REPUBLICA DIGITAL

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

PUTIN E IRÃO ALTERAM AS REGRAS DO JOGO

PUTIN E IRÃO ALTERAM AS REGRAS DO JOGO




Por F. William Engdahl


A dinâmica da política externa russa desde que os EUA têm forçado uma declaração de guerra efectiva por via de sanções económicas e financeiras contra a Rússia é impressionante para dizer no mínimo. Se vai ser suficiente para romper o cerco económico de Washington e abrir o caminho para uma verdadeira alternativa económica global para o falido sistema do dólar ainda não é claro. O que está claro é que Vladimir Putin e a facção dos barões industriais que decidiram apoiá-lo não estão encolhido com medo. O exemplo mais recente é a recente visita do ministro da defesa russo a Teerão, para fazer grandes acordos de cooperação militar com o Irão. As implicações para ambos os países, assim como para o futuro da Euroásia são potencialmente enormes.


A 20 de Janeiro, em Teerão, a Rússia e o Irão assinaram um acordo de cooperação militar. O Ministro da Defesa Russo, Sergei Shoigu e o Ministro da Defesa e da Logística das Forças Armadas Iraniano Hossein Dehghan assinaram um novo acordo. Comentando sobre o seu significado, Shoigu declarou: "Uma base teórica da cooperação no domínio militar foi criada." Ele acrescentou que os dois países chegaram a acordo sobre "a cooperação bilateral no que diz respeito a práticas e promoção de um aumento das capacidades militares das forças armadas dos nossos países". Os dois ministros também concordaram sobre "a importância da necessidade de desenvolver a cooperação entre a Rússia e o Irão na luta conjunta contra a intromissão nos assuntos da região de forças externas que não fazem parte do que foi esquematizado", declarou o Ministro da Defesa Iraniano Dehghan. Para se certificar de que ninguém confundiu o que ele quis dizer, ele acrescentou que a razão para o agravamento da situação da região era a política dos EUA que "interfere nos assuntos internos dos outros países".

A aproximação dos dois países euro-asiáticos, ambos banhados pelo estratégico Mar Cáspio, tem enormes implicações para a geopolítica global. A administração Obama tem tentado conquistar o Irão com uma vara (sanções económicas) e uma cenoura (promessa do levantamento das mesmas) uma forma ao longo dos últimos 18 meses para obter de Teerão um acordo de grandes concessões no seu programa nuclear. Até recentemente, apesar das sanções dos EUA por causa da Ucrânia, a Rússia estava disposta a mostrar "boa fé" a Washington, participando nas negociações sobre o nuclear dos 5-1 com o Irão para convencer Teerão a fazer grandes concessões sobre o seu programa nuclear, em que a Rússia construiu a única usina nuclear completa de Bushehr, a primeira no Médio Oriente. Essa fase está claramente terminada e nas mãos do Irão estão as negociações com os EUA, França, Alemanha, Reino Unido que acabarão de decidir sobre o reforço de mais sanções ou não.

O Irão, a Síria e as Guerras dos Oleodutos

Para Washington, a pressão nuclear é parte de uma tentativa de forçar o Irão a abandonar o seu aliado, Bashar al-Assad na Síria, a fim de abrir o caminho para o Qatar, um aliado próximo da Arábia Saudita e do local com o maior campo de gás natural do mundo situado no Golfo Pérsico. O Qatar, que tem sido o principal financiador dos terroristas do ISIS treinados pelos EUA e por Israel na Síria e no Iraque, quer agora exportar o seu gás para a UE, através da Síria e da Turquia.

O Irão, que detém a outra parte desse enorme campo de gás do Golfo Pérsico, o North Pars, nas suas águas marítimas, assinou um acordo estratégico sobre um oleoduto com Assad e o Iraque em Junho de 2011 para construir um novo gasoduto Irão-Iraque-Síria de 1500 quilómetros na sua parte do maior campo do mundo de gás que começa a partir de Asaluyeh, o porto iraniano perto do campo de gás do South Pars, para Damasco, na Síria. De lá, o gasoduto iria via Líbano para o leste do Mediterrâneo e para o enorme mercado de gás da UE. Chamaram-lhe o “Islamic Pipeline [Pipeline islâmico].”

O volume de gás do Irão seria modesto em comparação com o gasoduto original da Gazprom da Rússia, o  South Stream. Estima-se que 20 biliões de metros cúbicos por ano permaneceriam após as necessidades de consumo local (pré-guerra da Síria) a partir desse gasoduto Irão-Iraque-Síria, para a Europa, em comparação com os 63 biliões do South Stream.

O Qatar seria o perdedor. O Qatar, um país do Islão Sunita, que financia o ISIS (Estado Islâmico do Iraque e do Levante), bem como a Irmandade Muçulmana e outros tais Jihadists charmosos, não gosta da ideia. O Qatar aproximou-se de Assad em 2009, para lhe propor um gasoduto Qatar-Síria para a UE através da Turquia, mas foi imediatamente recusado. Assad disse que as suas relações com a Rússia e a Gazprom eram mais importantes. Foi justamente no momento da assinatura do Pipeline islâmico Irão-Iraque-Síria em Junho de 2011 que Washington, a Arábia Saudita e o Qatar decidiram lançar uma guerra em grande escala para derrubar Assad e substituí-lo por um regime sunita amigável do Qatar e Washington. Dificilmente seria uma coincidência.

Relações militares mais estreitas entre Irão e Rússia

Hoje, a Rússia de Putin e o Irão  são os dois aliados firmes de Assad na Síria, na sua guerra para livrar a Síria dos terroristas da ISIS treinados pelos EUA. No entanto, a colaboração entre Moscovo e Teerão tem sido cauteloso até agora.

Em 2010, quando ele era presidente responsável pela política externa e de defesa russa nos termos da Constituição, Dmitry Medvedev fez muitas acções conciliatórios para chegar ao "lado bom" de Washington. Essa era a época dos idiotas de Hillary Clinton do "reset" nas relações EUA-Rússia  após Putin então ter saído e Obama ter inaugurado a nova abordagem de uma "paz Democrata".

Uma das mais custosas decisões feitas por Medvedev foi a sua assinatura de um decreto presidencial em Setembro de 2010 para apoiar a proibição patrocinada pelos EUA das Nações Unidas sobre as vendas de todas as armas para o Irão como parte de sanções dos EUA contra o alegado programa de armas nucleares do Irão. Os custos da proibição russa às indústrias militares chegaram até aos US $ 13 biliões em vendas técnico-militares com o Irão ao longo dos últimos anos, de acordo com uma estimativa do Centro para Análise do Comércio de Armas Mundiais  (CAWAT).

O decreto de Medvedev proibiu todas as vendas militares da Rússia ao Irão e incluiu as transferências de armas para o Irão de fora das fronteiras da Rússia por aviões ou navios que operassem sob a bandeira do estado russo.

Medvedev também anulou retroactivamente as compras pré-pagas do Irão do sofisticado sistemas de mísseis russo S-300 Superfície-ar  SAM. O Irão então processou a Rosoboronexport do estado russo  no Tribunal de Conciliação e Arbitragem em Genebra da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

Até à data, a questão dos S-300 tem sido a principal discórdia entre Teerão e Moscovo. Agora, de acordo com um relatório na DebkaFile.com, um site supostamente ligado à inteligência de Israel, a Rússia concordou em não apenas entregar os sistemas de mísseis S-300 SAM que o Irão comprou em meados de 2007. A Rússia vai também entregar os sistemas de mísseis avançados S-400 ao Irão. Eles citam o Ministério da Defesa iraniano, "Os dois países decidiram resolver o problema dos S-300s." O coronel-general Leonid Ivashov, ex-funcionário do Ministério da Defesa russo, acrescentou: "Um passo foi dado na direcção da cooperação na área da economia e tecnologia militar, pelo menos para os tais sistemas defensivos como os S-300 e os S-400 ".

Especialistas militares dizem que os S-400 são muito superiores aos misseis Patriot PAC-3 dos EUA. Acredita-se ser o primeiro sistema no mundo que pode usar selectivamente vários tipos de mísseis, tanto os previamente desenvolvidos SAMs como os novos e únicos SAMs. São móveis, tornando-se de difícil detecção. Eles podem atingir bombardeiros estratégicos, como os B-1, FB-111 e os B-52H; Aviões de guerra electrónica, tais como os EF-111A e os EA-6; Aviões de reconhecimento, tais como os TR-1; Aviões com radar de pré-aviso como os E-3A e os E-2C; Caças como os F-15, F-16; Aviões de invisibilidade, como o B-2 e o F-117A; Mísseis de cruzeiro estratégicos como os Tomahawk; Os mísseis balísticos de alcance até 3,500 km.

Além disso, o mais colossal elefante branco em termos de armas do Pentágono, até à data, o Lockheed Martin F-35 Joint Strike Fighter (caça), não foi projectado para penetrar a cobertura dos sistemas S-300P/S-400. Oops ...

O F-35 norte americano é uma arma nuclear com capacidade de destruição em massa, suposto ser o "caça do futuro", quando foi iniciado em 2001 nos dias de Rumsfeld no Pentágono. É uma década perdida, 100% acima do orçamento, e deverá custar US 1,5 triliões de dólares ao longo da sua vida útil, dos quais US $ 400 biliões já foram gastos. Cortes sobre "sequestro"(retenção) na defesa no mandado de Obama levaram a faca aos planos dos F35 e a outros projecto grotescos do Pentágono há apenas dois anos. Agora, usando o ISIS na Síria e no Iraque e o "conflito" na Ucrânia com a Rússia, o mais recente orçamento de defesa de Obama pede para que se exceda em US 35 biliões na rubrica das reduções das distribuições retidas(?). As crises da Ucrânia e do ISIS parecem ter resgatado o complexo industrial militar dos EUA em cima da hora ...

Se o relatório DebkaFile sobre o sistema de mísseis S-400 ao Irão é verdadeiro, e que certamente parece ser, então, a geopolítica de toda a guerra entre a Administração Obama e a Rússia e o Irão e a Síria, e em breve a China, é realmente muito estúpida.

A batalha está a ser liderada pela falta de visão dos falcões em torno do presidente Obama, tal como a consultora da NSC, Susan Rice. Eles parecem incapazes de compreender as conexões entre os eventos, e são, portanto, por definição pessoas não inteligentes. Eles está a ser conduzidos pelo complexo industrial militar dos Estados Unidos, e de forma destacada pela Lockheed Martin, o principal contratante do desastroso F-35. Eles estão a ser conduzidos por uma Oligarquia muito rica e viciada no poder que de alguma forma, pensa que é a dono do mundo. Na verdade, como os recentes acontecimentos comprovam, eles estão a perder o mundo que eles achavam que controlavam pela sua própria estupidez. Alguns chamam-lhe a lei das consequências não intencionais.

F. William Engdahl é consultor e professor de risco estratégico, ele é formado em política na Universidade de Princeton e é um autor best-seller do petróleo e geopolítica, exclusivamente para a revista online “New Eastern Outlook”.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

LOBBY PRÓ-GUERRA DOS PRINCIPAIS BANQUEIROS NORTE-AMERICANOS EXIGE GUERRAS

LOBBY PRÓ-GUERRA DOS PRINCIPAIS BANQUEIROS NORTE-AMERICANOS EXIGE GUERRAS


"Tenho 80 anos. Nunca tive medo ao longo dos anos da Guerra Fria. Mas agora estou muito assustado". Isso é o que Stephen Lendman, investigador associado do Centro de Investigações de Globalização disse à Sputnik, numa entrevista exclusiva sobre os recentes desenvolvimentos relacionados com o conflito militar na Ucrânia.

Enquanto o "quarteto da Normandia" acordou em se reunir esta quarta-feira em Minsk, a fim de discutir possíveis formas de sair da escalada do conflito militar no leste da Ucrânia, Stephen Lendman prevê que os EUA não vão abrir mão da sua ideia de desencadear uma guerra em larga escala na região.

Seja qual for o partido político no poder, os democratas ou os republicanos, Washington sempre quer a guerra, não a paz, afirma ele. "Na época posterior a 11 de Setembro, não houve nem um único dia de paz. Inúmeras guerras têm sido travadas pelos EUA directamente e por mãos alheias. As forças especiais dos EUA (sicários treinados) operam de forma sigilosa e aberta em mais de 130 países, semeando perturbações".

