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quinta-feira, 21 de junho de 2018

FINALIZAÇÃO DO PLANO DE PAZ DOS EUA PARA O PRÓXIMO-ORIENTE

FINALIZAÇÃO DO PLANO DE PAZ DOS EUA PARA O PRÓXIMO-ORIENTE


Rede Voltaire

Jared Kushner e Jason Greenblatt iniciam uma viagem pelo Próximo-Oriente que os levará a Israel, à Jordânia, ao Egipto, à Arábia Saudita e ao Catar, mas não aos Territórios Palestinianos, nem à Síria.

Jared Kushner e Jason Greenblatt são dois colaboradores de longa data de Donald Trump. Ambos são judeus ortodoxos. Não tendo experiência diplomática, estão agora encarregues de elaborar o plano de paz para o Próximo-Oriente sem ligar ao Departamento de Estado. Durante a viagem, David Friedman (aqui, ao centro da foto), o Embaixador dos Estados Unidos em Israel, estará em Washington no quadro das consultas de rotina. Igualmente judeu ortodoxo, ele é conhecido pelas suas posições extremistas.

O plano dos EUA deverá ser baseado na «solução de dois Estados»; o Estado Palestino incluído numa Jordânia alargada à Cisjordânia com, nomeadamente, um quarteirão de Jerusalém como capital (Abu Dis e eventualmente Jabel Mukaber, Issawiya e Shuafat).

Este plano visa melhorar a situação dos Palestinianos, não a atender a todas as suas expectativas. Desde logo, está já a ser combatido por Mahmoud Abbas, mas não pela maior parte das facções palestinianas (aqui incluída uma ala da Fatah e o Hamas, que o apoiam). A França, a Suécia e o Reino Unido tentam já sabotá-lo. Ele deverá ser tornado público integralmente no fim de Julho.


Tradução
Alva

sexta-feira, 15 de junho de 2018

GUERRA ECONÓMICA OU «GUERRA ABSOLUTA» ?

GUERRA ECONÓMICA OU «GUERRA ABSOLUTA» ?

Em 2001, alegando responder aos atentados do 11-de-Setembro, o Presidente George W. Bush lançou uma «longa guerra» contra o «Médio-Oriente Alargado»; uma guerra que prossegue ainda, dezassete anos mais tarde, na Síria e no Iémene. O seu Secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, teoriza o conceito de guerra total, nomeadamente abolindo a distinção entre «civis» e «militares».

Por Jean-Claude Paye*

No texto precedente «Impérialisme contre super-impérialisme» (Imperialismo versus super-imperialismo) argumentáramos que, ao desindustrializar o país, o super-imperialismo norte-americano havia enfraquecido o poderio dos EUA enquanto nação [1]. O projecto inicial da Administração Trump era proceder a uma reconstrução económica através de uma base protecionista. Dois campos enfrentam-se, o portador de um renascimento económico dos EUA e o que está a favor de um conflito militar cada vez mais aberto, opção que parece ser principalmente apoiada pelo Partido Democrata. A luta entre os Democratas e a maioria dos Republicanos, pode assim ser entendida como um conflito entre duas tendências do capitalismo norte-americano, entre a portadora da mundialização do capital e a que defende um relançamento do desenvolvimento industrial de um país economicamente em declínio.

Assim, para a Presidência Trump, o restabelecimento da competitividade da economia dos EUA é prioritário. A vontade da sua Administração de instalar um novo protecionismo deve ser lida como um acto político, uma ruptura no processo de mundialização do capital, quer dizer, como uma decisão de excepção, no sentido desenvolvido por Carl Schmitt: «é soberano aquele que decide sobre a situação excepcional» [2]. Aqui, a decisão aparece como uma tentativa de rotura com a norma da transnacionalização do capital, como um acto de restabelecimento da soberania nacional dos EUA face à estrutura imperial organizada em torno dos Estados Unidos.

O regresso do político

A tentativa da Administração Trump coloca-se como uma excepção à mundialização do capitalismo. Mostra-se como uma tentativa de restabelecer a primazia do político, em seguida à constatação de que os EUA já não são mais a superpotência económica e militar, cujos interesses se confundem com a internacionalização do capital.

O regresso do político traduz-se, em primeiro lugar, pela vontade de por em prática uma política económica nacional, de reforçar a actividade no território norte-americano, graças a uma reforma tributária destinada a restabelecer os termos do comércio entre os Estados Unidos e os seus concorrentes. Actualmente, esses termos degradaram-se nitidamente em desfavor dos EUA. Assim, o défice comercial total dos EUA aumentou 12,1% em 2017 e sobe a US $ 566 mil milhões (bilhões-br) de dólares. Subtraindo o superavit do país em serviços, para focarmos apenas o comércio de bens, o saldo negativo atinge mesmo US $ 796,1 mil milhões de dólares. É evidentemente com a China que o défice é o mais esmagador : atingiu, em 2017, o nível recorde de 375,2 mil milhões de dólares apenas para mercadorias [3].

A luta contra o défice do comércio externo permanece central na política económica da Administração dos EUA. Impedida pelas duas Câmaras da sua reforma económica fundamental, o Border Adjusment Tax [4], destinado a promover um relançamento económico graças a uma política proteccionista, a Administração Trump tenta reequilibrar o comércio caso a caso, por ações bilaterais, exercendo pressões sobre os seus vários parceiros económicos, principalmente a China, afim de que eles reduzam as suas exportações para os EUA e que aumentem as importações de mercadorias norte-americanas. Para o conseguir, importantes negociações acabam de ter lugar. A 20 de Maio, Washington e Pequim anunciaram um acordo destinado a reduzir de maneira significativa o défice comercial dos EUA em relação à China [5]. A Administração Trump reclamava uma redução de US $ 200 mil milhões de dólares do excedente comercial chinês, assim como tarifas aduaneiras mais baixas. Trump tinha ameaçado impor tarifas aduaneiras de US $ 150 mil milhões de dólares sobre importações de produtos chineses e, como medida de retaliação, a China propunha-se ripostar visando as exportações dos EUA, nomeadamente na soja e na aeronáutica.

Oposição estratégica entre Democratas e Republicanos

Globalmente, a oposição entre a maioria do Partido Republicano e os Democratas repousa no antagonismo de duas visões estratégicas, tanto a nível económico como militar. Estes dois aspectos estão intimamente ligados.

Para a Administração Trump, a recuperação económica é central. A questão militar põe-se em termos de apoio a uma política económica proteccionista, como um momento táctico de uma estratégia de desenvolvimento económico. Essa táctica consiste em desenvolver conflitos locais, destinados a frenar o desenvolvimento de nações concorrentes, e a afundar projectos globais opostos à estrutura imperial dos EUA, tais como, por exemplo, o da nova Rota da Seda, uma série de «corredores» ferroviários e marítimos devendo ligar a China à Europa, associando a Rússia. Os níveis, económico e militar, estão estreitamente ligados, mas, contrariamente à posição dos Democratas, permanecem distintos. O objectivo económico não é confundido com os meios militares implementados. Aqui, a recuperação económica da nação norte-americana é a condição que permitirá evitar ou, pelo menos, postergar um conflito global. A possibilidade de desencadear uma guerra total torna-se um meio de pressão destinado a impor as novas condições norte-americanas dos termos de troca com os parceiros económicos. A alternativa que se oferece aos competidores é a de permitir aos EUA reconstituir as suas capacidades ofensivas ao nível das forças produtivas ou de ser envolvido rapidamente numa guerra total.

A distinção, entre objectivos e meios, presente e futuro, já não aparece na abordagem dos Democratas. Aqui, os momentos estratégico e tático são misturados. A fusão total destes dois aspectos é característica do esquema de «guerra total», de uma guerra livre de qualquer controle político e que apenas obedece as suas próprias leis, as da «ascenção aos extremos».


A 18 de Fevereiro de 1943, no Palácio dos Desportos de Berlim, Joseph Goebbels proclama a «guerra total». Face aos revezes militares (a derrota de Estalinegrado), todas as forças da nação alemã, sem excepção, deverão ser postas em acção para vencer o bolchevismo, portador da ditadura judia.

Em direcção a uma guerra «absoluta» ?

A consequência da capacidade do Partido Democrata em bloquear um relançamento interno nos EUA é que, se os EUA renunciam a desenvolver-se, o único objectivo que resta será o de impedir, por todos os meios, entre os quais a guerra, os concorrentes e os adversários de o fazer. No entanto, o cenário já não é mais o das guerras limitadas da era Bush ou Obama, de uma agressão contra potências médias já enfraquecidas, tais como o Iraque, mas, antes o da «guerra total», tal como foi pensada pelo teórico alemão Carl Schmitt, quer dizer, um conflito que implica uma mobilização completa dos recursos económicos e sociais do país, tal como os de 14-18 e 40-45.

