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quinta-feira, 12 de junho de 2014

O ACORDO ORTOGRÁFICO TAL COMO ESTÁ NÃO É SOLUÇÃO PARA A AFIRMAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA



O ACORDO ORTOGRÁFICO TAL COMO ESTÁ NÃO É SOLUÇÃO PARA A AFIRMAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA POR PAULO RAMIRES




O ACORDO ORTOGRÁFICO TAL COMO ESTÁ NÃO É SOLUÇÃO PARA A AFIRMAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA











Por Paulo Ramires

Inicialmente unir a ortografia tinha por fim destacar a língua portuguesa nos fóruns internacionais, era uma preocupação importante do ponto de vista geopolítico sobretudo da parte do Brasil - que participa em vários fóruns e organizações internacionais e é candidato a outros - mas também da parte de Portugal. A língua portuguesa é uma das mais faladas do mundo, ou seja, a quinta mais falada com um total de 273 milhões de falantes [e a 6ª língua do mundo mais utilizada nos negócios, segundo o ranking da Bloomberg incluído num estudo intitulado], sendo falada amplamente nos vários continentes.

Apesar desta importante evidencia, o português não é por exemplo a língua oficial das Nações Unidas [Árabe, Chinês, Espanhol, Russo, Francês e Inglês, as duas últimas são consideradas línguas de trabalho] apesar de outras línguas como o russo ou o francês serem menos faladas que o português. 


O português teve sempre dificuldade para se afirmar, mesmo perante outras línguas muito menos faladas, embora no passado sempre se teve o cuidado de se procurar a unificação da língua portuguesa, foi porém na década de 80 que surgiu a tese da unificação ortográfica da língua portuguesa para resolver o problema da viabilidade do português como língua unificada e mais bem posicionada para ser aceite nos fóruns internacionais e para possibilitar uma maior cooperação educacional e formativa entre os países lusófonos e a aplicação de politicas no âmbito da CPLP e do Instituto Internacional da Língua Portuguesa - IILP com cede em Cabo Verde e integrado na CPLP a partir de 2005, esta tese defendida por alguns até parecia fazer sentido, mas estamos a falar da década de 80, onde ainda não havia discussão sequer e a realidade era outra. A língua portuguesa tinha e tem dificuldade em se afirmar como língua internacional, com vista a isso surgiu um acordo que pretendia dar resposta a esse problema após tentativa falhada em 1986, o AO90, mas não resolveu o problema, agravou-o, inclusive no plano Internacional, porém desistir do AO90 ficou a ter certas implicações geopolítica em negócios e protocolos criados no âmbito da CPLP, assim o AO90 teria de continuar para evitar certos cataclismos políticos de grande dimensão, e como não houve coragem principalmente em Portugal para o revogar, apesar da sua suspensão em 2012 no Brasil, ele continua a ser aplicado mesmo contra a vontade dos portugueses. 

O AO90 representa um documento tecnicamente muito mal feito - um documento-tratado em que a ortografia é feita à la carte ou por opção e com excepções incompreensíveis - que não obstante os sismos geopolíticos que poderiam ocorrer, deveria ser revogado, mas não o é, talvez queiram encontrar uma situação intermédia. Da parte do Brasil existem sinais de se desejar uma nova versão do acordo [sem confirmação]. O pior de tudo é que Portugal parece não ter tido a força - e a habilidade - suficiente para negociar perante o peso do Brasil e o fantasma de o país ficar isolado perante os restantes países lusófonos que devem ter em mente que o português não deve se afastar da mesma base latina comum a outros países latinos, incluindo os de língua oficial inglesa. Quem tem de mudar é exactamente o Brasil, que deveria ter adoptado o acordo de 1945 e não o fez, mas como é o maior país lusófono e cheio de contradições políticas isso não é possível, mas deveria ser.

























UM RELVADO À BEIRA-MAR MAL PLANTADO

UM RELVADO À BEIRA-MAR MAL PLANTADO


Por Madalena Homem Cardoso

Comemorados 40 anos de Abril maiúsculo, dois meses após o debate do "Acordo Ortográfico" (AO) na "casa da partidocracia", trago um relato pessoal desse dia memorável. Memorável. Deverá ficar, pro memo, como paradigma do "Estado de Torto" em que alguns pretendem que todos vivamos, despudoradamente colocando-nos como alternativa... emigrar. Na questão da Língua Materna, esta proposta-empurrão do gangsterismo político vigente atinge o patamar obsceno de um exílio de nós mesmos. Até onde seremos nós capazes de não ir?

Recapitulo o que fixei desse dia em que a Assembleia da República (AR) deu aos cidadãos mais um exemplo cabal de como é infrutífero pedir ("petição" vem de "pedir") o que deveria, em bom rigor, exigir-se... Respeito.

Com a imaginação sempre a postos – íntima "saída de emergência" –, foi já fazendo soar mentalmente um «Requiem pela democracia representativa» que entrei nas galerias para assistir ao debate sobre o AO e às votações dos três Projectos de Resolução suscitados pela petição que propunha a desvinculação de Portugal deste tratado. Com grande pesar, iria ver amplamente confirmados os fundamentos das reservas indignadas que exprimira, sem meias-palavras, na audição de peticionários. Mas como desejei não ter tido razão no "raspanete" antecipado...!

Recordei a última vez que lá estivera, presidia então Mota Amaral aos trabalhos, com a graça da pronúncia açoriana acrescentada ao charme dos estadistas em vias de extinção... Agora rente à parede do hemiciclo, em lugar de última fila, cabeça recostada atrás, olhar baço, iria ver-se um corropio à sua volta. Vários sacos de gatos em cada bancada. Declarações de voto, de sinal contrário ao voto expresso, anunciadas quais certificados de impotência resignada à subalternização do mandato popular e à paulatina castração da dignidade pessoal. Ordem assegurada pelos capatazes do coro laudatório que apenas visa "suportar" (em ambos os sentidos) o desgoverno em funções.

Por espécies em vias de extinção... Heloísa Apolónia não conseguiu perceber que nunca houve para o AO qualquer estudo de impacto ambiental, nem que a propaganda promotora da "heterografia" em tudo se equipara à apologia dos alimentos transgénicos, como sublinhei num artigo – "Novos modos de não ser" – que diligentemente, meses antes, lhe tinha feito chegar... Voltaria a recriar a "prima" de Raul Solnado: toda a evolução é positiva, a dinâmica não é estática, simplificar é democratizar, mas se há dúvidas há que duvidar, embora a dúvida não duvide da boa dinâmica simplificadora... Vá lá que foi do contra, porque é do contra, porque sim. Ou, neste caso, porque não.

Vi-me entrecortando as percepções tristes dessa manhã com uns devaneios. A minha Carta Aberta aos Deputados, expedida na antevéspera, submergira no pântano da consciência individual; as excepções confirmavam a regra. "Pim!"??? "Pim!"

O debate sobre o AO começou com Ribeiro e Castro a apresentar o Projecto de Resolução de que foi primeiro subscritor e do qual tinham sido enviadas, de véspera, à Presidente da AR, nada menos que três versões rectificativas. Ficou a proposta de Grupo de Trabalho a criar pelo Governo sem objectivo, sem prazo, sem motivos, ou seja, o "quase nada" transformado em "nada de nada". Visualizei uma corrida de lesmas num mapa, do Minho a Timor, sendo cada uma delas uma ideia inconsistente, infinitamente plástica, da massa amorfa dos nossos "representantes".

Só desta vez, Ribeiro e Castro absteve-se de dissertar sobre "quanza" ou "kwanza" ou "cuanza", contornou o arrazoado soporífero habitual. Foi sucinto, quase tanto como o projecto de resolução que viria a ser aprovado. Já que o "quase nada" se reduzira a "nada mesmo", "nada mesmo nada" havia a dizer. Até esta intervenção vestigial se arriscaria a pecar por excessiva...

Resumiu: se, por um lado, a "lusofonia" é linda, por outro lado nem a que temos na boca é língua nossa, se bem que assim-assim, e pelo contrário. Divaguei, como quem trauteia: "Três corpetes, um avental, sete fronhas e um lençol"... Não um, muitos aventaizinhos neste imenso rol de roupa suja, há que dizê-lo!

Tinha começado Ribeiro e Castro por citar uma frase recente de Adriano Moreira... Sabe-se agora como este foi ameaçado, enquanto Presidente da Academia das Ciências, pelo então Ministro da Cultura, Pinto Ribeiro, quando o AO estava a ganhar balanço para tomar de assalto as Escolas e a Administração Pública. Como ousava alguém pretender interpor-se no caminho dos que, por serviço e obediência, carregando a Língua Portuguesa inanimada sobre uma imensa bandeja, a levavam ao necessário sacrifício no altar da nova ordem mundial? Sim, há quem veja as Línguas como obstáculos a uma utópica união fraterna e universal dos povos. É assim que começam os totalitarismos, negando a natureza humana – e, com ela, direitos humanos! –, fazendo prevalecer os seus, só seus, valores tidos por mais altos.

Pinto Ribeiro, segundo Ministro da Cultura de Sócrates, citado pela agência Lusa ao anunciar um estudo sobre o valor económico do Português, enquanto comemorava o 10 de Junho de 2008 no Consulado Geral de Portugal em São Paulo, disse: «O entendimento entre todos os falantes da Língua Portuguesa e a sua divulgação constituem o instrumento indispensável na resolução de problemas de coesão social, desenvolvimento, democracia e segurança. Só assim poderemos participar, e a nossa participação é essencial na criação de um estado mundial de ordem baseada no direito e de progresso.» (sic). "Ordem e Progresso" é uma insígnia bem conhecida; quanto ao resto, só pode estarrecer os incautos. A Maçonaria cultiva o Esperanto, tentativa falhada de idioma-de-laboratório. E uns quantos, cá e lá, criaram o "acordês", artefacto que pretendiam viesse a ser um "lusofonês" delapidado, mas que acabou sendo apenas este "mixordês" confinado a um uso muito restrito (e quase sempre impositivo) em Portugal, Pátria-Mátria da Língua Portuguesa.

