REPUBLICA DIGITAL

sábado, 15 de Novembro de 2014

ACÇÃO JUDICIAL POPULAR CONTRA ACORDO ORTOGRÁFICO

ACÇÃO JUDICIAL POPULAR CONTRA ACORDO ORTOGRÁFICO

 


Freitas do Amaral, Manuel Alegre, Pacheco Pereira e Miguel Sousa Tavares são alguns dos subscritores de uma acção judicial popular contra a aplicação do Acordo Ortográfico no ensino público.


Mais de uma centena de personalidades de diversas áreas – incluindo académicos, escritores, músicos, actores e políticos de vários quadrantes – intentou, no Supremo Tribunal Administrativo, uma acção judicial popular contra a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) ao sistema de ensino público, do ensino primário ao secundário.

Manuel Alegre, Diogo Freitas do Amaral, António Arnaut, António Bagão Félix e Isabel Pires de Lima são alguns dos ex-governantes que subscrevem a acção, a par de José Pacheco Pereira e Miguel Sousa Tavares, dos músicos António Victorino d’Almeida, João Braga, Pedro Abrunhosa, Pedro Barroso ou Rão Kyao, dos escritores Joaquim Pessoa e Teolinda Gersão, da actriz Lídia Franco ou de professores e ensaístas, como Miguel Tamen, Raul Miguel Rosado Fernandes ou o prestigiado camonista e teórico da literatura Vítor Aguiar e Silva.

A acção judicial foi patrocinada por Francisco Rodrigues Rocha, docente da Faculdade de Direito da Universidade Lisboa, e a respectiva fundamentação foi preparada a partir de pareceres jurídicos de Ivo Miguel Barroso, docente da mesma faculdade, e de Fernando Paulo Baptista, filólogo que publicou um livro em que analisa o modo como a aplicação do AO90, ao impor “a supressão arbitrária” das consoantes “c” e “p”, contribuiu para distanciar a ortografia portuguesa das principais línguas europeias, do castelhano, francês, italiano ou romeno ao inglês e alemão.

Este mesmo conjunto de pessoas interpôs também um requerimento à Procuradora-Geral da República, solicitando que o Ministério Público intente uma acção pública contra a "imposição inconstitucional" do AO90.

Duas iniciativas que se vêm somar à queixa contra o AO90 que Ivo Miguel Barroso fez chegar no final de 2001 ao Provedor de Justiça e que não teve, até ao momento, qualquer resposta.

Se a acção popular vier a obter uma decisão favorável do tribunal, a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 nos vários escalões do ensino público, do 1.º ao 12.º ano, será considerada ilegal.


In Público

sexta-feira, 14 de Novembro de 2014

A INTERVENÇÃO DE PUTIN EM SOCHI: REUNIÃO DA VALDAI INTERNATIONAL DISCUSSION - 22-24 DE OUTUBRO DE 2014

A INTERVENÇÃO DE PUTIN EM SOCHI: REUNIÃO DA VALDAI INTERNATIONAL DISCUSSION - 22-24 DE OUTUBRO DE 2014

O que está acontecendo na Europa? Não direi o país, mas falando com um ex-presidente no Leste Europeu, ele me disse, com orgulho, “Ontem, nomeei um ministro do Exército”. Surpreendi-me: “É mesmo? E por que é um feito tão importante?” “O que você quer dizer com isso?!” – perguntou ele, e explicou: “Há anos, só nomeamos ministros do Exército ou comandantes militares depois de o nome ser aprovado pelo embaixador dos EUA”. Fiz “UAU!”, surpreso. “E por quê?”, perguntei. E ele: “Porque é assim. Disseram que, se quiséssemos nos unir à União Europeia, antes teríamos de nos unir à NATO. E, para nos unir à NATO, eles têm de aprovar os nomes para aqueles postos. Para garantir a disciplina militar”. E perguntei: “Mas, escute… Vocês venderam a própria soberania? Por quê? Quanto é que eles investiram no país de vocês?” Não vou dizer o que ele respondeu, porque logo se veria de que país estou falando. Era muito pouco. E eu: “Mas… vocês enlouqueceram? Por que fizeram isso?” E ele: “Foi assim que aconteceu”.

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“Não se trata de alguns simples negócios locais, ou de alguma partilha na esfera de influência, no espírito da diplomacia clássica; ou da total dominação global por alguma força. Entendo que precisamos de uma nova versão do que seja interdependência. Não há por que temê-la. Ao contrário, pode ser um bom instrumento para harmonizar posições” (Presidente Putin).

Este ano, 108 especialistas, historiadores e analistas políticos de 25 países, incluindo 62 participantes estrangeiros, participaram nos trabalhos do clube. A reunião plenária resumiu o trabalho do clube nos últimos três dias, que se concentraram a analisar os factores corroendo o actual sistema de instituições e normas do direito internacional.Trechos da transcrição da sessão plenária final da sessão da Valdai International Discussion Club’s XI session


PRESIDENTE DA RÚSSIA VLADIMIR PUTIN: Colegas, senhoras e senhores, amigos, é um prazer recebê-los nessa 11ª reunião do Clube Valdai de Discussão Internacional. Já se informou que o clube, esse ano, tem novos co-organizadores. Incluem-se organizações russas não governamentais, grupos de especialistas e as principais universidades. A ideia foi também ampliar as discussões para incluir não só questões relacionadas à própria Rússia, mas também da política e da economia globais. Espero que essas mudanças na organização e no conteúdo ampliem ainda mais a influência do clube como fórum avançado de discussão entre especialistas. Ao mesmo tempo, espero que o ‘espírito Valdai’ permaneça – essa atmosfera aberta e livre, e a possibilidade de se conhecerem as opiniões mais francas e diferentes.

Permitam-me dizer que, quanto a isso, não os decepcionarei e falarei directamente e francamente. Alguma coisa do que eu diga talvez pareça dura demais, mas se não falamos directamente e com honestidade, reuniões como essa não fazem muito sentido. Seria então melhor manter apenas convescotes diplomáticos, nos quais ninguém diz coisa alguma que tenha significado real e, recordando as palavras de um famoso diplomata, ocasiões em que se percebe que diplomatas têm línguas para conseguir não dizer a verdade.

Nos reunimos aqui por razões diferentes. Nos reunimos para falar com franqueza. Hoje temos de ser directos e claros, não para trocar farpas, mas numa tentativa de chegar ao fundo do que realmente se passa no mundo, para tentar compreender por que o mundo vai-se tornando menos seguro e menos previsível, e por que os riscos aumentam por toda a parte à nossa volta.

A discussão hoje tem por tema: Ordem Mundial: Ou novas regras ou vale-tudo. Parece-me que essa fórmula descreve acuradamente o ponto de virada histórico que alcançamos e a escolha que todos enfrentamos. Nada há de novo, é claro, na ideia de que o mundo está em rápida transformação. Sei que os senhores já falaram sobre isso nas discussões de hoje. O mais difícil, com certeza, é não ver as transformações dramáticas pelas quais estamos passando na política e na economia globais, na vida pública e nas tecnologias industriais, informacionais e sociais.

Peço desculpas antecipadas, se acontecer de eu repetir coisas que já tenham sido ditas por outros participantes dessa reunião. É praticamente impossível evitar. Vocês já mantiveram discussões detalhadas, mas eu exponho aqui o meu ponto de vista – que coincidirá com alguns e diferirá de outros pontos de vista.

Ao analisarmos a situação de hoje, não esqueçamos as lições da história. Primeiro de tudo, as mudanças na ordem mundial – e o que vemos hoje são eventos dessa grande escala – sempre vieram acompanhadas, quando não por guerras e conflitos globais, por intensos conflitos de nível local, encadeados. Segundo, a política global é questão, sobretudo, de liderança económica, questões de guerra e paz e sua dimensão humanitária, incluindo direitos humanos.

O mundo é cheio de contradições. Temos de nos perguntar com franqueza se temos instalada para nossa protecção uma rede confiável de segurança. Infelizmente, não há garantia nem certeza de que o actual sistema de segurança global e regional seja capaz de nos proteger. Esse sistema foi gravemente enfraquecido, fragmentado e deformado. As organizações internacionais e regionais de cooperação política, económica e cultural passam por tempos muito difíceis.

Sim, muitos dos mecanismos que há para garantir a ordem mundial foram criados há muito tempo, inclusive e principalmente durante o período imediatamente depois da 2ª Guerra Mundial. Permitam-me destacar que a solidez daquele sistema então criado dependia não só do equilíbrio de poder e dos direitos ‘de vitória’ dos países vitoriosos, mas também dependia do facto de que, por aquele sistema, os ‘pais fundadores’ não se respeitavam uns os outros, não tentavam não se atropelar uns os outros; o que faziam sempre era tentar alcançar acordos.

O principal é que esse sistema tem agora de desenvolver-se e, apesar dos seus muitos fracassos, tem de ser capaz, pelo menos, de manter a discussão dos problemas do mundo dentro de certos limites, e tem de regular a intensidade da concorrência normal entre países.

É minha convicção profunda que não podemos tomar esse mecanismo de verificações e contrapesos [orig. checks and balances] que construímos ao longo das últimas décadas, às vezes com muito esforço e dificuldades, e simplesmente rasgá-lo em tiras, sem construir algo que o substitua. Sem algum mecanismo que substitua o que houve, só nos restará, como instrumento, a força bruta.

O que precisamos fazer é levar avante uma reconstrução racional e adaptá-la às novas realidades no sistema das relações internacionais.

Mas os EUA, depois de se auto-declararem vencedores da Guerra Fria, não viram qualquer necessidade desse tipo. Em vez de estabelecer um novo equilíbrio do poder, essencial para manter a ordem e a estabilidade, tiveram iniciativas que lançaram o sistema existente de agudo e profundo desequilíbrio.

A Guerra Fria terminou, mas não terminou com assinatura de um tratado de paz com cláusulas claras e transparentes sobre respeitar regras existentes ou criar novas regras e padrões. Assim se criou a impressão de que os ditos ‘vitoriosos’ na Guerra Fria haviam decidido pressionar os eventos e reformatar o mundo para que atendesse às suas próprias necessidades e interesses. Quando o sistema existente de relações, a lei internacional e os ‘checks and balances’ apareceram como obstáculos na trilha rumo àqueles objectivos, todo o sistema existente foi declarado imprestável, antiquado, exigindo demolição imediata.

Perdoem-me a analogia, mas é como agem os nouveaux riches quando, de repente, põem as mãos numa grande fortuna, nesse caso sob a forma de liderança e dominação mundiais. Em vez de administrar com sabedoria a própria riqueza, também para o próprio benefício deles, parece-me que se puseram a cometer loucuras.

Entramos num período de interpretações divergentes e silêncios deliberados, na política mundial. A lei internacional foi forçada a bater em retirada repetidas vezes, ante o massacre que o niilismo impôs à lei. Objectividade e justiça foram sacrificadas no altar da conveniência política. Interpretações arbitrárias e enviesadas assumiram o lugar das normas legais. Ao mesmo tempo, o controle total sobre a impressa-empresa global de massas tornou possível, sempre que interesse, ‘noticiar’ que o preto seria branco e o branco seria preto.

Numa situação em que se via a dominância por um país e seus aliados, quando não os seus satélites, a busca por soluções globais frequentemente se converteram em tentativa para impor as próprias receitas universais ‘deles’. As ambições daquele grupo cresceram de tal modo que começaram a apresentar as políticas que só eles concebiam nos próprios corredores do próprio poder, como se fossem a visão de toda a comunidade internacional. E não são.

A própria noção de “soberania nacional” tornou-se valor relativo para muitos países. Na essência, o que estava sendo proposto era uma fórmula: quando maior a lealdade que manifestasse àquele único centro mundial de poder, mais a legitimidade de um ou outro regime governante.

Teremos adiante discussão aberta, e terei prazer em responder suas perguntas, mas quero usar também meu direito de fazer perguntas. Ao longo da discussão, todos podem tentar demolir o quadro e o argumento que acabo de construir e propor.

As medidas tomadas contra os que se recusam a submeter-se são bem conhecidas e foram tentadas e testadas muitas vezes. Incluem uso da força, pressão económica e propaganda, intromissão em assuntos domésticos, e apelos a uma espécie de legitimidade ‘supra-legal’, quando interventores ilegais tentam justificar a intervenção ilegal nesse ou naquele conflito, e a derrubada de governos que pareçam inconvenientes aos interventores. Recentemente, já há cada dia mais provas de que a chantagem mais desabrida foi tentada também contra vários governantes e líderes. Não é à toa de aquele ‘grande irmão’ está consumindo biliões de dólares para manter todo o mundo, inclusive os mais próximos aliados, sob vigilância.

Perguntemo-nos nós mesmos o quanto nos sentimos confortáveis com isso, se nos sentimos seguros, se estamos felizes vivendo nesse mundo, e se se tornou justo e racional? Talvez não haja razão real para nos preocuparmos? Talvez não seja o caso de perguntar perguntas difíceis? Quem sabe a excepcional posição dos EUA e o modo como conduzem a liderança deles seja uma bênção para nós, e a intromissão dos EUA em toda parte pelo mundo está produzindo paz, prosperidade, progresso, crescimento e democracia, e o melhor para nós seria relaxar e gozar essas felicidades?

Permitam-me responder que não, absolutamente não é o caso.

Diktat unilateral e a imposição de modelos produzidos por um, não por muitos, produzem resultados exactamente opostos. Em vez de conciliar os conflitos, aquela atitude só os leva à escalada; em vez de estados soberanos e estáveis, o que vemos é a disseminação de caos crescente, e em vez de democracia, o que se vê é os EUA a darem apoio a gente muito duvidosa, que vai de declarados neo-fascistas a islamistas radicais.

Por que apoiam esse tipo de gente? Apoiam-nos, porque decidiram usá-los como instrumento ao longo do percurso até conseguirem seus objectivos. Mas queimaram os dedos e recolheram a mão. Nunca canso de me surpreender com o modo como nossos parceiros repetem sempre os mesmos erros e caem sempre na mesma armadilha [(como dizemos em russo: “pisam sempre no mesmo ancinho”) [1].

Antes, patrocinaram movimentos islamistas extremistas para que dessem combate à URSS. Aqueles grupos aprenderam a combater no Afeganistão e, adiante, formaram os Talibã e a Al-Qaeda. O ocidente, se não os apoiou, no mínimo fingiu que não via o que se passava, e, pode-se dizer, garantiram informação e apoio político e financeiro aos terroristas internacionais que invadiram a Rússia (não esquecemos!) e países da região da Ásia Central. Só depois dos horrendos atentados terroristas cometidos em solo norte-americano é que os EUA acordaram e viram que o terrorismo é ameaça contra todos. Permitam-me relembrar que a Federação Russa foi o primeiro país a oferecer apoio ao povo norte-americano naquela ocasião, o primeiro a reagir como amigos e parceiros, ante a terrível tragédia do dia 11 de Setembro.

Em meus encontros e conversas com líderes norte-americanos e europeus, sempre falo da necessidade de combatermos juntos o terrorismo, como desafio numa escala global. Não podemos nos resignar a aceitar essa ameaça nem podemos dividi-la em diferentes ‘fatias’, usando parâmetros duplos, ambíguos. Nossos parceiros manifestaram concordância e acordo. Mas pouco tempo depois, e lá estávamos, de volta ao ponto de partida. Primeiro, foi a operação militar no Iraque, depois na Líbia, que foi empurrada à beira do colapso total. Por que a Líbia foi empurrada para a situação em que está hoje – um país à beira do esfacelamento e que se tornou campo de treinamento para terroristas?

