O NASCIMENTO DE UM SÉCULO DE EUROÁSIA: RÚSSIA E CHINA CONSTROEM O "PIPELINEISTAN"

segunda-feira, 9 de junho de 2014

O NASCIMENTO DE UM SÉCULO DE EUROÁSIA: RÚSSIA E CHINA CONSTROEM O "PIPELINEISTAN"

O NASCIMENTO DE UM SÉCULO DE EUROÁSIA: RÚSSIA E CHINA CONSTROEM O "PIPELINEISTAN" 



Por Pepe Escobar

Um espectro assombra Washington, trata-se de uma visão inquietante de uma aliança sino-russa junta com uma simbiose expansiva de trocas comerciais e de comércio em grande parte na região da Euroásia - à custa dos Estados Unidos.

Não admira que Washington esteja ansioso. Essa aliança é já um acordo feito sobre uma variedade de formas: através do grupo BRICS de potências emergentes ( Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul); na Organização de Cooperação de Xangai, o contrapeso asiático à NATO; dentro do G20; e via dos 120 membros - Nações Não Alinhadas (NNA). O comercio e as trocas comerciais são apenas parte dos futuros acordos. Sinergias no desenvolvimento de novas tecnologias militares estão na calha também. Depois da Guerra das Estrelas num estilo ultra-sofisticado sistema de mísseis S-500 de defesa aérea da Rússia previsto para 2018, Pequim de certeza vai querer uma versão dele. Enquanto isso, a Rússia está prestes a vender dezenas de Sukhoi Su-35 caças de ultima geração para os chineses com Pequim e Moscovo a movimentarem-se para selar uma parceria de aviação industrial.

Claro, o dólar dos EUA continua a ser a maior moeda de reserva global, envolvendo 33 % das explorações cambiais globais no final de 2013 de acordo com o FMI. Era no entanto de 55 % em 2000. Ninguém sabe a percentagem do yuan (Pequim não fala), mas o FMI observa que as reservas em "outras moedas" em mercados emergentes cresceram até 400% desde 2003.


Esta semana deve fornecer os primeiros fogos de artifício reais na celebração de um novo século da Euroásia para o evento com o presidente russo Vladimir Putin visitando Xi em Xangai na última terça-feira e quarta-feira. Lembra-se do "Pipelineistan", todos os oleodutos e gasodutos que cruzam a crucial Euroásia que compõem o sistema circulatório para a verdadeira vida da região. Agora, parece que o negócio do "Pipelineistan" estará estimado em US $ 1 trilião e demorará 10 anos a ser construído, vai ser assinado também. Nele o gigante de energia russa estatal Gazprom vai concordar em fornecer à gigante estatal Chinesa National Petroleum Corporation ( CNPC ), com 3.750 milhões de pés cúbicos de gás natural liquefeito por dia, durante pelo menos 30 anos, a partir de 2018. Isso é o equivalente a um quarto das enormes exportações de gás da Rússia para toda a Europa. Actualmente a procura diária de gás da China é de cerca de 16 biliões de metros cúbicos por dia, e as importações representam 31,6% do consumo total.

A Gazprom ainda pode receber a maior parte dos seus lucros provenientes da Europa, mas a Ásia pode vir a ser o seu Everest. A empresa vai usar este mega acordo para aumentar o investimento na Sibéria Oriental e toda a região vai ser reconfigurada como um hub de gás privilegiado para o Japão e a Coreia do Sul também. Se quer saber por que nenhum país chave na Ásia não tem estado disposto a " isolar" a Rússia no meio da crise ucraniana - e em desafio ao governo Obama - não procure mais do que "Pipelineistan".