Regressando da associação de ideias para escutar o resto da mini-alocução de Ribeiro e Castro, imaginei um pêndulo oscilando entre, num extremo, o Estado soberano real, desejavelmente "de Direito" e democrático, de que aquela casa é suposto ser Órgão de Soberania e, no outro extremo, o tal Estado mundial imaginado pelas subterrâneas irmandades apátridas de traficantes de influências, passando por todos os pontos intermédios.

Seguiram-se dois discursos intragáveis, ambos culminando numa citação literária de pasmar.

Rosa Arezes, olheirenta e pálida, representando o PSD, fez a demonstração prática de como alguém pode engasgar-se ao tentar articular a proclamação de um amor ambivalente de além-mar, desastradamente tomada de empréstimo. Findo o discurso repleto de erros gramaticais, a ex-professorazinha soluçou Olavo Bilac em atabalhoado sobressalto: «á-mo-te...»! (Quem diria!) A oratória da falsidade não é para quem quer, é para quem pode. Poesia com nó corrediço na garganta... Não se vende a Língua, não; vende-se só a alma de quem pensa alienar o que não é seu, a troco de um "assento para lamentar" púrpura, aveludado, fofo.

A outra citação da sessão plenária foi... antológica. Rematando o discurso em nome do PS, retomou Carlos Enes um hábito necrófilo seu, recente, até como cronista do Correio da Manhã: "desenterrar" e descontextualizar excertos, e divagar sobre frases extraídas dos registos sobre os mortos, sendo que estes, por sua vez, têm a vantagem de sobre tais interpretações se manterem silenciosos. Porventura na ânsia de produzir a citação menos literária possível do único escritor de Língua Portuguesa já galardoado como Nobel da Literatura, assim tomado como burocrata, bolçou: «É preciso cumprir o que foi assinado».

E, claro, o PS votou contra, mesmo reduzido o Projecto de Resolução a "nada de nada", pois até um Grupo de Trabalho sem motivos, sem objectivos e sem prazo é vagamente ameaçador do "facto consumado", sobretudo agora que o Senado Brasileiro está a "simplificar e aperfeiçoar o AO", ipsis verbis... A ala maioritária do CDS-PP, que também votou contra (alinhada com Portas), frisou: é agora que o Brasil põe em causa o AO que nós não podemos fazê-lo! Qualquer reflexão inconsequente suscita temor; porque será? Ainda assim, o perturbador Projecto "nada de nada" foi aprovado pela maioria da maioria.

Em pleno vácuo, poucas bolhas de ar respirável... Ostensivamente defensor da Língua, fazendo ponto de honra na sua interpretação desassombrada dos valores histórico-culturais colectivos, rendo homenagem a Michael Seufert, do CDS-PP, e posso imaginar o que terá sentido ao ver descambar o seu perseverante trabalho de bastidores no descalabro que se viu. O deputado-poeta Miguel Tiago, embora pesando-lhe a rigidez do partido qual remorso de saber ter voz própria, lutou também tenazmente pela preservação do património linguístico. A sua redacção do Projecto de Resolução do PCP foi a única que incluíu a palavra "desvinculação". Rejeitado pelos autodesignados "partidos do arco da governabilidade", claro; e segue o vira-o-disco-e-toca-o-mesmo, imperam os "pactos de regime" alheios ao interesse nacional.

Talvez jovens como eles lograssem mudar os partidos políticos por dentro. Ou talvez também eles se viessem a acomodar; ou talvez acabassem por ir-se embora, como tanta gente de bem. Creio que não saberemos; há uma urgência, um anseio, que não pode esperar, não aguenta muito mais.

Uns dias antes, farto de ser Alto Comissário da Casa Olímpica da Língua Portuguesa, lá no Rio de Janeiro, regressara Miguel Relvas ao seu relvado, encabeçando o Conselho Nacional do PSD.

Entretanto, em Abril maiúsculo, a multidão gritou na rua uma força nostálgica da alegria de ser e de participar.

Entretanto, vendo tantos fazer figuras semelhantes às que são feitas pelas três figuras de topo do Estado Português, sabemos que as paredes da AR corporizam hoje as barricadas de um poder cada vez mais dissociado das pessoas, mais cleptocrático, mais ilegítimo. Compreendemos cada vez melhor estoutro "Estado a que isto chegou".

Entretanto, morreu Vasco Graça Moura. A perda irreparável dá ainda mais garra aos que travam este combate identitário de quase três décadas também pelos que não estão já fisicamente connosco. Foi cremado. Se pudesse ver a boçal nota de condolências emitida pela Presidência da República, repensaria o "cavaquismo" relembrando dos Clássicos o peso relativo das cinzas? Expende Hannibalem!

Entretanto, semeiam-se vigílias na noite, acendem-se flores no caminho. Toda a esperança, mais do que legítima, é obrigatória. Está nas nossas mãos.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

O NASCIMENTO DE UM SÉCULO DE EUROÁSIA: RÚSSIA E CHINA CONSTROEM O "PIPELINEISTAN"

O NASCIMENTO DE UM SÉCULO DE EUROÁSIA: RÚSSIA E CHINA CONSTROEM O "PIPELINEISTAN" 



Por Pepe Escobar

Um espectro assombra Washington, trata-se de uma visão inquietante de uma aliança sino-russa junta com uma simbiose expansiva de trocas comerciais e de comércio em grande parte na região da Euroásia - à custa dos Estados Unidos.

Não admira que Washington esteja ansioso. Essa aliança é já um acordo feito sobre uma variedade de formas: através do grupo BRICS de potências emergentes ( Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul); na Organização de Cooperação de Xangai, o contrapeso asiático à NATO; dentro do G20; e via dos 120 membros - Nações Não Alinhadas (NNA). O comercio e as trocas comerciais são apenas parte dos futuros acordos. Sinergias no desenvolvimento de novas tecnologias militares estão na calha também. Depois da Guerra das Estrelas num estilo ultra-sofisticado sistema de mísseis S-500 de defesa aérea da Rússia previsto para 2018, Pequim de certeza vai querer uma versão dele. Enquanto isso, a Rússia está prestes a vender dezenas de Sukhoi Su-35 caças de ultima geração para os chineses com Pequim e Moscovo a movimentarem-se para selar uma parceria de aviação industrial.

Claro, o dólar dos EUA continua a ser a maior moeda de reserva global, envolvendo 33 % das explorações cambiais globais no final de 2013 de acordo com o FMI. Era no entanto de 55 % em 2000. Ninguém sabe a percentagem do yuan (Pequim não fala), mas o FMI observa que as reservas em "outras moedas" em mercados emergentes cresceram até 400% desde 2003.


Esta semana deve fornecer os primeiros fogos de artifício reais na celebração de um novo século da Euroásia para o evento com o presidente russo Vladimir Putin visitando Xi em Xangai na última terça-feira e quarta-feira. Lembra-se do "Pipelineistan", todos os oleodutos e gasodutos que cruzam a crucial Euroásia que compõem o sistema circulatório para a verdadeira vida da região. Agora, parece que o negócio do "Pipelineistan" estará estimado em US $ 1 trilião e demorará 10 anos a ser construído, vai ser assinado também. Nele o gigante de energia russa estatal Gazprom vai concordar em fornecer à gigante estatal Chinesa National Petroleum Corporation ( CNPC ), com 3.750 milhões de pés cúbicos de gás natural liquefeito por dia, durante pelo menos 30 anos, a partir de 2018. Isso é o equivalente a um quarto das enormes exportações de gás da Rússia para toda a Europa. Actualmente a procura diária de gás da China é de cerca de 16 biliões de metros cúbicos por dia, e as importações representam 31,6% do consumo total.

A Gazprom ainda pode receber a maior parte dos seus lucros provenientes da Europa, mas a Ásia pode vir a ser o seu Everest. A empresa vai usar este mega acordo para aumentar o investimento na Sibéria Oriental e toda a região vai ser reconfigurada como um hub de gás privilegiado para o Japão e a Coreia do Sul também. Se quer saber por que nenhum país chave na Ásia não tem estado disposto a " isolar" a Rússia no meio da crise ucraniana - e em desafio ao governo Obama - não procure mais do que "Pipelineistan".

Sair do Petrodólar, Entrar no Gás-o-Yuan


E em seguida  falamos sobre a ansiedade em Washington, há o destino do petrodólares a considerar, ou melhor, a possibilidade "termonuclear" de Moscovo e Pequim virem a concordar com o pagamento para o negócio da Gazprom - CNPC não em petrodólares mas em yuans chineses. É difícil imaginar um maior abalo tectónico com o "Pipelineistan" cruzando-se com uma crescente pareceria sino-russa na área político-económico e energética. Junto com ela vai a futuro possibilidade de um empurrão, novamente liderada pela China e Rússia, em direcção a uma nova moeda de reserva internacional - na verdade, um cabaz de moedas - que substituiriam o dólar (pelo menos nos sonhos optimistas dos membros dos BRICS).

Logo após a cimeira sino-russa que implica um potencial jogo de mudanças vem a cimeira dos BRICS no Brasil em Julho. Foi em 2012 quando um banco de desenvolvimento dos BRICS com um montante de US $ 100 biliões foi anunciado, será agora oficialmente criado como uma potencial alternativa ao Fundo Monetário Internacional ( FMI) e ao Banco Mundial como uma fonte de financiamento de projetos para o desenvolvimento mundial.

Mais cooperação entre BRICS significa evitar o uso do dólar se se reflectir no "Gás-o-yuan ", como no gás natural comprado e pago em moeda chinesa. A Gazprom está até mesmo a considerar a transacção de títulos[obrigações] em yuans como parte do planeamento financeiro para a sua expansão. Obrigações de valor facial em yuans já são negociadas em Hong Kong, Singapura, Londres e, mais recentemente em Frankfurt.