'Não liguem para o que a Alemanha e a França dizem em público; vejam o que fazem'

Lendman diz que "Merkel e Hollande (Alemanha e França) são os principais membros da NATO, os pilares da aliança dominada pelos Estados Unidos". "Não liguem para o que a Alemanha e a França dizem em público; vejam o que fazem", aconselha. "Ao longo da crise ucraniana, (os líderes da Alemanha e França) não se têm atrevido a optar por uma via própria, contrária à de Washington… nem o britânico David Cameron tampouco".

"Tenho certeza que Merkel e Hollande tentam fazer com que Putin obedeça em grande parte à vontade de Washington; em outras palavras, não fazem nada para afrouxar o seu abraço asfixiante na Ucrânia, incluindo a aproximação das forças da NATO às fronteiras da Rússia".

Os EUA mantêm todo um império de bases aquarteladas em mais de 150 países, acrescenta, observando que a Rússia e a China são cercadas por cada vez maior número de bases norte-americanas, armadas, conforme o interlocutor da Sputnik, com "os chamados mísseis defensivos destinados a um objectivo ofensivo: atingir os pontos nevrálgicos" dos referidos países.

Washington quer eliminar todos os governos independentes e soberanos, afirma Lendman: "Substituí-los por governantes fantoches pró-ocidentais. A finalidade última da América é uma dominação global incontestável; sua vontade é atiçar guerras para lograr os seus objectivos".

'A paz é anatematizada. O lobby pró-guerra dos principais banqueiros norte-americanos exige guerras' 

O analista político enfatiza que as guerras são extremamente rentáveis. "O lobby pró-guerra dos principais banqueiros norte-americanos exige guerras. A paz é anatematizada por eles. Putin tem razão: A Rússia vem sendo alvejada por séculos, agora mais do que nunca desde o plano Barbarossa de Hitler".

Quanto ao papel que os EUA destinam à Rússia, Lendman prevê o seguinte.

"Washington quer saquear os recursos da Rússia", diz ele. "Submeter seu povo à exploração. Balcanizar o país, como a Jugoslávia, para facilitar o controle".

"A América depôs o governo legítimo da Ucrânia" dando um "golpe de Estado, o mais descarado na Europa desde a marcha de Mussolini sobre Roma, em 1922, com os bandidos neo-nazis mandando as coisas", destaca Lendman, ao referir-se aos eventos do Maidan 2014 e classificando o governo pós-Maidan como oclocrático. "A política de guerra está sendo feita em Washington".

"A CIA, o FBI e as forças especiais dos EUA infestam Kiev: altos funcionários dos EUA, como Joe Biden, John Kerry, Victoria Nuland e John Brennan, aparecem lá para dar ordens de prosseguir a ofensiva".

"Kiev transformou-se num ninho do "gangsterismo" fascista militante, que assassina os seus próprios cidadãos no Donbass por tão só eles quererem direitos democráticos livres da tirania ao modo de Kiev".

"Os militares de Kiev são uma força que actua em nome e por encargo dos Estados Unidos", continua Lendman. "Um observador disse que a América vai fazer a guerra até ao último ucraniano. O que está a acontecer é um pretexto para culpar Moscovo pelos horrendos crimes contra a paz, cometidos em parceria pelos Estados Unidos e Kiev".

'Putin vai continuar a fazer o que é melhor para a Rússia'

"Putin vai continuar a fazer o que é melhor para a Rússia, não para a América nem para outros países da NATO", assegura Lendman. No entanto, o analista vê com muito pavor o evoluir da situação.

"Washington tem tentado provocar um conflito contra a Rússia ao longo de todo o mandato de Putin".

Lendman diz que o Congresso dos EUA demoniza Putin servindo-se de quase qualquer pretexto, ao tempo que a média norte-americana se afundou até aos piores padrões da sua vida. Ele teme uma possível guerra, instigada pelos EUA contra a Rússia, e suspeita que uma operação de bandeira falsa em larga escala possa ser usada como justificação.

"Tenho 80 anos. Nunca tive medo ao longo dos anos da Guerra Fria. Mas agora estou muito assustado ", conclui.


In sputnik


PELA NÃO “APLICAÇÃO” DO “ACORDO ORTOGRÁFICO” DE 1990 AOS EXAMES NACIONAIS

PELA NÃO “APLICAÇÃO” DO “ACORDO ORTOGRÁFICO” DE 1990 AOS EXAMES NACIONAIS


Por Ivo Miguel Barroso

Os Professores, os Correctores dos exames, não podem ser compelidos a “aplicar” normas manifestamente inconstitucionais.

Excelentíssimo Senhor Professor Doutor NUNO CRATO,

M.I. Ministro da Educação,

1. O “Acordo Ortográfico” de 1990 (AO90) não é, em rigor, um “Acordo”, uma vez que, internamente, não tem consistência ao nível da “unificação” da ortografia, e, externamente, Angola e Moçambique não o ratificaram; não é “novo” (antes remonta aos Projectos do AO86, que, por seu turno, remonta ao Projecto de AO75, começado a ser preparado em 1971); e controversamente é “ortográfico”, devido às facultatividades irrestritas que consagra e aos pressupostos metodológicos desactualizados em que assenta (por exemplo, no que diz respeito à alegada aproximação da escrita à fala, a pretensa primazia da oralidade, quando, ao invés, a ortografia não é um conjunto de representações de sons; as “pronúncias” contingentes (nem sequer, em rigor, correspondentes à “fonética”); as discriminatórias “pronúncias cultas da língua”).

2. O modo como o prazo de transição foi antecipado pelo n.º 3 da Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011 para todo o sistema de ensino padece de graves inconstitucionalidades [1] (para o efeito, foi intentada uma acção judicial popular, por mais de 100 personalidades [2], para reposição e correcção de erros que o Governo teima em não reconhecer).

O AO90 é “um monumento de incompetência e ignorância” [3], um experimentalismo social no mínimo a-científico, executado sem quaisquer estudos prévios minimamente credíveis sobre o respectivo impacto e, ao que tudo indica, só poderá dar maus resultados.

Para demonstrar a afirmação, basta notar dois factos, entre muitos outros:

1) Os Pareceres, pedidos em 2005 pelo Instituto Camões, foram todos contra a ratificação do 2.º Protocolo Modificativo, que viria a suceder em 2008; 2) um ex-Presidente da Associação Portuguesa de Escritores e Livreiros, Administrador e Director Editorial do Grupo Porto Editora, o principal Grupo económico que está a imprimir os manuais escolares “acordizados”, foi sempre contra o AO90, pelo menos até Março de 2011, quando cedeu, face à posição de o Estado mandar implementar o AO90 no sistema de ensino a partir de Setembro desse ano de 2011 [4]).

3. O AO90, já de si, é mau [5].

Mas há pior: o Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), através do conversor Lince e “Vocabulário Ortográfico do Português”, e outros Linguistas em várias entidades públicas (por exemplo, na Imprensa Nacional – Casa da Moeda, editora do “Diário da República”) têm “executado” o AO90, com ampla redução das facultatividades permitidas.

Ora, esta é uma violação ostensiva quer da letra das inúmeras Bases do Anexo I, quer do espírito do Tratado do AO90, que prevêem facultatividades irrestritas. Os instrumentos oficiais e privados têm suprimido, “a torto e a direito”, as consoantes “c” e “p”; o que, ironia das ironias, faz com que os laços com os Países de Língua Oficial Portuguesa, incluindo o Brasil, sejam deslaçados, ficando Portugal com ortografia diferente da ortografia do Brasil!

Por outras palavras, a (alegada) “implementação” do AO90 desunifica a grafia “acordizada” de Portugal relativamente à do Brasil (v. g., “perspetiva”, por “perspectiva”).

Isto tem uma agravante injustificável a todos os títulos, uma vez que cria, a partir do nada, centenas de palavras novas, inexistentes nas ortografias do Brasil e de Portugal (“conceção”, por “concepção”; “contraceção”, por “contracepção”; “anticoncetivo”, por “anticonceptivo”; “receção”, por “recepção”; “perceção”, por “percepção”; “confeção”, por “confecção”).

Outras palavras têm dupla grafia no Brasil, sendo que as que têm consoantes etimológicas são mais frequentes: “perspectiva”, “respectivo”, “aspecto”. Ora, em Portugal, as consoantes “c” e “p” são cilindradas; com isso afastando a ortografia portuguesa da ortografia maioritariamente praticada no Português do Brasil.

O caos ortográfico grassa nos vários dicionários, correctores e conversores no que tange a outras regras arbitrárias e ilógicas, estranhas à nossa forma de pensar, e fonologia, quase impossíveis de decorar.

Só o peso de o AO90 ter sido imposto largamente pelo Estado, através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, de 25 de Janeiro (aprovada pelo 2.º Governo chefiado por JOSÉ SÓCRATES, a 4 meses do seu pedido de demissão; e que o XIX (actual) Governo Constitucional continuou a “aplicar”, de forma não devidamente explicada aos cidadãos, que não constava nem no Programa eleitoral do PSD e do CDS, nem no Programa de Governo, nem na fase inicial da governação [6]), a crise então gerada e a degradação das condições sócio-económicas com a aplicação do subsequente Programa de Assistência Económica e Financeira (2011-2014) permitiram a continuação do estado de coisas descrito; conjugação de factores aliada a circunstâncias adversas, tais como, no actual espectro partidário, as possibilidades de regressão terem sido recusadas devido ao autismo dos actores políticos; a “eficiência” a toda a prova dos “burocratas da língua”; a utilização da Informática em lugar do cérebro humano, virando-se a tecnologia contra o próprio homem [7]; a ignorância cultural de grande parte das elites políticas e tecnocratas; a inércia, a omissão e, até mesmo, a complacência dos “homens bons”.

4. Para além disso, as “aplicações” do AO90, com as entorses referidas (que vão ainda mais longe do que o Português do Brasil, que se rege pelo “Formulário” da Academia Brasileira de Letras de 1943, repristinado em 1955), afastam o Português europeu das principais euro-línguas românicas (como o Francês, em que a escrita está muito dissociada da via oral; o Castelhano, o Italiano, o Romeno) e germânicas, incluindo o Inglês, a língua de comunicação global por excelência actualmente, o que se estende ao domínio científico.

O Inglês, por sinal, tem imensos exemplos de consoantes (e também de vogais) totalmente não pronunciadas — as chamadas “silent letters” (ex., sem contar com o “h” inicial ou no meio da palavra, “dou(b)t” [8] (com raiz etimológica no verbo latino “dubitare”); “mus(c)le”; “forei(g)n”, “si(g)n”; “li(gh)t”, “fli(gh)t”, “bou(gh)t”, “thou(gh)”, “hei(gh)t”, “hi(gh)”, “wei(gh)t”, “throu(gh)”; “(k)now”, “(k)nee”; “ha(l)f”; as formas verbais recorrentes “cou(l)d”, “wou(l)d” e “shou(l)d”; “of(t)en”, “whis(t)le”; “(w)rite”, “(w)rong”).

Por outro lado, o Inglês, a par das outras Línguas referidas, mantém as consoantes etimológicas “c” e “p” em múltiplos lemas; por exemplo, “act”. Veja-se o caso de “acção”: do latim “actio, actionis”: “action” (Inglês), “action” (Francês”), “acción” (Castelhano), “azione” (Italiano); “actiune” (Romeno), “acció” (Catalão), “Aktion” (Alemão) (para mais desenvolvimentos, v. a excelente obra de FERNANDO PAULO BAPTISTA, Por amor à Língua Portuguesa, Piaget, Lisboa, 2014).

Assim se compreende a crescente dificuldade de os alunos portugueses aprenderem línguas estrangeiras.

Quereremos nós afastar-nos da civilização global e da identidade de matriz europeia?

Quereremos nós, por exemplo, em traduções de notícias, filmes, ouvir essas consoantes, claramente pronunciadas, mas, na tradução em “acordês”, aparecerem suprimidas? (ex., “exactly” – “exa[c]tamente”; “Egypt” – “Egi[p]to”).

5. Totalmente errado e mentecapto nos seus pressupostos pseudo-científicos, o AO90 não deve ser “aplicado” obrigatoriamente aos exames nacionais dos 4.º, 6.º, 9.º, 11.º e 12.º anos.

O AO90, imposto, implica normas acompanhadas de sanções a Professores que não o “apliquem”, por via do Direito disciplinar; e aos próprios discentes.

