
O conflito actual contra o Irão insere-se numa estratégia mais ampla dos EUA e de Israel para eliminar qualquer polo de resistência à sua hegemonia no Médio Oriente, visando não só os recursos energéticos e as alianças do país com a Rússia e a China, mas também servindo os interesses pessoais de líderes como Netanyahu e Trump, que usam a guerra para se desviarem de problemas judiciais internos.
Por Paulo Ramires
Vários países têm sido alvo de intervenções militares ou pressões por parte dos Estados Unidos e de Israel nos últimos tempos. No Médio Oriente, a destruição alastra-se da Palestina ao Líbano, Síria, Irão e Iémen, num processo de desestabilização que ameaça engolfar toda a região. Nas Caraíbas, a tensão entre Washington e países como a Venezuela e Cuba mantém-se elevada, com sanções e ameaças constantes à sua soberania. Canadá, México e Gronelândia são, por sua vez, alvos declarados da voracidade expansionista de Donald Trump, que não esconde ambições territoriais e económicas sobre estes vizinhos.
No Médio Oriente, a estratégia israelo-americana assume contornos particularmente perigosos. Benjamin Netanyahu e Donald Trump têm discutido abertamente a possibilidade de instrumentalizar a minoria curda — que representa cerca de 10% da população iraniana — como uma força de oposição armada contra o Estado Persa, cuja maioria étnica (48,2%) sustenta o regime dos aiatolas. Esta táctica de divisão étnica visa fragmentar o Irão por dentro, repetindo um padrão já testado noutros países da região.
A questão central é: porquê este ódio ao Irão? A resposta é simples, mas de implicações profundas. O Irão dos aiatolas é um aliado estratégico da Rússia e da China, formando com estes um eixo que desafia a hegemonia ocidental. Esta aliança trilateral é vista por Israel como uma ameaça existencial, e por Washington como um obstáculo à sua dominação global. O objectivo declarado é promover uma mudança de regime em Teerão, substituindo a actual República Islâmica por um governo fantoche liderado por figuras como o príncipe Reza Pahlavi, herdeiro da destronada dinastia Pahlavi, que vive no exílio e é próximo dos círculos de poder ocidentais e israelitas. O problema para este projecto é que Pahlavi não tem qualquer apoio significativo dentro das Forças Armadas iranianas nem na população em geral — o seu reduzido seguito limita-se a sectores da diáspora.
O eixo Irão-China-Rússia é, de facto, um dos principais alvos da geopolítica ocidental. Estes três países, para além de serem membros dos BRICS — aliança que reúne as economias emergentes numa plataforma de oposição ao domínio do G7 —, também integram a Organização para a Cooperação de Xangai (OCX), uma estrutura que articula objectivos comuns de segurança, cooperação económica e intercâmbio cultural, funcionando como um contrapeso à OTAN e às instituições lideradas pelos EUA.
O Irão, com os seus cerca de 90 milhões de habitantes e uma das maiores reservas de petróleo e gás natural do mundo, é uma peça fundamental neste tabuleiro. A sua produção energética alimenta, em grande medida, a economia chinesa, mas numa moeda que foge ao controlo americano: grande parte das transacções entre Teerão e Pequim são realizadas em yuan, contornando o sistema do petrodólar e fragilizando a hegemonia financeira dos EUA. Esta independência monetária é inaceitável para Washington, que vê no Irão um precedente perigoso para outros produtores de energia.
Para além destas motivações geopolíticas e geoestratégicas, o conflito com o Irão serve também interesses pessoais e políticos imediatos. Em Israel, Benjamin Netanyahu enfrenta múltiplos processos judiciais por corrupção, fraude e abuso de confiança. A permanência num estado de guerra permanente permite-lhe adiar julgamentos, justificar a suspensão de garantias democráticas e apresentar-se como o "protector da nação" perante a opinião pública, adiando assim a sua queda política e uma possível pena de prisão. Nos Estados Unidos, Donald Trump vê-se enredado nos explosivos Arquivos Epstein, cujas revelações ameaçam expor ligações comprometedoras com redes de tráfico sexual e chantagem de elite. A guerra funciona, neste contexto, como uma poderosa cortina de fumo para desviar a atenção mediática e judicial dos escândalos que envolvem a sua administração e o seu círculo mais próximo.
Importa sublinhar, ao contrário da propaganda belicista, que o Irão não possui armas nucleares nem tem demonstrado intenção clara de as desenvolver nos termos que os seus acusadores alegam. Os relatórios da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) têm consistentemente confirmado a ausência de um programa militar nuclear ativo em Teerão. A verdadeira motivação por detrás da agressão não é, pois, a neutralização de uma ameaça atómica — que não existe — mas sim a vontade de destruir a capacidade de resistência do Irão, replicando o que já foi feito na Palestina e no Líbano: pulverizar a infra-estrutura do Estado, semear o caos e impedir que Teerão continue a afirmar-se como uma potência regional capaz de contrabalançar a hegemonia israelita.
O que está em jogo, no fundo, é a imposição de uma nova ordem no Médio Oriente onde Israel possa exercer uma supremacia incontestada, livre de qualquer contrapeso regional, e onde os EUA possam continuar a ditar os termos do comércio energético global sem desafios à sua moeda ou à sua influência. O Irão, pela sua localização estratégica, pelos seus recursos e pelas suas alianças, é o último dique a romper neste projecto de dominação total.
RD

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