Nada poderia ser mais sensível [sensato] para o novo acordo do "Pipelineistan" do que tê-lo expresso em yuans. Pequim poderá pagar à Gazprom nessa moeda ( conversíveis em rublos ); Gazprom poderá acumular yuans; e a Rússia poderá então comprar vastos bens e serviços made-in-China em yuans conversíveis em rublos.

É do conhecimento geral que os bancos em Hong Kong, desde o Standard Chartered ao HSBC -, bem como outros intimamente ligada à China via acordos comerciais - têm vindo a diversificar os seus activos em yuans, o que implica que o yuan poderá tornar-se de facto uma moedas de reserva mundial antes mesmo de ser totalmente conversível. (Pequim está a trabalhar em termos não oficiais por um yuan plenamente conversível até 2018).

O negócio de gás Rússia-China está indissoluvelmente ligado ao relacionamento de energia entre a União Europeia (UE) e Rússia. Afinal, a maior parte do produto interno bruto da Rússia vem da venda de petróleo e gás, assim como grande parte da sua influência na crise Ucrânia. Por sua vez, a Alemanha depende da Rússia para uma montante de 30% de seu fornecimento de gás natural. No entanto, os imperativos geopolíticos de Washington - temperados com uma histeria polaca - significa empurrar Bruxelas para encontrar formas de "punir" Moscovo na esfera de energia no futuro (embora não pondo em perigo as relações energéticas actuais).

Existe um rumor consistente nestes dias em Bruxelas sobre o possível cancelamento do projectado gasoduto do South Stream de € 160 biliões, cuja construção está para começar em Junho. Após a sua conclusão, será bombeado ainda mais gás natural russo para a Europa - neste caso, por baixo do Mar Negro ( contornando a Ucrânia ) para a Bulgária, Hungria, Eslovénia, Sérvia, Croácia, Grécia, Itália e Áustria.

Bulgária, Hungria e República Checa já deixaram claro que se opõem firmemente a qualquer cancelamento. E o cancelamento não está, provavelmente, nos horizontes. Afinal, a única alternativa óbvia é o gás do Mar Cáspio do Azerbaijão, e isso não é provável que aconteça a menos que a UE possa de repente reunir a vontade e recursos para uma programação para construir o lendária Baku-Tblisi-Ceyhan (BTC) , concebida durante os anos de Clinton expressamente para contornar a Rússia e o Irão.

Em qualquer caso, o Azerbaijão não tem capacidade suficiente para fornecer os níveis necessários de gás natural e outros fornecedores como o Cazaquistão, debate-se com problemas de infra-estruturas, ou não confiável Turcomenistão, o qual prefere vender gás para a China, são já hipóteses que estão amplamente fora de questão. E não esquecer que o South Stream, juntamente com os projectos de energia subsidariazada, irá criar muitos postos de trabalho e investimentos em muitas das nações economicamente mais devastadas da UE.

No entanto, as ameaças da UE, porém irrealísticas, só servem para acelerar a simbiose cada vez maior da Rússia com os mercados asiáticos. Especialmente para Pequim, é uma situação "win-win". Afinal de contas, entre a energia fornecida através dos mares policiados e controladas pela Marinha dos EUA e as rotas terrestres estáveis ​​fora da Sibéria , não é nenhuma competição.

Escolha a sua próprio "Silk Road"


A Fed está indiscutivelmente a monetizar 70% da dívida do governo dos EUA na tentativa de manter as taxas de juros em alta. O conselheiro do Pentágono Jim Rickards, bem como todos os banqueiros de Hong Kong, tendem a acreditar que a Fed está falida (embora eles não o digam em voz alta). Ninguém pode imaginar a extensão do possível dilúvio futuro do dólar dos EUA que pode enfrentar entre $ 1,4 quatriliões de derivativos financeiros do Mount Ararat. Quem não acha que isso é a sentença de morte do capitalismo ocidental, anda contudo a fraquejar no reinado económico dessa fé, o neoliberalismo continua ainda a ser a ideologia oficial dos Estados Unidos, a esmagadora maioria da União Europeia, e em zonas da Ásia e da América do Sul.

Ao que se poderá chamar de "neoliberalismo autoritário" do Império Médio, o que não é do agrado neste momento ? A China tem provado que existe uma alternativa orientada para os resultados ao modelo capitalista "democrático" ocidental para as nações com o objectivo de serem bem sucedidas. Trata-se da construção de não de uma mas sim de várias "Silk Roads", teias enormes de ferrovias de alta velocidade, estradas, oleodutos, portos e redes de fibra óptica em toda a grandes partes da Euroásia. Estas incluem rotas no sudeste asiático, rotas na Ásia Central, uma "auto-estrada marítima" no Oceano Índico e até mesmo uma linha ferroviária de alta velocidade através do Irão e da Turquia atingindo todo o caminho com destino à Alemanha.

Em Abril , quando o presidente Xi Jinping visitou a cidade de Duisburg no rio Reno, com o maior porto interior do mundo e bem dentro do coração da indústria de aço do Ruhr na Alemanha, ele fez uma proposta audaciosa: uma nova "economic Silk Road" [rota económica da seda] que deveria ser construída entre a China e a Europa, com base na ferrovia Chongqing-Xinjiang-Europa , que já vai da China ao Cazaquistão, em seguida, através da Rússia, Bielorrússia, Polónia, e Alemanha por último. São 15 dias de comboio, 20 menos que os navios de carga que navegam a partir do litoral leste da China. Bem mas isso representará um máximo terremoto geopolítico em termos de integração e crescimento económico em toda a Euroásia.

Tenha em mente que, se nenhuma bolha [imobiliária] estourou, a China está prestes a se tornar - e permanecer - o número um do poder económico global, uma posição que desfrutou por 18 dos últimos 20 séculos. Mas que não se diga aos hagiógrafos de Londres. Eles ainda acreditam que a hegemonia dos EUA vai durar bem, e para sempre.

Leva-me Para a Guerra Fria 2.0


Apesar das recentes graves dificuldades financeiras, os países BRICS têm vindo a trabalhar conscientemente para se tornarem numa força contrária ao original e - tendo sido a Rússia posta de lado em Março - uma vez mais, no Grupo dos 7 ou G7. Eles estão ansiosos para criarem uma nova arquitectura global para substituir a primeira. imposta no início da Segunda Guerra Mundial, e eles vêem-se como os potenciais desafiadores ao mundo unipolar e excepcionalista que Washington imagina para o nosso futuro (com eles próprios como o Robocop mundial e a NATO como força policial-robótica). O Historiador e conselheiro imperialista Ian Morris, no seu livro War! What is it Good For? [Guerra! Para que serve o bem?, Define os EUA como o último "globocop" e "a última esperança da Terra"." Se é esse o "globocop" "o seu papel está esgotado", escreve ele , " não há um plano B."

Bem, há um plano BRICS - ou assim como as nações BRICS gostam de pensar, pelo menos. E quando os BRICS agem com esse espírito no cenário global , eles rapidamente evocam uma curiosa mistura de medo, histeria e belicismo do establisment de Washington. Tome-se Christopher Hill como um exemplo. O ex- secretário de Estado adjunto para o Leste Asiático e embaixador dos EUA no Iraque é agora um conselheiro do Albright Stonebridge Group, uma empresa de consultoria profundamente ligada à Casa Branca e ao Departamento de Estado. Quando a Rússia entrou em crise [e retirou-se], Hill acostumar-se a sonhar com um império americano hegemónico, "a nova ordem mundial". Agora que os russos ingratos rejeitaram o que "o Ocidente tem vindo a oferecer " - Isto é um "estatuto especial com a NATO, um relacionamento privilegiado com a União Europeia, e uma parceria nos esforços diplomáticos internacionais " - estão, na sua opinião, tentando reviver o império soviético. Tradução: se você não se tornar num dos nossos vassalos, estará contra nós. Bem-vindo à Guerra Fria 2.0.

O Pentágono tem a sua própria versão deste direccionamento mas não tanto da Rússia como a China, na qual o seu think tank já sugere uma futura guerra, que já está em andamento com Washington numa série de questões. Então, se não é já o Apocalypse Now, é o Armageddon de amanhã. E escusado será dizer que tudo o que está a acontecer de errado, como a administração Obama muito vem a publicitar através dos "pivôs" para a Ásia e dos órgãos de comunicação americanos que preenchem as conversa sobre um renascimento das "política de contenção da  época da Guerra Fria", no Pacífico, e isso é tudo culpa da China.

Envolvidos em situações de loucos em direcção à Guerra Fria 2.0 estão alguns factos no terreno: o governo dos EUA, com $ 17,5 triliões de dólares de dívida nacional e continuando a crescer, anda contemplando um confronto financeiro com a Rússia, o maior produtor mundial de energia e um dos principais poderes nucleares, assim como também vem a promovendo um cerco militar e económico insustentável ao seu maior credor, a China.

A Rússia tem um superavit comercial de dimensão considerável. Os bancos chineses Humongous não terão nenhuns problemas para ajudar os bancos russos se os fundos ocidentais secarem. Em termos de cooperação inter-BRICS, alguns projectos de oleodutos atingem os 30 biliões de dólares só na fase de planeamento que se estenderá da Rússia até à Índia pelo noroeste da China. Já as empresas chinesas estão ansiosamente a discutir a possibilidade de participar na criação de um corredor de transporte da Rússia para a Crimeia, bem como um aeroporto, estaleiro e terminal de gás natural liquefeito na região. E há ainda outra jogada "termonuclear" já pronta a ser lançada: a criação de uma organização de gás natural equivalente à da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) que incluirá a Rússia e o Irão para suposto descontentamento do aliado dos EUA, o Qatar.

O ( não declarado ) plano de longo prazo dos BRICS envolve a criação de um sistema económico alternativo com base num cabaz de moedas lastreadas no ouro e que viria a ignorar o sistema financeiro global da América - sistema financeiro global centríco. ( Não admira que a Rússia e a China estejam acumulando ouro tanto quanto podem. ) O euro - uma moeda sólida apoiada por grandes mercados de títulos líquidos e enormes reservas de ouro - seria também bem-vinda.

