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sexta-feira, 26 de abril de 2019

A UNIÃO EUROPEIA É FORÇADA A PARTICIPAR NAS GUERRAS DOS EUA

Assim, é totalmente descabido abordar as eleições europeias opondo progressistas e nacionalistas, este não é, de forma alguma, o tema. Os progressistas afirmam a sua vontade de construir um mundo regido pelo Direito Internacional que o seu patrocinador, os Estados Unidos, quer erradicar, enquanto certos nacionalistas, como a Polónia de Andrzej Duda, se preparam para servir os Estados Unidos contra os seus parceiros da União Europeia. Apenas alguns Britânicos pressentiram a actual viragem.


Desde o Tratado de Maastricht, todos os membros da União Europeia (aqui incluídos os países neutrais) colocaram a sua defesa sob a suserania da OTAN ; a qual é exclusivamente dirigida pelos Estados Unidos. É por isso que, quando o Pentágono delega ao Departamento do Tesouro o cerco económico de países que quer esmagar, todos os membros da União Europeia e da OTAN são forçados a aplicar as sanções dos EUA.


Por Thierry Meyssan*

Após a perda da sua maioria na Câmara dos Representantes durante as eleições intercalares, o Presidente Trump encontrou novos aliados em troca da remoção pelo Procurador Mueller da acusação de alta traição [1]. Agora, ele apoia os objectivos dos seus generais. O imperialismo dos EUA está de volta [2].

Em menos de seis meses, os fundamentos das relações internacionais foram «reiniciados». A guerra que Hilary Clinton prometera desencadear foi realmente declarada, mas não exclusivamente pela força militar.

Esta mudança de regras do jogo, sem equivalente desde o fim da Segunda Guerra Mundial, forçou imediatamente a totalidade dos actores a repensar a sua estratégia e, portanto, todos os dispositivos da aliança em que se apoiavam. Os que se atrasarem pagarão as favas.

A guerra económica é declarada

As guerras sempre serão mortais e cruéis, mas para Donald Trump, que era um homem de negócios antes de ser Presidente dos Estados Unidos, é preferível que elas custem o menos possível. Convêm, portanto, matar mais por pressões económicas do que pelas armas. Sabendo que os Estados Unidos já não comerciam mais com a maior parte dos países que atacam, o custo financeiro destas guerras (no sentido real do termo) «económicas» é, com efeito, suportado mais por países terceiros do que pelo Pentágono.

Assim, os Estados Unidos acabam de decidir cercar economicamente a Venezuela [3], Cuba [4] e a Nicarágua [5]. Estes actos são apresentados pelos comunicadores como «sanções», sem que se saiba de que Direito as toma Washington, a fim de mascarar verdadeiras guerras de aniquilação.

Elas são lançadas com referência explícita à «Doutrina Monroe» (1823) segundo a qual nenhuma potência estrangeira ao continente americano pode aí intervir, em troca do qual Washington não iria intervir na Europa Ocidental. Só a China, que se sentiu visada, observou que as Américas não são a propriedade privada dos Estados Unidos. Além disso, todo a gente sabe que esta doutrina tem evoluído rapidamente para justificar o imperialismo ianque no Sul da continente (o «Corolário Roosevelt»).

Hoje as sanções dos EUA aplicam-se a, pelo menos, vinte países: a Bielorrússia, a Birmânia, o Burundi, a Coreia do Norte, Cuba, a Federação da Rússia, o Iraque, o Líbano, a Líbia, a Nicarágua, República Árabe Síria, a República Bolivariana da Venezuela, a República Centro-Africana, a República Democrática do Congo, a República Islâmica do Irão, a Sérvia, a Somália, o Sudão, o Sudão do Sul, a Ucrânia, Iémene e o Zimbabué. É um mapa muito preciso de conflitos conduzidos pelo Pentágono, assistido pelo Departamento do Tesouro dos EUA.

Estes alvos jamais se encontram na Europa Ocidental (tal como o especificava a «Doutrina Monroe»), mas unicamente no Médio-Oriente, na Europa Oriental, na bacia das Caraíbas e em África. Desde 1991 que todas estas regiões haviam sido listadas pelo Presidente George Bush Sr na sua Estratégia de Segurança Nacional como estando destinadas a integrar-se na «Nova Ordem Mundial» [6]. Considerando que elas não o tinham podido ou querido fazer, foram sancionadas em 2001 pelo secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, e pelo seu Conselheiro para a transformação das Forças Armadas, o Almirante Arthur Cebrowski, e votadas ao caos [7].

A expressão «guerra económica» foi banalizada durante décadas para designar uma competição exacerbada. Mas, hoje em dia não se trata de nada disso, antes de uma verdadeira guerra de aniquilação.

As reacções dos alvos e as inapropriadas dos Aliados

Os Sírios, que acabaram de ganhar uma guerra militar de oito anos contra os mercenários jiadistas da OTAN, estão desconcertados com esta guerra económica que impõe um estrito racionamento de electricidade, de gás e de petróleo e provoca o encerramento de fábricas (usinas-br) que acabavam de reabrir. Apesar de tudo, podem consolar-se que o Império não lhes tenha infligido estas duas formas de guerra ao mesmo tempo.

Os Venezuelanos descobrem horrorizados o que esta guerra económica significa e percebem que, tanto com o aventureiro Juan Guaidó como com o Presidente Nicolas Maduro, terão que lutar para conservar um Estado (quer dizer, um Leviatã capaz de os proteger [8]).

As estratégias dos Estados-alvo acabam elas próprias viradas do avesso. Por exemplo, não conseguindo já importar medicamentos para os seus hospitais a Venezuela chegou a um acordo com a Síria, a qual era, antes da guerra de 2011, um importantíssimo produtor e exportador nessa área. Fábricas, que foram destruídas pela Turquia e pelos jiadistas, foram reconstruidas em Alepo. Mas, agora, quando elas acabam de reabrir, têm de fechar novamente por falta de electricidade para poder funcionar.

A multiplicação de teatros de guerra —e, portanto, das chamadas «sanções»—começa a colocar graves problemas aos aliados dos Estados Unidos, entre os quais a União Europeia. Esta levou muito a mal as ameaças de confiscos sobre as suas empresas que investiram em Cuba e, lembrando-se de acções tomadas para lhe fechar o mercado iraniano, reagiu ameaçando, por sua vez, de acionar o tribunal arbitral da OMC. No entanto, como iremos ver, esta revolta da União Europeia está votada ao fracasso porque foi antecipada, há 25 anos, por Washington.

A União Europeia feita refém

Antecipando a actual reacção da União Europeia, inquieta por não poder comerciar com quem bem lhe aprouvesse, a Administração Bush Sr havia elaborado a «Doutrina Wolfowitz» : assegurar-se que os Europeus Ocidentais e do Centro jamais tivessem uma defesa independente, mas somente autónoma [9]. Foi por isso que Washington castrou a União Europeia à nascença impondo-lhe uma cláusula no Tratado de Maastricht : a suserania da OTAN —eu falo aqui da União Europeia, não do Mercado Comum—.

Lembremos o apoio, sem falha, da União Europeia a todas as aventuras subsequentes do Pentágono que se prolongaram na Bósnia-Herzegovina, no Kosovo, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, na Síria e no Iémene. Em todos os casos, sem excepção, ela alinhou-se atrás do seu suserano, a OTAN.

Esta vassalagem é, além disso, a única razão pela qual se dissolveu a União da Europa Ocidental (UEO) e pela qual o Presidente Trump renunciou a dissolver a organização militar permanente da Aliança Atlântica: sem OTAN, a União Europeia ganharia a sua independência porque é unicamente a ela ---e não aos Estados Unidos--- que os tratados fazem referência.

Certo, os tratados estipulam que tudo isso se deve fazer em conformidade com a Carta das Nações Unidas. - Mas, por exemplo, a 26 de Março de 2019, os Estados Unidos puseram em causa as resoluções que haviam aprovado sobre a soberania do Golã. Mudaram de ideia sem aviso prévio, provocando de facto o colapso do Direito Internacional [10]. 

Outro exemplo: os Estados Unidos tomaram esta semana uma posição na Líbia a favor do General Khalifa Haftar ---ao qual o Presidente Trump telefonou para lhe garantir o seu apoio, como revelou a Casa Branca a 19 de Abril--- contra o Governo criado pela ONU [11], e viu-se, um a um, os membros da União Europeia seguir-lhe os passos.

É impossível, em virtude dos seus tratados constitutivos, que a UE se liberte da OTAN e, portanto, dos Estados Unidos e se afirme como uma potência por si mesma. Os protestos perante as pseudo-sanções decididas ontem contra o Irão e hoje contra Cuba estão de antemão votadas ao fracasso.

Contrariamente a uma ideia feita, a OTAN não é governada pelo Conselho do Atlântico Norte, quer dizer os Estados membros da Aliança Atlântica; quando, em 2011, o Conselho, que aprovara uma acção visando proteger a população líbia dos supostos crimes de Muammar Kaddafi, se declarou contrário a uma «mudança de regime», a OTAN lançou o assalto sem o consultar.

Os membros da União Europeia, que constituíam um bloco único com os Estados Unidos durante a Guerra Fria, descobrem, com estupefacção, que não têm a mesma cultura que o seu aliado de além-Atlântico. Durante esse parêntesis, eles haviam esquecido tanto a sua própria cultura europeia como o «excepcionalismo» norte-americano e acreditavam erradamente que todos estavam de acordo uns com os outros.