Entretanto, a guerra total, pela existência da arma nuclear, pode adquirir uma nova dimensão, a da noção, desenvolvida por Clausewitz, de «guerra absoluta».

Para Clausewitz, a «guerra absoluta» é a guerra em conformidade com o seu conceito. Ela é a vontade abstrata de destruir o inimigo, enquanto a «guerra real» [6] é a luta na sua realização concreta e a utilização limitada da violência para tal. Clausewitz opunha estas duas noções, porque a «escalada aos extremos», característica da guerra absoluta, só poderia ser uma ideia abstracta, servindo de referência para avaliar as guerras concretas. No quadro de um conflito nuclear, a guerra real torna-se conforme ao seu conceito. A «guerra absoluta» deixa seu estatuto de abstração normativa para se transformar numa realidade concreta.

Assim, como categoria de uma sociedade capitalista desenvolvida, a abstração da guerra absoluta funciona no concreto, transforma-se numa «abstração real» [7], quer dizer, uma abstração que já não pertence apenas ao processo de pensamento, mas que resulta igualmente do processo real da sociedade capitalista [8].

A "guerra absoluta" como "abstração real"

Tal como exprime o fenomenólogo marxista italiano Enzo Paci, «a característica fundamental do capitalismo ... reside na sua tendência a fazer existir categorias abstratas como categorias concretas» [9].

Assim, em 1857, nos Grundrisse (Fundamentais), Marx escrevia que «as abstrações mais gerais apenas nascem completamente com o mais rico desenvolvimento concreto ...»

Este processo de abstração do real não existe apenas através das categorias da «crítica da economia política», tais como foram teorizadas por Marx, como a do «trabalho abstracto», mas tem a ver com o conjunto da evolução da sociedade capitalista. Assim, a noção de «guerra absoluta» deixa, através das relações políticas e sociais contemporâneas, o terreno da própria abstração de pensamento para se tornar igualmente uma categoria adquirindo uma existência real. Ela já não encontra a sua função unicamente como um horizonte teórico, como «congeminação de pensamento», antes se torna uma realidade concreta. A guerra absoluta deixa então de ser um simples horizonte teórico, um limite conceptual, para se tornar um modo de existência, uma forma possível, efectiva, de hostilidade entre as nações.

Já, num artigo de 1937 «Inimigo total, guerra total e Estado total» [10], Carl Schmitt sugere que as evoluções técnicas e políticas contemporâneas produzem uma identidade entre a realidade da guerra e a própria ideia de hostilidade. Esta identificação leva a um subida dos antagonismos e culmina no «empurrão para o extremo» da violência. Significa, implicitamente, que a «guerra real» se torna conforme ao seu conceito, que a «guerra absoluta» deixa o seu status de abstração normativa para se concretizar sob a forma de «guerra total».

Então a relação guerra-política inverte-se, a guerra não é mais, tal como Clausewitz elaborava, para caracterizar a sua época histórica, a forma mais elevada da política e a sua momentânea conclusão. A guerra total, ao se tornar uma guerra absoluta, escapa ao cálculo político e ao controle estatal. Ela não se submete senão à sua própria lógica, ela «não obedece senão à sua própria gramática», a da ascensão aos extremos [11]. Assim, uma vez desencadeada, a guerra nuclear escapa à engrenagem dentada da decisão política, da mesma maneira que a mundialização do capital escapa ao contrôlo do Estado nacional, das organizações supra-nacionais e, mais genericamente, a qualquer forma de regulamentação.


Para Donald Trump, os exércitos dos EUA não existem para arrasar os Estados que não participam na globalização do capital, seja por escolha ou por necessidade, mas para ameaçar qualquer potência que trave a re-industrialização dos Estados Unidos.

Da «guerra contra o terrorismo» à «guerra absoluta»?

A 19 de Janeiro de 2018, falando na Universidade Johns Hopkins, em Maryland, o Secretário de Defesa Trump, James Mattis, revelou uma nova estratégia de Defesa Nacional baseada na possibilidade de um enfrentamento militar directo entre os Estados Unidos, a Rússia e a China [12]. Ele precisou que se tratava aqui de uma mudança histórica em relação à estratégia em vigor desde há duas décadas, a da guerra contra o terrorismo. Assim, concretizou :

«É a concorrência entre as grandes potências —e não o terrorismo— que é agora o principal objectivo da Segurança Nacional norte-americana».

Um documento desclassificado de 11 páginas, descrevendo a Estratégia de Defesa Nacional em termos gerais [13], foi remetido à imprensa. Uma versão confidencial mais longa, que inclui as propostas detalhadas do Pentágono para um aumento maciço das despesas militares, foi, essa, submetida ao Congresso [14]. A Casa Branca pede um aumento de US $ 54 mil milhões de dólares no orçamento militar, justificando-a pelo facto de que «hoje, saímos de um período de atrofia estratégica, conscientes do facto de que a nossa vantagem militar competitiva se erodiu» [15]. O documento prossegue : «A potência nuclear —a modernização da força de ataque nuclear implica o desenvolvimento de opções capazes de contrapor as estratégias coercivas dos concorrentes, baseadas na ameaça de recorrer a ataques estratégicos nucleares ou não-nucleares».

Para a Administração Trump, o após-Guerra Fria terminou. O período durante o qual os Estados Unidos podiam movimentar as suas forças quando quisessem, intervir como lhes apetecesse, já não é possível. «Hoje, todos os domínios são contestados : os ares, a terra, o mar, o espaço e o ciberespaço» [16].

«Guerra absoluta» ou guerra económica

A possibilidade de uma guerra dos EUA contra a Rússia e a China, quer dizer, o desencadear de uma guerra absoluta, faz parte das hipóteses estratégicas, tanto da administração norte-americana quanto dos analistas russos e chineses. Esta faculdade aparece como a matriz que sustenta e torna legível a política externa e as operações militares destes países, por exemplo a extrema prudência da Rússia, uma contenção que pode fazer pensar em indecisão ou recuo, em relação às provocações norte-americanas no território sírio. A dificuldade da posição russa não decorre tanto das suas próprias divisões internas, do equilíbrio de forças entre as tendências mundialista e nacionalista dentro do país, mas mais das divisões entre os norte-americanos balançando entre a guerra económica e a guerra nuclear. A articulação entre as ameaças militares e novas negociações económicas são claramente dois aspectos da nova «política de defesa» dos EUA.

Entretanto, Elbrige Colby, assistente do Secretário da Defesa, afirmou que apesar do discurso de Mattis colocar claramente a tónica na rivalidade com a China e a Rússia, a Administração Trump quer «continuar a procurar áreas de cooperação com essas nações». Assim, Colby afirmava :

«Não se trata de uma confrontação. É uma iniciativa estratégica reconhecer a realidade da competição e a importância do facto de que "as boas vedações fazem os bons vizinhos» [17].

Esta política defendendo o restabelecimento de fronteiras contraria frontalmente a visão imperial dos EUA. Bem resumida pelo Washington Post , esta última coloca um desafio : a persistência de um Império norte-americano «garante da paz mundial» ou então a guerra total. Esta visão opõe-se ao restabelecimento de hegemonias regionais, ou seja, de um mundo multipolar do qual, segundo este órgão de imprensa, «o resultado seria a futura guerra mundial» [18].

Jean-Claude Paye

Tradução 

Alva

 


[1] « USA : Impérialisme contre ultra-impérialisme », par Jean-Claude Paye, Réseau Voltaire, 26 février 2018.

[2] Carl Schmitt, Théologie politique I, trad J.-L. Schiegel, Paris, Gallimard, 1988, p. 16.

[3] Marie de Vergès, « Les Etats-Unis de Donald Trump enregistrent leur plus gros déficit commercial depuis 2008 » («Os EUA de D. Trump registam o maior défice comercial desde 2008»- ndT), Le Monde économie, 7 février 2018.

[4] Jean-Claude Paye, « USA : Impérialisme contre ultra-impérialisme », Op. Cit.


[6] Ver C. von Clausewitz, De la guerre, ouvr. cit., p. 66-67 et p. 671 et ss., et C. Schmitt, Totaler Feind, totaler Krieg, totaler Staat, ouvr. cit, p. 268 : «Sempre houve guerras totais ; no entanto não existe pensamento sobre a guerra total senão desde Clausewitz, que fala de "guerra abstrata" ou de "guerra absoluta"»..