No caso do Egipto, só a determinação e a sabedoria do governo actual salvou esse país árabe crucialmente importante, de mergulhar no caos, com extremistas instalados no poder. Na Síria, como no passado, os EUA e seus aliados começaram a financiar e armar directamente aos rebeldes, permitindo que recrutassem mercenários de vários países. Alguém pode me dizer de onde vem o dinheiro que abastece e mantém aquela gente, as armas que usam, os especialistas militares que mantêm a serviço deles? De onde vem tudo isso? Como é possível que o famoso “ISIL” tenha-se convertido em grupo tão forte, já praticamente um exército completo?

Quanto às fontes de financiamento, hoje, o dinheiro já não vem só de drogas, cuja produção aumentou não apenas alguns poucos pontos percentuais, mas multiplicou-se várias vezes, desde que as forças da coligação internacional instalaram-se no Afeganistão. Todos aqui sabem disso. Os terroristas também estão vendendo petróleo, com grandes lucros. O petróleo é produzido no território controlado pelos terroristas, que os vendem a preços inferiores aos do mercado, produzem e transportam petróleo. Mas alguém compra esse petróleo, revende esse petróleo e lucra nessa venda, sem sequer considerar o fato de que, assim, está financiando terroristas que, mais cedo ou mais tarde poderão estar atacando e semeando a destruição dentro desses países parceiros-de-terroristas.

Onde recrutam? No Iraque, depois que Saddam Hussein foi derrubado, as instituições do estado, inclusive o exército, estavam em cacos. Naquele momento, nós avisamos que tomassem cuidado, muito cuidado. Vocês estão desempregando milhares de pessoas. O que farão elas? Não esqueçam que essas pessoas foram (correctamente ou erradamente) a elite que governou uma grande potência regional. O que vocês estão fazendo daquelas pessoas?

O resultado? Dezenas de milhares de soldados, oficiais e activistas do antigo Partido Baath saíram às ruas e, hoje, já se incorporaram às fileiras dos exércitos terroristas. Talvez isso explique por que o chamado Estado Islâmico tornou-se tão eficaz, em termos militares. A Rússia alertou repetidas vezes sobre os perigos de acções militares unilaterais, intervenção nos negócios de estados soberanos e flertar com extremistas e radicais. Insistimos para que os grupos que enfrentam o governo central sírio fossem incluídos nas listas de organizações terroristas. De nada adiantou. Apelamos em vão.

A impressão que temos é que os nossos colegas e amigos estão sempre combatendo contra as consequências de suas próprias políticas, aplicando o próprio esforço para dar conta dos riscos que eles próprios criaram; e sempre pagam um preço altíssimo.

Colegas, esse período de dominação unipolar demonstrou convincentemente que manter um único centro de poder não torna os processos globais mais administráveis. Ao contrário, esse tipo de construção instável está mostrando a própria incapacidade para combater as ameaças reais, como conflitos regionais, terrorismo, tráfico de drogas, fanatismo religioso, chauvinismo e neo-nazismo. Ao mesmo tempo, abriu amplamente a estrada para o orgulho nacional inflamado, manipulando a opinião pública e deixando que o forte persiga e suprima o fraco.

Essencialmente, o mundo unipolar é simplesmente um meio para justificar a ditadura sobre os povos e países. O mundo unipolar tornou-se carga por demais desconfortável, pesada e não administrável, até para o autoproclamado líder! Aqui nessa reunião ouviram-se comentários precisamente nessa direcção e concordo com eles. Eis porque entendemos que qualquer tentativa, no actual estágio histórico, para recriar qualquer arremedo de mundo semi-bipolar é modelo conveniente para tentar perpetuar a liderança norte-americana. Não importa quem assuma o lugar central do mal, na propaganda pró-EUA, a URSS continua no mesmo antigo posto de principal adversário. O centro do mal pode ser o Irão, porque busca obter a tecnologia nuclear; ou a China, como maior economia do mundo; ou a Rússia, porque é super-potência nuclear.

Hoje, estamos vendo novos esforços para fragmentar o mundo, traçar novas linhas de divisão, montar coligações não para construir algo, mas dirigida contra terceiros, qualquer terceiro, criar a imagem de um inimigo como se via acontecer nos anos da Guerra Fria, e declarar-se com direito de liderar, ou de emitir o diktat, se os senhores preferirem. Durante a Guerra Fria, a situação era essa. Todos compreendemos e vemos precisamente isso. Os EUA sempre disseram aos seus aliados: “Temos um inimigo comum, um monstro terrível, o âmago do mal, e nós estamos defendendo vocês, nossos aliados, contra esse monstro, e, assim sendo, temos o direito de comandar vocês, obriga-los a sacrificar os seus interesses políticos e económicos e pagar a parte de vocês dos custos dessa defesa colectiva, mas nós, só nós, ficaremos no comando de tudo, é claro”.

Em resumo, vemos hoje tentativas, num mundo novo e em transformação, para reproduzir os modelos familiares da administração global, e tudo isso só para assegurar aos EUA aquela sua posição de excepcionalidade e, com isso, recolher dividendos políticos e económicos.

Mas essas tentativas são cada vez mais distanciadas e divorciadas da realidade e em contradição com a diversidade do mundo. Passos desse tipo inevitavelmente criam confrontação e contra-medidas, e têm efeito contrário aos efeitos buscados. É o que se vê acontecer quando a política põe-se a intrometer-se sem qualquer controle na economia, e a lógica das decisões racionais cede lugar à lógica da confrontação, que sempre fere as posições e interesses económicos de qualquer um, inclusive os interesses das empresas nacionais.

Projectos económicos conjuntos e investimentos mútuos objectivamente aproximam os países entre si, e ajudam a alisar o contexto dos problemas que haja nas relações entre os estados. Mas hoje a comunidade empresarial mundial enfrenta pressões sem precedentes, que lhe aplicam os governos ocidentais. De que competência e pragmatismo económico e empresarial e de que pragmatismo se pode falar, se só se ouvem palavras de ordem do tipo “a pátria-mãe está em perigo”, “o mundo livre está ameaçado” e a “democracia está por um fio”?! Por isso, todos têm de se mobilizar. Verdadeira mobilização política é, precisamente, mobilizar-se contra o que se vê hoje, no ocidente.

As sanções já estão minando as bases do comércio mundial, as regras da Organização Mundial do Comércio e o princípio da inviolabilidade da propriedade privada. Os EUA estão atacando violentamente o modelo liberal de globalização baseado em mercados, liberdade e concorrência, o qual, permitam-me relembrar, é modelo que beneficiou principalmente, até hoje, os países ocidentais. Agora, arriscam-se a perder a confiabilidade, como líderes da globalização. Já nos perguntamos a nós mesmos, por que as sanções seriam necessárias? Afinal, a prosperidade dos EUA repousa, em grande parte, sobre a confiança que recebem de investidores e possuidores estrangeiros de dólares e de seguros norte-americanos. Essa confiança está sendo minada e já há sinais hoje de desapontamento quanto aos resultados da globalização, visíveis em vários países.

O bem conhecido precedente caso de Chipre e as sanções politicamente motivadas só fazer reforçar a tendência na direcção de todos trabalharem para fortalecer a soberania económica e financeira de os seus próprios países ou de os seus grupos regionais, com vistas a encontrarem-se meios para os próprios países protegerem-se contra o risco de pressões externas. Já vimos mais e mais países à procura de se tornarem menos dependentes do dólar, construindo alternativas financeiras e sistemas alternativos de pagamento, além de outras moedas de reserva. Minha opinião é que os nossos amigos norte-americanos estão serrando o próprio galho onde pousaram. Não se podem misturar políticas e economia, mas é exactamente o que está acontecendo actualmente. Sempre entendi e ainda entendo que sanções politicamente motivadas são um erro grave, que feriria todos. Mas com certeza retornaremos a esse ponto, nas discussões, adiante.

Sabemos como essas decisões foram tomadas e que estão a pressionar. Mas permitam-me destacar que a Rússia não se deixará envolver, nem se declarará ofendida ou baterá a alguma porta, pedindo esmolas. A Rússia é um país auto-suficiente. Trabalharemos dentro do ambiente económico que tomou forma, desenvolveremos a produção e as tecnologias domésticas e agiremos de modo mais decisivo para fazer acontecer a transformação. Pressões externas, como se viram em ocasiões passadas, só farão consolidar nossa sociedade, nos manterão mais alertas e nos levarão a nos concentrar ainda mais em nossas metas de desenvolvimento.

Claro que as sanções são um grave incomodo. Eles tentam-nos agredir com essas sanções, bloquear o nosso desenvolvimento, e nos empurrar para o isolamento político, económico e cultural; em outras palavras, querem no forçar a viver no atraso. Mas o facto é que o mundo hoje é lugar muito diferente do que foi. Não temos absolutamente nenhuma intenção de nos deixar tirar da estrada, de deixar que nos empurrem para algum tipo de desenvolvimento fechado, lutando para sobreviver como uma autarquia. Sempre estamos abertos ao diálogo, inclusive sobre a normalização de nossas relações políticas e económicas. Contamos, quanto a isso, com a abordagem e a posição pragmáticas das comunidades de negócios nos principais países.


Há quem esteja dizendo hoje que a Rússia estaria supostamente dando as costas para a Europa – são palavras que provavelmente também se ouviram aqui, nas discussões –, e estaria procurando por novos parceiros comerciais, sobretudo na Ásia. Quero dizer aqui e agora que absolutamente não é o caso. A nossa política activa na região do Pacífico Asiático não começou ontem nem em resposta às sanções: é uma política que seguimos já há muitos anos. Como muitos outros países, inclusive países ocidentais, vimos que a Ásia está desempenhando um papel cada dia maior no mundo, na economia e na política, e simplesmente não nos podemos expor ao risco de não dar atenção a esses desenvolvimentos.

Quero repetir que todos os países do mundo estão fazendo o mesmo, e nós faremos exactamente isso, tanto mais que a vasta porção de nosso país é geograficamente parte da Ásia. Por que não poderíamos nos servir de nossas vantagens competitivas nessa área? Não fazê-lo seria sinal de visão extremamente estreita.

Desenvolver laços económicos com esses países e fazer avançar projectos conjuntos de integração também cria grandes incentivos para o nosso desenvolvimento doméstico. As tendências demográficas, económicas e culturais todas sugerem que a dependência de uma única super-potência diminuirá concretamente. É um assunto sobre o qual especialistas europeus e norte-americanos também estão escrevendo e falando.

Talvez desenvolvimentos em política global venham a espelhar o desenvolvimento que estamos vendo na economia global, a saber, concorrência intensa por nichos especiais e mudança frequente de líderes em áreas específicas. É inteiramente possível.

Não há dúvidas de que factores humanitários, como educação, ciência, atenção à saúde e cultura estão desempenhando papel maior na concorrência global. E isso também tem um grande impacto nas relações internacionais, inclusive porque esse recurso de “poder suave” [orig. ‘soft power’] dependerá em grande medida de realizações objectivas no desenvolvimento de capital humano, em vez de servir-se só de truques sofisticados de propaganda.

Ao mesmo tempo, a formação de um digamos “mundo policêntrico” (quero também chamar a atenção para isso) em si e por ela mesma não promove nenhuma estabilidade; de facto, o mais provável é que aconteça o exacto oposto disso. O objectivo de alcançar o equilíbrio global é converter um quebra cabeças extremamente difícil, em uma equação com várias incógnitas.

Assim sendo, o que o futuro nos reserva, se escolhermos viver não por regras – por mais que as regras sejam estritas e inconvenientes, mas viver absolutamente sem regra alguma? E esse cenário é inteiramente possível; não podemos descarta-lo, dadas as altas tensões que se verificam na situação global. Já se podem fazer muitas predições, levando em conta as tendências actuais, e, infelizmente, nenhuma delas é optimista. Se não construirmos um claro sistema de compromissos e acordos mútuos, se não construirmos os mecanismos para administrar e resolver situações de crise, os sintomas de anarquia global inevitavelmente aumentarão.

Hoje já se vê o aumento acentuado na probabilidade de todo um conjunto de conflitos violentos com participação, directa ou indirecta, das grandes potências mundiais. E os factores de risco incluem não só os tradicionais conflitos mundiais, mas também a instabilidade interna em estados separados, especialmente se se fala de nações localizadas nas intersecções de grandes interesses geopolíticos dos estados, ou na fronteira de continentes civilizacionais, culturais, históricos e económicos.

A Ucrânia, tema que, com certeza foi discutido longamente, e que tornaremos a discutir um pouco mais, é exemplo desse tipo de conflitos que afectam o equilíbrio internacional de poder, e creio que, certamente, não será o último caso. Daqui emana a próxima real ameaça de destruir-se todo o actual sistema de acordos para controle de armas. E esse processo perigoso foi lançado pelos EUA, quando unilateralmente se retirou do Tratado dos Mísseis Anti-balísticos [orig. Anti-Ballistic Missile Treaty] em 2002, e, na sequência, pôs-se, como continua até hoje, a só trabalhar para criar um sistema global de mísseis de defesa só deles mesmos.

Colegas e amigos,

Quero destacar que nós não começamos nada disso. Mais uma vez estamos deslizando para tempos nos quais, em vez de equilíbrio de interesses e garantias mútuas, é o medo e o equilíbrio na mútua destruição que impedem as nações de se engalfinharem em conflito directo. Na ausência de instrumentos legais e políticos, as armas voltam a ocupar o foco de toda a agenda global; estão já habituados, onde for e seja pelo meio que for, com ou sem sanções aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU. E se o Conselho de Segurança recusa-se a produzir tais decisões, então o próprio conselho é imediatamente declarado instrumento antiquado e inefectivo.

Muitos estados já não vêem qualquer outro modo de proteger a própria soberania, senão produzir as suas próprias bombas atómicas. É extremamente perigoso. Insistimos em que é preciso continuar as conversações; não só somos a favor de conversações como, também insistimos em dar continuidade a conversações para a redução dos arsenais nucleares. Quanto menos bombas atómicas houver no mundo, melhor. E estamos prontos para as mais sérias, concretas conversações sobre o desarmamento nuclear – mas só para conversações sérias, sem dois pesos e duas medidas conforme o caso, e sem duplifalar.

O que quero dizer com isso? Hoje, muitos tipos de armamento de alta precisão já estão bem próximos de serem armas de destruição em massa, pelas suas capacidades; e no evento de que todos renunciem às armas nucleares ou de redução radical do potencial nuclear, as nações líderes na criação e produção de sistemas de alta precisão terão clara vantagem militar. A paridade estratégica será rompida, o que é praticamente o mesmo que gerar desestabilização. O uso de um chamado primeiro ataque global preventivo pode ficar muito tentador: em resumo, os riscos não diminuem, mas intensificam-se.

Outra óbvia ameaça é a escalada ainda maior dos conflitos étnicos, religiosos e sociais. Esses conflitos são perigosos, não só pelo que são, mas também porque criam em torno deles zonas de anarquia, ausência de lei e caos, locais confortáveis para terroristas e criminosos, nos quais a pirataria, o tráfico de pessoas e o tráfico de droga prosperam.

Vale anotar que, no mesmo momento, nossos colegas tentaram de algum modo administrar esses processos, usar conflitos regionais e montar ‘revoluções coloridas’ para fazer avançar os interesses deles. Mas o génio escapou da garrafa. É como se os próprios pais das teorias do caos controlado não soubessem o que fazer da própria criatura; reina grande desordem naquelas fileiras.