Não é nenhum segredo em Hong Kong que o Banco da China está a usar uma rede SWIFT [entidade que gere os códigos que permitem a identificação de um banco] paralela para realizar todo o tipo de comércio com Teerão, que está sob um forte regime de sanções dos EUA. Com Washington a usar o Visa e o Mastercard como armas de uma crescente campanha económica de Guerra Fria em estilo contra a Rússia, Moscovo está prestes a implementar um sistema de cartões de crédito de pagamento alternativo e não controlados pelo meio financeiro ocidental. Um caminho mais fácil seria a adopção do sistema UnionPay chinês, cujo funcionamento já tinha ultrapassado o American Express em volume global.

Eu estou apenas pensando comigo mesmo

As ilhas Senkaku / Diaoyou

Sem grande força para a Ásia por parte da administração Obama para conter a China (e ameaçá-la com o controle da Marinha dos EUA das rotas marítimas de energia para aquele país ) é susceptível de obrigar Pequim para longe da sua estratégia de inspiração de Deng Xiaoping, auto-descrita como para o "desenvolvimento pacífico" com o objectivo de a transformá-la numa potência comercial global. Nem vão para a frente com o envio de tropas dos Estados Unidos ou da NATO na Europa Oriental ou com outros actos típicos da Guerra Fria mais susceptível de dissuadir Moscovo a partir de uma acção de equilíbrio cuidadosa: garantindo que esfera de influência da Rússia na Ucrânia continue a ser forte sem comprometer as trocas comerciais e o comercio, bem como as política e as relações com a União Europeia - acima de tudo, com a parceria estratégica com a Alemanha. Esta é o Santo Graal de Moscovo; uma zona de comércio livre a partir de Lisboa a Vladivostok, que ( não é por acaso ) é a copia do sonho da China de uma nova Silk Road [Rota da Seda] para a Alemanha.

Cada vez mais desconfiada de Washington, Berlim por sua vez abomina a ideia de a Europa ser apanhada nas garras de uma Guerra Fria 2.0. Os líderes alemães têm coisas mais importantes para resolver, inclusive tentar estabilizar a vacilante UE abraços e na direcção de um colapso económico na Europa meridional e central e o avanço de mais e maiores partidos de extrema-direita.

Do outro lado do Atlântico, o presidente Barack Obama e seus principais oficiais mostram todos os sinais de ficarem presos nas suas próprias estratégias - para o Irão, para a China, para a fronteira leste da Rússia, e (sob o radar) para a África. A ironia de todas essas manobras militares - primeiro é que eles estão de facto a ajudar Moscovo, Teerão e Pequim a construir a sua própria profundidade estratégica na Euroásia e em muitos outros lugares, como refletido na Síria, ou fundamentalmente em cada vez mais acordos energéticos cruciais. Essas estratégias estão também a ajudar a cimentar a crescente parceria estratégica entre a China e o Irão. O implacável Ministério da narrativa da Verdade de Washington sobre todos estes desenvolvimentos ignora agora cuidadosamente que, sem Moscovo, o "Ocidente" nunca se teria sentado para discutir um acordo nuclear com o Irão, ou conseguido um acordo de desarmamento químico contrário aos interesses de Damasco.

Quando as disputas entre China e os seus vizinhos no sul do Mar da China e entre esse país e o Japão sobre as ilhas Senkaku / Diaoyou, enfrentou a crise da Ucrânia, a conclusão inevitável será que tanto a Rússia como a China consideram as suas fronteiras e rotas marítimas propriedade privada e não vão aceitar tranquilamente desafios - seja pela via da expansão da NATO, pelo cerco militar dos EUA, ou pelo escudo de mísseis. Nem Moscovo nem Pequim recuará na forma usual de expansão imperialista, apesar das versões dos acontecimentos agora a serem alimentadas aos públicos ocidentais. As suas "linhas vermelhas" permanecem essencialmente de natureza defensiva, não importa o ruído às vezes envolvido em protegendo-las.

O que quer que Washington possa querer ou recear tentar evitar por precaução, os fatos no terreno sugerem que, nos próximos anos, Pequim, Moscovo, Teerão só irão crescer ainda mais, lentamente mas seguramente, criando um novo eixo geopolítico na Euroásia . Enquanto isso, na América em vias de colapso parece estar a incentivar a desconstrução de sua própria ordem mundial unipolar, oferecendo aos BRICS a verdadeira janela de oportunidade para tentar mudar as regras do jogo.

Rússia e China como Modelo Estratégico

Na opinião dos think-tank de Washington, a convicção de que a administração Obama deve ser focada em repetir a Guerra Fria por meio de uma nova versão da política de contenção de " limitar o desenvolvimento da Rússia como potência hegemónica" tomou conta das discussões. A receita: armar os vizinhos dos estados bálticos ao Azerbaijão para "conter" a Rússia. A Guerra Fria 2.0 está acesa, porque do ponto de vista das elites de Washington, a primeiro nunca saiu do papel.

No entanto, tanto quanto os EUA possam combater o surgimento de um mundo multipolar de multi-potências, os factos económicos no terreno regularmente apontam para esses desenvolvimentos. A questão permanece: Será que o declínio da hegemonia será lento e razoavelmente digna, ou irá o mundo inteiro ser arrastado junto com ela com o que se tem sido chamado de "A Opção Samson" ?

Enquanto vemos o espectáculo desenvolvendo-se, sem sinal de um jogo com fim, tenha-se em mente que uma nova força está a crescer na Euroásia, com a aliança estratégica sino-russa ameaçando dominar o seu coração juntamente com grandes extensões da sua orla interna. Agora, isso é um pesadelo de proporções de Mackinderesque do ponto de vista de Washington. Pense-se, por exemplo, de como Zbigniew Brzezinski, ex-conselheiro de segurança nacional, que se tornou um mentor para o presidente Obama em política global, como ele iria ver isso .

No seu livro de 1997 O Grande Tabuleiro de xadrez [The Grand Chessboard], Brzezinski argumentou que "a luta pela primazia mundial [ que ] continuará a ser jogada" na Euroásia "tabuleiro de xadrez", de que "a Ucrânia foi um pivô geopolítico". "Se Moscovo recuperar o controle sobre a Ucrânia," escreveu ele na altura, a Rússia "recuperará automaticamente os meios necessários para se tornar num estado imperial poderoso, abrangendo toda a Europa e Ásia."

Isso continua a ser a maior parte da racionalidade por de trás da política de contenção imperial americana - desde a Rússia europeia e territórios adjacentes ao Mar do Sul da China. Mesmo assim, sem um fim à vista deste jogo, mantenha-se os olhos na Rússia movendo-se para a Ásia, a China expandindo-se por todo o mundo, e os BRICS fazendo um trabalho duro para tentar trazer o novo século da Euroásia.


Pepe Escobar é correspondente itinerante do Asia Times / Hong Kong, analista do RT e TomDispatch, e um colaborador frequente de sites e programas de rádio que vão desde os EUA à Ásia Oriental. Nascido no Brasil, ele tem sido um correspondente estrangeiro desde 1985, viveu em Londres, Paris, Milão, Los Angeles, Washington, Bangkok e Hong Kong. Mesmo antes do 11/9 especializou-se na cobertura do arco do Médio Oriente à Ásia Oriental e Central, com ênfase na geopolítica das grandes potências e guerras de energia. Ele é o autor de 'Globalistan' (Nimble Books, 2007), "Red Zone Blues '(Nimble Books, 2007)," Obama faz Globalistan' (Nimble Books, 2009) e um editor contribuindo para uma série de outros livros, incluindo os próximos 'Crossroads da Liderança: a globalização e o século americano New na Presidência de Obama (Routledge). Quando não está sobre funções, alterna entre São Paulo, Nova York, Londres, Bangkok e Hong Kong. 


Tradução Paulo Ramires

 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

MOSCOVO RESPONDERÁ AO AUMENTO DAS FORÇAS DA NATO PERTO DAS SUAS FRONTEIRAS

MOSCOVO RESPONDERÁ AO AUMENTO DAS FORÇAS DA NATO PERTO DAS SUAS FRONTEIRAS


Por Andrei Fedyashin

A Rússia não irá assistir impassível ao aumento das forças militares da NATO na Europa Central e Oriental. Ela irá reagir imediatamente em caso de a NATO assumir esse passo de forma unilateral. Esse aviso foi avançado em Bruxelas pelo representante permanente da Rússia na NATO, Alexander Glushko.

Esta é a sua reacção à conferência de dois dias (4 e 5 de Junho) dos ministros de defesa da Aliança em Bruxelas. Os diplomatas de carreira, como Alexander Glushko, raramente prestam declarações que não sejam previamente sancionadas pelos mais altos dirigentes do país.

O diplomata russo nem sequer excluiu a possibilidade de saída de Moscovo do Acto Fundador NATO-Rússia. Esse documento foi assinado em 1997. Nele se constatava que a Federação Russa e a NATO já não se viam como adversários e se regulava todo o âmbito das relações militares.

Glushko recordou que a Rússia não aumentou sua presença militar na região e que cumpre rigorosamente suas obrigações internacionais, incluindo as militares. “A NATO deve entender que ao trilhar esse caminho dificilmente poderá contar com uma "resposta contida" no estacionamento de forças por parte da Rússia, tal como prevê o Acto Fundador. Mas a escolha não é nossa”, avisou o chefe da missão russa junto da Aliança Atlântica.

Na reunião de Bruxelas são discutidas as “novas ameaças à segurança da NATO” relacionadas com os acontecimentos na Ucrânia. Na véspera da conferência da NATO o presidente dos EUA Barack Obama declarou que iria desbloquear um bilião de dólares adicionais para o reforço da presença militar norte-americana na Europa.