Quer gostem ou não, hoje em dia são co-responsáveis pelas guerras de Washington, incluindo, por exemplo, a fome no Iémene, consecutiva às operações militares da Coligação Saudita e às sanções dos EUA. Agora, eles têm de escolher entre endossar estes crimes e participar neles, ou retirar-se dos Tratados Europeus.

A globalização está acabada

O comércio internacional começa a diminuir. Não se trata de uma crise passageira, mas de um fenómeno de fundo. O processo de globalização que caracterizou o mundo da dissolução da URSS às eleições intercalares dos EUA de 2018 terminou. É agora impossível exportar livremente para qualquer lugar do mundo.

Só a China dispõe ainda dessa capacidade, mas o Departamento de Estado dos EUA está em vias de desenvolver os meios para lhe fechar o mercado latino-americano.

Nestas circunstâncias, os debates sobre as vantagens do livre comércio e do protecionismo já não têm razão de ser, porque não estamos mais em paz e já não há mais escolha possível.

Da mesma forma, a construção da União Europeia, que foi imaginada numa época em que o mundo estava dividido entre dois blocos irreconciliáveis, tornou-se totalmente inadequada. Se não querem ser embarcados pelos Estados Unidos em conflitos que não são os deles, os seus membros devem libertar-se dos Tratados europeus e do comando integrado da OTAN.

Assim, é totalmente descabido abordar as eleições europeias opondo progressistas e nacionalistas [12], este não é, de forma alguma, o tema. Os progressistas afirmam a sua vontade de construir um mundo regido pelo Direito Internacional que o seu patrocinador, os Estados Unidos, quer erradicar, enquanto certos nacionalistas, como a Polónia de Andrzej Duda, se preparam para servir os Estados Unidos contra os seus parceiros da União Europeia.

Apenas alguns Britânicos pressentiram a actual viragem. Eles tentaram sair da União, mas sem conseguir convencer os seus parlamentares. «Governar, é prever» diz-se, mas a maior parte dos membros da União Europeia não viram nada do que se aproximava.

*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).

voltairenet.org

Tradução 
Alva

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[1] Report On The Investigation Into Russian Interference In The 2016 Presidential Election, Special Counsel Robert S. Mueller, III, March 2019.

[2] Após a sua ascensão à Casa Branca, o Presidente Trump transformara o Conselho Nacional de Segurança para retirar o assento permanente à CIA e ao Pentágono “Presidential Memorandum : Organization of the National Security Council and the Homeland Security Council”, by Donald Trump, Voltaire Network, 28 January 2017. “Donald Trump dissolve a organização do imperialismo norte-americano”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 3 de Fevereiro de 2017.

[3] “US Treasury Sanctions Central Bank of Venezuela and its Director”, Voltaire Network, 17 April 2019.

[4] Cuban Liberty and Democratic Solidarity (Libertad) Act of 1996 cujas piores disposições foram incessantemente aplicáveis.

[5] “US Treasury Targets Finances of Nicaraguan President Daniel Ortega’s Regime”, Voltaire Network, 17 April 2019.

[6] National Security Strategy of the United States 1991, George H. Bush, The White house, 1991.

[7] “A estratégia do Caos Encaminhado”, Manlio Dinucci, Tradução Maria Luísa de Vasconcellos, Il Manifesto (Itália) , Rede Voltaire, 16 de Abril de 2019.

[8] Reagindo à guerra civil inglesa, o filósofo Thomas Hobbes teorizou, no seu livro Leviatã, a necessidade de apoiar um Estado, mesmo que autoritário e abusivo, em vez de não o ter e ser mergulhado no caos.

[9] « US Strategy Plan Calls For Insuring No Rivals Develop », Patrick E. Tyler, and « Excerpts from Pentagon’s Plan : "Prevent the Re-Emergence of a New Rival" », New York Times, March 8, 1992. « Keeping the US First, Pentagon Would preclude a Rival Superpower », Barton Gellman, The Washington Post, March 11, 1992.

[10] “A ONU minada pelo «excepcionalismo» norte-americano”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 2 de Abril de 2019.

[11] “Washington e Moscou unidos contra a ONU na Líbia”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 23 de Abril de 2019.

[12] « Pour une Renaissance européenne », par Emmanuel Macron, Réseau Voltaire, 4 mars 2019.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

A INICIATIVA «UMA FAIXA, UMA ROTA» DA CHINA CONTINUA A CONQUISTAR A EUROPA ENQUANTO OS TECNOCRATAS GRITAM E GEMEM

O novo modelo de desenvolvimento que tem conquistado cada vez mais os países da Euroásia central e oriental, bem como a Grécia e a Itália, forneceu uma lufada de ar fresco para os cidadãos de todos os lugares que estão desesperados com um sistema transatlântico que nada pode fazer além de exigir obediência a um extinto conjunto de regras que comanda apenas a austeridade, práticas bancárias hiperinflacionárias e nenhum investimento de longo prazo na economia real. Assim, a mobilização tecnocrática contra o BRI nos últimos dias em resposta a esse novo paradigma só pode ser vista como uma tentativa absurda de salvar um sistema que já falhou.


Por Matthew JL Ehret* 

A 10 de Abril, o primeiro-ministro da China, Li Keqiang comemorou a conclusão da 1ª fase da Ponte Pelgesac de 2,5 km de fabrico chinês na Croácia sobre a Baía de Mali Ston ao lado do primeiro-ministro croata Andrej Plenkovic. Esta cerimónia marcou uma vitória impressionante, pois o dia seguinte deu início a uma importante cimeira de 16 + 1 Chefes de estado, que viu a Grécia ser o mais novo membro de uma nova aliança de países da Europa Central e Oriental que desejam cooperar com a China. Nesta cimeira realizada a 12 de Abril, o primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, declarou que este foi "um momento crucial para os desenvolvimentos globais e regionais" e "temos que deixar para trás a crise e encontrar novos modelos de cooperação regional e global".

É claro que o envolvimento da Grécia nessa aliança (agora renomeada como 17 + 1 (CEEC [Central and Eastern European Countries] + China) ) ampliou as suas fronteiras geográficas para o oeste e é especialmente importante, já que o Porto de Pireu da Grécia é um ponto estratégico de comércio leste-oeste para a Iniciativa «Uma Faixa, Uma Rota» (BRI) na Europa, centrada na rota rápida marítima e terrestre China-Europa. A Grécia está dolorosamente ciente de que a sua sobrevivência depende da BRI da China, já que os programas da UE para a austeridade, privatização e resgates trouxeram apenas morte e desespero com o colapso do emprego jovem, aumento da taxa de criminalidade e suicídio. Também não é uma perda para ninguém que esta inovação aconteça logo após a adesão da Itália à Iniciativa «Uma Faixa, Uma Rota», a 26 de Março, e que também serve como uma precursora para a segunda Cimeira «Uma Faixa, Uma Rota» que acontecerá em Pequim no final de Abril, envolvendo mais de 126 nações que já assinaram MoUs [Memorando de Entendimento] com a BRI e milhares de empresas internacionais.


Foram assinados dez acordos adicionais ligados à BRI entre a Croácia e a China antes da Cimeira 17 + 1, incluindo a modernização das linhas ferroviárias (especialmente de Zagreb ao porto de Rijeka), cooperação de telecomunicações entre a Huawei e a Croatian Telecom e portos principais, estradas e portos, educação e cooperação cultural.

A Iniciativa «Uma Faixa, Uma Rota», como Tsipras corretamente apontou, não é apenas mais um conjunto de programas de infraestrutura projectadas para contrabalançar a hegemonia ocidental, mas sim um “novo modelo de cooperação regional e global” baseado num princípio de desenvolvimento mútuo e pensamento de longo prazo não visto no oeste desde a morte de Franklin Roosevelt e a incorporação do estado profundo anglo-americano que se seguiu.

O facto de a China ter formalizado um acordo de cooperação económica e comercial com a União Económica Eurasiática liderada pela Rússia em Maio de 2018 é extremamente relevante, uma vez que incorporou os seus cinco países, a Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão, Arménia e Quirguistão directamente ao BRI. A China já investiu US $ 98 mil milhões nas economias reais da UEE, envolvendo 168 projectos conectados ao BRI.

O novo modelo de desenvolvimento que tem conquistado cada vez mais os países da Euroásia central e oriental, bem como a Grécia e a Itália, forneceu uma lufada de ar fresco para os cidadãos de todos os lugares que estão desesperados com um sistema transatlântico que nada pode fazer além de exigir obediência a um extinto conjunto de regras que comanda apenas a austeridade, práticas bancárias hiperinflacionárias e nenhum investimento de longo prazo na economia real. Assim, a mobilização tecnocrática contra o BRI nos últimos dias em resposta a esse novo paradigma só pode ser vista como uma tentativa absurda de salvar um sistema que já falhou.

Duas contra-operações recentes contra o BRI e o novo sistema operacional de cooperação mutua que ele representa são dignas de menção. A primeira é encontrada na formação de uma aliança trilateral entre a Corporação para Investimentos Privados Internacionais (OPIC), a agência de finanças e desenvolvimento do Canadá (FinDev Canada) e quinze membros da União Europeia, anunciada a 11 de Abril. Uma segunda contra-operação foi criada vários dias antes com a Aliança para o Multilateralismo Canadá-Alemanha-França-Japão durante a reunião do G7 em França.

O Presidente e CEO da OPIC, David Bohigian (Centro), assinou um memorando de entendimento com o Director Geral da FinDev Canadá, Paul Lamontagne e o Presidente da Associação das Instituições Europeias de Financiamento do Desenvolvimento (EDFI), Nanno Kleiterp.

