ENTENDER A UCRÂNIA EM 15 MINUTOS

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

ENTENDER A UCRÂNIA EM 15 MINUTOS

ENTENDER A UCRÂNIA EM 15 MINUTOS

 



Por Mike Whitney (transcrição e comentários), Information Clearing House

A ENTREVISTA COM SERGEI GLAZIEV


Quem quiser compreender o que se passa na Ucrânia, não pode deixar de assistir ao vídeo (com legendas em inglês), 15 minutos, em que Sergei Glaziev, [1] conselheiro e amigo de Putin, explica como as mudanças estruturais na economia global e uma deriva em direcção à Ásia precipitaram uma desesperada tentativa, por políticos norte-americanos, para manter-se no controle do mundo, instigando uma guerra na Europa.

Concorde-se ou não com o analista e a sua análise, os leitores verão/ouvirão um analista brilhante, erudito e apaixonado nas suas crenças. Só por isso já vale a pena assistir à entrevista de Glaziev.

Fiz eu mesmo uma transcrição do vídeo, e peço desculpas por algum erro não intencional no texto. Também introduzi, eu mesmo, os negritos que se veem na transcrição: [ver o vídeo em baixo]



1. Mudanças Estruturais na Economia Global são frequentemente precedidas por Grandes Crises e Guerras




O mundo hoje passa por uma sobreposição de séries inteiras de crises cíclicas. A mais séria delas é uma crise tecnológica que é associada a mudanças nos comprimentos de onda do desenvolvimento económico. Vivemos num período em que a economia está a mudar de estrutura. A estrutura económica que comandou o crescimento económico nos últimos 30 anos esgotou-se em si mesma. Temos de fazer uma transição para um novo sistema de tecnologias. Esse tipo de transição, infelizmente, sempre aconteceu mediante guerras. Foi o que aconteceu nos anos 1930s, quando a Grande Depressão deu lugar a corrida uma corrida às armas e, de seguida, à II Guerra Mundial. Foi assim durante a Guerra Fria, quando uma corrida ás armas cedeu lugar a complexas tecnologias de informação e comunicação que se tornaram a base da estrutura tecnológica que vem comandando a economia mundial nos últimos 30 anos. Hoje, enfrentamos uma crise similar. O mundo está a mudar para um novo sistema tecnológico.


2. Putin insiste numa Zona de Livre Comércio, para facilitar a transição para a Nova Economia Global




O novo sistema tem natureza humanitária e, assim, pode evitar uma guerra, porque os grandes geradores de crescimento nesse comprimento de onda são tecnologias humanitária. Dentre de essas, incluem-se as indústrias de atenção à saúde e de medicamentos, que são baseadas na biotecnologia. Incluem-se aí também tecnologias de comunicação baseadas na nanotecnologia, que está a mudar o mundo como o conhecemos. Todas essas mudanças envolvem tecnologias cognitivas, que definem um novo contexto para o conhecimento humano. Como o presidente Putin tem dito repetidas vezes, conseguimos construir e propor um programa de desenvolvimento conjunto, uma zona de desenvolvimento para todos com um regime comercial preferencial de Lisboa a Vladivostok. Se acordasse-mos com Bruxelas um espaço económico comum, uma área de desenvolvimento comum, poderíamos propor um número suficiente de novos projectos, do campo da saúde à protecção contra ameaças espaciais, para mobilizar nosso potencial científico e técnico e criar uma oferta estável, a partir do estado. Assim se daria forte estímulo ao novo sistema tecnológico.


3. Washington vê uma Guerra na Europa como o melhor meio para Preservar a sua Hegemonia



Os EUA, contudo, já estão fazendo o que fazem sempre. Para manter o seu domínio sobre o mundo, estão a provocar uma nova guerra na Europa. A Guerra é sempre um bom negócio para os EUA. Dizem até que a II Guerra Mundial, que matou 50 milhões de pessoas na Europa e na Rússia, teria sido uma boa guerra. Foi boa para os EUA, porque os EUA emergiram daquela guerra como a principal potência mundial. A Guerra Fria, que terminou com o fim da União Soviética, também foi uma boa guerra, para os EUA. Agora, os EUA mais uma vez querem manter a sua liderança à custa da Europa. A liderança dos EUA está a ser ameaçada pela China, que cresce sem parar. O mundo hoje está a mudar e a entrar num novo ciclo que, desta vez, é um ciclo político. Esse ciclo dura à séculos e está associado com as instituições globais da economia reguladora.

