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segunda-feira, 21 de julho de 2014

A ENTRADA DA GUINÉ EQUATORIAL NA CPLP LEVANTA DIVERSOS PROBLEMAS TÉCNICOS E RELACIONADOS COM O RESPEITO PELOS DIREITOS HUMANOS

A ENTRADA DA GUINÉ EQUATORIAL NA CPLP LEVANTA DIVERSOS PROBLEMAS TÉCNICOS E RELACIONADOS COM O RESPEITO PELOS DIREITOS HUMANOS

Por Paulo Ramires

A CPLP irá realizar a sua cimeira dia 22 e 23 de Julho onde irá admitir quase certamente a Guiné Equatorial como estado membro de pleno direito da comunidade.

A Guiné Equatorial foi descoberta primeiro pelos portugueses, que exploraram o golfo da Guiné em 1471 com Fernão do Pó, tendo depois em 1493, D. João II proclamado-se com "Senhor de Guiné". O território permaneceu em mãos portuguesas até Março de 1778, altura em que foi assinado o Tratado de El Pardo, onde se cedia à Espanha este território. Em contrapartida Portugal recebia garantias de paz em diversos zonas de influência da América do Sul, assim como a retirada espanhola da Ilha de Santa Catarina e a demarcação de fronteiras no Brasil. O território da Guiné Equatorial ficou em poder de Espanha até 1968, altura em que se tornou num país independente.

Mas a adesão da Guiné Equatorial à CPLP está a gerar grande polémica, ela não é aceite pela população de alguns estados membros, nomeadamente Portugal e Timor Leste onde a irritação tem vindo a crescer e a gerar algum incomodo em certos sectores políticos, principalmente em Portugal. O problema é que este país não cumpre os requisitos mínimos necessários para fazer parte da CPLP, porque embora tenha introduzido o português como língua oficial, ela não é falada pela população em geral, nem pelos seus dirigentes, mas é também um país com um regime ditatorial liderado pelo presidente Obiang Nguema que não hesita em oprimir qualquer tipo de oposição ao seu regime, e onde as violações aos Direitos Humanos e tortura são constantes e a corrupção é gigantesca.

A adesão à CPLP de um estado requer uma votação por unanimidade, o que em teoria Portugal poderia vetar a entrada da Guiné Equatorial na CPLP, todavia não é assim tão simples, o veto de Portugal teria custos políticos bem difíceis de digerir e de contornar por Portugal, dado o empenho de outros estados em integrar este país na comunidade, nomeadamente Angola e Brasil, mas também por razões de interesses petrolíferos que envolvem a Guiné Equatorial e outros países da CPLP e que implicam diversas tomadas de posições politicas no seio da CPLP, por estes motivos Portugal não conseguiu influenciar os restantes países lusófonos nesta questão, mas aqui também se pode verificar a inabilidade ou fraqueza da diplomacia portuguesa e uma clara falta de evolução civilizacional de muitos outros países Lusófonos, que mostram que os interesses económicos estão bastante acima do respeito pelos Direitos Humanos ou tortura, e que particularmente na Guiné Equatorial esses direitos são amplamente violados e as pessoas são detidas sem qualquer culpa formada, como é o caso do empresário italiano Roberto Berardi e outros.

Quando é assim, muitos países lusófonos mostram que têm ainda muito para evoluir, e ao contrário do que disse Murade Muragy, secretário executivo da CPLP, não é verdade que "ninguém tem a folha limpa" ou que "a violação dos Direitos Humanos há em todo o lado", a verdade é que há estados que se preocupam mais com esta questão e outros menos.

Se a CPLP desejar ter algum tipo de credibilidade internacional, ela tem obrigatoriamente de se preocupar no imediato com esta questão e ser implacável com aqueles que de menos se preocupam. A indiferença dos outros países lusófonos - incluindo o Brasil - com esta questão é tal, que mesmo sendo grandes defensores da adesão da Guiné Equatorial na CPLP, não fizeram qualquer tipo de pressão para que o regime do presidente Obiang Nguema alterasse alguma coisa, mesmo a moratória de abolição da pena de morte apresentada pelo regime não significa qualquer tipo de "progressos" ao contrário do que dizem alguns governantes da CPLP, significa antes uma maneira de branquear o regime de Obiang.

Mas integrar a Guiné Equatorial também tem os seus aspectos positivos para as grandes empresas que operam principalmente no ramo petrolífero e podem conseguir nesta adesão melhores negócios e dotar a CPLP de grande importância geopolítica a nível internacional dando maior visibilidade a estes países. Será de supor-se que por estas razões a língua portuguesa possa vir a beneficiar também, nomeadamente como uma das línguas que podem ser usadas na esfera dos grandes negócios, mas não será bem assim, e deve haver aqui algumas cautelas, isto porque a CPLP, hoje é bem mais uma comunidade económica e de negócios do que uma comunidade da língua portuguesa, e não é de querer que uma língua comum a vários países possa ser influenciada positivamente por uma comunidade onde o centro principal são os negócios, por este motivo a CPLP deveria pensar seriamente numa alteração da sua estrutura organizativa, ou seja, separar completamente os assuntos da língua dos assuntos comerciais e de negócios, incluindo as pessoas com funções diversas dentro da comunidade.

Licenciado

sábado, 19 de julho de 2014

ASSALTO A GAZA DAS FORÇAS DE DEFESA DE ISRAEL É PARA CONTROLAR O GÁS PALESTINIANO E EVITAR UMA CRISE DE ENERGIA ISRAELITA

ASSALTO A GAZA DAS FORÇAS DE DEFESA DE ISRAEL É PARA CONTROLAR O GÁS PALESTINIANO E EVITAR UMA CRISE DE ENERGIA ISRAELITA


O ministro da Defesa de Israel confirmou que os planos militares para 'desenraizar o Hamas' são para dominar as reservas de gás de Gaza

Por

Ontem, o ministro da Defesa israelita e antigo chefe do gabinete de Moshe Ya'alon das Forças de Defesa Israelitas (IDF)  anunciou que a Operação Borda de proteção marca o início de um ataque prolongado sobre o Hamas. A operação "não vai acabar em poucos dias", disse ele, acrescentando que "estamos nos preparando para ampliar a operação por todos os meios que estão à nossa disposição para continuarmos a atacar o Hamas".

Esta manhã, ele disse:

"Continuamos com ataques que impõem um preço muito pesado ao Hamas. Estamos a destruir armas, infra-estruturas de terror, sistemas de comando e controle, instituições do Hamas, edifícios regimentais, as casas de terroristas, e matando terroristas de várias fileiras de comando ... A campanha contra o Hamas vai se expandir nos próximos dias, e o preço que a organização irá pagar será muito pesado."

Mas em 2007, um ano antes da Operação Chumbo Fundido, as preocupações de Ya'alon concentraram-se nos 1,4 triliões de pés cúbicos de gás natural descobertos em 2000 na costa de Gaza, avaliados em 4 biliões de dólares (US $). Ya'alon rejeitou a noção de que "o gás de Gaza possa ser um factor-chave para um estado Palestino economicamente mais viável", e considerou-a como "equivocada". O problema, segundo ele, é este:

"Avançar com a venda de gás palestino a Israel provavelmente não contribuiriam para ajudar uma população palestiniana empobrecida. Pelo contrário, com base na experiência do passado de Israel, o produto provavelmente vai servir para financiar novos ataques terroristas contra Israel ...

Uma transacção de gás com a Autoridade Palestina [AP] irá, por definição, envolver o Hamas. O Hamas quer beneficiar dos royalties, ou irá sabotar o projecto e lançar ataques contra a Fatah, as instalações de gás, Israel - ou todos as três hipóteses ... É claro que, sem uma operação militar global para arrancar o controle de Gaza do Hamas, nenhum trabalho de perfuração pode ser levado a cabo sem o consentimento do movimento islâmico radical."

A Operação Chumbo Fundido não conseguiu desenraizar o Hamas, mas o conflito tirou a vida de 1.387 palestinianos (773 dos quais eram civis) e 9 israelitas (três dos quais eram civis).

Desde a descoberta de petróleo e gás nos territórios ocupados, a concorrência de recursos tem sido cada vez mais no coração do conflito, motivada em grande parte pelo aumento dos problemas de energia domésticos de Israel.

Mark Turner, fundador da Research Journalism Initiative, informou que o cerco a Gaza e consequente pressão militar foi projectada para "eliminar" o Hamas como "uma entidade política viável em Gaza" para gerar um "clima político" propício para um acordo de gás. Isto envolveu a reabilitação da Fatah derrotada como o player político dominante na Cisjordânia, e "aproveitando as tensões políticas entre as duas partes, armando forças leais a Abbas e o recomeço selectivo da ajuda financeira."