Sair do Petrodólar, Entrar no Gás-o-Yuan


E em seguida  falamos sobre a ansiedade em Washington, há o destino do petrodólares a considerar, ou melhor, a possibilidade "termonuclear" de Moscovo e Pequim virem a concordar com o pagamento para o negócio da Gazprom - CNPC não em petrodólares mas em yuans chineses. É difícil imaginar um maior abalo tectónico com o "Pipelineistan" cruzando-se com uma crescente pareceria sino-russa na área político-económico e energética. Junto com ela vai a futuro possibilidade de um empurrão, novamente liderada pela China e Rússia, em direcção a uma nova moeda de reserva internacional - na verdade, um cabaz de moedas - que substituiriam o dólar (pelo menos nos sonhos optimistas dos membros dos BRICS).

Logo após a cimeira sino-russa que implica um potencial jogo de mudanças vem a cimeira dos BRICS no Brasil em Julho. Foi em 2012 quando um banco de desenvolvimento dos BRICS com um montante de US $ 100 biliões foi anunciado, será agora oficialmente criado como uma potencial alternativa ao Fundo Monetário Internacional ( FMI) e ao Banco Mundial como uma fonte de financiamento de projetos para o desenvolvimento mundial.

Mais cooperação entre BRICS significa evitar o uso do dólar se se reflectir no "Gás-o-yuan ", como no gás natural comprado e pago em moeda chinesa. A Gazprom está até mesmo a considerar a transacção de títulos[obrigações] em yuans como parte do planeamento financeiro para a sua expansão. Obrigações de valor facial em yuans já são negociadas em Hong Kong, Singapura, Londres e, mais recentemente em Frankfurt.

Nada poderia ser mais sensível [sensato] para o novo acordo do "Pipelineistan" do que tê-lo expresso em yuans. Pequim poderá pagar à Gazprom nessa moeda ( conversíveis em rublos ); Gazprom poderá acumular yuans; e a Rússia poderá então comprar vastos bens e serviços made-in-China em yuans conversíveis em rublos.

É do conhecimento geral que os bancos em Hong Kong, desde o Standard Chartered ao HSBC -, bem como outros intimamente ligada à China via acordos comerciais - têm vindo a diversificar os seus activos em yuans, o que implica que o yuan poderá tornar-se de facto uma moedas de reserva mundial antes mesmo de ser totalmente conversível. (Pequim está a trabalhar em termos não oficiais por um yuan plenamente conversível até 2018).

O negócio de gás Rússia-China está indissoluvelmente ligado ao relacionamento de energia entre a União Europeia (UE) e Rússia. Afinal, a maior parte do produto interno bruto da Rússia vem da venda de petróleo e gás, assim como grande parte da sua influência na crise Ucrânia. Por sua vez, a Alemanha depende da Rússia para uma montante de 30% de seu fornecimento de gás natural. No entanto, os imperativos geopolíticos de Washington - temperados com uma histeria polaca - significa empurrar Bruxelas para encontrar formas de "punir" Moscovo na esfera de energia no futuro (embora não pondo em perigo as relações energéticas actuais).

Existe um rumor consistente nestes dias em Bruxelas sobre o possível cancelamento do projectado gasoduto do South Stream de € 160 biliões, cuja construção está para começar em Junho. Após a sua conclusão, será bombeado ainda mais gás natural russo para a Europa - neste caso, por baixo do Mar Negro ( contornando a Ucrânia ) para a Bulgária, Hungria, Eslovénia, Sérvia, Croácia, Grécia, Itália e Áustria.

Bulgária, Hungria e República Checa já deixaram claro que se opõem firmemente a qualquer cancelamento. E o cancelamento não está, provavelmente, nos horizontes. Afinal, a única alternativa óbvia é o gás do Mar Cáspio do Azerbaijão, e isso não é provável que aconteça a menos que a UE possa de repente reunir a vontade e recursos para uma programação para construir o lendária Baku-Tblisi-Ceyhan (BTC) , concebida durante os anos de Clinton expressamente para contornar a Rússia e o Irão.