Embora a OPIC tenha sido fundada a 1971, o seu uso como força subversiva contra o BRI foi formalizado a 30 de Julho de 2018, quando criou uma aliança trilateral com o Japão e a Austrália para financiar a infraestrutura na bacia do Pacífico. Somado a isso, uma segunda aliança trilateral foi criada a 11 de Abril de 2019, quando o canadiano Paul Lamontagne (chefe da FinDev Canadá), Nanno Kleiterp da Associação das Instituições Europeias de Financiamento do Desenvolvimento (EDFI) e David Bohigian assinaram um novo acordo para criar um mecanismo paralelo de financiamento de infra-estrutura. Visando a China, o comunicado de imprensa afirmou que a aliança “aumentará a cooperação transacional, operacional e relacionada a políticas entre os participantes e reforçará o seu compromisso de fornecer uma alternativa robusta aos modelos insustentáveis ​​liderados pelo Estado”.

Nessa assinatura, Bohigian afirmou que "estamos a tentar dar um exemplo para o mundo do modo como o financiamento do desenvolvimento deve funcionar", claramente atacando o conceito "incompetente" de financiamento para o desenvolvimento da China e ignorando o facto de que mais de 800 milhões de pessoas foram directamente retiradas da pobreza pela abordagem da China ao investimento. Bohigian estava claramente à espera que o mundo ignorasse a vasta escravidão pelas dívidas e o caos espalhado pelos últimos 50 anos de domínio do FMI-Banco Mundial que não produziu crescimento real das nações. Embora o American BUILD Act tenha aumentado o financiamento do governo dos EUA para a OPIC de US $ 29 mil milhões para US $ 60 mil milhões num ano, nenhum projecto integrado sério para o desenvolvimento foi apresentado e, ao contrário, fornece subsídios ridículos.

A outra operação anti-BRI mencionada é a “Aliança para o Multilateralismo” germano-franco-japonês-canadiano que viu a Ministra dos Negócios Estrangeiros do Canadá, Chrystia Freeland, declarar numa conferencia de imprensa em França que “o Canadá aderiu formalmente a uma coligação alemã armada para salvar a internacional ordem mundial da destruição por vários ditadores e autocratas mundiais”. No entanto Freeland não mencionou Trump aqui, o embaixador da França no Canadá, Kareen Rispal, foi mais sincero declarando “o Sr. Trump não gosta de valorizar o multilateralismo”. Citando a sua retirada da COP21, e criticas à OMC, ONU e OTAN, o enviado continuou “Envia a mensagem errada ao mundo se pensarmos que só porque o Sr. Trump não é a favor do multilateralismo, isso não significa que nós, -- quero dizer, países como o Canadá, França e Alemanha e muitos outros -- não sejamos firmes defensores."

O que exactamente esta "Aliança para o Multilateralismo" é, permanece ainda um mistério dado que nenhuma política real foi apresentada. Depois que o fumo se dissipou, parece não ser nada mais do que um clube de membros sem reflexão gritando com Putin, Xi Jinping, Trump e outras “pessoas más” que não desejam cometer suicídio em massa sob um Green New Deal e uma ditadura tecnocrática.

Comentando esses desenvolvimentos num webcast a partir da Alemanha a 10 de Abril, a Presidente do Instituto Schiller, Helga Zepp-Larouche, fez a seguinte observação: “A Geopolítica tem de ser atirada pela janela, e a Nova Rota da Seda é a maneira de industrializar a África, de lidar com a situação do Médio Oriente para conseguir a paz por lá, para estabelecer uma situação de trabalho decente entre os Estados Unidos, a Rússia e a China: E isso é o que devemos exigir da Europa. E a melhor maneira de se fazer isso é que toda a Europa assine o Memorando de Entendimento com a Iniciativa «Uma Faixa, Uma Rota», isso seria a coisa mais importante para estabilizar a paz mundial e colocar o mundo num domínio diferente”.

Com a Rússia e a China a liderar uma nova coligação de nações lutando para defender os princípios da soberania, auto-desenvolvimento e geração de crédito de longo prazo no âmbito da Iniciativa «Uma Faixa, Uma Rota», uma grande esperança apresentou-se como o Titanic que é a Cidade de Londres e o Wall Street que continuam a afundar cada vez mais rápido nas águas geladas da história.

*Jornalista, palestrante e fundador da Canadian Patriot Review.

strategic-culture.org

terça-feira, 23 de abril de 2019

WASHINGTON E MOSCOVO UNIDOS CONTRA A ONU NA LÍBIA



Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, os Estados Unidos, o Egipto e a França aliaram-se à Rússia contra o Governo de Unidade Nacional da Líbia constituído pelas Nações Unidas.

Esta é a primeira vez que Washington e Moscovo se colocam de acordo para fazer cair uma solução que haviam antes apoiado no Conselho de Segurança.

A Alemanha, a Itália e o Reino Unido parecem ter acreditado em vão que as duas grandes potências respeitariam o seu compromisso perante a comunidade internacional.

No entanto, a coligação favorável ao Marechal Khalifa Haftar não é tão unida assim. Os Estados Unidos só a apoiam para prolongar o conflito, pelo menos até ao declínio de seu petróleo de xisto (em 2023 ou 2024, de acordo com a AIE), enquanto a Rússia, ao contrário, o apoia para estabilizar a região.

Durante a Jamahiriya Árabe Líbia, o Marechal foi o chefe do Corpo Expedicionário líbio no Chade. Ele rebelou-se contra Muammar al-Kaddafi e juntou-se às forças da CIA, antes de se exilar na Virgínia. Voltou à Líbia durante o derrube do Guia e sempre beneficiou do apoio dos EUA, apesar das aparências.

Embora não tenha nenhuma intenção em apoiá-lo, mas sabendo, no entanto, que apenas Saif el-Islam Kaddafi é capaz de unir novamente as tribos do país, Washington deixa abertas as suas oportunidades de modo a que ele possa atrapalhar as coisas a qualquer momento. No entanto, o filho do Guia não apareceu em público desde a sua detenção e torturas, de maneira que se ignora se ele está ou não em posição de desempenhar um papel político.

voltairenet.org

segunda-feira, 22 de abril de 2019

SRI LANKA NÃO PRESTOU ATENÇÃO AOS AVISOS DE ATAQUES, REFERE FUNCIONÁRIO GOVERNAMENTAL




COLOMBO, Sri Lanka - As Autoridades do Sri Lanka não deram ouvidos aos alertas das agências de inteligência sobre a ameaça de um grupo muçulmano radical que funcionários governamentais culpam pelos atentados de domingo de Páscoa que mataram mais de 200 pessoas, informou o ministro da Saúde do país.

-As explosões coordenadas que atravessaram igrejas e hotéis de luxo foram realizados por sete homens-bomba de um grupo militante chamado National Thowfeek Jamaath, disse o ministro da Saúde, Rajitha Senaratne.

Agências internacionais de inteligência alertaram sobre os ataques várias vezes a partir de 4 de Abril, disse Senaratne. A 9 de Abril, o Ministério da Defesa escreveu ao chefe de polícia com informações que incluíam o nome do grupo, disse ele. A 11 de Abril, a polícia escreveu aos chefes de segurança da divisão judiciária e de segurança diplomática, disse Senaratne.

Não ficou imediatamente claro qual acção, se alguma, foi tomada em resposta. As autoridades disseram que pouco se sabia sobre o grupo, excepto que o seu nome havia aparecido em relatórios de inteligência.

Pouco depois de Senaratne falar aos repórteres, uma carrinha estacionada destruídas, o St. Anthony's Shrine, em Colombo, explodia, enviando pedestres que fugiam em pânico. Enquanto inspeccionava, a polícia encontrou três bombas que eles tentaram neutralizar, mas que em vez disso detonaram. Nenhum ferimento foi relatado.

Também na segunda-feira, a polícia encontrou 87 detonadores perto do principal terminal de autocarros de Colombo, disseram as autoridades que se recusaram a comentar se estavam ligados aos ataques de domingo.

Por causa da disfunção política dentro do governo, disse Seranatne, o primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe e o seu gabinete foram silenciados sobre a inteligência até depois dos ataques.

O presidente Maithrela Sirisena, que estava fora do país na época dos ataques, expulsou Wickremesinghe no final de Outubro e dissolveu o gabinete. O Tribunal Constitucional finalmente reverteu as suas acções, mas o primeiro-ministro não foi autorizado a participar nas reuniões do Conselho de Segurança desde Outubro.

Todos os terroristas eram cidadãos do Sri Lanka, mas as autoridades suspeitam de ligações estrangeiras, disse Senaratne.

Anteriormente, Ariyananda Welianga, um investigador de crimes forenses do governo, disse que uma análise das partes do corpo dos atacantes deixou claro que eles eram homens-bomba. Ele disse que a maioria dos ataques foi realizado por terroristas individuais, no Shangri-La Hotel, em Colombo.

Os atentados, a violência mais violenta do Sri Lanka desde uma guerra civil devastadora que terminou há uma década, matou pelo menos 290 pessoas com mais de 500 feridos, informou o porta-voz da polícia, Ruwan Gunasekara.

Dois outros ministros do governo também aludiram a falhas de inteligência. O ministro das Telecomunicações, Harin Fernando, twittou: “Alguns oficiais de inteligência estavam cientes dessa incidência. Portanto, houve um atraso na acção. Acções sérias precisam ser tomadas na sequência desse aviso ter sido ignorado. ”Ele disse que o seu pai também tinha ouvido falar de um possível ataque e o advertiu para não entrar em igrejas populares.