Ora, os alunos não podem ser cobaias e prejudicados, durante o tempo em que fazem o exame, por um “experimentalismo” social orwelliano, não testado e, ao que os Especialistas e o próprio senso comum indicam, cheio de ilogicidades, de regras e de pseudo-regras que ninguém consegue decorar nem sequer apreender.

Os Professores, os Correctores dos exames não podem ser compelidos a “aplicar” normas manifestamente inconstitucionais, por, entre outras razões:

1) Violarem o valor jurídico da estabilidade ortográfica, que só o Português padrão, costumeiro e sedimentado, pode assegurar (e não o caos ortográfico que grassa nas instituições estaduais e nas que tentam “aplicar” o AO90), refracção do princípio da segurança jurídico-linguística, que é um princípio ínsito ao Estado de Direito (art. 2.º da Constituição da República Portuguesa (CRP));

2) O n.º 3 da Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011 apõe restrições inconstitucionais à liberdade de expressão escrita (cfr. artigo 37.º, ns. 1 e 2, da CRP), ao direito à língua (cfr. artigo 11.º, n.º 3, da CRP), à liberdade de aprender (artigo 43.º, n.º 1); o direito à educação sem erros ortográficos oficializados; restrições essas que, desde logo, são organicamente inconstitucionais, uma vez que foram emitidos pelo Governo-administrador, e não pela Assembleia da República (artigo 165.º, n.º 1, al. b); se é que tal não diz respeito ao próprio artigo 164.º, alínea i), da CRP); ou, caso se entenda que se trata do desenvolvimento legislativo integral, e não das “bases” do regime jurídico do Ensino até ao 12.º ano, pelo Governo-legislador, através de decreto-lei autorizado.

É evidente que, estando os alunos preocupados com a ortografia, isso prejudicá-los-ia na expressão dos conteúdos, no tempo limitado de uma prova de exame;

3) Violarem o artigo 43.º, n.º 2, da CRP, que proíbe a programação estadual na educação e da cultura segundo “quaisquer directrizes (…) estéticas, políticas, ideológicas”;

4) O património cultural da Língua Portuguesa no seu todo, que redunda estropiado e desfigurado em termos identitários nacionais, em particular na desagregação do costume ortográfico da variante do Português europeu (cfr. arts. 78.º, ns 1 e 2, al. c), da CRP).

6. Acresce que, segundo os estudos de opinião existentes, a esmagadora maioria dos Portugueses é contra o AO90: entre dois terços e 94% dos Portugueses (veja-se o inquérito esmagador, disponível no facebook: 62.647 totalmente contra o AO90; 7.515 contra; 2.571 a favor; 1276 totalmente a favor).

7. O Estado não pode praticar actos levianos, lesivos dos direitos dos cidadãos, em exames nacionais tão importantes para a vida dos alunos e das suas famílias.

Esta importância é ainda mais acrescida nos exames do 12.º ano, que dão acesso directo ao Ensino Superior universitário.

8. Em defesa da consistência de critérios utilizados nos exames, solicitamos, ao abrigo do direito de petição, a Vossa Excelência, como responsável pelos destinos do nosso País, que revogue ou que, no mínimo, suspenda de imediato o número 3 da Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011 (regulamento administrativo independente emitido pelo Governo, ao abrigo da função administrativa, que enferma de inúmeras inconstitucionalidades orgânicas, formais e materiais [9] no seu todo, bem como as normas extraídas dos números 1, 2, 3 e 6; bem como as inconstitucionalidades das “Informações” do Ministério da Educação, emitidas em Fevereiro e Setembro de 2011, que tornaram o AO90 obrigatório nos exames nacionais realizados no ano lectivo de 2014/2015 (esperamos que essas inconstitucionalidades venham a ser dirimidas nas instâncias judiciais competentes, mediante acções de por parte dos cidadãos [10], designadamente na acção judicial popular intentada no Supremo Tribunal Administrativo, processo 897/2014).

A Língua Portuguesa, a legalidade democrática, o superior interesse dos alunos assim o exigem.



Nota – Junte-se a nós no Facebook; adira aos Grupos anti-AO90, designadamente ao GrupoCidadãos contra o “Acordo Ortográfico” de 1990”, e conheça os desenvolvimentos da acção judicial popular intentada contra a “aplicação” do AO90 no sistema de ensino; ao Grupo “Professores contra o Acordo Ortográfico; e à Página “Tradutores contra o Acordo Ortográfico”.



[1] V. o resumo em IVO MIGUEL BARROSO / FRANCISCO RODRIGUES ROCHA, Guia jurídico contra o “Acordo Ortográfico” de 1990. Fundamentação jurídica relativa às inconstitucionalidades do “Acordo Ortográfico” de 1990; da Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, de 25 de Janeiro; do conversor “Lince” e do “Vocabulário Ortográfico do Português”; e diplomas neles baseados, 19 de Novembro de 2014, disponível para descarga.

[2] V. notícia do Público .

[3] ANTÓNIO EMILIANO, Apologia do desacordo ortográfico Textos de Intervenção em Defesa da Língua Portuguesa contra o Acordo Ortográfico de 1990, Verbo/Babel, Lisboa, 2010, pgs. 81, 172, 34, cfr. IDEM, O fim da ortografia. Comentário razoado dos fundamentos técnicos do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990), Guimarães Editores, Lisboa, 2008, pg. 102.


Alguns “acordistas” reconheceram isso mesmo.

Por exemplo, EVANILDO BECHARA, defensor do AO90 no Brasil, admitiu que “O Acordo Ortográfico [de 1990] não tem condições para servir de base a uma proposta normativa, contendo imprecisões, erros e ambiguidades” (declaração proferida durante o 3.º Encontro Açoriano da Lusofonia, realizado entre 8 e 11 de Maio de 2008).

[4] V. Eng.º VASCO TEIXEIRA:

"As razões que sustentam a minha posição [contra o AO90] foram por demais conhecidas e divulgadas ao longo das quase duas décadas de luta contra o que apelidei, recorrentemente, de “malfadado acordo” e de “desacordo”.

“O Grupo Porto Editora, bem como a generalidade dos editores portugueses, contestou o Acordo Ortográfico desde que ele foi assinado a 16 de [D]ezembro de 1990. Durante todos esses anos, fomos voz a[c]tiva contra o AO, desenvolvendo iniciativas que provavam o erro estratégico que a implementação deste AO representaria para a afirmação da nossa língua num mundo globalizado;

Sempre defendi que o Acordo Ortográfico não resolveria as diferenças entre as grafias usadas em Portugal e no Brasil, e sempre afirmei que se estava a descurar a ligação linguística e cultural com os demais países lusófonos, em especial os africanos” (VASCO TEIXEIRA, Em desAcordo desde 1990, in Público “on line”, 22 de Abril de 2013.

[5] V. IVO MIGUEL BARROSO, Acordo Ortográfico: nunca é tarde para corrigir um erro, in Público, 26 de Fevereiro de 2014.

[6] V. Resolução do Conselho de Ministros n.º 29/2011, de 11 de Julho, cujo Anexo II republicou as “Regras de legística na elaboração de actos normativos”.

Ora, entre essas Regras, consta a seguinte:

“O nível de língua a utilizar deve corresponder ao português não marcado produzido pelos falantes escolarizados, designado português padrão.” (artigo 14.º, n.º 2); ou seja, ao Português costumeiro, pré-AO90.

[7] V. IVO MIGUEL BARROSO, Conversor ortográfico Lince: uma estranha forma de estar na vida pública portuguesa, in Público “on line”, 28 de Junho de 2014.

[8] V. GINA COOKE, Why is there a “b” in doubt .

[9] Para mais desenvolvimentos, v. IVO MIGUEL BARROSO / FRANCISCO RODRIGUES ROCHA, Guia jurídico contra o “Acordo Ortográfico” de 1990. Fundamentação jurídica relativa às inconstitucionalidades do “Acordo Ortográfico” de 1990; da Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, de 25 de Janeiro; do conversor “Lince” e do “Vocabulário Ortográfico do Português”; e diplomas neles baseados, pgs. 20-99.[10] V. IVO MIGUEL BARROSO, Nota prévia, in Guia jurídico contra o “Acordo Ortográfico” de 1990, IVO MIGUEL BARROSO / FRANCISCO RODRIGUES ROCHA.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

EXÉRCITO UCRANIANO SAI DE DEBALTSEVE NO LESTE DA UCRÂNIA

EXÉRCITO UCRANIANO SAI DE DEBALTSEVE NO LESTE DA UCRÂNIA



Após a entrada em vigor no dia 15 de Fevereiro, conforme o acordado pelos mediadores internacionais durante as conversações em Minsk, confrontos entre forças de Kiev e defensores da independência da Ucrânia continuaram em Debaltseve (Donetsk). A evacuação de civis começou em Debaltseve a 6 de Fevereiro, mas a operação foi repetidamente adiada devido aos bombardeamentos continuados sobre a cidade.

Nesta quarta-feira, o presidente ucraniano, Petro Poroshenko anunciou que as tropas do governo foram retirados do centro de transporte estratégico de Debaltseve no leste da Ucrânia, onde cerca de 5.000 soldados foram cercados por independentistas.

No entanto é de facto alarmante saber das recentes declarações de várias autoridades norte-americanas que prometeram enviar armas letais para a Ucrânia. Isso só iria agravar o conflito e aumentar o número de mortos, além de violar os acordos em Minsk.

Os Estados Unidos pressionam em particular os governos europeus para continuar a guerra, mas os europeus não estão interessados numa guerra na Europa e têm-se recusado a armar até agora a Ucrânia, eles sabem que serão igualmente afectados pelo conflito bem mais que os EUA.

É difícil encontrar exemplos recentes em que os Estados Unidos após derrubarem regimes, voltam em seguida a deixar esse país em melhor situação.

O que está acontecer na Ucrânia é uma guerra civil cruel em que as próprias populações são bombardeadas. Trata-se de uma guerra por procuração, quando falamos de "separatistas pró-russos" na Ucrânia oriental ou de um "governo pró-americano", em Kiev, "pro-russo" não significa "russo", nem "pró-americano" significa "americano". É exacto que existem russos e americanos na Ucrânia, mas se se enviar armas letais para lá o principal resultado será mais desastroso para os ucranianos matando-os uns aos outros.

Várias fontes


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A GUERRA DA PENÍNSULA ARÁBICA COMEÇA PELO IÉMENE

A GUERRA DA PENÍNSULA ARÁBICA COMEÇA PELO IÉMENE


Por Ivan Yakovyna

Na semana passada, ficou bem claro que no Médio Oriente está quase garantida uma outra guerra em grande escala, o campo de batalha desta vez é no Iémene.

Nos últimos meses, este país está de facto, dividido em várias partes em conflito, cada um dos quais de forma independente o que pode ser um grande problema para a comunidade Internacional. Juntos, eles formam um cocktail de diferentes tipos de extremismo selectivo, a anarquia, a pobreza extrema e o genocídio em potencial na qual o mundo agarrou a sua cabeça, sem saber de que forma pode resolver esta situação.

Iémene - a maioria da população (27 milhões de pessoas) - é o país mais pobre da Península Arábica. Beber água potável no sudoeste do deserto da Arábia é muito difícil, alimentos quase não existem, as reservas de petróleo são muito pequenas, a indústria e os serviços estão praticamente ausentes. Neste caso, o Iémene é dividido entre tribos semi-selvagens e os seus sindicatos estão em hostilidade constante, o que em grande parte se deve ao facto de que quase todos os adultos do sexo masculino terem uma arma de fogo.

As dificuldades do dia a dia, por algum motivo só estimulam o aumento da reprodução elevada da população do país. Os demógrafos prevêem que, a fertilidade de 4,8 filhos por mulher na população do país será duplicada até 2025. O que se pode oferecer para comer e beber a mais outros 27 milhões de pessoas, quando hoje a vida já não é fácil - um grande mistério, que, no entanto, não reflecte as características locais.

Seja o que for, a actual falta de recursos faz com que as associações tribais e religiosos passassem o tempo em exercícios de aniquilação mútua. Agora, a vitória pertence aos chamados Hutis - tribos do norte do país, maioritariamente xiitas. As suas tropas capturaram todo o norte e a capital - Sanaa,onde o presidente foi deposto. Agora tentam estabelecer de alguma forma a vida por lá, mas sem muito sucesso.