O secretário-geral da NATO Anders Fogh Rasmussen delineou na generalidade, depois do primeiro dia de reuniões, os acordos entre os ministros dos 28 países desse bloco militar:

“Nós acordámos a continuação do reforço da defesa colectiva da NATO e a introdução de patrulhamentos adicionais do espaço aéreo e marítimo. Nós acordámos o alargamento dos programas de treinos e preparação das tropas.”

Isso abrange uma maior presença das marinhas da NATO no mar Negro e no Báltico. Os responsáveis pelos Ministérios da Defesa do bloco acordaram igualmente o desenvolvimento de novas medidas para o aumento da presença permanente da Aliança, incluindo uma possível criação de novas bases militares. Um pacote de medidas mais concretas para um reforço militar será aprovado na cimeira de Setembro da NATO a realizar no País de Gales.

Até uma grande parte de peritos norte-americanos consideram que a NATO está a usar a situação na Ucrânia para se desenvolver e obter um aumento das despesas militares dos países membros do bloco. Elas estão muito longe dos compromissos assumidos há dez anos de aumentar os orçamentos militares em 2% ao ano.

Todos esses exercícios da NATO estão sendo associados artificialmente à crise na Ucrânia, diz o antigo vice-secretário do Tesouro da Administração Reagan e presidente do Instituto de Economia Política, Paul Craig Roberts. A “rotação das crises” em diferentes regiões é necessária aos Estados Unidos para que não desapareça o pretexto para os investimentos no gigantesco complexo de segurança e de poderio militar da NATO e do Pentágono.

Isso se assemelha à manobra de um charlatão que infesta a cidade de percevejos para vender insecticidas aos habitantes. Washington primeiro “infestou” Kiev de protestos, depois financiou o golpe de Estado, colocou esta camarilha no poder e agora colhe os benefícios dos apelos que lhe são dirigidos para “salvar a Europa Oriental”. Esse reinício de uma guerra fria é extremamente perigoso. Isso irá fazer desmoronar todo o sistema de estabilidade dos últimos 30 anos, considera Roberts:

“O objectivo inicial da NATO era a segurança da Europa contra uma invasão da URSS. Mas com o desmembramento da URSS essa ameaça desapareceu e a organização deveria ter sido extinta. Em vez disso, Washington ficou à mercê da influência de uma ideologia neo-conservadora, que afirmava ter a queda da URSS dado aos EUA o direito à hegemonia mundial. A NATO foi transformada na sua ferramenta principal. Por isso, no século XXI, nós vemos a NATO a fazer a guerra no Afeganistão e derrubando o governo na Líbia. Vemos a NATO aglutinando antigas parcelas da União Soviética ou preparando-se para o fazer. Estou falando da Ucrânia e da Geórgia.”

A Rússia realiza, de 27 de Maio a 5 de Junho, exercícios planeados da sua Região Militar Ocidental. Ela faz fronteira com os países bálticos e a Polónia. Entre outras, neles participa uma unidade de mísseis equipada com o sistema táctico de mísseis Iskander-M e a aviação de longo alcance. A Rússia considera o equipamento das suas forças com o novo sistema Iskander-M, com meios de combate contra a defesa anti-míssil (DAM) como uma resposta equivalente à possível instalação da DAM norte-americana na Europa.

terça-feira, 3 de junho de 2014

ALIANÇAS COMERCIAIS SÃO NEGOCIADAS PARA FORTALECIMENTO DA CPLP

Produção de petróleo em Angola. Delegação da Sonangol esteve em Timor-Leste para analisar potencial do país para criação de consórcio.


Exploração de petróleo, construção do “cluster do mar” e reinício dos voos entre Portugal e Guiné-Bissau são alguns dos acordos que estão sendo tratados. Objectivo é o fortalecimento económico para criar base competitiva.

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a CPLP, está analisando a possibilidade de inúmeras parcerias entre as nações que fazem parte do bloco.
Formado por Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Brasil, Portugal e Timor-Leste, tem como um dos objectivos o fortalecimento económico dos países.

Em Díli, capital do Timor-Leste, acontece uma cúpula da Sonangol Hidrocarbonetos Internacional, a subsidiária da empresa petrolífera estatal de Angola. O país africano deve analisar a possibilidade de criação de um consórcio para exploração de petróleo em Timor Leste.

Em entrevista à agência Lusa, o presidente executivo da Sonangol, Manuel Teixeira, disse que a visita ao país servirá para conhecer o potencial petrolífero da região. Ele afirma que "o objectivo dessa visita é sobretudo com a intenção do governo de Timor criar um consórcio que vai envolver todos os países da CPLP. E nós viemos aqui apenas para ver se de fato as áreas têm potencial em termos petrolíferos".

Teixeira ainda diz que, somente depois da visita estratégica, a Sonangol poderá chegar a uma conclusão se irá participar ou não do consórcio.

Para Sandro Mendonça, professor do Departamento de Economia do ISCTE Business School - Instituto Universitário de Lisboa, a cooperação entre os países da CPLP só traz vantagens.

“[É importante] a força que se dá ao português como língua de negócios. Esta nova densidade comercial é algo que, para todos os países envolvidos, acabam por reduzir a sua dependência. Por exemplo, Portugal certamente precisa se alavancar em relação a uma Europa que não cresce, mas os países africanos de língua portuguesa também precisam de se lançar para um mundo mais vasto”, afirma o professor.

Economia e interesses



Em Março deste ano, o presidente da Timor Gap, empresa petrolífera timorense, anunciou a intenção das autoridades do país para a criação de um consórcio com os Estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e Portugal já teriam manifestado interesse na iniciativa, com excepção do Brasil, que teria necessidades internas relacionadas aos próprios recursos.

O economista Sandro Mendonça afirma que há diferenças entre os países, já que alguns teriam mais interesses no bloco que outros. Porém, as trocas comerciais, mesmo com economias distintas, podem trazer resultados e definir a força do grupo.

Para ele, um país como o Brasil, com grandes recursos petrolíferos, pode estar menos interessado no mercado lusófono ao nível de recursos em hidrocarbonetos. Mas, no todo, pode-se redesenhar um padrão de trocas e, muitas vezes, essas novas trocas, ao somarem-se, podem vir a dar uma base competitiva para o resto do mundo.

Parcerias

No que diz respeito à Portugal, as autoridades do país sinalizam querer apoiar Cabo Verde na criação do “Cluster do Mar”, onde o país africano pretende desenvolver toda a actividade económica marítima. Além disso, irá contactar as novas autoridades de Guiné-Bissau para verificar as condições de segurança e, então, retomar as conexões aéreas entre Lisboa e o país africano. Os voos da TAP foram interrompidos após o episódio do embarque forçado de passageiros ilegais em Bissau, no dia 10 de Dezembro do ano passado.

O economista Sandro Mendonça afirma que as parcerias econômicas dos oito países lusófonos irão trazer progresso no futuro e acredita em um bloco forte para competir mundialmente.

Além disso, ao menos três nações têm boas perspectivas de crescimento nos próximos anos aos olhos do Mundo: Angola, Moçambique e Brasil.


Fonte: DW.DE



sábado, 31 de maio de 2014

QUAL O FUTURO DA UNIÃO ECONÓMICA EUROASIÁTICA

QUAL O FUTURO DA UNIÃO ECONÓMICA EUROASIÁTICA POR JOSÉ MILHAZES


Por José Milhazes

Na quinta-feira, os presidentes da Bielorrússia, Cazaquistão e Rússia: Alexandre Lukachenko, Nussultan Nazarbaev e Vladimir Putin, assinaram o tratado de criação da União Económica Eurasiática (UEE), que eles próprios classificaram de “acontecimento epocal”.

Claro que a ideia predominante entre os analistas políticos russos consiste em que a criação da UEE tem como objectivo a formação de um contrapeso à União Europeia, ou mais precisamente, uma organização que visa travar o alargamento da UE a países da antiga URSS, bem como reforçar a influência russa no “estrangeiro próximo”.

Os dirigentes dos países membros da UEE sublinham que esta é organização é puramente económica, mas alguns analistas consideram que esta pode ser também um contrapeso à NATO no mundo pós-soviético.

O futuro mostrará se a Rússia, enquanto motor deste processo de integração, conseguirá realizar esses objectivos ou se o destino da UEE não será mais um análogo a organizações semelhantes como a amorfa Comunidade de Estados Independentes.

Importante, agora, é analisar os interesses de cada um dos membros da nova organização.

Moscovo pretende mostrar que não está sozinho, isolado depois da anexação da Crimeia e do apoio aos separatistas na Ucrânia.

“Trata-se de uma medida necessária: a Rússia, tendo como fundo os acontecimentos ucranianos, precisa de provar que ela não está sozinha”, considera Nikolai Bardul, redactor-chefe do jornal “Finansovaia gazeta”.

É de salientar que a actual crise na Ucrânia teve como uma das suas causas a oposição da Rússia à aproximação de Kiev à UE. Quando chegou a hora de assinar de o Acordo de Parceria com a União Europeia, Victor Ianukovitch recusou-se a fazê-lo por pressão de Moscovo, que se dispôs a conceder substantivos empréstimos financeiros à Ucrânia em troca do afastamento em relação a Bruxelas e da aproximação à futura UEE.

Porém, este não é o único motivo que leva o Kremlin a criar uma organização onde ele, por um lado, irá ser o principal protagonista, mas, por outro lado, irá ser o principal financiador, pois é evidente que a UEE não é uma aliança entre três parceiros iguais.

A Rússia tenciona também evitar o avanço económico impetuoso da China na Ásia Central. Vladimir Putin e a direcção russa não se cansa de publicitar a parceria estratégica entre Moscovo e Pequim, mas a realidade é bem mais pragmática.

São os interesses russo e chineses nem sempre coincidentes que levam Nussultan Nazarbaev a manobrar entre dois gigantes e a adesão do Cazaquistão à UEE parece ser uma forma de ele proteger o seu futuro político e a integridade territorial do seu país. Periodicamente, na Rússia elevam-se vozes que fazem lembrar a Nazarbaev que significativa parte do território do Cazaquistão (mais de um terço) pertenceu à Rússia e foi ilegalmente transferido do território dela pelos dirigentes comunistas. Essas vozes soaram no momento em que Moscovo, sob o mesmo pretexto, engoliu a Crimeia.

