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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

QUE FUTURO PARA O LESTE DA UCRÂNIA

QUE FUTURO PARA O LESTE DA UCRÂNIA



Por José Loureiro dos Santos
A Rússia não desistirá de prolongar uma situação de dificuldades que desgaste progressivamente a Ucrânia, com a finalidade de modificar a seu favor a situação no país.

Existem três cenários quanto ao futuro do Leste da Ucrânia: regressar à situação de completa dependência político-administrativa de Kiev, a exemplo de todas as restantes regiões ucranianas; passar a constituir uma região autónoma do país com liberdade limitada de relacionamento externo; ou transformar-se num protectorado político e militar da Rússia, completamente à margem da tutela de Kiev, a exemplo da Abkházia, da Ossétia do Sul e da Transnístria.

A Rússia não desistirá de prolongar uma situação de dificuldades que desgaste progressivamente a Ucrânia, com a finalidade de modificar a seu favor a situação no país, tendo por objectivos: 1) desejável – produzir uma viragem nas ligações políticas agora em curso e previstas da Ucrânia (ligação à União Europeia e posterior integração na NATO), fazendo com que volte a aliar-se a Moscovo e a participar na União Euro-asiática; 2) mínimo – conseguir que o Donbass tenha um estatuto que permita à Rússia nele interferir. Não aceita a situação actual, quanto à ligação de Kiev à União Europeia e à hipótese de integrar a NATO.

Estão em jogo interesses que a Rússia considera vitais – controlar o corredor ucraniano de acesso à planície europeia e desta ao coração russo e ao mar Negro –, que, pelo seu lado, a Alemanha olha com idêntica importância. O eixo Ucrânia-Polónia permite a ligação terrestre entre os dois mares, Báltico e Negro.

Putin está decidido a usar a força militar para garantir os seus interesses, e já lembrou que a Rússia é uma grande potência nuclear.

Poroshenko pretende vencer os separatistas, expulsando do território ucraniano (com ou sem a Crimeia?) os “homens verdes” sob cuja máscara se esconde o poder militar russo. Mas a realidade mostra que não consegue fazê-lo, pelo que tenta envolver os países da NATO como aliados no terreno, o que, a materializar-se, provocaria uma catástrofe na Europa com a reacção russa. Muito menos tem condições para combater o potencial militar da Rússia, numa guerra aberta.

Os Estados Unidos, desejando manter a Ucrânia na órbita do Ocidente, não estão disponíveis para entrar numa guerra no continente europeu, por causa de um país não-membro da NATO. Avançarão com apoio político e militar, através do fornecimento de algum armamento e do envio de assessores, o que já fazem e será ampliado. Alguns Estados da NATO sentem-se especialmente ameaçados, particularmente aqueles cuja experiência histórica os leva a temer a Rússia (e também a Alemanha por razões idênticas…). Mas têm a garantia de os aliados cumprirem o artigo 5.º do tratado, defendendo-os, se necessário.

Os países europeus da Aliança Atlântica encontram-se desarmados, não tendo capacidade para enfrentar a Rússia, nem isso lhes convém – a interdependência económica russo-europeia é profunda de mais para que seja possível pôr-lhe termo de uma forma brusca.

Terão de se limitar a gesticular mediaticamente, prosseguindo uma “guerra” de palavras, e continuar um duelo de sanções económicas cujos efeitos negativos aumentam, com a possibilidade de Putin cortar os fornecimentos de gás, como insinuou. E fornecem alguma assistência militar idêntica à norte-americana, procurando reduzir progressivamente a sua dependência económica da Rússia, principalmente energética, só viável a prazo.

Deverão insistir na procura de uma solução política, pressionando um entendimento entre Poroshenko e Putin, em direcção a uma solução porventura próxima do cenário que classifiquei como mínimo. Julgo que a sua aceitação iria ao encontro de alguns dos interesses de Moscovo e seria relativamente satisfatório para a Europa, por ser o menor dos males, pagando o preço de ter ignorado as necessidades da sua defesa. O sinal de impaciência do líder russo, ao falar em negociações e num Estado a leste da Ucrânia, aponta a única alternativa a este cenário: impor a “Nova Rússia”, abrangendo o Leste e Sudeste ucraniano, com o modelo da Abkházia, o que priva a Ucrânia da sua principal zona industrial e das ricas minas de carvão do Donbass e dá um golpe profundo na economia de Kiev.

Espera-se que os países europeus da NATO aprendam a lição destes acontecimentos. Terão de se rearmar, mesmo com as dificuldades económicas que os afligem.

Só assim estarão em condições de responder com êxito às ameaças que cercam o continente. Pelo sul, sudeste e leste. Dissuadindo a leste e combatendo a sul e sudeste, porventura aliados com o Leste. E no seu próprio interior, contra as ameaças resultantes do regresso dos combatentes que fazem a jihad no Sul e no Sudeste.



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