Em qualquer caso, o Azerbaijão não tem capacidade suficiente para fornecer os níveis necessários de gás natural e outros fornecedores como o Cazaquistão, debate-se com problemas de infra-estruturas, ou não confiável Turcomenistão, o qual prefere vender gás para a China, são já hipóteses que estão amplamente fora de questão. E não esquecer que o South Stream, juntamente com os projectos de energia subsidariazada, irá criar muitos postos de trabalho e investimentos em muitas das nações economicamente mais devastadas da UE.

No entanto, as ameaças da UE, porém irrealísticas, só servem para acelerar a simbiose cada vez maior da Rússia com os mercados asiáticos. Especialmente para Pequim, é uma situação "win-win". Afinal de contas, entre a energia fornecida através dos mares policiados e controladas pela Marinha dos EUA e as rotas terrestres estáveis ​​fora da Sibéria , não é nenhuma competição.

Escolha a sua próprio "Silk Road"


A Fed está indiscutivelmente a monetizar 70% da dívida do governo dos EUA na tentativa de manter as taxas de juros em alta. O conselheiro do Pentágono Jim Rickards, bem como todos os banqueiros de Hong Kong, tendem a acreditar que a Fed está falida (embora eles não o digam em voz alta). Ninguém pode imaginar a extensão do possível dilúvio futuro do dólar dos EUA que pode enfrentar entre $ 1,4 quatriliões de derivativos financeiros do Mount Ararat. Quem não acha que isso é a sentença de morte do capitalismo ocidental, anda contudo a fraquejar no reinado económico dessa fé, o neoliberalismo continua ainda a ser a ideologia oficial dos Estados Unidos, a esmagadora maioria da União Europeia, e em zonas da Ásia e da América do Sul.

Ao que se poderá chamar de "neoliberalismo autoritário" do Império Médio, o que não é do agrado neste momento ? A China tem provado que existe uma alternativa orientada para os resultados ao modelo capitalista "democrático" ocidental para as nações com o objectivo de serem bem sucedidas. Trata-se da construção de não de uma mas sim de várias "Silk Roads", teias enormes de ferrovias de alta velocidade, estradas, oleodutos, portos e redes de fibra óptica em toda a grandes partes da Euroásia. Estas incluem rotas no sudeste asiático, rotas na Ásia Central, uma "auto-estrada marítima" no Oceano Índico e até mesmo uma linha ferroviária de alta velocidade através do Irão e da Turquia atingindo todo o caminho com destino à Alemanha.

Em Abril , quando o presidente Xi Jinping visitou a cidade de Duisburg no rio Reno, com o maior porto interior do mundo e bem dentro do coração da indústria de aço do Ruhr na Alemanha, ele fez uma proposta audaciosa: uma nova "economic Silk Road" [rota económica da seda] que deveria ser construída entre a China e a Europa, com base na ferrovia Chongqing-Xinjiang-Europa , que já vai da China ao Cazaquistão, em seguida, através da Rússia, Bielorrússia, Polónia, e Alemanha por último. São 15 dias de comboio, 20 menos que os navios de carga que navegam a partir do litoral leste da China. Bem mas isso representará um máximo terremoto geopolítico em termos de integração e crescimento económico em toda a Euroásia.

Tenha em mente que, se nenhuma bolha [imobiliária] estourou, a China está prestes a se tornar - e permanecer - o número um do poder económico global, uma posição que desfrutou por 18 dos últimos 20 séculos. Mas que não se diga aos hagiógrafos de Londres. Eles ainda acreditam que a hegemonia dos EUA vai durar bem, e para sempre.

Leva-me Para a Guerra Fria 2.0


Apesar das recentes graves dificuldades financeiras, os países BRICS têm vindo a trabalhar conscientemente para se tornarem numa força contrária ao original e - tendo sido a Rússia posta de lado em Março - uma vez mais, no Grupo dos 7 ou G7. Eles estão ansiosos para criarem uma nova arquitectura global para substituir a primeira. imposta no início da Segunda Guerra Mundial, e eles vêem-se como os potenciais desafiadores ao mundo unipolar e excepcionalista que Washington imagina para o nosso futuro (com eles próprios como o Robocop mundial e a NATO como força policial-robótica). O Historiador e conselheiro imperialista Ian Morris, no seu livro War! What is it Good For? [Guerra! Para que serve o bem?, Define os EUA como o último "globocop" e "a última esperança da Terra"." Se é esse o "globocop" "o seu papel está esgotado", escreve ele , " não há um plano B."