As embaixadas de quase todos os países europeus e árabes foram evacuadas por medo de que os Hutis, tendo tomado a autoridade, possa implementar o seu programa sanguinário baseado no ódio ao Ocidente em geral e aos EUA e Israel em particular. Até agora, no entanto, nenhum dos "inimigos" foi ferido. Os observadores atribuem a isso a um défice de conhecimento óbvio dos Hutis na geografia e na antropologia: devido à quase total falta de escolas, apenas um décimo deles pode indicar aproximadamente a localização dos Estados Unidos no mapa. Israel para eles - será mesmo um país semi mítico, e um judeu para eles é visto em termos gerais.

No entanto, a chegada ao poder dos Hutis provocou receio nos seus vizinhos (em primeiro lugar na Arábia Saudita) e no Ocidente (principalmente nos EUA). A questão aqui não é tanto em si os Hutis, mas nas consequências que podem resultar do seu sucesso.

Agora sob o controle das novas autoridades estão quase todas as áreas que antes eram do Iémene do Norte. Mais a sul, vão, acreditando que nas regiões sunitas do país podem surgir problemas como o movimento de guerrilha ou desobediência de pessoas em massa.

Nesta situação, o Iémene do Sul, onde está localizado o centro administrativo do porto de Aden, de facto, tem sido empurrado para a luta pela independência. À primeira vista, não é assim tão mau: a separação formal entre o norte e o sul dá uma possibilidade de momento para parar a guerra civil, e em vez de uma fragmentação feudal geral e anarquia seria uma solução de dois estados, que poderiam ser tratadas desta forma.

Mas há um grande problema: o sul do Iémene também já está dividido em várias regiões, cada uma das quais é comandada por diferentes pessoas: líderes tribais, generais que acabaram com o exército iemenita, bem como os velhos amigos dos americanos e dos sauditas - os líderes locais da al-Qaeda.

A última questão é das principais preocupações da comunidade internacional. Numa situação semelhante, o colapso das instituições formais no Iraque ocidental e da Síria oriental são os extremistas islâmicos que rapidamente tomaram o poder, e incorporaram as tribos locais e pequenos grupos, e os restos do exército de Saddam Hussein. O resultado dessa integração foi notável, o Estado Islâmico (Califado, ou - como algo mais do que isso) - a principal dor de cabeça e o pesadelo em curso no mundo civilizado.
 

Os radicais rapidamente expandiram a sua esfera de influência para os outros países árabes. A recente execução em massa de coptas egípcios na Líbia é uma prova evidente disso. Portanto, nem os Estados Unidos nem mesmo a Arábia Saudita querem que o Califado se espalhe para todo o Iémene do Sul. Do ponto de vista de Riade e Washington, o Iémene deve estar unido, ser secular e leal a eles através do estado, sem Hutis ou radicais islâmicos instalados no poder.

Particularmente preocupados estão os sauditas que não estão satisfeitos com um Califado do tipo sírio-iraquiano no norte e no sul do Iémene. Nesta situação é bastante claro para onde toda a atenção está voltada ou seja para ambos os estados islâmicos - o Reino Saudita glorioso, o berço do Islão e os santuários guardiões de Meca e Medina. Deve entender-se que a população da Arábia (cerca de 30 milhões de pessoas) aproximadamente da dimensão igual à população de Iémene do Sul, mais os ainda territórios sob o controle do "norte", o Califado iraquiano-sírio. Apesar da superioridade de Riade em termos de equipamento militar, o poder pode ser comparável. Além disso, na Arábia Saudita existem muitos fanáticos que sonham em reconstruir um do Califado e derrubar a família real Al-Saud mergulhada em corrupção e luxo.

Soldados sauditas em breve terão a oportunidade de demonstrar eficiência no campo de batalha

É por isso que na Arábia Saudita se está a olhar para os acontecimentos no Iémene com particular atenção, exigindo da ONU uma intervir imediatamente sobre o que está a acontecer, para expulsar os Hutis de Sanaa e restaurar o velho, poder secular. Se a comunidade internacional se recusar a ajudar (e vai naturalmente, recusar), Riade tem ameaçado resolver o problema no Conselho da Cooperação do Golfo - Clube Árabe das monarquias petrolíferas.

Em 2011, a força dessa associação têm sido usados ​​para reprimir o levantamento xiita contra a monarquia sunita do Bahrein. No entanto, quando as tropas de intervenção (maioritariamente da Arábia Saudita) lidaram com grupos separatistas, estes eram manifestantes desarmados, mas neste caso trata-se de um exército bem preparado a partir da comunidade local, em que o resultado desse confronto é muito difícil de prever. É possível que os sauditas possam ser apanhados de surpresa no Iémene, como o exército soviético na altura foi apanhado no Afeganistão.

Nesta situação, a atenção está voltada para o facto de que os sauditas vão lutar não contra a Al-Qaeda, mas contra os seus inimigos - os Hutis. Se o Islão não proibir o álcool, os edificadores do Califado iemenita, iraquiano e sírio poderão abrir uma garrafa de champanhe para aprender com a decisão de Riade. A Arábia Saudita sozinha irá começar uma longa guerra com resultados imprevisíveis, o que, naturalmente, não contribui para a estabilidade do reino.

Ou seja desequilibrando esta estabilidade, a guerra, irá provocar agitação para a tomada do poder em Riade - o sonho acalentado da al-Qaeda e do Califado. Na verdade, para o bem da sua execução eles vivem, lutam e morrem.


sábado, 7 de fevereiro de 2015

"UMA BOMBA PRESTES A EXPLODIR NA UE": GRÉCIA PLANEIA SAIR DA NATO

"UMA BOMBA PRESTES A EXPLODIR NA UE": GRÉCIA PLANEIA SAIR DA NATO



O novo primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, tem um plano secreto que tem a ver com a saída da Grécia da Aliança do Atlântico Norte (NATO), o que mudaria o curso de jogo geopolítico internacional, diz imprensa italiana.

Segundo o jornal 'Il Giornale' entre os programas do Syriza encontra-se "uma bomba pronta a explodir no cenário geopolítico internacional", devido ao encerramento de "todas as bases militares estrangeiras na Grécia e ao abandono da NATO".

"A decisão grega para dizer adeus à Aliança terá muitas repercussões no plano internacional. As bases da NATO estabelecidas em território grego são de grande importância militar e estratégica" para a Organização, e "Atenas é o seu parceiro-chave na região do Mediterrâneo" , disse o jornal.

No caso de Tsipras concretizar este plano, é provável "que acabaremos por ter uma pequena Cuba às portas de nossa casa", acrescentou o diário. Mas o programa Syriza também incluiria outras "medidas de maior risco", tais como a retirada das tropas gregas do Afeganistão e nos Balcãs, a abolição dos acordos de cooperação militar com Israel e o apoio à criação de um Estado palestino respeitando os limites de 1967.

"Em poucas palavras todos estes movimentos mostram um desejo de Atenas de se distanciar das políticas do Ocidente. Em paralelo vai nascer uma nova área de cooperação entre a "Grécia e a Rússia", conclui o jornal.

Fonte: RT.com

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

SERÁ NECESSÁRIO PROLONGAR AINDA MAIS ESTA AMARGA EXPERIÊNCIA ?

SERÁ NECESSÁRIO PROLONGAR AINDA MAIS ESTA AMARGA EXPERIÊNCIA ?


Por Rui Valente 
Em 2014 o Acordo Ortográfico continuou a ser imposto à força pelo Governo. Chegámos, assim, a novos patamares na iliteracia a que o país parece votado.

A recente série de artigos no “site” da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico não deixa margem para dúvidas: ficional, contatar, elítico, autótone, convição, impatante, sujacente, critografia, interrutor, Netuno, otometria, gravidez etópica, artefato, otogenário, fricionar, abrutamente, proveta idade, ácido lático, encritação, espetável, números fratais, ténica, plânton, conetar, trítico, inteletual, conveção, batericida, egício, etc, etc.

Esta torrente, que continua, desmonta as desculpas habituais: “foi uma gralha, é um caso pontual, não há constrangimentos, está tudo bem”. São milhares de erros que não existiam antes do AO, provenientes de fontes tão insuspeitas como o Diário da República, teses de doutoramento, bulas medicinais e rodapés de programas de televisão.

Primeiro veio a TLEBS, fazendo tábua rasa de conceitos e de uma nomenclatura centenária, comum a dezenas de Línguas e inviabilizando a troca de conhecimentos entre pais e filhos. Com o AO, chegámos ao reino das facultatividades e do “escreve-se como se diz”.

Bem podemos (fingir) decidir “nunca” utilizar o AO. Mas temos mesmo de o utilizar, quando lemos. O AO entra-nos pelos olhos dentro. E faz doer a vista. Em poucos anos, o AO conseguiu a proeza de instituir o folclore das ementas de restaurante.

Já se sabia que o AO não traduz uma evolução da Língua. A Língua evolui e sempre evoluirá, mas essa evolução reflecte-se no vocabulário. Pouco ou nada tem que ver com ortografia (pelo contrário, uma mudança artificial na ortografia, como é o caso, afecta claramente a pronúncia). Agora sabemos também que a suposta “simplificação” não existe; ao invés, cria um verdadeiro caos ortográfico.

De resto, o AO sempre foi uma miragem — não é possível unificar regras ortográficas quando pt-PT e pt-BR já levam mais de cem anos de divergência. Mas Cavaco Silva ia ao Brasil em visita oficial, era preciso dar algum colorido à agenda mediática da viagem. E assim se imolou uma norma elegante, coerente e, principalmente, estável como é a de 45, substituindo-a por um conjunto de arbitrariedades. Alguém acha que a Língua Portuguesa ficou melhor, enquanto instrumento de comunicação e de raciocínio?

Em 2015 entrámos no último ano do período de transição. Será necessário prolongar ainda mais esta amarga experiência? Não me parece. Até porque, reconheça-se, no AO nada funcionou. Se, a nível interno é o caos, no plano internacional as coisas não estão melhor: Angola e Moçambique continuam sem ratificar o Acordo e Angola poderá mesmo criar a sua própria norma, como já se escreveu no Jornal de Angola. O Brasil, por seu turno, pondera abandonar o Acordo em favor de alterações ainda mais radicais.

Perante este cenário alucinante, ocorre perguntar: para que serve o Acordo?

É certo que estamos em plena crise. O Acordo Ortográfico parece um mal menor no meio das dificuldades que atravessamos. No entanto, se há um caso emblemático, em que é imperioso dizer “basta!”, é este. A crise leva-nos à ruína, mas o AO distorce a nossa identidade, alienando um património histórico e cultural precioso.

Não posso, portanto, deixar de felicitar o Jornal da FENPROF pela sua decisão de não deixar cair o assunto. Foi também em 2014 que a Associação Portuguesa de Tradutores recuou na decisão de adoptar o AO. No ano anterior tinha sido a Sociedade Portuguesa de Autores. Não admira: autores e tradutores são das classes mais afectadas pelo AO.

Os professores são, também eles, uma classe altamente prejudicada pelo AO. Não só porque “ensiná-lo” é um atentado à nossa cultura, mas também porque muitos professores se sentem perseguidos e intimidados por continuarem a utilizar a grafia de 45 — um direito que lhes assiste, mesmo à luz do próprio AO.

Esperemos que em 2015 seja a vez da própria FENPROF dizer: já chega! O desafio aqui fica.

Artigo publicado nas páginas 26/27 do Jornal da FENPROF, edição de Janeiro de 2015.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

ESPANHA PEDE À ONU TERRITÓRIO PORTUGUÊS

ESPANHA PEDE À ONU TERRITÓRIO PORTUGUÊS






A Espanha apresentou à Organização das Nações Unidas (ONU) um proposta para acrescentar quase 300 mil quilómetros quadrados ao seu território marítimo. Um plano que inclui o território português das Ilhas Selvagens – visitadas por Cavaco Silva em Julho de 2013 e que administrativamente pertencem a uma freguesia da Madeira – e uma aérea também reivindicada num semelhante pedido português de expansão territorial.

“É a maior ampliação de soberania desde Cristóvão Colombo”, disse ao El País Luis Somoza Losada, líder da equipa espanhola encarregada de redigir o plano apresentado à ONU a 17 de Dezembro. Madrid, à semelhança do que havia ido feito por Portugal em 2009, aproveita assim a norma da ONU sobre os Direitos do Mar para ampliar a sua zona económica exclusiva de 200 para 350 milhas desde as fronteiras terrestres.

