessas vazias, ao mesmo tempo em que o grande país se desfazia. Foi só então, quando a Crimeia acabou por ser parte de outro país, que a Rússia deu-se conta de que não apenas fora roubada: a Rússia fora saqueada.

Ao mesmo tempo, temos de admitir que, ao encaminhar o fim da soberania, a própria Rússia contribuiu para o colapso da União Soviética. E quando esse colapso foi legalizado, todos esqueceram sobre a Crimeia e Sebastopol – base principal da Frota do Mar do Norte. Milhões de pessoas foram dormir num país e acordaram em países diferentes, da noite para o dia convertidas em minorias étnicas nas repúblicas ex-soviéticas. E a nação russa passou a ser um dos maiores, se não o maior grupo étnico do mundo, a ser dividido por fronteiras.


Agora, muitos anos depois, ouço residentes da Crimeia dizer que lá, em 1991, foram jogados de um lado para o outro como saco de batatas. Difícil discordar. E sobre o estado russo? Aceitou humildemente a situação. O país naquele momento enfrentava tais dificuldades que, em termos bem realistas, estava incapaz de proteger os próprios interesses. Mas o povo jamais aceitou aquela injustiça histórica ultrajante. Por todos esses anos, cidadãos e inúmeras figuras públicas voltaram à questão, sempre a dizer que a Crimeia é historicamente terra russa e que Sebastopol é cidade russa. Sim, todos nós sabemos disso, em nossos corações e mentes, mas tivemos de trabalhar sempre a partir da realidade posta, e construir boas relações de vizinhança com uma Ucrânia independente, sobre novas bases. Ao mesmo tempo, nossas relações com a Ucrânia, com o fraternal povo ucraniano, sempre foram e continuarão a ser de importância capital para nós.

[Aplausos]

Hoje podemos falar abertamente, e quero partilhar com vocês alguns detalhes das negociações que aconteceram no início dos anos 2000s. O então presidente da Ucrânia, Sr. Kuchma pediu-me que apressasse o processo de delimitar a fronteira russo-ucraniana. Naquele momento, o processo, na prática, estava parado. A Rússia parecia ter reconhecido a Crimeia como parte da Ucrânia, mas não houve qualquer negociação para delimitação das fronteiras. Apesar da complexidade da situação, dei instruções às agências do nosso governo para que apressassem o trabalho para documentar as fronteiras, de modo que todos tivessem claro entendimento de que, ao concordar em delimitar as fronteiras, nós aceitávamos admitir, de facto e de jure que a Crimeia era território ucraniano – e dava-se a questão por resolvida.

Tranquilizamos a Ucrânia, não só no que tinha a ver com a Crimeia, mas também numa questão complicada como a fronteira marítima no Mar de Azov e o Estreito de Kerch. O que nos moveu, então, foi a ideia de que nos interessava, mais que qualquer disputa territorial, ter boas relações com a Ucrânia. Mas esperávamos que a Ucrânia continuasse a ser boa vizinha, esperávamos que os cidadãos russos e falantes do russo na Ucrânia, especialmente os que viviam no sudeste e na Crimeia, continuariam e viver em estado amigo, civilizado e democrático que protegeria os direitos deles e se pautaria pelas normas da lei internacional.


Mas a situação não andou nessa direção. Várias vezes houve tentativas de privar os russos de sua memória histórica, até do próprio idioma, e de submetê-los a assimilação forçada. Além disso, os russos, como outros cidadãos da Ucrânia estão sofrendo sob crises políticas e de estado repetidas, que vêm sacudindo o país há mais de 20 anos.

Entendo por que o povo ucraniano desejou mudanças. Já se haviam fartado das autoridades no poder durante os anos da independência da Ucrânia. Presidentes, primeiros-ministros e deputados mudavam, mas a atitude deles em relação ao país e seu povo permanecia inalterada. Saquearam o país, combateram entre eles mesmos pelo poder, bens e fluxos de dinheiro e pouca atenção deram ao povo comum. Não é surpresa a causa de milhões de cidadãos ucranianos já não vissem qualquer futuro no país e tenham partido para outros países, tentando ganhar a vida como trabalhadores diaristas. Quero destacar isso: não voaram para algum Vale do Silício; viajaram para tentar ganhar a vida como trabalhadores braçais, diaristas. Só no ano passado, quase três milhões de pessoas encontraram esses empregos na Rússia. Segundo algumas fontes, em 2013 esses trabalhadores ganharam na Rússia mais de $20 bilhões – equivale a 12% do PIB da Ucrânia.

Quero reiterar que compreendo os que saíram à Praça Maidan levando seusslogans pacíficos contra a corrupção, contra a administração ineficiente do estado e contra a pobreza. O direito ao protesto pacífico, eleições e outros procedimentos democráticos existem exclusivamente para a finalidade de substituir governantes que não satisfaçam ao povo. Mas os que estavam por trás dos recentes eventos na Ucrânia tinham uma agenda diferente: estavam preparando já outra derrubada de regime; queriam o poder para eles e nada os deteria. Recorreram ao terror, ao assassinato, à violência nas ruas.

Aquele golpe foi executado por nacionalistas, neonazistas, russófobos e antissemitas. E continuam a determinar o tom na Ucrânia ainda hoje.

As novas ditas “autoridades” começaram por fazer aprovar lei para alterar a política linguística, o que foi infringir diretamente os direitos das minorias étnicas. Na sequência, como se viu, aqueles políticos foram i

mediatamente “disciplinados” pelos seus patrocinadores estrangeiros.

Tem-se de admitir que os mentores e patrocinadores dessas atuais autoridades são espertos e sabem bem a que podem levar essas tentativas de criar um “puro” estado ucraniano. A lei dos idiomas foi descartada – mas não há dúvidas de que permanece reservada para o futuro. Hoje já poucos falam desse atentado, provavelmente confiantes na memória curta das pessoas. Mas não há como não ver as intenções bem claras desses herdeiros ideológicos de Bandera, que foi cúmplice de Hitler na IIª Guerra Mundial.

Também é óbvio que não há agora autoridade executiva legítima na Ucrânia, nenhum governo com que se comunicar. Muitas agências do governo foram tomadas pelos golpistas, mas não conseguem controlar o país; de fato, eles mesmos – e é importante destacar isso – são controlados pelos radicais. Em alguns casos, é preciso autorização especial dos militantes na praça para encontrar alguns ministros do atual governo. Não é piada. É a realidade.

Os que se opuseram ao golpe foram imediatamente ameaçados de serem reprimidos. Claro que os primeiros da fila foram os crimeanos – a Crimeia que fala russo. Por isso, os moradores da Crimeia e de Sebastopol voltaram-se para a Rússia, pedindo ajuda para defenderem seus direitos e a própria vida, e para impedir que continuassem os eventos que prosseguem, de fato, até hoje, em Kiev, Donetsk, Carcóvia e outras cidades ucranianas.

Evidentemente, não poderíamos deixar desatendido aquele pedido; não poderíamos abandonar a Crimeia e seus residentes, naquele momento de angústia. Abandoná-los seria traí-los.

Em primeiro lugar, tivemos de criar condições para que os residentes na Crimeia, pela primeira vez na história, pudessem manifestar pacificamente e livremente a própria vontade sobre o próprio futuro. Mas... e o que se ouviu de nossos colegas na Europa Ocidental e na América do Norte? Disseram que nós estaríamos violando normas da lei internacional. Para começar, é muito bom que, afinal, eles pelo menos se

lembrem de que há lei internacional: antes tarde, que nunca.

Em segundo lugar, e mais importante – que lei, exatamente, nós estaríamos violando?

Sim, o presidente da Federação Russa recebeu autorização da Câmara Alta do Parlamento para usar Forças Armadas na Ucrânia. Mas, falando em termos estritos, ninguém ainda se serviu dessa permissão. As forças armadas da Rússia jamais entraram na Crimeia: elas já estavam lá, amparadas e em perfeita concordância com os termos de um acordo internacional válido e vigente.

Sim, ampliamos nossas forças lá. Mas – e quero que todos ouçam bem isso – em nenhum momento excedemos o número limite de soldados das Forças Armadas russas na Crimeia, que os tratados estipulam em 25 mil soldados. Não houve, sequer, necessidade de fazê-lo.

Outro ponto. Quando declarou a independência e decidiu organizar um referendo, o Conselho Supremo da Crimeia amparou-se na Carta das Nações Unidas, que declara o direito das nações à autodeterminação. Gostaria de lembrar aqui que, quando a Ucrânia separou-se da URSS, fez exatamente o mesmo, quase que passo a passo. A Ucrânia, naquele momento, usou o mesmo direito que, agora, quer negar aos moradores da Crimeia. Por quê?


Além disso, o que as autoridades da Crimeia fizeram se refere ao bem conhecido precedente do Kosovo – precedente que nossos colegas ocidentais criaram com as próprias mãos em situação muito similar, quando acertaram unilateralmente que separar o Kosovo da Sérvia era procedimento legítimo e não exigia qualquer permissão das autoridades centrais da Sérvia. Nos termos do Artigo 2º, Capítulo 1 da Carta das Nações Unidas, a Corte Internacional de Justiça da ONU concordou com essa abordagem e decidiu nos seguintes termos, em decisão do dia 22/7/2010 [cito]:
Nenhuma proibição geral pode ser inferida da prática do Conselho de Segurança sobre declarações de independência e A lei internacional geral não contém nenhuma proibição de declarações de independência.
Cristalinamente claro, como dizem eles.

Não gosto de citações, mas nesse caso são inescapáveis. Aqui, cito outro documento oficial: a Declaração Escrita dos EUA, de 17/4/2009, submetida à mesma Corte Internacional de Justiça, em conexão às audiências sobre o Kosovo. Cito:
Declarações de independência podem violar e seguidamente violam legislação doméstica. Mas isso não implica violação da lei internacional.
Eles escreveram isso, eles disseminaram esse entendimento pelo mundo, todos concordaram. Agora, se mostram ofendidos. Ofendidos por quê? As ações do povo da Crimeia estão absolutamente conforme essas instruções. Por algum motivo, há coisa que os albaneses do Kosovo (pelos quais tenho integral respeito) podem fazer, mas russos, ucranianos e crimeanos não podem fazer... E fica-se sem entender o porquê.

Não paramos de ouvir, de EUA e Europa Ocidental, que o Kosovo seria, de algum modo, caso à parte. O que o tornaria tão especial aos olhos de nossos colegas? Responderam que assim era, porque o conflito no Kosovo resultou em tantas mortes. E esse é argumento legal? A Corte Internacional nada diz sobre isso. Não se trata sequer de haver dois pesos e duas medidas que se usem caso a caso. Trata-se de inacreditável, primitivo, brutal cinismo. Ninguém deve sequer tentar tão simploriamente desvirtuar qualquer coisa para favorecer os próprios interesses, dizendo hoje que uma coisa é branca; e amanhã, que é preta. Se se aceitasse aquele argumento, a fórmula para legalizar qualquer conflito seria produzir o maior número possível de mortes.

Declaro aqui, bem claramente – se as unidades de autodefesa da Crimeia não tivessem conseguido pôr a situação sob controle, lá também haveria mortes. Para nossa felicidade, não aconteceu. Não houve um, um único, que fosse, confronto armado na Crimeia e nenhuma baixa. Por que aconteceu assim? A resposta é simples: porque é muito difícil, é, de fato, praticamente impossível, lutar contra a vontade do povo.

Aqui, cabe-me agradecer aos militares ucranianos – e a seus 22 mil soldados armados. Agradeço aos soldados ucranianos que não mancharam de sangue os próprios uniformes.

Outras reflexões vêm à cabeça, ligadas a isso. Continua a haver muita conversa sobre alguma espécie de intervenção russa na Crimeia, algum tipo de agressão. Muito estranho. Não conheço registro algum, na história do mundo, de intervenção sem que um único tiro tenha sido disparado, sem nenhuma baixa, sem nenhum ferido.

Colegas,

Como imagem num espelho, a situação na Ucrânia reflete o que se passa e o que vem acontecendo no mundo ao longo das últimas várias décadas. Depois do fim da bipolaridade no planeta, acabou-se a estabilidade.

Instituições internacionais chaves não se estão fortalecendo; ao contrário, em muitos casos, estão em degradação. Nossos parceiros ocidentais, liderados pelos EUA, preferem não se deixar guiar pela lei internacional; preferem, como orientação, a lei das armas.

Com o tempo, acabaram por se autoconvencer do próprio exclusivismo, do próprio excepcionalismo; que poderiam decidir os destinos do mundo; que só eles e sempre eles, estão sempre certos. Fazem o que bem entendam: aqui, ali, acolá, por toda parte usam força bruta contra estados soberanos, construindo “coalizões” baseadas no princípio de “se você não está conosco, está contra nós”.