[7] Ler : Emmanuel Tuschscherer, « Le décisionisme de Carl Schmitt : théorie et rhétorique de la guerre », Mots. As linguagens do político, colocada em linha (online) a 9 de Outubro de 2008.

[8] Alberto Toscano, « Le fantasme de l’abstraction réelle » («A fantasia da abstração real»- ndT), Revue période, février 2008.

[9] Enzo Paci, Il filosofo e la citta, Platone, Whitebread, Marx, editions Veca, Milano, Il Saggitario, 1979, pp. 160-161.

[10] C. Schmitt, « Totaler Feind, totaler Krieg, totaler Staat», in Positionen und Begriffe, Berlin, Duncker und Humblot, p. 268-273, voir note 1 in Emmanuel Tuschscherer, « Le décisionisme de Carl Schmitt : théorie et rhétorique de la guerre », op.cit., p. 15.

[11] Bernard Pénisson, Clausewitz un stratège pour le XXIe siècle?, conferência no Instituto Jacques Cartier, 17 novembre 2008.

[12] “Remarks by James Mattis on the National Defense Strategy” («Observações por J. Mattis sobre Estratégia de Defesa Nacional»- ndT), by James Mattis, Voltaire Network, 19 January 2018.


[14] National Defense Strategy of The United State of America, The President of The United State of America, December 18, 2017. A nossa análise : “A Estratégia de Segurança Nacional de Donald Trump”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 27 de Dezembro de 2017.

[15] Mara Karlin, « How to read the 2018 National Defense Strategy(«Como ler a Estratégia de Defesa Nacional de 2018»- ndT), Brookings Institution, le 21 janvier 2018.

[16] Fyodor Lukyanov, « Trump’s defense strategy is perfect for Russia » (« A Estratégia de Defesa de Trump é perfeita para a Rússia»-ndT), The Washington Post, January 23, 2018.

[17] Dan Lamothe, « Mattis unveils new strategy focused on Russia and China, takes Congress to task for budget impasse » («Mattis revela nova estratégia focada na Rússia e na China, chama Congresso a resolver impasse no orçamento»- ndT), The Washington Post, January 19, 2018.

[18] « The next war. The growing danger of great-power conflict » («A próxima guerra. O perigo crescente de um conflito entre grandes potências»- ndT), The Economist, January 25, 2018.


Sociólogo. Última publicação em francês: De Guantanamo à Tarnac . L’emprise de l’image (Éd. Yves Michel, 2011). Última publicação em inglês: Global War on Liberty (Telos Press, 2007).

quinta-feira, 24 de maio de 2018

UM NOVO TIPO DE “GUERRA FRIA” COM ESTADOS UNIDOS, RÚSSIA E CHINA

UM NOVO TIPO DE “GUERRA FRIA” COM ESTADOS UNIDOS, RÚSSIA E CHINA

Os Estados Unidos estão a impor o regresso a um novo género de Guerra Fria por considerarem a Rússia e a China como adversários, e actuam como elemento que valida as actuais ambições de Moscovo, alertam investigadores em temas geopolíticos

“Estamos a regressar a uma nova Guerra Fria, pelo facto de os Estados Unidos encararem agora Rússia e China como adversários, e não como nações pouco amistosas, mas não necessariamente hostis”, considerou Michael Klare, professor de Estudos de segurança e paz no Hampshire College em Amherst, Massachusetts, Estados Unidos, em declarações à agência Lusa.

Na sua análise, o académico sublinha que desde o final da Guerra Fria, no início da década de 1990, até recentemente, os presidentes norte-americanos ambicionavam “integrar a Rússia na ordem liberal internacional”, mas a Casa Branca, após a eleição de Donald Trump em 2016, deixou de acreditar que Rússia e China possam integrar essa ordem.

“A actual liderança dos EUA não acredita que a Rússia e a China possam integrar essa ordem, antes considera que estão empenhados em desmantelá-la. Por isso, acredita que os dois países devem ser isolados e delimitados”, sublinha o académico, autor de diversas publicações, onde se inclui The Race for What’s Left: The Global Scramble for the World’s Last Resources” (2012).

Este género de pensamento, especifica o investigador, já justificava a estratégia de contenção prosseguida pelas potências ocidentais face à URSS no decurso da Guerra fria “original”.

Na Rússia, e em particular após a subida ao poder de Vladimir Putin em 2000, o país também registou uma evolução na sua abordagem geoestratégica, e diversos analistas têm considerado o reconhecimento, pela maioria dos países ocidentais e aliados, da independência do Kosovo em 2008 à revelia das instâncias internacionais, como o elemento que conduziu a Rússia a alterar as suas políticas sobre integridade territorial e intangibilidade das fronteiras dos Estados na sua esfera de influência.

SOZINHOS EM MOSCOVO

Em artigo recente publicado na revista Russia in Global Affairs, Vladislav Surkov, conselheiro do Presidente Vladimir Putin e muito influente nos corredores do Kremlin, considerou que a Rússia abandonou as aspirações seculares de integração no ocidente, e regressa a uma nova era de “solidão geopolítica”.

“O lugar que o ocidente tem ocupado na política externa da Rússia pós-soviética é simultaneamente o de barómetro da ambição russa de ser reconhecida como uma grande potência e de elemento constitutivo da identidade russa, mesmo que por oposição directa, como parece ser o actual cenário”, assinalou em declarações à Lusa, Licínia Simão, professora de Relações Internacionais na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Investigadora do Centro de Estudos Sociais.

“Mais do que a União Europeia [UE] ou as suas principais potências, são os Estados Unidos que têm actuado como o elemento que valida as ambições de Moscovo ser um interlocutor necessário à resolução das grandes questões da política internacional”, sustentou. Na perspectiva da investigadora, o “caminho épico da Rússia rumo ao ocidente”, que agora parece comprometido, teria expressão numa ambicionada parceria, mas que não passaria pela integração do grande país euro-asiático nas instituições ocidentais, como a UE ou NATO.

“Este caminho rumo ao ocidente era pautado pelo reconhecimento formal de Moscovo como o parceiro mais significativo da superpotência Estados Unidos na resolução dos problemas internacionais, em jeito de concerto das grandes potências, ainda que articulado no quadro de organizações multilaterais como a ONU e o seu Conselho de Segurança”, prosseguiu a académica.

A intenção de a Rússia se preparar para actuar de forma mais isolada no contexto internacional constituirá, no actual cenário, a “validação de uma estratégia em vigor há algum tempo, na medida em que ela tem efectivamente sido marginalizada pelos seus parceiros ocidentais e tem procurado sempre avançar os seus interesses particulares”, indicou ainda.

No entanto, para Licínia Simão, o impacto desta abordagem nos ‘dossiês’ em que a Rússia é efectivamente um parceiro negocial não é claro, especialmente no actual contexto da política norte-americana e europeia. “Mas será, sem dúvida, um momento de reapreciação das prioridades russas e uma oportunidade de reforçar as tendências autoritárias, conservadoras e nacionalistas do país, com importantes impactos negativos na sociedade russa e potencialmente na estabilidade regional, como é já visível na Ucrânia.”

Em clima de “nova “Guerra fria”, o sentimento de “cerco” ocidental, não será apenas perceptível na Rússia, mas também pela China, e contido na mais recente revisão estratégica do Pentágono (NPR) que assinala a entrada dos EUA numa nova era de “competição de grande potência” com Moscovo e Pequim, e que esta competição está a assumir uma forma militar, precisou ainda Michael Klare.

O académico norte-americano recordou que o NPR também assinala, “sem fornecer qualquer prova”, que a Rússia encara a utilização inicial de armas nucleares num qualquer futuro conflito com a NATO, devendo deste modo os EUA munirem-se de um vasto espectro de armas nucleares para dissuadir essa utilização, e se necessário responder em conformidade.

“O resultado poderá ser uma escalada da corrida às armas nucleares e um maior risco de utilização de armas nucleares em situação de combate”, alertou.

“E enquanto os Estados Unidos e aliados continuarem a instalar as suas forças ao longo do perímetro da Rússia e China, podemos esperar que estes países respondam através do reforço das suas próprias forças e procurarem contrariar a estratégia de cerco norte-americana. Esta situação aumentará o risco de confrontação e de escalada em todos os pontos onde forças dos dois lados se encontrem numa situação de proximidade, incluindo na Europa”.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

PORQUE A EUROPA TEM MEDO DAS NOVAS ROTAS DA SEDA?