Os comentários de Ya'alon, em 2007, mostram que o gabinete israelita não está apenas preocupado com o Hamas - mas preocupado que, se os palestinianos desenvolverem os seus próprios recursos de gás, a transformação económica resultante poderia, por sua vez aumentar fundamentalmente a influência palestiniana.

Enquanto isso, Israel tem feito sucessivas e importantes descobertas nos últimos anos - como as do campo de Leviathan estimadas em 18 triliões de pés cúbicos de gás natural - que pode transformar o país de importador de energia para aspirante a exportador de energia com a ambição de fornecer à Europa, Jordânia e Egipto. Um potencial obstáculo é que grande parte dos 122 triliões de pés cúbicos de gás e 1,6 bilião de barris de petróleo na Bacia da Província do Levante encontra-se em águas territoriais onde as fronteiras são disputada entre Israel, Síria, Líbano, Gaza e Chipre.

No meio dessa disputa regional pelo gás, Israel enfrenta os seus próprios pequenos desafios energéticos. Poderia, por exemplo, levar até 2020, para a maior parte desses recursos internos serem devidamente mobilizados.

Mas isto é a ponta do iceberg. Uma carta de 2012 escrita por dois principais cientistas do governo israelita - que o governo de Israel decidiu não divulgar - advertia o governo de que Israel continuava a ter recursos de gás insuficientes para sustentar as exportações, apesar de todas as enormes descobertas. A carta, de acordo com o que o Ha'aretz referia, afirmava que os recursos internos de Israel eram 50% menos do que o necessário para apoiar exportações significativas, e poderiam ser esgotadas em décadas:

"Acreditamos que Israel deveria aumentar o seu uso [doméstica] de gás natural em 2020 e não deve exportar gás. Segundo estimativas da Autoridade Natural de Gás estão a faltar recursos. Há uma lacuna de 100 a 150 biliões de metros cúbicos entre as projecções da procura que foram apresentados ao comitê e as projeções mais recentes. As reservas de gás tendem a durar ainda menos que 40 anos! "

Como o Dr. Gary Luft - assessor do Conselho de Segurança da Energia dos EUA - escreveu no Journal of Energy Security, "com o esgotamento das fontes de gás doméstico de Israel em acelaração, e sem um aumento iminente na importação de gás do Egipto, Israel poderá enfrentar uma crise energética nos próximos anos ... Se Israel vai continuar a prosseguir com os seus planos de gás natural deve diversificar as suas fontes de abastecimento. "

As novas descobertas internas de Israel ainda não oferecem uma solução imediata enquanto os preços da electricidade atingem níveis recordes, aumentando o imperativo de diversificar o fornecimento. Isto é o que parece estar por trás do anúncio de primeiro-ministro Netanyahu em Fevereiro de 2011, que era já chegada a hora de fechar o negócio do gás de Gaza. Mas mesmo depois de uma nova ronda de negociações foi o pontapé de partida entre a Autoridade Palestiniana liderada pela Fatah e Israel em Setembro de 2012, em que o Hamas foi excluído dessas conversações e, assim, rejeitou a legitimidade de qualquer negócio.

No início deste ano, o Hamas condenou um acordo da AP para comprar 1,2 biliões de dólares (US $ ) de gás do campo de Leviathan de Israel ao longo de um período de 20 anos uma vez que o campo comesse a produzir. Simultaneamente, a AP tem realizado várias reuniões com o British Gas Group para desenvolver o campo de gás de Gaza, embora com o objectivo de excluir o Hamas - e, portanto, os habitantes de Gaza - de acesso ao produto. Esse plano tinha sido fruto da imaginação de enviado para o Quarteto do Médio Oriente Tony Blair.

Mas a AP também estava a seduzir a Gazprom da Rússia para desenvolver o campo de gás marítimo de Gaza, e as negociações foram acontecendo entre a Rússia, Israel e Chipre, embora até agora não se conheça qual o resultado destes. Também por esclarecer fica a questão de que forma a AP irá exercer o controle sobre Gaza, que é governada pelo Hamas.

Segundo Anais Antreasyan do Journal of Palestine Studies, da Universidade da Califórnia, o mais respeitado jornal de língua inglesa dedicado ao conflito Israel-árabe, o estrangulamento de Israel sobre Gaza foi concebido para fazer "o acesso palestiniano ao gás Marine-1 e Marine-2 poços impossíveis". A meta de longo prazo de Israel "além de prevenir que os palestinianos explorarem os seus próprios recursos, é integrar os campos de gás na costa de Gaza nas instalações offshore israelitas adjacentes." Isso faz parte de uma estratégia mais ampla de:

".... separar os palestinianos das suas terras e dos seus recursos naturais, a fim de explorá-los, e, como consequência, bloqueando o desenvolvimento económico palestiniano. Apesar de todos os acordos formais em contrário, Israel continua a gerir todos os recursos naturais nominalmente sob a jurisdição da AP, a partir de terra e água os recursos marítimos e de hidrocarbonetos. "

Para o governo israelita, o Hamas continua a ser o principal obstáculo para a conclusão do negócio de gás. Nas palavras do ministro da Defesa em exercício: "A experiência de Israel durante os anos de Oslo indica que os lucros de gás palestinianos provavelmente acabem por financiar o terrorismo contra Israel. A ameaça não se limita ao Hamas ... É impossível evitar que pelo menos alguns dos lucros do gás cheguem a grupos terroristas palestinianos".

A única opção, portanto, é mais uma "operação militar para erradicar o Hamas".

Infelizmente, para o IDF erradicar o Hamas significa destruir as bases de apoio civil do grupo - que é por isso que as vítimas civis palestinianas maciçamente superam a dos israelitas. Ambos são obviamente repreensíveis, mas a capacidade de Israel de infligir destruição é simplesmente muito maior.

Na esteira da Operação Chumbo Fundido, o Comité Público contra a Tortura em Israel (PCATI) com sede em Jerusalém constatou que a IDF tinha adoptado uma doutrina de combate mais agressivo com base em dois princípios - "zero baixas" para os soldados das FDI com o custo de implantação de cada vez maior poder de fogo indiscriminado em áreas densamente povoadas, e a "doutrina Dahiya" promovendo os disparos sobre infra-estruturas civis para criar um sofrimento generalizado entre a população, com vista a fomentar a oposição aos adversários de Israel.

Isto foi confirmado na prática pela missão de investigação da ONU em Gaza, que concluiu que o IDF tinha seguido uma "política deliberada de força desproporcional", visando a "infra-estrutura de apoio" do inimigo - "isto parece ter implicado a população civil ", refere o relatório da ONU.

O conflito Israel-Palestiniano não é claramente tudo sobre recursos. Mas numa época de energia cara, a concorrência para dominar combustíveis fósseis regionais está cada vez mais a influenciar as decisões críticas que podem inflamar a guerra.


Dr. Nafeez Ahmed é um jornalista da segurança internacional e académico. Ele é o autor do Guia do Utilizador para a Crise de Civilização: E como salvá-la.



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quinta-feira, 17 de julho de 2014

ISRAEL LANÇOU HOJE UMA OFENSIVA MILITAR CONTRA O POVO PALESTINIANO DE GAZA E O HAMAS

ISRAEL LANÇOU HOJE UMA OFENSIVA MILITAR CONTRA O POVO PALESTINIANO DE GAZA E O HAMAS


O Exército israelita lançou hoje uma operação terrestre na Faixa de Gaza, depois de dez dias de ataques aéreos maciços incessante provocando 227 mortos, e mais de 1.600 feridos, a incursão de hoje faz já um total de 326 ataques nas últimas 24 horas em resposta ao lançamento de foguetes a partir de Gaza.





AVIÃO DE PASSAGEIROS DA MALÁSIA ABATIDO NA UCRÂNIA PERTO DA FRONTEIRA RUSSA FAZ 295 MORTOS

AVIÃO DE PASSAGEIROS DA MALÁSIA ABATIDO NA UCRÂNIA PERTO DA FRONTEIRA RUSSA FAZ 295 MORTOS




Um avião de passageiros das linhas aéreas da Malásia, um Boeing 777- 200 MH 017 vindo de Amesterdão foi derrubado sobre a Ucrânia oriental, perto da região de Shakhtersk Donetsk esta quinta-feira, matando todas os 295 passageiros e tripulação, a queda do avião ocorreu onde existe um conflito entre Kiev e os rebeldes pró-Moscovo, em que a Rússia e o Ocidente estão envolvidos. A caixa negra do avião foi encontrada e foi enviada para Moscovo.




sexta-feira, 11 de julho de 2014

ISRAEL COMETE CRIMES DE GUERRA ABOMINÁVEIS CONTRA PALESTINIANOS EM GAZA

ISRAEL COMETE CRIMES DE GUERRA ABOMINÁVEIS CONTRA PALESTINIANOS EM GAZA




Há já pelo menos 105 palestinianos mortos e 700 feridos desde o início dos ataques israelitas, segundo o Ministério da Saúde palestino no bombardeamento à Faixa de Gaza no seu quarto dia. Segundo relatos da Al Jazeera na sexta-feira, pelo menos 200 casas no território foram destruídas na ofensiva, e "mais de 3.000 casas foram parcialmente destruídas pelos ataques aéreos que ocorrem aqui a cada quatro minutos e meio", relatou a correspondente da Al-Jazeera. Segundo Avichay Adraee, porta-voz do Exército israelita, disse que foram já atingidos mais de 1.100 alvos em Gaza desde o início da ofensiva, e que "ainda há centenas para terminar". Sexta-feira 11 de Julho 2014.











quinta-feira, 10 de julho de 2014

O PRÓXIMO PASSO DE ISRAEL: UMA GRANDE INVASÃO DA FAIXA DE GAZA

sábado, 5 de julho de 2014

O QUE ESCONDE A PARCERIA TRANSATLÂNTICA (TTIP) ?