Para dar a essa agressão ares de legitimidade, forçam as necessárias ‘resoluções’ nas organizações. E se por algum razão o ardil não funciona, então simplesmente ignoram e atropelam o Conselho de Segurança da ONU e a ONU inteira.

Foi o que aconteceu na Iugoslávia; lembramos muito bem de 1999. Era quase impossível acreditar, mesmo vendo acontecer ante os meus próprios olhos, que nos anos finais do século 20 uma capital europeia, Belgrado, estava sob ataque de mísseis e assim ficou por várias semanas, até que, afinal, veio a verdadeira intervenção. E havia resolução do Conselho de Segurança da ONU que permitisse aquelas ações. Não. Nada.

E, depois, atacaram o Afeganistão, o Iraque. E violaram flagrantemente uma resolução do Conselho de Segurança sobre a Líbia, onde, em vez de impor a chamada zona aérea de exclusão, puseram-se a bombardear o país.

E houve toda uma série de revoluções “coloridas’ controladas. Claramente, o povo naquelas nações, onde esses eventos aconteceram, estavam fartos de tirania e de pobreza, da falta de possibilidades; mas esses sentimentos foram cinicamente manipulados para deles extrair vantagens que nada tinham a ver com as necessidades e carências populares. Impuseram-se padrões a essas nações que de modo algum correspondem aos padrões de vida, às tradições e à cultura de cada um desses países. Como resultado, em vez de democracia e liberdade, o que há lá é o caos; surtos de violência e levantes. A Primavera Árabe virou Inverno Árabe.

Situação similar desdobrou-se na Ucrânia. Em 2004, par impor lá o candidato de que precisavam, mas através de eleições, tiveram de inventar uma espécie de terceiro turno que não estava previsto em lei. Foi absurdo. Foi zombar da Constituição. Agora, meteram lá um exército de militantes organizados e equipados.

Entendemos o que está acontecendo; entendemos que são ações que visam Ucrânia e Rússia, e visam também a integração eurasiana. E, isso, quando a Rússia esforça-se para construir um diálogo com nossos colegas do ocidente. Vivemos a propor cooperação em todas as questões chaves; queremos reforçar o nível de confiança e que nossas relações sejam igualitárias, abertas e justas. Mas não vimos passos recíprocos.

Ao contrário, mentiram para nós incontáveis vezes; tomaram decisões pelas nossas costas, nos impuseram fatos consumados. Aconteceu com a expansão da OTAN para o oriente, e aconteceu também com o deslocamento de infraestrutura militar para junto das nossas fronteiras. E continuam a nos dizer a mesma coisa: “Bem... isso não diz respeito a vocês.” Fácil dizer.

Aconteceu também com o deslocamento para cá de um sistema de mísseis de defesa. Apesar de todas as nossas apreensões, o projeto está em andamento e andando rápido. Aconteceu com a infindável confusão que criam sobre a emissão de vistos, promessas de concorrência comercial livre e justa e livre acesso aos mercados globais.

Todos os dias nos ameaçam com sanções, mas já enfrentamos muitas limitações, algumas bastante significativas para nós, nossa economia e nossa nação. Por exemplo, ainda nos tempos da Guerra Fria, os EUA e, na sequência, outras nações, limitaram a lista de tecnologias e equipamentos que podiam ser vendidos à URSS, e criaram a lista da Comissão de Coordenação de Controle de Exportações Multilaterais. Hoje, essa lista foi formalmente eliminada, mas só formalmente; na realidade muitas limitações ainda estão vigentes.

Em resumo, temos todas as razões para assumir que a infame política de contenção, dos séculos 18, 19 e 20, continua ainda hoje. Vivem tentando nos encurralar porque temos posição independente, porque a defendemos e a mantemos, e porque damos às coisas os nomes reais e não nos envolvemos em hipocrisias. Mas para tudo há limites. E, com a Ucrânia, nossos parceiros ocidentais cruzaram a linha, jogaram sujo, agiram irresponsavelmente e sem seriedade.

Afinal, eles sabem que há milhões de russos vivendo na Ucrânia e na Crimeia. Teria de não ter nenhum instinto político e nenhum bom-senso para não antever a consequências de suas ações. A Rússia viu-se numa posição da qual não poderia recuar. Se se comprime a mola além do limite dela, ela fatalmente escapará à compressão e saltará com força. Não esqueçam disso, nem por um instante.

Hoje, é imperativo pôr fim a essa histeria, refutar a retórica da guerra fria e aceitar o fato óbvio: a Rússia é participante independente e ativo das questões internacionais; como outros países, a Rússia tem seus próprios interesses nacionais que têm de ser levados em consideração e respeitados.

Ao mesmo tempo, somos gratos a todos que compreenderam nossas ações na Crimeia; somos gratos ao povo da China, cujos líderes sempre consideraram a situação na Ucrânia e na Crimeia sem deixarem de levar em consideração o grande contexto histórico e político. E muito apreciamos a reserva e a objetividade da Índia.

Hoje, quero me dirigir ao povo dos EUA, o povo que, desde a fundação de sua nação e a Declaração de Independência tanto se orgulhou de levar a liberdade na mais alta conta. O desejo dos moradores da Crimeia, de escolher livremente o próprio destino, não é a encarnação do desejo deles, por liberdade? Por favor, nos compreendam bem.

Creio que os europeus, os alemães, antes de tudo e de todos, também me compreenderão. Permitam-me lembrar-lhes que, no curso de consultas políticas sobre a unificação do Leste e Oeste da Alemanha, no nível de especialistas, mas de alto nível, algumas nações que eram então e são hoje aliadas da Alemanha não apoiavam a ideia da unificação. A Rússia, contudo, apoiou inequivocamente, sempre, o sincero, incontível desejo dos alemães pela sua unidade nacional. Tenho certeza de que não esqueceram disso. E espero que os cidadãos da Alemanha também apoiem o desejo dos russos – da Rússia histórica – de restaurar a unidade.

Quero dirigir-me também ao povo da Ucrânia. Quero sincera e profundamente que nos compreendam bem: não queremos feri-los de nenhum modo, nem agredir seus sentimentos nacionais. Sempre respeitamos a integridade territorial do estado ucraniano, aliás, bem diferentes nisso, os russos, de tantos que sacrificaram a unidade da Ucrânia em nome das próprias ambições de poder. Cantam slogans sobre a grandeza da Ucrânia, mas são os primeiros a fazer qualquer coisa para dividir a nação. O impasse que hoje divide a sociedade ucraniana é culpa deles, integralmente. Ouçam-me, caros amigos, com atenção. Não acreditem nos que querem fazê-los temer a Rússia, gritando que outras regiões seguirão a Crimeia. Não queremos dividir a Ucrânia; não precisamos disso. O mesmo vale para a Crimeia, que sempre foi e permanece terra de russos, ucranianos e tártaros crimeanos.

Repito que, como foi durante séculos, a Crimeia será lar de todos os povos que ali vivem. A única coisa que a Crimeia jamais será fará é seguir os passos de Bandera.

A Crimeia é nosso patrimônio histórico comum e fator muito importante de estabilidade regional. E esse território estratégico deve ser parte de soberania forte e estável, a qual, hoje, só pode ser russa. Sem isso, amigos (e aqui me dirijo à Ucrânia e à Rússia), vocês e nós – os russos e os ucranianos – poderíamos perder completamente a Crimeia, o que poderia acontecer em perspectiva histórica bem próxima. Por favor, reflitam sobre isso.

Permitam-me observar que já ouvimos declarações de Kiev sobre a Ucrânia unir-se à OTAN, em futuro próximo. O que significaria isso para a Crimeia e Sebastopol, no futuro? Significaria ter a marinha da OTAN bem ali, nessa cidade da glória militar russa; o que criaria ameaça não ilusória ou fantasiada, mas perfeitamente real, para todo o sul da Rússia. São ameaças que se tornariam rapidamente realidade, não fosse pela escolha que o povo da Crimeia fez. Quero agradecer, dizer “obrigado” aos crimeanos, por isso.

Permitam-me dizer também que não nos opomos a cooperar com a OTAN, mas esse não é absolutamente o caso agora. Por todos os processos internos a ela, a OTAN continua a ser aliança militar, e os russos somos contrários a manter uma aliança militar instalada bem ali no nosso quintal ou em nosso território histórico. Absolutamente não consigo imaginar que viajaríamos a Sebastopol para visitar marinheiros da OTAN. Claro, muitos deles são excelentes sujeitos. Mas melhor que eles venham nos visitar, que sejam nossos hóspedes, que o contrário.

Quero dizer, muito francamente, que nos aperta o coração ver o que se passa na Ucrânia no momento, assistir ao sofrimento do povo, à incerteza em que se debatem sobre hoje e o amanhã. São preocupações compreensíveis, porque não somos simples vizinhos mas, como já disse várias vezes, somos um só povo. Kiev é a mãe das cidades russas. O Rus ancestral é nossa fonte comum, e não podemos viver uns sem os outros.

Permitam-me dizer ainda mais uma coisa. Milhões de russos e falantes de russo vivem na Ucrânia e lá continuarão. A Rússia sempre defenderá seus interesses com meios políticos e diplomáticos legais. Mas o interesse superior a todos os demais, no próprio interesse da Ucrânia, é assegurar que os direitos e interesses daqueles russos estejam plenamente protegidos. Essa é a garantia da estabilidade e da integridade territorial do estado da Ucrânia.

Queremos ser amigos da Ucrânia e queremos que a Ucrânia seja país soberano forte e autossuficiente. Afinal, a Ucrânia é um dos nossos principais parceiros. Temos vários projetos conjuntos e creio que serão bem-sucedidos, apesar das atuais dificuldades. Mais importante que tudo, queremos que a paz e a harmonia reinem na Ucrânia, e estamos prontos a trabalhar juntos com outros países para facilitar e apoiar esse encaminhamento. Mas, como já disse, só o próprio povo da Ucrânia pode pôr a própria casa em ordem.

Residentes na Crimeia e na cidade de Sebastopol, toda a Rússia admirou a coragem, a dignidade e a bravura de vocês. Vocês, ninguém mais, decidiram o futuro da Crimeia. Estivemos mais próximos que nunca, nos dias recentes, um apoiando o outro. Foram sentimentos sinceros de solidariedade. É em momentos de virada histórica, como esses, que uma nação demonstra a própria maturidade e fortaleza de espírito. Os russos mostraram essa maturidade e essa fortaleza de espírito, pelo apoio unificado que garantiram a todos os seus compatriotas.

A posição da política externa da Rússia nesse assunto obtém sua firmeza, do desejo de milhões de russos, de nossa unidade nacional e do apoio das principais forças políticas e públicas. Quero agradecer a todos por esse espírito patriótico. A todos, sem exceção. Daqui por diante, temos de continuar a manter esse tipo de consolidação, para superar as tarefas que nosso país enfrentará adiante, nessa nossa trilha.

É claro que enfrentaremos oposição externa, mas essa é decisão que temos de tomar nós mesmos. Estamos prontos para consistentemente defender nossos interesses nacionais, ou continuaremos para sempre a ceder, a nos recolher e retirar, sabe-se lá para onde?

Políticos ocidentais já começaram a nos ameaçar não só com sanções, mas também com a ameaça de problemas cada vez mais sérios no front doméstico. Gostaria de saber o que eles têm em mente, exatamente: ação de alguma“Quinta Coluna”, esse bando disparatado de “traidores nacionais”, ou esperam nos pôr em situação social e econômica sempre mais difícil, na esperança de, assim, promover o descontentamento massivo?

Aquelas declarações, as vemos como irresponsáveis, em tom abertamente agressivo. Nenhum delas ficará sem resposta adequada. Mas, simultaneamente, não procuraremos confrontação com nossos parceiros, nem do Leste nem do Oeste. Ao contrário, faremos tudo que pudermos para construir relações civilizadas de boa-vizinhança, como se deve fazer no mundo moderno.

Colegas,

Entendo o povo da Crimeia, que pôs o problema nos termos mais claros possíveis, no referendo: “A Crimeia deve ficar com a Ucrânia ou com a Rússia?”

Não há dúvidas de que as autoridades na Crimeia e em Sebastopol, as autoridades legislativas, ao formularem a pergunta, puseram de lado interesses de grupos ou políticos, e tomaram, como pedra de toque a partir da qual formularam a pergunta, os interesses fundamentais do povo da Crimeia. As circunstâncias específicas, históricas, populacionais, políticas e econômicas da Crimeia tornariam qualquer outra opção proposta – ainda que parecesse tentadora à primeira vista – só temporária e frágil, e levaria, inevitavelmente a piorar ainda mais a situação lá, que já teve efeitos desastrosos sobre a vida das pessoas. O povo da Crimeia, assim, decidiu pôr a questão em formato claro e sem concessões, sem áreas cinzentas.