Bem, há um plano BRICS - ou assim como as nações BRICS gostam de pensar, pelo menos. E quando os BRICS agem com esse espírito no cenário global , eles rapidamente evocam uma curiosa mistura de medo, histeria e belicismo do establisment de Washington. Tome-se Christopher Hill como um exemplo. O ex- secretário de Estado adjunto para o Leste Asiático e embaixador dos EUA no Iraque é agora um conselheiro do Albright Stonebridge Group, uma empresa de consultoria profundamente ligada à Casa Branca e ao Departamento de Estado. Quando a Rússia entrou em crise [e retirou-se], Hill acostumar-se a sonhar com um império americano hegemónico, "a nova ordem mundial". Agora que os russos ingratos rejeitaram o que "o Ocidente tem vindo a oferecer " - Isto é um "estatuto especial com a NATO, um relacionamento privilegiado com a União Europeia, e uma parceria nos esforços diplomáticos internacionais " - estão, na sua opinião, tentando reviver o império soviético. Tradução: se você não se tornar num dos nossos vassalos, estará contra nós. Bem-vindo à Guerra Fria 2.0.

O Pentágono tem a sua própria versão deste direccionamento mas não tanto da Rússia como a China, na qual o seu think tank já sugere uma futura guerra, que já está em andamento com Washington numa série de questões. Então, se não é já o Apocalypse Now, é o Armageddon de amanhã. E escusado será dizer que tudo o que está a acontecer de errado, como a administração Obama muito vem a publicitar através dos "pivôs" para a Ásia e dos órgãos de comunicação americanos que preenchem as conversa sobre um renascimento das "política de contenção da  época da Guerra Fria", no Pacífico, e isso é tudo culpa da China.

Envolvidos em situações de loucos em direcção à Guerra Fria 2.0 estão alguns factos no terreno: o governo dos EUA, com $ 17,5 triliões de dólares de dívida nacional e continuando a crescer, anda contemplando um confronto financeiro com a Rússia, o maior produtor mundial de energia e um dos principais poderes nucleares, assim como também vem a promovendo um cerco militar e económico insustentável ao seu maior credor, a China.

A Rússia tem um superavit comercial de dimensão considerável. Os bancos chineses Humongous não terão nenhuns problemas para ajudar os bancos russos se os fundos ocidentais secarem. Em termos de cooperação inter-BRICS, alguns projectos de oleodutos atingem os 30 biliões de dólares só na fase de planeamento que se estenderá da Rússia até à Índia pelo noroeste da China. Já as empresas chinesas estão ansiosamente a discutir a possibilidade de participar na criação de um corredor de transporte da Rússia para a Crimeia, bem como um aeroporto, estaleiro e terminal de gás natural liquefeito na região. E há ainda outra jogada "termonuclear" já pronta a ser lançada: a criação de uma organização de gás natural equivalente à da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) que incluirá a Rússia e o Irão para suposto descontentamento do aliado dos EUA, o Qatar.

O ( não declarado ) plano de longo prazo dos BRICS envolve a criação de um sistema económico alternativo com base num cabaz de moedas lastreadas no ouro e que viria a ignorar o sistema financeiro global da América - sistema financeiro global centríco. ( Não admira que a Rússia e a China estejam acumulando ouro tanto quanto podem. ) O euro - uma moeda sólida apoiada por grandes mercados de títulos líquidos e enormes reservas de ouro - seria também bem-vinda.

