O SISTEMA INTERNACIONAL SIONISTA E OS SEUS GUARDIÃES: A CAMPANHA CONTRA FRANCESCA ALBANESE E A CRIMINALIZAÇÃO DA VERDADE
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O SISTEMA INTERNACIONAL SIONISTA E OS SEUS GUARDIÃES: A CAMPANHA CONTRA FRANCESCA ALBANESE E A CRIMINALIZAÇÃO DA VERDADE


O que verdadeiramente perturba o sistema, na intervenção de Albanese, não é a suposta «incitação ao ódio». É a clarividência com que ela identifica o inimigo comum não como uma nação, uma etnia ou uma religião, mas como estrutura: o sistema internacional sionista-ocidental que capturou as instituições globais, que colonizou o léxico dos direitos humanos, que neutralizou a ONU, que instrumentaliza o Holocausto para legitimar um novo Holocausto, e que transformou a defesa incondicional de Israel no princípio não-escrito mas absoluto da governança global.


Por República Digital

A recente exigência do ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot — e, entretanto, também do seu homólogo alemão, Johann Wadephul — para a demissão imediata de Francesca Albanese, Relatora Especial das Nações Unidas para os Territórios Palestinianos Ocupados, não constitui um incidente isolado nem um mero excesso retórico da diplomacia europeia . Trata-se, isso sim, de mais um episódio na campanha sistemática, metódica e implacável que o establishment ocidental e o aparelho de influência sionista movem contra todos aqueles que ousam nomear o óbvio: que o genocídio em Gaza não é uma catástrofe natural, mas um projecto político meticulosamente financiado, armado, justificado e encoberto pelas potências ocidentais, com os Estados Unidos da América à cabeça e a França e a Alemanha como zelosos cúmplices.

O crime de Francesca Albanese, aos olhos dos seus verdugos, foi ter afirmado, no Fórum da Al Jazeera em Doha, uma verdade tão simples quanto insuportável para o sistema: «Nós, que não controlamos grandes capitais financeiros, nem os algoritmos, nem as armas, constatamos agora que, como humanidade, temos um inimigo comum.» E clarificou, subsequentemente, para que não restassem dúvidas aos manipuladores de plantão: «O inimigo comum da humanidade é o sistema que permitiu o genocídio na Palestina» .

Não disse «Israel é o inimigo comum». Disse o sistema. Disse o mecanismo. Disse a arquitectura internacional que, longe de deter o Estado de apartheid, lhe forneceu os mísseis, o véu diplomático, o oxigénio financeiro e a cumplicidade mediática para, durante mais de dois anos, reduzir Gaza a escombros e exterminar mais de setenta e um mil palestinianos — na sua esmagadora maioria, crianças e mulheres —, com dezenas de milhares ainda por contabilizar sob os destroços que ninguém pode remover porque os próprios serviços de emergência são sistematicamente alvejados .

A resposta do sistema foi célere, orquestrada e exemplar na sua hipocrisia. Barrot acusou Albanese de dirigir as suas críticas «não ao governo israelita, cujas políticas podem ser criticadas, mas a Israel como povo e como nação, o que é absolutamente inaceitável» . Esta é a cartilha clássica da propaganda sionista: transmutar a crítica estrutural ao regime em suposto «ódio ao povo»; reconverter a denúncia do apartheid em «antissemitismo»; refugar a acusação do genocídio em «discurso de ódio». É uma operação de inversionismo semântico que tem servido, há décadas, para imunizar Israel contra qualquer escrutínio sério e para transformar os seus críticos — por mais moderados, rigorosos e juridicamente fundamentados que sejam — em párias institucionais.