O referendo foi justo e transparente, e o povo da Crimeia de modo claro e convincente, manifestou seu desejo e declarou, firmemente, que quer ser se pôr ao lado da Rússia.

A Rússia, agora, também terá de tomar uma difícil decisão, considerando os vários aspectos domésticos e externos. O que pensa o povo russo? Aqui, como qualquer país democrático, as pessoas têm diferentes pontos de vista. Mas sei que a absoluta maioria do nosso povo claramente apoia o que está sendo encaminhado.

A mais recente pesquisa de opinião pública que temos aqui na Rússia mostra que 95% das pessoas entendem que a Rússia deve proteger interesses dos russos e de outros grupos étnicos que vivem na Crimeia. 95% de nossos cidadãos. Mais de 83% entendem que a Rússia deve fazê-lo, mesmo que isso complique nossas relações com alguns outros países. Um total de 86% de nosso povo vê a Crimeia como território que continua a ser russo e parte de nosso próprio país.

E outro número particularmente importante, que corresponde exatamente ao resultado do referendo na Crimeia: quase 92% de nosso povo apoia a reunificação da Crimeia à Rússia.

Assim vemos que a vasta maioria do povo da Crimeia e a absoluta maioria do povo da Federação Russa apoia a reunificação da República da Crimeia e da cidade de Sebastopol com a Rússia.

Mas essa é uma questão de decisão política para a Rússia, e qualquer decisão aqui só se pode basear no desejo do povo, porque o povo é a fonte absoluta de toda a autoridade.

Membros do Conselho da Federação, deputados do Parlamento do Estado, cidadãos da Rússia, residentes na Crimeia e em Sebastopol, hoje, conforme o desejo do povo,

– encaminho aqui à Assembleia Federal pedido para que preparem Lei Constitucional sobre a criação de duas novas entidades dentro da Federação Russa: a República da Crimeia e a cidade de Sebastopol; e que ratifiquem o tratado pelo qual Crimeia e Sebastopol são admitidas na Federação Russa, já pronto para ser assinado.
Sei que conto com o apoio de vocês.



Discurso pronunciado no Kremlin a 18 de Março de 2014. A versão em inglês encontra-se em eng.kremlin.ru/news/6889, a tradução é da responsabilidade da equipa da Vila Vudu em http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/03/vladimir-putin-presidente-da-russia.html


segunda-feira, 24 de Março de 2014

A DESIGUALDADE É UMA ESCOLHA POR JOSEPH E. STIGLITZ

ECONOMIA
 A DESIGUALDADE É UMA ESCOLHA POR JOSEPH E. STIGLITZ



The New York Times

JOSEPH E. STIGLITZ

Joseph E. Stiglitz foi prémio Nobel da economia em 2001            Publicado a  13 de Outubro de 2013


É bem sabido por agora que a desigualdade no rendimento e na riqueza na maioria dos países ricos, especialmente nos Estados Unidos têm dado o alarme nas recente décadas e, tragicamente, piorarem mesmo mais do que na Grande Recessão. Mas e o resto do mundo ? Tem a diferença entre países diminuído, enquanto as potencias subdesenvolvidas como a China e Índia têm libertado centenas de milhões de pessoas da pobreza ? E nos países pobres e de médio rendimento, está a desigualdade a diminuir ou a aumentar ? Estamos a caminhar para um mundo mais justo ou mais injusto ?

Estas são questões complexas, e um novo estudo feito por Branko Milanovic, economista do Banco Mundial, conjuntamente com outros estudiosos, apontam o caminho para algumas respostas.

Iniciada no século 18, a revolução industrial produziu riqueza fabulosa para a Europa e América do Norte. Com certeza, a desigualdade nestes países foi aterradora - pense-se que a industria têxtil [junto aos rios e movida por estes] de Liverpool e Manchester em Inglaterra nos anos da década 20 do século 18, e os prédios de apartamentos da baixa de East Side de Manhattan e o lado sul de Chicago nos anos de 1890 - mas a diferença entre os ricos e os restantes, como fenómeno global, dispersaram-se ainda mais, estendendo-se, através por volta da II Guerra Mundial. Até aos dias de hoje a desigualdade entre países é bem maior que a desigualdade dentro dos países.

 

Mas em meados do início da queda do comunismo por volta dos anos de 1980, a globalização económica acelerou e a diferença [desigualdade] entre nações começou a reduzir-se. O período desde 1988 até 2008 "pode ter testemunhado ao primeiro declínio da desigualdade global entre os cidadãos do mundo desde a Revolução Industrial", o Sr. Milanovic, que nasceu na antiga Jugoslávia e é o autor do “The Haves and the Have-Nots: A Brief and Idiosyncratic History of Global Inequality,” escrito num jornal no passado mês de Novembro. Enquanto a desigualdade entre algumas regiões têm acentuadamente sido reduzidas - nomeadamente, entre Ásia e as economias desenvolvidas do ocidente - enormes desigualdades permanecem. A média global dos rendimentos, por país, têm-se vindo a aproximar cada vez mais nas últimas décadas, particularmente no reforço do crescimento da China e Índia. Mas globalmente a igualdade na humanidade, considerada a nível individual, melhorou muito pouco. (O coeficiente de Gini, uma medida de desigualdade, melhorou apenas 1.4 pontos de 2002 a 2008.)

Assim enquanto as nações na Ásia, no Médio Oriente e América Latina, como um todo, podem ter alcançado o ocidente, os pobres em todo o lado são deixados para trás, mesmo em lugares como a China onde eles têm beneficiado de alguma forma de padrões de vida crescentes.

De 1988 a 2008, o Sr. Milanovic concluiu que 1 por cento de pessoas no mundo viram os seus rendimentos subirem em cerca de 60 por cento, enquanto daqueles na base, 5 por cento não tiveram alterações no seu rendimento. E enquanto os rendimentos medianos têm geralmente melhorado nas ultimas décadas, continua a haver enormes desequilíbrios: 8 por cento da humanidade leva para casa 50 por cento do rendimento global; os do topo 1 por cento, sozinhos levam para casa 15 por cento. Ganhos em receitas têm sido os maiores na elite global - executivos da alta finança e das corporações nos países mais ricos - e as grandes "classes médias emergentes" da China, Índia, Indonésia e Brasil. Quem fica de fora ? Africanos, alguns países da América Latina, e povos dos ex-países comunistas do leste europeu e a antiga União Soviética, conclui o Sr. Milanovic.

Os Estados Unidos oferecem especificamente um cruel exemplo ao mundo. E porque, em tantos exemplos América sempre "lidera o mundo", se outros seguem o exemplo da América, isso não será um bom prenunciamento para o futuro. 

Por um lado, expandindo rendimentos e desigualdade da riqueza na América é parte de uma moda [tendência] vista no mundo ocidental.Um estudo de 2011 feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) conclui que a desigualdade no rendimento primeiro começou a subir no fim dos anos 70 e inícios dos anos 80 na América e Grã-Bretanha (também em Israel). A moda [tendência] tornou-se mais espalhada no fim dos anos 80. Durante a última década, as desigualdades no rendimento cresceram mesmo em países igualitários como Alemanha, Suécia e Dinamarca. Com poucas excepções - França, Japão, Espanha - o topo 10 por cento dos que auferem nas mais avançadas economias progridem, enquanto na base 10 por cento ficam ainda mais para trás.


Mas a tendência não foi universal, ou inevitável. Depois desses mesmos anos, países como o Chile, México, Grécia, Turquia e Hungria fizeram com que se reduzisse (em alguns casos muito alto) a desigualdade no rendimento significativamente, sugerindo que a desigualdade é um produto da política e não meramente de forças macroeconómicas. Não é verdade que desigualdade é um sub-produto inevitável da globalização, da mobilidade laboral, capital, bens e serviços e alternativas tecnológicas que favorecem melhor os trabalhadores bem mais qualificados e formados.

Das economias desenvolvidas, América tem algumas das piores disparidades em termos de rendimentos e oportunidades, com consequências macroeconómicas devastadoras. O Produto Interno Bruto dos Estados Unidos tem mais que quadruplicado nos últimos 40 anos e quase que duplicou nos restantes 25, mas como é agora bem conhecido, os benefícios têm chegado ao topo - e aumentado para níveis muito, muito altos.

No ano passado, os 1 por cento [do topo da pirâmide] de americanos levaram para casa 22 por cento dos rendimentos da nação; os 0.1 por cento 11 por cento. Noventa e cinco por cento do total de rendimentos [resultados] gerados desde 2009 têm ido para os 1 por cento do topo [da pirâmide]. Censos recentemente tornados públicos mostram que a mediana dos rendimentos na América não têm sido orçamentados em quase um quarto de século. O típico homem americano ganha menos do que ganhava há 45 anos atrás (após o ajustamento da inflação); homens que acabaram o liceu mas não têm uma licenciatura de quatro anos perfaz quase 40 por cento menos dos que há quatro décadas atrás o faziam.

A desigualdade americana começou a acentuar-se na retoma dos anos 30, em simultâneo com a baixa de impostos para os ricos e a desregulamentação do sector financeiro. Não é coincidência. Tem piorado à medida que investimos insuficientemente em infraestruturas, educação e sistemas de saúde e na nossa governação democrática.

E a Europa parece toda ela ansiosa para seguir o maus exemplo americano. A adesão à austeridade, desde a Grã-Bretanha à Alemanha, está a conduzir a um alto desemprego, reduções salariais, e aumento da desigualdade. Políticos como Angela Merkel, a recém-reeleita chancellor alemã, e Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, argumentam que os problemas da Europa resultam do aumento dos gastos com o estado previdência [gastos sociais]. Mas essa linha de pensamento tem levado a Europa para a recessão (e mesmo depressão). Essas coisas podem ter batido no fundo - já que a recessão pode ter já "oficialmente" terminado - é pouco confortável para os 27 milhões de empregos perdidos nos E.U.A. Em ambos os lados do atlântico, os fanáticos da austeridade dizem, marchamos[pela austeridade]: Essas são os compromidos amargos que precisamos tomar para alcançarmos a prosperidade. Mas prosperidade para quem ?

"Financialization" [peso das corporações e banca] excessiva - que ajuda a explicar o estatuto ambíguo da Grã-Bretanha como o segundo país mais desigual, depois dos Estados Unidos, entre as mais desenvolvidas economias do mundo - também ajuda a explicar o amargo da desigualdade. Em muitos países a fraca gestão de corporações e a erosão da coesão social tem levado ao aumento das diferenças do pagamento dos administradores executivos e os trabalhadores comuns - não ainda aproximados do nível dos 500-para-1 para as maiores empresas americanas (como estimado pela Organização do Trabalho Internacional) mas continua maior do que os níveis da pré-recessão. (Japão que tem posto cobro aos pagamentos dos executivos, é uma excepção notável.). As inovações americanas das "rent-seeking" [rendas em função da procura (monopolistas)] - do próprio enriquecimento não tornando o tamanho do bolo económico maior, mas pela manipulação do sistema para redimensionar o tamanho da fatia - tem se tornado global.

A globalização assimétrica tem também imposto o seu preço ao mundo inteiro. As transferências de capital [circulação do capital] têm obrigado a que os trabalhadores façam concessões nos seus salários e os governos a fazerem concessões fiscais. O resultado é uma corrida para o abismo. Salários e condições de trabalho estão sendo ameaçadas. Empresas pioneiras como a Apple, na qual o trabalho recai em enormes avanços em ciência e tecnologia, muitas delas financiadas pelo governo, têm também mostrado enorme destreza em evitar impostos. Elas gostam de receber, mas não de dar.

 

Desigualdade e pobreza entre as crianças são uma especial desgraça. Elas são enganadas pelas sugestivas ideologias de direita que a pobreza é um resultado da preguiça e de escolhas inadequadas; as crianças não podem escolher os seus país. Na América perto de uma em quatro crianças, vivem em estado de pobreza; na Espanha e Grécia, cerca de uma em seis; na Austrália, Grã-Bretanha e Canadá, mais de uma em cada 10. Nada disto é inevitável. Alguns países têm tomado a escolha de criar economias mais equitativas: Coreia do Sul, onde meio-século atrás apenas 1 em cada 10 pessoas alcançava um grau académico, hoje têm uma das mais altas taxa de competição universitárias do mundo.