Estamos a transferir dum ciclo de acumulação de capital norte-americano para um ciclo asiático. É outra crise que desafia a hegemonia dos EUA. Para manter a sua posição de comando frente à concorrência que lhe impõe uma China que não pára de crescer e outros países asiáticos, os EUA estão a inventar uma nova guerra na Europa. Querem enfraquecer a Europa, fracturar a Rússia, e subjugar todo o continente eurasiático. É o mesmo que dizer que, em vez de uma zona de desenvolvimento para todos de Lisboa a Vladivostok – que é a proposta do presidente Putin – os EUA querem iniciar uma guerra caótica neste mesmo território, envolver toda a Europa numa só guerra, desvalorizar os capitais europeus, cancelar por milagre a dívida pública nos EUA, dívida sob cujo peso os EUA, sim, já estão praticamente sucumbindo, riscar do mundo o que os EUA devem a Europa e à Rússia, subjugar o nosso espaço económico e estabelecer controle sobre os recursos do gigantesco continente euroasiático. Para os EUA, esse seria o único modo para conseguirem manter sua hegemonia e derrotar a China.

Infelizmente a geopolítica dos EUA que vemos hoje é exactamente idêntica à do século XIX. Eles ainda pensam nos termos das lutas geopolíticas do Império Britânico: dividir para conquistar. Lançar nações contra nações, empurrá-las umas contra as outras, iniciar uma guerra mundial. Desgraçadamente, os EUA ainda insistem naquela velha política britânica, para tentar resolver os seus problemas. A Rússia é o alvo seleccionado dessa política, e o povo ucraniano é usado como bucha de canhão numa nova guerra mundial.

Primeiro, os EUA decidiram tomar como alvo a Ucrânia e separá-la da Rússia. É a tácita inventada por Bismarck. É a velha tradição anti-Rússia, com o objectivo de envolver a Rússia num conflito, para conseguir tomar conta de todo o espaço da Euroásia. Foi a estratégia que Bismark usou, depois adoptada pelos britânicos, depois por Zbigniew Brzezinski, pensador e cientista político norte-americano que disse incontáveis vezes que a Rússia não poderia ser uma super-potência sem a Ucrânia, e que criar uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia seria benéfico [sic] para os EUA e o Ocidente.

Há 20 anos que os norte-americanos alimentam o nazismo ucraniano orientado contra a Rússia. Todos sabem que os EUA hospedaram os seguidores remanescentes de Bandera (Stepan), depois da II Guerra Mundial. Dezenas de milhares de nazistas ucranianos foram levados para os EUA e cuidadosamente cevados e treinados durante o pós-guerra. Essa leva de imigrantes desceu sobre a Ucrânia depois do colapso da União Soviética. A ideia de uma parceria ocidental foi usada como isca. Quem primeiro falou disso foram os polacos e na sequência, os EUA abraçaram a ideia. Essa é a essência da parceria ocidental, da qual a Geórgia foi a primeira vítima. Agora, a nova vítima está a ser a Ucrânia, e depois será a vez da Moldávia, para ir cortando os laços com a Rússia.