PORQUE A EUROPA TEM MEDO DAS NOVAS ROTAS DA SEDA?

Muitos países da UE estão preocupados com o tráfego de sentido único ao longo das novas rotas comerciais que Pequim está a tentar estabelecer para a Europa

Por Pepe Escobar*

Surgiu como uma espécie de escândalo menor - considerando o ciclo de notícias pós-verdade de 24/7. Dos 28 embaixadores da UE em Pequim, 27, com excepção da Hungria, assinaram um relatório interno criticando as Novas Rota da Seda como uma ameaça não transparente ao livre comércio, supostamente favorecendo a concorrência desleal dos conglomerados chineses. 

O relatório foi divulgado no respeitado jornal de negócios alemão Handelsblatt. Diplomatas da UE em Bruxelas confirmaram a sua existência para o Asia Times. Em seguida, o Ministério Negócios Esternos da China acalmou a turbulência, dizendo que Bruxelas havia explicado o motivo. 

Na verdade, é tudo sobre nuances. Qualquer pessoa familiarizada com a forma como a Eurocrata Bruxelas é disfuncional sabe que não existe uma política comum da UE em relação à China - ou à Rússia. 

O relatório interno menciona como a China, por meio da Nova Rota da Seda ou da Iniciativa Cinturão e Estrada (BRI), está a “perseguir objectivos políticos domésticos como a redução da capacidade de excedente, a criação de novos mercados de exportação e a garantia de acesso a matérias-primas”. 

Esta é uma razão chinesa auto-evidente embutida no BRI desde o início - e Pequim nunca negou isso. Afinal, o conceito em si foi divulgado pela primeira vez dentro do Ministério do Comércio, muito antes dos anúncios oficiais do Presidente Xi Jinping em Astana e Jacarta em 2013. 

As percepções do BRI variam entre uma miríade de latitudes. A Europa Central e do Leste é em grande parte entusiasta - já que o BRI é sinónimo de projectos de infra-estruturas extremamente necessárias. Assim é o caso da Grécia e da Itália, como relatou o Asia Times. Os portos do norte, como Hamburgo e Roterdão, são configurados como terminais BRI. A Espanha está muito interessada nos dias em que o comboio de carga de Yiwu para Madri se deslocará sobre os carris de alta velocidade. 

Essencialmente, tudo se resume a empresas de países específicos da UE que decidem o seu grau de integração com o que Raymond Yeung, economista-chefe da ANZ para a China, descreve como "a maior experiência económica da história moderna". 

Veja esses engenheiros chineses 

O caso da França é emblemático. O presidente Emmanuel Macron - agora numa massiva ofensiva geopolítica de RP para se coroar o rei não oficial da Europa - realmente elogiou o BRI quando visitou a China no início deste ano. 

Mas a nuance, mais uma vez, se aplica: “Afinal, as antigas Rota da Seda nunca eram apenas chinesas”, disse Macron em Xian no Palácio Daming, a residência da vigorosa dinastia Tang da Rota da Seda Antiga por mais de dois séculos. “Essas rotas”, acrescentou Macron, “não podem ser as de uma nova hegemonia, que transformaria aquelas que elas cruzam em vassalos”. 

Assim, Macron já se estava a preparar para conduzir as relações entre a UE e a China para além da queixa número um da UE; como os chineses praticam o comércio externo / jogo de investimento. 

Macron tem sido muito perspicaz em estimular a burocracia da Comissão Europeia a endurecer as regras anti-dumping contra as importações chinesas de aço e forçar a triagem em toda a Europa de aquisições em sectores estratégicos, especialmente da China. 

Paralelamente, praticamente todas as nações da UE - não apenas a França - querem mais acesso ao mercado chinês. Por mais que Macron tenha apresentado um mantra optimista - “a Europa está de volta” - em termos de competitividade da UE, que mal mascara o medo europeu primordial; o fato de que é a China que pode estar a ficar muito competitiva. 

O BRI, para Pequim, tem tudo a ver com projecção geopolítica, mas sobretudo geoeconómica - incluindo a promoção de novos padrões e normas globais que podem não ser exactamente os praticados pela UE. E isso nos leva ao cerne da questão, não denunciado pelo relatório interno divulgado; a intersecção entre BRI e Made in China: 2025. 

Pequim tem como objectivo tornar-se um líder global de alta tecnologia em menos de sete anos. Made in China: 2025 identificou 10 sectores - incluindo IA, robótica, aeroespacial, carros ecológicos e transporte marítimo e construção naval - como prioridades. 

O comércio bilateral China-Alemanha, de 187 biliões de euros no ano passado, é muito maior do que a China-França e a China-Reino Unido, com 70 biliões de euros cada. E sim, Berlim está preocupada. Made in China: 2025 representa uma "ameaça" significativa para as empresas alemãs de alta qualidade que produzem bens de fabrico de alta qualidade. 

Esses dias podem acabar quando a China comprou quantidades surpreendentes de máquinas alemãs - além dos inevitáveis ​​BMWs e Audis. O novo normal aponta para um exército de empresas chinesas subindo a cadeia de valor agregado em alta velocidade. 

Thomas Bauer, CEO da Bauer, disse à Reuters: “ (Rivalidade com a China) não será uma disputa contra as copiadoras. Será uma contra engenheiros inovadores ”. 

Navegando pela economia azul 

O relatório Blue China; A navegação pela Rota da Seda Marítima para a Europa expande de maneira útil o amplo debate, apontando como o desenvolvimento da Rota da Seda Marítima pode ser ainda mais crucial do que os corredores de conectividade terrestre. 

O relatório reconhece como a Rota da Seda Marítima já afecta a UE em termos de comércio marítimo e construção naval, e faz algumas perguntas sobre a crescente presença global da Marinha de Libertação Popular. Ele recomenda que a UE “emule a economia azul da China como um motor de crescimento e riqueza, e encoraje a inovação para responder às políticas industriais e de P & D chinesas bem financiadas”. 

A “economia azul” destaca-se fortemente no Made in China: 2025 - especialmente em termos de inovação em infra-estruturas portuárias e transportes marítimos. A lógica, do ponto de vista de Pequim, é sempre sobre o corte de custos no comércio marítimo - mas isso, é claro, sempre dependerá dos preços do petróleo continuarem subindo, como a OPEP e a Rússia estão interessadas. 

Do jeito que está, a burocracia da UE tem que ter medo, sentindo a possibilidade de ser espremida entre a China de alta tecnologia e a America First de Trump. E isso nem leva em conta o inevitável choque geoestratégico entre a BRI e o “Indo-Pacífico livre e aberto” a ser administrado, em teoria, pelos EUA, Japão, Índia e Austrália; mais de uma patrulha glamorosa do Mar da China Meridional do que um vasto projecto de integração económica eurasiana. 

Haverá uma cimeira UE-China em Julho e depois uma cimeira Alemanha-China no final do ano. Faíscas não transparentes são obrigadas a voar.

Asia Times

sexta-feira, 20 de abril de 2018

DEPOIS DO ATAQUE À SÍRIA, OS TAMBORES DE GUERRA DOS EUA TOCAM MAIS FORTE PARA UMA GUERRA MAIS AMPLA

DEPOIS DO ATAQUE À SÍRIA, OS TAMBORES DE GUERRA DOS EUA TOCAM MAIS FORTE PARA UMA GUERRA MAIS AMPLA 
Dispensando o pretexto fraudulento de armas químicas usado para justificar o bombardeamento americano e aliado, Rice aponta para os objectivos de tal intervenção: “Isso permitirá aos Estados Unidos frustrar as ambições iranianas de controlar o território do Iraque, Síria e Líbano; manter a influência nas principais áreas produtoras de petróleo e negar ao Sr. Assad uma parcela substancial do território sírio, aguardando uma solução diplomática.” Essa estratégia está em de acordo com o editorial do Wall Street Journal de 16 de Abril que pede que Trump que estabeleça “zonas seguras” no norte da Síria, tanto no território ocupado pelos EUA a leste do rio Eufrates como na área de fronteira com a Jordânia. Isso, escreve o jornal, "não ameaçaria o controle de Assad sobre o restante da Síria", mas "enviaria um sinal de que os EUA não estão a abandonar a região para o Irão e a para a Rússia". O editorial pede uma "paz baseada na divisão do país em enclaves de base étnica. ” 

Por Will Morrow 

Susan Rice
Após os ataques com mísseis à Síria por parte dos EUA, RU e França no fim-de-semana passada, uma campanha está em desenvolvimento no establishment político e militar / de inteligência norte-americano para uma guerra mais ampla que ameaçaria um conflito nuclear com a Rússia. 