Por essas razões, eu vejo-nos a nós a entrar num mundo dividido não apenas os "haves" [os que têm] e os "have-nots" [os que não têm], mas também entre aqueles países que não têm nada a ver com isto, e aqueles que têm. Alguns países terão sucesso na criação de prosperidade partilhada - o único tipo de prosperidade que eu acredito que é realmente sustentável. Outros irão deixar a desigualdade correr até onde a sua loucura os levar. Nessas sociedades divididas, os ricos irão se aninhar em comunidades fechadas, quase completamente separadas dos pobres, cujas vidas serão quase incompreensíveis para eles e vice-versa. Tenho visitado sociedades que parecem ter escolhido este caminho. Não são lugares em que a maioria de nós quisesse viver, quer em seus enclaves mais fechados ou nos seus desesperados bairros de lata.

Tradução do original por
Paulo Ramires


segunda-feira, 17 de Março de 2014

1945-2014, DE YALTA… A YALTA POR AYMERIC CHAUPRADE

1945-2014, DE YALTA… A YALTA POR AYMERIC CHAUPRADE

Winston Churchill, Franklin Roosevelt e Josef Stalin na Conferência de Yalta, 1945.

Por Aymeric Chauprade

"Nas últimas semanas, os Estados Unidos e os governos europeus alinhados excederam-se na sua fantasia unipolar".

Ao derrubar, pela ilegalidade e pela brutalidade , um governo democraticamente eleito em Kiev, com os objectivos estratégicos reais não só da entrada da Ucrânia na NATO (e a exclusão do acesso da Rússia aos mares quentes através da Crimeia), mas também, em última análise, à substituição do fornecimento de gás russo para os europeus por gás ucraniano, polaco e americano extraído do xisto (bastará fazer o necessário lobbying no Parlamento Europeu para que o projecto de fracturação hidráulica seja aprovado), o Império foi longe demais . Não só se trata de um crime disfarçado (veja-se a conversa entre Ashton e o Ministro dos Negócio Estrangeiros estónio) que terá visto snipers pró- Maidan assassinando os seus próprios apoiantes para culpar Yanukovych e assim, proporcionar uma "cobertura" humanitária à posição da União Europeia, como é também uma enorme falha [ao nível] da geopolítica que a Rússia não poderia deixar passar. A arrogância americana (esse excesso imperialista que atingiu os romanos antes deles) da qual Victoria Nuland, recentemente, forneceu um exemplo (" Foda-se a União Europeia "), esbarrou violentamente contra a geopolítica russa.

Antes de mais, após o colapso da URSS, Moscovo constatou que as populações russas haviam ficado presas dentro das fronteiras da União Soviética. O Kremlin absteve-se. Assistiu passivamente à expansão da NATO até às suas fronteiras (países bálticos ), às primeiras tentativas de revoluções coloridas da década de 2000 (Ucrânia , Geórgia ), à tentativa de digestão da Geórgia em 2008, à vontade de destruir os regimes sírio e iraniano, considerados muito próximos de Moscovo, e a muitas outras interferências , as projecções e provocações dos EUA sempre a coberto do pretexto infantil dos Direitos Humanos e da Democracia . Agora, o copo encheu-se! Putin é, talvez, o mais moderado dos russos sobre a questão da Crimea . Ele tenta acalmar a ira do seu povo contra esse tipo de má-fé ocidental.

O golpe [de Estado]de Maidan, o que levou ao poder vários ministros pertencentes a um movimento abertamente neo-nazi com o apoio de Washington e Bruxelas, numa altura em que os governos da União Europeia estão tentando convencer a suas populações de que os partidos soberanistas e identitários [europeus] são um perigo para a Democracia , foi a gota que fez transbordar o copo.

Este referendo na Crimeia a que eu queria assistir porque ser um ponto de viragem na História mundial contém, sem dúvida, o sinal de um novo mundo : um mundo multipolar com uma independência europeia real, e não a União Euro- Atlântica que destrói, ano após ano, as nossas identidades e as nossas economias.

O círculo volta a fechar-se. O velho mundo nascido em Yalta, em Fevereiro de 1945, via acordo entre dois mundialismos , atlantista e comunista, acaba ... em Yalta, em Março 2014, quase 70 anos depois!

Após a reunificação alemã , a reunificação da Rússia abre o caminho para o eixo Paris- Berlim - Moscovo. Claro, isso levará tempo. Mas a janela para o céu azul de liberdade foi aberta.

Eu irei neste serão, no Domingo, 16 de Março de 2014, beber chá em Yalta, ao pôr do sol, com a esperança de que os nossos filhos venham a assistir a uma grande Europa das nações livres .

É esta nova Yalta mundial que os europeus do Oeste e do Centro devem abraçar: ela poderá permitir-nos fazer a paz definitiva com a Rússia e construir com ela uma maior unidade europeia, a primeira baseada na soberania e na liberdade de cada uma das nações da nossa bela civilização.

E os nossos líderes são visionários e entendem isso, e assim a entrega pela França, daqui a poucas semanas, do PCB [bateau de projection et de commandement - navio de projecção e comando] com o nome premonitório de Sevastopol fará precisamente todo o sentido, ou eles não entendem nada, nem Paris, nem Berlim e, seguidamente a Rússia voltar-se-á para a China para construir um todo euroasiático. Esta seria uma nova bipolaridade , com o risco de de uma nova confrontação mundial.

Eu vivi 45 anos neste mundo de Yalta I nascida em ‘45. Eu entro, com esperança e optimismo, ao lado de todos aqueles que querem reconstruir a França e a Europa, e apesar dos riscos da tensão que eu não menosprezo, no mundo de Yalta II.

Simferopol, 16 de Março de 2014

Aymeric Chauprade é doutorado em ciência política na Sorbonne, e graduado da Sciences Po Paris, mas também em matemática e direito internacional. Professor de geopolítica e director do site de revisão geopolítica www.realpolitik.tv francês e é o autor do livro de referência "Geopolítica e constantes mudanças na história", ed. Elipses.

sexta-feira, 14 de Março de 2014

INICIOU-SE A QUARTA RONDA DE NEGOCIAÇÕES SOBRE O ACORDO DE LIVRO COMERCIO ENTRE OS EUA E A UE

INICIOU-SE A QUARTA RONDA DE NEGOCIAÇÕES SOBRE O ACORDO DE LIVRO COMERCIO ENTRE OS EUA E A UE

 

A União Europeia e os Estados Unidos começaram uma quarta ronda de negociações sobre o Comércio e Investimento de Parceria Transatlântica (TTIP), em Bruxelas, na segunda-feira.

A parceria criará a maior zona de comércio livre do mundo, com o objectivo de criar postos de trabalho, incentivar o investimento, a harmonização das normas técnicas e outras normas, bem como impulsionar o crescimento.

A UE diz que o acordo poderá aumentar o PIB do bloco entre 0,5 a 1 por cento ao ano. A UE e os EUA têm já a maior relação comercial do mundo, traduzindo-se, pelo menos, 40 por cento da produção económica global.

Mas os dois lados estão em desacordo sobre o acesso a determinados sectores e tarifas. De acordo com uma fonte da UE, a UE ficou decepcionada com Washington depois das negociações do mês passado sobre as tarifas.

"A nossa oferta é muito mais ambiciosa do que a americana," referiu a fonte da UE, falando sob condição de anonimato. "A bola está no campo dos EUA para corrigir esse desequilíbrio."

Os dois lados também têm discordâncias sobre os contratos públicos, com o "Buy American" do governo dos EUA, um problema para o lado da UE. Outro ponto de discórdia é se se irá incluir os serviços financeiros no acordo e do acesso aos recursos de petróleo e gás dos Estados Unidos.

Resistência e cepticismo

Os grupos de consumidores de ambos os lados do Atlântico estão preocupados com o impacto que um acordo pode exercer sobre tudo, desde a carne tratada com hormonas aos direitos dos trabalhadores e ao meio ambiente.

Na Alemanha, um grupo chamado "unfairhandelbar TTIP" [TTIP Desleal], que se traduz como "O TTIP não pode ser honestamente negociado", está reunindo assinaturas para demonstrar a falta de transparência e o que chama de "um agravamento dos direitos dos trabalhadores, da protecção dos consumidores e dos padrões ambientais . "

O ministro das finanças do estado da Baviera, Markus Söder, exigiu um referendo à escala europeia sobre TTIP. Em declarações ao diário alemão Münchner Merkur, ele também criticou a falta de transparência das negociações e apontou para o cepticismo entre os cidadãos da UE.

Temos de abrandar agora e certificar-nos se toda a gente está a bordo", disse ele ao jornal. Caso contrário, disse ele, um acordo de livre comércio poderá "colocar minar as pessoas que aceitam a Europa por completo."

As negociações TTIP começou em Julho do ano passado e espera-se que estejam concluídas em meados de 2015.

Fonte: dpa, AFP



domingo, 9 de Março de 2014

TIK, UM ESTILO DE SUCESSO UCRANIANO

TIK, UM ESTILO DE SUCESSO UCRANIANO


TIK, UM ESTILO DE SUCESSO UCRANIANO



Chamam-se TIK trata-se de um grupo de musica ucraniano fundado por Viktor Bronyuk, que em apenas 6 anos se tornou num fenómeno do panorama musical da Ucrânia, ganhando público por todo o país, os TIK, são a abreviação de "sobriedade e da cultura". Neste vídeo o grupo faz uma crítica da realidade ucraniano, um país  onde um passado da União Soviética, se cruza com um presente nubloso e um futuro encravado algures entre o ocidente e a Rússia. Paulo Ramires





TIK

TIK, "AMO-TE UCRÂNIA"












sábado, 8 de Março de 2014

ENTREVISTA COMPLETA DO PRESIDENTE RUSSO VLADIMIR PUTIN À IMPRENSA

ENTREVISTA COMPLETA DO PRESIDENTE RUSSO VLADIMIR PUTIN À IMPRENSA

 

"(...)veja o quão bem treinado era o pessoal que operou em Kiev. Todos sabemos que foram treinados em bases especiais em estados vizinhos: na Lituânia, na Polónia e na própria Ucrânia. Foram treinados por instrutores, por longos períodos. Foram divididos em dúzias e centenas, as ações foram coordenadas e havia bons sistemas de comunicação. Funcionava como um relógio. Você os viu em ação? Operavam como profissionais, pareciam forças especiais. Por que você pressupõe que os defensores da Crimeia teriam de ser menos bem organizados, piores?"


O presidente russo Vladimir Putin deu uma entrevista à imprensa na passada terça-feira respondendo a diversas questões, relacionadas em particular com a situação da Ucrânia.

Por Rede Castor

VLADIMIR PUTIN, PRESIDENTE DA RÚSSIA: Boa-tarde, senhores. Sugiro que organizemos as coisas do seguinte modo, como uma conversa, mais do que como uma entrevista. Peço então que apresentem as suas perguntas, vou reunindo e tentarei respondê-las todas. Em seguida, podemos ter uma conversa mais detalhada sobre pontos específicos que os interessem mais. Podemos começar.

PERGUNTA: Sr. Presidente, queria perguntar-lhe (faz tempo que o senhor não conversa conosco, então há muitas perguntas) como o senhor avalia os eventos em? O senhor entende que o Governo e o presidente em exercício, que estão no poder em Kiev, são legítimos? O senhor está disposto a fazer contato com eles, e sob que termos? O senhor entende que seja possível agora voltar aos acordos de 21/2, sobre o qual todos nós falamos tanto?

PERGUNTA: Sr. Presidente, a Rússia prometeu ajuda financeira à Crimeia e, ontem, o Ministério das Finanças recebeu instruções. Já se sabe claramente quanto estamos dando, de onde está saindo o dinheiro, sob que condições está sendo entregue e quando? A situação lá é muito difícil.

PERGUNTA: Quando, em que termos e para que objectivo pode ser usada força militar na Ucrânia? Em que medida o movimento está sendo feito conforme acordos internacionais assinados pela Rússia? Os exercícios militares que acabam de ser encerrado tem algo a ver com o possível uso da força?

PERGUNTA: Queremos saber mais sobre a Crimeia. O Sr. entende que acabaram as provocações, ou que ainda há alguma ameaça contra os cidadãos russos que estão agora na Crimeia e contra os falantes de russo? Qual a dinâmica geral da situação lá – as coisas estão mudando para melhor ou para pior? Ouvem-se os relatos mais diferentes.

PERGUNTA: Se o senhor decidir usar a força, o senhor já avaliou os possíveis riscos para o senhor, para o país e para o mundo: sanções económicas, menos segurança global, possível fim dos vistos de entrada em vários países ou maior isolamento para a Rússia, como estão exigindo políticos ocidentais?

PERGUNTA: Ontem, o mercado de acções caiu muito na Rússia, em resposta à votação no Conselho da Federação, e o rublo atingiu o recorde de menor valor de câmbio. O senhor esperava essa reação? Quais, na sua avaliação, são as possíveis consequências para a economia? São necessárias medidas especiais agora, e de que tipo? Por exemplo, o Sr. acha que a decisão do Banco Central de mover-se para uma taxa flutuante de câmbio para o rublo, pode ter sido prematura? Na sua opinião, a decisão deve ser revogada?