Acompanhamos bem de perto as discussões, tanto da elite governante quanto da comunidade de especialistas. Basta examinar as manchetes da imprensa-empresa ocidental durante o último ano. A mesma gente é chamada “combatentes da democracia”, depois “islamistas”; primeiro escrevem sobre revoluções, depois chamam a coisa de “protestos” e “levantes”. O resultado é óbvio: só o caos global prospera e se expande.

Colegas, dada a situação global, é hora de começar a fixar alguns pontos fundamentais. É tarefa muitíssimo importante e necessária; é muito melhor que voltar cada um para seu o seu canto. Quanto mais todos nós encaremos nossos problemas comuns, mais nos vemos no mesmo barco, digamos assim. E a forma lógica para resolver dificuldades comuns é a cooperação entre nações, sociedades, encontrando respostas coletivas a desafios crescentes, e um mesmo gerenciamento conjunto de riscos. Claro que alguns de nossos parceiros, por alguma razão, só se lembram dessa verdade quando serve aos interesses deles.

A experiência prática mostra que as respostas conjuntas a desafios nem sempre servem como cura ou panaceia; e temos de compreender isso. Além do mais, em muitos casos, são coisas difíceis de alcançar; não é fácil superar as diferenças entre interesses nacionais, a subjectividade de diferentes abordagens, particularmente quando se trata de nações com tradições culturais e históricas diferentes. Mas mesmo assim há exemplos de que, com objectivos comuns e agindo-se baseados nos mesmos critérios, alcançamos, juntos, o sucesso verdadeiro.

Permitam-me recordar a solução que se deu ao problema das armas químicas na Síria e o diálogo substantivo sobre o programa nuclear iraniano, além do nosso trabalho nas questões da Coreia do Norte (República Popular Democrática da Coreia), que também levaram a alguns resultados positivos. Por que não se poderia usar essa experiência no futuro, para superar desafios locais e globais?

Qual seria a base legal, política e económica para uma nova ordem mundial que garanta estabilidade e segurança, ao mesmo tempo em que estimule a concorrência saudável, impedindo que se formem novos monopólios que impedem o desenvolvimento? É pouco provável que, nesse momento, alguém possa oferecer soluções já prontas e absolutamente exaustivas. É indispensável trabalhar muito, com a participação de ampla colecção de governos, empresas globais, sociedade civil e plataformas de especialistas como essa a nossa.

Mas é óbvio que resultados reais e bem-sucedidos só são possíveis se participantes-chaves dos negócios internacionais puderem aceitar que todos têm de harmonizar alguns interesses básicos, que têm de exercitar uma razoável auto-contenção, e dar exemplo de liderança responsável e positiva. Temos de identificar claramente onde terminam as acções unilaterais e temos de aplicar mecanismos multilaterais; e, como parte do movimento para tornar mais efectiva a lei internacional, temos de resolver o dilema entre as acções da comunidade internacional para garantir a segurança e proteger direitos humanos e o princípio da soberania nacional e de não intervenção em assuntos internos de qualquer estado.

As coligações nesses campos levam cada vez mais à interferência externa arbitrária em complexos processos internos e, cada vez mais, provocam perigosos conflitos entre actores-líderes globais. A questão de manter a soberania torna-se crucialmente importante para que se mantenha e fortaleça-se a estabilidade global.

Claro, discutir os critérios para o uso de força externa é extremamente difícil; é praticamente impossível separá-los dos interesses de cada nação. Mas é de longe muito mais perigoso quando não há acordos claros para todos, quando não se fixam com clareza as condições para intervenção necessária e legal.

Acrescento ainda que as relações internacionais têm de ser baseadas na lei internacional, a qual, por sua vez, decorre de princípios morais como justiça, igualdade e verdade. Talvez ainda mais importante seja o respeito pelos próprios parceiros e seus interesses. Essa é fórmula óbvia, mas apenas com seguir essa fórmula já se pode mudar radicalmente a situação global.

Tenho certeza de que, se houver vontade, podemos restaurar a efectividade do sistema de instituições internacionais e regionais. Sequer precisamos construir coisa alguma de novo, desde o rascunho; esse não é campo virgem, sobretudo porque as instituições criadas depois da 2ª Guerra Mundial são universais e podem receber substância-conteúdo moderno, adequado para que se consiga administrar a situação actual.

É verdade que melhorando o trabalho da ONU, cuja função central é insubstituível, como também a Organização para Segurança e Cooperação da Europa (OSCE), a qual, ao longo de 40 anos, provou ser um mecanismo necessário para garantir a segurança e a cooperação na região euro-atlântica. Devo dizer que mesmo agora, no esforço para resolver a crise no sudeste da Ucrânia, a OSCE desempenha papel muito positivo.

À luz de mudanças fundamentais no ambiente internacional, a crescente impossibilidade de manter os eventos sob controle e as muitas ameaças, precisamos hoje de um novo consenso global de forças responsáveis. Não se trata de alguns simples negócios locais, ou de alguma partilha na esfera de influência, no espírito da diplomacia clássica, ou da total dominação global por alguma força. Entendo que precisamos de uma nova versão do que seja interdependência. Devemos não temê-la. Ao contrário, pode ser um bom instrumento para harmonizar posições.

É uma nova versão particularmente relevante, dado o fortalecimento e o crescimento de algumas regiões do planeta, processo que exige objectivamente a institucionalização desses novos pólos, criando poderosas organizações regionais e desenvolvendo regras para a interacção entre elas. A cooperação entre esses centros acrescentará muito à estabilidade da segurança, da política e da economia globais. Mas, com vistas a estabelecer esse diálogo, temos de assumir, de início, que todos os centros regionais e os projectos de integração que se formam em torno deles têm de contar com iguais direitos para desenvolverem-se, de modo a que possam complementarem-se uns os outros; e ninguém possa empurrá-los artificialmente para a guerra ou para as oposições. Essas acções destrutivas sempre rompem laços entre os estados, e os próprios estados acabam expostos à acção de forças extremas, ou, mesmo, ao risco de total destruição.

Gostaria de rememorar os eventos do ano passado. Dissemos aos nossos parceiros norte-americanos e europeus que decisões apressadas, tomadas nos bastidores – por exemplo, sobre a associação da Ucrânia com a União Europeia – implicam sérios riscos para a economia. Nem chegamos a falar de política; só falamos de economia, dizendo que tais passos, tomados sem qualquer discussão ou acerto prévio, tocam os interesses de muitas nações, inclusive da Rússia como principal parceiro comercial da Ucrânia, e que era indispensável uma ampla discussão de todas as questões. Sobre discussões amplas e demoradas, gostaria de relembrá-los, por exemplo, que as conversações para o ingresso da Rússia na Organização Mundial do Comércio duraram 19 anos. Foi trabalho muito difícil, mas alcançou-se certo tipo de consenso.

Por que estou falando disso? Porque, ao implementar o projecto de associação da Ucrânia, nossos parceiros nos procuraram com os bens e serviços que têm a vender, pode-se dizer, pela porta dos fundos. Não aceitamos aquele tipo de negociação. Não aceitamos. Ninguém nos consultou sobre coisa alguma. Mantivemos discussões sobre todos os tópicos relacionados à associação da Ucrânia com a União Europeia, discussões persistentes, mas quero ressaltar que tudo isso foi feito de forma civilizada, indicando problemas prováveis, mostrando os argumentos e raciocínios óbvios. Ninguém quis nos ouvir e ninguém queria discutir coisa alguma. Disseram-nos, simplesmente: nada disso é da conta de vocês, ponto, fim das conversações. Em lugar de diálogo amplo mas – chamo a atenção para isso – sempre civilizado, a coisa toda acabou reduzida a derrubarem um governo; jogaram o país no caos, geraram colapso económico e social, inventaram uma guerra civil com número enorme de mortos.

Por quê? Quando pergunto aos meus colegas “por quê?”, já nada têm a dizer, ninguém diz coisa alguma. É isso. Estão todos desentendidos, sem saber o que aconteceu: dizem “aconteceu porque… aconteceu”. Se aquelas acções não tivessem sido estimuladas, o que aconteceu não teria acontecido. Afinal (e já falei sobre isso), o ex-presidente ucraniano Yanukovych assinou tudo, aceitou tudo, concordou com tudo. Por que fizeram o que fizeram? Com que objectivo? O que é isso? Será talvez meio civilizado de resolver problemas? Aparentemente, os que vivem de inventar novas “revoluções coloridas” consideram-se, eles mesmos, ‘artistas de génio’, e simplesmente não conseguem parar de “inventar”.

Tenho certeza de que o trabalho de associações integradas, a cooperação de estruturas regionais, devem ser construídas sobre base clara, transparente. O processo de formação da União Económica Eurasiática [orig.Eurasian Economic Union] é bom exemplo de transparência. Os estados que participam desse projecto informaram os seus parceiros com antecedência, especificando os parâmetros de nossa associação, os princípios de seu trabalho, que correspondem completa e totalmente às regras da Organização Mundial do Comércio.

Acrescento que também teríamos acolhido bem o início de diálogo concreto entre a União Eurasiática e a União Europeia. Mas eles nos recusaram tudo isso quase completamente, e não se sabe ainda exactamente por quê. O que haveria aí de tão assustador?

E, claro, com esse trabalho conjunto, seria de supor que precisamos nos engajar em diálogo (já falei várias vezes sobre isso, e recebi respostas de concordância de muitos de nossos parceiros ocidentais, pelo menos na Europa), sobre a necessidade de criarmos um espaço comum para cooperação económica e humanitária, que se estenda do Atlântico até o Oceano Pacífico.

Colegas, a Rússia fez suas escolhas.

A nossas prioridades são aprimorar ainda mais as nossas instituições democráticas e económicas abertas, crescimento interno acelerado, levando em conta todas as modernas tendências positivas que circulam pelo mundo, e consolidando nossa sociedade baseada em valores tradicionais e no patriotismo.

Temos um agenda pacífica, positiva e orientada para a integração; estamos trabalhando activamente com os nossos colegas na União Económica Euroasiática, na Organização de Cooperação de Xangai, com o grupo dos países BRICS e com outros parceiros. A nossa agenda visa o desenvolver de laços entre governos, não em aumentar a dissociação. Não temos planos para emendar blocos que não possam coexistir nem nos envolveremos em trocas de socos.

Todas as alegações e declarações de que a Rússia estaria tentando criar alguma espécie de império, atropelando a soberania dos países vizinhos são absolutamente sem fundamento.

Quero enfatizar que a Rússia não precisa inventar para ela nenhum tipo de lugar especial no mundo, exclusivo ou excepcional. Respeitamos os interesses dos outros e exigimos, simplesmente, que nossos interesses sejam levados em consideração e que a nossa posição seja respeitada.

Estamos todos conscientes de que o mundo entrou numa era de mudanças e transformações globais, quando todos precisamos de um grau específico de cautela, e de muita habilidade para evitar passos irreflectidos. Nos anos depois da Guerra Fria, os que participavam da política global perderam, em certo sentido, esses talentos e capacidades. Agora, temos de despertá-los outra vez. Se não o fizermos, todas as esperanças de desenvolvimento pacífico e estável não passarão de perigosa fantasia, quando o torvelinho que se vê hoje se revelar como um simples prelúdio, antes do colapso da ordem mundial.

Sim, é claro, e já disse várias vezes que construir uma ordem mundial mais estável é tarefa difícil. Falamos aqui de trabalho longo, demorado, penoso. Conseguimos desenvolver regras para interacção depois da 2ª Guerra Mundial, e conseguimos construir um acordo em Helsinki nos anos 1970s. O nosso dever comum é resolver esse desafio fundamental no actual novo estágio de desenvolvimento.

Muito obrigado pela atenção de todos. [...]



VLADIMIR PUTIN (a seguir comenta o que disseram o ex-primeiro ministro da França Dominique de Villepin e o ex-chanceler federal da Áustria, Wolfgang Schuessel):

Começo por dizer que, no geral, concordo com que disseram Wolfgang e Dominique. Apoio integralmente o que disseram. Quero, só, esclarecer alguns pontos.

Entendo que Dominique referiu-se à crise ucraniana como causa da deterioração das relações internacionais. Naturalmente, essa crise é uma das causas, mas não é a causa principal. A crise na Ucrânia é, ela mesma, um resultado de um desequilíbrio nas relações internacionais.

Já disse, na minha fala inicial, por que tudo aquilo está acontecendo, e meus colegas já mencionaram. Posso voltar a isso, se necessário. Mas, basicamente, o que se vê na Ucrânia é o resultado do desequilíbrio nas relações internacionais.

Quanto às questões que Wolfgang expôs, voltaremos a discuti-las: falaremos das eleições, se necessário e sobre o fornecimento de recursos energéticos à Ucrânia e à Europa.

Gostaria, porém, de responder ao que disse Wolfgang, que ele é optimista e que a vida é mais dura para os pessimistas. Já contei aquela velha piada sobre um pessimista e um optimista, mas não posso deixar de repetir aqui.

Nós os russos temos essa piada, muito antiga sobre pessimistas e optimistas: o pessimista bebe o seu conhaque e diz “Fede como percevejo”. O optimista cata um percevejo, esmaga o percevejo entre os dedos, cheira e diz: “Sinto um toque de conhaque!”. Melhor ser o pessimista que bebe conhaque, que o optimista que cheira a percevejos [risos].

Por mais que pareça que os optimistas vivam a vida melhor, o nosso objectivo comum, de todos, é todos vivermos uma vida decente (sem jamais beber demais). Por isso é preciso evitar crises, dar jeito conjunto nos desafios e ameaças e construir relações tais, na arena global que nos ajudem a alcançar aqueles objectivos.

Adiante, posso responder a outras coisas mencionadas aqui. Obrigado.

Jornalista Seumas Milne, britânico: Gostaria de fazer duas perguntas numa só. Primeiro, o senhor presidente, o senhor acredita que as acções da Rússia na Ucrânia e na Crimeia ao longo dos últimos meses foram reacção a regras que estavam sendo desrespeitadas e são exemplo de gestão do estado sem regras? E a outra pergunta é: a Rússia vê essas violações globais de regras como sinal de mudança na posição dela? Já se disse aqui que a Rússia não pode liderar a situação global existente; mas facto é que a Rússia está demonstrando que tem condições para liderar. Como o senhor responde a isso?

VLADIMIR PUTIN: Por favor, preciso que o senhor reformule a segunda parte da pergunta, que não compreendi. Qual, exactamente é sua segunda pergunta?

SEUMAS MILNE: Ouvi aqui que a Rússia não poderia aspirar a posições de liderança no mundo, considerados os efeitos do colapso da União Soviética, mas que pode influenciar qualquer líder que haja. Pergunto: É possível que a Rússia altere a sua posição, que mude de foco, como o senhor disse, em relação ao  Médio Oriente e a questões conectadas com o programa nuclear iraniano?

VLADIMIR PUTIN: A Rússia jamais alterou a sua posição. Somos um país que tem, tradicionalmente, um foco na cooperação e na busca de soluções conjuntas. Isso, para começar. Em segundo lugar, não temos nenhuma aspiração a qualquer tipo de liderança mundial. A ideia de que a Rússia estaria buscando algum tipo de exclusividade é falsa. Já disse exactamente isso, antes. Não estamos pedindo que nos dêem um lugar ao sol; simplesmente partimos da premissa de que todos os participantes nas relações internacionais devem respeitar os interesses dos demais. Estamos prontos a respeitar os interesses de nossos parceiros, mas esperamos que nossos interesses sejam igualmente respeitados.