Na terça-feira, legisladores democratas e republicanos atacaram a administração Trump pela natureza “limitada” do ataque e exigiram que a Casa Branca se comprometesse com uma operação militar mais extensa para derrubar o governo de Assad e confrontar o Irão e a Rússia. 

Depois de uma conferência de imprensa particular no Senado dada pelo secretário de Defesa James Mattis e pelo presidente do Joint Chiefs Joseph Dunford, o senador republicano Lindsey Graham disse aos repórteres que o governo não tinha estratégia e parecia disposto a “dar a Síria a Assad, Rússia e Irão”. Ele disse: "Eu acho que Assad, após este ataque, acredita que estamos todos tweetando sem tomarmos nenhuma acção." 

Graham pediu o estabelecimento de uma zona permanente de exclusão aérea sobre partes da Síria, o que inevitavelmente exigiria o abate de caças russos, e o envio de mais tropas dos EUA para as forças aliadas vinculadas à Al Qaeda e ao grupo curdo. Ele declarou que a Rússia e o Irão não deveriam poder continuar "a ganhar o campo de batalha incontestadamente". 

O senador democrata Chris Coons criticou a recente ameaça de Trump de retirar as tropas dos EUA, dizendo aos repórteres: "É importante que permaneça-mos envolvidos na Síria". Ele acrescentou: "Se retirarmos completamente, a nossa influência em qualquer resolução diplomática ou na reconstrução ou qualquer esperança de uma Síria pós-Assad desaparece. ” 

A imprudência da elite governante americana foi expressa numa coluna publicada ontem no New York Times por Susan Rice, que serviu como embaixadora na ONU e em seguida, foi conselheira de segurança nacional sob a administração Obama. 

Na coluna, Rice opõe-se categoricamente a qualquer retirada de tropas americanas. Ela pede que o governo Trump mantenha indefinidamente a sua ocupação de cerca de um terço do território sírio ao longo das fronteiras norte e leste do país com a Turquia e o Iraque - uma região que inclui os recursos petrolíferos do país. Isso está de acordo com os apelos feitos na comunicação social dos EUA com frequência e a abertura cada vez maiores para uma divisão permanente do país. 

Rice escreve que Washington e os seus aliados devem “ajudar a garantir, reconstruir e estabelecer uma governação local efectiva em áreas libertadas”. Estas são palavras-chave para estabelecer o controlo neocolonial sobre o território e usá-lo como base para operações contra o regime de Assad, contra a Rússia e as forças iranianas. 

Dispensando o pretexto fraudulento de armas químicas usado para justificar o bombardeamento americano e aliado, Rice aponta para os objectivos de tal intervenção: “Isso permitirá aos Estados Unidos frustrar as ambições iranianas de controlar o território do Iraque, Síria e Líbano; manter a influência nas principais áreas produtoras de petróleo e negar ao Sr. Assad uma parcela substancial do território sírio, aguardando uma solução diplomática. ” 

Essa estratégia está em de acordo com o editorial do Wall Street Journal de 16 de Abril que pede que Trump que estabeleça “zonas seguras” no norte da Síria, tanto no território ocupado pelos EUA a leste do rio Eufrates como na área de fronteira com a Jordânia. Isso, escreve o jornal, "não ameaçaria o controle de Assad sobre o restante da Síria", mas "enviaria um sinal de que os EUA não estão a abandonar a região para o Irão e a para a Rússia". O editorial pede uma "paz baseada na divisão do país em enclaves de base étnica. ” 

O que está a ser discutido é um permanente desmembramento e reestruturação da Síria e de todo o Médio Oriente, em parte para fornecer ao imperialismo dos EUA uma base de ensaio para os seus preparativos de uma guerra contra o Irão e a Rússia. 

Um comentário de 15 de Abril no Journal por Ryan Crocker, ex-embaixador dos EUA na Síria, e Michael O'Hanlon, membro sénior da Brookings Institution, alinhado com o Partido Democrata, adverte que os futuros ataques aéreos "subirão a fasquia, para ir atrás do comando e controle militar", liderança política e talvez até mesmo do próprio Sr. Assad ... Os objectivos dentro do Irão não devem estar fora dos limites, dependendo da provocação. ” 

Na terça-feira, o Times publicou um relatório baseado em declarações de autoridades anónimas militares e do governo que o secretário de Defesa Mattis havia instado Trump a pedir a aprovação do Congresso para um bombardeamento, mas foi rejeitado pelo presidente. O artigo afirma que “em várias reuniões da Casa Branca na semana passada, ele [Mattis] ressaltou a importância de vincular as operações militares ao apoio público - uma visão que o Sr. Mattis mantém há muito tempo”. 

Num editorial recente, o Times sublinhou igualmente a necessidade do Congresso aprovar legislação autorizando novas operações militares na Síria e em outros lugares. 

Mattis também é amplamente ireferido por ter aconselhado a selecção de alvos sírios de maneira a minimizar a oportunidade de retaliação russa. O que está por trás dessas considerações, tanto militares quanto políticas, é a necessidade de se preparar para uma guerra prolongada e sangrenta que provavelmente envolveria um grande número de tropas americanas e levaria a um conflito militar com a Rússia e / ou o Irão. Isso exigirá uma repressão contra a oposição anti-guerra dentro dos EUA, para a qual uma acção legal de sanções do Congresso é considerada necessária. 

No seu Times op-ed, Rice apela para que os EUA “continuem evitando um conflito directo com a Rússia”, ao mesmo tempo que não se permitia que “a Rússia e o Irão reinem livremente.” Washington deve “fazer recuar com firmeza e de forma inteligente” a Rússia, escreve ela, “seja em relação a armas químicas ou outros ultrajes. ” 

Por outras palavras, a CIA deve continuar a fabricar uma série interminável de provocações e pretextos para justificar o esforço de Washington para remover a Rússia como um obstáculo ao estabelecimento da hegemonia dos EUA no Médio Oriente e em toda a Euroásia. 

Um desses pretextos foi fornecido pela divulgação na segunda-feira de um relatório conjunto entre o governo dos EUA e do Reino Unido que acusa a Rússia de actos vagos de "guerra cibernética" contra o Ocidente. Embora o documento não forneça uma única acusação específica ou peça de evidência contra a Rússia, ele foi amplamente amplificado em toda a comunicação social, num esforço para criar uma atmosfera de histeria nos EUA e legitimar um confronto com Moscovo. 

As redes de televisão a cabo dos Estados Unidos começaram na quarta-feira com mais destaque pelos relatos da morte do jornalista de investigação russo Maksim Borodin, cujas investigações incluíram o contratado militar privado russo Wagner. Borodin caiu de uma varanda do quinto andar em Yekaterinburg no domingo. De maneira típica, antes de qualquer investigação e sem qualquer evidência, a comunicação social está a relatar amplamente a morte de Borordin como a mais recente de uma longa série de assassinatos supostamente ordenados pelo presidente russo Vladimir Putin. 

A intensidade da campanha anti-Rússia cresce em proporção à exposição dos pretextos oficiais para o bombardeamento da Síria como mentiras. Cinco dias após o ataque, nenhuma evidência foi fornecida para substanciar a alegação de que o regime de Assad realizou um ataque com gás na cidade de Douma, no leste de Ghouta, enquanto as evidências continuam a aumentar de que o incidente foi encenado pelas agências de inteligência ocidentais como pretexto fornecido para a intervenção. 

As agências de inteligência foram assistidas por uma comunicação social corrupta e servil. Um estudo divulgado ontem pela Fairness in Accuracy and Reporting, uma agência de vigilância da comunicação social, revela que dos 100 principais jornais dos EUA em circulação, nem um único conselho editorial se opôs ao bombardeio da Síria. 

O papel da comunicação social ocidental como difusora de mentiras do governo foi demonstrado numa entrevista pela britânica Sky News com o ex-general britânico Jonathan Shaw, a 13 de Abril, antes do bombardeamento. Quando Shaw desviou-se do guião e questionou qual o possível motivo que o governo de Assad poderia ter para realizar um ataque com armas químicas, dado que as suas forças estavam prestes a dominar os “rebeldes” apoiados pelos EUA em Douma e um ataque de gás provavelmente desencadearia a intervenção ocidental. A apresentadora Sky, Samantha Washington, interrompeu-o abruptamente no meio da frase e encerrou a entrevista.


