Não é nenhum segredo em Hong Kong que o Banco da China está a usar uma rede SWIFT [entidade que gere os códigos que permitem a identificação de um banco] paralela para realizar todo o tipo de comércio com Teerão, que está sob um forte regime de sanções dos EUA. Com Washington a usar o Visa e o Mastercard como armas de uma crescente campanha económica de Guerra Fria em estilo contra a Rússia, Moscovo está prestes a implementar um sistema de cartões de crédito de pagamento alternativo e não controlados pelo meio financeiro ocidental. Um caminho mais fácil seria a adopção do sistema UnionPay chinês, cujo funcionamento já tinha ultrapassado o American Express em volume global.

Eu estou apenas pensando comigo mesmo

As ilhas Senkaku / Diaoyou

Sem grande força para a Ásia por parte da administração Obama para conter a China (e ameaçá-la com o controle da Marinha dos EUA das rotas marítimas de energia para aquele país ) é susceptível de obrigar Pequim para longe da sua estratégia de inspiração de Deng Xiaoping, auto-descrita como para o "desenvolvimento pacífico" com o objectivo de a transformá-la numa potência comercial global. Nem vão para a frente com o envio de tropas dos Estados Unidos ou da NATO na Europa Oriental ou com outros actos típicos da Guerra Fria mais susceptível de dissuadir Moscovo a partir de uma acção de equilíbrio cuidadosa: garantindo que esfera de influência da Rússia na Ucrânia continue a ser forte sem comprometer as trocas comerciais e o comercio, bem como as política e as relações com a União Europeia - acima de tudo, com a parceria estratégica com a Alemanha. Esta é o Santo Graal de Moscovo; uma zona de comércio livre a partir de Lisboa a Vladivostok, que ( não é por acaso ) é a copia do sonho da China de uma nova Silk Road [Rota da Seda] para a Alemanha.

Cada vez mais desconfiada de Washington, Berlim por sua vez abomina a ideia de a Europa ser apanhada nas garras de uma Guerra Fria 2.0. Os líderes alemães têm coisas mais importantes para resolver, inclusive tentar estabilizar a vacilante UE abraços e na direcção de um colapso económico na Europa meridional e central e o avanço de mais e maiores partidos de extrema-direita.

Do outro lado do Atlântico, o presidente Barack Obama e seus principais oficiais mostram todos os sinais de ficarem presos nas suas próprias estratégias - para o Irão, para a China, para a fronteira leste da Rússia, e (sob o radar) para a África. A ironia de todas essas manobras militares - primeiro é que eles estão de facto a ajudar Moscovo, Teerão e Pequim a construir a sua própria profundidade estratégica na Euroásia e em muitos outros lugares, como refletido na Síria, ou fundamentalmente em cada vez mais acordos energéticos cruciais. Essas estratégias estão também a ajudar a cimentar a crescente parceria estratégica entre a China e o Irão. O implacável Ministério da narrativa da Verdade de Washington sobre todos estes desenvolvimentos ignora agora cuidadosamente que, sem Moscovo, o "Ocidente" nunca se teria sentado para discutir um acordo nuclear com o Irão, ou conseguido um acordo de desarmamento químico contrário aos interesses de Damasco.

Quando as disputas entre China e os seus vizinhos no sul do Mar da China e entre esse país e o Japão sobre as ilhas Senkaku / Diaoyou, enfrentou a crise da Ucrânia, a conclusão inevitável será que tanto a Rússia como a China consideram as suas fronteiras e rotas marítimas propriedade privada e não vão aceitar tranquilamente desafios - seja pela via da expansão da NATO, pelo cerco militar dos EUA, ou pelo escudo de mísseis. Nem Moscovo nem Pequim recuará na forma usual de expansão imperialista, apesar das versões dos acontecimentos agora a serem alimentadas aos públicos ocidentais. As suas "linhas vermelhas" permanecem essencialmente de natureza defensiva, não importa o ruído às vezes envolvido em protegendo-las.