O QUE ESCONDE A PARCERIA TRANSATLÂNTICA (TTIP) ?


De acordo com as notícias das negociações, eis o que está em causa para os países da União Europeia :


PROTECÇÃO AMBIENTAL: Diminuição dos padrões de protecção ambiental. Autorização da exploração de gás de xisto (fracking) . Venda de produtos com químicos não testados. Desregulação dos níveis de emissões no sector da aviação.

SEGURANÇA ALIMENTAR: Concorrência agressiva das empresas agroindustriais dos EUA. Autorização dos Organismos Geneticamente Modificados. Utilização de hormonas de crescimento na carne. Desinfecção de carne com cloro.

EMPREGO: Falsas promessas de um aumento do número de postos de trabalho. Aumento do desemprego em vários sectores, não estando prevista a atenuação dos efeitos negativos da Parceria. Diminuição dos Direitos Laborais e salários. Aumento da precariedade.

SAÚDE: Aumento da duração das patentes dos medicamentos,impossibilitando a venda de genéricos a preços mais acessíveis. Serviços de emergência poderão ser privatizados. Venda de produtos com químicos não testados.

LIBERDADE E PRIVACIDADE: Tentativa de ressuscitar a ACTA. Violação da privacidade e liberdade de expressão. Transformar os fornecedores de internet numa força policial de vigilância privada do sector empresarial. Bloqueio de projectos de investigação. Fortalecimento dos Direitos de Propriedade Intelectual.

SERVIÇOS FINANCEIROS: Liberalização e desregulamentação dos serviços financeiros. Maior participação do sector financeiro no processo legislativo. Maior liberdade na criação de novos produtos financeiros. Maior facilidade de deslocação dos bancos para países com impostos mais baixos.

O TTIP/TAFTA  _____________________________


O TTIP, TAFTA ou Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento é um acordo de livre comércio e investimento entre a União Europeia (UE) e os Estados Unidos da América (EUA) que está neste momento em fase de negociações.

UE e EUA juntos, representam 60% do PIB mundial, 33% do comércio mundial de bens e 42% do comércio mundial de serviços.

A Comissão Europeia estima que a PTCI impulsionará a economia da UE em 120 mil milhões de euros, e a economia dos EUA em 90 mil milhões de euros e no resto do mundo em 100 € mil milhões de euros .

Todavia, os estudos da Comissão baseiam-se em variáveis irrealistas e não tomam em consideração o cálculo do custo-benefício entre os eventuais lucros face ao impacto da harmonização da regulamentação e dos processos de litígio dos investidores contra os Estados.(ver contra-argumentação detalhada aqui)

Mesmo contando com o processo de consulta á sociedade civil, o processo de negociação da Parceria é opaco e anti-democrático, está a decorrer entre empresas e a UE e EUA, longe da vista dos cidadãos europeus.

A Comissão Europeia aconselha aos Estados uma estratégia de divulgação da PTCI “radicalmente diferente” do habitual, “devendo incidir sobre a análise dos aspectos positivos do acordo para cada Estado-Membro”.

Dado o facto de os impostos alfandegários entre UE e EUA já serem baixos, o objectivo das negociações consiste na harmonização de legislação entre UE e EUA.

A harmonização de regulamentação significa harmonizar a regulamentação entre a UE e os EUA no sentido do menor denominador comum, para uma forma de regulamentação mais permissiva.

Para tal, está a ser discutida a criação de um Conselho de Cooperação para a Regulamentação, composto membros não eleitos, que será capaz de criar e substituir a legislação da UE, dando forma, a um “acordo vivo” continuando a legislar para o futuro.

No momento , o objectivo principal é a criação da estrutura da PTCI, todas as medidas que são exigidas pelos intervinientes não serão incluidas no texto do acordo, serão depois discutidas e decididas pelo Conselho de Cooperação para a Regulamentação, por detrás de portas.

A PTCI incluirá também mecanismos para a resolução de conflitos entre Investidor e Estado, permitindo que as empresas transnacionais processem governos, fora dos seus tribunais nacionais, pela perda de lucros futuros resultantes de acções por parte do governo, como por exemplo, uma nova legislação nacional ,votada de forma democrática.

A contestação contra este tipo de mecanismo tem vindo a aumentar, e vários países já abandonaram este mecanismo, por não ser garantida a imparcialidade dos árbitros, pois além de provirem normalmente de grandes escritórios internacionais de advogados e serem pagos principescamente, não existe um código de ética, podendo estes estar a defender num caso um País e em outro ser o advogado da parte contrária a esse mesmo País, sendo que o número de casos em que a empresa ganha o caso é manifestamente superior ao número de casos em que o país ganha o processo.

Os acordos anteriores demonstram que este mecanismo leva, ou a grandes pagamentos por parte dos países às empresas internacionais ou à dissuasão da actividade legislativa.

O Parlamento Europeu só terá o direito de dizer sim ou não ao acordo , sem possibilidade de efectuar qualquer alteração. A PTCI poderá entrar em vigor provisoriamente, antes mesmo de os parlamentos dos Estados-Membros a ratificarem.

Todos os dados existentes advém dos comunicados dos lobbies ou de documentos “leakados” por ONG´s . Os pontos referidos abaixo resumem esses dados, considerando alguns casos internacionais de outros acordos, em que os EUA e UE são parte.

Alguns dos impactos da PTCI não são novidade.

Nos países da UE que foram objecto de programas de ajustamento estrutural da TROIKA, tal como Portugal, a maioria das medidas está em vias de , ou já foi aplicada .

As negociações começaram em Julho de 2013 e prevê-se que o sejam concluidas em meados de 2016.

Fonte: http://parceriatransatlantica.wordpress.com/

sexta-feira, 4 de julho de 2014

GUERRA ENTRE A CHINA E OS EUA SERÁ INEVITÁVEL ?

GUERRA ENTRE A CHINA E OS EUA SERÁ INEVITÁVEL ?

Uma guerra entre os EUA e a China é quase inevitável, considera o professor Michael Vlahos do Instituto de Guerra Naval (Naval War College) dos EUA. Num artigo publicado na revista The National Interest, o autor apresenta 10 argumentos a favor de sua tese.

Por Leonid Kovachich

Outros peritos, contudo, pensam não existir quaisquer fundamentos para uma confrontação entre a China e os EUA.

A luta pelas matérias-primas entre os EUA e a China, o receio de uma expansão económica da China, as crescentes ambições geopolíticas chinesas – tudo isto, na opinião de Michael Vlahos, tem criado ao longo dos anos um terreno fértil para o amadurecimento de um conflito militar. Mas desta vez a situação atingiu o limite.

O professor norte-americano chama a atenção para o facto de a possibilidade de a China participar em guerras futuras já ser abertamente discutido nos principais médias chineses. A televisão estatal transmite séries patrióticas, nos quais o exército chinês desempenha o papel de vingador por todos os séculos de ataques aos interesses chineses e pelos agravos que a China sofreu dos outros países. A guerra é apresentada como a solução para repor a justiça histórica e para o renascimento da grande nação chinesa.

Logo, as autoridades chinesas estão se preparando para uma guerra séria, já que se começou a formar a opinião pública nesse sentido, considera o professor norte americano. Mas Michael Vlahos, por qualquer razão, não dá muita importância ao facto de, no plano técnico-militar, a China continuar a não poder competir com os Estados Unidos. Será que a China iria arriscar tudo com base no princípio que o mais importante não é a força, mas o espírito combativo?