Além disso, o desenvolvimento dos acontecimentos no Afeganistão fazem recear uma onda de instabilidade que poderá provocar grandes dores de cabeça aos dirigentes dos países da Ásia Central. Se assim for, a Rússia deverá ir em ajuda para evitar que a “chama islâmica” entre no seu território.

Claro que a política russa na Ásia Central visa também enfraquecer a presença americana nessa região.

Quanto à Bielorrússia, Lukachenko garante a sua continuação no poder, bem como vai tentar continuar a ganhar com o processo de integração, nomeadamente, adquirindo petróleo e gás russos aos preços praticados no interior da Rússia. Depois, refina o petróleo e vende esse combustível e seus derivados à Europa a preços internacionais.

Além disso, o dirigente bielorrusso tem presente o exemplo da Ucrânia e não quer arriscar o seu cargo.

A Arménia é um dos países que já se encontra na lista de espera da UEE. Sob forte pressão da Rússia, Erevan renunciou à assinatura do acordo de parceria com a UE. Mais do que os interesses económicos, os dirigentes arménios orientam-se por interesses estratégicos. Eles receiam perder o apoio de Moscovo na luta por Nagorno Karabakh, enclave arménio no território do Azerbaijão. Baku, de tempos a tempos, recorda à comunidade mundial que poderá recuar à força para readquirir esse seu território.

O futuro mostrará se a UEE conseguirá transformar-se num núcleo de integração viável e duradouro.

*Correspondente da Agência LUSA, RDP e SIC em Moscovo (Rússia), Consultor de empresas portuguesas na Rússia e Ucrânia. Docente no Centro de Cultura Portuguesa, Moscovo (Rússia).



sexta-feira, 30 de maio de 2014

ÍNDIA CONFIRMA INTERESSE EM INTEGRAR A CPLP

ÍNDIA CONFIRMA INTERESSE EM INTEGRAR A CPLP


 
O embaixador da Índia em Portugal, Jitendra Nath, confirmou na sexta-feira o interesse do seu país em integrar a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), mas ainda sem uma decisão final.

Em entrevista à RDP Internacional citada pala AIM, o diplomata referiu exemplos de laços fortes entre a Índia e o mundo lusófono, como os Jogos da Lusofonia deste ano, em Goa.

O embaixador acentuou o aspecto económico como o factor determinante do incremento das relações entre a Índia e os países que falam português, o que torna mais viável essa eventual integração na CPLP. Neste âmbito, está a ser preparado para Outubro um encontro exactamente com esse objectivo.

Outro dos aspectos está relacionado com a cultura: o embaixador indiano disse haver cursos de Português na Índia e que muitos funcionários do Estado têm aprendido o idioma em Portugal e no Brasil.

Ainda na área da cultura, a Índia tem pedido a Portugal a tradução de livros para o idioma de Camões.

No início deste mês, o Primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, expressou o interesse do Japão de se tornar membro observador da CPLP. Shinzo Abe expressou o interesse, em Lisboa, durante a sua primeira visita oficial a Portugal.

Na ocasião, Portugal manifestou o seu apoio a pretensão japonesa, segundo uma declaração do Primeiro-ministro português, Pedro Passos Coelho,

O interesse japonês em adquirir o estatuto de observador na CPLP está associado à ambição do Japão de aprofundar as parcerias com países de expressão portuguesa que estão a ampliar a sua presença em África e na América Latina.

Para além de Portugal, fazem parte da CPLP Moçambique, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Moçambique assume actualmente a presidência rotativa da CPLP.
 
 
 Índia antiga na altura quando os portugueses tinham grande influência
 
Fonte:  http://www.jornalnoticias.co.mz

SÍRIA: VOTO NAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS NO EXTERIOR REVELA CONFIANÇA NAS INSTITUIÇÕES DO PAÍS

SÍRIA: VOTO NAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS NO EXTERIOR REVELA CONFIANÇA NAS INSTITUIÇÕES DO PAÍS

Foto: Sírios que vivem no Líbano se reúnem em frente à embaixada do país em Yarze, ao leste de Beirute, para votar nas eleições presidenciais sírias (Foto: Bilal Hussein/AP)


Os sírios no exterior elegem o seu presidente no meio de uma elevada afluência às urnas, a votação foi prorrogada até a meia-noite, e mais um dia no Líbano. No dia 28 de maio 2014, as eleições presidenciais da Síria tiveram lugar em 39 embaixadas a onde estão sendo esperados mais de 200 mil sírios que estão registrados no exterior.

O comparecimento às urnas, nas eleições presidenciais, no exterior sinalizam um novo contrato dos cidadãos sírios com as as suas instituições. Amparado principalmente por uma elevada taxa de participação, a votação nas eleições presidenciais, há muito aguardadas, começou nesta quarta-feira nas embaixadas sírias em todo o mundo, o que se configura como um marco constitucional que os cidadãos sírios consideram como um sinal de firmeza, de perseverança e desafio contra a guerra terrorista deflagrada na sua pátria, e para determinar princípios nacionais.

O grande fluxo foi nos países vizinhos como a Jordânia, Iraque, Oman, Líbano, além de forte presença na Índia, China, Rússia e Brasil (países dos Brics), somam-se a eles os sírios presentes no Iemen, Egipto, Tunísia, Argélia, Irão, República Checa, Bielorrússia, Suécia, Sudão, Argentina, Chile, Venezuela, Cuba, entre outros. A maior adesão foi no vizinho Líbano que, além de ter o maior número de eleitores, acolhe o mais elevado número de refugiados sírios, estimados em mais de um milhão.

 
Ibrahim Lababidi (votante síria) ‏: Passei 5 horas hoje [dia 28] na embaixada síria em Beirute. Não tive oportunidade de votar porque era demasiada gente, mesmo assim estou orgulhosa."

O grande número de eleitores que compareceram na embaixada síria no Líbano provocou um tumulto e um caos no trânsito da capital, e as fotos mostraram os eleitores a pé seguindo em massa ao local das votações. As autoridades libanesas do grupo 14 de Março, perturbadas com o intenso fluxo de cidadãos sírios na embaixada, declararam à imprensa que os eleitores sírios que exerceram o seu direito ao voto são “elementos indesejáveis no Líbano” e pediam que retornassem à Síria. As eleições no Líbano foram prorrogadas até 29 de Maio para que todos os sírios que se registraram para votar, possam consumar o seu pleito.

Nas eleições presidenciais, que se realizam na Síria o dia 3 de Junho, concorrem três candidatos: o actual Presidente, Bashar Al Assad, no poder desde 2000, que procura o terceiro mandato; o deputado Maher Abdel Hafez Al Hajjar, membro da oposição, e o ex-ministro Hassan Abdullah al Nuri.

Na terça-feira, o ministério dos Negócios Estrangeiros Sírio acusou os Emirados Árabes Unidos de se “unirem ao clube dos países que conspiram contra a Síria” ao proibir a votação dos sírios no seu território. O ministério lamentou, em comunicado, que as 30 mil pessoas que se registaram nos Emirados Árabes Unidos não possam eleger o seu futuro líder.



Fonte: Al Watan e Agencia Sana e Al Mayadeen


quarta-feira, 28 de maio de 2014

ROCHAS MAGNÉTICAS: AVALIANDO A ESTRATÉGIA LEGAL DA CHINA NO MAR DO SUL DA CHINA

ROCHAS MAGNÉTICAS: AVALIANDO A ESTRATÉGIA LEGAL DA CHINA NO MAR DO SUL DA CHINA




Por

Nota do Editor: Este é o primeiro de uma série de duas partes avaliando as estratégias legais das disputas do Mar do Sul da China no seu contexto estratégico mais amplo. Abaixo, Sean Mirski examina como a estratégia da China tem sido impulsionada pelo seu desejo conflitante mas igualmente interessado em manter a estabilidade regional e consolidar o controle sobre o Mar do Sul da China. Para a Parte II desta série, clique aqui.

 Séculos atrás, os pescadores chineses referiam-se às ilhas do Mar do Sul da China como "rochas magnéticas"- uma alusão mórbida para a força misteriosa que atraiu navios para destinos infelizes sobre os cardumes de peixes. Hoje, no entanto, o Mar do Sul da China atrai um tipo diferente de problemas. Nas últimos seis décadas, o mar tem sido o centro de um turbilhão geopolítico alimentado por políticas de grandes potencias, nacionalismo tóxico, e de reservas de petróleo abundantes. Seis diferentes países - Brunei, China, Malásia, Filipinas, Formosa e Vietname - mantêm uma contenda uns com os outros sobre os dois territórios insulares do Mar do Sul da China e sobre as suas águas circundantes.

Dos seis contenciosos, a China tornou-se o jogador-chave. É o maior disputante e o mais poderoso, e também avançou com as reivindicações mais radicais. No entanto, o comportamento de Pequim nem sempre espelha o seu crescente poder e ambições. Em vez disso, a estratégia da China é mais complexa, e é formada principalmente pelo desejo de Pequim de manter a paz e a estabilidade na região e ao mesmo tempo avançar com as suas reivindicações expansivas.

Esse dilema tem levado a China a enfatizar o atraso na resolução do conflito, como melhor exemplificado na sua estratégia jurídica pela disputa. Mas esta estratégia tem-se tornado cada vez mais marginalizada nos últimos anos, à medida que a China se tem tornado numa vítima de seu próprio sucesso. Outros reclamantes já perceberam os perigos de jogarem pelas regras da China, assim em vez disso contrariam agora a estratégia dilatória da China com uma postura mais pró-activa destinada a forçar Pequim a parar de hesitar e enfrentar seu dilema de frente. A China tem-se esforçado para responder, e a sua reacção tem aumentado as tensões em toda a região enquanto não for mudado o cálculo dos seus adversários. À medida que a disputa se agrava, a China pode sentir pressão para abandonar sua estratégia dilatória e procurar uma resolução mais rápida do conflito, como o desenrolar dos acontecimentos agora estão começando a mostrar.