Mano Ganeshan, ministro da integração nacional, disse que os funcionários de segurança de seu ministério foram alertados pela sua divisão sobre a possibilidade de dois homens-bomba atacarem os políticos.

O cardeal Malcolm Ranjith, arcebispo de Colombo, disse que os ataques poderiam ter sido evitados.

“Colocamos as nossas mãos em nossas cabeças quando ficamos a saber que essas mortes poderiam ter sido evitadas. Por que isso não foi impedido? ”, Disse.

Anteriormente, o ministro da Defesa, Ruwan Wijewardena, descreveu as explosões como um ataque terrorista por extremistas religiosos, e a polícia disse que 13 suspeitos foram presos, apesar de não haver nenhuma reivindicação imediata de responsabilidade.

Na guerra civil, os Tigres Tamis, um poderoso exército rebelde conhecido pelo uso de homens-bomba, foram esmagados pelo governo em 2009 e tinham pouco historial de atingir os cristãos. Embora o fanatismo anti-muçulmano tenha varrido a ilha nos últimos anos, alimentado por nacionalistas budistas, a ilha também não tem história de militantes muçulmanos violentos. A pequena comunidade cristã do país viu apenas incidentes dispersos de assédio nos últimos anos.

As explosões - principalmente em Colombo, a capital - derrubaram os tectos e estilhaçaram as janelas, matando os fiéis e hóspedes do hotel numa cena após a outra de fumaça, fuligem, sangue, vidro partido, gritos e alarmes.

“Colocamos as nossas mãos em nossas cabeças quando ficamos sabendo que essas mortes poderiam ter sido evitadas. Por que isso não foi impedido?

Um trabalhador do necrotério na cidade de Negombo, nos arredores de Colombo, onde a Igreja de São Sebastião foi atacada, disse que muitos corpos eram difíceis de identificar devido à extensão dos ferimentos. O trabalhador falou sob condição de anonimato.

Nilantha Lakmal, um empresário de 41 anos em Negombo, foi com a sua família a São Sebastião para a missa de Páscoa. Ele disse que todos escaparam ilesos da explosão, mas ele continua assombrado pelas imagens de corpos tirados do santuário e jogados para um camião.

No Shangri-La Hotel, uma testemunha disse que "as pessoas foram arrastadas" depois da explosão.

"Havia sangue por toda parte", disse Bhanuka Harischandra, de 24 anos, de Colombo e fundador de uma empresa de marketing de tecnologia. Ele ia para o hotel para uma reunião quando foi bombardeado. “As pessoas não sabiam o que estava a acontecer. Era o modo de pânico ”, disse ele.

A maioria dos mortos era do Sri Lanka. Mas os três hotéis bombardeados e uma das igrejas, o St. Anthony's Shrine, são frequentados por turistas estrangeiros, e o Ministério do Turismo disse que 39 estrangeiros de diversos países foram mortos.

Os EUA disseram que "vários" americanos estavam entre os mortos, enquanto Grã-Bretanha, Índia, China, Japão e Portugal informaram que também perderam cidadãos.

As ruas estavam praticamente desertas na segunda-feira à tarde, com a maioria das lojas fechadas e um desdobramento pesado de soldados e policiais. Clérigos atordoados e espectadores reuniram-se no Santuário de Santo António, a olhar para os soldados frente à igreja atingida.

Inicialmente, o governo do Sri Lanka suspendeu o toque de recolher imposto durante da noite, mas restabeleceu-o na tarde de segunda-feira. A maioria dos médias sociais permaneceram bloqueados na segunda-feira, depois que as autoridades informaram que precisavam reduzir a disseminação de informações falsas e aliviar a tensão no país de cerca de 21 milhões de pessoas.

O primeiro-ministro Wickremesinghe disse temer que o massacre possa desencadear a instabilidade e prometeu "investir todos os poderes necessários com as forças de defesa" para tomar medidas contra os responsáveis.

A escala do derramamento de sangue lembrou os piores dias da guerra civil, quando os Tigres Tamis, da minoria étnica tâmil, procuraram a independência do país dominado pelos cingaleses. Os cingaleses são em grande parte budistas. Os tâmeis são hindus, muçulmanos e cristãos.

O Sri Lanka, na ponta sul da Índia, é cerca de 70% budista. Nos últimos anos, as tensões foram altas entre os monges budistas da linha-dura e os muçulmanos.

Dois grupos muçulmanos no Sri Lanka condenaram os ataques à igreja, assim como países do mundo inteiro, e o Papa Francisco expressou condolências ao final da sua tradicional bênção do domingo de Páscoa em Roma.

Seis explosões quase simultâneas aconteceram de manhã no santuário e nos hotéis Cinnamon Grand, Shangri-La e Kingsbury em Colombo, bem como em duas igrejas nos arredores de Colombo.

Poucas horas depois, mais duas explosões ocorreram nos arredores de Colombo, uma em uma pousada onde duas pessoas foram mortas e a outra perto de um viaduto, disse Atapattu.

Além disso, três policiais foram mortos durante uma busca numa abrigo suspeito nos arredores de Colombo, quando os seus ocupantes aparentemente detonaram explosivos para evitar a prisão, informaram as autoridades.

As autoridades disseram que uma grande bomba foi encontrada e desactivada no final de domingo numa estrada de acesso ao aeroporto internacional.

O capitão do grupo da Força Aérea, Gihan Seneviratne, disse na segunda-feira que as autoridades encontraram uma bomba com 50 quilos de explosivos. Era grande o suficiente para causar danos  num raio de 400 metros referiu.

Harischandra, que testemunhou o ataque no Hotel Shangri-La, disse que houve "muita tensão" após os atentados, mas acrescentou: "Já passamos por situações desse tipo antes."

Ele disse que os cingaleses são "um grupo incrível" e notou que o seu feed da média social foi inundado com fotos de pessoas em fila para doar sangue.

Os jornalistas da Associated Press Gemunu Amarasinghe em Negombo, Sri Lanka, Rishabh Jain em Colombo e Sheila Norman-Culp em Londres contribuíram para este relatório.




Actualização


Dois dias depois que uma série de explosões atingir o Sri Lanka no domingo de Páscoa, imagens de três homens com uma bandeira do Estado Islâmico em pano de fundo foram divulgadas, alegando que os três indivíduos fizeram parte dos ataques terroristas que explodiram igrejas e hotéis na ilha. nação.

Uma das razões pelas quais muitos acreditam que os homens, Abu Ubaida, Abul Barra e Abul Mukhtar fizeram parte da missão é que as imagens foram divulgadas pelos canais de notícias da televisão pró-EI. Outra razão é que um dos homens, identificado como Abu Ubaida e também conhecido como Zahran Hashin é considerado um membro da National Tawheed Jamaat (NTJ), um grupo jihadista no Sri Lanka, informa o Times of India .

Nas imagens, os três homens são vistos com armas e uma saudação de um dedo que é exclusiva para os membros do Estado Islâmico. Abu Ubaida é aquele com o rosto descoberto enquanto os outros cobriram os rostos com lenços pretos e brancos.




DEIXARÁ O OCIDENTE CONSTRUIR CAMINHOS DE FERRO LIGANDO O GOLFO AO MEDITERRÂNEO?

O projecto de um caminho de ferro ligando o porto iraniano de Khorramshahr à fronteira iraquiana, à costa mediterrânica síria, via Bagdade, não é novo. Já havia sido planificado antes da guerra, à época do mercado comum turco-irano-sírio. 


Depois dos Estados Unidos e seus aliados terem deliberadamente criado as condições para a fome na Coreia do Norte, a seguir no Sudão, na Tunísia e hoje em dia no Iémene, começam a fazê-lo na Síria. O único meio para se defender disso é relançar a economia regional, a qual se afundou durante as guerras do Iraque e da Síria. Dois projectos de caminho de ferro concorrem entre si : um para desenvolver a região, o segundo para a dividir. Irão os Ocidentais comportar-se como seres humanos ou irão eles prosseguir o seu sonho de dominação ?


Por Thierry Meyssan

Projecto Israelita
Para a sua reconstrução, a Síria só pode contar consigo própria, já que nenhum dos que despenderam centenas de biliões de dólares para a destruir está pronto a desembolsar o mínimo cêntimo para a reconstruir.

Linha de comboio Síria
Nestas condições, o futuro do país implica reatar com o seu passado: quando era o ponto de passagem obrigatório entre o oceano Indico e o mar Mediterrâneo. Durante a antiguidade, a «rota da seda» partia da antiga capital chinesa de Xi’an para chegar a Antioquia e a Tiro.

Esta rota não era somente uma passagem permitindo trocar mercadorias de cidade em cidade, mas também uma via cultural pela qual a filosofia chinesa se difundiu na Ásia e a religião muçulmana chegou à China; uma rota na qual a língua comum não foi o mandarim chinês, mas o persa. Em seguida, a Síria continuou a ser a passagem entre o oceano Indico e o mar Mediterrâneo, o que lhe assegurou a prosperidade até à construção do Canal do Suez.

O projecto de um caminho de ferro ligando o porto iraniano de Khorramshahr à fronteira iraquiana, à costa mediterrânica síria, via Bagdade, não é novo. Já havia sido planificado antes da guerra, à época do mercado comum turco-irano-sírio. As suas linhas foram sistematicamente sabotadas por mercenários pró-Ocidentais, fazendo descarrilar os comboios e matando o pessoal e os passageiros.

