Por Teresa Bouza.


Washington, 17 Dez (EFE).- A decisão do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de iniciar um diálogo imediato com Cuba para restabelecer os vínculos diplomáticos entre os dois países inaugurou um novo capítulo na tensa relação entre os países.

O anúncio coincidiu com a libertação "por razões humanitárias" do prestador de serviços americano Alan Gross, preso em Havana há cinco anos e que retornou hoje aos Estados Unidos.

A histórica aproximação, que inclui planos para a abertura de uma embaixada americana em Havana nos próximos meses, chega após seis décadas de tensão e conflitos que tiveram o ápice em 1962 com a "crise dos mísseis".

Os EUA, que logo depois da revolução cubana de 1959 reconheceram em um primeiro momento Fidel Castro como o novo líder da ilha, demoraram pouco a reconsiderar essa postura.

A reforma agrária cubana e a nacionalização de indústrias americanas dispararam os alarmes nos Estados Unidos, que decretou a imposição gradual de restrições comerciais sobre a ilha.

As tentativas de estrangulamento económico do regime de Fidel, oficializadas em 1961 com o embargo das relações comerciais e empresariais dos EUA à ilha, foram combinadas a planos para derrubar o líder revolucionário.

O embargo, que durante décadas foi executado por decretos presidenciais, foi reforçado em 1996 com a aprovação da Lei Helms-Burton, mas nem essa nem o resto das estratégias alcançaram o efeito desejado: tirar Fidel Castro do mapa político mundial.

As dificuldades económicas, fruto do embargo, levaram o regime castrista a estreitar vínculos com a União Soviética, considerada pelos EUA na época, auge da Guerra Fria, como "a grande ameaça vermelha".

Essa aproximação foi ainda mais intensificada a partir de 1961, depois de 1.500 exilados cubanos treinados pela CIA tentarem invadir - sem sucesso - a ilha pela Baía dos Porcos.

A operação fazia parte de uma iniciativa mais ampla que os serviços de inteligência americanos baptizaram como "Operação Mongoose" e que pretendia desestabilizar o governo de Fidel.

A estratégia incluiu vários complôs para matar o líder cubano, como revelou uma investigação independente do Senado americano.

Mas o pior ainda estava para chegar.

Convencido que os Estados Unidos planeavam invadir seu país, Fidel começou uma agressiva militarização de Cuba, que conduziu ao desdobramento de mísseis soviéticos na ilha.

Essa decisão desencadeou a "crise dos mísseis", que colocou o mundo à beira de uma guerra nuclear.

A crise começou em 15 de Outubro de 1962, quando aviões americanos de espionagem U-2 detectaram mísseis nucleares na ilha caribenha capazes de alcançar os Estados Unidos.

A tensão durou até 28 de Outubro. Nesse dia o líder soviético Nikita Kruschev decidiu desmantelar todos os mísseis russos em Cuba e levá-los de volta à União Soviética.

Os EUA, embora em segredo, se comprometeram a retirar suas ogivas nucleares da Turquia.

Acima o destróier americano USS Vesole intercepta um cargueiro soviético que transportava mísseis a Cuba
Após esse momento, o auge da Guerra Fria, segundo alguns historiadores, veio uma etapa de degelo que começou durante a presidência de Lyndon Johnson (1963-1969) e se prolongou durante mais de uma década.

Em 1964, Fidel enviou uma carta a Johnson que assinalava que a hostilidade entre os dois países vizinhos era "desnecessária" e poderia acabar.

A chegada de Jimmy Carter (1977-1981) à Casa Branca foi outro passo adiante nessa direcção e se traduziu na abertura simultânea de escritórios de negócios em Washington e Havana, ambos localizados na embaixada da Suíça.

A não-reeleição de Carter acabou com a lua-de- mel, pois Ronald Reagan (1981-1989) retornou aos velhos tempos endurecendo o embargo e encorajando a hostilidade entre os países.

Foi sob seu comando que foi criada a Rádio Martí, uma emissora com base em Miami para transmitir notícias em espanhol para Cuba.

O novo milénio trouxe ares conciliadores, simbolizados no aperto de mãos entre Fidel e o presidente Bill Clinton (1993-2001) durante a cúpula do Milénio das Nações Unidas em Setembro de 2000.

Em 1994, aconteceu outro marco importante, com a assinatura de um acordo entre EUA e Cuba em que Washington se comprometia a admitir 20 mil cubanos ao ano em troca de Cuba deter o êxodo de refugiados para os EUA.

A visita de Carter a Cuba em 2002 foi outro momento histórico que parecia pressagiar uma aproximação que não se materializou.

As afirmações do então secretário de Estado adjunto contra a Proliferação Nuclear, John Bolton, de que Cuba tinha um programa de armas biológicas e o fato de o governo do presidente George W. Bush incluir Cuba entre os países do "eixo do mal" despertaram velhos rancores.

Obama fez gestos de aproximação à ilha em sua chegada ao poder em 2009, pouco depois de Fidel ceder o cargo ao seu irmão, Raúl.

A flexibilização em Abril de 2009 das viagens e do envio de remessas e pacotes humanitários de cubano-americanos foi seguida em 2011 pela facilitação de viagens académicas, culturais e religiosas.

Mas essa abertura em breve encontrou um obstáculo com a condenação, no final de 2009, do funcionário terceirizado americano Alan Gross em Cuba e os desacordos sobre o destino de "Os Cinco" cubanos condenados por espionagem nos Estados Unidos.

2013 foi um ano de ténue aproximação, marcado por prudentes diálogos sobre migração e sobre a possibilidade de retomar o correio postal directo. Foi arrematado por um aperto de mãos entre Obama e Raúl no funeral de Nelson Mandela, em Dezembro, que alguns viram como algo mais que um mero gesto de civilidade.

A libertação hoje de Gross e de três d'"Os Cinco" e os planos para restabelecer as relações diplomáticas e flexibilizar mais as viagens, o comércio e o envio de remessas desde EUA abrem um novo e histórico capítulo na turbulenta relação entre Washington e Havana. EFE