Segundo o diário espanhol, são cerca de 10 mil os quilómetros quadrados incluídos no plano que também são reclamados por Portugal. Parte deles, as ilhas selvagens, já fazem parte do território português, mas o novo plano espanhol abre uma nova disputa, na zona marítima situada a Oeste da Madeira.

O responsável pelo plano espanhol antecipa que o problema será resolvido com negociações bilaterais, que poderão levar à divisão dos territórios disputados. Previsão semelhante à de uma investigadora portuguesa do Centro de Estudos Jurídicos Económicos e Ambientais citada no mesmo artigo do El País.

Os espanhóis assumem ainda que o plano tem como objectivo a “exploração dos recursos naturais” das áreas pretendidas. Somoza Losada diz que a existência de gás na região é certa, faltando saber se é “rentável extrai-lo”. “Também pode haver petróleo”, diz o coordenador de uma equipa de sete civis e seis militares formada pelo Governo espanhol para desenvolver o plano.

In Jornal Sol

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O ACORDO ENTRE A RÚSSIA E A TURQUIA SOBRE O GÁS PODE SALVAR A EUROPA E O MUNDO ?

O ACORDO ENTRE A RÚSSIA E A TURQUIA SOBRE O GÁS PODE SALVAR A EUROPA E O MUNDO ?

Mas todas estas aventuras emocionantes no capitalismo não vai significar muito numa terra povoada principalmente por baratas, alimentando-se de bactérias altamente adaptáveis. A conclusão que podemos tirar de tudo isso é que há uma Rússia que está a pensar no longo prazo, e questões como a estabilidade são mais importantes do que as flutuações trimestrais. Ela está empenhada em construir um mundo multi-polar que irá salvar o mundo do império norte-americano, salvar a Europa dela mesmo, e permitir que haja condições de soberania e desenvolvimento em regiões inteiras como os Balcãs, Médio Oriente, África, Ásia e América Latina.

Por Joaquin Flores

O estatuto de South Stream e o recém-anunciado acordo sobre o gás entre a Rússia e a Turquia    é muito mais do que parece. É principalmente sobre colocar um fim sobre o que tem sido lentamente o desenvolver para a próxima guerra mundial.

Este novo acordo também pode representar um sério ponto culminante entre russos, chineses e iranianos num esforços para realinhar toda a "largura de banda" entre o mar Adriático e a Índia. Isto tem implicações não só para a UE, Bulgária e Turquia, mas também para a Síria, Egipto, Israel, Irão, China e grande parte da América Latina. Os seus efeitos vão muito para além do âmbito do presente relatório, e inclui guerras cambiais e alianças militares.

Por essa razão, o rumo dos acontecimentos pode ser enorme, e o ponto culminante do sucesso que o Iraque, Irão e Síria tiveram, com os seus aliados, em reverter o ISIS. Além disso, este vem no seguimento das grandes mudanças no Egipto, que viu o principal aliado da Turquia na guerra contra a Síria removido. Isto também representa um grande renascimento do esforço russo para construir uma rota alternativa para a linha que atravessa a Ucrânia. Essa linha tem sido alvo de inúmeros problemas porque os ucranianos tinham sido parceiros difíceis. O recente surto de hostilidades dentro da Ucrânia fez-lhes um parceiro ainda menos confiável, empurrando a necessidade de acelerar o processo de uma via alternativa de gás russo em alta velocidade.

Vamos começar com a realidade tal como ela foi apresentada. A 1 de Dezembro, a Rússia declarou ao mundo que tinha abandonado o projecto do South Stream porque a União Europeia tinha decidido que não o queria.

Pode-se dizer isto à UE por ter decidido simplesmente colocar muitas barreiras ao projecto, principalmente em torno de dois factores.




O primeiro factor foi uma restrição colocada ao projecto pelo Terceiro Pacote Energético (TEP), que foi aprovada na UE em 2009. Isso foi feito muito depois de o projecto South Stream ter sido proposto em 2007, e da tentativa de acordo já ter sido assinada. Esta alteração das condições após o facto significa que a Rússia não revogou todos os seus compromissos, sejam morais ou legais. Isso é importante no contexto de outros numerosos e importantes parceiros comerciais e estratégicos da Rússia, tanto na região e como no mundo. Ninguém vai ver a Rússia a descomprometer-se com os acordos que faz.

Na verdade, a Rússia mostrou tanto boa fé como diligências em todas as esferas do processo das negociações e construção do South Stream. Os termos iniciais do South Stream foram realizados em condições prévias para a última rodada de restrições colocadas sobre a Rússia, em cima do Terceiro Pacote Energético. Em outras considerações, como a evolução do projecto, alguns elementos do TEP foram interpretados de uma forma que ainda fez o South Stream um projeto viável. Isto significa que os signatários do acordo provisório do South Stream não podem realizar de forma retroactiva responsabilidades ​​por restrições mais recentes para a execução ou funcionalidade do referido acordo, que eram imprevisíveis no momento do acordo. Como o acordo evoluiu ao longo do tempo, a maneira pela qual as restrições impostas pela TEP foram interpretadas, também figuraram em todo o projecto.

O segundo factor é que a Bulgária tinha estado sob extraordinária pressão para estar de acordo com os ditames da UE nesta arena. A relutância búlgara em cedência aos ditames da UE foi entendida por Putin, e que se reflete nas palavras exactas que foram usadas para descrever o falhanço da parte búlgara. De um modo geral, a culpa foi colocada sobre a UE por pressionar a Bulgária. Ao nível da diplomacia, isto coloca definitivamente de fora os búlgaros, que esta análise irá descrever brevemente. Ao mesmo tempo, dada a forma como o poder é popularmente entendido, o Governo búlgaro é composto por búlgaros - que na sua maioria queriam este projecto por uma série de razões óbvias - como primeiros responsáveis. Os búlgaros também estavam a pensar que tinham uma opção que lhe foi retirada para longe deles com este acordo russo-turco. Isso também irá constar no âmbito das coisas que irão vir, e que aqui vamos descrever.

Várias agências de notícias em todo o mundo publicaram títulos simples que Putin havia cancelado o South-Stream. Algumas agências de análise e grupos viram isso como uma demonstração de fraqueza da Rússia, e outros da força russa. No balanço, só de olhar para as títulos como totalmente descritivos, podemos determinar que a Rússia tem agido sem o uso da força. Eles, na verdade, deixam espaço para uma flexibilidade, e têm dado a entender condições de exequibilidade.

Somos justificados ao dizer isto por três razões principais.

A primeira é que Putin fez a declaração, não foi feita pela Europa ou para ele por outros. Isso significa que ele não estava a responder a uma pergunta ou a uma circunstância imprevista, mas este foi um pronunciamento calculado e feito num momento à sua escolha. As palavras foram escolhidas com muito cuidado. A suas palavras exactas devem ser examinadas.

"Tendo em conta o facto de que ainda não recebemos a permissão da Bulgária, nós pensamos que a Rússia em tais condições não pode continuar este projecto,"

Ele continuou, "Se a Europa não quer realiza-lo, então isso significa que ele não será realizado. Vamos redireccionar o fluxo dos nossos recursos energéticos para outras regiões do mundo ".

A primeira cláusula da primeira citação, usa a palavra 'ainda'. Palavras alternativas que eliminariam qualquer espaço para a consideração teria sido 'Tendo em conta o facto de que nunca irá receber a permissão da Bulgária. "

A fim de esclarecer a natureza aberta que aqui é comunicada, ele diz que "em tais condições". Isto é, sob estas condições, mas não outras condições. Em outras condições, logicamente se segue, talvez algo que é possível. Mas, também, talvez não.

Na segunda citação, ele usa a palavra 'Se'. Não 'Desde', ou 'Porque', mas 'Se'. Em suma, "se" eles não querem realizar isso, isso não será realizado. Se eles querem isso realizado, então talvez isso possa ser realizado. Ou não.

O gás natural liquefeito (GNL) no terminal de importação de Marmara
Ereglisi, perto de Tekirdag, Turquia ocidental.
Também nesta segunda citação há uma declaração que vai contra o próprio conceito por trás do acordo russo-turco sobre o gás. Na verdade, tem como objectivo direccionar o fluxo para a Europa, e não para outras regiões do mundo como tal. Lembre-se que o hub turco está do lado europeu, perto da fronteira grega. O embaixador da Rússia na União Europeia Vladimir Chizhov foi claro quando disse: "A linha do gasoduto pode ir em qualquer direcção a partir do hub turco,". [1]

Estas declarações, além disso, parecem estar alinhadas não só com a evolução da Ucrânia, mas também com a evolução na Síria, que vamos aqui analisar também. Isto também significa que a declaração deve ser visto à luz de como a Rússia faz as suas declarações oficiais, que são quase sempre mensagens multi-canais.

Em segundo lugar, a maioria das histórias de notícias e análises de notícias também mencionam um pouco correctamente que Putin simultaneamente tinha estado em Ankara onde ele tinha terminado um acordo com Erdogan. Putin anunciou que ele e Erdogan havia chegado a um acordo sobre o aumento do volume do gasoduto Blue-Stream para a Turquia, e a criação de um novo gasoduto para a Turquia. É principalmente importante aqui mencionar que essa reunião de alto nível significa que há muito mais do que um acordo de energia.

Afinal, se este foi o único assunto da reunião, tal acordo poderia ter sido feito através da Gazprom de Alexei Miller, ou até mesmo de um de seus subordinados, e dos seus homólogos turcos. No entanto, o mais importante é o facto de que o ministro da energia turco Taner Yildiz dizer publicamente que os termos finais não foram concretizados. Uma série de questões pendentes que, aparentemente, como o preço do gás. A Rússia ofereceu um desconto de 6%, mas a Turquia pode acabar com um valor duas ou três vezes maior do que o estipulado (18%). Ainda assim, a Turquia tem permitido que a Rússia fizesse um importante anúncio num momento crítico. A Turquia está, sem dúvida, ciente de que isso se relaciona com os dois conflitos acima mencionados. Ainda relevantes são as preocupações económicas mais banais e bem veiculadas referentes à solvência na UE, bem como incluindo a redução da procura.

Além disso, a Rússia anunciou publicamente um acordo de gás de mais de US $ 40 mil biliões com a Índia, bem como o compromisso de construir instalações de energia nuclear. Curiosamente, a Índia e a Rússia planearam, já em Agosto, e, talvez, em Abril de 2014, fazer este anúncio em Dezembro. Isso dá credibilidade à hipótese de "natureza estratégica" do anúncio bem cronometrado de Putin sobre a Turquia. "Um anúncio sobre esta iniciativa está previsto para ser feito em Dezembro, quando os dois líderes se reúnem na cimeira anual Índia-Rússia, que será realizada em Nova Deli." [2].

É possível que uma questão pendente possa dizer respeito de como os planos anteriores da Turquia podem ser combinados com um novo gasoduto russo-turco, e que também vamos explorar nesta análise.

Em terceiro lugar, como iremos explicar aqui em maior detalhe, este plano remove alguns dos projectos alternativos que a Bulgária e a UE pensavam que poderiam ser ressuscitados, ou ainda desenvolvidos, no processo final de uma saída russa do projecto South Stream. Talvez tivessem mesmo incentivado os russos a continuar a construir no Mar Negro, apenas para puxar o tapete numa fase posterior, e, finalmente, ver os seus esforços serem feitos para nada, em grande despesa para a Rússia.

Em bom rigor, é demasiado cedo e muito difícil dizer o que vai acontecer exactamente.

O que Putin sublinhou foi que a decisão sobre se deve ou não esse projecto poder funcionar era que a Europa teria de estar de acordo. Esta é uma porta aberta.

Isso parece realmente contradizer a declaração de Putin sobre não haver gás para a Europa. Na verdade, o que nós temos, na realidade, é apresentado, para o projecto europeu, como o South Stream rebaptizado que agora também pode simplesmente ser combinado com o Nabucco. Isso ocorre porque a nova linha proposta para a Turquia vai para a região europeia da Trácia turca.

O que estamos a fazer disso depende de como entendemos questões mais amplas sobre o mundo em que vivemos.

A realidade do 'cancelamento do South Stream' é um exemplo de criação de uma hiper-realidade simulada para dissimular a verdadeira realidade da situação. Este meme já saltou fora de todos os murais dos média, incluindo meios de comunicação alternativos e novos médias. Criou-se uma  eco-câmara do sua própria verdade. Podemos entender que existem vários alvos deste bit belicista de informações, dentro do contexto da guerra de informação em mãos.