Assim, desde o início, os orquestradores da guerra —Reino Unido à cabeça— pensavam impedir a actividade económica da Síria. É um comportamento característico do colonialismo britânico : assegurar-se que os povos colonizados permanecerão para sempre dependentes.

Por exemplo, quando a Índia era o principal produtor de algodão, Londres assegurou-se que ela pudesse produzir, mas interditou que fiasse, de tal modo que os tecidos só pudessem ser produzidos em Inglaterra. Foi por isso que o Mahatma Gandhi fiou o algodão na roda de fiar como um acto de desafio.

Os Estados Unidos pretendem hoje que se opõem a este projecto ferroviário para prevenir o envio de armas pesadas iranianas para o Líbano. Nós sabemos que isso não passa de um pretexto uma vez que o Secretário de Estado, Mike Pompeo, o declarou no mês passado. O único objectivo de Washington é de atrasar a exploração de gás e de petróleo sírio ao mesmo tempo que vende os seus hidrocarbonetos de xisto (cuja produção deverá declinar rapidamente a partir de 2023, segundo a Agência Internacional de Energia).

Em Abril de 2017, depois em Novembro último, Israel propôs construir um outro caminho de ferro entre os dois mares. O Ministro da Informação e Transportes, Israel Katz, obteve aparentemente o acordo da Jordânia, da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e do Sultanato de Omã. O enviado especial dos EUA, Jason Greenblatt, sugeriu que o projecto israelita poderia ser incluído no «Deal do Século».

A quantidade de mercadorias a serem transportadas é tal que os dois projectos, embora concorrentes, podem perfeitamente coexistir, mas Telavive não tem a reputação de compartilhar.

Na verdade, os únicos perdedores deverão ser os Europeus Ocidentais. Porque as mercadorias de hoje já não são mais as da antiga rota da seda. Outrora, os Europeus não produziam seda enquanto a China a propunha. Hoje em dia, uns e outros produzem as mesmas coisas, sendo que as chineses são de menor qualidade, mas muito menos caras. A sua chegada maciça poderia destruir rapidamente o que resta da indústria europeia. Para se proteger, os Europeus Ocidentais deveriam regulamentar as suas trocas comerciais.


*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa.


Tradução 
Alva


Fonte 
Al-Watan (Síria)


sábado, 20 de abril de 2019

A RESISTÊNCIA NO MÉDIO ORIENTE ESTÁ A ENDURECER COM OS EUA

O Equador está prestes a descobrir até que ponto a generosidade dos EUA e do FMI pode ser cara. Essa foi a essência da declaração de Pompeo sobre a China desestabilizando a Venezuela. Como Maduro rejeitou a ajuda dos EUA e do FMI e aceitou dinheiro da Rússia e da China, os EUA tiveram de reagir desestabilizando o país - sanções, ameaças, blackouts, apreensão de activos e operações de mudança de regime.

Por Tom Luongo*

Mikes Pompeo no Cairo, Egipto
No meio a todas as coisas realmente terríveis que acontecem geopoliticamente em todo o mundo, acho importante dar esse grande passo atrás e avaliar o que realmente está a acontecer. É fácil ser-se apanhado (e deprimido) pelo dilúvio de más notícias emanadas da administração Trump em assuntos de política externa.

Parece às vezes que é inútil até mesmo discuti-las porque qualquer análise de hoje será invariavelmente invalidada até ao fim-de-semana.

Mas também é por isso que a análise da grande figura é necessária.

A resistência aos editais do império dos EUA está a aumentar diariamente. Vemo-lo e vemos as contra-reacções a eles a partir dos idiotas úteis que compõem o Triunvirato de Beligerância de Trump - John Bolton e Mikes Pompeo e Pence.

Não importa se estamos a falar de movimentos soberanos por toda a Europa ameaçando o sistema da ímpia União Europeia ou algo tão pequeno quanto a Síria concedendo ao Irão um arrendamento portuário em Latakia.

A administração Trump abandonou a diplomacia a tal ponto que somente a agressividade crua e nua é evidente. E finalmente chegou ao ponto em que até mesmo os diplomatas mais talentosos do mundo dispensaram as subtilezas da sua profissão.

O ministro dos negócios estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, continua a falar nos termos mais contundentes .

Num discurso anual na academia diplomática de Moscovo, o ministro dos negócios estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, anunciou nesta sexta-feira uma nova era na geopolítica marcada pela "multipolaridade", afirmando que "o surgimento de novos centros de poder para manter a estabilidade no mundo requer a busca de um equilíbrio de interesses e compromissos ". Ele disse que houve uma mudança no centro do poder económico global para o Oriente do Ocidente, onde uma "ordem liberal" marcada pela globalização "perdeu a sua atractividade e não é mais vista como um modelo perfeito para todos".

"Infelizmente, os nossos parceiros ocidentais, liderados pelos Estados Unidos, não querem chegar a acordo sobre abordagens comuns para resolver problemas", prosseguiu Lavrov, acusando Washington e os seus aliados de tentar "preservar a sua dominação secular em assuntos mundiais apesar das tendências objectivas de formação de uma ordem mundial policêntrica". Ele argumentou que esses esforços eram "contrários ao facto de que agora, puramente económica e financeiramente, os Estados Unidos não podem mais - sozinho ou com seus aliados mais próximos - resolver todos os problemas da economia global e dos assuntos mundiais".

"A fim de manter artificialmente o seu domínio, para recuperar posições indiscutíveis, eles empregam vários métodos de pressão e chantagem para coagir economicamente e através do uso da informação", disse Lavrov.

Há muito que descodificar nesta afirmação, mas foi significativa o suficiente para que fosse escrito na Newsweek de todos os lugares sem muita editorialização.

Lavrov entende a totalidade do conflito e o quanto ele se enraíza na psique da liderança americana e europeia. Há um sentido de direito que eles não deixarão ir de bom agrado ou a bem.

E isso explica o contínuo aumento da agressão pela administração Trump no cenário mundial. Nenhum problema é pequeno demais para responder. E esse é o seu maior indício de que existe um medo real crescente nos corredores do poder do Ocidente.

Países como o Irão, Líbano e Rússia podem fazer as coisas mais simples - fazer uma reunião com o Egipto ou o Azerbaijão, assinar um contrato de exploração de petróleo, financiar uma ferrovia - e os EUA vão cair sobre eles como o proverbial ciclone para congelá-los no sistema financeiro global.

Mas falar não custa nada. E as reuniões também não. Incomodar a cadeia de fornecimento global de alumínio ou petróleo é caro, mesmo para os EUA.

E é por isso que, no final, o objectivo dessa resistência não é ganhar uma vitória decisiva e satisfatória, mas sobreviver por tempo suficiente para que o oponente finalmente não tenha outra opção senão parar e voltar para casa.

O sempre em expansão Secretário de Estado, Mike Pompeo, vai ao redor do mundo como uma máfia, mentindo sobre tudo e exigindo fidelidade, mas vai embora de mãos vazias. A chantagem só funciona nos equatorianos mais fracos e mais isolados, e onde as apostas são muito baixas, Julian Assange.

Ele fez isso de tal forma na América Latina que o embaixador chinês no Chile disse: "O senhor Pompeo perdeu o juízo ".

O Equador está prestes a descobrir até que ponto a generosidade dos EUA e do FMI pode ser cara. Essa foi a essência da declaração de Pompeo sobre a China desestabilizando a Venezuela. Como Maduro rejeitou a ajuda dos EUA e do FMI e aceitou dinheiro da Rússia e da China, os EUA tiveram de reagir desestabilizando o país - sanções, ameaças, blackouts, apreensão de activos e operações de mudança de regime.

É culpa da Venezuela por escolher os amigos errados.

Escolha melhor todos ou não seremos responsáveis ​​pelo que fazemos em seguida.

Adivinhe? A Turquia e o Paquistão sofrerão esses mesmos choques externos - falsas acusações, sanções lamentáveis, ​​etc. - até que os governos actuais sejam removidos do poder ou recebam dinheiro do FMI.

Leia a citação completa do Embaixador Bu, é uma coisa e tanto.

E é indicativo de onde os principais jogadores estão neste momento. A China está a abrir uma nova ligação ferroviária à Coreia do Norte, em flagrante desafio à pressão dos EUA em torno das negociações nucleares.

A exasperação com Pompeo estava em cena no Líbano há algumas semanas, quando a Sua Circulatura reiterou as piores mentiras e fez exigências aos libaneses que não puderam ser atendidas. A resposta a isso foi o presidente Aoun a visitar Moscovo logo depois, cortando grandes acordos com Vladimir Putin e o CEO da Rosneft, Igor Sechin, e denunciou o comportamento dos EUA na Venezuela, recebendo o ministro venezuelano dos negócios estrangeiros, Jorge Arreaza, depois que Pompeo voltou à mesa do buffet.

Não apenas Aoun estava a conversar com a Rússia sobre a melhoria dos portos em Tripoli, mas também a reconstrução de um gasoduto para o Curdistão iraquiano. Essas discussões não estariam a acontecer se os jogadores envolvidos pensassem que tal coisa seria difundida alguns dias depois.

Se um secretário de estado dos EUA fala pomposamente em público e ninguém realmente o escuta, isso importa?

Infelizmente, por enquanto, sim. Porque enquanto houver um sistema de petrodólares, o dólar dos EUA ainda domina o comércio mundial e o serviço da dívida em todo o mundo, a alavancagem será aplicada. O problema surge quando a alavancagem se dissipa e esses dólares de comércio não são usados ​​para financiar novas dívidas para manter os parafusos financeiros apertados.