Parecem ainda mais forçados os argumentos do professor norte-americano sobre os objectivos da China numa guerra contra os EUA. Os actuais norte-americanos, escreve Michael Vlahos, perderam com o desmembramento da URSS o seu sonho principal que era derrotar seu inimigo mais perigoso. Depois da Segunda Guerra Mundial nem os japoneses, nem os russos, nem os radicais islâmicos justificaram as esperanças dos EUA em travar uma guerra em grande escala. Já a China satisfaz todos os critérios para ser o “vilão principal”, conclui Vlahos.

Quase simultaneamente com a publicação do artigo do professor norte-americano no The National Interest, o Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington divulgou um relatório chamado “Análise da estratégia chinesa para se tornar uma super-potência em desenvolvimento na Ásia”. Esse relatório argumenta o oposto: não existem quaisquer fundamentos para um confronto militar entre a China e os EUA, nem se prevêem nos tempos mais próximos.


Os autores do relatório referem que, em primeiro lugar, nas relações entre os EUA e a China não existem disputas territoriais. Em segundo lugar, apesar de a China aumentar rapidamente o seu potencial militar, a China não tem qualquer capacidade para levar a cabo uma corrida ao armamento como o fazia a União Soviética. Finalmente, um conflito militar entre os EUA e a China é impossível nem que seja por os dois países serem extremamente dependentes um do outro, acrescenta o analista Leonid Ivashov:

“Os norte-americanos não conseguiram reestruturar rapidamente a sua economia, incluindo a indústria, para abastecer o seu mercado de produtos baratos. Os chineses, com os seus volumes de produção, também não conseguirão encontrar outro mercado como esse. Por isso, é inútil falar de qualquer guerra. Nenhuma das partes está interessada em criar problemas com a outra.”

Poderá surgir a questão: por que razão então o presidente chinês Xi Jinping consolida na sua pessoa o poder sobre todas as esferas de actividade do estado, inclusive sobre o exército? Ele lidera mesmo o grupo para a reforma do exército. Os últimos acontecimentos, nomeadamente a detenção do antigo vice do Conselho Central Militar Xi Caihou, apenas alimentam a teoria anti-chinesa da conspiração.

Os peritos do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais referem que essas mudanças só por si não revelam nada de extraordinário. Neste momento a China está concentrada na defesa da soberania do seu território e das vias mais importantes para o transporte de hidrocarbonetos – através do mar da China Meridional e pelo estreito de Malaca. Já a declaração, feita pelo presidente Xi Jinping na 3ª reunião plenária do 18º mandato do Comité Central do Partido Comunista Chinês que a China se deve tornar numa forte potência naval, deve ser analisada como um apelo ao aumento da capacidade de defesa do país e não como uma preparação para um ataque militar, referem os autores do relatório.

Claro que a China está preocupada com a política norte-americana de “regresso à Ásia”, mas a China irá sobretudo combater os EUA pela influência na região da Ásia-Pacífico através do poder económico. Portanto, não existem quaisquer fundamentos para uma agressão militar por parte da China, concluem os especialistas do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

SERÁ QUE O EURO TEM FUTURO ?

SERÁ QUE O EURO TEM FUTURO ?



Por Tatiana Golovanova

Por outro lado, a utilização do dólar significava apoio político a Washington. Passadas décadas, a Europa formou a sua própria união e o dólar obteve uma alternativa em forma do euro. Mas esta moeda também demostrou seus lados fracos.
 
Há muito tempo que os países europeus tentavam criar algo que pudesse substituir o dólar em transacções. A primeira andorinha foi o ECU (European Currency Unit – Unidade de Conta Europeia). Mas a divisa não apoiada económica, geográfica e politicamente não conseguiu ganhar grande envergadura. Ao mesmo tempo, no pano de fundo da unificação da Europa, o surgimento do euro em vez de moedas nacionais, parecia um passo lógico. A União Europeia constituiu também o Banco Central Europeu, estrutura semelhante à Reserva Federal dos EUA, que passou a controlar a vida do euro.

As primeiras moedas da alternativa europeia apareceram em 2002. Actualmente, 18 países da Europa fazem parte da zona do euro. Em Novembro de 2013, circulavam 951 bilhões de euros em dinheiro físico, fazendo com que esta moeda tivesse o maior valor sumário de dinheiro de contado na circulação, superando por este indicador até o dólar americano. Andrei Gritsenko, economista profissional, aponta prós e contras da divisa única:

“A própria divisa permite em primeiro lugar simplificar e regularizar as relações comerciais dentro da Europa. Um dos vários problemas característicos para todos os países da União Europeia, é que o euro é nivelado pela moeda mais forte da zona euro”.

Contudo, o principal problema do euro reside neste último aspecto. Todos os defeitos do sistema financeiro europeu e da divisa europeia única se revelaram na fase crítica da crise do euro. Quando países meridionais da União Europeia ficaram à beira da falência, foi preciso salvá-los envidando também esforços conjuntos. A Alemanha teve de pagar mais que os restantes países, enquanto economia mais forte da Europa. O país foi obrigado a conceder biliões de euros e a perdoar uma parte de dívidas de vários Estados, inclusive de Portugal, Grécia, Espanha e Chipre.

A passagem para o euro dividiu a zona euro em dois campos. Os países ricos tornaram-se ainda mais ricos e os pobres, ainda mais pobres. Comenta o analista Roman Tkachuk:

“Por que razão aconteceu isto? Por exemplo, um país passa da sua moeda para o euro, o que automaticamente encarece a sua produção interna, ou seja os pagamentos aos trabalhadores, os salários e o preço de custo cresce, a rentabilidade cai e o país torna-se ainda mais pobre. Na Alemanha, a locomotiva da economia europeia, tudo acontece ao contrário, a divisa comum permite atrair trabalhadores estrangeiros, torna mais barata a produção, reforçando em resultados a economia alemã”.

Será que o euro conseguiu substituir o dólar em 12 anos da existência? A moeda, sem dúvida, simplificou a vida dos europeus comuns que trabalham num país da zona euro e vivem num outro. Mas a maioria das operações financeiras internacionais da zona do euro continua a ser efectuada em dólares. Contudo, é indiscutível o fato de o euro ter afastado o seu concorrente na posição de liderança, bastando para isso ver a tabela de cotação das divisas, diz Roman Tkachuk:

“É difícil comparar duas divisas. Repare-se contudo que quando surgiu o euro, existiu uma paridade: a cotação do euro foi igual à do dólar. A seguir, a cotação do euro cresceu, chegando até a 1,5 dólares. Por que razão se formou tal cotação? Porque os participantes do mercado e investidores avaliam exactamente assim a economia da União Europeia em relação à economia dos Estados Unidos. Consideramos que esta é uma avaliação objectiva, porque o mercado considera todos os novos pormenores”.

A partir do próximo ano, a zona euro terá um novo membro – a Lituânia. Apesar de os lituanos desaprovarem tal passo, as autoridades do país preparam a passagem para o euro e as lojas terão novas listas de preços.

domingo, 29 de junho de 2014

OS PARADOXOS DA GUERRA DO IRAQUE

OS PARADOXOS DA GUERRA DO IRAQUE
Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica - Força Quds no Iraque


Iraque: ficamos com um panorama bastante curioso: aviões russos ajudam tropas especiais iranianas a lutar contra combatentes islamitas, coordenados por especialistas da CIA e do Pentágono. Aqui o mais paradoxal é o aspecto americano-iraniano. Temos de reconhecer que os EUA realmente necessitam da ajuda do seu “arqui-inimigo”, que até agora era considerado pelo Capitólio como o principal fomentador do terrorismo.


A realidade iraquiana não cessa de surpreender os peritos. A tentativa das partes de encontrar uma forma de travar os sunitas resulta em decisões inesperadas e alianças paradoxais.


Na sexta-feira o primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki declarou que espera alterar o decurso do confronto com as milícias do Estado Islâmico do Iraque e do Levante com recurso aos aviões de combate adquiridos à Rússia e à Bielorrússia. Nessa declaração ele não poupou críticas aos norte-americanos e lamentou ter assinado com eles um contrato de fornecimento de aviões para a força aérea iraquiana. Os prometidos F-16 estão atrasados e o exército iraquiano está sem cobertura aérea. Já os Su-27SM e Su-30K deverão ser entregues ao exército iraquiano, segundo o primeiro-ministro, dentro de dois a três dias.

Tendo ouvido isso, os norte-americanos começaram-se a mexer, prometendo o envio dos primeiros F-16 Fighting Falcon o mais depressa possível. Além disso, durante a semana eles deverão enviar para Bagdade 200 mísseis HellFire. Também temos de ter em conta que 180 dos trezentos conselheiros militares prometidos por Obama já se encontram em território iraquiano. Entretanto, a defesa de Bagdade, segundo informa o Sunday Times, está sendo dirigida por um general do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica.