O que quer que Washington possa querer ou recear tentar evitar por precaução, os fatos no terreno sugerem que, nos próximos anos, Pequim, Moscovo, Teerão só irão crescer ainda mais, lentamente mas seguramente, criando um novo eixo geopolítico na Euroásia . Enquanto isso, na América em vias de colapso parece estar a incentivar a desconstrução de sua própria ordem mundial unipolar, oferecendo aos BRICS a verdadeira janela de oportunidade para tentar mudar as regras do jogo.

Rússia e China como Modelo Estratégico

Na opinião dos think-tank de Washington, a convicção de que a administração Obama deve ser focada em repetir a Guerra Fria por meio de uma nova versão da política de contenção de " limitar o desenvolvimento da Rússia como potência hegemónica" tomou conta das discussões. A receita: armar os vizinhos dos estados bálticos ao Azerbaijão para "conter" a Rússia. A Guerra Fria 2.0 está acesa, porque do ponto de vista das elites de Washington, a primeiro nunca saiu do papel.

No entanto, tanto quanto os EUA possam combater o surgimento de um mundo multipolar de multi-potências, os factos económicos no terreno regularmente apontam para esses desenvolvimentos. A questão permanece: Será que o declínio da hegemonia será lento e razoavelmente digna, ou irá o mundo inteiro ser arrastado junto com ela com o que se tem sido chamado de "A Opção Samson" ?

Enquanto vemos o espectáculo desenvolvendo-se, sem sinal de um jogo com fim, tenha-se em mente que uma nova força está a crescer na Euroásia, com a aliança estratégica sino-russa ameaçando dominar o seu coração juntamente com grandes extensões da sua orla interna. Agora, isso é um pesadelo de proporções de Mackinderesque do ponto de vista de Washington. Pense-se, por exemplo, de como Zbigniew Brzezinski, ex-conselheiro de segurança nacional, que se tornou um mentor para o presidente Obama em política global, como ele iria ver isso .

No seu livro de 1997 O Grande Tabuleiro de xadrez [The Grand Chessboard], Brzezinski argumentou que "a luta pela primazia mundial [ que ] continuará a ser jogada" na Euroásia "tabuleiro de xadrez", de que "a Ucrânia foi um pivô geopolítico". "Se Moscovo recuperar o controle sobre a Ucrânia," escreveu ele na altura, a Rússia "recuperará automaticamente os meios necessários para se tornar num estado imperial poderoso, abrangendo toda a Europa e Ásia."

Isso continua a ser a maior parte da racionalidade por de trás da política de contenção imperial americana - desde a Rússia europeia e territórios adjacentes ao Mar do Sul da China. Mesmo assim, sem um fim à vista deste jogo, mantenha-se os olhos na Rússia movendo-se para a Ásia, a China expandindo-se por todo o mundo, e os BRICS fazendo um trabalho duro para tentar trazer o novo século da Euroásia.


Pepe Escobar é correspondente itinerante do Asia Times / Hong Kong, analista do RT e TomDispatch, e um colaborador frequente de sites e programas de rádio que vão desde os EUA à Ásia Oriental. Nascido no Brasil, ele tem sido um correspondente estrangeiro desde 1985, viveu em Londres, Paris, Milão, Los Angeles, Washington, Bangkok e Hong Kong. Mesmo antes do 11/9 especializou-se na cobertura do arco do Médio Oriente à Ásia Oriental e Central, com ênfase na geopolítica das grandes potências e guerras de energia. Ele é o autor de 'Globalistan' (Nimble Books, 2007), "Red Zone Blues '(Nimble Books, 2007)," Obama faz Globalistan' (Nimble Books, 2009) e um editor contribuindo para uma série de outros livros, incluindo os próximos 'Crossroads da Liderança: a globalização e o século americano New na Presidência de Obama (Routledge). Quando não está sobre funções, alterna entre São Paulo, Nova York, Londres, Bangkok e Hong Kong. 


Tradução Paulo Ramires

 

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