Os conflitos de interesses estratégicos da China

Ascensão Pacífica


Para entender o dilema de Pequim, considerar-se os seus interesses estratégicos conflituantes. Por um lado, a China procura perpetuar as suas décadas de crescimento raiante. As estatísticas são conhecidas: a economia do país tem crescido a uma taxa média anual de quase dez por cento nos últimos 35 anos, e sua economia duplicou de tamanho cinco vezes durante este período. Mesmo que o seu crescimento diminui-se, até certo ponto, a economia da China pode - e de facto, quase certamente irá - eclipsar a dos Estados Unidos num futuro próximo.

Mas, geopoliticamente falando, o crescimento da China é relativamente incomum. Ao invés de se encaixar na dialética "state making" de Charles Tilly e "war making", Pequim em vez disso em si compromete-se na ordem económica internacional liberal. Em retrospecto, essa decisão provou-se presciente: China foi prosperando desde que engatou a sua economia à globalização liderada pelos americanos.

A interdependência económica internacional não acontece todavia no vácuo. Para trabalhar a sua magia comercial, a interdependência económica precisa de um ambiente externo relativamente pacífico. Conflitos podem rasgar as relações económicas no coração de um sistema comercial aberto e afastar a China para longe de parceiros comerciais valiosos, mesmo se a própria Pequim se evita envolver. Pior de tudo, qualquer imbróglios regional poderiam precipitar ainda mais os americano a afirmar o seu poder político e militar na região - uma ameaça para as ambições da China a longo prazo de preeminência regional (se não mesmo de domínio).

Para continuar crescendo, então, a China precisa de uma Ásia estável e pacífica. Consequentemente, os líderes chineses lançaram repetidamente as suas políticas em termos de uma "ascensão pacífica" ou "desenvolvimento pacífico". Essa estratégia envolve mais do que mera retórica: nas últimas três décadas, Pequim estabeleceu numerosas disputas fronteiriças; habilmente integradas na diplomacia regional; envolveu-se activamente nas organizações governamentais regionais e internacionais; e assinou acordos comerciais mutuamente benéficos em todo o mundo. Na verdade, não deve ser nenhuma surpresa que a China também se comportou muito bem na esfera militar: fez a última guerra em 1979, e só foi envolvida numa pequena escaramuça no Mar do Sul da China desde então (Johnson South Reef em 1988 ). Em suma, a China tem procurado ser um cidadão regional exemplar, tudo ao serviço das suas ambições económicas.

Controlando o Mar do Sul da China

 

Mas, enquanto as ambições de longo prazo de Pequim aconselham contenção, os seus objectivos mais imediatos - incluindo a soberania sobre o Mar da China do Sul - tendem para outro lado. No mundo ideal de Pequim, a China seria agora o mestre indiscutível do Mar do Sul da China.

Pequim busca controlar o Mar do Sul da China, a fim de gerir as ameaças à segurança nacional e avançar com os seus objectivos económicos. O mar representa uma vulnerabilidade estratégica para a China, tanto como uma rota de invasão histórica e como uma ameaça moderna para a sua segurança energética e economia orientada para a exportação. Controlando o Mar da China Meridional também oferece muitos benefícios tangíveis. O mar está repleto de reservas de pesca abundantes, um pilar de muitas economias regionais. Sob o fundo do oceano, os activos esperados são ainda mais valiosos. Embora os especialistas divirjam sobre o tamanho da potencial bonança, todos eles concordam que há petróleo e gás natural suficiente para trazer cobiça a qualquer país fronteiriço.

Estes imperativos estratégicos são reforçados por políticas internas da China. As disputas marítimas da China tornaram-se inextricavelmente entrelaçada com o nacionalismo chinês. Como resultado, o Mar do Sul da China implica não só a soberania da China, mas também a sua identidade como nação. E para complicar ainda mais, qualquer retirada de reivindicações da China provavelmente estimularia analogias desfavoráveis ​​à fraqueza da China nas mãos de potências imperiais predatórias durante o "Século da Humilhação". Assim, mesmo que os líderes chineses estivessem inclinados a entregar reivindicações chinesas no Sul do Mar da China, seriam impedidas de fazê-lo pela reacção doméstica inevitável. Em vez de compromissos, Pequim sente-se cada vez mais pressionado por um público nacionalista para agir assertivamente nas suas relações com os outros requerentes.

Os cornos do Dilema da China

 

Assim, os interesses estratégicos da China muitas vezes funcionam como objectivos opostos. Por um lado, Pequim prefere resolver a disputa do Mar do Sul da China, o mais rapidamente e pacificamente possível. A disputa tem impedido uma maior integração regional e, nos últimos anos, a China adquiriu uma reputação de comportamento belicoso que arrefeceu as suas relações regionais. Por outro lado, porém, a China também não quer perder o controle de uma área tão importante estrategicamente. As suas mãos estão mais amarradas por um público nacionalista e muitas vezes pugilístico que parece suspeito em quaisquer concessões ou fraquezas percebidas por parte da China. Em suma, a China poderia tentar resolver a disputa através de qualquer compromisso ou agressão, mas nenhuma delas é uma opção atraente.

Assim, ao invés de tentar resolver o conflito, Pequim tem coberto e adotou uma estratégia de atraso. Apanhada entre competitivos interesses estratégicos, a China tem procurado manter o controle suficiente para preservar suas reivindicações sem exercer muito controle de uma forma que pode enervar outros disputantes. Assim, enquanto a China for defendendo as suas reivindicações contra a agressão de outros estados, ela tem geralmente preferido evitar a desestabilização do status quo. É claro que uma estratégia dilatória também desempenha a maior força da China: o seu poder de expansão e trajetória de crescimento de longo prazo. Porque deveria a China tentar resolver o conflito agora, quando a sua posição de negociação melhora a cada trimestre fiscal ?

A Estratégia Legal da China em Disputa no Mar do Sul da China





Para o melhor exemplo da estratégia dilatória em funcionamento, não procure mais do que a estratégia legal da China. Esta estratégia é uma mistura cuidadosamente elaborada de reivindicações substantivas legais e táticas de negociação, todas destinadas a preservar o "status quo", mantendo a máxima flexibilidade no futuro.

A China adoptou a ambiguidade como um pilar fundamental da sua estratégia legal. Mesmo hoje, depois de várias décadas de controvérsia - o alcance das reivindicações da China ainda não está claro. Na verdade, a China só tem enturvado as águas nos últimos anos com a sua introdução formal da infame "linha de nove traços." Em 2009, a Malásia e Vietname apresentaram uma apresentação conjunta de um órgão das Nações Unidas que define os limites das suas reivindicações exteriores da plataforma continental. A China respondeu no dia seguinte com uma nota verbal de protesto às reivindicações dos dois países. A nota verbal chinesa, era um tanto enigmaticamente, afirmando que "a China tem a soberania indiscutível sobre as ilhas no Mar da China Meridional e as águas adjacentes, e goza de direitos de soberania e jurisdição sobre as águas relevantes, bem como o leito do mar e subsolo do mesmo (ver mapa em anexo). "O mapa em anexo mostrou uma linha de nove traço que vai desde a costa da China e que abrange quase todo o Mar do Sul da China. Desde então, países e os analistas Têm-se questionado o que -se é alguma coisa - a linha de nove traço indica. Parece bastante claro que a China reivindica os títulos de todas as ilhas que se enquadram dentro dos amplos limites sobre a linha expansionista de nove traços. Menos claro, porém, é saber se ela também reivindica toda a área marítima circundante pela linha.

Dessa forma seria uma flagrante violação das obrigações internacionais da China. Sob o direito internacional consuetudinário, os estados estão vinculados pelo princípio da "la terre domine la mer" (a terra domina o mar), ou a ideia de que a soberania sobre as águas flui da soberania às proximidades da terra, e não o inverso. Em consonância com este princípio, a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), permite às nações para controlar as águas domésticas estender apenas a uma certa distância do seu território soberano. Mesmo sob a leitura mais caridosa da CNUDM, Pequim não podia legalmente reivindicar o controle sobre grande parte das águas delimitada pela linha de nove traços.


Tribunal Internacional para o Direito do Mar 


Especialmente nos Estados Unidos, muitos analistas têm assumido que a China interpreta a linha de nove traços expansivamente. Mas Pequim nunca foi oficialmente muito esclarecedor de qual a interpretação que significa para se adoptar. A sua recusa em fazê-lo é impressionante, especialmente porque quase todos os analistas das disputas do Mar do Sul da China - incluindo vários estudiosos chineses - têm instado a China a clarificar as suas ambíguas reivindicações legais.

Em vez disso, o governo chinês tem deliberadamente adoptado uma política de ambiguidade legal estudada sobre a dimensão das suas reivindicações. Esta "ambiguidade estratégica" é apenas uma faceta da maior estratégia de atraso da China. A nova linha de nove traços cria o espaço legal para interpretações mais amplas sobre as reivindicações da China no futuro, mas isso não significa necessariamente menciona-las por agora. Como resultado, a China mantém a flexibilidade, a longo prazo, enquanto evita os custos de curto prazo de avançar com reivindicações irrealistas. Claro que, mesmo uma política de ambiguidade estratégica tem custos - A China tem sido duramente criticada pela sua dependência em relação à linha de nove traços, mais recentemente, pelos Estados Unidos. Mas a vontade da China em suportar estes custos testemunha claramente a sua relutância em embarcar quer numa política de compromisso quer numa política de agressão.