A Sky News interrompe o General Shaw do Reino Unido quando começa a questionar que pretexto teria a Síria para fazer um ataque com gás

wsws.org














O rapaz sírio usado pelos capacetes brancos revela a verdade sobre o "ataque com armas químicas".

quarta-feira, 18 de abril de 2018

O ATAQUE SEM SENTIDO E INÚTIL CONTRA A SÍRIA NÃO RESOLVE NADA

O ATAQUE SEM SENTIDO E INÚTIL CONTRA A SÍRIA NÃO RESOLVE NADA 

O mundo não se apressou em mostrar o seu apoio. O secretário-geral da ONU, António Guterres, não quer uma escalada na Síria. A China opôs-se ao uso da força. A Indonésia expressou preocupação com o ataque não exigido pela ONU. O presidente sérvio Aleksandar Vucic alertou que os ataques poderiam levar a um conflito global. O presidente boliviano Evo Morales classificou a acção de agressão.

Por Alex Gorka*


Antes e depois do ataque
A unidade do Ocidente está a desfazer-se e a liderança mundial dos Estados Unidos está a ser questionada. O alegado "ataque químico" na Síria, mas nunca comprovado, oferece uma oportunidade para se tornar num factor unificador. Ao atacar aquele país, a administração dos EUA perseguiu o objectivo de solidificar a sua imagem como líder mundial número um para liderar outras nações num esforço para enfrentar o "mal". Ela queria mostrar a unidade do Ocidente, reforçar a sua posição no Médio Oriente e aumentar os índices de aprovação do presidente em casa. A Rússia foi retratada como um estado pária apoiando o "animal" Assad e aliado do Irão que representam uma ameaça comum. A missão foi cumprida?

O mundo não se apressou em mostrar o seu apoio. O secretário-geral da ONU, António Guterres, não quer uma escalada na Síria. A China opôs-se ao uso da força. A Indonésia expressou preocupação com o ataque não exigido pela ONU. O presidente sérvio Aleksandar Vucic alertou que os ataques poderiam levar a um conflito global. O presidente boliviano Evo Morales classificou a acção de agressão. 

Formalmente, a OTAN aprovou os ataques, mas houve reservas em relação à posição sobre a Rússia. Por exemplo, o presidente alemão Frank-Walter Steinmeier alertou contra a demonização de Moscovo a 15 de Abril, dizendo que não deveria haver animosidade entre o Ocidente e a Rússia numa situação de crescentes tensões. Ele insiste que o diálogo deve ser mantido. A Alemanha aprovou a operação, mas recusou-se a participar. 

O líder do Partido Trabalhista da oposição britânica, Jeremy Corbyn, criticou o movimento e disse que o Reino Unido aderiu aos ataques sob pressão dos EUA. Apenas um quarto dos britânicos aprovam a participação do Reino Unido na operação. 43% deles desaprovam. 

O presidente francês Macron sofreu críticas da direita e da esquerda pela sua decisão em participar na operação. A Itália recusou-se a permitir que os aliados usassem o seu território para lançar os ataques. O ministro dos Negócios Estrangeiros de Luxemburgo, Jean Asselborn, questionou a legalidade do ataque. O partido SYRIZA, o maior membro da coligação de governo da Grécia, condenou os ataques. Finlândia, Chipre e Suíça expressaram preocupação com o uso da força contra a Síria. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Finlândia, Timo Soini, ainda acredita que a paz teria uma oportunidade na Síria se a lei internacional fosse respeitada. 

Não houve apoio unânime ao ataque nos EUA. O movimento sofreu duras críticas dos dois lados do corredor. Por exemplo, o senador Tim Kaine, D-Va., acredita que o ataque lançado sem a aprovação do Congresso é ilegal e imprudente. Esta posição foi apoiada pelo deputado Justin Amash, R-Mich. O senador Tom Udall, D-NM, emitiu uma declaração especial para discordar fortemente da decisão do presidente de usar a força. Ele acha que Donald Trump está perigosamente a agravar a situação agindo sem autoridade legal. A influente Associação de Controle de Armas criticou os ataques como uma acção míope e ilegal, violando a legislação interna e o direito internacional. 

Os maiores países árabes não aprovaram os ataques. O governo iraquiano acredita que ataques marcaram "um desenvolvimento muito perigoso" para dar aos terroristas outra oportunidade para fortalecer as suas posições. O Egipto expressou "profunda preocupação" ao afirmar que os ataques prejudicaram as perspectivas de paz na Síria. Argélia condenou a acção. O Líbano levantou a voz para se opor fortemente ao acto de agressão. 

A operação militar única, em vez de unir o mundo dividiu-o, incluindo o "Ocidente como um todo". O governo britânico não conseguiu reunir o apoio popular. Em vez disso, tornou a sua posição ainda mais fraca do que antes. O apoio da OTAN, assim como da UE, foi principalmente vocal. Apenas três nações participaram da operação. A contribuição da Grã-Bretanha e da França foi muito limitada. A administração dos EUA tem muitas respostas a dar sobre a sua estratégia na Síria. 

A legalidade da acção é universalmente questionada e muitos governos percebem que a lei internacional não protege ninguém dos ataques liderados pelos EUA e leva-os a obter armas para se defenderem. Como mostra a experiência da Síria, a Rússia tem muito a oferecer não apenas como fornecedor de armas, mas também como um pólo alternativo de poder. 

A situação na Síria não mudou. O seu governo mantém a capacidade de continuar a sua ofensiva de sucesso em todas as frentes. Os ataques não diminuíram o apoio inabalável de Moscovo e Teerão a Damasco. O ataque aéreo não conseguiu nada. Isso apenas demonstrou o quão limitada é a capacidade dos EUA de influenciar os eventos na Síria, colocando em causa as suas reivindicações de liderança global.




Analista em defesa e diplomacia

strategic-culture.org

Tradução Paulo Ramires

segunda-feira, 16 de abril de 2018

GENERAL WESLEY CLARK REVELOU PLANOS PARA MUDAR O MÉDIO ORIENTE

GENERAL WESLEY CLARK REVELOU PLANOS PARA MUDAR O MÉDIO ORIENTE

Trump quis sair da síria, mas isso vai contra os plano do deep state no médio oriente

O general norte-americano Wesley Clark afirma que o governo dos EUA planeou derrubar o presidente sírio Bashar al Assad e iniciar a 3ª Guerra Mundial. 

Segundo o general Clark, quando trabalhava no Pentágono, ele viu um memorando que descrevia como os EUA planeavam derrubar sete países em cinco anos, começando pelo Iraque, depois Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e finalmente o Irão. 

Ele também afirma que o ISIS foi uma criação do governo Obama, com Hillary Clinton e o Deep State [Estado Profundo] a ajudar a orquestrar falsas acusações na região, todas planeadas para ajudar a justificar uma eventual invasão da Síria. [http://yournewswire.com]




General Wesley Clark






Transcrição: 

Porque eu passei pelo Pentágono logo após o 11 de Setembro. Cerca de dez dias após o 11 de Setembro, passei pelo Pentágono e vi o secretário Rumsfeld e o secretário adjunto Wolfowitz. 

Desci as escadas só para dizer olá a algumas pessoas da equipa do Estado-Maior que costumavam trabalhar para mim, e um dos generais chamou-me. Ele disse: “Senhor, tem que entrar e falar comigo um momento." 

Eu disse: "Bem, você está muito ocupado". Ele disse: "Não, não". Ele diz: "Tomamos a decisão de entrar em guerra com o Iraque". Setembro. 

Eu disse: “Estamos a ir para a guerra com o Iraque? Por quê? ”Ele disse:“ Eu não sei ”. Ele disse:“ Eu acho que eles não sabem mais o que fazer. ”Então eu disse:“ Bem, eles encontraram alguma informação ligando Saddam à Al-Qaeda? "Ele disse:" Não, não. "Ele diz:" Não há nada de novo assim. Eles acabaram de tomar a decisão de entrar em guerra com o Iraque. 

Ele disse: "Eu acho que é como se não soubéssemos o que fazer com terroristas, mas temos um bom exército e podemos derrubar governos". E ele disse: "Eu acho que se a única ferramenta que você tem é um martelo, todos os problemas tem que se parecer com um prego. ” 

Então voltei para vê-lo algumas semanas depois, e nessa época estávamos a bombardear o Afeganistão. Eu disse: "Ainda vamos para a guerra com o Iraque?" E ele disse: "Ah, é pior do que isso." 