Não deve ser nenhuma surpresa que as coisas não são o que parecem. Vivemos num mundo cada vez mais complexo, em que testemunhamos uma crescente sofisticação nas múltiplas camadas de significados, que são incorporados nas declarações oficiais na forma como elas são relatadas. Podemos dizer que o aumento da belicosidade, em geral, é paralela ao aumento da complexidade dessas mensagens.

Os detalhes do acordo proposto com a Turquia são de alguma importância. Mas só podemos dizer com certeza, o que é importante nesta fase, é que os planos parecem credíveis na medida em que são viáveis.

A Rússia investiu oficialmente numa campanha de média para vender a viabilidade do plano do Stream russo-turco. Num mapa fornecido ao público pela RT, a agência de notícias do estado russo em língua Inglesa, podemos ver claramente qual é a mensagem pretendida.


Dado que a principal unidade da Russkaya CS que foi construída para lidar com a capacidade da linha do South Stream ainda vai ser usada, e em conjunto com esta, e as porções de tubo, que já foram estabelecidos fora da Bulgária e que ainda podem ser utilizadas, os 5 biliões de Euros já gastos no projecto podem ser facilmente ligados para uso equivalente num cenário do Stream russo-turco. Isso por si só compromete em parte um possível apoio dos EUA a uma manobra da UE para atrair a Rússia num projecto, que em última instância não tem saída, e que teria tido o real potencial de desestabilizar a estrutura política dentro da própria Rússia.

Se um Stream russo-turco real for construído, este será o caso, em que os esforços da Rússia não irão para o lixo. Mas o que é mais importante nesta fase é que ele acrescenta credibilidade ao anúncio russo. Olhando para o mapa, podemos ver que este não é simplesmente um oleoduto para a Turquia. Não é simplesmente um negócio diferente, agora destinado à Turquia.

Não, claramente este é um gasoduto South Stream reformulado, que agora simplesmente é traçado 150 km mais ao sul do proposto South Stream búlgaro, e através da Turquia no seu lugar. Ele também combina agora, elementos do plano do Nabucco turco, uma vez que agora envolve a Grécia e Macedônia, antes de se dirigir para o norte através da Sérvia, bem como ter o potencial de reconsiderar o Corredor Meridional, como iremos explorar mais adiante nesta análise.

Talvez sob consulta russa desta possibilidade, podemos entender por que a Sérvia não começou a construção no sul-este, onde ele poderia ser ligado à linha búlgara, mas sim em Novi Sad, no norte. Este tubo colocado em Novi Sad seria a rota de qualquer um South Stream ou Nabucco ligeiramente revisto na sua nova encarnação como a linha russo-turca. Tomados em conjunto, este novo plano é o acordo russo-turco.

Na verdade, podemos ver isso com algumas modificações, Rússia e Turquia propuseram combinar os projectos Nabucco e South Stream. Esta foi, na verdade, proposto pelo Diretor-Presidente da empresa de energia italiana Eni, Paolo Scaronione, a empresa italiana que participa no projecto South Stream, numa fase inicial das negociações. Os relatórios regulares deram um número de razões pelas quais esta proposta foi inicialmente rejeitada, o que sabemos com certeza é que a logística e viabilidade de um tal plano para combinar esses dois projetos têm sido conhecidos há vários anos [3].

É interessante considerar, então, que, em retrospectiva, depois de toda a intriga e sangue derramado sobre este concurso, que o plano de Scaronione baseado na cooperação, colaboração e paz, seria o único que realmente funciona. Além disso, o Trans Adriatic Pipeline (TAP), que às vezes era uma variação do plano do Nabucco, também era uma variação do South Stream.

Quanto mais se olha para isto, dado o peso considerável, que é dado às opiniões dos Scaronione, mais se deve cogitar a possibilidade de que esta inversão turca estava em obras desde o início. A Turquia sempre parecia desempenhar o seu papel com a NATO contra a Síria, mas em retrospectiva, podemos ver que eles não 'retaliaram' como seria de esperar quando as defesas aéreas sírias derrubado o avião de combate turco, entre outras coisas [4]. Eles não se moveram contra a Síria de forma robusta como eles poderiam ter sido, e eles nunca inteiramente fecharam a porta ao Irão. Desde o início, eles não permitem a passagem livremente de qualquer mercenário ou jihadista da Turquia para a Síria, e mesmo presos (clandestinos e capturados), aqueles ligados à Líbia (Belhaj) e à Europa, financiada pelos sauditas e Qataris [5].

O Irão esteve sempre à procura de uma reaproximação com a Turquia. O Irão queria ser parte do Nabucco, e fez a oferta, já em 2009, antes do início das hostilidades, e agora parece que eles terão essa oportunidade. Na verdade Erdogan disse numa reunião de países parceiros do Nabucco e os países da região, no mesmo ano, que incluiu o Iraque e a Geórgia: "Desejamos gás iraniano para ser incluído no Nabucco quando as condições permitirem," [6]

Mas o enviado especial dos Estados Unidos para a energia, Richard Morningstar foi claro que Washington não permitiria que os iranianos pudessem participar. A estranheza da oposição dos EUA pode ter escapado ao leitor americano médio, aqui. Nabucco, de modo algum envolve os EUA directamente, ele não é um projecto trans-atlântico. Isto é, quanto muito, uma questão que só deveria ser motivo de preocupação para os países que estarão envolvidos na produção, transporte e consumo dos bens e serviços fornecidos.

O que os EUA ofereceram por sua vez à Turquia foi que ela deveria atirar a sua reputação internacional contra o vento, e facilitar uma tentativa no final não conseguida de fazer uma "mudança de regime" na Síria.

Sempre foi conhecido que o plano do Nabucco e do plano do South Stream, como foram traçados eram planos concorrentes, realmente parecem ser o mesmo projecto, estabelecidos de forma diferente, envolvendo diferentes blocos de poder, mas, curiosamente, algumas das mesmas empresas do projecto.

Em teoria, então, nada será diferente para a Sérvia ou para outros países ao longo do gasoduto. Na verdade, isso pode até funcionar melhor para a Rússia na medida em que envolve agora a Turquia, Grécia e Macedónia, uma vez que redirecciona para voltar ao seu caminho, que viaja para o norte através da Sérvia, pela Hungria, Áustria, etc. Para os países consumidores, o preço recomendado, não se deve esperar uma tremenda diferença. O desconto que a Turquia recebe da Rússia permitirá rentabilidade turca com uma poupança que pode ser transferida para os estados consumidores.

Isto não é apenas sobre os mercados de energia, mas sobre mudanças de parceiros[aliados] políticos e militares.


A Sérvia, a Áustria e a Hungria não estão apenas ainda a bordo com o South Stream, ou qualquer outro nome em que esta rosa possa ser chamada, como também a Hungria e a Sérvia juraram não aplicar sanções à Rússia. A Hungria chegou mesmo a ameaçar sair da UE por causa do South Stream, e recusou-se também a comprometer-se novamente com um empréstimo problemático do FMI, já depois de ter pago a sua dívida. A Rússia está actualmente a construir a infra-estrutura de instalações e de inteligência militar, no que pode em breve tornar-se numa instalação militar real, no sul da Sérvia, perto de Nish. Esta é também uma área onde o South Stream, ou qualquer outro nome, irá percorrer a Sérvia.

A Sérvia não tem feito progressos significativos na aproximação à UE. Ela ainda não reconheceu o Kosovo, que é uma condição não-oficial para a entrada na UE. Outras questões, como o hub russo de inteligência militar, acima mencionado, a presença de Putin a receber o prémio mais alto num estilo distintamente eslavo em desfile militar, surgiram desde então e enfureceram os burocratas da UE e os chefes da NATO do mesmo padrão.

Assim, a Hungria e a Sérvia, e por causa de detalhes resolvidos com o OMV, assim como a Áustria, ainda estão a bordo deste projecto. Com ajustes muito menores, este Stream russo-turco será para eles o mesmo que o South Stream. Desta forma,  o anuncio do 1 de Dezembro feito pela Rússia não estava orientado para eles. De facto, o conjunto do Stream russo-turco, é um grande suspiro de alívio.

Em vez disso, certas secções do estabelecimento búlgaro são o alvo imediato deste anúncio. É muito importante criar-se o sentido de conjunto que a Bulgária pode ser deixada de fora da equação, se não fizer algo decisivo, e rapidamente. Se estas questões eram tão simples de entender como as declarações oficiais feitas, então a maioria das pessoas que seguem os títulos dos jornais irão entender as coisas como estão. A verdade, no entanto, é mais complicada.

Na negociação, para dizer que um acordo está fora da mesa é realmente parte do processo da negociação. Para aqueles que já estão familiarizados com este ponto, por favor, perdoem que devemos insistir nisso por uns instantes. Isso é verdade em todo o mundo, mas é uma táctica de negociação particularmente conhecido na Euroásia e no Médio Oriente. É preciso incluir que esta táctica é usada no extremo oeste, mesmo no caso da cultura empresarial tende a basear-se mais sobre as tendências e sensibilidades das pessoas na Angloesfera. No entanto, os eslavos, árabes, turcos e iranianos fazer negócios de forma diferente. Dizer que um acordo está fora da mesa[excluído das negociações] não é nem rude, nem é um bom acordo[um negócio que não vale a pena negociar]. Isto também não se limita a negócios[acordos], mas também é norma para outras esferas da vida, tais como romances e amizades. É uma parte muitas vezes crítica do processo da realização de um acordo. De tal forma que pode parecer contra-intuitivo para os ocidentais, isso realmente gera confiança.

Conceitos e normas legais contra coisas como negociação regressiva ainda existem, mas este não é um caso desses. Face ás interpretações interessantes, novas e criativas do Terceiro Pacote Energético que foi forçado sobre a Europa sob a influência de um transe hipnótico semi-suicida, induzida pela estrutura do poder Transe-Atlantico, a Bulgária renegou a sua obrigação de ir para a frente com o plano.

E, no entanto, para dizer que a Bulgária não quer ser incluída num projecto de pipe-line não é de todo verdade. A Bulgária ainda quer o plano, e na sua extremidade eles insistem ainda que pode haver um. Foi a Europa que colocou a Bulgária nesta situação. Foi a UE que tem interferido com processo eleitoral da Bulgária, resultando no actual governo.

O anúncio de Putin também visava a UE e, por extensão, os EUA.

Trata-se de chamar o bluff da Europa. A Europa assumiu que poderia, então, mudar o quadro legal de fazer negócios de energia com a Europa através da interpretação do Terceiro Pacote Energético em novas e criativas maneiras, mesmo depois dos seus próprios Estados-membros terem-se inclinado a voltar para trás para satisfazer as restrições já onerosos e pesadas, derivado do última rodada de sabotagem.

Maroš Šefčovič,Vice-presidente da Comissão Europeia 
para a União de Energia: A cooperação energética é
uma prioridade fundamental para a Parceria Euro-Mediterrânica
A Europa, então, assumiu que poderia agir com o aumento da hostilidade contra a Rússia, associando-se ao treino,  armamento, e equipamento de neo-nazis na Ucrânia, e encenar um golpe[de estado] para frustrar a integração da Ucrânia na União Aduaneira da Euroásia. Em seguida, a Europa assumiu que poderia, então, avançar para impor a si própria algumas feridas graves em auto-flagelação, sob o título "As Sanções à Rússia", que também não têm sido vida fácil para os russos. A Europa assumiu que poderia fazer tudo isso, e mais, e que a Rússia estaria tão desesperada que, à luz de tudo isso, à luz do TEP, Ucrânia, sanções, e mais, que a Rússia iria pagar os futuros custos do
desenvolvimento do projecto, mas deixando a Europa controlar as infra-estruturas físicas, receitas e outros aspectos físicos críticos.

Ainda assim, é possível que o acordo esteja fora da mesa[excluído de negociações] para a Bulgária. Mas ninguém pode dizer definitivamente se é já agora. Posições das elites búlgaras estão a dizer que ainda há um acordo. Isso significa que eles estão a fazer uma das duas coisas. Uma delas, é que eles estão a interpretar de forma precisa as declarações do 1º de Dezembro como sendo uma linguagem de negociação séria, e estão a tentar descobrir como reorganizar-se politicamente, tomando uma decisão "civilizacional" em relação à Rússia vs. a UE na sua encarnação Atlanticista, e vendo como fazer uma contra-oferta. Ou, eles serão incapazes de atender a essas procuras.