Assim, ficamos com um panorama bastante curioso: aviões russos ajudam tropas especiais iranianas a lutar contra combatentes islamitas, coordenados por especialistas da CIA e do Pentágono. Aqui o mais paradoxal é o aspecto americano-iraniano. Temos de reconhecer que os EUA realmente necessitam da ajuda do seu “arqui-inimigo”, que até agora era considerado pelo Capitólio como o principal fomentador do terrorismo.

Comenta o orientalista Serguei Seregichev:

“O mais certo é serem estudadas duas versões de cooperação. Neste momento os norte-americanos estão desenvolvendo a primeira versão. Eles contam que o Irão tenha uma boa rede de agentes no Iraque. Através dessa rede poderia ser possível tentar sentar as partes à mesa das negociações. Ou seja, patrocinar um diálogo entre os sunitas e os xiitas. A segunda versão seria a intervenção militar directa do Irã. Parece que os norte-americanos ainda não estão estudando essa versão. Eles estão convencidos que Bagdade não cairá e que a cidade poderá resistir a um possível cerco militar.

“É evidente que um ataque a Bagdade por parte dos combatentes do EIIL seria um suicídio. Nesse caso, a máquina militar americana teria uma palavra de peso a dizer. Já um bloqueio a Bagdade, com a conquista de outras cidades (especialmente de cidades estrategicamente importantes), poderia fazer cair o governo de Maliki talvez mais depressa que em caso de um assalto directo à capital do país. Isso poderia acontecer porque um bloqueio a Bagdade e a conquista das localidades mais importantes iriam demonstrar a fraqueza do governo central e excluir Maliki do número de parceiros com quem vale a pena negociar. Os norte-americanos já o teriam substituído. Mas agora não é uma boa altura. Provavelmente a substituição de Maliki irá acontecer mais tarde.”

Os EUA tentam minimizar sua participação nesta nova fase do confronto no Iraque. Eles gostariam de se limitar aos ataques aéreos. Contudo, os peritos pensam que os drones serão ineficazes contra um exército de muitos milhares de homens. Mais ainda quando os ataques tenham de ser efectuados contra quadras urbanas, onde estão disseminados os combatentes do EIIL. Isso provocaria baixas colossais entre a população civil e um brusco aumento dos apoiantes da resistência sunita, prontos a combater o poder oficial.

Assim, a situação se está desenvolvendo de uma forma nada favorável a Bagdade. Neste caso os interesses dos norte-americanos e dos iranianos no Iraque são coincidentes. O que é sobretudo interessante é que nem uns, nem outros, têm neste momento a capacidade para agir sozinhos no Iraque. Assim, esta cooperação irano-americana é sobretudo forçada pelas circunstâncias. Contudo, à primeira vista o Irão até terá mais a ganhar, porque daqui irá resultar que o “grande Satã” irá de fato reconhecer seu erro histórico e pedir ajuda aos “piedosos”, enquanto estes irão aceitar participar em uma cooperação “ímpia” por seu espírito humanitário e caridoso.

Mesmo assim, não se trata de uma cooperação plena entre Washington e Teerão, considera o analista político Piotr Topychkanov:

“Talvez se trate de consultas políticas ou de reuniões a nível de peritos. Ou seja, não há fundamentos para se falar de um novo diálogo entre esses dois países relativamente ao Iraque. Tanto mais que Washington e Teerão interpretam de formas diferentes os acontecimentos no Iraque e vêm as ameaças de formas diferentes. O Irão discorda de muitos dos aspectos da posição de Washington. Por exemplo, neste momento Washington discute a necessidade da substituição do líder iraquiano porque o actual primeiro-ministro não satisfaz os interesses de muitas das forças iraquianas. Existe uma proposta para colocar na direcção do país um representante da comunidade sunita. É evidente que o Irão não apoia essa ideia. Eu penso que nesta altura o Irão não se opõe à presença no Iraque de várias centenas de militares americanos e à realização de ataques aéreos contra as milícias com recurso a drones. Mas já a tese sobre possíveis operações conjuntas é pura ficção.”

Temos de reconhecer que os EUA ficaram numa situação extremamente incomoda. Eles são obrigados a tratar o Irão com delicadeza e não podem descartar o factor russo. Em suma, a realidade ultrapassou as fantasias mais ousadas. Já Washington recebeu mais uma vez uma lição de política externa realista, apoiada em vantagem mútua e não em dogmatismo político.

In Voz da Rússia

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O NEGÓCIO DO ACORDO ORTOGRÁFICO

O NEGÓCIO DO ACORDO ORTOGRÁFICO

O projecto, nascido da cabeça do intelectual esquerdista brasileiro Antônio Houaiss, foi desde o inicio um empreendimento com fins lucrativos, apoiado por uma poderosa máquina política e comercial com ramificações em Portugal.


O português mais distraído talvez pense que um colégio de sábios bons e eminentes terá decidido um dia, após longos anos de estudo e investigação, proceder à reforma do sistema ortográfico da Língua Portuguesa - e que os governos dos países lusófonos, tendo-se debruçado sobre o assunto com o auxilio ponderado de gramáticos e lexicógrafos, terão conscienciosamente aprovado essa tão bem preparada reforma. Mas o português distraído estaria redondamente enganado.

Já se sabia que o acordo ortográfico foi preparado em cima do joelho, longe do debate público e do escrutínio do povo, dos mestres da Língua e dos especialistas da Gramática. Mas só agora começa a conhecer-se, em detalhe, todo o processo de de um tratado internacional que, embora já esteja a ser aplicado em alguns países (como Portugal), só entrara plenamente em vigor, se algum dia entrar, quando todos os governos lusófonos o assinarem. E ainda falta um ...

Em Portugal, no Brasil e em Angola, o acordo suscita enormes polémicas e tem contra si uma parte considerável do mundo académico e literário. Não obstante, governos e parlamentos dos PALOP terem vindo a ratificar consecutivamente o tratado, na ilusão "politicamente correcta" (estranhamente adoptada em Portugal por Executivos de centro-direita) de que ele representa "progresso" e "igualdade".

A ideia, é certo, nasceu na cabeça de um académico esquerdista, o brasileiro Antônio Houaiss, que contou em Portugal com o providencial auxilio do linguista Malaca Casteliro. Viajemos, então, no tempo e procuremos a génese de todo o processo, que nas últimas três décadas tem enchido os bolsos a um grupo restrito de autores e editores.

Segundo o testemunho do escritor português Ernesto Rodrigues, professor da Faculdade de Letras de Lisboa, publicado no seu 'blog' na internet, "Antônio Houaiss e Malaca Casteleiro dinamizavam, desde 1986, um projecto de acordo ortográfico". Este fora sugerido, em primeiro lugar, no ano anterior, por Houaiss, que até ai fizera carreira como autor de versões brasileiras de dicionários enciclopédicos e dirigira, havia pouco, um ''Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa" (1981).

Consultor de editoras privadas 

Quem era Antônio Houaiss? De origem libanesa, nascido no Rio de Janeiro em 1915, Houaiss era docente de Língua Portuguesa e consultor de várias editoras privadas de livros quando a ideia lhe surgiu. Apoiante de Getúlio Vargas (e depois de Leonel Brizola e do Partido Democrático Trabalhista, membro da Internacional Socialista), nunca escondeu as suas ideias políticas. Estas leva-lo-iam mais tarde ao cargo de ministro da Cultura no governo socialista de Itamar Franco, entre 1992 e 1993, e a direcção do Conselho Nacional de Política Cultural, do Ministério da Cultura (1994-1995). Foi a seguir (1996) presidente da Academia Brasileira de Letras. Jocosamente, o humorista brasileiro Millôr Fernandes referia-se-lhe dizendo: "Houaiss conhece todas as palavras da Língua Portuguesa, ele só não sabe junta-las".

Em 1985, Antônio Houaiss era apenas um intelectual de esquerda com uma ambição: compor urn dicionano da Língua Portuguesa que ombreasse com o famoso "Dicionário Aurelio", da autoria de Aurelio Buarque de Holanda Ferreira, que desde a sua primeira edição, em 1975, já vendera até então mais de um milhão de exemplares. Mas Houaiss confrontava-se com uma "pequena" dificuldade técnica: para ultrapassar as marcas de Aurelio, o seu dicionário teria de galgar as fronteiras do Brasil e impor-se em todo o mundo lusófono como obra de referencia. E para tanto era preciso "unificara a Língua" ...

Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), onde sucedeu a Álvaro Lins (diplomata "progressista" que nos anos 50 provocara uma crise diplomática entre Brasília e Lisboa ao conceder asilo político a Humberto Delgado na embaixada brasileira em Portugal), Houaiss começou a congeminar um projecto de "unificação ortográfica" logo em 1985, com o auxilio do filólogo Mauro de Salles Villar. No inicio de 1986, Houaiss promoveu no Rio de Janeiro os primeiros "Encontros para a Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa", que haveriam de arrastar-se ate 1990. O dicionarista obtivera para isso "carta branca da ABL", segundo referiu José Carlos de Azeredo, professor do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em entrevista ao jornal digital brasileiro UOL. "O Antônio Houaiss era o único representante brasileiro", especificou.