Mas a maior parte da resistência vem da fronteira sudoeste de Israel.

O plano de Donald Trump para uma OTAN árabe e o seu "Acordo do Século" atingiu derrapagens com o maior exército da aliança proposto, o Egipto, disse que não. O presidente egípcio, Abdel Fattah el-Sisi, visita a Casa Branca numa terça-feira e riu-se na cara de Trump na quarta-feira.

E então ele também, convida os russos a se sentarem para uma conversa amigável sobre o aumento do comércio e a retoma dos vôos directos entre Cairo e Moscovo, suspensos desde 2015, depois que uma bomba do ISIS matou 224 russos num voo a partir do Cairo.

Qualquer ideia de uma aliança militar árabe para ajudar na defesa do agora maior Israel, graças à entrega de Trump dos Montes de Golã, sem o Egipto é risível.

O Egipto foi o eixo para esse plano e explicitamente rejeitou Trump porque:

As autoridades egípcias foram parcialmente motivadas pela incerteza sobre a reeleição do presidente Trump e se o seu sucessor descartaria toda a iniciativa - assim como o próprio Trump descartou o acordo nuclear iraniano .

El-Sisi entende, com razão, que os EUA fazem acordos de conveniência e depois os quebra quando não o são mais. E assim, sem o Egipto para proteger o flanco do sudoeste de Israel, torna-se muito mais difícil para eles se oporem ao crescente xiita que se está a reforçar-se na esteira do fracasso dos EUA na Síria.

Por enquanto, o status quo permanece no Iraque, já que o governo não está pronto, segundo todos os relatos, para expulsar as forças dos EUA oficialmente. Muita coisa acontecerá com o término das isenções de petróleo concedidas a oito países no ano passado, permitindo que eles importassem petróleo iraniano sem as represálias dos EUA.

Veremos até que ponto os EUA estão dispostos a ir para derrubar os mercados de petróleo actualmente em alta devido às restrições de fornecimento da Venezuela e do Irão. Trump pediu que a Arábia Saudita bombeie mais para baixar os preços, mas isso também não é uma boa ideia, já que os sauditas precisam de mais de US $ 70 por barril para equilibrar o seu orçamento.

A equipa de política externa de Trump está rapidamente a alcançar o seu momento de verdade. Vão eles começar uma guerra com o Irão a mando do recém-reeleito Benjamin Netanyahu? Ou será que tudo isso é simplesmente uma farsa para garantir que o resultado possa levar a que Trump finalmente revele o seu acordo do século para a paz no Médio Oriente?

Os impérios não gostam de ser desrespeitados. Ainda menos gostam de ser ignorados. Assim, eu não acho que haja qualquer possibilidade de o plano de Trump funcionar dado o estado do tabuleiro do jogo. O eixo de resistência, apesar de todos os pequenos movimentos, está a ganhar a guerra de atrito. A política de pressão máxima dos EUA tem uma vida útil finita porque a alavancagem, como todas as coisas económicas, tem uma função de tempo inerente a ele.

E cada pequena jogada, cada negócio grande ou pequeno, se feito em resposta a sanções ou pressão nos bastidores, muda o estado do tabuleiro. E não é na composição das pessoas por trás das políticas de Trump admitirem esse fracasso. Eles continuarão pressionando até que haja um resultado catastrófico.

E nesse ponto eles não poderão mais apontar o dedo e culpar a vítima.

*Tom Luongo é um analista independente de política e economia baseado no norte da Flórida, EUA.

strategic-culture.org

Tradução: Paulo Ramires




O DUPLO JOGO DA FRANÇA NA LÍBIA

Um combatente líbio leal ao governo do Acordo Nacional em conflito com as forças de Khalifa Haftar perto de Tripoli | Mahmud Turkia / AFP via Getty Images

Por Paul Taylor*

Khalifa Haftar
PARIS - Com o capitão da polícia em "Casablanca" simulando uma indignação no jogo do Rick's Café antes de receber os seus ganhos, a França ficou "chocada, chocada" ao descobrir que o generalíssimo líbio cujas forças secretamente ajudou a armar e a treinar marchavam sobre Trípoli.

O momento da ofensiva do marechal Khalifa Haftar no início deste mês contra o governo de unidade do primeiro-ministro Fayez al-Sarraj apoiado pelas Nações Unidas - justamente
Fayez al-Sarraj 
quando o secretário-geral das Nações Unidas estava na cidade para se preparar para uma conferência de paz de facto - pode ter envergonhado bastante Paris. Mas a intenção de Haftar de subtrair em vez de partilhar o poder pode ser vista sem surpresas.

Paris esteve silenciosamente envolvida, pelo menos desde 2015, no apoio ao barão fardado de Benghazi como um homem forte que espera poder impor a ordem ao vasto e pouco povoado produtor de petróleo do norte da África e

reprimir os grupos islâmicos que floresceram nos espaços não governados do estado falhado.

Ao fazê-lo, não atropelou subtilmente os interesses económicos e de segurança da sua vizinha Itália, a antiga potência colonial na Líbia e o principal actor estrangeiro no seu sector petrolífero. Roma sofreu um influxo de centenas de milhares de refugiados e migrantes económicos em todo o centro do Mediterrâneo desde que uma campanha aérea da OTAN liderada pela França derrubou o ditador Muammar Gaddafi em 2011, deixando um rastro de caos do pós-guerra no seu caminho.

A França apoia ostensivamente o processo de paz mediado pela ONU, liderado pelo ex-ministro da Cultura libanesa Ghassan Salamé, um cientista político veterano em Paris. Nunca reconheceu oficialmente o fornecimento de armamento, treino, inteligência e assistência de forças especiais a Haftar. A morte de três soldados franceses simulados num acidente de helicóptero na Líbia em 2016 forneceu um raro reconhecimento da sua presença secreta em operações contra os combatentes islâmicos na altura.

Da sua parte, Haftar - um cidadão norte-americano e supostamente aliado de Gaddafi apoiado por uma aliança dos Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Egipto bem como da Rússia - fez pouco segredo do armamento moderno francês que adquiriu apesar do embargo de armas da ONU.

Alguns de seus seguidores não são exactamente os guerreiros seculares que Paris poderia desejar.

"Além de um núcleo militar, as forças heterogéneas que Haftar supervisiona são formadas por milícias tribais de linha-dura salafista ligados à Arábia Saudita, rebeldes sudaneses e um comandante procurado pelo Tribunal Penal Internacional por supostos crimes de guerra", referiu Mary Fitzgerald , investigador na Líbia.

Isso não impediu a França de lhe dar apoio político.

Uma das primeiras iniciativas diplomáticas de alto nível do presidente Emmanuel Macron quando da conquista do cargo em 2017 foi convidar Haftar e Sarraj para um castelo nos arredores de Paris para tentar intermediar um acordo de repartição do poder. Macron não se incomodou em envolver os italianos. Afinal, isso fazia parte de uma blitz[operação relâmpago] ao mais alto nível para mostrar que a França estava de volta ao cenário internacional.

O ministro dos negócios estrangeiros, Jean-Yves Le Drian, que no seu papel anterior de ministro da defesa foi o arquitecto da estratégia "da volta de Haftar", em desacordo com especialistas do ministro dos negócios estrangeiros, parece ter convencido o jovem presidente de que a Líbia é um fruto acessível.

Aqui estava uma oportunidade para demonstrar as habilidades de Macron num país onde o seu antecessor, Nicolas Sarkozy, manchou a sua reputação ao se aproximar de Gaddafi, liderando uma campanha aérea para derrubá-lo em nome de uma "intervenção humanitária".

"Macron foi mal aconselhado em leva-lo a pensar que a Líbia poderia ser uma vitória rápida para o seu carisma", explicou Tarek Megerisi, um investigador líbio no Conselho Europeu em Relações Exteriores. “Ele subestimou a complexidade do país. Foi meio ingenuidade, meio oportunismo. Ele tentou confiar no pessoal militar para resolver um problema político ”.

As autoridades italianas insistem que entendem melhor a complexa dinâmica social da Líbia e argumentam que Haftar não conseguirá comandar a lealdade das tribos Toubou e Touareg que dominam o sul da Líbia ou as múltiplas facções localizadas no noroeste do país.

Críticos da França dizem que "ganhos" potenciais em contratos de reconstrução e aumento de negócios para a petrolífera Total fornecem um motivo para a política da Líbia. Haftar, que controla o leste da Líbia a partir da sua fortaleza fora de Benghazi, ocupou os principais campos petrolíferos operados pela italiana Eni no sul do país no início deste ano, antes de entregar as suas armas à capital.

Uma individualidade sénior francesa familiarizada com a política do governo disse que o apoio a Haftar é parcialmente motivado pelo imperativo de estancar o fornecimento de armas e fundos a grupos jihadistas que ameaçam governos frágeis do Níger, Chade e Mali, apoiados pela Operação Barkhane da França.

Mas as autoridades francesas disseram que o amor de Paris pelo homem forte da Líbia é muito mais sobre alianças estratégicas em todo o Médio Oriente do que considerações comerciais. Paris está alinhada com os governantes dos Emirados, da Arábia Saudita e do Egipto, aos quais vendeu mil milhões em armas , contra uma aliança mais frouxa do Qatar, Turquia e do movimento transnacional da Irmandade Muçulmana que governou brevemente o Egipto antes de ser afastada por um golpe militar em 2013.

Os políticos franceses relacionam essa luta regional com a sua luta contra a insurgência islâmica no cinturão do Sahara-Sahel e o terrorismo em casa, a sua prioridade número 1 em segurança nacional, especialmente desde os ataques de Novembro de 2015 em Paris que mataram 130 pessoas.