Assim, estariam a ganhar tempo, tentando dar falsas garantias aos enormes e poderosos interesses dentro da Bulgária envolvidos no projecto do South Stream. Bem como, iriam tentar aplacar a população em geral que apoiaram este [projecto], a fim de evitar uma entrada rápida no caos político.

Alexei Miller acusa a Bulgária inteiramente, por desempenhar o papel do policia mau, e diz que o encerramento do projecto não tinha nada a ver com o TEP. Este é um aviso importante para a Bulgária que precisa agir rapidamente. Putin desempenha o papel do bom policia, e permite a cobertura do PR ao governo búlgaro, culpando a UE, e dando ao governo búlgaro alguma margem de manobra para salvar a face.

A linha russo-turca não tem que excluir a Bulgária. A Rússia tem uma preocupação grande com a Bulgária, pois não só eles têm sido informados de que a nova linha os irá excluir, mas como também depois de concluída, eles irão também ser excluídos da linha que vem da Ucrânia. Isso é um motivo de grande preocupação para a Bulgária, alguém que possa forçá-los a tomar uma decisão "civilizacional", alguém que irá determinar o seu alinhamento para o próximo número de décadas, e mais além. A Bulgária pode ter sido enganada ao ser levada a pensar que poderia jogar nesse jogo. Eles podem ter acreditado que, no caso do South Stream colapsar, o projecto Nabucco poderia ser trazido de volta à vida, apesar dos problemas com o consórcio de energia Shah Deniz, e o fracasso do projecto Nabucco para fazer avanços no Levante, na sequência da seriedade turca, os EUA e israelitas derrotarem vis-à-vis a Síria e o Egipto.

As pessoas estão a perguntar-se porque a Europa está a cometer esse enorme erro, com a forma como está a ser interpretando e aplicando o TEP. Sim, pode-se dizer que a Europa cometeu um erro aqui. Ou, pode-se dizer que a Europa intencionalmente sabotou isso, e ao fazê-lo, sabotou a sua própria economia. Este último caso é quase compreensível com uma compreensão da pressão considerável, que os EUA exercem sobre a Europa. O último caso faz mais sentido.

Há vários factores críticos que a Europa enfrenta. Podemos olhar para alguns deles.

Um factor crítico, que é muitas vezes ignorado pelos analistas que olham para o "triângulo" Atlanticista Europa, Euroásia, e o 'Próximo Oriente" (os Balcãs, Turquia e o Mundo Árabe) é que este é realmente um "quadrado". A Europa tem sido ameaçada pelos EUA que irá perder o acesso à América Latina.

Um ponto que merece ser destacado aqui é que os EUA, têm dito que o tempo da "Doutrina Monroe" terminou. É claro que essa declaração foi destinada à Rússia no que respeita à Geórgia, mas de uma forma diferente também à Europa. Hoje o investimento europeu na América Latina - considerado no século 19 como estando dentro do perímetro de influência dos EUA pela Doutrina Monroe - não é insignificante. As instituições formais, visando a coordenação, como o Banco Inter-americano de Desenvolvimento (BID)[Inter-American Development Bank (IDB)] e do Mecanismo de Investimento da América Latina(MIAL) [Latin American Investment Facility (LAIF)] representam apenas a ponta do icebergue a este respeito. Há também o aumento do investimento de países e empresas latino-americanas na Europa. Todos os países da Europa Ocidental estão vinculados a investimentos na América Latina. Os EUA tentam projectar a ideia na Europa que têm a capacidade de efectuar golpes[de estado] ou transições de poder na América Latina. Isso mostra que eles podem fazer isso através de seus meios tradicionais com golpes militares, ou novos métodos, como as Revoluções Coloridas e as tácticas da Primavera Árabe.

Ambos os métodos não conseguiram efectuar as mudanças nos chamados países 'Pink Tide"[Rosas] na América Latina. Mas um número estatisticamente improvável de líderes Rosas têm tido cancro, ou já morreram como é o caso de Chávez. É claro que os EUA ainda continuam a fazer negócios com os países Rosas. Mas nesses, os termos não são assim tão lucrativos como seriam se os governos fossem meros fantoches. Uma parte do comércio dos EUA com a América Latina é feita através de proxies na Europa, ou através de MNCs e TNCs de cujos conselhos de administração são compostos de ambos nacionais americanos e europeus.

A elite europeia está dividida. Aqueles que seguem os ditames dos EUA estão vinculados a interesses norte-americanos de várias maneiras.

Outros neste lote têm investido fortemente na América Latina, e não têm sido convencidos de que os russos ou os chineses podem proteger esses investimentos europeus dos EUA, no caso de uma mudança de governo dos Estados Unidos iniciar mudanças de governo na maioria dos países latino-americanos, como então, significando um retorno à Doutrina Monroe. Por outro lado, são aqueles na Europa que estão mais conectados com a Euroásia. Agora ambos estão irritados, e enfraquecidos. Talvez a janela de oportunidade para eles para realizar um esforço concertado para mudar o presente curso já tenha passado. Talvez não tenha.

Há também um outro factor crítico, que gira em torno de outros negócios de gás que estavam a ser trabalhados.

Na verdade ainda há outra explicação racional, no entanto, para explicar a arrogância todavia desajeitada da Europa. A Europa, tal como a Bulgária, também estava a pensar que tinha opções, que o acordo russo-turco, na verdade, traduzia-se num prazo final sobre o acordo.

Os EUA também estavam ansiosos com isso, e que isso estava relacionado com os seus esforços no Médio Oriente. Este foi o chamado plano Corredor Meridional, uma parte do Nabucco.

Então, isso explica em parte os esforços extraordinários que os EUA têm feito para derrubar o governo da Síria. A Síria foi a melhor escolha para sediar uma filial para o gás natural liquefeito do Egipto e de Israel para a rede de gasodutos do Nabucco.

A linha do Nabucco era para ser um projecto turco, mas do lado europeu, envolvendo uma série das mesmas empresas que mais tarde poderiam ir para além do projecto do South Stream. A linha do Nabucco também envolvia um número dos mesmos países também da mesma forma. Criticamente; Bulgária, Hungria e Áustria.

O South Stream foi diferente no seu ponto de partida, e na sua rota trans-Pontic. Em vez de a Roménia, foi a Sérvia a favorecida. Fora isso, eram projectos muito semelhantes. Porque eles envolviam muitas das mesmas empresas do projecto do lado europeu, e prometiam entregar volumes semelhantes, a decisão final para ir com o South Stream foi um produto de sucesso da Rússia no domínio da diplomacia e nas áreas afins da intriga.


Além disso, o projecto Nabucco não têm as garantias no extremo leste, e também teria sido um projecto que envolvia uma série de empresas e interesses antes de chegar à Europa. Isto também aumentou o custo. Assim, a facilidade de fazer negócios, e a forma superior de coordenação que vem com o facto de lidar com uma única empresa estatal, como a Gazprom, foi um outro factor importante. Mantendo diversas e até mesmo conflituantes empresas do projecto, todas juntas, por dez anos num projecto que ainda não tinham trabalhado juntas, como foi o caso da Nabucco, que era muito parecido como guardar gatos.

No entanto, a linha do Nabucco era conseguir uma boa parte do seu gás Azeri do mar Cáspio, um projecto sob o controlo do consórcio de energia Shah Deniz, que trabalha em estreita colaboração com a BP. Este era para contar com o apoio do Azerbaijão, que passa por ele, e, bem possivelmente, pela Georgia, e depois para a Turquia.

Foi por uma série de razões, que o Nabucco foi vetado quando o consórcio Shah Deniz decidiu lidar com o projecto de forma diferente. Em seguida, ele foi ressuscitado com uma rota diferente. O pano de fundo desta questão envolve questões fora do âmbito da presente análise, mas gira em torno das complicadas relações entre a Rússia e os Estados pós-soviéticos do Cáucaso, e a maneira pela qual

estes últimos também fizeram relações com a Turquia, no contexto da intromissão constante dos EUA e da UE.

Para especificá-lo claramente, dentro dos prazos, haviam três projectos. O South Stream, o Nabucco, e o Trans-Anatolian ao Trans Adriático (TANAP / TAP). Mas todos os três deles não poderiam avançar. Contradições ou sobreposições, não só entre as empresas do projecto, mas também a geoestratégia subjacente mais ampla e as preocupações geopolíticas significava que a TANAP / TAP não poderia avançar sem o Nabucco avançar também, e como a maioria dos planos têm este incorporado, e o Nabucco era menos viável em qualquer dos casos com o South Stream a ir para a frente.

Após uma inspecção mais próxima, o TANAP / TAP e o Nabucco são realmente uma e a mesma coisa. Isto é assim, mesmo que houvesse diferenças de concepção de projectos, envolvendo algumas empresas de projecto diferentes e pequenas diferenças de percurso. Numa determinada altura do ano passado, parecia que Nabucco iria trabalhar com o consórcio Shah Deniz e realmente tomar uma rota da Europa Central, através do corredor Norte-Sul. Isso faria serpentear o Nabucco, na Hungria, e em direção ao Mar Báltico cortando tanto a Eslováquia como a República Checa, e entrando na Polónia.


Isso teria prejudicado a importância das duas linhas russas, aquela que atravessa a Ucrânia e o Nord Stream. Mas as mudanças na paisagem política húngara, no sentido de uma posição abertamente pró-russa, fez essa rota tornar-se improvável. Para atravessar a Roménia através da Ucrânia seria uma adição onerosa por meio de quilómetros de tubulação, dado que o projecto sempre teve problemas de financiamento e que foram entendidos como custos inflacionados.

No que isto se resumia era a UE encorajada pelos EUA, a terem a Turquia e a Rússia a concorrerem indefinidamente.

É também por isso, que desde o anúncio da semana passada, a conversa optimista da UE sobre o renascimento do projecto  TANAP / TAP pode parecer estranhamente fora do contacto com a realidade. A Turquia, é claro, é aconselhada a diversificar as suas fontes[de energia], trabalhando com os parceiros do Azerbaijão, bem como os russos. Os campos de Shah Deniz estão estimados em mais de 1 trln. cm em oposição à Rússia que têm 48 trln. cm. As reservas estimadas Azeris  são, portanto, apenas cerca de 2% das dos russos [7].

Sim, os azeris podem produzir, em conjunto com o que têm e com a expansão Shah Deniz II, até 40 bcm por ano. Mas com a quantidade de reservas realista de 1 trln. cm, isso não vai durar muito tempo neste esquema, especialmente se a produção for ampliada ainda mais. Assim, podemos ver que, enquanto as contribuições azeris significarem algo, se todo o plano é para valer a pena em termos de objectivos de longo prazo, sempre implicará uma combinação com o Nabucco.

Este, por sua vez substantivamente significou o Corredor Meridional através do Levante.

O Corredor Meridional é uma peça fundamental. O gás Azeri do campo de Shah Deniz prometeu fazer uma nova rota viável. Sem o Nabucco e a Turquia, a parte Azeri não poderia financiar este. A construção nunca começou no Nabucco, e foram experimentadas todas as confusões entre as empresas do projecto, questões de financiamento, e mudanças de rotas como as descritas acima. O que foi invocado para funcionar, foi a incorporação do gás egípcio, israelita e sírio para poder fazer o Corredor Meridional na Turquia, e conectar-se com o resto do Nabucco.

O TANAP / TAP não pode realmente funcionar como um projecto autónomo. Os europeus estão na melhor das hipóteses a falar do seu livro, na pior dos cenários, extremamente mal informados. Tendo em conta os níveis de inépcia e o nepotismo que vai prevalecendo na 'Velha Europa', esta última possibilidade é realmente bem grande.

Esta realidade desempenhou um factor na Primavera Árabe no Egipto e na Síria. A Turquia apoiou a Primavera Árabe no Egipto, e teve o seu homem, Morsi, instalado. Morsi não foi simplesmente instalado como parte da táctica da Primavera Árabe pelos EUA e Israel como parte de um movimento regional mais amplo contra o Irão. Claro, isso é verdade. Mas, além disso, este no Egipto, era suposto significar um grande desenvolvimento permitindo que o gás natural egípcio chegasse à Turquia, através de Israel e da Síria sob uma nova liderança apoiada pelo "FSA" ocidental que favoreceria o Egipto, Israel e a Turquia em vez do Irão e amplamente falando da Rússia.
Ainda assim os planos anteriores da Turquia com o Corredor Meridional podem ser combinados com um novo gasoduto russo-turco. Esta possibilidade pode realmente sublinhar a importância do acordo russo-turco, e de todo o realinhamento geoestratégico e geopolítico que pode estar em desenvolvimento.