Não mudamos a nossa atitude para o Médio Oriente , para o programa nuclear iraniano, para o conflito da Coreia do Norte, para o combate ao terrorismo e ao crime em geral e para o tráfico de drogas. Jamais mudamos as nossas prioridades nem sob a pressão de acções pouco amigáveis empreendidas por nossos parceiros ocidentais, liderados obviamente, nesse caso, pelos EUA. Não mudamos as nossas posições, nem sob o peso das sanções.

Contudo, também aqui tudo tem limites. Parto da ideia de que pode ser possível que circunstâncias externas nos forcem a alterar algumas de nossas posições, mas até aqui não houve qualquer situação extrema desse tipo e não temos intenção de mudar coisa alguma. Esse é o primeiro ponto.

O segundo ponto tem a ver com as nossas acções na Crimeia. Já falei sobre isso em várias ocasiões, mas, se necessário, posso repetir. Tem a ver com a Parte 2 do Artigo 1º da Carta das Nações Unidas – o direito das nações à autodeterminação. Está lá, bem claro, não só como direito à autodeterminação, mas como objectivo das Nações Unidas. Leia o artigo com atenção.

Não entendo por que as pessoas que vivem na Crimeia não teriam esse direito, exactamente como quem vive, por exemplo, no Kosovo. Também isso já foi mencionado aqui. Por que num caso o branco seria branco e, noutro caso, o branco seria preto? Jamais aceitaremos esse absurdo. Isso é uma coisa. A outra coisa muito importante é algo de que ninguém fala, então, gostaria de chamar a atenção dos senhores. O que aconteceu na Crimeia? Primeiro, houve o golpe antiestado em Kiev. Digam o que disserem, para mim é óbvio: o que houve lá foi golpe armado para tomada do poder.

O golpe foi festejado em muitas partes do mundo, por gente que não percebe a que pode levar aquele golpe; em outras partes do mundo há gente muito preocupada porque o poder foi tomado ali, por extremistas, por nacionalistas de extrema direita, inclusive neo-nazistas. Muita gente temeu pelo próprio futuro e pelo futuro da família, e reagiram de acordo. Na Crimeia, a população realizou um referendo. Insisto em chamar a atenção dos senhores para isso.

Não fomos nós, na Rússia, que decidimos que haveria referendo. A decisão a favor de haver um referendo foi decisão tomada pela legítima autoridade na Crimeia – o Parlamento da Crimeia, eleito há alguns anos, nos termos da lei que regia o país antes desses graves eventos. O Parlamento é o orgão de autoridade legítimo e o Parlamento declarou o referendo, e fez-se o referendo e, baseados nos resultados do referendo, a Crimeia adoptou a sua declaração de independência, exactamente como fez o Kosovo. Na sequência, a mesma autoridade da Crimeia requereu que o país voltasse a ser incorporado na Federação Russa, aceite como parte do estado russo.

A verdade é que, façam o que fizerem e digam o que disserem, tentando encontrar alguma ilegalidade nesse processo, não encontrarão, porque não há, se se considera o que diz a ONU, que declara (o que já se aplicou, antes, ao Kosovo) que a decisão a favor da autodeterminação não requer aprovação pela autoridade suprema de nenhum país.

Quanto a isso, sempre lembro um dito que se repete muito: “Se é permitido a Júpiter, não é permitido ao boi”. Não podemos de modo algum concordar com esse tipo de abordagem. É possível que o boi seja impedido de fazer algo, mas o urso nem perde tempo com pedir permissão. Por aqui vemos o urso como senhor da taiga, e tenho certeza absoluta de que o urso não tem planos para mudar-se para outras áreas climáticas – porque só aqui se sente bem. Mas tampouco deixará que lhe roubem sua taiga. Acho que já está bem claro.

Quais são os problemas da ordem mundial actual? Podemos falar com franqueza, aqui todos somos especialistas. Falamos, falamos, somos como diplomatas. O que aconteceu no mundo? Antes, o sistema era bipolar. Houve o colapso da União Soviética, o poder chamado União Soviética deixou de existir.

Todas as regras que governam as relações internacionais depois da IIª Guerra Mundial foram concebidas para um mundo bipolar. A União Soviética, é verdade, era chamada de “o Alto Volta com mísseis”. Talvez fosse, mas havia muitos mísseis. Além do mais, tínhamos políticos brilhantes, feito Nikita Khrushchev, que bateu com o sapato na bancada da ONU. E todo o mundo, a começar pelos EUA e NATO, pensou: melhor não mexer com esse Nikita… E vai que ele dispara um daqueles mísseis contra nós? E ele tem muitos. Melhor respeitá-lo.

Agora que a União Soviética já não existe, qual a situação e quais as tentações? Já não é preciso levar em consideração o que dizem os russos, a Rússia é muito dependente, passou por profunda transformação durante o colapso da União Soviética, e podemos agora fazer o que quisermos, sem dar atenção a leis e regras.

É exactamente o que está acontecendo. Dominique [de Villepin], há pouco, mencionou o Iraque, a Líbia, o Afeganistão e a Jugoslávia. E tudo, aí, foi enfrentado sem desrespeito à lei internacional? Por favor, não nos venham com contos de fadas.

Quer dizer que alguns poderiam ignorar tudo, mas a Rússia não poderia proteger os interesses da população russa na Crimeia e dos falantes de russo? Esqueçam. Nunca será feito desse modo. Não acontecerá.

Gostaria que todos compreendessem bem. Temos de nos livrar dessa tentação e das tentativas para arrumar o mundo como um ou outro bem entenda e prefira. Temos de criar um sistema equilibrado de interesses e relações do qual o mundo muito precisa e que o mundo que há muito espera. Para começar, temos de mostrar algum respeito pelos outros.

Como eu já disse, entendemos que o mundo mudou, e estamos prontos a tomar pé nesse novo mundo e ajustar o novo sistema ao novo mundo, mas nunca, em nenhum caso, nunca, permitiremos que seja quem for ignore completamente os nossos interesses.

Se a Rússia ambiciona assumir o papel de liderança? Não temos nem necessidade nem vontade de sermos super-potência – seria para nós um peso extra. Já falei da taiga: é imensa, ilimitável. Só para desenvolver o nosso próprio território, precisamos de todo o nosso tempo, a nossa energia e os nossos recursos.

Não precisamos nos envolver em questões, nos pôr a dar ordens à nossa volta, mas queremos que os outros fiquem fora dos nossos assuntos, e parem de fazer de conta que mandam no planeta inteiro. É só isso. Se há alguma área na qual a Rússia poderia liderar seria essa: afirmar sempre o poder da lei internacional.

PERGUNTA: O processo de paz entre palestinianos e israelitas entrou em total colapso. Os EUA jamais deixaram que o quarteto trabalhasse adequadamente. Ao mesmo tempo, o crescimento das colónias ilegais de israelitas em territórios palestinianos torna impossível criar um estado palestiniano. Recentemente, testemunhamos mais um violento ataque dos israelitas contra a Faixa de Gaza. Qual a atitude da Rússia nessa tensa situação no Médio Oriente? E o que o senhor pensa dos desenvolvimentos na Síria?

Uma pergunta para M. Villepin: o senhor falou de humilhação. O que poderia ser mais humilhante que a ocupação que a Palestina sofre já há tantos anos?

VLADIMIR PUTIN: Sobre a Palestina e o conflito israelita. É fácil, para mim, falar sobre isso, porque, primeiro, tenho de dizer e creio que todos podem ver, que as nossas relações com Israel transformaram-se muito e seriamente, ao longo da última década. Refiro-me ao fato de que muitas pessoas da extinta União Soviética vivem em Israel e a Rússia não pode ser indiferente ao destino daquelas pessoas. Ao mesmo tempo, temos relações tradicionais com o mundo árabe, especificamente com a Palestina. Importante, também, que a União Soviética – e a Rússia é sucessora legal da URSS – reconheceu o estado palestiniano. Nada disso foi alterado.

Finalmente, sobre as colónias. Partilhamos a visão dos principais actores nas relações internacionais: entendemos que as colónias são um erro grave. Já disse isso aos nossos parceiros israelitas. Entendo que as colónias são obstáculo a relações normais, e espero empenhadamente que tenham fim, e que um acordo pacífico entre as partes possam retomar o seu curso.

Partimos do facto de que esse conflito no Médio Oriente é uma das principais causas da instabilidade, não só na região, mas em todo o mundo. Viver de humilhar os povos que vivam naquela região, ou em qualquer outra parte do mundo, é sempre fonte de instabilidade e não é uma atitude que se possa manter por tempo algum. Naturalmente, é preciso encontrar os meios e as medidas que sejam aceitáveis para todos os que participam no processo e vivam naquela área.

É um processo muito complicado, mas a Rússia está pronta para usar todos os meios ao seu alcance para que se construa um acordo, inclusive com as  suas boas relações com as partes em conflito.

MIKHAIL POGREBINSKY, DIRECTOR do KIEV CENTER FOR POLITICAL AND CONFLICT STUDIES: Sr. Presidente, estou voltando da Ucrânia. Pela primeira vez em 70 anos, a Ucrânia passa por tempos muito difíceis. A minha pergunta tem a ver com a possibilidade de um acordo. Sobre o mesmo assunto, gostaria de voltar um pouco no tempo. O senhor disse que houve um momento em que se discutiu um formato trilateral: Rússia-Ucrânia-Europa. Naquela época, a Europa não concordou, depois do que se passaram vários eventos trágicos, inclusive a perda da Crimeia e a morte de milhares de pessoas.

Recentemente, a Europa, com Ucrânia e Rússia, concordavam que aquele formato, afinal, seria possível. Mais importante, foi aprovada uma Resolução sobre isso. Naquele momento, havia esperança de que a Rússia, com Europa e Ucrânia conseguiriam chegar a algum acordo e a Rússia se converteria em restauradora da paz na Ucrânia. A minha pergunta é: O que aconteceu depois? O que aconteceu entre Moscovo e Bruxelas, Moscovo e Berlim? – porque, hoje, a situação já parece tão totalmente insana! Ninguém sabe a que isso tudo levará. O que o senhor acha que aconteceu à Europa?

VLADIMIR PUTIN: Você sabe: o que aconteceu é que nada aconteceu. Havia acordos prontos e assinados, mas nenhum dos lados cumpriu integralmente o que prometera. De facto, o total cumprimento de todas as promessas pelos dois lados talvez fosse impossível. Por exemplo, as unidades do exército ucraniano deveriam deixar alguns locais onde se haviam instalado antes dos acordos de Minsk, e o exército das milícias populares deveriam deixar alguns postos que haviam conquistado antes daqueles acordos. Mas nem o exército ucraniano abandonou as posições que teria de abandonar, nem as milícias populares deixaram os postos que teriam de deixar. No caso das milícias, o argumento foi que não podiam sair e deixar ali as próprias famílias, porque temiam pela segurança delas, de pais, mães, esposas, filhos, netos. Aí está um importante factor humanitário. Estamos dispostos a fazer todos os esforços para conseguir que os acordos de Minsk possam ser implementados. Aproveito a sua pergunta para explicar, mais uma vez, a posição da Rússia: somos a favor de que todas as cláusulas e itens dos acordos de Minsk sejam respeitados pelos dois lados. Qual é o problema? No meu modo de ver, o principal problema é que não vemos nenhuma disposição, do lado de nossos parceiros em Kiev, a começar pelas autoridades, para resolverem a questão das relações com o sudeste do país, por vias pacíficas, mediante negociações. Vemos sempre a mesma coisa, sob várias formas: sempre a supressão pela força. Tudo começou com Maidan, quando decidiram suprimir Yanukovych pela força. Conseguiram e criaram essa onda de nacionalismo e, na sequência, acabaram criando vários batalhões nacionalistas.

Quando o povo do sudeste da Ucrânia não gostou do que viu, tentaram eleger os seus próprios corpos de governo e administração do estado, e foram presos durante a noite e metidos numa prisões em Kiev. Quando se viu o que estava acontecendo, a população armou-se, em vez de parar, pensar e tentar um diálogo pacífico. E Kiev mandou tropas para lá, com tanques e caças bombardeiros.

Deve-se dizer que a comunidade global recolheu-se no mais profundo silêncio, como se não esteja vendo tudo isso, como se nem existisse o crime de “uso de força desproporcional”. Repentinamente, esqueceram-se de tudo. Lembro-me muito bem o frenesim que tomou o planeta quando tivemos uma situação complicada no Cáucaso. Dia e noite, eu só ouvia falar que não podia “usar força desproporcional”. E, isso, quando eles já haviam usado bombas de fragmentação e até armas tácticas.

Vejam, nas actuais circunstâncias, é muito difícil para nós na Rússia conseguir acordo com o povo do sudeste da Ucrânia, de modo que os leve a cumprir a parte deles nos acordos. Eles sempre nos dizem que as autoridades em Kiev também não estão cumprindo a parte delas nos mesmos acordos.

Mas não há outro meio. Quero destacar que somos a favor da total implementação dos acordos pelas duas partes, e o mais importante que quero deixar claro – e quero que todos ouçam: se, que Deus nos livre, alguém for novamente tentado a usar a força para resolver definitivamente a situação no sudeste da Ucrânia, essa acção levará a situação a um impasse completo.

Na minha visão, ainda há lugar para um acordo. Sim, Wolfgang falou sobre isso e compreendi bem o que disse. Falou sobre as próximas eleições na Ucrânia e no sul do país. Sabemos disso e estamos constantemente discutindo isso. Hoje mesmo, pela manhã, voltei a discutir isso com a chanceler da Alemanha. Os acordos de Minsk determinam que as eleições no sudeste sejam feitas em coordenação com a lei ucraniana. Em coordenação, não sob o império da lei ucraniana.

Isso foi feito assim de caso pensado, porque ninguém, no sudeste, quer eleições regidas pela lei ucraniana. Por quê? Como seria possível tal coisa, quando há tiroteios todos os dias, gente morre dos dois lados… e querem que aceitem eleições sob a lei da Ucrânia? A guerra tem de acabar e as tropas tem de ser retiradas. Entenderam? Tão logo se consiga isso, pode-se começar a pensar em algum tipo de reaproximação ou cooperação. Enquanto não acontece, não se pode discutir nenhum outro tema.

Falaram da data das eleições no sudeste, mas poucos sabem que houve um acordo pelo qual as eleições no sudeste da Ucrânia deveriam acontecer dia 3/11. Adiante, a data foi modificada no próprio texto da lei, sem consultar ninguém, sem que o sudeste fosse ouvido. As eleições foram marcadas para 7/12, mas ninguém disse a eles. Foi quanto o povo do sudeste disse: “Vejam aí, nos enganaram outra vez. E sempre acontecerá exactamente assim”.

Todos podem discutir essa questão pelo tempo que quiserem. O mais importante é pôr fim imediatamente à guerra e retirar as tropas. Se a Ucrânia quer manter sua integridade territorial, e é algo que nós também queremos, eles têm de entender que não faz sentido manterem-se agarrados a uma vila ou outra – é completamente sem sentido. A ideia é pôr fim ao banho de sangue e começar um diálogo normal, construir relações baseadas nesse diálogo e restaurar pelo menos alguma comunicação, primeiramente na economia; depois outras coisas virão. Acredito que é o que temos de conseguir primeiro; depois podemos seguir adiante.