Após a instabilidade desencadeada pelos levantes da Primavera Árabe, a visão dominante nos círculos governamentais em Paris é que as soluções de "homens fortes" são a única maneira de manter uma tampa sobre a militância islâmica e migração em massa, e tant pis (muito azar) para os direitos humanos e a democracia.

É por isso que os franceses estão ansiosos com os acontecimentos na Argélia, a sua antiga colónia e um grande fornecedor de gás, onde o presidente Abdelaziz Bouteflika, de 82 anos, foi forçado a renunciar após 20 anos no poder devido aos protestos pró-democracia em massa que não diminuíram apesar dos avisos do exército.

A queda de Bouteflika indica porque a estratégia de Paris é arriscada. Haftar não é um jovem. Ele tem 75 anos, passou seis semanas em tratamento médico em França no ano passado e não tem um sucessor claro, embora tenha indicado os seus filhos para posições-chave. E ele também não se assume tão forte como um homem forte.

"Ele queria entrar em Tripoli sem banho de sangue e como salvador nacional das milícias, mas não funcionou dessa maneira", disse Arturo Varvelli, chefe do centro do Médio Oriente e Norte da África no Instituto Italiano de Estudos Políticos Internacionais. Milão.

O ataque a Tripoli encontrou uma resistência mais dura do que Haftar havia previsto. As milícias não se mudaram para o lado dele. Dezenas de pessoas foram mortas e milhares fugiram. A Líbia pode enfrentar outro longo período de combates, em vez de um rápido controlo.

Independentemente dos danos à Líbia e aos líbios, é difícil ver como isso ajudaria a França a combater o terrorismo ou a migração descontrolada.

*Paul Taylor, editor colaborador do POLITICO

Tradução: Paulo Ramires



sexta-feira, 19 de abril de 2019

EXTREMA DIREITA FRANCESA QUER ACABAR COM COMISSÃO EUROPEIA

Le Pen disse que o Reunião Nacional (ex-Frente Nacional) quer "salvar a Europa da União Europeia que a está destruindo", e pediu uma "aliança europeia de nações" para tomar decisões em Bruxelas. No lançamento do programa, Jordan Bardella, o principal candidato de 23 anos do partido às eleições, disse que quer uma Europa "que seja mais ao estilo da democracia ateniense do que a tecnocracia de Bruxelas".

Por Rym Momtaz | 16-04-2019

PARIS - O Rassemblement National (Reunião Nacional), de extrema-direita da França, quer livrar-se da Comissão Europeia, descartar a Política Agrícola Comum e estabelecer novas directrizes rígidas para as partes da UE que restam.

A chefe do partido, Marine Le Pen, apresentou o seu programa para as eleições para o Parlamento Europeu num evento em Estrasburgo na segunda-feira, mas recuou nos apelos anteriores para que a França abandonasse o euro e a UE. Ambos tinham sido os principais temas dos discursos de Le Pen.

Em vez disso, Le Pen disse que o Reunião Nacional (ex-Frente Nacional) quer "salvar a Europa da União Europeia que a está destruindo", e pediu uma "aliança europeia de nações" para tomar decisões em Bruxelas. No lançamento do programa, Jordan Bardella, o principal candidato de 23 anos do partido às eleições, disse que quer uma Europa "que seja mais ao estilo da democracia ateniense do que a tecnocracia de Bruxelas".

Le Pen não disse por que razão não mais foi a favor de um "Frexit", mas continuou a elogiar os supostos benefícios que o Brexit trouxe para o Reino Unido.

"Desde o #Brexit, a riqueza nacional do Reino Unido superou a da zona do euro, a sua taxa de desemprego é a mais baixa, eles criaram o dobro de empregos do que em França e os salários aumentaram desde o fim da imigração em massa!" Le Pen twittou no sábado .

Embora afirmando que o euro "serve principalmente os interesses da Alemanha", o programa eleitoral do Reunião Nacional reconhece o desejo das pessoas de se manterem na moeda única. No entanto, pretende mudar a forma como o Banco Central Europeu trabalha para "alinhar a criação monetária com a economia real em vez de a financiar" e acrescentar "combater o desemprego" no mandato do BCE.

Chamando a atenção para a forma como a UE funciona "opaca, antidemocrática e punitiva", o partido quer acabar com a Comissão Europeia e os seus "28 comissários que não foram democraticamente eleitos, o seu presidente embriagado de poder" e transferir os seus poderes para o Conselho Europeu e um Parlamento Europeu modificado. O partido de Le Pen pediu para "redefinir o papel do Parlamento para que sirva as nações e não para ser a câmara de registo da Comissão" e deixar que o Parlamento seja encarregado de examinar, debater e votar todos os tratados, textos e directrizes propostos pelo Conselho de Chefes de Estado ”.

O Reunião Nacional também quer restabelecer as fronteiras nacionais e reforçar o controle das fronteiras externas da Europa, transformando a Frontex - agência de fronteira e da guarda costeira da UE - de uma "agência de acolhimento de imigrantes" para supervisionar uma "política de fronteira ... que impeça a imigração ilegal".

O programa eleitoral também pede que a Europa tenha "boas relações de vizinhança" com a Rússia e a Turquia, enquanto "se liberta da influência externa ... da América".

De acordo com a pesquisa do POLITICO, o Reunião Nacional está a caminho de conquistar 21 lugares nas eleições de Maio, apenas um lugar atrás do La République En Marche, do presidente Emmanuel Macron.

politico.eu

quarta-feira, 17 de abril de 2019

EGIPTO RETIRA-SE DOS ESFORÇOS DOS EUA PARA FORMAR UMA “OTAN ÁRABE” PARA COMBATER O IRÃO

“Não é um projecto novo. No entanto, a sua implementação é o que importa”, disse Qassem Qaseer, analista político libanês. Ele confirmou que os EUA têm trabalhado com os países árabes há algum tempo para formar tal órgão, observando que “a questão permanece nas diferentes agendas e abordagens políticas dos seus estados membros”.

O Egipto retirou-se dos esforços dos EUA e da Arábia Saudita para formar uma "OTAN árabe" anti-iraniana, informou a média israelita citando fontes anónimas familiarizadas com o assunto.

O país disse aos EUA e a outros participantes da Aliança de Segurança do Médio Oriente(ASMO ou MESA em inglês) antes duma reunião realizada a 7 de Abril em Riyadh, Arábia Saudita.

Uma das fontes anónimas disse que o Cairo não enviou nenhuma delegação à reunião, o último encontro realizado para promover os esforços liderado pelos EUA para unir os aliados muçulmanos sunitas árabes num pacto político, económico e de segurança para combater o Irão xiita.

Uma fonte árabe também disse que essa reunião foi uma decepção:

“Todos queremos que o Egipto faça parte de uma OTAN árabe”, disse a fonte, “especialmente porque tem o maior exército de qualquer nação árabe e porque tem importância”.
As razões por trás da decisão, segundo as fontes, é que o Egipto não deseja prejudicar as suas relações com o Irão, assim como não acredita que o presidente dos EUA, Donald Trump, seja eleito para um segundo mandato. Se Trump se for, isso colocará em risco toda a ideia da “OTAN Árabe”, já que o próximo POTUS (President of the United States) pode decidir não seguir adiante.

A 9 de Abril, o presidente egípcio, Abdel Fattah Al Sisi visitou os EUA e reuniu-se com Donald Trump. Trump disse que eles falaram de questões de segurança, mas nem a OTAN árabe nem o Irão foram mencionados na conferência de imprensa após a reunião.

Ambos os líderes elogiaram as calorosas relações entre os países, que poderiam ser prejudicadas se os relatos de que o Egipto desistira dos esforços forem verdadeiros.

Além dos EUA e da Arábia Saudita, os participantes propostos paro a ASMO incluem os Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Bahrein, Qatar, Omã e Jordânia.

Duas fontes anónimas também disseram à Al Jazeera que o projecto estaria avançando e que o Egipto seria pressionado a não deixar de ser um estado membro. O projecto foi inicialmente proposto pela Arábia Saudita em 2017 e foi perpetuado pelo presidente dos EUA, Donald Trump.

O objectivo da administração Trump com o projecto é formar um novo órgão de segurança composto por países sunitas do Médio Oriente que seria orientado para combater o “aventureirismo regional” do Irão xiita. Segundo os relatos, os estados-membros do ASMO buscariam uma cooperação mais profunda nos domínios da defesa anti-mísseis, treino militar e combate ao terrorismo, ao mesmo tempo que fortaleciam laços políticos e económicos mais amplos.

"Isso serviria como um baluarte contra a agressão iraniana, o terrorismo, o extremismo e traria estabilidade", afirmou um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca em referência à possível associação.

“Não é um projecto novo. No entanto, a sua implementação é o que importa”, disse Qassem Qaseer, analista político libanês. Ele confirmou que os EUA têm trabalhado com os países árabes há algum tempo para formar tal órgão, observando que “a questão permanece nas diferentes agendas e abordagens políticas dos seus estados membros”.

Qaseer disse que os países árabes não concordam com mais de uma questão crítica, apontando que a OTAN árabe ainda é uma ideia sem estrutura.

"Eles pretendem pressionar o Irão no terreno com essa iniciativa, embora, precisam torná-la uma realidade em primeiro lugar", disse Qaseer.

Um analista político saudita, Sulaiman al-Oqaily, também disse que deve haver uma estratégia entre as nações árabes que formam a aliança, bem como um alvo claro para que tal esforço seja bem-sucedido.