VLADIMIR PUTIN: Óptimo. Comecemos por essas perguntas. Depois, continuamos. Não se preocupem: tentarei responder o maior número possível de perguntas.

Para começar, minha avaliação de o que aconteceu em Kiev e na Ucrânia em geral. Só pode haver uma avaliação: foi tomada anticonstitucional, tomada armada, do poder. Alguém questiona isso? Não, ninguém questiona. Há aqui uma pergunta que nem eu nem meus colegas com os quais discuti muito a situação na Ucrânia nos últimos dias, como vocês sabem – uma pergunta que nenhum de nós pode responder. A pergunta é: por que tudo aquilo foi feito?

Queria chamar a atenção de vocês para o fato de que o presidente Yanukovych, através da mediação de Ministros de Relações Exteriores de três países europeus – Polónia, Alemanha e França – e na presença de um de meus representantes (o Comissário Russo para Direitos Humanos, Vladimir Lukin) assinou um acordo com a oposição, dia 21 de Fevereiro. Quero destacar que, nos termos desse acordo (e não estou dizendo que seja bom ou ruim, só estabelecendo um fato), o Sr. Yanukovych, na verdade, entregou o poder.

Aceitou todas as demandas da oposição: aceitou que se antecipassem as eleições parlamentares, as eleições presidenciais, e o retorno à Constituição de 2004, como a oposição demandava. Deu resposta positiva ao nosso pedido, ao pedido dos países ocidentais e, sobretudo, ao pedido da oposição, para que não usasse a força. Não emitiu uma única ordem ilegal, para atirar naqueles infelizes manifestantes. Além disso, ordenou a retirada de todas as forças policiais da capital, o que elas fizeram. Foi a Cracóvia, para participar de um evento e, no momento em que ele saiu, em vez de esvaziar e liberar os prédios públicos ocupados, eles imediatamente ocuparam a residência do presidente e o prédio do governo. Exactamente o oposto do acordo que acabavam de assinar.

Pergunto-me a mim mesmo, qual o objectivo disso tudo? Quero muito entender por que isso foi feito. O presidente de fato já cedera o poder, e creio que, como eu disse a ele, ele não tinha chances de ser reeleito. Quanto a isso, todos concordam, todos com quem falei pelo telefone nos últimos dias. Qual o objectivo de todas aquelas acções ilegais e inconstitucionais? Por que criaram tamanho caos no país? As ruas de Kiev ainda estão cheias de milicianos mascarados e armados. Aí estão uma questão ainda sem resposta. Queriam humilhar alguém e mostrar poder? Aí, só vejo acções absolutamente tresloucadas. O resultado é o exacto oposto do que esperavam, porque suas acções desestabilizaram significativamente o leste e o sudeste da Ucrânia.

Agora, sobre como isso tudo aconteceu.

Na minha opinião, essa situação revolucionária já estava fermentando há muito tempo, desde os primeiros dias da independência da Ucrânia. O cidadão ucraniano comum, a gente comum, sofreu durante o reinado de Nicolau 2º, durante o governo de Kuchma, e Yushchenko e Yanukovych. Nada, ou praticamente nada, jamais mudou para melhor. A corrupção alcançou dimensões das quais nunca nem se ouviu falar na Rússia. Acumulação de riqueza e estratificação social – problema também agudo na Rússia – são muito piores, radicalmente piores na Ucrânia. A coisa lá é além do que possamos imaginar. De modo geral, todas as pessoas queriam mudanças. Mas ninguém apoiará mudança ilegal.

No espaço pós-soviético, onde as estruturas políticas ainda são frágeis e as economias ainda são fracas, é essencial que se usem só meios constitucionais. Nessa situação, ir além do marco constitucional sempre será erro cardinal. Devo dizer que compreendo aquelas pessoas na praça Maidan, embora não apoie o rumo que as coisas tomaram. Entendo que as pessoas em Maidan exigissem mudança radical, não alguma simples remodelagem cosmética, do poder. Por que exigem isso? Porque cresceram vendo um grupo de ladrões trocar de lugar com outro grupo de ladrões. Além do mais, as pessoas da Regiões não participam sequer da formação de seus próprios governos regionais. Houve tempo, na Rússia, quando o presidente nomeava os líderes regionais, mas eles tinham de ser aprovados pelas autoridades regionais. Na Ucrânia, são directamente nomeados. Nós já temos eleições; eles ainda não estão nem perto disso. E, lá, puseram-se a nomear todos os tipos de oligarcas e bilionários para governarem as regiões leste do país. Não é surpresa que as pessoas não aceitassem isso. Não é surpresa que vejam que, como resultado de uma privatização desonesta (e também aqui há muita gente que tem o mesmo pensamento), alguns tenham ficado imensamente ricos e que, agora, estivessem sendo levados ao poder.

Por exemplo: Kolomoisky foi nomeado Governador de Dnepropetrovsk. É escroque conhecido. Conseguiu ludibriar até um oligarca russo, Roman Abramovich, há dois ou três anos. “Tungou” Roman Abramovich, como nossos intelectuais gostam de dizer. Os dois assinaram um negócio; Abramovich transferiu vários biliões de dólares; o sujeito jamais entregou o que vendera e embolsou o dinheiro. Quando eu perguntei a ele [Roman Abramovich]: “Por que você fez aquele negócio?”, ele disse: “Nunca pensei que esse golpe fosse possível”. Não sei, até hoje, se conseguiu reaver seu dinheiro, ou se acabaram por consumar o negócio. Mas aconteceu, realmente, bem assim, há alguns anos. Agora, esse mesmo escroque aparece nomeado Governador de Dnepropetrovsk. Não surpreende que as pessoas estejam insatisfeitas. Estavam insatisfeitas e continuarão insatisfeitas, se os que se auto-designam autoridades legítimas continuam a agir do mesmo modo.

O mais importante é que as pessoas têm de ter o direito de decidir o próprio futuro, de suas família, da região onde vivem, e têm de ter participação igual. Aí está algo que quero destacar: não importa em que parte do país alguém viva, ele ou ela tem de ter o direito de participar em condições de igualdade, para determinar o futuro do país.

As actuais autoridades são legítimas? O Parlamento tem ainda alguma legitimidade, mas os demais não, não são legítimos. O presidente-em-exercício, esse, definitivamente não é legítimo. De um ponto de vista legal, só a um presidente. Sabemos que não tem poder. Mas, ainda assim, já disse e repito: Yanukovych é o único presidente legítimo.

Pela lei ucraniana há três modos de remover um presidente: por morte, se ele pessoalmente renuncia, ou por impugnação. A impugnação é processo constitucional, com regras bem claras. Envolve o Tribunal Constitucional,o Supremo Tribunal e o Rada (Parlamento). É procedimento complicado e demorado. Não houve nada disso. Portanto, do ponto de vista legal, não há sequer o que discutir.

Acredito, além do mais, que essa foi a razão pela qual extinguiram a Corte Constitucional – o que contradiz todas as normas legais, da Ucrânia e da Europa. Não apenas dissolveram a Corte Constitucional de modo ilegítimo, mas eles também – vejam só! – deram ordens ao Gabinete do Procurador Geral para iniciar processos criminais contra todos os juízes da Corte Constitucional. O que é isso? É o que chamam de justiça? Como é possível alguém mandar alguém iniciar processo criminal, sem acusação formal, sem inquérito? Iniciar um processo criminal por ordem superior é nonsense. É falcatrua.

Agora, sobre a ajuda financeira à Crimeia. Como vocês talvez já saibam, decidimos organizar o trabalho nas regiões russas, para ajudar a Crimeia, que nos pediu apoio humanitário. Claro que atenderemos o pedido. Não posso ainda dizer quanto, quando ou como – o governo está trabalhando nisso, reunindo as regiões que têm fronteira com a Crimeia, garantindo apoio adicional às nossas regiões, para que possam ajudar o povo da Crimeia. Não há dúvida de que ajudaremos, é claro.

Sobre o deslocamento de tropas, o uso de forças armadas. Até aqui, não houve necessidade, mas a possibilidade permanece. Quero dizer aqui que os exercícios militares que fizemos recentemente nada têm a ver com os eventos na Ucrânia. São exercícios planejados há muito tempo, mas não foram divulgados, naturalmente, porque era inspeção surpresa da prontidão da forças para combate. Estava planejado há muito tempo, o Ministro da Defesa informou-me e eu já tinha a ordem pronta para iniciar o exercício. Vocês talvez já saibam que os exercícios já foram concluídos; ontem, dei ordem para que as tropas voltem aos deslocamentos regulares.

O que daria motivo para usar as Forças Armadas? – uma medida que, com certeza, só será tomada como último recurso.

Em primeiro lugar, a questão da legitimidade. Como vocês devem saber, recebemos pedido direto do presidente eleito e, como eu disse, do único presidente legítimo da Ucrânia, Sr. Yanukovich, que nos pediu o uso das forças armadas para proteger a vida, a liberdade e a integridade física dos cidadãos da Ucrânia.

Qual a nossa maior preocupação? Vemos o crescimento de forças reacionárias, nacionalistas e antissemitas em várias partes da Ucrânia, inclusive em Kiev. Vocês, jornalistas, com certeza viram um dos governadores algemado e preso com correntes a um poste, e atacado com baldes de água, no auge do inverno. Depois disso, foi trancado num celeiro e torturado. O que é isso? Seria democracia? Seria manifestação democrática? Esse governador havia sido nomeado recentemente, em dezembro, me parece. Ainda que se aceite que, lá, todos são corruptos, esse governador ainda nem teria tido tempo de roubar coisa alguma.

Sabem o que aconteceu quando tomaram o prédio do Partido das Regiões. Não havia no prédio membros do partido. Apenas dois, três empregados saíram, um deles um engenheiro, que disse aos invasores: “Por favor, deixem-nos sair. Deixem sair as mulheres, por favor. Sou engenheiro, nada tenho a ver com política”. Esse foi assassinado a tiros, ali, à frente de todos. Outro dos empregados foi preso num celeiro e o celeiro incendiado com coquetéis molotov. Foi queimado vivo. Seria manifestação de democracia?

Quando se veem essas coisas, entende-se o que preocupa os cidadãos da Ucrânia, sejam russos ou ucranianos, e a população que fala russo nas regiões leste e sul da Ucrânia. O que os preocupa é esse crime descontrolado.

Assim sendo, se virmos esse crime descontrolado espalhando-se para as regiões leste do país, e se aquele povo nos pedir ajuda, dado que já temos o pedido formal, legal do presidente legítimo, nos reservamos o direito de usar todos os meios ao nosso alcance para proteger aquelas pessoas. É resposta absolutamente legítima. Será usada como último recurso.

Há uma coisa que eu gostaria de dizer: nós sempre consideramos a Ucrânia não só como vizinho, mas como república vizinha irmã. E assim continuaremos. Nossas Forças Armadas são camaradas em armas, amigos, muitos dos quais se conhecem pessoalmente. Tenho certeza, e insisto, que militares ucranianos e russos jamais se enfrentarão: em combate, todos estarão do mesmo lado.

Aliás, isso de que estou falando – essa unidade – é o que já se vê na Crimeia. Vocês sabem que, graças a Deus, nenhum tiro foi disparado ali; não há mortes, excepto um atropelamento na praça há uma semana. O que se viu ali? As pessoas chegaram, cercaram unidades das forças armadas e conversaram com os soldados, convencendo-os a atender às demandas populares e o desejo do povo que vive ali. Não houve um tiro, um único confronto armado.

Assim, a tensão na Crimeia, associada à possibilidade de usarmos nossas forças armadas simplesmente se esvaiu, e não foi preciso usá-las. A única coisa que tínhamos de fazer e fizemos, foi reforçar a defesa de nossas instalações militares, porque estavam recebendo ameaças, e sabíamos de nacionalistas armados que tentavam aproximar-se. Reforçamos nossa proteCção, e era a coisa certa a fazer e fizemos no momento certo. Parto da ideia de que não será necessário fazer nada desse tipo, no leste da Ucrânia.

Mas há algo que quero destacar. Obviamente, o que vou dizer não está compreendido na minha autoridade e não temos nenhuma intenção de interferir. Mas cremos firmemente que todos os cidadão da Ucrânia, repito: vivam onde viverem, devem ter iguais direitos de participar na vida de seu país e determinar seu futuro.

Se eu estivesse na pele daqueles que se consideram autoridades legítimas, não perderia tempo e cuidaria de seguir logo todos os procedimentos legais necessários, porque eles não tem mandato nacional para conduzir políticas domésticas, externas ou econômicas, e nem, especialmente, para determinar o futuro da Ucrânia.