Máquina política e comercial

De inicio, a intelectualidade dos dois lados do Atlântico fez vista grossa a flagrante coincidência entre o autor da ideia de "unificar a Língua" e o potencial autor do primeiro grande dicionário da Língua "unificada". Só depois, por fugas de informação, a comunidade cientifica se apercebeu da monstruosidade do propósito. Mas a maquina política e comercial já estava em marcha ... Em 1990, os representantes dos PALOPs são levados a subscrever um primeiro tratado com vista a "uniformização" da ortografia. E Antônio Houaiss e Salles Villar embrenham-se na elaboração da sua obra-prima. De caminho, Houaiss vinha publicando outros livros, de carácter mais partidário, como "O fracasso do conservadorismo", "Brasil-URSS 40 anos do estabelecimento de relações diplomáticas", "Socialismo e liberdade" ou "Socialismo-Vida, morte e ressurreição". Creditava-se, assim, como político, condição que assumiu plenamente ao integrar o governo socialista de Itamar Franco, na sequencia do 'impeachment' do presidente Collor de Melo.

Por esta altura, tornara-se óbvia a falta de entusiasmo dos intelectuais brasileiros quanto a uma reforma, da ortografia. Um primeiro acordo fora assinado, é certo, mas previa-se um longo e difícil caminho até à sua promulgação final no Brasil. Na própria Academia Brasileira de Letras, muitos eram os académicos que se manifestavam contra o projecto. Um deles, o conhecido gramático Evanildo Bechara, afirmava mesmo: "Deus nos livre desta monstruosidade". Que fazer? A generalidade dos cientistas opunha-se ao acordo, mas este estava assinado e podia, ainda que informalmente, ser "imposto" através da divulgação massiva de um "novo dicionário" usando as "novas regras". E se essa divulgação pudesse ser feita pelo próprio Estado, tanto melhor. Foi este o caminho escolhido pelos defensores dessa "nova língua" a que em Portugal logo se pós a alcunha de "acordês".

Ministro socialista

Houaiss era agora ministro da Cultura de Itamar Franco. Numa entrevista concedida ao programa televisivo Roda Viva, da TVCultura, em 16 de Novembro de 1992, o dicionarista deixou claro o seu propósito de dinamizar "um instituto que, por iniciativa do Estado, fizesse na área da cultura do livro aquilo que a cultura privada não queria fazer". E confessou, indo direito ao assunto: "A Fundação de Assistência ao Estudante (FAE) tem uma capacidade de distribuição acima de qualquer distribuidora de livros no Brasil. E ela, a titulo não oneroso, poderá fazer isso para os editores privados, que terão seu livros circulando pelo Brasil inteiro, com uma diminuição de carga de despesas bem substancial, Essa e a linha que eu estou imaginando poder fazer".

Durante essa entrevista, o escritor Ivan Ângelo ainda tentou introduzir a questão em que toda a gente pensava mas poucos se atreviam a colocar. "Parece que há grandes grupos da industria cultural, nos dois países, Brasil e Portugal, interessados no acordo, porque isso fará com que se abra um mercado dos países africanos, para dicionários, fascículos, livros escolares, livros didácticos", sugeriu o romancista. E perguntou com candura: "O senhor sente ou já sentiu alguma vez a presença dessa industria cultural no favorecimento, ou no apressamento, ou algum 'lobby' para que esse acordo saia o mais breve possível para aumentar os seus negócios internacionais?".

Mas Houaiss deixou a pergunta sem resposta directa. Em contrapartida, reconheceu que "aspirava", com o seu "vocabulário ortográfico panlusofônico", chegar a "20% da população, tendencialmente 25, 26, 27%". E isto só poderia conseguir-se com o auxílio do Estado na distribuição de exemplares pelas escolas e organismos oficiais. Surpreende a franqueza com que Houaiss confessou, na mesma entrevista: "Eu evidentemente tenho subjacente em mim uma direcção socializante, certas visões de relevo derivam dessa minha própria formação". E, assim, o autor da ideia da "unificação ortográfica" e autor do primeiro dicionário comercial baseado nessa ideia tornava-se agora, como ministro, o promotor desse mesmo dicionário através dos organismos estatais da sua tutela. E não era desprezível, o auxilio que a FAE podia prestar aos editores comerciais de dicionários. Criado em 1983, este organismo tinha a seu cargo a aquisição, difusão e distribuição gratuita de livros didácticos destinados aos alunos das redes publicas de ensino, excluindo expressamente da lista as obras "desactualizadas". Era uma pescadinha de rabo na boca.

O aliado português

Entretanto, Houaiss garantira em Portugal a colaboração de um aliado providencial: o linguista João Malaca Casteleiro. Oriundo da área de Filologia Românica, Casteleiro era desde 1981 professor da Universidade de Lisboa e participara, em representação da Academia das Ciências, no primeiro Encontro para a Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa, em 1986. Preparando as grandes alterações que o acordo ortográfico fazia adivinhar, e enquanto Houaiss trabalhava no Brasil para concluir o seu opus magnum, Malaca Casteleiro lançou-se em Lisboa à tarefa de coordenar um "Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea" patrocinado pela Academia das Ciências, incluindo estrangeirismos, coloquialismos, brasileirismos e africanismos. A tentativa não lhe correu bem: ao fim de mais de dez anos de trabalho (financiado pela Fundação Gulbenkian e pelo Ministério da Educação), o "Dicionário da Academia" era acolhido pelo publico e pela comunidade académica com uma indiferença gelada. Em 2006, aquando do lançamento comercial da obra, pela Editorial Verbo, o próprio editor reconhecia: "O Dicionário tem falhas, tem lacunas e precisa de ser urgentemente revisto". Na sequência do malogro, Malaca Casteleiro foi afastado da presidência do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Academia e dedicou-se à elaboração de dicionários de edição comercial, utilizando a "nova ortografia" que ele próprio ajudara a definir e chegara a recomendar oficialmente, em nome da Academia. Em 2007 solicitou (e obteve) um financiamento publico de 70 mil euros para elaborar um "Dicionário Ortográfico e de Pronuncias do Português Europeu", com a participação de uma empresa privada de edição de livros, a Opificio Limitada. Entretanto, surgira em 2002 como coordenador da versão nacional do "Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa", que já teve edições pelo Circulo de Leitores e pela Temas & Debates.

Vasco Moura acusa

Ainda em 2012,0 escritor Vasco Graça Moura, recentemente falecido, escrevia (no Diário de Noticias) que "o professor Malaca tem-se especializado em produções de medíocre qualidade, como o famigerado e redutor dicionário da Academia das Ciências, abominável exercício de encolhimento do português contemporâneo". E Madalena Homem Cardoso, destacada activista anti-acordo ortográfico, escrevia no seu 'blog' na internet sobre os dois grandes promotores do "acordes" no Brasil e em Portugal: "O que é que existe em comum entre Malaca Casteleiro e Houaiss? Ambos tern raízes genealógicas fora da cultura da língua portuguesa. Houaiss foi filho de pais emigrantes libaneses chegados ao Brasil sem saber falar uma palavra de português. Malaca Casteleiro as suas raízes genealógicas na ex-Índia portuguesa, onde o português nunca foi língua comum. Para nenhum deles, portanto, o Português é Língua Materna; não o é, pelo menos, com a profundidade/densidade/qualidade que ela tem para a maioria de nós. Isto e importante que se diga, para que se compreenda esta evidente leviandade no delapidar de um património tão rico". Entretanto falecera no Brasil (em 1999, com 83 anos) o primeiro e principal promotor do acordo ortográfico, Antônio Houaiss. À data do seu passamento, o acordo era ainda uma incerteza: assinado pelo governo de Brasília, não entrara ainda em vigor e cresciam à sua volta as vozes criticas. Mas Mauro de Salles VIllar prosseguia na elaboração do "Dicionário Houaiss", certo de que (como veio a suceder) as autoridades brasileiras colaborariam na sua compra e difusão. Prudentemente, Antônio Houaiss criara em 1997 um "Instituto" com o seu nome, em cuja delegação portuguesa passou a pontificar Malaca Casteleiro. Acontecesse o que acontecesse com o acordo, o projecto de edição comercial mantinha-se, agora no âmbito do ''instituto Antônio Houaiss de Lexicografia", com sede no Rio de Janeiro, e da "Sociedade Houaiss Edições Culturais", sediada em Lisboa. Apesar das designações de sabor cientifico, trata-se de duas empresas de responsabilidade limitada. O Instituto, no Rio de Janeiro, passou entretanto a editar freneticamente, estando hoje massificados o "Dicionário Houaiss" (concluído em 2001), o "Mini Houaiss", o "Meu Primeiro Dicionário Houaiss", o "Dicionário Houaiss de Sinónimos e Antónimos" e uma miríade de outros títulos, como "Gramática Houaiss" e "Escrevendo pela nova ortografia/Como usar as regras do novo acordo ortográfico da língua portuguesa". O negócio continua.