Todos sabem que a Rússia está a construir a União Aduaneira e um espaço económico comum com Bielorrússia e o Cazaquistão, ao qual se juntarão posteriormente, o Quirguizistão e a Arménia. A Ucrânia sempre foi a nação parceira dos russos, há muito tempo. A Ucrânia continua a ter um acordo comercial com a Rússia, que está em fase de ratificação – e que até hoje não foi cancelado por ninguém na Ucrânia. A Ucrânia é importante para nós como parte do nosso espaço económico e por séculos de laços e cooperação entre os nossos países. O nosso complexo científico e industrial foi criado como um todo, todavia a participação da Ucrânia na integração da Europa seja um processo vital e natural. Mas o projeto da “parceria ocidental” foi inventado para impedir que a Ucrânia participasse no projeto de integração da Eurásia. O significado da parceria ocidental é criar uma associação com a União Europeia. Qual a associação que Poroshenko assinou com os líderes europeus? Uma “associação” que converte a Ucrânia numa colónia. Por aquele acordo de associação com a União Europeia, a Ucrânia perde até a própria soberania: transfere para Bruxelas o controle do próprio comércio, políticas aduaneiras, regulação técnica e financeira e até a adjudicação de serviços e bens públicos.


4. A junta nazista ucraniana é um instrumento da política dos EUA



A Ucrânia deixa de ser estado soberano na economia e na política: está claramente escrito e assinado no acordo que a Ucrânia converte-se num parceiro “menor” na União Europeia. A Ucrânia compromete-se a seguir a defesa comum e a política externa da União Europeia. A Ucrânia fica obrigada a participar na resolução de conflitos regionais, sempre sob a liderança da União Europeia. E assim Poroshenko está a converter a Ucrânia numa colónia da União Europeia e empurrando a Ucrânia para uma guerra contra a Rússia como bucha de canhão, com a intenção de, assim, iniciar uma guerra na Europa. O objectivo do acordo de associação é permitir que os países europeus governem a Ucrânia sempre que se tratar de decidir conflitos regionais. É o que está a acontecer em Donbass, que é um conflito regional armado. O objectivo da política dos EUA é criar o maior número possível de mortos. A junta nazista que governa a Ucrânia é o instrumento dessa política dos EUA. Estão-se a cometer atrocidades inimagináveis e crimes sem conta, bombardeando cidade, matando civis, mulheres e crianças, e forçando-os a abandonar as próprias casas, exclusivamente para provocar a Rússia e, na sequência, lançar toda a Europa numa mesma grande guerra. Essa é a missão de que Poroshenko foi encarregado. Por isso, precisamente, é que Poroshenko rejeita todas e quaisquer negociações de paz e bloqueia todos e quaisquer acordos de paz. Cada “declaração” de Washington sobre qualquer “de escalada” no conflito é descodificada, por Poroshenko, como ordem para escalar o conflito. Cada ronda de conversações chamadas “de paz” desencadearam nova ronda de violência.

É preciso compreender que estamos a lidar com um estado nazista, que está determinado a conseguir entrar em guerra contra a Rússia e que já decretou recrutamento universal obrigatório. Toda a população do sexo masculino entre 18 e 55 anos de idade foi automaticamente alistada. Quem se recusar ao alistamento, receberá pena de 15 anos de cadeia. Esse poder nazista criminoso já converteu em criminosos toda a população ucraniana.


5. Washington trabalha a favor de seus Interesses, quando empurra a Europa para a Guerra




Calculamos que a economia europeia perderá cerca de 1 trilião de Euros por causa das sanções que os norte-americanos impuseram aos europeus. É muito dinheiro. Os europeus já começam a sentir as perdas. Já houve acentuada redução nas vendas para a Rússia. A Alemanha está a perder cerca de 200 biliões de Euros. Os estados do Báltico sofrerão as maiores perdas. A perda de vendas na Estónia será superior ao PIB do país. Na Letónia, será o equivalente a metade do PIB do país. Mas nem isso os detêm. Os políticos europeus seguem os norte-americanos sem sequer questionarem o que estão a fazer. Eles prejudicam-se a eles próprios, ao provocarem o nazismo e a guerra. Já disse que a Rússia e a Ucrânia são vítimas dessa guerra que está a ser fomentada pelos EUA. Mas a Europa também é vítima, porque a guerra visa destruir o estado social europeu [o que reste dele] e desestabilizar a Europa. Os norte-americanos esperam que, assim, prosseguirá o êxodo de capitais e cérebros europeus para os EUA. Por isso estão a incendiar a Europa inteira. É muito estranho que governos europeus estejam a alinhar com esse tipo de “projecto” dos EUA.