PROFESSOR DE CIÊNCIA POLÍTICA, DIRECTOR DO CENTER FOR GOVERNANCE AND PUBLIC POLICY, UNIVERSIDADE CARLETON (OTTAWA), PIOTR DUTKIEWICZ: Sr. Presidente, gostaria de, sendo possível, voltar à questão da Crimeia, porque tem importância chave para o Leste e para o Oeste. Gostaria de pedir que o senhor nos desse a sua narração dos eventos que levaram àquilo, especificamente por que o senhor tomou essa decisão. Teria sido possível fazer as coisas de outro modo? Como o senhor procedeu? Há detalhes importantes – como a Rússia fez o que fez dentro da Crimeia. Por fim, como o senhor vê as consequências dessa decisão para a Rússia, para a Ucrânia, para a Europa e para a ordem mundial normativa? Pergunto isso porque creio que milhões de pessoas gostariam de ouvir a sua narração pessoal daqueles eventos e o modo pelo qual o senhor tomou a decisão.

VLADIMIR PUTIN: Já perdi a conta de quantas vezes já falei sobre isso, mas falarei novamente.

Dia 21/02/2014, Viktor Yanukovich assinou os documentos bem conhecidos, com a oposição. Ministros de Relações Exteriores de três países europeus assinaram os próprios nomes na linha final daquele acordo, como avalistas dos acordos e de que seriam respeitados.

Na noite do mesmo dia 21/2/2014, o presidente Obama telefonou para o Kremlin e nós discutimos essas questões e como poderíamos ajudar a implementar aqueles acordos. A Rússia assumiu algumas obrigações. Ouvi pelo telefone que meu colega, o presidente Obama dos EUA, também estava pronto a assumir as mesmas obrigações. Isso, como disse, na noite do dia 21/2/2014. No mesmo dia, o presidente Yanukovch me telefonara para dizer que assinara o acordo, a situação estava estabilizada e ele estava indo a uma conferência na Cracóvia. Não vou negar que disse a ele, então, que muito me preocupava ele sair da cidade naquele momento. O presidente Yanukovich respondeu que entendia que não havia problema algum, porque o documento estava assinado com a oposição, e tinha o aval de ministros europeus.

Digo-lhes ainda mais. Eu disse a ele que não tinha lá muita certeza de que tudo estivesse muito perfeitamente resolvido, mas que cabia a ele decidir. O presidente era ele, ele conhecia a situação e saberia melhor o que fazer. “De qualquer modo, não acho prudente você retirar os policiais da rua, em Kiev”, eu disse a ele. Respondeu que OK, entendido. Virou as costas e mandou que todas as forças policiais em Kiev voltassem aos quartéis. Boa jogada, claro.

Todos sabemos o que aconteceu em Kiev. No dia seguinte, apesar de tudo que conversamos pelo telefone, apesar das assinaturas dos ministros europeus, no instante em que Yanukovich saiu de Kiev, o seu governo foi derrubado à força e o prédio da presidência foi invadido. No mesmo dia, atiraram contra a comitiva do Procurador-Geral da Ucrânia, ferindo um de seus guarda-costas.

Yanukovich telefonou-me e disse que queria que nos encontrássemos, para falar sobre os últimos acontecimentos. Acabamos acertando um encontro em Rostov, porque ele não queria viajar até muito longe. Eu estava realmente disposto a voar até Rostov. Mas logo se soube que ele não conseguiria nem chegar até lá. Já estava ameaçado directamente, estava cercado e mantido preso sob a mira de homens armados. Ninguém lá sabia o que fazer, para onde ir.

Não vou esconder: nós o ajudamos a viajar para a Crimeia, onde permaneceu por alguns dias. Naquele momento, a Crimeia ainda era parte da Ucrânia. Mas a situação em Kiev estava em rápida transformação, e por via armada. Sabemos o que aconteceu, embora o grande público talvez não soubesse – muita gente foi morta, alguns, queimados vivos. Invadiram a sede do Partido das Regiões, sequestraram os técnicos que trabalhavam ali e os queimaram vivos no porão. Naquelas circunstâncias, de modo algum o presidente poderia voltar a Kiev. Todos esqueceram acordos assinado, ministros europeus e todas aquelas conversas telefónicas. Sim, digo francamente: ele nos pediu ajuda para chegar à Rússia e nós o ajudamos. Foi tudo.

Ante tais desenvolvimentos, o povo na Crimeia organizou-se imediatamente, armaram-se e nos pediram ajuda para fazer o que queriam fazer. Outra vez, digo com toda a franqueza, que, sim, usamos nossas Forças Armadas para bloquear a acção de unidades ucranianas estacionadas na Crimeia, mas de modo algum obrigamos alguém a votar. Todos aqui somos adultos: é impossível obrigar milhões a votar. Como se faria tal coisa? Empurrar multidões para as urnas eleitorais, a tiro de canhão?

As pessoas foram votar como se fosse uma celebração – todos sabem que foi assim, e todos votaram, até os tártaros crimeanos. Houve um número menor de tártaros crimeanos, mas o comparecimento geral dos eleitores foi alto. Em geral a percentagem de eleitores que votam na Crimeia em geral era de 96 ou 94%, e houve um número menor de tártaros crimeanos. Mesmo assim, 97% dos que votaram votaram “sim” [à reintegração da Crimeia na Federação Russa]. Por quê? Porque os que não queriam a reintegração não apareceram para votar, e os que foram votar votaram “sim”.

Já falei várias vezes dos aspectos legais da questão. O Parlamento da Crimeia reuniu-se e aprovou o referendo. Outra vez: como alguém poderia dizer que nós arrastamos 12 pessoas até ao Parlamento e as obrigamos a votar? Nunca aconteceu e seria completamente impossível: se alguém não quisesse votar, bastava pegar um comboio, avião ou o próprio carro, e partir.

Todos foram, votaram, aprovaram o referendo e, depois, as pessoas votaram a favor de a Crimeia ser reintegrada na Rússia. E é tudo. O que isso teria a ver com as relações internacionais complexíssimas? Não é difícil ver o que está acontecendo, mas, se se evitam os chamados “padrões duplos” e aceita-se que todos têm direitos iguais, logo se compreende o que houve na Ucrânia. É necessário admitir o direito daquelas pessoas à autodeterminação.

DIRECTOR DO FINANCIAL TIMES PARA A EUROPA ORIENTAL, NEIL BUCKLEY (retraduzido do russo ao inglês e, aqui, ao português): Obrigado. Sou Neil Buckley, do Financial Times.

Senhor presidente, segundo ouvi, um de seus colegas internacionais disse que o senhor não considera a Ucrânia um verdadeiro país. Para o senhor, a Ucrânia seria um país formado de pedaços de outros países. O senhor confirma isso? É o que o senhor pensa? Ou o senhor acha que a Ucrânia tem o direito de existir como um estado soberano e independente, e é um verdadeiro país? A Novorússia – a região de que tanto se fala ultimamente – seria parte daquele país? Nesse caso, por que a imprensa, inclusive repórteres do meu jornal disseram que soldados usando uniformes russos estão na Novorrússia nesse preciso momento? Aproveito a oportunidade para dizer que confio na veracidade dos factos fornecidos por nossos repórteres, apesar de o trabalho deles estar sendo inadequadamente criticado por autoridades russas hoje. Obrigado.

VLADIMIR PUTIN: Em primeiro lugar, sobre o que penso sobre a soberania da Ucrânia: jamais neguei que a Ucrânia é um país Europeu, moderno, soberano, de pleno direito.

Outro assunto completamente diferente é o processo histórico pelo qual a Ucrânia modelou as actuais fronteiras, e que é bastante complexo. O senhor talvez não saiba, mas em 1922, parte das terras de que o senhor falou levavam o nome, histórico, de Novorússia. Por quê? Porque ali sempre houve uma única região, cujo centro sempre foi Novorossiisk, motivo pelo qual toda a região passou a ser chamada Novorússia. Essa região histórica incluía Cracóvia, Lugansk, Donetsk, Nikolayev, Kherson e a região de Odessa. Em 1921-22, quando foi formada a União Soviética, esse território foi transferido, da Rússia para a Ucrânia. A lógica dos comunistas era simples: queriam fazer aumentar o número de proletários na Ucrânia, para assim obter apoio em vários processos políticos, porque, pela visão dos comunistas, camponeses eram um grupo pequeno burguês hostil aos objectivos deles. E lhes interessava ter proletariado mais numeroso. Isso, para começar.

Além disso, aconteceu também, acho que durante a Guerra Civil, grupos nacionalistas na Ucrânia tentaram tomar aquelas regiões, mas fracassaram; e os bolcheviques disseram aos seus apoiantes na Ucrânia: “Prestem atenção ao que mostram ao povo ucraniano. Os nacionalistas não conseguiram assumir o controle sobre esse território, mas vocês conseguiram”. De qualquer modo, tudo era um só país naquele momento, e não se considerou grande perda para a Rússia, porque tudo continuava a ser parte do mesmo país.

Em 1954, Khrushchev, que era dado a bater com o sapato na tribuna da ONU, decidiu, por alguma razão, transferir a Crimeia para a Ucrânia. Essa transferência violava até as próprias leis da URSS. Explico melhor. Sob a lei soviética naquele momento, só se podia transferir território de uma república soviética para outra, se a transferência fosse aprovada pelos Sovietes Supremos de cada uma das repúblicas envolvidas. Nada disso foi feito. Em vez disso, o presidium do Soviete Supremo Russo e o presidium do Soviete Supremo Ucraniano “carimbaram” a decisão de prosseguir a transferência; mas só o presidium, não o Parlamento, de cada república. Foi flagrante a violação da legislação então vigente.

Nos anos 1990s, depois do colapso da URSS, a Crimeia pressionou e proclamou a própria autonomia, com amplos poderes. Infelizmente, as autoridades em Kiev começaram a abolir aqueles poderes autónomos e, essencialmente, reduziram-nos a zero, centralizando todos os processos políticos, económicos e financeiros. O mesmo vale também para o sudeste da Ucrânia.

Quando ao oeste da Ucrânia, talvez o senhor não tenha sido informado de que a Ucrânia “ganhou” mais alguns territórios, depois da IIª Guerra Mundial? Alguns territórios foram transferidos para a Ucrânia pela Polónia, outros pela Hungria, se bem me lembro. Lvov, por exemplo, sempre foi cidade absolutamente polaca?

O senhor não sabia desses factos? Por que, afinal, o senhor perguntou o que perguntou?

A Polónia foi compensada, com território que ganhou da Alemanha, quando os alemães foram forçados a retirar-se de várias regiões orientais. Se o senhor procurar informar-se, verá que ainda há associações inteiras desses alemães expulsos.

Não posso julgar aqui e agora se foi certo ou errado, mas são factos, foi o que aconteceu. Quem saiba sobre o que realmente aconteceu, não terá dificuldades em admitir que, nesse sentido, a Ucrânia passou por formação complexa do estado, na qual intervieram vários factores. Foi assim que os factos se encaminharam. O povo da Crimeia temia por eles próprios e pelo futuro de suas famílias, depois de um golpe de Estado feito com a ajuda dos nossos parceiros ocidentais. Então decidiram dar uso ao seu direito de autodeterminação, consagrado na legislação internacional. Mesmo assim, nada disso significa que nós não respeitamos a soberania da Ucrânia. Respeitamos e sempre respeitaremos a soberania da Ucrânia. Espero muito pela normalização e o desenvolvimento de relações russo-ucranianas, e acho que esse é um processo inevitável.

PERGUNTA: Senhor presidente, durante as discussões aqui neste Clube, falou um representante das autoridades russas e, dentre outras coisas, disse que “Putin é a Rússia e a Rússia é Putin.” Queria saber o que o senhor pensa desse slogan. Obrigado.

VLADIMIR PUTIN: Foi o afamado Rei Sol, Luis XIV, que declarou que a França era ele. Evidentemente, essa frase que o senhor traz está completamente errada. Não há dúvida alguma, para mim, que a Rússia é a minha vida. Isso é um facto. Nem por um segundo consigo imaginar-me sem a Rússia. Já falei sobre isso, sobre o muito que pesquisei a genealogia de minha família nos arquivos históricos. Todos vieram de regiões não distantes de Moscovo, a apenas 120 quilómetros. Há uma vila onde viveram os meus antepassados desde o século XVII, e todos os dias, ao longo de todos esses séculos, alguém da minha família esteve lá, rezando na mesma igreja. Nesse sentido sinto uma conexão com a terra russa e o povo russo e jamais conseguiria viver noutro lugar, fora da Rússia. É claro que a Rússia se daria muito bem, mesmo sem mim. A Rússia não vive com falta de russos. Há muitos.

Mas dado que cheguei ao local onde estou hoje e ao cargo que tenho hoje, entendo que é meu dever fazer o meu melhor para a prosperidade e o desenvolvimento da Rússia e para proteger os interesses da Rússia.

CONSELHEIRA SÉNIOR INTERNACIONAL, DO ESCRITÓRIO DE ADVOGADOS AKIN GUMP STRAUSS HAUER & FELD LLP, TOBY TRISTER GATI (retraduzido do russo ao inglês e, aqui, ao português): Falarei no espírito do Fórum Valdai. Espero que o senhor compreenda a minha pergunta, no mesmo espírito.

Há várias semanas, o Sr. Obama falou de três desafios: ebola, o Estado Islâmico e a Rússia, a Federação Russa, por causa dos eventos na Ucrânia.

A frase enfureceu os líderes russos. E devo dizer que o que ouvi hoje aqui, do senhor, não foi conversa sobre três desafios, mas sobre um único problema global que o senhor delineou – os EUA.

Alguns nos EUA considerarão bem vindo o que o senhor disse, porque não são comentários sobre soft power, talvez, não sobre alguma Guerra Fria, mas sobre uma “guerra quente” no sistema global criada pelos EUA.

Outros se surpreenderão com as suas palavras e o seu tom, porque muitos nos EUA não entendem que seja boa ideia destruir completamente os laços entre nós, e incluo-me entre esses.

Não acho que a política externa deva ser baseada em não levar em consideração os interesses russos, mas acho que os interesses dos EUA também têm de ser levados em conta.

Falando honestamente, não reconheço o país que o senhor descreveu em suas declarações.

A minha pergunta é: quem são os “eles” a que o senhor se refere nas suas declarações? É o presidente Obama, é a elite dos EUA que define as políticas externas, ou é o povo dos EUA? O que, para o senhor, é o “código genético dos EUA no mundo do pós-guerra”? O senhor disse que não pode trabalhar com os EUA em geral ou com os seus aliados mais próximos?

Mais uma pergunta: o senhor vê algum papel especial a ser representado por outros países, em particular a China?

Finalmente, e mais importante: que resposta o senhor espera dos norte-americanos, às suas palavras?

VLADIMIR PUTIN: Primeiro de tudo, eu jamais disse que via os EUA como ameaça. É o presidente Obama, como a senhora disse, que vê a Rússia como ameaça. Não me parece que os EUA sejam ameaça para nós. Acho, repetindo um clichê, que as políticas do establishment governante (dos EUA) são mal orientadas. Entendo que aquelas políticas não visam respeitar os nossos interesses e minam a confiança que se possa ter nos EUA, e, nesse sentido, agridem e comprometem os próprios interesses dos EUA, porque desgastam a confiança com que o país talvez pudesse contar, como líder económico e político global.

