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segunda-feira, 17 de março de 2014

1945-2014, DE YALTA… A YALTA POR AYMERIC CHAUPRADE

1945-2014, DE YALTA… A YALTA POR AYMERIC CHAUPRADE

Winston Churchill, Franklin Roosevelt e Josef Stalin na Conferência de Yalta, 1945.

Por Aymeric Chauprade

"Nas últimas semanas, os Estados Unidos e os governos europeus alinhados excederam-se na sua fantasia unipolar".

Ao derrubar, pela ilegalidade e pela brutalidade , um governo democraticamente eleito em Kiev, com os objectivos estratégicos reais não só da entrada da Ucrânia na NATO (e a exclusão do acesso da Rússia aos mares quentes através da Crimeia), mas também, em última análise, à substituição do fornecimento de gás russo para os europeus por gás ucraniano, polaco e americano extraído do xisto (bastará fazer o necessário lobbying no Parlamento Europeu para que o projecto de fracturação hidráulica seja aprovado), o Império foi longe demais . Não só se trata de um crime disfarçado (veja-se a conversa entre Ashton e o Ministro dos Negócio Estrangeiros estónio) que terá visto snipers pró- Maidan assassinando os seus próprios apoiantes para culpar Yanukovych e assim, proporcionar uma "cobertura" humanitária à posição da União Europeia, como é também uma enorme falha [ao nível] da geopolítica que a Rússia não poderia deixar passar. A arrogância americana (esse excesso imperialista que atingiu os romanos antes deles) da qual Victoria Nuland, recentemente, forneceu um exemplo (" Foda-se a União Europeia "), esbarrou violentamente contra a geopolítica russa.

Antes de mais, após o colapso da URSS, Moscovo constatou que as populações russas haviam ficado presas dentro das fronteiras da União Soviética. O Kremlin absteve-se. Assistiu passivamente à expansão da NATO até às suas fronteiras (países bálticos ), às primeiras tentativas de revoluções coloridas da década de 2000 (Ucrânia , Geórgia ), à tentativa de digestão da Geórgia em 2008, à vontade de destruir os regimes sírio e iraniano, considerados muito próximos de Moscovo, e a muitas outras interferências , as projecções e provocações dos EUA sempre a coberto do pretexto infantil dos Direitos Humanos e da Democracia . Agora, o copo encheu-se! Putin é, talvez, o mais moderado dos russos sobre a questão da Crimea . Ele tenta acalmar a ira do seu povo contra esse tipo de má-fé ocidental.

O golpe [de Estado]de Maidan, o que levou ao poder vários ministros pertencentes a um movimento abertamente neo-nazi com o apoio de Washington e Bruxelas, numa altura em que os governos da União Europeia estão tentando convencer a suas populações de que os partidos soberanistas e identitários [europeus] são um perigo para a Democracia , foi a gota que fez transbordar o copo.

Este referendo na Crimeia a que eu queria assistir porque ser um ponto de viragem na História mundial contém, sem dúvida, o sinal de um novo mundo : um mundo multipolar com uma independência europeia real, e não a União Euro- Atlântica que destrói, ano após ano, as nossas identidades e as nossas economias.

O círculo volta a fechar-se. O velho mundo nascido em Yalta, em Fevereiro de 1945, via acordo entre dois mundialismos , atlantista e comunista, acaba ... em Yalta, em Março 2014, quase 70 anos depois!

Após a reunificação alemã , a reunificação da Rússia abre o caminho para o eixo Paris- Berlim - Moscovo. Claro, isso levará tempo. Mas a janela para o céu azul de liberdade foi aberta.

Eu irei neste serão, no Domingo, 16 de Março de 2014, beber chá em Yalta, ao pôr do sol, com a esperança de que os nossos filhos venham a assistir a uma grande Europa das nações livres .

É esta nova Yalta mundial que os europeus do Oeste e do Centro devem abraçar: ela poderá permitir-nos fazer a paz definitiva com a Rússia e construir com ela uma maior unidade europeia, a primeira baseada na soberania e na liberdade de cada uma das nações da nossa bela civilização.

E os nossos líderes são visionários e entendem isso, e assim a entrega pela França, daqui a poucas semanas, do PCB [bateau de projection et de commandement - navio de projecção e comando] com o nome premonitório de Sevastopol fará precisamente todo o sentido, ou eles não entendem nada, nem Paris, nem Berlim e, seguidamente a Rússia voltar-se-á para a China para construir um todo euroasiático. Esta seria uma nova bipolaridade , com o risco de de uma nova confrontação mundial.

Eu vivi 45 anos neste mundo de Yalta I nascida em ‘45. Eu entro, com esperança e optimismo, ao lado de todos aqueles que querem reconstruir a França e a Europa, e apesar dos riscos da tensão que eu não menosprezo, no mundo de Yalta II.

Simferopol, 16 de Março de 2014

Aymeric Chauprade é doutorado em ciência política na Sorbonne, e graduado da Sciences Po Paris, mas também em matemática e direito internacional. Professor de geopolítica e director do site de revisão geopolítica www.realpolitik.tv francês e é o autor do livro de referência "Geopolítica e constantes mudanças na história", ed. Elipses.

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