A União Europeia, que se arroga a defesa do direito internacional e dos direitos humanos, exibe aqui o seu mais grotesco duplo padrão. Enquanto Bruxelas desenvolve manuais para censurar «discurso de ódio», «retórica populista» e «sátira política» na internet europeia, os seus Estados-membros financiam, protegem e louvam um regime que pratica diariamente crimes de guerra, que mantém um sistema jurídico de apartheid sancionado por lei fundamental, e cujos líderes são objecto de mandados de captura do Tribunal Penal Internacional. A Comissão Europeia não produziu, até à data, um único manual para moderar os discursos de incitamento ao genocídio proferidos por ministros israelitas; não censurou as declarações públicas que comparam os palestinianos a «animais humanos»; não exigiu a demissão de qualquer diplomata sionista que tenha apelado ao lançamento de uma bomba nuclear sobre Gaza. Esses discursos, ao que parece, não são «ódio»: são política externa legítima de um aliado estratégico.

O mesmo se diga de Washington. O Departamento de Estado sancionou Francesca Albanese em Julho de 2025, acusando-a de «guerra política e económica contra os EUA e Israel» e de «antissemitismo desavergonhado» . Ora, quem está em guerra política e económica contra quem? É Washington que fornece a Israel três mil e oitocentos milhões de dólares anuais em assistência militar; é Washington que vetou, repetidamente, resoluções do Conselho de Segurança que exigiam um cessar-fogo; é Washington que mantém uma base de dados de entrada e intercepta navios iranianos ao largo do Iémen, mas jamais bloqueou um único cargueiro carregado de bombas destinadas a Telavive. E é Washington que, sob a administração Trump, intensifica agora uma campanha global para financiar organizações alinhadas com o MAGA na Europa e impor a sua visão da «liberdade de expressão» — aquela que, convenientemente, exclui a solidariedade com a Palestina e a denúncia dos crimes de Israel.

O que verdadeiramente perturba o sistema, na intervenção de Albanese, não é a suposta «incitação ao ódio». É a clarividência com que ela identifica o inimigo comum não como uma nação, uma etnia ou uma religião, mas como estrutura: o sistema internacional sionista-ocidental que capturou as instituições globais, que colonizou o léxico dos direitos humanos, que neutralizou a ONU, que instrumentaliza o Holocausto para legitimar um novo Holocausto, e que transformou a defesa incondicional de Israel no princípio não-escrito mas absoluto da governança global.

Francesca Albanese cometeu o pecado imperdoável de cumprir o seu mandato. Enquanto a maioria dos governos se refugia na ambiguidade calculista, ela nomeou os responsáveis: «A maioria dos países do mundo, em vez de deter Israel, armou Israel, deu-lhe desculpas políticas, abrigo político, apoio económico e financeiro» . Enquanto os media ocidentais despejam rios de tinta sobre «o conflito» — essa categoria neutralizante que equaliza opressor e oprimido, ocupante e ocupado, carrasco e vítima —, ela denunciou a «cumplicidade colectiva» e insistiu que «os Estados devem responsabilizar-se pelas suas acções e mudar de rumo» .

A campanha para a demitir, que junta agora Paris, Berlim e os lobbies sionistas transnacionais, é a prova cabal de que ela acertou no alvo. Não se tenta silenciar quem é irrelevante. Não se exige a demissão de quem é inócuo. Não se sanciona quem não incomoda. O que está em curso é uma operação de intimidação dirigida a todos os funcionários da ONU, académicos, jornalistas e cidadãos comuns que ousem desafiar a narrativa oficial e documentar a cumplicidade ocidental no maior crime do século XXI.

É por isso que, ao lado de Francesca Albanese, se devem colocar não apenas os que defendem a causa palestiniana, mas todos os que ainda acreditam que o direito internacional deve aplicar-se a todos — ou não se aplicará a ninguém. A sua defesa não é uma questão de solidariedade sentimental; é uma linha de defesa contra a barbárie. Se uma relatora da ONU que se limita a citar relatórios, a transcrever depoimentos e a nomear o óbvio pode ser destruída profissionalmente por dizer a verdade, então o sistema que ela denunciou já venceu — e a humanidade, de facto, tem um inimigo comum.


Fonte: Diversas fontes

Tradução RD

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