6. A Alemanha ainda é Território Ocupado




Não podemos continuar simplesmente a esperar que os líderes europeus desenvolvam uma política independente: temos de trabalhar com os políticos europeus de outra geração, capaz de manter-se independentes do diktat dos EUA. O facto é que nos anos da Guerra Fria formou-se na Europa uma elite política obcecadamente anti-soviética. E esses rapidamente se converteram em anti-Rússia. Apesar da expansão dramática de laços económicos e dos vastíssimos interesses económicos mútuos entre a Europa e a Rússia, a russofobia ainda é baseada em anti-sovietismo e sobrevive nas mentes de muitos políticos europeus. Será preciso esperar que uma nova geração de políticos europeus pragmáticos compreenda quais são os seus reais interesses nacionais. O que vemos hoje na Europa são políticos que agem contra os seus próprios interesses nacionais. Isso se explica em grande parte pelo facto de que a Alemanha, que é o motor do crescimento da Europa ainda ser um país ocupado. Ainda há tropas norte-americanas na Alemanha, e cada chanceler alemão ainda é obrigado a jurar fidelidade aos EUA e àquela política externa. A geração de políticos que ainda está no poder na Europa ainda não conseguiu livrar-se do cabresto da ocupação dos EUA.


7. O nazismo está em ascensão


Embora já não haja a União Soviética, aqueles políticos europeus continuam a obedecer Washington maniacamente, na expansão da NATO e na tentativa de capturar novos territórios – por mais “alérgicos” que já sejam aos novos membros orientais da União Europeia. A União Europeia já está a rebentar pelas costuras, mas nem por isso suspende a agressiva expansão na direção de território pós-soviético. Espero que uma próxima geração de políticos seja mais pragmática. As recentes eleições para o Parlamento Europeu mostraram que nem todos estão a ser completamente enganados pela propaganda pró-EUA e anti-Rússia, e pelo fluxo ininterrupto de mentiras que não para de ser lançado contra o povo europeu. Os partidos europeus tradicionais perderam nas recentes eleições para o Parlamento Europeu. Quanto mais se diga a verdade, maior será a reacção, porque o que está a acontecer na Ucrânia é o renascimento do nazismo. A Europa conhece bem e não esqueceu os sinais do renascimento do nazismo, por causa das lições da II Guerra Mundial. Temos de despertar essa memória histórica, de modo a que consigam ver os nazistas ucranianos que estão no governo em Kiev, os seguidores de Bandera, Shukhevych e outros colaboradores nazistas. A ideologia das actuais autoridades ucranianas tem raízes na ideologia dos cúmplices de Hitler que atiraram contra judeus em Babi Yar, queimando vivos ucranianos e bielorrussos e aniquilaram populações inteiras sem distinção de etnias. Esse é o nazismo que está em crescimento hoje. Os europeus têm de reconhecer nos mortos na Ucrânia os mortos europeus. É disso, afinal, que se trata.

Espero que, se continuarmos a explicar a verdade, conseguiremos salvar a Europa de mais essa ameaça de guerra.




Agradecimentos especiais ao blog The Vineyard of the Saker, por ter publicado esta sensacional entrevista 
Nota dos tradutores

[1] Sobre Sergey Glaziev ver também: 2/8/2014, “http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/08/para-por-fim-as-guerras-dos-eua-em-todo_2.html”>Para pôr fim às guerras dos EUA em todo o planeta: Assessor de Putin propõe Aliança Anti-dólar”.


[*] Mike Whitney é um escritor e jornalista norte-americano que dirige a sua própria empresa de paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como articulista freelancer nos últimos 7 anos. Em 2006 recebeu o prémio Project Censored por uma reportagem de investigação sobre a "Operation FALCON", um massiva, silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente em Counterpunch, Information Clearing House e vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle edition.

Recebe e-mails por: fergiewhitney@msn.com.

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