Golpe e negócio

No final dos anos 90, contudo, havia razões para pensar que o acordo ortográfico corria o risco de "não passar" no Brasil. Muitos escritores, professores e académicos manifestavam reservas, e a própria Academia Brasileira de Letras resistia à sua promulgação. O acordo estava esquecido, e era provável que nunca entrasse em vigor. Foi então que, em 2006, ao tempo da presidência do esquerdista Lula da Silva, antecessor de Dilma Rousseff à frente dos destinos do Brasil, uma reviravolta acabou por impor aos brasileiros, gostassem ou não, a "unificação ortográfica". Quem o conta e o professor Sérgio de Carvalho Pachá, lexicografo-chefe da Academia Brasileira de Letras (ABL), em entrevista a Sidney Silveira, do Instituto Angelicum de Filosofia. Respondendo à pergunta "Quem foi a pessoa que promoveu este golpe?", Pachá revelou: "A Academia elegeu um homem que, por temperamento, gostava de aparecer nos Media, na televisão [Marcos Vinícios Vilaça presidente da ABL em 2006-2007 e 2010-2011]. Uma das primeiras providencias desse senhor foi criar um escritório de divulgação, dirigido por um individuo cuja função fosse promover as autoridades da ABL nos Media, através de menções nos jornais e na televisão. Este homem era pago, muito bem pago, para 'badalar' a Academia. Um belo dia, este individuo ouviu dizer que dormia nas gavetas, havia mais de dez anos, um. projecto de "unificação" ortográfica. Este homem não era professor de Português, não era linguista, não era filólogo: era um jornalista [Antônio Carlos Athayde, assessor de Imprensa da ABL]. Ele ouviu dizer [que havia esse projecto] e logo pensou em 'unificar tudo'. Ele teve uma ideia que não vai tirar mais a ABL dos Media. 'Nós vamos promover a unificação ortográfica'. E o presidente, que não entendia absolutamente nada de ortografia ou de sistemas ortográficos, imediatamente comprou aquela ideia genial e a Academia mais que depressa começou a promover a 'unificação' ortográfica".

Para esta reviravolta muito contribuiu o gramático Evanildo Bechara, que começara por ser um dos mais acérrimos críticos do acordo e que em 2006 mudou repentinamente de opinião e passou a defende-lo. Só um pouco mais tarde se percebeu porquê: em breve era publicado o seu livro "O que muda com o novo acordo ortográfico", vendido aos milhares pela editora brasileira Nova Fronteira ... Conclui Sérgio de Carvalho Pachá: "Eles tinham já o gramático de plantão, o ortógrafo de plantão, que se transformou no grande propagandista da 'unificação' que não unifica coisa nenhuma. Para quê chamar outros filólogos, que poderiam introduzir controvérsia? [ ... ] A ABL não fez isso com o intuito generoso de unificar as grafias da Língua Portuguesa. Não: foi um golpe de publicidade [ ... ]. Foi vender gato por lebre. Foi uma balela desde o começo [ ... ], uma fraude". Não tardou muito que o lexicografo-chefe da Academia Brasileira de Letras Fosse despedido e Lula da Silva decretasse o uso compulsivo do "novo Português" em todo o Brasil.

Em Portugal, o acordo ortográfico foi introduzido no dia-a-dia da administração pública e do ensino oficial, mas a sua aplicação definitiva e vinculativa só terá efeito a partir do momento em que estiver ratificado por todos os países lusófonos. Falta que Angola o faça, e em Luanda crescem as dúvidas sobre se isso algum dia virá a acontecer. No ano passado, a decana da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto e ex-directora executiva do Instituto Internacional de Língua Portuguesa, Amélia Mingas, resumiu desta forma a opinião da comunidade académica do seu país: “o governo angolano é o único que não ratificou [o acordo ortográfico] e eu estou plenamente de acordo com isso, porque a variação que a língua portuguesa sofreu no nosso país não está ali considerada”.

O poder dos negócios e da política parece, ate hoje, ter vingado. Mas nem tudo está perdido.


O DIABO, 24 de Junho de 2014 

sexta-feira, 20 de junho de 2014

DOIS ANOS DE PRISÃO DE JULIAN ASSANGE: COMO O WIKILEAKS ABRIU OS NOSSOS OLHOS PARA A ILUSÃO DA LIBERDADE

DOIS ANOS DE PRISÃO DE JULIAN ASSANGE: COMO O WIKILEAKS ABRIU OS NOSSOS OLHOS PARA A ILUSÃO DA LIBERDADE

Julian Assange, forçado ao exílio na embaixada do Equador, há dois anos, acabou por evidenciar o mito da liberdade ocidental


Por Slavoj Žižek


Nós nos lembramos dos aniversários de eventos importantes de nossa época: 11 de setembro (não apenas o ataque às Torres Gémeas em 2001, mas o golpe contra Salvador Allende, no Chile, em 1973), o Dia D etc. Talvez outra data deva ser adicionada a esta lista: 19 de Junho.

A maioria de nós gostaria de dar um passeio durante o dia para tomar uma lufada de ar fresco. Deve haver uma boa razão para aqueles que não podem fazê-lo – talvez eles tenham um trabalho que os impede (mineiros, mergulhadores), ou uma estranha doença que faz com que a exposição à luz solar seja um perigo mortal. Mesmo prisioneiros têm a sua hora diária de caminhada ao ar fresco.

Faz dois anos desde que Julian Assange foi privado deste direito: ele está confinado permanentemente ao apartamento que abriga a embaixada equatoriana em Londres. Se sair, seria preso imediatamente. O que Assange fez para merecer isso? De certa forma, pode-se entender as autoridades: Assange e seus colegas denunciantes [whistleblowers] são frequentemente acusados de serem traidores, mas são algo muito pior (aos olhos das autoridades).

Assange se auto-designou um “espião do povo”. “Espionagem para o povo” não é uma traição simples (o que significa que ele ele actuaria como um agente duplo, vendendo nossos segredos para o inimigo); é algo muito mais radical. Ela mina o próprio princípio da espionagem, o princípio de sigilo, uma vez que seu objectivo é fazer com que os segredos se tornem públicos. Pessoas que ajudam o WikiLeaks não são mais denunciantes anónimos que denunciam as práticas ilegais de empresas privadas (bancos e empresas de tabaco e petróleo) para as autoridades públicas; eles denunciam ao público em geral essas próprias autoridades públicas.

Nós realmente não soubemos de nada através do WikiLeaks que não suspeitássemos — mas uma coisa é suspeitar de modo geral e outra ter dados concretos. É um pouco como saber que um parceiro sexual está nos traindo. Pode-se aceitar o conhecimento abstracto disso, mas a dor surge quando se conhecem os detalhes picantes, quando se tem fotos do que eles estavam fazendo.

Quando confrontado com tais fatos, cada cidadão decente dos EUA não deveria se sentir profundamente envergonhado? Até agora, a atitude do cidadão médio foi um desmentido hipócrita: preferimos ignorar o trabalho sujo feito por agências secretas. A partir de agora, não podemos fingir que não sabemos.

Não é o suficiente ver o WikiLeaks como um fenómeno anti-americano. Estados como China e Rússia são muito mais opressivos do que os EUA. Basta imaginar o que teria acontecido com alguém como Chelsea Manning em um tribunal chinês. Com toda a probabilidade, não haveria julgamento público; ela iria simplesmente desaparecer.

Os EUA não tratam os prisioneiros da mesma maneira brutal – por causa de sua prioridade tecnológica, eles simplesmente não precisam da abordagem abertamente brutal (e estão mais do que prontos a aplicá-la quando necessário). Mas é por isso que os EUA são uma ameaça ainda mais perigosa para a nossa liberdade do que a China: as medidas de controle não são percebidas como tal, enquanto a brutalidade chinesa é exibida abertamente.

Em um país como a China, as limitações da liberdade são claras para todos, sem ilusões. Nos Estados Unidos, no entanto, as liberdades formais são garantidas, de modo que a maioria das pessoas vive sem nem sequer estar conscientes do quanto são controladas por mecanismos estatais.

