
Uma audaciosa tentativa de golpe contra o governo no estado da África Ocidental do Mali parece ter sido frustrada pelas Forças Armadas do Mali. A firme defesa do Mali esta semana indica que a intriga ocidental fracassará.
Uma audaciosa tentativa de golpe contra o governo no estado da África Ocidental do Mali parece ter sido frustrada pelas Forças Armadas do Mali, apoiadas pelos seus aliados russos.
O golpe surpresa foi lançado no último fim-de-semana, quando cerca de 12.000 combatentes atacaram pelo menos cinco cidades, incluindo a capital, Bamako. Os combates continuaram na última semana, com a maioria das baixas – mais de 1000 mortos – sofrida pelos insurgentes que foram alvo de intenso fogo terrestre e aéreo de forças estatais apoiadas por auxiliares russos pertencentes ao Corpo Africano.
O líder do Mali, Assimi Goïta, fez um discurso televisionado nacional apelando à calma e afirmando que a situação de segurança do país havia sido controlada. Ele prestou homenagem ao seu ministro da defesa, General Sadio Camara, que foi morto em combate no primeiro dia da tentativa de golpe, em 25 de Abril. O líder também reconheceu as acções do parceiro estratégico do seu país, a Federação Russa, por ajudar a derrotar o golpe, que ele condenou como "patrocinado por estrangeiros".
Por sua vez, o Kremlin afirmou que continuará apoiando o governo maliano para restaurar a estabilidade e a segurança do país.
Tanto as autoridades malianas quanto Moscovo acusaram patrocinadores ocidentais de envolvimento na insurgência. O ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia afirmou que instrutores militares ocidentais ajudaram a coordenar os ataques de grande alcance. Houve relatos de militantes armados com mísseis antiaéreos franceses Mistral e Stinger Manpads fabricados nos EUA. Também há relatos não verificados de mercenários da Ucrânia e de estados da OTAN lutando no terreno.
Esta não é a primeira vez que a OTAN e a Ucrânia são ligadas à desestabilização da segurança nacional do Mali. Há dois anos, o Mali cortou relações diplomáticas com Kiev após um oficial de inteligência militar ucraniano afirmar que as forças ucranianas estavam fornecendo suprimentos para insurgentes.
Na última revolta, a média ocidental tem sido rápida em destacar supostos avanços militares alcançados pelos rebeldes. A cobertura ocidental buscou retratar a violência como um desafio espontâneo ao governo em Bamako, que a média ocidental despreza como uma "junta militar". A mesma média também afirmou que a agitação é um golpe para os interesses estratégicos da Rússia em África. Em particular, alega-se que a parceria de segurança de Moscovo com o Mali e outros estados africanos está a ser exposta como ineficaz e fraca.
Dois grupos militantes estiveram envolvidos na tentativa de golpe esta semana. O movimento de libertação étnica do povo tuaregue, conhecido como Frente de Libertação Azawad (FLA), e um grupo jihadista ligado à Al-Qaeda conhecido como Jammat Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM). Ambas as entidades vinham lutando entre si até recentemente, mas agora parecem ter-se aliado. Quem intermediou esta aliança conveniente?
Os ataques insurgentes generalizados contra cinco cidades, cobrindo uma distância de cerca de 2000 quilómetros, também sugerem que os combatentes receberam considerável inteligência e apoio logístico. O Mali é um país enorme, o sexto maior de África, com uma área territorial duas vezes maior que a da França ou do Texas. Os ataques anteriores foram principalmente confinados à metade remota do norte do país, que normalmente é uma paisagem desértica. Lançar um ataque à capital no sul é um desenvolvimento significativo. O devastador ataque com bomba ao complexo residencial do ministro da defesa, próximo a Bamako, também sugere que houve assistência estrangeira.
O contexto geopolítico é altamente significativo. O Mali formou uma Aliança dos Estados do Sahel (AES em francês) em Setembro de 2023, juntamente com Níger e Burkina Faso. As três antigas colónias francesas ordenaram a retirada das forças militares francesas e afirmaram uma nova independência política. Elas acusaram a França de jogar um jogo duplo ao apoiar secretamente separatistas e grupos islamistas para dar um pretexto para o envolvimento militar francês nos seus países. Em mais uma afronta à arrogância francesa, Mali, Níger e Burkina Faso recorreram directamente à Rússia para obter assistência em segurança e, em troca, ofereceram à Rússia acesso a recursos naturais essenciais numa parceria mútua.
Por séculos, a França e outros estados ocidentais saquearam África sem devolver nada ao continente, excepto novas formas de escravidão económica e exploração.
Entretanto, Rússia e China conquistaram parcerias renovadas com muitas nações africanas. Uma história de depredação colonial não prejudica nem a Rússia nem a China. De facto, a União Soviética tem um legado amplamente honroso de apoio à independência africana, que muitos africanos reconhecem. No contexto contemporâneo, a adopção por Moscovo e Pequim de um mundo multipolar e do desenvolvimento cooperativo ressoou fortemente com os países africanos.
Quando Mali, Níger e Burkina Faso expulsaram os elementos neocoloniais franceses há três anos, houve um desprezo palpável em Paris, especialmente do presidente francês Emmanuel Macron. Se a aliança do Sahel tivesse sucesso com a ajuda russa, isso seria um grande golpe para a estima nacional da França e para a narrativa de propaganda anti-russa do bloco da OTAN.
A tentativa de golpe no Mali deve ser vista sob esta perspectiva. É muito maior do que as tensões e divisões internas do Mali. O que está em jogo é manter o direito à independência política e à soberania nas nações africanas de escolher o seu próprio caminho político e de desenvolvimento. Numa palavra: autodeterminação. Potências coloniais antigas, como a França e outros membros da OTAN, gostariam de voltar ao tempo passado do controlo hegemónico.
Como muitos analistas informados observaram, os conflitos actuais na Ucrânia e noutros lugares, como Irão, Venezuela, Cuba, América Latina, Ásia-Pacífico, Árctico e assim por diante, não são aberrações isoladas. Todos fazem parte de um "novo grande jogo" para as potências ocidentais reafirmarem a dominação global.
As elites dominantes ocidentais querem, e realmente precisam, enfrentar o mundo multipolar crescente que desafia a sua hierarquia de privilégios e lucros. Rússia e China são os principais alvos das potências ocidentais para vencerem a sua guerra estratégica. A guerra por procuração na Ucrânia faz parte disso. Assim como a agressão de Washington contra o Irão para cortar o fornecimento de energia para a China e a Ásia.
A tentativa de golpe no Mali é outro palco de luta que parece ter sido instigado pelas potências da OTAN na sua guerra por procuração contra a Rússia e na visão histórica de um mundo multipolar.
Há um eco sombrio do cenário sírio, onde potências ocidentais finalmente derrubaram um aliado russo no final de 2024, sendo substituídos por jihadistas que o Ocidente apoiou secretamente por anos antes disso.
Dada a importância estratégica, Rússia e China não devem permitir que isso aconteça em África. A firme defesa do Mali esta semana pela liderança e pelas forças armadas do país, agindo com o apoio da Rússia e da massa do povo malinês, indica que a intriga ocidental fracassará.
Fonte: SCF
Tradução RD
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