Ele estendeu a mão sobre a mesa. Ele pegou num pedaço de papel. E ele disse: "Acabei de receber isso do andar de cima" - ou seja, o escritório do Secretário de Defesa - "hoje". E ele disse: "Este é um memorando que descreve como vamos tirar sete países em cinco anos, Começando com o Iraque, e depois a Síria, o Líbano, a Líbia, a Somália, o Sudão e, terminando, com o Irão. ” 

Eu disse: "É classificado?" Ele disse: "Sim, senhor." Eu disse: "Bem, não me mostre." E eu o vi um ano ou mais atrás, e eu disse: "Você lembra-se disso” Ele disse: “Senhor, eu não lhe mostrei esse memorando! Eu não lhe mostrei!

domingo, 15 de abril de 2018

SÍRIA: ABRINDO OS OLHOS PARA O PROBLEMA

SÍRIA: ABRINDO OS OLHOS PARA O PROBLEMA


Richard Westra* 

Não pode ser real, ou pode? Ninguém se lembra do Dossiê Britânico sobre o Iraque plagiado de uma tese de doutorado dos EUA? E o então secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, fazendo uma apresentação fabricada nas Nações Unidas sobre o caso de atacar ilegalmente o Iraque por causa das suas supostas armas de destruição em massa? Quinze anos depois, o Iraque, outrora uma economia de rendimentos médios funcional e relativamente bem-sucedida, é agora uma terra devastada do século XXI. 

Bem, aqui estamos outra vez. Mas pode-se perguntar porquê agora? Bem, a atenção do mundo foi recentemente afastada de um estado pária, Israel, largando os seus militares equipados pelos EUA para fazerem concursos de tiros atingindo mulheres e crianças palestinas desarmadas protestando contra o seu bloqueio na prisão gigante ao ar livre conhecida como Faixa de Gaza. Então, enquanto o presidente Trump tentava voltar à sua agenda perdida da “América Primeiro”[ lost “America First”], proclamando uma saída para o envolvimento dos EUA na Síria, adivinhe o que surge? Um primeiro-ministro pró-guerra israelita, Benjamin “Bibi” Netanyahu, segredando zangado ao ouvido de Trump, Israel primeiro! 

Da sua parte, um tanto irónico, como tem tentado levar os poderosos sindicatos franceses à tona com a bandeira da prudência fiscal, o presidente francês Emmanuel Macron está agora disposto a desperdiçar os recursos dos seus cidadãos atirando misseis sobre a Síria. 

Não vamos esquecer a primeira-ministra britânica Elizabeth May. Antes que uma pequena evidencia de prova chegasse, May e o seu cómico secretário de estado, Boris Johnson, desentenderam-se sobre um alegado ataque de um agente neurotóxico mortal contra o ex-espião Sergei Skripal e a sua filha Yulia, por quem, claro, quem mais, o arqui-vilão Rússia. No entanto, sobrecarregada pelo fiasco Brexit, enfrentando um declínio da popularidade em casa e, com o Skripal agora a recuperar-se do suposto plano de assassinato diabólico mostrando-se como um açaime quase amador, por que não bombardear a Síria! 

Parece perdido num mundo tão facilmente manipulado pelos principais líderes da comunicação social mainstream que mesmo se, e isso realmente é um grande se, armas químicas foram usadas na Síria há vários dias, o governo de Bashar al-Assad é o culpado. Pense nisso. Finalmente, depois de mais de meia década de mortes e destruição, a quantidade heterogénea de grupos jihadistas armados e financiados pelos Estados Unidos e pelos seus aliados executavam uma desesperada e última resistência na região leste de Ghouta. 

De facto, a maioria dos grupos, excepto os terroristas da internacional Frente Nusra, já haviam retirado. Isto significa que, se se acredita em relatos do uso de armas químicas, estes foram perpetuados pelas forças de Assad sobre o seu próprio povo recentemente libertado do jugo dos jihadistas, que agora são vistos a agitarem bandeiras sírias nas ruas. Ou, tal uso teria ocorrido na última área controlada pela Frente Nusra das decapitações, das mulheres apedrejadas. 

No entanto as coisas não param por aí. O que não é totalmente compreendido pela maioria de nós, a assistir a este teatro do absurdo diante dos nossos olhos, é que na verdade há uma outra guerra a acontecer na Síria, além daquela vista sob a rubrica de uma guerra civil síria entre Assad e uma “oposição” apoiado pelas potências ocidentais. Outra guerra de influência entre os islamitas que põem em prática o wahabismo da Arábia Saudita e o salafismo do Qatar, que, apesar de defenderem em grande parte as decapitações, o apedrejamento e lapidação das mulheres, jogam com os seus patrocinadores estatais. Interessado? E de repente, a Arábia Saudita e um grupo fechado de aliados bloqueiam o Qatar alegando que o Qatar está a apoiar terroristas? Lembra-se disso. Agora que todos os seus representantes jihadistas são desalojados dos subúrbios de Damasco, não se surpreenda ao ver um "acordo" a ser acertado para acabar com esse bloqueio. 

A parte mais triste de toda esta história é que a Síria, juntamente com o Iraque e a Líbia, eram estados-clientes soviéticos que eram ferozmente seculares e absorveram modelos económicos com orientações económicas endógenas. Esse modelo de desenvolvimento voltado para dentro garantiu que os seus cidadãos fossem saudáveis ​​e educados, e cada economia estava provida com uma infra-estrutura sólida para fornecer serviços essenciais como a água, a electricidade ou o transporte. A Líbia, como é bem sabido, era a economia mais rica do continente africano sob a tutela de Muammar Kaddafi. O actual colapso da economia da Síria é pior do que o sofrido pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. E todos esses estados seculares foram fortes defensores da Palestina contra a ocupação israelita e o apartheid. 

Quando é que os cidadãos das supostas democracias em todo o mundo, com a sua ostensiva liberdade de imprensa, começam a ligar os pontos? Ou será que vão todos fica encantados com apenas banalidades e falsidades que são entregues pelos seus governos justificando, porém outra violação do que resta do direito internacional? 


Richard Westra é Professor Designado na Escola de Graduação em Direito da Universidade de Nagoya, no Japão.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

COMPREENDER A GUERRA NA SÍRIA E O MÉDIO ORIENTE

COMPREENDER A GUERRA NA SÍRIA E O MÉDIO ORIENTE 

"Quando eu regressei ao Pentágono em Novembro de 2001, um oficial sénior do staff militar, teve tempo para falar. Sim, estamos a caminho para ir contra o Iraque, disse ele. Mas havia mais. Isto tinha sido discutido como parte de um plano de uma campanha de cinco anos, disse ele, e eram um total de sete países, começando pelo Iraque, então Síria, Líbano, Líbia, Irão, Somália e Sudão. ... ele disse isto com descrédito - com quase descrença - num suspiro de uma visão. Afastei-me da conversa, por isto ser algo que não me agradaria ouvir. E isto não era algo que eu queria que também fosse para a frente ...Deixei o Pentágono naquela tarde profundamente perturbado." - "Vencendo Guerras Modernas", General Wesley Clark.

Por Paulo Ramires,

O Médio Oriente caracteriza-se por um xadrez geopolítico que assume níveis de alguma complexidade, muito pela razão de nesta região estarem alicerçados os interesses geoestratégicos de vários países regionais e mundiais como a Rússia e os EUA, mas também de vária multinacional de energia, armamento entre outras. Estes interesses chocam-se e cruzam-se provocando, tensões e conflitos ampliados pelas próprias características étnico-religiosas da população do Médio Oriente, escassez de recursos naturais e o predomínio de uma considerável riqueza em hidrocarbonetos como o petróleo e o gás natural. 