Há muitas coisas que podemos deixar sem comentar. Mas eu já disse, e Dominique mencionou também a mesma coisa, que uma acção unilateral, seguida por uma caçada à procura de aliados e tentativas para montar uma coligação depois que tudo já estava feito, não é caminho para alcançar qualquer tipo de acordo ou cooperação. Esse tipo de acções unilaterais tem sido frequente na política contemporânea dos EUA e leva a crises. Já falei sobre isso.

O presidente Obama falou sobre o Estado Islâmico como uma das ameaças. Mas quem ajudou a armar o pessoal que está lutando contra Assad na Síria? Quem criou o clima político e informacional favorável a eles? Quem promoveu a remessa de armas para eles?

Será que a senhora realmente não sabe quem está lutando lá? A maioria são mercenários. Será possível que não saiba que são pagos para lutar? Aquelas pessoas lutam por quem pague melhor, onde lhes paguem mais.

Quero dizer: recebem armas e salário para lutar. Já ouvi contar o quanto recebem. Depois de armados e pagos por serviços prestados, ninguém mais pode desfazer o que foi feito lá. Então, ouviram dizer que podem conseguir mais dinheiro noutro lugar, capturam campos de petróleo no Iraque e na Síria, digamos, começam a produzir e aparece quem lhes compre aquele petróleo roubado, transporta o petróleo roubado e vende o petróleo roubado.

Por que não se vêem sanções aplicadas aos envolvidos nessas práticas? Os EUA não sabem quem é responsável? Não serão aliados seus, os que fazem tudo aquilo? Não têm poder e meios para influenciar os próprios aliados, ou não querem fazer nada? Mas, sendo assim, por que estão bombardeando o Estado Islâmico?

O Estado Islâmico começou a produzir petróleo ali e podiam pagar melhores soldos, e alguns rebeldes da chamada “oposição civilizada” correram a juntar-se ao Estado Islâmico por causa do dinheiro.

Acho que toda essa política é extremamente rasa, de visão curta e extremamente incompetente, sem base na realidade. Ouvimos dizer que temos de apoiar a oposição democrática civilizada na Síria, e lá estão eles, recebendo apoio e armas. E dia seguinte, metade dos “rebeldes” desertaram e uniram-se ao Estado Islâmico. Era mesmo tão difícil prever que aconteceria exactamente o que aconteceu?

Opomo-nos a esse tipo de política dos EUA. Entendemos que é mal orientada e daninha a todos, inclusive aos próprios norte-americanos.

Quanto a levar os nossos interesses em consideração, seria maravilhoso se pessoas como a senhora estivessem encarregadas do Departamento de Estado. Talvez ajudasse a virar a situação que se vê por lá. Se não acontecer, peço-lhe que leve essa mensagem aos nossos parceiros, ao Presidente dos EUA, ao Secretário de Estado e outros altos funcionários: os russos não queremos nem estamos buscando qualquer tipo de confrontação.

A senhora acha que com algum respeito por nossos interesses muitos problemas se resolveriam. Sim, mas isso depende de acções, não só de palavras. Respeitar interesses dos outros significa, como já disse na abertura, que você não pode simplesmente apertar o torniquete no pescoço dos outros, servindo-se só de algum excepcional poder económico ou militar.

Não é boa coisa que os EUA estejam lutando no Iraque. A Líbia acabou em tal estado que o embaixador de vocês lá foi assassinado. E somos nós os culpados por tudo isso?! A certa altura, o Conselho de Segurança da ONU tomou a decisão de declarar uma zona aérea de exclusão sobre a Líbia, de tal modo que a força aérea líbia de Kaddafi não pudesse bombardear os rebeldes. Não acho que tenha sido a mais sábia das decisões, mas já foi. E o que aconteceu no final? Os EUA fazendo ataques aéreos, inclusive contra alvos no solo. Foi flagrante e grande, grave violação da Resolução do Conselho de Segurança da ONU e, essencialmente, um acto de agressão, sem uma Resolução que o apoiasse. E somos nós os culpados também por isso?

Vocês fizeram o que fizeram com as próprias mãos. E agora? Qual é o resultado? Um embaixador morto dentro da embaixada. A culpa? Vocês só se podem culpar a vocês mesmos. Que benefício os EUA obtêm, a favor de seus interesses, com um embaixador assassinado? Foi uma tragédia terrível. Mas os EUA não deveriam pôr-se logo a procurar bodes expiatórios, se quem errou foram os EUA. Ao contrário: têm de superar a obsessão de sempre dominar, têm de por sob controle as suas ambições imperiais. Os EUA têm de parar de envenenar a mente de milhões de pessoas com a ideia de que a única política possível para os EUA tem de ser a política com ambições imperiais.

Nunca esqueceremos que a Rússia ajudou os EUA a obter a independência. Nunca esqueceremos a nossa cooperação na aliança na Iª e na IIª Guerras Mundiais. Os povos norte-americano e russo têm profundos interesses estratégicos em comum. Temos de usar esses interesses estratégicos comuns para construir novas fundações.

REITOR DA ESCOLA DE ESTUDOS INTERNACIONAIS E AVANÇADOS DE ÁREA, NA NORMAL UNIVERSITY DO LESTE DA CHINA; DIRECTOR DO CENTRO DE ESTUDOS RUSSOS, FENG SHAOLEI: Senhor presidente, minha pergunta é sobre a modernização da Rússia. O senhor enfatizou várias vezes a noção de conservadorismo. Entendo que seja um conceito chave para a modernização da Rússia.

O senhor sabe muito bem que a Europa, os EUA e o Leste da Ásia também têm seus próprios conceitos de conservadorismo. O senhor pode explicar esse conceito, como o senhor o vê? Em que pontos difere de outros conceitos de conservadorismo? Será um conceito dominante na modernização da Rússia, ou terá um papel temporário, por determinado período? Muito obrigado.

VLADIMIR PUTIN: Para começar, não introduzimos o conceito de conservadorismo. O conservadorismo do qual falo é um pouco diferente da interpretação tradicional desse conceito, e do modo de abordá-lo.

Mas de modo algum significa que o conservadorismo seja algum tipo de auto-isolamento e relutância contra o desenvolvimento. Há um conservadorismo saudável que trata de usar o melhor de tudo que seja nova e promissor, para um desenvolvimento progressista.

Mas, antes de rasgarmos tudo o que há, as fundações, os pilares que nos mantiveram até agora e nos trouxeram ao ponto em que estamos hoje em termos de desenvolvimento, primeiro temos de compreender como os novos mecanismos operarão. Isso é extremamente importante. Significa que, se queremos sobreviver, temos de manter apoiados o pilares sobre os quais construímos as nossas sociedades ao longo dos séculos. Esses pilares incluem coisas como manter a atenção a mães e crianças, preservar a própria história e as nossas realizações, cuidar das nossas tradições, das nossas fés tradicionais. A Rússia acolhe quatro diferentes religiões tradicionais, todas reconhecidas por lei, e somos um país muito diverso.

Temos portando de criar uma base sólida a partir disso tudo, que nos ajude a modelar a nossa identidade como nação russa multi-étnica, comunidade russa multi-étnica, ao mesmo tempo em que permanecemos abertos ao que o mundo tenha a exibir de novo e efectivo, tudo que contribua para o nosso crescimento. Com certeza usaremos todas essas coisas.

Peço pois a todos que não distorçam as nossas palavras, nem suponham que falamos de conservadorismo que implique fechar portas e sentar sobre o passado. Nada disso tem qualquer coisa a ver com os nossos planos concretos.

PROFESSOR EMÉRITO DE ECONOMIA POLÍTICA NA WARWICK UNIVERSITY, ROBERT SKIDELSKY (retraduzido do russo para o inglês e daqui, para o português): Senhor presidente, tenho óptimas lembranças da sua visita a Londres. O senhor foi convidado de honra num jantar, em momento em que as relações entre os nossos países eram muito mais simples do que são hoje.

Gostaria também de levantar a questão da modernização e considerá-la pelo ângulo económico. Entendo que todos concordamos que o futuro lugar da Rússia no mundo, e lugar como grande potência depende enormemente de seu desenvolvimento económico. O senhor propôs que falássemos aberta e francamente e, nesses termos, será que posso sugerir que o principal fracasso dos seus três mandatos no governo desde 2001 ou o seu limitado sucesso, está na fraca diversificação, posto que a economia russa ainda depende dos preços do petróleo, que permanecem muito voláteis e com tendência de queda?

Quero perguntar o que o senhor pode fazer no seu terceiro mandato para aumentar a diversificação, fazer os negócios correrem melhor, suster a fuga de capitais russos, que continuam a ser consumidos em compra de imóveis em Londres, e para encorajar o investimento na Rússia? O que o senhor pode fazer para convencer outros a investirem na Federação Russa? Em resumo, que passos o senhor gostaria de tomar, agora ou no seu próximo mandato, talvez, para diversificar a economia da Rússia, de modo a que o seu país possa ter um papel importante no século XXI?

VLADIMIR PUTIN: Permita-me lembrá-lo de que a Rússia é o terceiro país que mais atrai investimentos estrangeiros directos, atrás só de EUA e China.

As sanções e os “jogos” em curso com vários índices provavelmente modificarão essa situação. Mas permita-me dizer que o desenvolvimento continua, não parou. Se lhe lembro correctamente, no ano passado atraímos cerca de US$ 93 biliões.

O que fazer para tornar a Rússia mais atraente? Que passos tomar e como responder a desafios que nos afectam, mudanças nos preços da energia que, por exemplo, como o senhor diz, estão muito voláteis?

Primeiro, montamos um grande programa para melhorar o clima para negócios. O Ministro do Desenvolvimento Económico disse-me ontem que já há progressos substanciais, no que tenha a ver com as novas condições que oferecemos. O índice “Doing Business” subiu vários pontos. É um reconhecimento de que os nossos esforços não foram em vão.

Temos diálogo constantemente em andamento com nossa comunidade de negócios, e construímos um plano amplo para acções conjuntas, e permita-me repetir que é um plano amplo para acções conjuntas, para pôr ordem no sistema bancário, simplificar o investimento e proteger o investimento privado. Temos um grande pacote de medidas. Sobretudo, estamos conseguindo, até aqui, levar avante esses planos.

Desenvolvemos um sistema de trabalho conjunto com a comunidade de negócios e estamos tentando nos manter informados com feedback ininterrupto sobre como as nossas decisões estão sendo implantadas na prática.

Também pusemos em andamento um sistema para desenvolvimento regional. Cobre todo o Extremo Leste do país e o leste da Sibéria. Enfatizaremos a oferta de condições especiais para negócios e empreendimentos naquelas regiões, sobretudo projectos em regiões virgens e incentivos para que as autoridades regionais possam apoiar esses projectos, com o estabelecimento de áreas preferenciais para o desenvolvimento. Nesse campo, temos todo um grande pacote de medidas e incentivos.

Os preços da energia, sim, sabemos que são voláteis. O senhor sabe que calculamos o nosso orçamento para 2015 com estimativa de preço médio de US$ 96 por barril. Mas cumpriremos todas as nossas promessas e compromissos com a sociedade. Que ninguém duvide disso. Não faremos nenhuma mudança repentina nos nossos indicadores macroeconómicos e na nossa política macroeconómica.

Vamos monitorizar as nossas reservas de ouro e a moeda de reserva e a taxa nacional de câmbio, e aos poucos nos mudaremos para uma taxa flutuante. Não jogaremos ao vento as nossas reservas, mas as usaremos para assegurar o necessário equilíbrio. Claro que prestaremos a máxima atenção ao índice de desemprego, que actualmente é baixo. Sendo necessário, cortaremos gastos ineficientes.

Mas quero repetir mais uma vez que o nosso principal interesse e toda a nossa atenção estarão concentrados em atrair investimentos, sobretudo investimento privado. Tenho confiança que trabalhar no mercado russo continuará a ser interessante para os nossos parceiros tradicionais.

Neste período, tivemos crescimento na produção industrial e no sector agrícola. Tenho absoluta certeza de que essa tendência continuará.

DIRECTOR DO CENTRO PARA ESTRATÉGIAS LIBERAIS EM SOFIA, BULGÁRIA, IVAN KRASTEV (retraduzido do russo para o inglês e, daqui, para o português): Alô, meu nome é Ivan Krastev.

Na Bulgária, para definir o pessimismo e o optimismo, dizemos que o pessimista é quem sente que a situação já chegou ao fundo do poço, e o optimista é quem sente que as coisas ainda podem ficar muito piores. Nesse sentido, sou optimista.

Tenho duas perguntas. Primeiro, o senhor tem tido uma posição muito dura quanto às pessoas que tomam as ruas em todas as partes do mundo. Mas tenho certeza de que as pessoas continuarão a tomar as ruas. Nos últimos cinco anos houve muitos protestos em muitos países. As pessoas estão infelizes. É o efeito das tecnologias existentes, é o resultado de que as pessoas não confiam em suas elites. O senhor acha que conseguiremos mudar o mundo sem uma revolução? O senhor não acha que devemos ser mais flexíveis nesse campo?

Minha segunda pergunta tem a ver com a Europa. Muita gente sente que a posição da Europa na crise ucraniana só se explica por causa da pressão dos EUA. O senhor acredita que a posição da Alemanha se explique pela pressão dos EUA?

VLADIMIR PUTIN: No que tenha a ver com os protestos, o senhor diz que tenho posição muito dura quanto a todos os protestos de massa no mundo. Não é verdade. Não tenho posição dura contra protestos de massa: tenho posição dura contra atitudes que desconsiderem e desrespeitem a lei. Protestos e manifestações de massa são método perfeitamente legítimo para manifestar opiniões e defender interesses, mas tudo tem de ser feito nos termos da lei. Não acho que revoluções sejam coisa recomendável. Já tivemos mais do que as suficientes dessas revoluções no século XX. Agora precisamos de evolução. Tenho certeza de que podemos avançar por esse caminho.

Quanto às sanções, não me cabe julgar se são ou não são resultado de pressão. O senhor, provavelmente, acompanha mais de perto como tudo isso aconteceu. O vice-presidente dos EUA, por exemplo, acaba de dizer recentemente que teve de pressionar fortemente os seus parceiros europeus para que eles aceitassem impor sanções. Quem disse foi ele, não eu. Assim sendo, sim, tudo leva a crer que tenham pressionado.

Os europeus precisam dessas sanções ou não? Em minha opinião, não precisam. Afinal, ninguém toma decisões sob pressão sobre sanções, nem nações pequenas. Uma grande nação como a Rússia com certeza nada fará na direcção dos passos que nossos parceiros gostariam de ver a Rússia adoptar, se pressionada. É uma atitude completamente contraproducente, e não leva a resolver problema algum.

Se as sanções nos afectam? Afectam. Agora mesmo respondi uma pergunta sobre isso. Só posso acrescentar que, apesar disso, a nossa produção industrial cresceu 2,5% nos primeiros oito meses desse ano. No ano passado, o crescimento fora de apenas 1,5% no mesmo período. No ano passado, a nossa agricultura cresceu 2,5% durante os primeiros oito meses do ano, enquanto que, esse ano, tivemos crescimento de 4,9% para o mesmo período de tempo. Estamos fechando o nosso orçamento com um superávit de mais de um trilião de rublos. Sim, as nossas reservas caíram um pouco e estão hoje em torno dos US$ 450 biliões. Tem a ver com o facto de que o Banco Central está usando esses fundos para corrigir o câmbio da moeda nacional. Mas como já disse, haverá limites para tudo; e nós não consumiremos impensadamente as nossas reservas.