Agora, a questão das Bolsas de Acções. Como vocês talvez saibam, o mercado já estava oscilante antes de que a situação na Ucrânia deteriorasse. Tem a ver, basicamente, com a política do Federal Reserve dos EUA, cujas decisões recentes tornaram mais atraente investir na economia dos EUA, e os investidores puseram a mover seus investimentos, dos países emergentes para o mercado norte-americano. É uma tendência geral e nada tem a ver com a Ucrânia. Parece-me que o país que mais sofreu, dentre os BRICS, foi a Índia. A Rússia também foi atingida, não tão duramente como a Índia, mas foi atingida. A razão fundamental é essa.

Quanto aos eventos na Ucrânia, a política sempre influencia os mercados de acções, de um modo ou de outro. O dinheiro gosta de tranquilidade, estabilidade e calma. Mas acho que é desenvolvimento só tático, temporário, e influência temporária




VLADIMIR PUTIN, PRESIDENTE DA RÚSSIA: As suas perguntas, por favor.

PERGUNTA: Sr. Presidente, pode dizer se o senhor esperava reacção tão forte dos seus parceiros ocidentais, contra as ações da Rússia? Pode dar-nos detalhes de suas conversas com seus parceiros ocidentais? A única coisa que se ouviu foram notícias do seu serviço de imprensa. E o que pensa sobe a reunião do G8 em Sochi – acontecerá?

VLADIMIR PUTIN: Sobre a reação esperada, se o G8 se realizará e sobre as conversas. Todas essas conversas são confidenciais, algumas acontecem até por linhas protegidas. Assim sendo, não estou autorizado a divulgar o que discuti com os parceiros. Mas posso comentar algumas declarações públicas, feitas por meus colegas ocidentais; sem dar nomes; comento-as só em termos gerais.

A que prestar atenção? Sempre há alguém a dizer que o que a Rússia faz não seria ilegítimo. Pergunto: “Será que supõem que tudo que o que eles fazem é sempre legítimo?” A resposta é “Sim, eles supõem”. Então, tenho de lembrar-lhes o que os EUA fizeram no Afeganistão, Iraque e Líbia, onde agiram sem autorização da ONU ou distorceram completamente o conteúdo daquelas resoluções, como no caso da Líbia. Nesse caso, como vocês sabem, a resolução só autorizava a fechar o espaço aéreo para a aviação de Gaddafi. E a coisa terminou, como se sabe, com bombardeios aéreos e operação em terra, pelas forças especiais.

O que se vê é que nossos parceiros, especialmente os EUA, sempre claramente formular seus próprios interesses geopolíticos e de estado, e os seguem persistentemente. Então, usando o princípio “Ou estão connosco ou estão contra nós”, dividem o mundo. E os que não se enquadrem, são “espancados” até se enquadrar.

Nossa abordagem é diferente. Partimos da convicção de que sempre temos de agir com legitimidade. Eu, pessoalmente, sempre defendi que temos de agir em estrito cumprimento da lei internacional. Quero reforçar, mais uma vez, que, se tomarmos a decisão, se eu decidir usar as Forças Armadas russas, será decisão legítima, em plena obediência a todas as normas gerais da lei internacional – porque recebemos um pedido de ajuda do presidente legítimo –, e, também, em plena obediência aos nossos compromissos, que, nesse caso, coincidem com nossos interesses de proteger um povo com o qual temos estreitos laços históricos, culturais e económicos. Essa é missão humanitária. Não visamos a subjugar ninguém nem a dar ordens a ninguém. Mas não podemos ficar indiferentes se vemos aquele povo ser perseguido, destruído e humilhado.

Seja como for, espero sinceramente que não seja necessário chegar até isso.

PERGUNTA: Como o senhor avalia a reação do ocidente aos eventos na Ucrânia e as ameaças contra a Rússia: estamos diante de possíveis sanções ou da expulsão do G8?

VLADIMIR PUTIN: Quanto às sanções. Quem mais se deve preocupar com as consequências das sanções é quem aplica as sanções. Entendo que, no mundo moderno, no qual tudo está interconectado e é interdependente, é possível causar danos a outro país, mas sempre será dano mútuo. Aí está algo que todos devem manter sempre em mente. Isso é uma coisa.

A segunda coisa, e a mais importante: já disse aos senhores o que nos motiva. Mas… o que motiva nossos parceiros? Eles apoiaram um golpe para tomada armada e inconstitucional do poder; declararam o novo poder legítimo e agora estão tentando dar-lhes apoio.

Devo dizer que, apesar de tudo isso, temos sido pacientes e até dispostos a cooperar; não queremos romper nossa cooperação. Como vocês devem saber, há alguns dias instruí o governo a considerar como se podem preservar os contactos até com aqueles poderes em Kiev que não consideramos legítimos, para não comprometer nossos laços na economia e na indústria. Entendemos que nossas acções têm sido absolutamente razoáveis. Entendemos também que ameaçar a Rússia sempre é contraproducente e danoso.
Quanto ao G8, não sei. Estaremos prontos para hospedar o encontro com nossos colegas. Se não querem vir… que seja.

PERGUNTA: Posso acrescentar algo, sobre os contactos? Como vejo as coisas, o senhor considera legítimo o primeiro-ministro da Crimeia, sr. Aksyonov, como representante das autoridades do governo. O senhor está pronto a ter contactos com os que se consideram legítimas autoridades em Kiev?

VLADIMIR PUTIN: Já falei sobre isso. O senhor talvez não tenha ouvido.

PERGUNTA: Quero dizer, em alto nível, para uma solução política.

VLADIMIR PUTIN: Não parceiro no alto nível, lá. Lá não há presidente. E não pode haver, até que haja eleições gerais.

Quanto à Crimeia, o Parlamento foi formado em 2010, em Dezembro de 2010, se bem me lembro. Há 100 deputados eleitos, que representam seis partidos políticos. Depois da renúncia do ex-primeiro-ministro, o Parlamento da Crimeia, como ordena a legislação vigente e pelos procedimentos legais, elegeram um novo primeiro-ministro em sessão do Conselho Superior da Crimeia. É claro que é definitivamente legítimo. Foram respeitados todos os procedimentos de lei; não houve sequer um ato ilegal.

E quando, há alguns dias, um grupo de homens armados tentou ocupar o prédio do Soviet Superior da Crimeia, houve indignação dos habitantes locais. Pareceu-lhes que alguém tentava aplicar na Crimeia o mesmo cenário de Kiev, lançar séries de actos terroristas e provocar o caos. É claro que os habitantes locais têm boas razões para preocupação. Por isso organizaram comités de autodefesa e assumiram o controle sobre as forças armadas da Crimeia.

Casualmente, examinei as notícias, ontem, para ver sobre o que, exactamente, a população da Crimeia assumiu o controle. Há várias dúzias de unidades C-300, várias dúzias de sistemas de mísseis de defesa aérea, 22 mil soldados e mais. Mas, como eu disse, tudo já está sob controle do povo da Crimeia, e sem disparar um único tiro.

PERGUNTA: Sr. Presidente, um esclarecimento, por favor. As pessoas que bloqueavam o acesso às unidades do Exército da Crimeia usavam uniformes muito parecidos com o uniforme do Exército Russo. Eram soldados russos, o exército russo?

VLADIMIR PUTIN: Examine os uniformes dos exércitos dos soldados dos estados pós-soviéticos. Há muitos uniformes parecidos. E sempre se pode entrar numa loja e comprar qualquer tipo de fardamento.

PERGUNTA: Mas eram ou não eram soldados russos?

VLADIMIR PUTIN: Eram unidades locais de autodefesa.

PERGUNTA: Eram treinados? Se se comparam aqueles soldados com as unidades de autodefesa em Kiev…

VLADIMIR PUTIN: Meu caro amigo, veja o quão bem treinado era o pessoal que operou em Kiev. Todos sabemos que foram treinados em bases especiais em estados vizinhos: na Lituânia, na Polónia e na própria Ucrânia. Foram treinados por instrutores, por longos períodos. Foram divididos em dúzias e centenas, as ações foram coordenadas e havia bons sistemas de comunicação. Funcionava como um relógio. Você os viu em ação? Operavam como profissionais, pareciam forças especiais. Por que você pressupõe que os defensores da Crimeia teriam de ser menos bem organizados, piores?

PERGUNTA: Então, me explico melhor: tomamos parte no treinamento das forças de autodefesa da Crimeia?

VLADIMIR PUTIN: Não.

PERGUNTA: Como o senhor vê o futuro da Crimeia? O senhor considera a possibilidade de a Crimeia unir-se à Rússia?

VLADIMIR PUTIN: Não, não consideramos. De modo geral, creio que só residentes de um determinado país, com plena liberdade para escolher e em completa segurança, podem determinar o futuro do próprio país. Se isso sempre tivesse sido garantido aos albaneses do Kosovo, se fosse tornado possível em muitas diferentes partes do mundo, ninguém teria roubado a ninguém o direito à autodeterminação, o qual, que eu saiba, está fixado em vários documentos da ONU. Não, de modo algum. Não provocaremos essa decisão, nem promoveremos esses sentimentos.

Quero destacar que acredito que só quem viva num dado território tem o direito de determinar o próprio destino naquele território.

PERGUNTA: Duas perguntas. O senhor disse que enviar tropas à Ucrânia é medida extrema, mas o senhor não a descartou. Mas, se tropas russas entrarem na Ucrânia, pode ser o início de uma guerra. Isso não o preocupa? E uma segunda pergunta: o senhor diz que Yanukovich não deu ordem para seus policiais atirarem contra o povo. Mas alguém atirou e, claramente, eram atiradores treinados.

VLADIMIR PUTIN: Muita gente, inclusive pessoas que estavam entre os manifestantes, manifestaram a opinião de que eram provocadores, de um dos partidos da oposição. O senhor não ouviu esses relatos?

RESPOSTA: Não, não ouvi.

VLADIMIR PUTIN: Procure esses relatos – não é difícil encontrá-los. Por isso é tão difícil chegar ao fundo dessa situação. Mas não há dúvidas de que o senhor e eu vimos, com certeza, quando os policiais Berkut lá estavam, só com seus escudos, sob fogo – e não eram armas de ar comprimido, que foram usadas contra eles, mas armas de assalto, que perfuraram os escudos. Isso, com certeza, nós vimos, todo mundo viu. E quanto a quem ordenou os tiros, não sei. Sei o que o sr. Yanukovich contou-me. E ele me disse que não deu ordem de tiro, em nenhum momento. Mais do que isso, depois de assinar o acordo de 21/2/2014, ele deu instruções para que todas as unidades policiais se retirassem da capital.

Posso, até, lhe contar mais. Yanukovich telefonou-me; e eu lhe disse que não retirasse os policiais das ruas. Disse a ele: “Você terá anarquia, você gerará o caos na capital. Pense no povo”. Mas, mesmo assim, ele retirou os policiais. Imediatamente seu próprio gabinete foi tomado, e o prédio do governo, e foi o caos, o mesmo do qual eu falei a Yanukovich, e que continua até hoje.

PERGUNTA: E sobre a primeira pergunta? Não o preocupa a possibilidade de uma guerra?

VLADIMIR PUTIN: Não. Porque não planeamos guerra alguma, nem combateremos contra o povo da Ucrânia.

PERGUNTA: Mas há soldados ucranianos, o exército ucraniano.

VLADIMIR PUTIN: Ouça com atenção. Quero que me compreendam claramente: se nós tomarmos essa decisão, será, sempre e necessariamente e unicamente, para proteger os cidadãos da Ucrânia. Quero ver que exército ucraniano se atreverá a atirar contra o próprio povo, com os russos lá, com os ucranianos; por trás dos ucranianos, não à frente, mas no apoio. Queria saber quem, na Ucrânia, daria ordem ao exército ucraniano para atirar contra mulheres e criança ucranianas que estão sob nossa protecção.

PERGUNTA: Posso fazer uma pergunta, sr. presidente? Nossos colegas, meus colegas jornalistas que estão actualmente trabalhando na Ucrânia, dizem, todos os dias, que a situação dos Berkut piora dia a dia (com excepção, talvez, da Crimeia). Em Kiev, especialmente, há oficiais da polícia antitumultos feridos, agora hospitalizados, mas que não recebem nenhum tipo de tratamento. Alguns, sequer recebem comida. E as famílias deles não podem nem sair de casa, porque estão cercados: há barricadas em torno das casas. Não têm comida, são humilhados. O senhor pode comentar isso? Há meio de a Rússia ajudar aquelas famílias e os policiais?

