SÍRIA: ABRINDO OS OLHOS PARA O PROBLEMA

domingo, 15 de abril de 2018

SÍRIA: ABRINDO OS OLHOS PARA O PROBLEMA

SÍRIA: ABRINDO OS OLHOS PARA O PROBLEMA


Richard Westra* 

Não pode ser real, ou pode? Ninguém se lembra do Dossiê Britânico sobre o Iraque plagiado de uma tese de doutorado dos EUA? E o então secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, fazendo uma apresentação fabricada nas Nações Unidas sobre o caso de atacar ilegalmente o Iraque por causa das suas supostas armas de destruição em massa? Quinze anos depois, o Iraque, outrora uma economia de rendimentos médios funcional e relativamente bem-sucedida, é agora uma terra devastada do século XXI. 

Bem, aqui estamos outra vez. Mas pode-se perguntar porquê agora? Bem, a atenção do mundo foi recentemente afastada de um estado pária, Israel, largando os seus militares equipados pelos EUA para fazerem concursos de tiros atingindo mulheres e crianças palestinas desarmadas protestando contra o seu bloqueio na prisão gigante ao ar livre conhecida como Faixa de Gaza. Então, enquanto o presidente Trump tentava voltar à sua agenda perdida da “América Primeiro”[ lost “America First”], proclamando uma saída para o envolvimento dos EUA na Síria, adivinhe o que surge? Um primeiro-ministro pró-guerra israelita, Benjamin “Bibi” Netanyahu, segredando zangado ao ouvido de Trump, Israel primeiro! 

Da sua parte, um tanto irónico, como tem tentado levar os poderosos sindicatos franceses à tona com a bandeira da prudência fiscal, o presidente francês Emmanuel Macron está agora disposto a desperdiçar os recursos dos seus cidadãos atirando misseis sobre a Síria. 

Não vamos esquecer a primeira-ministra britânica Elizabeth May. Antes que uma pequena evidencia de prova chegasse, May e o seu cómico secretário de estado, Boris Johnson, desentenderam-se sobre um alegado ataque de um agente neurotóxico mortal contra o ex-espião Sergei Skripal e a sua filha Yulia, por quem, claro, quem mais, o arqui-vilão Rússia. No entanto, sobrecarregada pelo fiasco Brexit, enfrentando um declínio da popularidade em casa e, com o Skripal agora a recuperar-se do suposto plano de assassinato diabólico mostrando-se como um açaime quase amador, por que não bombardear a Síria! 

Parece perdido num mundo tão facilmente manipulado pelos principais líderes da comunicação social mainstream que mesmo se, e isso realmente é um grande se, armas químicas foram usadas na Síria há vários dias, o governo de Bashar al-Assad é o culpado. Pense nisso. Finalmente, depois de mais de meia década de mortes e destruição, a quantidade heterogénea de grupos jihadistas armados e financiados pelos Estados Unidos e pelos seus aliados executavam uma desesperada e última resistência na região leste de Ghouta. 

De facto, a maioria dos grupos, excepto os terroristas da internacional Frente Nusra, já haviam retirado. Isto significa que, se se acredita em relatos do uso de armas químicas, estes foram perpetuados pelas forças de Assad sobre o seu próprio povo recentemente libertado do jugo dos jihadistas, que agora são vistos a agitarem bandeiras sírias nas ruas. Ou, tal uso teria ocorrido na última área controlada pela Frente Nusra das decapitações, das mulheres apedrejadas. 

No entanto as coisas não param por aí. O que não é totalmente compreendido pela maioria de nós, a assistir a este teatro do absurdo diante dos nossos olhos, é que na verdade há uma outra guerra a acontecer na Síria, além daquela vista sob a rubrica de uma guerra civil síria entre Assad e uma “oposição” apoiado pelas potências ocidentais. Outra guerra de influência entre os islamitas que põem em prática o wahabismo da Arábia Saudita e o salafismo do Qatar, que, apesar de defenderem em grande parte as decapitações, o apedrejamento e lapidação das mulheres, jogam com os seus patrocinadores estatais. Interessado? E de repente, a Arábia Saudita e um grupo fechado de aliados bloqueiam o Qatar alegando que o Qatar está a apoiar terroristas? Lembra-se disso. Agora que todos os seus representantes jihadistas são desalojados dos subúrbios de Damasco, não se surpreenda ao ver um "acordo" a ser acertado para acabar com esse bloqueio. 

A parte mais triste de toda esta história é que a Síria, juntamente com o Iraque e a Líbia, eram estados-clientes soviéticos que eram ferozmente seculares e absorveram modelos económicos com orientações económicas endógenas. Esse modelo de desenvolvimento voltado para dentro garantiu que os seus cidadãos fossem saudáveis ​​e educados, e cada economia estava provida com uma infra-estrutura sólida para fornecer serviços essenciais como a água, a electricidade ou o transporte. A Líbia, como é bem sabido, era a economia mais rica do continente africano sob a tutela de Muammar Kaddafi. O actual colapso da economia da Síria é pior do que o sofrido pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. E todos esses estados seculares foram fortes defensores da Palestina contra a ocupação israelita e o apartheid. 

Quando é que os cidadãos das supostas democracias em todo o mundo, com a sua ostensiva liberdade de imprensa, começam a ligar os pontos? Ou será que vão todos fica encantados com apenas banalidades e falsidades que são entregues pelos seus governos justificando, porém outra violação do que resta do direito internacional? 


Richard Westra é Professor Designado na Escola de Graduação em Direito da Universidade de Nagoya, no Japão.

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