É importante ter em mente que nós também temos reservas para o uso do governo: um fundo está em torno dos US$ 80 biliões; outro, em torno dos US$ 90-US$100 biliões. Quer dizer: temos, sim, reservas. Vamos usar essas reservas por determinado tempo, para ultrapassar os tempos mais difíceis, como já fizemos em 2008. Mas não viveremos só de nossas reservas. Trabalharemos para gerar força económica positiva, a partir da própria economia. Já falei sobre isso, ao responder a perguntas anteriores.

Assim sendo, não precisamos de revoluções para que as coisas funcionem efectivamente. Falemos de evolução.

Quanto às demonstrações de massa. Observemos o movimento Occupy Wall Street. O que foi feito deles? Foi morto ainda em botão. E ninguém diz que aquelas pessoas foram tratadas mal. Foram “bem tratadas”, mas foram completamente varridas do mundo, suprimidas completamente. Foram cercados tão firmemente, abraçados com tal fúria, que ninguém teve tempo de dizer uma palavra. E até hoje não se sabe o que foi feito do movimento, para onde foram. Nesse quesito, temos de conceder: sim, eles trabalham bem.

DMITRY SUSLOV: Dmitry Suslov, Escola Superior de Economia, membro do Valdai Club. Sr. presidente, o senhor mencionou o desenvolvimento da Sibéria e do Extremo Leste do país; é direcção extremamente importante. O senhor disse que é um objectivo estratégico para o século XXI. É provavelmente parte de um objectivo mais amplo de política exterior que o senhor declarou: uma mudança de direção rumo à Ásia e à região do Pacífico Asiático. Aliás, o senhor declarou essa mudança de direção praticamente ao mesmo tempo em que o presidente Obama, que definiu aproximadamente a mesma política para os EUA, o mesmo vector. Hoje, muita gente está preocupada porque, dadas as actuais tensões nas relações entre Rússia e o Ocidente, essa mudança de direção rumo à Ásia, na política externa russa pode perder o status de prioridade, pode ser adiada, de algum modo, o que seria lastimável, se se consideram as macrotendências do desenvolvimento global.

Mas a minha pergunta tem a ver com outra coisa. Desde que os EUA são, eles mesmos, uma das principais nações do Pacífico, muitos países no Leste e Sudeste da Ásia que são aliados dos EUA; e, no contexto das tensões actuais nas relações Rússia-EUA, será que não encontraremos dificuldades na condução de uma política para aumentar a nossa presença na política e económia na Região do Pacífico Asiático e, portanto, também na geração de impulso externo para desenvolver a Sibéria e o Extremo Leste da Rússia?

VLADIMIR PUTIN: Não penso assim. Se alguns países sucumbirem à pressão dos EUA e abandonarem qualquer cooperação com a Rússia, em detrimento de seus próprios interesses nacionais, é decisão deles.

Mas, o senhor sabe, já falei sobre isso, o mundo mudou. Hoje, é impossível suprimir tecnologias ou investimentos, se são lucrativos e benéficos. É impossível. Você consegue conter um ou outro processo por algum tempo, mas, em geral, não é método que leve ao desenvolvimento. Apesar de tudo que está acontecendo, apesar de todas as sanções, durante os seis primeiros meses de 2014, nosso comércio com a União Europeia ultrapassou os US$ 260 biliões. Não é coisa que tenha adoptado alguma via errática. Pode diminuir? Pode, imagino eu, se, por exemplo, cancelarmos todas as nossas exportações de energia para países da União Europeia. Queremos isso? É claro que não. Por que faríamos tal coisa, se tivermos do lado de lá um bom cliente, que pague o que compre e cumpra o que contrata?

O senhor imagina que possa acontecer, porque seria, digamos, o que querem os nossos parceiros na Europa? Não consigo sequer imaginar que desejem tal coisa. Por quê? Porque qual seria, para eles, a alternativa? As crises no Médio Oriente não são menos intensas que as nossas, talvez sejam mesmo mais agudas, muito mais, com a emergência do Estado Islâmico. – O que pode acontecer por lá? Suponha que apareça algum petróleo extraído do xisto, gás de xisto, dos EUA. É possível? Suponho que talvez seja, em alguns pontos. Mas quanto custará? Se os europeus se interessarem, será o caminho mais curto para perderem competitividade, porque isso será mais caro que nosso gás e nosso petróleo fornecido por nossos gasodutos e oleodutos, com “curta espera” até a entrega e logística com os pontos de extracção na Rússia. Significará simplesmente matar a competitividade deles. Não sei que espécie de colónia a Europa teria de ser, para aceitar esse negócio. Acho que o bom-senso prevalecerá e as coisa não chegarão a esse ponto.

O mesmo vale para a Ásia. Quem pode forçar grandes nações asiáticas a parar de cooperar com a Rússia em detrimento dos seus próprios interesses? São ilusões. E não precisamos alimentar essas ilusões. Em geral, é danoso, fundamentalmente danoso, construir políticas seguindo esses princípios, como é também danoso para a Europa continuar a tentar mandar nos outros, usando os velhos métodos. Também já falei sobre isso. Parece realmente que eles querem recriar um sistema bipolar, para continuar a aplicar o peso deles por aí pelo mundo.

O que está acontecendo na Europa? Não direi o país, mas falando com um ex-presidente no Leste Europeu, ele me disse, com orgulho, “Ontem, nomeei um ministro do Exército”. Surpreendi-me: “É mesmo? E por que é um feito tão importante?” “O que você quer dizer com isso?!” – perguntou ele, e explicou: “Há anos, só nomeamos ministros do Exército ou comandantes militares depois de o nome ser aprovado pelo embaixador dos EUA”. Fiz “UAU!”, surpreso. “E por quê?”, perguntei. E ele: “Porque é assim. Disseram que, se quiséssemos nos unir à União Europeia, antes teríamos de nos unir à NATO. E, para nos unir à NATO, eles têm de aprovar os nomes para aqueles postos. Para garantir a disciplina militar”. E perguntei: “Mas, escute… Vocês venderam a própria soberania? Por quê? Quanto é que eles investiram no país de vocês?” Não vou dizer o que ele respondeu, porque logo se veria de que país estou falando. Era muito pouco. E eu: “Mas… vocês enlouqueceram? Por que fizeram isso?” E ele: “Foi assim que aconteceu”.

Mas isso não pode prosseguir para sempre. Todos têm de entender, inclusive os seus amigos e parceiros norte-americanos. É impossível continuar a humilhar para sempre os próprios parceiros. É um tipo de relacionamento condenado a ruir. Sei que é. Estou aqui há muito tempo. Você pode arrastá-los e consegue forçá-los a fazer uma coisa ou outra, mas não dura para sempre, com certeza não, na Ásia – especialmente não, na Ásia. Há países ali que realmente – há uns poucos países assim no mundo – que realmente controlam a própria soberania. Valorizam a própria soberania e não permitirão intrusões.

DIRECTOR DE PESQUISAS NO GERMAN-RUSSIA FORUM, ALEXANDER RAHR: Sr. presidente, uma pergunta sobre energia. A Europa congelará no inverno, se a Rússia não assinar o acordo com a Ucrânia, que é tão importante para nós?

O senhor pode, por favor, explicar aos presentes, que acho que já conhecem todos os detalhes, qual é o empecilho nessas conversações? Por que ainda não houve acordo com a Ucrânia, depois de dois, três meses, apesar de tantas e tantas reuniões?

E outra pergunta: como o senhor construirá a nova estratégia de energia com a União Europeia, que repentinamente mudou as regras e pôs-se a liberalizar o seu mercado, e oferece um preço para comprar gás da Rússia? O que pensa o senhor sobre isso?

VLADIMIR PUTIN: Começarei pela parte final da sua pergunta. Há muito tempo discutimos com os nossos colegas na Comissão Europeia sobre o 3º Pacote de Energia [orig.Third Energy Package], o que implica que o problema não começou ontem. Sentimos que essa decisão é danosa para a Europa. À primeira vista, parece que teria havido liberalização, que se teriam criado condições de mercado. De facto, como nós entendemos, não foi nada disso, porque tudo já foi liberalizado há muito tempo no sector do petróleo; o petróleo é negociado na bolsa e o preço é acertado na bolsa. Claro, sempre se pode manipular parcialmente o preço por algum tempo, aumentando muito o volume a comercializar, aumentando a produção, mas não é coisa que se possa manter para sempre, porque agrediria gravemente os produtores de gás de xisto e os tradicionais exportadores do ouro negro.

No sector de gás, por exemplo, nada é mais sustentável que contratos de longo prazo que são atados aos preços do mercado para o petróleo. É um sistema de preços absolutamente justo. O que seria mais liberal que o preço de mercado para o petróleo, negociado em bolsa? Há parâmetros standard que indicam o valor calorífico do gás, comparável ao valor calorífico do petróleo, e os especialistas calculam tudo facilmente. E um importante factor para os nossos consumidores europeus é que podem ter certeza de que o volume será garantidamente entregue conforme essas regras para determinar o preço. Assim se gera confiança na segurança energética europeia. E a Rússia jamais – repito: jamais – deixou de cumprir compromissos assumidos, nos termos em que foram assumidos, nunca, nem uma vez.

Em 2008, houve uma crise, porque a Ucrânia praticamente bloqueou o trânsito. Mas a Rússia não foi responsável por isso. Independente do que se diga, os especialistas sabem perfeitamente o que aconteceu desse modo.

O que aconteceu em 2008? A Ucrânia não quis assinar um novo contrato com a Rússia, e o antigo havia expirado. E sem assinar um novo contrato, eles puseram-se a extrair determinados volumes de gás do gasoduto de exportação, no inverno. De início, até toleramos, apenas dissemos, bem claramente, que não seria tolerado para sempre e que aquele comportamento era inaceitável. Quando nada aconteceu, anunciamos que reduziríamos o volume de gás bombeado, redução equivalente ao que estava sendo extraído ilegalmente – na verdade, estava sendo roubado – no caminho. Num dia, roubaram 1 milhão de metros cúbicos de gás; no dia seguinte, reduzimos em 1 milhão de metros cúbicos o gás bombeado. E assim continuamos, dia após dia. Até que chegamos a zero gás enviado. Mas não foi um acto nosso. Não podemos doar gás gratuitamente. Que espécie de comportamento foi aquele?!

Agora, sobre as actuais ameaças e o que está acontecendo ali. Como o senhor deve saber, o ano passado, para ajudar a Ucrânia a pagar a dívida acumulada desde 2013 – pararam de pagar em Julho passado e, em Novembro, a dívida se acumulava – e, para ajudar a normalizar a situação, dissemos então, como continuamos a repetir até hoje: emprestamos US$ 3 biliões a vocês, e reduzimos o preço do primeiro trimestre de 2014 até abaixo do mínimo. Mas só manteremos esse preço para o segundo trimestre, se a Ucrânia usasse o empréstimo que receberia, para pagar toda a dívida até 2013, e passasse a fazer pagamentos regulares [para cobrir o empréstimo], a juros baixíssimos – de US$ 268,5/mil metros cúbicos.

O resultado é que a dívida do ano anterior não foi paga, e os pagamentos correspondentes ao 1º trimestre não foram feitos integralmente. Assim, em estrito respeito aos termos contratados, a Gazprom voltou a praticar os preços inicialmente contratados, sem qualquer redução. Como todos sabemos, o contrato foi assinado em 2009. Foi vigente durante todos esses anos e jamais foi questionado por nossos parceiros europeus, por nós ou por nossos amigos ucranianos. O contrato é legal e vigente durante todos esses anos. Foi assinado pelo governo Timoshenko. As actuais autoridades em Kiev, inclusive o ministro Prodan de Energia, assistiram à cerimonia de assinatura do contrato e sabem de tudo isso. E agora, de repente, põem-se a dizer que o contrato foi mal feito e que teria de ser revisto. Por quê? A única coisa sobre a qual ninguém tem qualquer dúvida é que eles não querem pagar o que devem.

Todos conhecem esses números, mas quero repetir. No ano passado, emprestamos US$ 3 biliões. A dívida oficial, para esse ano, já chegou aos US$ 5,6 biliões. Mesmo assim, estamos dispostos a reduzir, com um desconto de US$ 100 no preço do gás. Reduzirá os números em US$ 4,5 biliões para o ano passado e o corrente ano. Então: um empréstimo de US$ 3 biliões, mais a dívida vencida de US$ 4,5 biliões, fazem um total de US$ 7,5 biliões.

Além disso, o [banco] Gazprombank emprestou à sua cliente na Ucrânia, uma empresa privada, US$ 1,4 bilião para comprar gás para a indústria química, a preço ainda mais baixos de US$ 268/mil metros cúbicos. O mesmo Gazprombank deu à empresa ucraniana Naftogaz, outros US$ 1,8 bilião, para equilibrar as contas correntes.

Ninguém lá quer pagar o que deve. Assumimos uma responsabilidade enorme. Agora já concordamos com quase tudo: o preço e o procedimento para pagar. Quero destacar que nos termos do contrato e de acordo com os acordos feitos e vigentes, a Gazprom passou a exigir pagamentos adiantados. Significa que só embarcaremos gás que já tenha sido pago antecipadamente. Nos termos de antes, nós embarcávamos o gás e recebíamos um mês depois. Mas, dado que eles não pagam, não podemos manter o mesmo procedimento. Já está resolvido, e foi resolvido em consideração estrita ao que está posto e assinado em contrato: primeiro eles pagam, depois embarcamos o gás. Todos, aliás, já concordaram com tudo isso: os nossos parceiros ucranianos e a Comissão Europeia, todos admitiram que a nossa decisão é perfeitamente justa: eles têm de pagar o que devem e têm de pagar adiantado pelo gás no futuro.

O FMI e a Comissão Europeia confirmaram o que dizem os nossos amigos ucranianos. A Ucrânia tem agora US$ 3,1 biliões para pagar o que deve. Não paga toda a dívida de US$ 4,5 biliões. Tecnicamente, poderíamos assumir posição mais dura e declarar que queremos receber tudo o que nos é devido. Tive de pressionar a Gazprom, e peço desculpas aos accionistas, inclusive accionistas estrangeiros pelo que fiz, mas pedi que a Gazprom aceitasse receber só os US$ 3,5 biliões, e deixasse para discutir depois o balanço da empresa.

Quer dizer, então, que eles têm US$ 3,5 biliões. Mas dizem: “ou usamos esse dinheiro para pagar a dívida, e ficamos sem dinheiro para pagar adiantamentod pelo gás futuro, ou pagamos adiantados pelo gás futuro, mas, nesse caso, não temos com o que pagar a dívida. Nesse segundo caso, pediremos um adiamento no prazo para pagar a dívida, até Março ou Abril de 2015”. O que isso significa para nós? Posso dizer, com considerável grau de certeza que, se aceitarmos essa proposta, não receberemos nada pelo mês passado. Já aconteceu incontáveis vezes. Então, decidimos que não e não: não voltaremos a fazer esse tipo de mau negócio.