VLADIMIR PUTIN: Sim, é assunto que muito nos preocupa. Não são soldados nossos, nem estamos directamente envolvidos nessa situação. Mas é, sim, uma questão humanitária grave. Seria oportuno que nossas organizações de direitos humanos se envolvessem nessa questão. Podemos pedir que Vladimir Lukin, só ou com seus colegas [da ONU], representantes da França, Alemanha e Polónia, que trabalharam para construir o conhecido acordo de 21/2/2014, que viajem até lá e verifiquem in loco a situação desses policiais Berkut, que não ofenderam nenhuma lei e agiram em obediência às ordens. São oficiais militares, enfrentaram os tiros, os coquetéis molotov, foram feridos. Aquela situação é difícil até de imaginar. Há leis que obrigam a alimentar e dar tratamento médico até a prisioneiros de guerra. As organizações de direitos humanos devem dar toda a atenção a esse caso. Desde já, garanto que receberão atendimento médico aqui na Rússia.

PERGUNTA: Sr. Presidente, voltando à reação ocidental. Depois do duro pronunciamento do secretário de Estado dos EUA, o Conselho da Federação sugeriu que chamássemos de volta nosso embaixador nos EUA. O senhor apoia essa ideia?

VLADIMIR PUTIN: O secretário de Estado dos EUA é, sem dúvida, homem muito importante, mas não é a autoridade que determina a política externa dos EUA. Ouvimos declarações de vários políticos e representantes de variadas forças políticas. A medida sugerida é medida extrema. Será usada, se for necessária. Mas realmente não quero usá-la, porque acho que a Rússia não é a única interessada na cooperação com nossos parceiros num plano internacional, e em áreas como economia, política e segurança internacional, a cooperação interessa tanto a nossos parceiros quanto a nós. É muito fácil destruir esses instrumentos de cooperação, e seria muito difícil reconstrui-los.

PERGUNTA: Rússia envolveu-se no destino de Yanukovych. Como o senhor vê seu papel futuro e seu destino futuro?

VLADIMIR PUTIN: É difícil dizer, não analisei detidamente essas questões. Acho que ele não tem nenhum futuro político – e disse a ele. Quanto a nos ter envolvido no “destino” dele – o que fizemos foi feito por questão de consideração humanitária. Assassinar presidente legítimo é o meio mais fácil para livrar-se dele. Acho que, se ficasse lá, teria sido assassinado. Mais uma vez, ressurge a mesma pergunta: mas por quê?

Afinal, vejam como tudo começou, o que desencadeou esses eventos. A razão formal é que ele não assinou o Tratado de Associação com a União Europeia. Hoje, já soa como total nonsense; é ridículo, até, falar disso. Mas o que quero dizer é que ele não se recusou a assinar o tal Tratado.

Yanukovich disse: “Analisamos detidamente esse Tratado e o conteúdo dele não atende aos nossos interesses nacionais. Não podemos aumentar o preço do combustível para os ucranianos, tanto quanto o Tratado exige, porque os ucranianos já vivem situação muito difícil. Não podemos fazer isso, nem isso, nem aquilo. Não podemos romper completamente e imediatamente nossos laços económicos com a Rússia, porque nossa cooperação é muito extensa. (…) Yanukovich disse “Não posso fazer isso, assim, de repente. Vamos discutir mais”. Yanukovich não se recusou a assinar o Tratado: só pediu mais tempo para discutir o documento. E, na sequência, essa loucura toda começou.

E por quê? Teria feito algo que extrapolasse a autoridade que tinha? Não. Agiu estritamente no limite de sua autoridade; não infringiu lei alguma. Simplesmente se recusou a apoiar as forças que lhe faziam oposição, numa luta pelo poder. Nada há aí de excepcional. Como, por que, esse “nada” inicial foi levado ao atual nível de anarquia, à derrubada ilegal de governo legítimo, com a Ucrânia lançada no caos em que está hoje? Tudo, aí, me parece inaceitável.

Não é a primeira vez que nossos parceiros ocidentais fazem isso na Ucrânia. Às vezes tenho a sensação de que em algum lugar naquele poço imenso, nos EUA, alguém senta-se num laboratório e põe-se a fazer testes, como se todos fôssemos ratos de gaiola, sem realmente compreender as consequências do que fazem. Por que tinham de fazer isso? Quem explica o que fizeram? Não há explicação.

O mesmo aconteceu durante o primeiro levante na praça Maidan, quando Yanukovych foi bloqueado longe do poder. Quem precisava daquele terceiro turno de eleições? Em outras palavras, a coisa toda virou farsa – a vida política da Ucrânia foi convertida em farsa. Nenhuma consideração à Constituição. Agora, vocês veem, estão ensinando às pessoas que, se uma pessoa pode violar a lei, todos podem; assim, geraram o caos. O perigo é esse.

Em vez disso, é preciso ensinar as sociedades a seguir outras tradições: a tradição de respeitar a lei maior do país, a Constituição, e todas as demais leis. Claro, nem sempre se conseguirá. Mas… agir como touro em loja de porcelana é contraproducente e muito perigoso. Há mais perguntas, por favor?

PERGUNTA: Sr. presidente, Turchynov é ilegítimo, do seu ponto de vista.

VLADIMIR PUTIN: Como presidente, sim.

PERGUNTA: Mas o Rada [Parlamento] é parcialmente legítimo.

VLADIMIR PUTIN: Sim.

PERGUNTA: Yatsenyuk e o Gabinete são legítimos? A Rússia está preocupada com a força crescente dos elementos radicais. Eles se fortalecem, sempre que se veem diante de um inimigo hipotético, o qual, hoje, eles entendem que seria a Rússia. Há também a posição russa, de declarar-se pronta para enviar tropas [para a Ucrânia]. Pergunto: faz sentido é será possível manter conversações com as forças moderadas no governo da Ucrânia, com Yatsenyuk? Yatsenyuk é legítimo?

VLADIMIR PUTIN: Parece que o senhor não ouviu o que eu disse. Eu já disse que, há três dias, dei instruções ao governo para renovar os contatos em nível de governo com seus correspondentes ministérios e departamentos na Ucrânia, para não cortar laços econômicos, e para apoiar suas tentativas para reconstruir a economia. Foram instruções que dei diretamente ao governo russo. O primeiro-ministro, sr. Medvedev, está em contato com [Arseniy] Yatsenyuk. E sei que Sergei Naryshkin, presidente do Parlamento russo, está em contato com [Oleksandr] Turchynov. Mas, repito: nossos contatos comerciais e econômicos, e outros, nossos contatos humanitários, só se poderão desenvolver plenamente depois que a situação se normalizar e houver eleições presidenciais.

PERGUNTA: Gazprom já disse que está voltando aos velhos preços do gás, a partir de Abril.

VLADIMIR PUTIN: Não. A Gazprom não pode ter dito isso. O senhor não ouviu bem, ou alguém não se expressou com clareza. A Gazprom não está voltando aos velhos preços. A empresa simplesmente não quer manter os actuais descontos, que ela só aceita aplicar ou não aplicar, por períodos trimestrais. Já era assim antes desses eventos, antes de a crise se agravar. Conheço as negociações entre a Gazprom e seus parceiros. A Gazprom e o governo da Federação Russa acordaram que a Gazprom introduziria um desconto, reduzindo os preços do gás para US $268,50 por mil metros cúbicos. O governo da Rússia provê a primeira parte do empréstimo, que não é formalmente um empréstimo, mas uma compra de papéis – um quase-empréstimo, US $3 biliões de dólares no primeiro estágio. E o lado ucraniano assume o compromisso de pagar a dívida que se criou no segundo semestre do ano passado e de fazer pagamentos regulares do que estão consumindo – pelo gás. A dívida não foi paga, nem estão sendo feitos integralmente os demais pagamentos.

Além disso, o parceiro ucraniano não depositou o pagamento que venceu em fevereiro, o que fez aumentar o montante da dívida. Hoje, está em torno de US $1,5-1,6 bilhões. E se não pagarem tudo o que vence em fevereiro, a dívida se aproximará de US $2 bilhões. Naturalmente, nessas circunstâncias, a Gazprom diz: “Escutem aqui, já que vocês não vão mesmo pagar, e a única coisa que aumenta é a dívida de vocês, vamos fechar negócio com o preço regular, que já é reduzido”. É movimento puramente comercial, parte das atividades da Gazprom, que planeja retornos e gastos em seus investimentos, como qualquer grande empresa. Se não recebem a tempo o dinheiro dos parceiros ucranianos, eles têm de cortar os próprios programas de investimentos; é problema real, para eles. Mas, lembro, nada disso tem qualquer coisa a ver com os eventos na Ucrânia, nem com qualquer movimento político. Havia um acordo: “Damos a vocês dinheiro e preços reduzidos de gás, e vocês fazem pagamentos regulares”. A empresa deu a eles dinheiro e preços reduzidos de gás, mas os pagamentos não estão sendo feitos. Naturalmente, a Gazprom diz “Não, pessoal, a coisa não está funcionando”.

PERGUNTA: Sr. Presidente, o serviço de imprensa da chanceler alemã Merkel disse, depois da conversa telefônica entre ela e o senhor, que havia ficado acertado que o senhor enviaria uma missão de investigação em campo, à Ucrânia, para saber o que acontece por lá, e que seria constituído um grupo de contacto.

VLADIMIR PUTIN: Eu disse que temos pessoal com treinamento e competências para examinar a questão e para discuti-la com nossos colegas alemães. Pode-se fazer. Já dei as instruções necessárias ao nosso ministro de Relações Exteriores, que estava para encontrar-se, ou vai encontrar-se com o ministro de Relações Exteriores da Alemanha, sr. Steinmeier, ontem ou hoje, para discutirem esse assunto.

PERGUNTA: Todos os olhos estão na Crimeia, agora, é claro, mas vê-se também o que está acontecendo em outras partes da Ucrânia, no leste e no sul. Vê-se o que está acontecendo em Carcóvia, Donetsk, Lugansk e Odessa. As pessoas içam bandeiras da Rússia nos prédios do governo e pedem ajuda e apoio à Rússia. A Rússia responderá a esses eventos?

VLADIMIR PUTIN: Você acha que não demos nenhuma resposta? Acho que estamos aqui, há uma hora, discutindo essa resposta. Mas, em alguns casos, os desenvolvimentos que se veem são, me parece, inesperados. Não vou entrar aqui em detalhes específicos sobre o que quero dizer com isso, mas a reação que estamos vendo é, em princípio, compreensível.

É possível que nossos parceiros no ocidente e os que se dizem governo em Kiev não tenham previsto que os eventos tomariam esse rumo? Eu perguntei a eles, repetidas vezes: por que vocês estão empurrando o país para esse frenesi? O que estão fazendo? Eles continuaram a trabalhar para o frenesi. É claro que o povo do leste da Ucrânia sabe que foi deixado de fora do processo de decisão.

Essencialmente, o que é preciso fazer agora é adotar uma nova Constituição e submetê-la a um referendo, para que todos os cidadãos de toda a Ucrânia participem do processo e influenciem os princípios básicos que serão o fundamento do governo do país deles. Mas esse não é assunto dos russos. Esse assunto é algo que só o povo e o governo da Ucrânia podem decidir, para um lado ou para outro. Acho que, tão logo haja um governo legítimo e novo presidente e novo Parlamento eleitos, que é o que está planejado, as coisas provavelmente andarão em frente. Se eu fosse eles, voltaria ao assunto de adotar uma Constituição e submetê-la a referendo, para que todos se possam manifestar, votar, e, depois, todos terão de respeitar suas próprias decisões. Se as pessoas sentem que estão sendo deixadas fora do processo, jamais o aceitarão e continuarão a resistir contra ele. Quem precisa desse tipo de coisa? Mas, como já disse, esse não é assunto nosso.

PERGUNTA: A Rússia reconhecerá a planejada eleição presidencial que acontecerá na Ucrânia?

VLADIMIR PUTIN: Vamos ver como a coisa anda. Se for acompanhada pelo mesmo tipo de terror que é tudo que hoje se vê em Kiev, não reconheceremos.

PERGUNTA: Queria voltar à reação do ocidente. Continua toda essa conversa dura, temos, em poucos dias a abertura dos Jogos Paraolímpicos em Sochi. Esses jogos estão em risco, a ponto de fracassar, pelo menos no que tenha a ver com a cobertura jornalística?

VLADIMIR PUTIN: Não sei. Parece-me o cume do cinismo criar ameaças contra os Jogos Paraolímpicos. Todos sabemos que é evento internacional de esportes nos quais portadores de necessidades especiais podem mostrar suas capacidades, provar a eles mesmos e ao mundo que não são pessoas limitadas, mas, ao contrário, gente cheia de ilimitadas capacidades e mostrar, no esporte suas realizações. Se há gente interessada em fazer fracassar esses jogos, só mostram que são gente para quem nada é respeitável, nada é sagrado.

