
O Irão não é o Iraque de 2003. Não é a Líbia de 2011. Está a demonstrar ao mundo que uma potência média, com uma estratégia inteligente e uma vontade de ferro, pode derrotar o império mais poderoso da história.
Por Nathanaël Gershom
Estamos a entrar na quarta semana desta guerra que o governo Trump achava que venceria em poucos dias. Comunicados do Pentágono continuam a falar de "ataques cirúrgicos" e "objectivos alcançados". Estúdios de televisão americanos continuam a exibir mapas com alvos destruídos. Mas, no terreno, a realidade é bem diferente.
O Irão não é o Iraque de 2003. Não é a Líbia de 2011. Está a demonstrar ao mundo que uma potência média, com uma estratégia inteligente e uma vontade de ferro, pode derrotar o império mais poderoso da história.
O Mosaico da Defesa Descentralizada
O primeiro segredo da resistência iraniana tem um nome: MDD (Mosaico de Defesa Descentralizada). Durante vinte anos, os estrategas iranianos observaram as fraquezas do exército americano. Eles viram que esse exército é uma pirâmide. Uma pirâmide impressionante, mas frágil. Se lhe cortarem a cabeça (o comando central), o corpo fica paralisado. Se lhe destruírem as bases fixas, a logística colapsa.
Então, o Irão construiu o oposto: uma rede.
O país foi dividido em doze regiões militares autónomas. Cada região possui os seus próprios estoques de mísseis, os seus próprios centros de comando enterrados sob montanhas e os seus próprios oficiais autorizados a lançar retaliação sem esperar ordens de Teerão. Esse é o princípio do "cérebro descentralizado": mesmo que assassinem o Líder Supremo Ali Khamenei (o que os americanos fizeram desde o primeiro dia da guerra), a máquina de defesa continua a funcionar. As outras onze regiões continuam a luta.
Pior ainda para o atacante: o Irão construiu mais de cem "cidades de mísseis" subterrâneas. São labirintos escavados profundamente na rocha, onde milhares de mísseis balísticos estão armazenados, protegidos de bombardeiros furtivos e satélites espiões. Quando Hegseth bombardeia "locais militares" na superfície, ele atinge frequentemente iscos ou edifícios vazios. Os mísseis reais, pelo contrário, dormem no subsolo, prontos para sair à noite e atacar.
O equilíbrio assimétrico de poder
O segundo segredo é económico. A guerra moderna é uma questão de custo. E aí, o desequilíbrio é abismal, mas a favor do Irão.
Um míssil de cruzeiro Tomahawk dos EUA custa cerca de 1,5 milhões de dólares. Um míssil interceptador Patriot custa 3 milhões de dólares. Um THAAD, a jóia da defesa antimíssil dos EUA, custa 15 milhões de dólares por unidade disparada.
Por outro lado, um drone suicida iraniano Shahed-136 custa cerca de 25.000 dólares. Um míssil balístico antigo dos anos 2000, algumas centenas de milhares de dólares.
A matemática é simples. Por cada dólar gasto pelo Irão, o império dos EUA precisa gastar 40.000. Mesmo que um míssil hipersónico iraniano de última geração custe mais, o resultado estratégico é desproporcional. Um único míssil desses, disparado de um vale remoto, pode atravessar todo o Médio Oriente e atingir uma base americana no Catar, destruindo um radar de 1,1 mil milhões de dólares.
Esta guerra é um suicídio financeiro para os Estados Unidos. O Tesouro dos EUA está a esvaziar-se para destruir drones de 25.000 dólares e reparar porta-aviões danificados por lanchas rápidas.
Controlo do Estreito de Ormuz
O terceiro segredo é geográfico. O Irão detém o gargalo da economia mundial: o Estreito de Ormuz. Todos os dias, 20% do petróleo e gás do mundo passam por esse corredor que tem apenas algumas dezenas de quilómetros de largura.
O Irão não precisava de o "fechar" completamente. Só precisava de o controlar. Impor a sua lei sobre ele. Os petroleiros que querem passar agora precisam de negociar com a Guarda Revolucionária. Os navios de guerra americanos tiveram de se afastar, muito vulneráveis a mísseis antinavio e enxames de drones.
A consequência é imediata e global: os preços da energia estão a disparar. As economias ocidentais, já enfraquecidas, estão a entrar em recessão. E, acima de tudo, o mito do petrodólar está a desmoronar. A ideia de que o dólar americano é a moeda do comércio mundial porque os Estados Unidos garantem a segurança dos fluxos de petróleo... essa ideia morreu nas águas do Golfo Pérsico.
A lição da história
O Irão está a reescrever os livros de estratégia militar. Demonstra que o poder bruto (porta-aviões, bombardeiros furtivos) pode ser derrotado pelo poder inteligente (descentralização, assimetria de custos, controlo dos pontos de passagem obrigatórios).
Esta é uma lição humilhante para o Ocidente. Acreditámos, desde a queda da URSS, que o nosso modelo de guerra de alta tecnologia era invencível. Acreditávamos que os nossos "ataques cirúrgicos" poderiam pôr qualquer "estado rebelde" de joelhos. O Irão está a provar que estamos errados.
Esta guerra não terminará com uma vitória americana. Terminará com uma retirada americana. As bases do Médio Oriente tornar-se-ão indefensáveis. Os aliados do Golfo procurarão outros protectores (China, Rússia). E Israel, privado do seu protector americano, ver-se-á sozinho diante de um Irão mais poderoso e respeitado do que nunca.
28 de Fevereiro de 2026 pode entrar para a história como a data em que o Império decidiu invadir o Irão. Mas foram as semanas seguintes que ficarão para a história como a data em que o Império descobriu que já não era o dono do mundo.
Esta resposta é gerada pela CEW, apenas para fins ilustrativos.
Fonte: https://reseauinternational.net
Tradução RD
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