Al-Oqaily afirmou que deve haver um bloco árabe unido que concorde que a “OTAN Árabe” protegerá o mundo árabe de todos os tipos de ameaças e desafios de segurança. “Os motivos e determinantes dos seus membros devem ser os mesmos”.

Al-Oqaily diz que o sectarismo com o qual o Irão visa o Médio Oriente é mais perigoso que Israel.

“O Irão está aproveitar-se da sua cultura e ligações religiosas com o mundo árabe para expandir-se e destruí-lo. Israel não pode violar a sociedade árabe como o Irão, a não ser através dos seus serviços de inteligência ”.

Entre os dias 10 e 13 de Novembro de 2018, o Egipto sediou o exercício militar Shield of the Arabs 1, com os Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Kuwait, Bahrein e Jordânia.

O porta - voz militar egípcio Tamer al-Rifai disse que os exercícios fazem parte dos esforços do Egipto para melhorar a cooperação militar com outros países árabes, mas recusou-se a especular se poderiam evoluir para algum tipo de aliança militar. 

O Egipto, por outro lado, parece ter relações estáveis ​​com o Irão actualmente.

O Irão saudou as comunicações do Egipto por desistir dos esforços. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, Bahram Qasemi, foi citado pela agência de notícias Irna , elogiando a possível decisão.

Ele disse que ainda não tinha a confirmação, e que o Irão estava a examinar se era verdade, mas se fosse confirmada seria "bem-vinda".

"O Egipto é um país importante e poderoso, tanto no mundo árabe como no mundo muçulmano, que pode desempenhar um papel fundamental na criação de paz, estabilidade e segurança na região da Ásia Ocidental", disse Qasemi.

Ele disse que o Egipto pode exercer realismo para ajudar a promover a unidade entre os países muçulmanos e aproximá-los.

Qasemi expressou a esperança de que o Egipto, "como um inegável poder do mundo árabe", possa cumprir o seu dever histórico nas condições mais sensíveis da região.

Além disso, a decisão, se fosse verdade, ajudaria a fomentar melhores relações na região e a ajudar no combate ao terrorismo, fornecer segurança e estabilidade sustentável e impulsionar o entendimento mútuo e a cooperação multilateral.

Qasemi também expressou a dúvida do Irão de que o esforço da OTAN árabe seria bem-sucedido, argumentando que a OTAN foi fundada no mundo ocidental "sob certas condições históricas e geográficas, com base numa série de certos valores e necessidades e até mesmo pontos em comum" que não são prováveis de serem copiados para o mundo árabe.

As relações do Egipto com a Rússia também parecem estar em ascensão. A Rússia é um parceiro fundamental do Irão, especialmente na Síria.

A 18 de Março, a loja russa Kommersant informou que a Rússia havia fechou um contrato de US $ 2 mil milhões para a entrega de 20 caças para o Egipto.

O contrato foi assinado no final de 2018 e a entrega das aeronaves, assim como as armas para os aviões, começará em 2020-21.

O Serviço Federal para a Cooperação Técnico-Militar da Rússia (FSMTC) disse que nenhum contrato de fornecimento de aeronaves foi assinado no segundo semestre de 2018. Portanto, o relatório pode ser falso.

Independentemente disso, o secretário de estado Mike Pompeo a 9 de Abril advertiu que o Egipto estaria sujeito a sanções dos EUA, se, de facto, comprasse os russos Su-35 aviões de combate.

"Nós deixamos claro que sistemas deveriam ser comprados que (...) exigiriam sanções ao regime", disse Pompeo ao Comité de Apropriações do Senado. "Recebemos garantias deles, que eles entendem isso, e estou muito esperançoso de que eles decidirão não avançar com essa aquisição."

Anteriormente, a 17 de Outubro , o presidente russo Vladimir Putin e o presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi também assinou um tratado de cooperação estratégica concebido para aumentar o comércio militar e outros laços entre as duas nações.

Putin disse que as conversações englobam "todo o espectro das relações bilaterais, bem como os principais problemas internacionais e regionais".

Ele acrescentou que ele e Sisi discutiram a expansão do comércio de armas e os laços militares, ressaltando que para-quedistas russos e egípcios realizariam manobras militares no Egipto.


southfront.org


segunda-feira, 15 de abril de 2019

OS POPULISMOS NA UNIÃO EUROPEIA


Paulo Ramires

O sistema político português está em crise e só terá tendência para se agravar com os partidos tradicionalistas fechados à sociedade constituindo uma elite que ocupa o estado como se de uma empresa familiar se tratasse, os seus familiares são ministros, ministras, secretários de estado e outros funcionário dos gabinetes ministeriais, mas não só, têm acesso a empregos de relevo na comunicação social e em outras empresas em que qualquer cidadão português está impedido de ocupar, simplesmente porque esses cargos são ocupados por nomeação ou simpatias políticas. Quem não pertence a uma dessas famílias fica excluído de ocupar cargos de relevo nas empresas ou no parlamento, a própria lei existente faz essa descriminação negativa impedindo os cidadãos de se candidatarem ao parlamento. Este é um facto decisivo para que se esteja perante um sistema de representação democrática, como não é este o caso em Portugal, o sistema vigente não é a Democracia, mas sim a Partidocracia que se confundo com a Democracia, mas não é Democracia. Na Democracia o povo tem obrigatoriamente de fazer parte dos processos democráticos, enquanto representantes dos órgãos de decisão do estado, isto não ocorre em Portugal. A Partidocracia é um cancro enquanto regime político, toma a Democracia e transforma-a em Partidocracia, afastando dos processos de decisão – legislativos e executivos ‒ os cidadãos. 

A ADEQUAÇÃO DOS PARTIDOS TRADICIONALISTAS ÀS NOVAS REALIDADES 

Portugal a par da Letónia e da Estónia é um dos poucos países em que os partidos populistas estão impedidos de se constituírem e assumirem como tal, aliás o termo tem vindo a assumir uma conotação negativa e os cidadãos a serem claramente enganados pelos partidos tradicionalistas. O absurdo de tal situação é que o populismo em nada tem de negativo, bem pelo contrário. Desmitifiquemos esta conotação negativa que os partidos tradicionalistas ‒ da esquerda à direita ― construíram. Segundo o Grande o Dicionário da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, populismo é o “ideal ou doutrina acerca do povo; simpatia pelo povo” e populista é a “pessoa do povo, defensor do povo e dos seus interesses, das suas reivindicações”. O dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também diz o mesmo: “simpatia pelo povo; corrente literária e artística interessada na descrição dos costumes populares” e populista: “pessoas que é amiga do povo”. Como pode ver esta é a estratégia desonesta dos partidos tradicionalistas e elitistas que se eternizam no poder alternando-se entre si e que de amigos do povo não o são de forma alguma. E é por esta razão que Portugal precisa de uma Democracia Plena quebrando de vez com esta Partidocracia, mas para isso são precisos movimentos e outros partidos políticos “amigos do povo” que possam levar a cabo esta missão. 

A FALSA QUESTÃO ENTRE DIREITA E ESQUERDA 

Os partidos políticos tradicionalistas aceitaram e assumiram ideais neoliberais e globalistas responsáveis pelo empobrecimento das classes sociais e o enriquecimento cada vez maior das elites políticas e financeiras. Há cada vez mais disparidades sociais, o que demonstra o continuado falhanço do neoliberalismo e da globalização a que os partido populistas se opõem procurando dar voz ao povo em vez das elites enriquecidas estabelecidas no sistema político, são bastante críticos do sistema neoliberal que voltou as costas ao povo e aos cidadãos. Desde a crise financeira de 2007/8 que se tem assistido a este falhanço com as políticas de austeridade implantadas na Europa e nos EUA e que só serviram para agravar as desigualdades e financiar através dos impostos dos cidadãos os prejuízos que os bancos demasiado grandes para caírem tiverem, justamente por causa do sistema neoliberal. 

A CONFUSÃO COM NACIONALISTAS E POPULISTAS 

Não é verdade que todos os nacionalistas sejam populistas e vice-versa, o partido de Brexit Party de Nigel Farage tem muito de nacionalista e muito pouco de populista. Também Trump e Bolsonaro nada têm a ver com populismo, apesar de frequentemente serem associados a esta corrente, talvez intencionalmente. Mas na Europa a tendência populista é para subir cada vez mais à medida que os efeitos do neoliberalismo se vão sentindo nas sociedades europeias e os cidadãos são ignorados e sacrificados. Assim são esperados grandes grupos populistas no Parlamento Europeu o que irá assustar de que maneira os partidos tradicionalistas receosos de perder o poder que detêm há muitas décadas. Na verdade, os populistas poderão contribuir com uma visão alternativa ao projecto europeu, não se devendo ir na conversa alarmista e propagandística dos partidos tradicionalistas. O Movimento Cinco Estrelas que tudo indica será um dos maiores grupos no Parlamento Europeu não acredita numa falsa divisão entre esquerda e direita, acredita sim em ideias que privilegiem o cidadão e não os bancos, afirma Di Maio, um dos líderes da coligação populista no governo em Itália que a Europa dos bancos não é uma Europa dos povos. Este grupo é particularmente interessante por uma das suas ideias impulsionadoras ser exactamente a Democracia Directa. O plano de acção deste grupo para mudar a Europa implica também a cooperação, a reforma das instituições da UE, a melhor qualidade de vida dos cidadãos ou a protecção da saúde e do ambiente. 

É por este motivo que não se deve recear mais os partidos populistas que os partidos tradicionalistas.


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