Essencialmente, a posição do Azerbaijão, Turquia e Israel como pertencendo a interesses de empresa de gás natural pró-ocidentais e anti-russas significava que o Egipto e a Síria teriam de experimentar uma 'mudança de regime' para que todas as partes se unissem. Enquanto o Egipto sob Mubarak recebeu a ajuda militar ocidental e foi um importante aliado dos EUA durante a última década da guerra fria, a interpretação mais generosa poderia-se dizer que "olhou para o outro lado" do [conflito] Israel-Palestiniano, e se opôs à mudança de regime na Síria. A Síria não poderia agir de acordo com um plano turco e israelita dadas as suas relações com o Irão, e as relações turco com o Irão.

O palco estava montado, em seguida, fazia-se uma "mudança de regime" no Egipto e na Síria, empurrando, assim, para fora o Irão, e talvez até forçando o Líbano a agir em conjunto com Israel contra o Hezbollah.

Mas o Irão e a Rússia, que trabalham com a Síria e o seu SAA - The Syrian Arab Army[Exercíto Árabe Sírio] efectivamente forçaram o recuo dos mercenários estrangeiros e a invasão salafista da Síria. Sim, os EUA e Israel continuam a forçar com os seus amigos sauditas o financiamento de um ISIS quase mítico, e mesmo aqui nos últimos dias temos visto uma série de grandes derrotas para o ISIS. Na verdade, destes três últimos eventos importantes - O anúncio do acordo de gás turco-russo, as derrotas sofridas pelo ISIS, e as provocações das forças aéreas israelitas sobre a Síria, estão todos intimamente ligadas

No decorrer dos objectivos turca na guerra contra a Síria, a desorganização, as perdas e a problemática aliança liderada pelo ocidente, eram tais que as tensões pré-existentes entre os saudita e os qataris foram exacerbadas. O amigável governo da Irmandade Muçulmana da Turquia no Egipto foi sujeito a uma severa perseguição no reino pró-salafista de península Saudita. A amigável frente da IM da Turquia na Palestina, Hamas, estavam a ser activamente cortejados pelo Irão.

No último ano deste conflito, na sequência da tentativa falhada do ocidente de culpar a Síria por um ataque químico que ele próprio encenou, as relações entre o Irão e a Turquia têm de facto aquecido, vendo-se um aumento de 400% no comércio bilateral. Além disso, a Turquia voltou atrás na sua decisão sobre as convicções dos principais líderes pró-russos da 'Eurasianist' [Euroasionismo], alguns até mesmo nas forças armadas, que tinham sido apanhados na chamada conspiração Ergenekon. Isto incluiu o proeminente líder do partido Trabalhista , Dogu Perencek, e outros de seus companheiros do ranking maoísta-kemalistas. Esta última parte é significativa no seu simbolismo mais do que qualquer outra coisa, mas vivemos num mundo de símbolos e sinais.

E o que sobrou foi, finalmente, o resultado, do fracturamento total da aliança liderada  pelos EUA e Israel contra a Síria. A Rússia trabalhou com alguns parceiros na região para inverter a Primavera Árabe no Egipto, vendo-se como consequência a destituição de Morsi e a sua substituição por Sisi. À primeira vista, este [cenário] é um revés para a Turquia, com quem os russos tinham estado a trabalhar, ou enganado os sauditas com a ajuda deste esquema. A Análise sobre as relações bilaterais russo-sauditas são geralmente uma nuvem nebulosa de desinformação e contra-informação, assim vamos deixar este assunto e outras questões relacionadas fora desta análise.

Agora, há uma nova realidade, a situação inverteu-se.

As Relações entre Irão e Turquia têm aquecido, e assim temos [boas] relações russo-turcas. O Egipto tem-se comprometido com a área da política externa, para um bom relacionamento com o [partido] Ba'athist Sírio de Assad. O Egipto manterá o velho arranjo de Mubarak com Israel em relação à Palestina, túneis, e afins. Mas o gás natural egípcio só vai fazer o seu caminho, agora, através de 'Linha Turco-Russa' da Turquia, substituindo o Nabucco, se ele passar por um governo legítimo da Síria.

Se ele também envolver Israel, poderá ser possível que se coloque algumas condições a Israel.

Além de acabar com a sua guerra contra a Síria, e acabar com a sua retórica contra o Irão, também poderia incluir o reconhecimento da Palestina e a participação na partilha dos lucros com a Palestina, a qual os recursos costeiros de Gaza pertencem legalmente. Não devemos ser optimistas aqui, mas também é possível que haja uma nova rota de acordo com os interesses egípcios, como a parte mais a sul do "novo" projecto do Corredor Meridional, a serpentear através do Sinai através da Jordânia, ou a ir pelo mar para a Síria.

Isso pode significar que, se Israel quer expandir o seu mercado, poderá de necessitar de trabalhar através do período de desastre de Netanyahu, e eleger um governo trabalhista de centro-direita em vez da política social e económica de extrema-direita, e da política em relação à Palestina. Tudo isso é totalmente especulativo e, provavelmente, pouco provável. Mas Israel precisa deste projecto mais do que as outras partes precisam de Israel. Israel terá de ponderar, no entanto, inúmeros factores que não só se relacionam directamente com os mercados de energia. Na realidade, Israel encontra-se cada vez mais isolado na região. Especialistas já têm explicado à pelo menos uma década, que o projecto sionista de Israel pode ser insustentável e poderá ser encerrado. Alguns até já se ponderaram se a entidade sionista estaria a olhar para se recolocar no estado emergente da Ucrânia Ocidental, onde, a tradição bíblica é erudita para muitos israelitas que podem materializar e traçar a sua história recente. No entanto, Israel chegou a um lugar crítico, e tem algumas decisões difíceis a tomar.

Israel vai ser a parte mais problemática, mas os azeris também têm uma oportunidade de voltar a alinhar os seus interesses com o novo plano. A fusão do Nabucco com o South Stream e com o TANAP / TAP ainda é uma possibilidade também. A BP não vai gostar disso, por si só, mas o consórcio Shah Deniz vai ter que tomar algumas decisões difíceis e trabalhar nessa parte. Isto é duplamente verdadeiro se houver uma séria mudança de política no Azerbaijão. Tal como Israel, os azeris precisam de ser uma parte deste projecto, mais do que o projecto precisa deles.

A única outra opção dos Azeris é o sempre o esquivo White Stream. Yulia Tymoshenko propôs este projecto à União Europeia já em 2008. Existem muitos problemas aqui, inclusive porque teria de atravessar a Geórgia para o Mar Negro e ir pela Crimeia. Mas Crimeia é agora Rússia, e na altura já havia qualquer coisa no ar que indicava que a Ucrânia iria tornar-se um estado falhado sem litoral, ou que haveria uma mudança de regime, muito antes de tal projecto pudesse ser concluído, e muito menos iniciado. A Roménia, que foi retirada da proposta russo-turca na sua forma de Nabucco, podia ser o único parceiro viável. Mas isso significaria extensa construção através do Mar Negro, da Geórgia até à Roménia. Estes foram os mesmos obstáculos que impedem a possibilidade de qualquer tipo de projecto do TANAP / TAP que não passava pela Turquia. Na realidade, se um projecto não se pudesse pagar por si só, para uma oferta relativamente limitada (Azeri) para atravessar o Mar Negro, ele teria que trabalhar com a Rússia ou a Turquia, que agora se uniram.

No que diz respeito a todo o âmbito de aplicação do acordo de gás russo-turco em geral, devemos ser cautelosos em especular muito sobre o curso futuro do mesmo, ou o que tudo isso pode significar. Nós tentamos aqui esboçar quais são alguns dos principais factores. Temos dado alguns detalhes e o contexto relacionado, do concurso do gás natural e a sua primazia, não só para a Rússia como para a Ucrânia, e os Balcãs. Explicamos também como isso entra em conflitos mas como agora passa a coincidir num projecto com apoio turco.

Devemos ainda esperar futuras conversações públicas sobre este assunto que coloca o novo contracto em causa. Isso tudo faz parte do processo e do espectáculo. É até possível que Israel ainda provoque uma tal resposta, na Síria e no Líbano que o Irão será duramente pressionado para não reagir, aumentando a belicosidade e a instabilidade na região, fazendo uma re-orientação turca do Corredor Meridional mais difícil.

Da mesma forma, o Ocidente ainda pode efectivamente dividir os interesses russos dos turcos. Vai certamente fazer todos os esforços para isso. Os russos e os turcos, para que possam ficar juntos neste projecto, provavelmente vão dar a ilusão ao Ocidente que os seus esforços disruptivos estão a ser trabalhandos, às vezes, porque esta é a forma como ele é feito.

Não faz muito sentido para a Rússia e para a Turquia ou para ambos terem linhas a fazer o mesmo percurso, com o sucesso de uma [linha] turca seria exigindo a instabilidade no Levante, a destruição da Síria, e um golpe de estado no Egipto. Agora que a Rússia e a Turquia anunciaram ao mundo que não terão os seus interesses colocados em conflito uns com os outros à margem da manipulação dos EUA, UE e Israel, podemos observar uma mudança geopolítica na medida de proporções tectónicas.

Novamente, isto não é mais para a Bulgária, mas tem a ver com a Bósnia e a Sérvia, o conflito na Ucrânia tem uma boa hipótese de alastrar, especialmente como os estados dos Balcãs a alinharem possivelmente numa direcção decididamente pró-russa. Ainda assim, os mercados de energia são enormes, mas não são tudo.

As intenções futuras da Rússia são claros. Se a Bulgária for razoável, a Rússia deve ajudar a Bulgária com o seu aparato de segurança, por exemplo, ajudando a reestruturar as suas agências de inteligência e as suas policiais secretas. Deve proporcionar à Bulgária com estas e outras garantias. A Rússia deve também, se é para construir algo de novo com a UE, demonstrar que pode proteger os activos e investimentos na América Latina.

A Europa tem de compreender que os Balcãs só podem ser um lugar onde tanto a UE, Rússia e Turquia podem ter os seus interesses, ou em caso contrário a Europa ficará de fora, com apenas a Rússia e a Turquia ai terem os seus interesses. Isso também reflecte um padrão histórico.

A UE não deve ser forçada a cometer suicídio cortando o seu acesso aos recursos energéticos acessíveis da Rússia e do Médio Oriente, com a ameaça de perder o acesso aos mercados da América Latina, sobre as condições do aumento da belicosidade dos EUA na região.

Alguns analistas têm visto os preços baixos e condições atraentes que a Rússia tem oferecido para os seus parceiros, incluindo a China, e agora também a Turquia e a Índia, com vista aos mercados de energia. Alguns dizem que Putin mostra a fraqueza russa com preços tão baixos. Outros, mais precisamente dizem que Putin tem um pensamento amplo, e concentra-se mais na quota de mercado do que no preço de mercado. Este é um ponto mais justo e mais perto da verdade.

Mas todas estas aventuras emocionantes no capitalismo não vai significar muito numa terra povoada principalmente por baratas, alimentando-se de bactérias altamente adaptáveis. A conclusão que podemos tirar de tudo isso é que há uma Rússia que está a pensar no longo prazo, e questões como a estabilidade são mais importantes do que as flutuações trimestrais. Ela está empenhada em construir um mundo multi-polar que irá salvar o mundo do império norte-americano, salvar a Europa dela mesmo, e permitir que haja condições de soberania e desenvolvimento em regiões inteiras como os Balcãs, Médio Oriente, África, Ásia e América Latina.


Joaquin Flores é um americano expatriado que vive em Belgrado. É um analista a tempo integral no 
Center for Syncretic Studies, um think-tank público de geoestratégia. A sua experiência abrange a Europa Oriental, Euroásia, e possui uma forte competência em assuntos sobre o Médio Oriente. Flores é particularmente adepto da análise da psicologia das guerras de propaganda. É um cientista político formado pela Universidade do Estado da Califórnia. Nos EUA, ele trabalhou por vários anos como gestor sindical, negociador-chefe e estratega numa grande central sindical.


Tradução - Paulo Ramires/RD

Notas                                                                                                               


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