PERGUNTA: Queria perguntar sobre a possibilidade hipotética de usar o exército. Há quem diga, no ocidente, que se a Rússia tomar essa decisão estará violando o Memorando de Budapeste, pelo qual EUA e alguns parceiros da OTAN consagraram a integridade territorial da Ucrânia, em troca da promessa de que o país não desenvolveria armas atômicas. Se os desenvolvimentos tomarem esse rumo, atores internacionais poderão intervir nesse conflito local e fazer dele um conflito global? O senhor considerou esse risco?

VLADIMIR PUTIN: Antes de fazer ‘declarações’ e sobretudo, antes de qualquer passo concreto, temos o hábito de dar a devida atenção às questões e analisar consequências e reações possíveis dos vários atores.
Quanto ao Memorando de que você fala… Você disse que é da Reuters, é isso?

RESPOSTA: Sim.

VLADIMIR PUTIN: Como os círculos populares e políticos em seu país veem os eventos em andamento? É claro, afinal, que foi evidente tomada do poder por um grupo armado. Esse é fato claro e evidente. E é claro, também que é golpe anticonstitucional. É fato claro, não é?

RESPOSTA: Eu vivo na Rússia.

VLADIMIR PUTIN: Bom para você! Você deveria trabalhar no corpo diplomático; seria um bom diplomata. A língua dos diplomatas, como se sabe, existe para esconder o que eles pensam. Então, dizemos que o que estamos vendo é um golpe armado anticonstitucional, e nos dizem que não, não é. Você com certeza ouviu muitas e muitas vezes que não se trata de golpe anticonstitucional nem tomada armada do poder, mas que seria uma revolução. Você já ouviu isso?

RESPOSTA: Já.

VLADIMIR PUTIN: Sim, mas, se é uma revolução, o que significa tudo isso? Em alguns casos é difícil não concordar com alguns especialistas que dizem que um novo estado está emergindo nesse território. Exatamente o que aconteceu quando do colapso do Império Russo, depois da revolução de 1917, e um novo estado emergiu. E esse seria um novo estado, com o qual nós não assinamos nenhum acordo ou Memorando.

PERGUNTA: Queria esclarecer um ponto. O senhor disse que se os EUA impuserem sanções, implicaria um golpe contra ambas as economias. Isso implica que a Rússia pode impor contra-sanções, ela mesma? Nesse caso, a resposta seria simétrica?

O senhor também falou sobre os descontos no preço do gás. Mas há também o acordo de comprar $15 bilhões de papéis da Ucrânia. A Ucrânia recebeu a primeira parcela, no final do ano passado. O restante do dinheiro foi suspenso? Se a Rússia oferecer ajuda, em que exatos termos econômicos e políticos isso será feito? E que riscos econômicos e políticos o senhor está considerando nesse caso?

VLADIMIR PUTIN: Respondendo sua pergunta, estamos, em princípio, dispostos a tomar as medidas necessárias para tornar disponíveis as demais parcelas referentes à compra de papéis. Mas nossos parceiros ocidentais nos pediram que não façamos isso. Pediram-nos para trabalharmos em conjunto com o FMI, para encorajar as autoridades ucranianas a fazerem as reformas necessárias que levem à recuperação da economia ucraniana. Continuamos trabalhando nessa direção. Mas, dado que a Naftogaz ucraniana não está pagando o que deve à Gazprom, o governo, agora, considera várias alternativas.

PERGUNTA: Sr. Presidente, a dinâmica dos eventos na Ucrânia está mudando para melhor ou para pior?

VLADIMIR PUTIN: Acima de tudo, acho que está gradualmente começando a nivelar-se. Temos absolutamente de sinalizar para o povo do sudeste da Ucrânia que todos podem sentir-se seguros, e sabendo que poderão tomar parte no processo político geral de estabilizar o país.

PERGUNTA: O senhor falou várias vezes de futuras eleições legítimas na Ucrânia. Quem o senhor vê como candidato sério? Claro que o senhor vai dizer que cabe ao povo ucraniano decidir, mas pergunto mesmo assim.

VLADIMIR PUTIN: Honestamente, não sei mesmo.

RESPOSTA: Parece que ninguém sabe, porque todos com quem se fala parecem estar completamente perdidos.

VLADIMIR PUTIN: Realmente, não sei dizer. Você sabe, é difícil fazer previsões em eventos desse tipo. Já disse que não concordo com esse método de tomar o poder e derrubar autoridades eleitas, e o presidente eleito, e que me oponho fortemente a esse tipo de método na Ucrânia e em geral em todo o espaço pós-soviético.

Oponho-me, porque esse tipo de método não contribui para inculcar uma cultura de respeito à lei. Se um se safar, depois de ter feito isso, significa que todos podem tentar, e isso só significa caos. É preciso entender que esse tipo de caos é o pior que pode acontecer a países de economias frágeis e sistema político instável. Nesse tipo de situação você jamais sabe que tipo de gente os eventos jogarão no centro da cena.

Lembre, por exemplo, o papel que as tropas de assalto de [Ernst] Roehm tiveram na ascensão de Hitler, ao poder. Adiante, aquelas tropas foram liquidadas, mas tiveram seu papel para levar Hitler ao poder. Os eventos podem tomar os rumos mais inesperados.

Permitam-me dizer, mais uma vez, que em situações nas quais o povo clame por reforma política fundamental e novas caras no topo, e também num clamor plenamente justificado – e nisso concordo com o movimento Maidan –, sempre há o risco de você, de repente, ter nas mãos um levante nacionalista ou semifascista, como uma espécie de gênio que salta para fora da garrafa. Hoje, eles estão bem à vista, usando braçadeiras com algo que muito parecem suásticas, ainda circulando por Kiev, nesse momento – ou antissemitas ou outros. Esse perigo está presente lá.

PERGUNTA: Hoje mesmo, coincidentemente, o enviado ucraniano à ONU disse que os crimes cometidos pelos seguidores de Bandera foram forjados pela União Soviética. Com 9 de maio se aproximando, já se pode ver quem está hoje no poder. Podemos ter qualquer contato com eles?

VLADIMIR PUTIN: Temos de ter contato com todos, exceto com criminosos, mas, como eu já disse, nesse tipo de situação sempre há o risco de que eventos como esse tragam à tona gente com visão extremista. Isso, claro, tem consequências graves para o país.

PERGUNTA: O senhor disse que temos de fazer contato com todos. Parece que Yulia Timoshenko planeja visitar Moscovo

VLADIMIR PUTIN: Como você sabe, sempre trabalhamos proveitosamente com todos os diferentes governos ucranianos, não importa sua cor política. Trabalhamos com Leonid Kuchma e com [Viktor] Yushchenko. Quando fui primeiro-ministro, trabalhei com Timoshenko. Visitei-a na Ucrânia e ela veio à Rússia. Tivemos de lidar com situações diferentes no trabalho de administrar a economia de nossos respectivos países. Tivemos nossas diferenças, mas também alcançamos acordos. Foi trabalho construtivo. Se ela quer vir à Rússia, que venha. A situação é outra, agora que ela não é mais primeira-ministra. Virá a que título? Mas, pessoalmente, não tenho nenhuma intenção de impedi-la de vir à Rússia.

PERGUNTA: Uma pergunta rápida: quem, em sua opinião, está por trás do golpe, como o senhor diz, na Ucrânia?

VLADIMIR PUTIN: Como já disse, acho que foi ação longamente preparada. Houve destacamentos treinados para combate. Ainda estão lá, e todos vimos que trabalharam com eficiência. Seus instrutores ocidentais dedicaram-se ao trabalho, é claro. Mas esse não é o verdadeiro problema. Se o governo ucraniano estivesse forte, confiante, e tivesse construído um sistema estável, nenhum grupo nacionalista teria conseguido levar adiante aquele tipo de plano e programa, nem teriam chegado aos resultados que se vêem hoje.

O verdadeiro problema é que nenhum dos governo ucranianos anteriores deram a atenção devida às necessidades do povo. Cá na Rússia temos muitos problemas, muitos semelhantes aos da Ucrânia, embora não tão graves como na Ucrânia. A renda mensal média per capita na Rússia, por exemplo, é 29.700 rublos. Mas na Ucrânia, convertida em rublos, é de 11.900 rublos, quase três vezes menor que na Rússia. A aposentadoria média na Rússia é de 10,700 rublo; na Ucrânia, é de 5.500 rublos – metade da russa. Os veteranos russos da Grande Guerra Patriótica [IIª Guerra Mundial, no ocidente] recebem mensalmente quase o mesmo que o salário médio mensal dos trabalhadores. Em outras palavras, há diferença substancial nos padrões de vida. Nisso, sim, os vários governos dever-se-iam ter concentrado desde o começo. Sim, claro, tiveram de combater o crime, o nepotismo, as gangues e clãs, sobretudo na economia. O povo viu tudo isso e perdeu a confiança no governo em geral.

Isso continuou ao longo de várias gerações de modernos políticos ucranianos, que vêm e vão. E o resultado é o povo cada vez mais desapontado, querendo ver sistema novo e novas caras no poder. Essa é a fonte de combustível para os eventos que se veem na Ucrânia. Mas permitam-me repetir: uma mudança de poder, a julgar pela situação, era provavelmente necessária na Ucrânia, mas teria de acontecer por meios legítimos, respeitando, nunca violando, a actual Constituição.

PERGUNTA: Sr. Presidente, se a Crimeia fizer um referendo e o povo optar por separar-se da Ucrânia, quer dizer, se a maioria da população da região votar pela secessão, o senhor apoiará?

VLADIMIR PUTIN: O modo condicional não existe em política. Não esqueço essa regra.

PERGUNTA: Yanukovich está vivo? Houve rumores de que teria morrido.

VLADIMIR PUTIN: Estive com ele só uma vez, desde que chegou à Rússia. Aconteceu há dois dias. Estava vivo e bem, e deseja ao senhor uma longa e próspera vida. Ainda corre o risco de apanhar um resfriado no funeral dos que espalham boatos de que teria morrido.

PERGUNTA: Sr. Presidente, que erros, em sua opinião, Yanukovich teria cometido nos últimos meses, enquanto a situação se agravava na Ucrânia?

VLADIMIR PUTIN: Prefiro não responder essa pergunta, não porque não tenha opinião a expressa, mas porque me parece que não seria adequado. Vocês têm de entender, que, afinal…

PERGUNTA: O senhor tem simpatia por ele?

VLADIMIR PUTIN: Não, simpatia não, outros sentimentos. Quem esteja no governo carrega imensa responsabilidade como chefe de estado, têm direitos e também obrigações. Mas a maior obrigação é fazer acontecer o desejo do povo que o elegeu, agindo pela lei, conforme a lei. E temos de analisar também se ele fez tudo que a lei e os eleitores lhe deram poder para fazer. Analisem vocês mesmos e extraiam suas próprias conclusões.

PERGUNTA: Mas quais são os seus sentimentos? O senhor disse “simpatia, não, outros sentimentos”. Que sentimentos, exactamente?

VLADIMIR PUTIN: Conversamos depois.

PERGUNTA: Algumas questões antes, o senhor disse que temos de sinalizar claramente para o povo do sul e do sudeste da Ucrânia. O sudeste, sim, compreende-se. Mas…

VLADIMIR PUTIN: Temos de expor claramente nossa posição, de fato, para todos.

Temos que ser ouvidos por todo o povo da Ucrânia. Não temos inimigos, na Ucrânia. Já disse e repito, que a Ucrânia é país amigo. Sabem quantos vieram da Ucrânia para a Rússia, ano passado? 3,3 milhões de pessoas. Desses, quase 3 milhões vieram para a Rússia para trabalhar. Trabalham aqui – cerca de 3 milhões de pessoas. Sabem quanto dinheiro mandaram para casa, na Ucrânia, para sustentar a família? Calculem o salário médio, vezes 3 milhões. São biliões de dólares, uma contribuição importante para o PIB da Ucrânia. Não é brincadeira. São todos bem-vindos. E entre esses ucranianos que vêm trabalhar na Rússia, muitos são também do oeste da Ucrânia. Aos nossos olhos, são todos iguais, todos nossos irmãos.

PERGUNTA: Era exatamente o que eu queria perguntar. Estamos ouvindo muito sobre o sudeste da Ucrânia, atualmente, o que é compreensível, mas há russos étnicos e falantes de russo vivendo também no oeste da Ucrânia, e a situação deles é, provavelmente, ainda pior. Provavelmente não podem nem levantar a cabeça e são minoria muito rejeitada lá. O que a Rússia pode fazer por eles?

VLADIMIR PUTIN: Nossa posição é que, se o pessoal que hoje se diz governo tem esperança de ser considerado governo civilizado, eles terão da garantir a segurança de todos os cidadãos, não importa em que parte do país vivam. Nós, é claro, acompanharemos de perto essa situação. Muito obrigado.

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