O que sugeriu a Comissão Europeia – sugestão feita publicamente por Mr. Ettinger? Sugeriram que emprestemos o dinheiro aos nossos parceiros ucranianos para que paguem pelo gás futuro. Mais dinheiro emprestado a eles, ou embarcamos o gás sem pagamento antecipado. É também um empréstimo – commodity loan, nesse caso. Dissemos aos nossos amigos na Ucrânia e na Comissão Europeia que não faríamos mais tal coisa. O total de empréstimos que já fizemos à Ucrânia chega hoje a quase US$ 11 biliões. Em Janeiro, a Ucrânia recebe mais uma parcela de US$ 3 biliões, emprestados pelo FMI. Dissemos então que sabemos que a Ucrânia terá esse dinheiro em Janeiro e que queremos receber; então, que mudassem a data daquele pagamento, de Janeiro, para Dezembro, para nos pagar e poderem receber gás. A resposta que nos deram é que não é possível alterar os prazos do FMI, por causa do complicado processo de decisão do FMI. Sugeri então que fizessem um empréstimo-ponte à Ucrânia, só por um mês, dado que todos sabem que a tal parcela está prevista para ser paga em Janeiro. A resposta foi que a Comissão Europeia não podia tomar tal decisão na União Europeia, por causa dos seus complicados procedimentos para conceder empréstimos. OK. Então, pedimos que algum banco europeu de primeira linha nos desse uma garantia do pagamento. E outra vez, lá veio a mesma conversa sobre os procedimentos complexíssimos, que não seria possível providenciar rapidamente a garantia bancária que pedimos.

Sabem, a nossa mentalidade, aqui na Rússia e na Ucrânia, é diferente da Europa. Aqui, se um homem convida uma mulher para jantar, ele paga a conta; vocês preferem à holandesa, cada um paga a sua parte. Mas a coisa aí é diferente. A União Europeia escolheu a associação com a Ucrânia e assumiu alguns compromissos. OK. Por que não podem ajudar a Ucrânia e fazer um empréstimo-ponte, por apenas um mês?

Estamos mantendo a discussão amigável e muito profissional com os nossos parceiros, na Ucrânia e na Comissão Europeia. Assumimos uma enorme responsabilidade e enormes riscos e achamos absolutamente justo que esses riscos sejam divididos com os nossos parceiros europeus e norte-americanos. Por que eles insistem em humilhar a Ucrânia com aquelas esmolas de $40 milhões? O que farão com tão pouco dinheiro. Dêem-lhes pelo menos US$ 1,5 bilião, e só por um mês.

Espero que tudo isso se resolva logo, talvez na próxima semana. Se acontecer, não se fala mais de ameaças. Mas se não acontecer, e outra vez tivermos de enfrentar os assaltos ao gás enviado pelos gasodutos de exportação… não sei, mas a crise será quase inevitável. Não queremos que aconteça. A Rússia jamais, em nenhum caso, seria a causa da crise. Cumpriremos todos os nossos compromissos contratuais e embarcaremos a tempo o gás pago.

PETER LAVELLE (retraduzido do russo para o inglês e, daqui, para o português) [2]: Tenho muito prazer em vê-lo, Sr. presidente.

Queria fazer uma pergunta em nome da média, porque todas as perguntas foram muito interessantes. Por vários dias, discutimos muitas das questões que foram mencionadas aqui, nessa reunião plenária. Mas eu gostaria de falar sobre a sua imagem no mundo.

Sou norte-americano, como todos podem ver pelo meu sotaque. Há alguns norte-americanos aqui. O senhor é, provavelmente, o político mais fortemente demonizado em todo o planeta. Vemos nisso uma demonstração de vários níveis de ignorância, de incapacidade para falar e estabelecer os necessários contactos e buscar a necessária informação. Por outro lado, se se considerar um ponto de vista global, o senhor é uma das figuras mais conhecidas e populares de toda a história moderna. Posso até dizer que, visto de mais longe – de mais longe da zona euro e dos EUA – o senhor é visto como um salvador, um homem que está conseguindo salvar o mundo de mais guerras e mais desgraças. O que o senhor pensa sobre isso?

VLADIMIR PUTIN: Para começar, quero que cuidem para me entender correctamente. Eu se fizer uma ou outra referência histórica, não implica que eu esteja me comparando a um ou a outro. Sem esse cuidado, muita coisa pode ser distorcida.

Mas quando Bismarck apareceu na arena europeia internacional, disseram que seria um homem perigoso, porque dizia o que lhe passava realmente pela cabeça. Da minha parte, procuro sempre dizer o que realmente penso, e conversar sempre de modo directo e efectivo. É coisa que, de um lado, agrada muito; e também pode não agradar nem um pouco, principalmente aos que não possam suportar ou conviver com a minha procura de clareza e transparência. Mas a Rússia pode.



PRESIDENTE E FUNDADOR DO CENTRO DE INTERESSES GLOBAIS EM WASHINGTON, NIKOLAI ZLOBIN: Fez-se justiça. O meu nome é Nikolai Zlobin, do Centro de Interesses Globais, Washington, D.C.

VLADIMIR PUTIN: O seu sobrenome já parece uma ameaça [o sobrenome Zlobin deriva de uma raiz do russo, zlo, “o mal”].

NIKOLAI ZLOBIN: O senhor conhece o “Dr. Evil [“Dr. Mal”, personagem de “000 Um agente nada discreto – Austin Powers”]? É como a minha mulher me chama, às vezes.

VLADIMIR PUTIN: A sua mulher deve saber do que fala.

NIKOLAI ZLOBIN: Trata-se sempre de contrastes, Sr. presidente, como o senhor acaba de dizer. O senhor surpreendeu-me, hoje. Falando francamente, esperava ouvir avaliações mais duras, na sua fala. O senhor foi muito diplomático.

VLADIMIR PUTIN: É o meu sobrenome. Diferente do seu. Acho que estamos andando numa ou noutra direcção. [“Putin” deriva de uma raiz do russo put – “a trilha”, o “caminho”].

NIKOLAI ZLOBIN: Pois a direcção é exactamente o que gostaria de descobrir. Fiz uma anotação aqui, sobre o modo como o senhor descreveu o mundo moderno e, no geral, concordo com ela: injustiça, monopólio do poder, tentativas para pressionar, manipulação e propaganda. Frequentemente, é exactamente assim que a vida política russa é descrita em Washington, onde vivo. Só para dar-lhe uma ideia do ponto de vista oposto. Mas a minha pergunta nada tem a ver com isso.

Eu estava nos EUA no dia 11/09/2001. Vi, naquele dia, os EUA mudarem completamente. Hoje é outro país. Hoje é um país mais duro. Os níveis de tolerância desabaram. O nível de aprovação do presidente chegou às alturas, do dia para a noite. Todos tornaram-se muito patriotas. Os EUA tornaram-se mais agressivos na sua política externa e fecharam-se para o resto do mundo.

Posso estar errado, e me convençam, por favor, de que estou errado, mas tenho a impressão de que a Rússia está começando a repetir os erros que os EUA cometeram. O senhor é presidente com altíssimo grau de aprovação, e é óptimo. Mas esse fantástico patriotismo que há em seu país, em minha opinião, está começando a dividir-se nos dois ramos, o certo e o errado, de patriotismo. O ramo bom é dos que apoiam o senhor e tudo que o senhor faz; o ramo ruim é dos que têm coragem para criticá-lo ou, digamos, que discordam do senhor em algumas questões. Acho que, em alguns casos, o patriotismo assume expressões de uma forma muito perigosa de nacionalismo, que está crescendo rapidamente na Rússia, como a vejo.

Simultaneamente, discordarei de algo que o senhor disse em sua fala. Acho que a Rússia fechou-se recentemente, para o mundo. Não só porque o mundo está expulsando a Rússia, mas também porque a Rússia está fazendo coisas que a fecham para o resto do mundo. Alguns programas de intercâmbio de estudantes foram cancelados, algumas ONGs perderam o financiamento que tinham, mesmo que não estivessem envolvidas em política, e há procura de agentes estrangeiros e de pessoas que possam obter dupla cidadania. Há muitas coisas das quais eu poderia falar – coisas que, na minha visão, falam de certa tendência. Eu costumava acreditar que quanto mais a Rússia se integrasse na comunidade global, e o mundo na Rússia, mais seguro para todos. Mas parece que o senhor decidiu de outro modo: quanto menos a Rússia – a sociedade civil russa – integra-se ao mundo, mais segura a Rússia sentir-se-á.

Ao longo dos anos, desde o 11/9, os EUA, onde vivo, provaram-me que se converteram num estado e sociedade menos democráticos. Tenho a impressão de que a Rússia vai-se tornando menos democrática. Se eu estiver errado, por favor, aponte onde está o meu erro. Muito obrigado.

VLADIMIR PUTIN: Primeiro, sobre se a Rússia está se fechando nela mesma ou não. Já falei sobre isso, e vou repetir – não temos nenhuma intenção de nos fechar em nós mesmos. O facto é que outros estão tentando deixar a Rússia do lado de fora. Isso é óbvio. Os seus líderes já disseram tudo isso em público – disseram que querem castigar a Rússia, que a Rússia pagaria caro, que seria convertida em estado pária e tal. O que não se sabe é como essa segregação ajudaria a resolver questões globais – e parece, isso sim, que eles também se dão conta de que é impossível.

Assim sendo, quero reiterar que não temos nenhuma intenção de nos fecharmos – não é o nosso objectivo. Além do mais, creio que só nos faria mal. Quero, contudo, dizer aos que estão tentando nos segregar que é uma iniciativa fútil e impossível no mundo contemporâneo. Há 40, 50 anos, talvez tivesse sido possível, mas hoje não. Com certeza fracassarão todas as tentativas nessa direcção. E quanto a isso os nossos colegas perceberem que é assim, melhor.

Quanto ao patriotismo crescente, você comparou-o aos EUA. Faz sentido. Por que aconteceu nos EUA? Por que está acontecendo aqui? A razão é a mesma: as pessoas sentiram-se em perigo. Nos EUA, depois do 11/9, ninguém mais se sentia seguro e todos se reuniram em torno da liderança do país. Os líderes teriam de reagir de modo que correspondesse à confiança que estava sendo depositada neles. Não tenho muita certeza de que tenha acertado em tudo que fizeram. Agora, que já passou tanto tempo desde a invasão do Afeganistão, pode-se ver a extensão das perdas. Agora a coligação quer sair de lá, mas não há clareza alguma sobre o que acontecerá depois. É complicado. Seja como for, tudo teve a ver com o modo como eles reagiram naquele momento. Essa é uma parte da resposta à sua pergunta.

A outra parte de sua pergunta é sobre as várias ONGs e tal. Não implica de modo algum que estejamos fechando o país. Por que você pensa assim? O que fizemos foi feito para nos auto-defender. A Rússia não aprovou a lei sobre os “agentes estrangeiros”. Essa é uma lei norte-americana, onde o senhor vive. Essa lei foi aprovada lá. Agora, eles me dizem que essa lei foi aprovada nos anos 30, como protecção contra o nazismo e a propaganda. OK, mas, a lei foi abolida? Não, não foi.

Além disso – e também já falei sobre isso – alguns participantes de actividades políticas têm sido interrogados por agências norte-americanas. A lei portanto continua vigente e é usada. E nós não estamos fechando ONGs que, digamos, trabalham com os EUA ou vivem de dinheiro que recebem dos EUA, se realmente trabalham na esfera da educação, saúde, atendimento humanitário. O senhor disse que programas educacionais foram cancelados. Não é verdade. Não foram. O governo anunciou recentemente a implementação de um desses programas. Talvez a informação que o senhor tem tenha a ver com alguma limitação de orçamento, não sei. Mas não passa disso.

Temos muitos professores convidados em nossas principais universidades; vêm até do Extremo Oriente, para trabalhar aqui, em todas as nossas universidades. Estamos introduzindo um sistema de chamadas mega-bolsas, em que intelectuais e professores renomeados de várias universidades do mundo, inclusive dos EUA, vêm trabalhar aqui por seis meses ou por mais tempo, para formar equipes de pesquisa.

Somos contrários a qualquer actividade política, feita dentro da Rússia, e financiada por grupos de fora daqui. Nem tente me dizer que os EUA permitem tal coisa. Não permitem. Proíbem a presença de observadores de fora até em áreas próximas das zonas eleitorais. O Procurador-Geral ameaça prender quem insista. Os EUA expulsaram representantes da Organização de Segurança e Cooperação da Europa, OSCE. E o senhor quer-me falar de democracia…

Um ex-governante europeu disse-me que “Que espécie de democracia há nos EUA, se você não consegue nem concorrer a eleições, se não tiver um bilião, e mais, agora já é preciso ter vários biliões de dólares?!” Que espécie de democracia é aquela? E os EUA elegem presidente por um sistema de delegados eleitorais. Na Rússia temos democracia directa. Já disse várias vezes: vocês sabem que a Constituição é redigida de tal modo que o número de eleitores que votem num dado candidato pode ser maior, enquanto o número de pessoas que ele representa é menor. O presidente pode ser eleito por uma minoria de eleitores. Isso é democracia? A Democracia é o povo no poder. Que povo está no poder nos EUA. Não há. E, a todo o tempo, o senhor tenta nos convencer de que os russos é que não têm um governo democrático.

Claro que temos as nossas dificuldades. Há dificuldades no sistema, muitas delas claramente herdadas do passado. Temos muita coisa para modificar. Estamos modificando gradualmente, mas não por via revolucionária. Para mim, já houve revoluções demais no século XX, basta de revoluções. Agora estamos caminhando por uma via do aprimoramento, da evolução.

Sei perfeitamente que há muitas críticas ao sistema de selecção [de candidatos a postos de governos regionais] no corpos do poder local e outros. Mas nada que seja muito radicalmente diferente do que se vê em outros países que o senhor não considera como não democráticos. Estamos atentos e tentando afinar o sistema. Não temos desejo algum de voltar ao nosso passado de totalitarismo. Não porque tenhamos medo de alguma coisa, mas porque esse caminho leva a um beco sem saída – tenho pessoalmente certeza disso e, o que é muito mais importante, a sociedade russa também tem certeza disso. A democracia trabalha com vários tipos de instrumentos; são muito variados e têm de corresponder ao nível actual de desenvolvimento de cada sociedade.

Por exemplo: recentemente, houve eleições no Afeganistão. O Secretário de Estado dos EUA foi para lá para “organizar” as eleições, dizendo o que deviam fazer lá, para a contagem dos votos. Absurdo! Que democracia é essa?!

Lembro-me de que me falaram do Afeganistão como amostra de democracia, o que foi feito daquele país. Ridículo. Seria engraçado, se não fosse tão triste.

Além do mais, nós os russos estamos abertos ao diálogo e à mudança.

Sobre as ONGs: muitas delas foram “enquadradas”, como dizemos aqui, mas não estavam envolvidas em política, como depois descobrimos. Erramos. Temos de consertar.

NIKOLAI ZLOBIN: E sobre o nacionalismo?

VLADIMIR PUTIN: O patriotismo pode facilmente se converter em nacionalismo. Concordo, nisso, com o senhor: é tendência muito perigosa. Temos de manter isso em mente e cuidar para que não aconteça. É perigoso para o país. Sou o maior patriota que há na Rússia. Mas a maior e mais apropriada modalidade de patriotismo aparece quando se age e conduzem-se políticas que visam a beneficiar a maior quantidade de pessoas do povo.

Mas o nacionalismo pode significar intolerância contra o diferente de nós, chauvinismo – e isso destruiria a Rússia, que foi formada como um estado multi-étnico e multi-confessional. O nacionalismo nos levaria não só para um beco sem saída, mas, também, para a autodestruição. A Rússia fará o máximo possível para garantir que isso não aconteça.

Traduzido da transcrição em inglês pelo pessoal da Vila Vudu (Com algumas correcções para o português de Portugal)


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