A estratégia dilatória da China também afectou a maneira na qual a China negocia as suas reivindicações legais. Em primeiro lugar, a China tem feito o seu melhor para evitar a resolução do conflito. Embora assuma o compromisso formal de um processo de resolução pacífica, na prática Pequim tem defendido incansavelmente uma política de "desenvolvimento conjunto", pelo qual os requerentes devem adiar a resolução das disputas de soberania até que as condições estejam "maduras". Até então, todas as partes devem trabalhar em conjunto para desenvolver os recursos do Mar do Sul da China em conjunto. Não obstante a abordagem tenha ganho pouca adesão, seria permitir que a China para escapar do seu dilema se promulgasse o seguinte: Pequim poderia promover a paz regional enquanto a exploração de recursos do mar continuaria e se manteriam as suas reivindicações de soberania.

Como outra tática de negociação, Pequim tem insistido em resolver as disputas do Mar da China Meridional numa base bilateral. De acordo com a sabedoria convencional, a China prefere negociar em termos de um-para-um em vez de as negociações multilaterais, porque pode mais facilmente alavancar a sua força para suportar o parceiro de negociação individual. Mas as negociações bilaterais implicam também um segundo e talvez mais importante benefício: elas permitem a Pequim controlar o ritmo das negociações. Em contraste, as negociações multilaterais tornam-se mais fácil para os outros requerentes fecharem acordos entre si que forçam a China a agir. Mesmo quando a China tem sido incapaz de impedir que outras partes se reúnam, tem sido impedido o progresso por cooptação dos estados individuais e o aproveitamento das divisões internas.

A crescente irrelevância da Estratégia Legal da China

Por muitos anos, a postura reactiva da China esteve bem. A partir de meados da década de 1990 ao início de 2000, a China e os outros requerentes priorizaram o direito internacional e a diplomacia, em palavras e actos. Em meados da década de 2000, no entanto, os outros contendores - especialmente Vietname e Filipinas - perceberam que estavam no lado dos derrotados de uma estratégia dilatória da China. Se eles jogassem nos termos da China, eles iriam continuar a perder influência. Então eles mudaram as regras do jogo.

As partes têm continuado a esgrimir a mesma retórica, mas começaram a alterar a sua conduta subjacente. Em vez de enfatizar o direito material, os requerentes menores - principalmente Filipinas e Vietname - aperfeiçoaram uma nova, mas extremamente arriscado estratégia: lançar a China sobre os chifres de seu próprio dilema. Manila e Hanói ambos sabem que não podem esperar para forçar a China a entregar todas as suas reivindicações, mas eles calculam que podem ser capazes de obter concessões significativas de fora da China, enquanto Pequim continua a oscilar entre a a agressão e o compromisso. Na última década, as Filipinas e o Vietname, portanto, tentaram pressionar a China, alterando a realidade no terreno e internacionalizar o conflito. Ao adotar uma postura mais pró-activa, os dois países esperam que a China seja forçada a tomar uma decisão entre respondendo agressivamente - assim, pondo em perigo o seu crescimento a longo prazo como estratégia - e cedendo algum limitado terreno na disputa. As Filipinas e o Vietname estão apostandos em que a China escolha o último.

Enquanto a China foi inicialmente apanhada desprevenida pela nova estratégia de Manila e de Hanói, ela recuperou-se rapidamente e aperfeiçoou uma nova estratégia em duas vertentes. Como Peter Dutton apontou, a primeira vertente enfatiza a coerção não-militarizada. Como um aspecto dessa estratégia, a China tem inundado o Mar da China do Sul, com uma enorme quantidade de "cascos brancos", ou navios pertencentes a agências marítimas civis da China. Estes vasos são então usados ​​para empurrar de volta os dos outros requerentes, por exemplo, a detenção de pescadores estrangeiros ou cortar os cabos de navios de exploração de petróleo. Mais recentemente, Pequim estacionou uma plataforma de petróleo ao largo da costa protegida do Vietname, é claro, por uma armada de "cascos brancos". Como parte dessa estratégia, a China também tem usado o seu peso económico para "desencorajar" os investidores internacionais a se aventurarem nas águas turvas da região.


Como parte da segunda vertente, Pequim continuou a expandir e a fortalecer as suas capacidades navais. Esses recursos são usados ​​quase que exclusivamente para efeitos de dissuasão; A China não quer se envolver num conflito directo, busca sim, colocar um travão sobre a coerção não-militarizada da primeira vertente e evitar que a partir dai surja uma espiral fora de controle. Como resultado, quando os navios filipinos encontram as embarcações marítimas civis chinesas, eles já sabem que o Exército Popular de Libertação da Marinha (EPLM)[PLAN na sigla inglesa] espreita apenas fora de vista.

Juntos, as duas vertentes permitem que a China possa responder com força às provocações de outros requerentes, ao mesmo tempo que contém a possibilidade de uma escalada. Mais uma vez, o objectivo é reconciliar interesses concorrentes estratégicos da China: Pequim defende as suas reivindicações através do seu envolvimento civil, às vezes agressivo, mas previne que a disputa ponha em risco o seu crescimento a longo prazo, garantindo que as armas permaneçam no coldre em toda parte.

Na execução desta nova estratégia, a China, por vezes, executa acções de outros disputantes para efeitos apenas de uma reacção igual e oposta; mais recentemente, no entanto, a China começou a não só retribuir, mas também a escalar, colocando uma pressão adicional sobre os outros requerentes para que recuem. Por exemplo, depois de um navio da Marinha das Filipinas ter detido pescadores chineses perto de Scarborough Shoal, em Abril de 2012, a China decidiu enviar várias das suas próprias embarcações marítimas civis. O impasse continuou por dois meses, até que os Estados Unidos negociou como intermediário uma retirada para ambos os lados. Enquanto as Filipinas obedientemente saíram, a China renegou o acordo e ficou onde estava. Um mês depois, o plano bloqueou a entrada na zona de pesca, e os seus navios têm vindo a patrulhar nas proximidades desde então.

O ponto culminante do impasse Scarborough Shoal foi uma escalada historicamente atípico por parte da China: com efeito, Pequim tomou o controle de Scarborough Shoal em resposta ao assédio inicial das Filipinas a alguns pescadores chineses. Mas em outros aspectos, a reacção da China não é particularmente surpreendente. Em resposta às provocações de outros requerentes, Pequim deve andar numa corda bamba entre o uso de muita pouco coerção (fortalecendo, assim as outras partes) e usando muita coerção (aparecendo assim como um vilão regional). No geral, não foi capaz de manter esse equilíbrio, talvez por causa que uma resposta perfeitamente calibrada é impossível. Como resultado, a opinião pública regional oscilou fortemente contra a China.

Em qualquer caso, a parte mais reveladora da história de Scarborough pode ter acontecido meses depois da China ter consolidado o controle sobre a zona de pesca. A 22 de Janeiro de 2013, as Filipinas iniciaram um processo de arbitragem sobre os créditos da China sob a égide da CNUDM. A certo nível, o caso parece marginal. A China recusou-se a participar, de modo que o caso poderia ser facilmente posto de lado por falta de jurisdição. Mas mesmo que o tribunal alcança-se os méritos, e mesmo que as regras favorecessem Manila, Pequim poderia simplesmente ignorar a decisão e esperar até que a onda de críticas internacionais passasse. Qualquer resultado será efectivamente inexequível.

No entanto, apesar insignificância prática do caso, a China tem sido freneticamente - e sem sucesso - tentada a impedi-la de prosseguir. Em Janeiro de 2014, Pequim alcançou novos níveis de desespero, e supostamente ofereceu-se para retirar os seus navios de Scarborough Shoal se as Filipinas adiassem a apresentação de seu memorial no caso. Enquanto que a proposta deve ser vista com desconfiança, afinal, Pequim já tem renegado ofertas relativas à zona de pesca antes - não deixa de ser uma oferta extraordinária se for verdadeira: a China estava disposta a abrir mão do controle do território sobre o qual ela reivindica soberania apenas para evitar um pouco de má publicidade. Assim, enquanto a China venceu a batalha para Scarborough Shoal, pode ter perdido a guerra, tudo porque Manila foi capaz de encontrar algo que Pequim valorizado ainda mais do que o território: a sua reputação em cumprir com o direito internacional. Para a China, sua reputação está intimamente ligada à sua estratégia de crescimento a longo prazo, e o país não pode dar-se ao luxo de anunciar seu descumprimento total, com a lei internacional.

O última desfecho do impasse de Scarborough Shoal ilustra as limitações da nova estratégia da China. As taticas contundentes da China tiveram alguns sucessos, e no futuro, Manila provavelmente vai pensar duas vezes antes de iniciar um confronto sobre uma ilha disputada. Mas a estratégia da China não foi capaz de alterar permanentemente o cálculo global dos outros requerentes. Toda a vez que a China efectivamente impede um tipo de provocação, isto só incentiva as outras partes a crescer através de outro tipo de provocação. Como resultado, a China está sendo consistentemente prejudicada em ambas as pontas do seu dilema: a sua estratégia de crescimento de longo prazo está cada vez mais posta em causa ao mesmo tempo que enfrenta crescentes ameaças às suas reivindicações territoriais.

O pior de tudo, é que é improvável que a situação da China melhore. A dinâmica produzida pela interacção da sua estratégia com a dos outros requerentes é inerentemente instável; contrariando uma provocação apenas leva a uma maior num outro lugar. Em algum momento, Pequim pode ter achado que tem de morder a bala e escolher entre duas opções extremamente desagradáveis: a escalada da disputa num conflito naval aberto e assistir a região a desvendar-se, ou a conceder estrategicamente valioso território, - como Pequim poderia ter oferecido à quatro meses atrás - e enfrentando potencial instabilidade doméstica em casa. A China vai fazer tudo o que for possível para adiar essa escolha, mas mais cedo ou mais tarde, ela poderá ter que se decidir.

Sean Mirski é um estudante do segundo ano da Harvard Law School, onde é presidente do Supremo Tribunal da Harvard Law Review. Ele é também o co-editor do Crux of Asia: China, India and the Emerging Global Order.



Tradução: Paulo Ramires
Cortesia: The National Interest

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