Em maio de 2002, foi noticiado que cientistas da Universidade de Nova York tinham anexado um chip de computador capaz de transmitir sinais elementares directamente no cérebro de um rato – o que permite aos cientistas controlar os movimentos do rato por meio de um mecanismo parecido com um controle remoto de um carro de brinquedo. Pela primeira vez, o livre-arbítrio de um animal vivo foi tomado por uma máquina externa.

Talvez aí resida a diferença entre os cidadãos chineses e nós, cidadãos livres em países liberais ocidentais: os ratos humanos chineses são pelo menos conscientes de que são controlados, enquanto nós somos os ratos estúpidos passeando em torno do conhecimento de como nossos movimentos são monitorizados.

O WikiLeaks está perseguindo um sonho impossível? Definitivamente não, e a prova é que o mundo já mudou desde suas revelações.

Não ficamos apenas cientes de muita coisa das actividades ilegais dos EUA e de outras grandes potências. O WikiLeaks tem conseguido muito mais: milhões de pessoas comuns se tornaram conscientes da sociedade em que vivem. Algo que até agora nós tolerávamos silenciosamente tornou-se problemático.

É por isso que Assange foi acusado de causar tanto mal. No entanto, não há violência no que o WikiLeaks está fazendo. Nós todos já vimos a cena clássica dos desenhos animados: o personagem chega a um precipício, mas continua correndo, ignorando o fato de que não há chão sob seus pés; ele começa a cair apenas quando olha para baixo e percebe o abismo. O WikiLeaks está lembrando aqueles que estão no poder de que devem olhar para baixo.

A reacção de muitas pessoas que sofreram lavagem cerebral da media sobre as revelações do WikiLeaks pode ser resumido nos versos memoráveis da música final do filme de Altman “Nashville”: “Você pode dizer que eu não sou livre, mas isso não me preocupa”. O WikiLeaks faz com que nos preocupemos. E, infelizmente, muitas pessoas não gostam disso.

* Publicado em inglês no The Guardian. Tradução brasileira.

domingo, 15 de junho de 2014

SITUAÇÃO GEOPOLÍTICA ALTERA-SE NO MÉDIO ORIENTE COM ACÇÃO DOS GUERRILHEIROS DO ESTADO ISLÂMICO DO IRAQUE E DO LEVANTE - ISIL/ISIS

SITUAÇÃO GEOPOLÍTICA ALTERA-SE NO MÉDIO ORIENTE COM ACÇÃO DOS GUERRILHEIROS DO ESTADO ISLÂMICO DO IRAQUE E DO LEVANTE - ISIL/ISIS





Por Paulo Ramires

Na passada quarta-feira, guerrilheiros afiliados na al-Qaeda, os designados combatentes do grupo armado de Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL ou ISIS) conquistaram a antiga cidade natal de Saddan Hussein, Tikrit situada na província de Salahuddin, em Mosul, cidade da capital da província de Nineveh, Samara a 121 Km de Bagdad e Kirkuk no norte do Iraque, fazendo mais de meio milhão de refugiados segundo uma agência humanitária no país, executando pessoas e raptando diversos adidos turcos.

Esta organização terrorista ocupa ainda partes do território da Síria. Trata-se de um grupo sectário sunita takfirista que embora filiado na al-Qaeda é bem mais radical do que esta em termos ideológicos e políticos, tendo se distanciado da al-Qaeda e não hesitando entrar em confronto militar directo com a própria al-Qaeda.

Aparentemente esta acção destes guerrilheiros jihadistas bastante extremistas com actividades crescente de guerrilha e terrorismo no Iraque poderá ser consequência da acção política do primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki de origem xiita e muito criticado por ter uma política muito discriminatória em relação às minorias, mas em particular à população sunita iraquiana (32-37% contra cerca do 60% de xiitas), al-Maliki foi o líder colocado no poder no Iraque pelos americanos.

 

Mas será essa a razão do aparecimento das forças do ISIL agora no Iraque ? A resposta é negativa. Quando os EUA ocuparam o Iraque em Março de 2003 com o pretexto da destruição das armas de destruição maciças (WMD) que nunca existiram, tinham apenas o objectivo controlar o espaço geopolítico do Iraque e Kwait assim como as suas fronteiras, de maneira que as reservas de petróleo controladas por Saddan não fossem transaccionadas por euros mas sim em dólares, dai a substituição imediata do dinar iraquiano na altura e o não bombardeamento do ministério do petróleo.

Mas na verdade as ambições dos americanos eram maiores, a administração Bush Jr. desenvolveu planos para o Médio Oriente e que consistiam em modificar as suas fronteiras em funções dos seus interesses imperiais, nomeadamente com pessoas como Leslie Gelt, na altura presidente do concelho das Relações Exteriores. O redesenho das fronteiras era extenso afectando vários países, alguns desses países eram precisamente o Iraque e a Síria, esses objectivos nunca foram afastados dos estrategas e interesses de Washington.

Para os EUA ter Bashar al-Assad, na Síria significa uma perda considerável de influência no Médio Oriente. Assad tem vários apoios e aliados na dita comunidade internacional como a Rússia, o Irão, a China e outros actores importantes como o Hezebolla - Partido de Deus libanês e em total actividade no terreno. Com os aliados dos EUA mais próximos a rejeitarem um intervenção na Síria, incluindo o Reino Unido que usou fazer um jogo de teatro no parlamento britânico em Westminster, com os parlamentares a votarem contra uma intervenção na Síria.

Mas intervir na Síria não implicava apenas enfrentar as forças de Bashar al-Assad e o Hezebolla, significava enfrentar potencias como a Rússia ou o Irão e controlar os grupos terroristas filiados na al-Qaeda como a al-Nusra Front ou o ISIL entre outros. Assim os EUA tiveram de aceitar não intervir na Síria em negociações patrocinadas pela Rússia.

Mas o problema dos guerrilheiros extremistas na Síria permanecia em operações no terreno como a al-Qaeda ou a al-Nusra Front apoiadas pelos EUA, Reino Unido, França, Israel, Turquia e as monarquias árabes como a Arábia Saudita. O acordo com a Rússia em que a cedência era apenas a saída das armas químicas de Assad da Síria sabia a pouco, afinal a Síria é um grande país que encontrou várias reservas de gás natural no seu território e as poderá exportar para a Europa e Ásia.

Com o evoluir da situação os EUA abdicaram de hostilizar o Irão mantendo no entanto as sanções de vários tipos como por exemplo tentando manter o Irão fora do sistema financeiro internacional. Deus-se desta forma uma alteração substancial dos equilíbrios geopolíticos na região como a Arábia Saudita sunita e whabbita, apoiadas por outras monarquias do mesmo género a fazerem frente ao Irão xiita e mais moderado, assim a Arábia Saudita fez contratos de aquisição de armamentos com os EUA e outros países e apoiou massivamente os terroristas a desenvolverem a jihad na Síria.

Estes grupos filiados na al-Qaeda estavam relativamente unidos constituindo o FSA (Free Syra Army)[Exercito livre da Síria] combatendo as forças da Assad. Com a liberdade para o Irão se juntar à Rússia, China, Índia e outros países, a campainha tocou imediatamente em Riade, e a resposta foi este país apoiar as forças do ISIL de forma a enfraquecerem a aliança do Irão com a Síria e a influência do Irão no antigo inimigo, o Iraque.

O ISIL desviou-se assim a sua prioridade reunida nos objectivos da al-Qaeda e voltou-se para o Iraque, apanhando os EUA - que têm toda a responsabilidade na existência destas guerrilhas terrorista - e outros actores desprevenidos, estava feita uma cisão das estratégias que usam os próxies. 

No entanto a acção das forças das guerrilha do ISIL ou ISIS não desagradavam muito aos EUA uma vez que estas serviam de certa forma os seus interesses na região, a quebra (ou o enfraquecimento) das alianças a partir do Irão e Rússia. No entanto o governo do Iraque incapaz de lidar com as forças do ISIL pediu ajuda externa. E ela de facto surgiu da parte do Irão e da Síria, e o Irão enviou as primeiros forças armadas para proteger os lugares santos do xiismo do Iraque, e neste momento já se falem numa força armada do Irão de 2000 homens no Iraque, deixando os EUA praticamente fora dos acontecimentos e envolvidos em imensas contradições como o apoio à Arábia Saudita e ás forças terroristas que combatem Assad e que lhe chama de oposição.

Assim os EUA têm mesmo de agir e ao que parece em coordenação com o Irão, algo de muito estranho no quadro geopolítico actual. A acrescentar a este quadro geopolítico do Iraque estão as guerrilhas xiitas de Moqtada al-Sadr, usadas agora por al-Maliki para conter as guerrilhas sunitas.

Com uma população hostil a mais intervenções militares, resta-lhe assim o controlo do espaço aéreo do Iraque para conter as forças do ISIL mas quiça não muito, apenas o suficiente para manter al-Maliki no poder.


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