Os actores do Médio Oriente 

Ramos religiosos do Médio Oriente

Alguns destes conflitos têm origem na eterna disputa pela terra, água e gás natural entre Israel e Palestinianos, disputas pela influência regional entre a Arabia Saudita e Irão no Iémen que têm dado origem a uma guerra entre a Arábia Saudita e o Iémen. O Iémen está dividido em grupos étnicos, políticos e religiosos, e onde grupos terroristas como a al-Qaeda disputam território. Os Hutis de maioria xiita e apoiados pelo Irão chegaram ao poder num golpe de estado em 2014 onde uma nova guerra civil surgiu como resultado e com o envolvimento da Arábia Saudita a apoiar o governo de Hadi que voltou ao poder em 2017. O Irão e a Arábia Saudita têm disputado a influência no Iémen apesar de ser um dos países mais pobres do mundo e sem recursos naturais. Há ainda o conflito entre Israel e o Líbano, em particular com o Hezbollah, movimento politico, militar, social e religioso xiita que nestes últimos anos tem ganhado influência no Médio Oriente e em diferentes conflitos, recebendo sempre o apoio do Irão, na verdade o Hezbollah apesar de ser um movimento libanês é influenciado politicamente e religiosamente pelo Irão e isso reflecte-se também nas opções militares que um concelho supremo toma, o Hezbollah tem ainda relações com outros países de fora do Médio Oriente, nomeadamente com países da américa latina contrários à expansão dos EUA e com o Hamas onde o apoia na luta com Israel. A síria é governada por um governo de influência alauita e cujo presidente é Bashar Hafez al-Assad que beneficia do apoio do Irão xiita, Rússia e Hezbollah, este grupo de países rivaliza com uma aliança de países liderados pelos EUA, França, RU, Arábia Saudita e outros países como o Qatar ou Emirados Árabes Unidos. A Turquia porém tem uma posição ambígua em termos de alianças, por exemplo a Turquia é o segundo maior país da OTAN fazendo parte deste bloco, mas recentemente tem alinhado com a Rússia e o Irão numa posição também paradigmática, este país liderado por Recep Tayyip Erdoğan tem vários interesses variáveis no Médio Oriente onde combate os curdos do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e os do YPG (Unidades de Protecção do Povo) que por seu lado são aliados dos americanos no controlo da região norte da Síria junto à fronteira com a Turquia, a Turquia têm assim divergência geoestratégicas com os EUA suficientes para que não hesite em fazer parceria com a Rússia de Putin e o Irão de Ali Khamenei. A Turquia deseja expandir a sua influência, mas para isso tem de afastar os curdos da região da Síria que são independentes e desejam restabelecer o estado curdo que foi integrado em 1923, com o Tratado de Lausana, no Iraque, Síria e uma outra parte - o Curdistão - na Turquia e no Irão. O Iraque tem tolerado a influência do Irão e de certa forma alinhado com o Irão no combate de diversos objectivos estratégicos nomeadamente o combate ao IE (Estado Islâmico) ou a al-Qaeda. 

O plano de Washington para o Médio Oriente 


Mas quais as razões destes dois blocos de países aliados se confrontarem permanentemente? As razões são variadas, mas as principais são o controlo pelos hidrocarbonetos (gás natural e petróleo), água, terra e influência geopolítica na região, isto para não falar das multinacionais, elas próprias com uma agenda com um poder suficiente para influenciar governos. Estes são alguns actores do conturbado puzzle que é o Médio Oriente. 

Após a queda da União Soviética, os EUA tentaram controlar todo o Médio Oriente definindo um plano em que consistia mudar regimes e governos que não alinhassem com os interesses de Washington em redefinir fronteiras, os primeiros países a serem alvos destas alterações eram sete ‒ Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Irão, Somália e Sudão. 

O que estamos a assistir actualmente no Médio Oriente faz parte deste plano que ao longo destas décadas tem vindo a ser negociado entre todos os actores que nele participam, mas os planos de Washington para implementar este mapa têm vindo a ser gorados pelo surgimento de uma Rússia militarmente e diplomaticamente forte e de um Irão que se tem destacado e surgido como um dos principais actores do Médio Oriente e que obviamente não aceita tais planos de Washington. 

O conflito da Síria 

Áreas de influência na Síria

O Golfo Pérsico é rico em depósitos de Gás natural, um destes depósitos é dividido entre o Irão Xiita e o Qatar sunita, sendo uma destas metades ‒ o North Dome ‒ situada em águas marítimas do Qatar e a outra metade ‒ o South Pars situado em águas marítimas do Irão. Ambos estes países têm natural interesse em explorar e exportar este gás para a Europa, um dos grandes consumidores de gás natural. 

Em 2009 com o objectivo de exportar o seu gás, o Qatar, aliado da Arábia Saudita e dos EUA propõe ao presidente Bashar al-Assad a construção do gasoduto Qatar-Síria que seguiria através da Turquia para a União Europeia. Mas Assad toma a decisão de rejeitar a proposta. Para Assad e para a Síria as relações com a Rússia e a Gazprom são preferenciais por não colocarem a soberania da Síria em causa ou a economia que Assad insiste que deve ficar sobre controlo do governo sírio bem como o Banco Central da Síria. 

A Junho de 2011, o Irão avança com uma proposta para a construção do gasoduto Irão-Iraque-Síria com 1500 quilómetros e que começa no porto de Asaluyeh e estende-se até Damasco na Síria, seguindo depois para o Líbano, e continuando em direcção à Europa atravessando a Turquia que desempenha um papel importante na comunicação entre a Europa e o Médio Oriente, este gasoduto foi chamado de “Islamic Pipeline” [Pipeline Islâmico] e resultou num acordo estratégico entre estes países e a Rússia. 

Este acordo seria um revês importante para o Qatar e os seus parceiros estratégicos na região e no Ocidente. Para sabotar este acordo, o Qatar, a Arabia Saudita, os EUA e a França criaram um plano para a criação de grupos terroristas na Síria e no Iraque como o ISIS (Estado Islâmico do Iraque e al-Sham) ‒ mais tarde apenas Estado Islamico ‒, o Exercito Livre da Síria (FSA), a al-Qaeda, a Frente al-Nusra, a Jabhat Fatah al-Sham (afiliado da al-Qaeda), Ahrar al-Sham (grupo islamita e salafista), Asala Wa-al-Tanmiya, Legião Sham, Ajnad al-Sham, Islamic Union, Jaysh al-Islam, Jaish al-Fatah entre muitos outros. Estes grupos transformaram-se nos próxies de vários países aliados do bloco liderado pelos EUA, mas cada um com objectivos tão distintos como a criação de estados islâmicos na Síria e no Iraque, independentistas ou com o objectivo de derrubar Bashar al-Assad. 

Porém estes grupos não conseguiram nenhum destes objectivos de forma permanente, devido às forças de inteligência e militares da Rússia e do Irão a que se juntou depois as do Hezbollah do Líbano, mas sobretudo com a intervenção militar da Rússia na Síria a pedido de Bashar al-Assad. Com os próxies do Ocidente, Israel, Qatar e Arábia Saudita derrotados, não resta outra solução que não seja a intervenção militar directa destes países na Síria de Bashar al-Assad com os EUA na liderança. Mas este bloco de países nomeadamente os EUA têm um problema complexo que tem de ser contornado. Ninguém, nem mesmo os EUA estão interessados em confrontar a Rússia, tal confrontação entre dois blocos antagónicos envolvendo a Rússia e os EUA levaria quase certamente à III Guerra Mundial que extravasaria o próprio Médio Oriente e faria frentes de combate na Europa e no Mar do Sul da China. Não obstante a posição moderada da China, é importante não esquecer, que China e Rússia fazem parte da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), uma aliança que tem como objectivo principal a cooperação para a segurança - nomeadamente, quanto a terrorismo, separatismo e extremismo e que o Irão é membro observador. Sabendo disto, a diplomacia entre estes dois blocos de países procuram evitar a todo o custo, uma confrontação militar directa entre si. Tem assim havido um planeamento intenso trabalhado pela diplomacia destes países para que todos estes interesses se possam encaixar de forma a que se evite uma guerra directa na Síria entre estes países. 

Bases militares na Síria a 11 de Abril de 2017

Todavia o presidente da América deu um passo perigoso ao preparar uma força naval americana conjuntamente com o RU e França para atacar a Síria, um passo que se for em frente ‒ e pelos vistos vai, pois será muito difícil fazer recuar estes dispositivos militares já em movimentação operacional ‒ violará o Direito Internacional e pode provocar consequências imprevisíveis, a não ser que haja provas evidentes confirmadas por entidades adequadas internacionais ‒ e não pelos próprios países ‒ de que o ataque ocorrido na Síria foi um ataque químico, e neste caso o Conselho de Segurança das Nações Unidas teria de tomar uma decisão.

O alegado ataque químico na Síria

Há muito em jogo, as autoridades sírias estão numa posição vencedora e sabem perfeitamente que se usarem armas químicas passariam de uma posição vencedora para uma posição perdedora, assim porque razão usariam armas químicas contra o seu próprio povo que ainda por cima acolheu feliz as forças militares de Assad quando entraram em Douma ou em Ghouta? Não faz sentido pois não? Por outro lado a coligação liderada pelos EUA têm a necessidade de um pretexto para que possam invadir a Síria dentro de um quadro legal e não à margem do Direito Internacional, o que seria bastante grave. Assim se pode perceber a quem interessa que as armas químicas possam ser usadas. Não é assim?


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