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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

IRÁ A NATO ANEXAR A UCRÂNIA ? POR PEPE ESCOBAR

IRÁ A NATO ANEXAR A UCRÂNIA ? POR PEPE ESCOBAR


Aqui está um cenário bastante possível. O leste e o sul da Ucrânia voltam a ser parte da Rússia; é bastante razoável pressupor que Moscovo aceite. O oeste da Ucrânia é totalmente saqueado, ao estilo do capitalismo de desastre, pela máfia empresarial-financeira ocidental (e ninguém jamais verá sequer a cor de um único passaporte europeu). Quanto à NATO, consegue as bases, 'anexando' a Ucrânia, mas consegue também as miríades dos hiper precisos e acurados mísseis Iskander russos, apontados para as tais bases. A isso se resume o 'avanço estratégico' que Washington 'conquistou'.


Por Pepe Escobar

Qualquer pessoa que acredite que Washington esteja profundamente enamorado pela 'democracia' na Ucrânia deve fazer uma visita ao eBay, único local onde se viram as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, e onde elas continuam à venda, à espera da melhor proposta.

Ou prestar mais atenção às negativas-que-nada-negam do governo Obama, que jura todos os dias que não nenhuma ‘proxy war’ ou Guerra Fria Redux na Ucrânia.

Em resumo: a política de Washington para a Ucrânia sempre foi anti-Moscovo. Implica mudança de regime sempre que necessária. Dado que a União Europeia (EU), em termos geopolíticos, não passa de um apêndice da NATO, trata-se sempre, de facto, de a NATO estender as suas fronteiras até a Ucrânia. E anexar, pelo menos, a Ucrânia Ocidental - que já seria um valioso prémio de consolação.

É um um jogo puramente militar-cêntrico - a lógica de todo o mecanismo é, de fato, decidida em Washington, não em Bruxelas. Trata-se da expansão da NATO, não de alguma 'democracia'.

Quando Victoria Nuland, a funcionária neo-conservadora do Departamento de Estado, vivia recentemente seus 15 segundos de fama, o que ela realmente disse foi "Nós somos a NATO. F***-se a União Europeia." Não surpreende que tenha havido reunião urgente dos ministros de Defesa dos países da NATO em Bruxelas, na 5ª-feira, exclusivamente sobre a Ucrânia.

Ninguém jamais lerá sobre isso em nenhum veículo da imprensa-empresa nos EUA - e, aliás, tampouco na universidade dos EUA. O professor Francis Boyle, de Harvard, falando ao Voice of Russia, ou Stephen Cohen de Princeton, em artigo recente para a The Nation, são flagrantes excepções.

Mas qualquer analista informado sabe que o 'cérebro' por de trás dessa 'política', desde os anos 1970s, é Zbigniew "O Grande Tabuleiro de Xadrez" Brzezinski. O Dr. Zbig foi conselheiro do presidente Barack Obama dos EUA na Universidade de Columbia e é o Talleyrand da máquina de política externa do governo Obama.

Pode talvez ter amaciado um pouco recentemente, argumentando que, embora os EUA devam permanecer como poder supremo em toda a Euroásia, Rússia e Turquia devem ser seduzidas pelo Ocidente. Mas não significa que a russofobia histórica de Zbig tenha algum dia diminuído.

A 'santa' Yulia voltou!



Agora que estamos (outra vez) com o pé na estrada para mudança de regime na Ucrânia, nem parece tão mau negócio por uns módicos $5 biliões - quantia revelada pela própria Nuland, a neoliberal. Compare-se com outras aventuras externas do continuum Bush-Obama, do Afeganistão e Iraque à Síria. Mas há grandes turbulências à frente.

A mais indiscutivelmente progressista muito discutível, além de gente obcecadamente da direita mais radical e a rapaziada da geração Google no oeste da Ucrânia e em Kiev parecem cultivar a noção de que o país, submetido a 'mudança de regime', será aceite como membro da União Europeia, obterão passaportes europeus e bons empregos na Europa, tal como fizeram os canalizadores polacos e os gerentes de restaurantes romenos.

Bem, não é bem assim. Se pelo menos pudessem apanhar um "EasyJet" e ver com os seus próprios olhos o que está a acontecer no mercado de trabalho no sul da Europa ou em Londres, para falar apenas de uma vaga  aterrorizada de leste-europeus que ocupam empregos ingleses.

Quanto aos ultra-nacionalistas e declarados neo-fascistas - absoluta e totalmente anti-União Europeia - a única coisa que têm na cabeça é livrarem-se da malha do urso russo. Mas... e daí em diante? 

Quanto ao ardor 'democrático' do Ocidente, é muito fácil esquecer que os fascistas do oeste da Ucrânia lutaram ao lado de Hitler contra a União Soviética. Os descendentes daqueles fascistas estiveram no comando da furiosa violência da semana passada. E o "Sector Direita" continua a insistir que manterá o 'protesto'. Nesse sentido, talvez não sejam os fantoches preferidos de Washington; são, apenas momentaneamente, idiotas úteis.

Quanto à ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko - já elevada no Ocidente ao púlpito de Madre Teresa loira - ela chamou os manifestantes da Praça Maidan (Independência), de "libertadores". O mais provável é que eles se libertem dela bem rapidamente - quando a altamente corrupta 'Santa' Yulia concorrer à presidência, em Maio próximo.

A Ucrânia que funciona - o leste e o sul - é constituída de províncias russas históricas (Cracóvia, Mar Negro, Crimeia). O PIB do país é de $157 biliões. Equivale a 1/5 da Turquia (que pode converter-se no novo Paquistão). No pé em que estão as coisas, a Ucrânia não tem qualquer valor económico que interesse ao Ocidente (e ainda menos, se se tornar numa nova Síria). De 'positivo', só o deformado avanço estratégico da NATO.

Quem acredita que uma União Europeia afundada em crises conseguirá dinheiro para arrancar a Ucrânia do pântano económico em que está, deve, sim, voltar ao eBay e fazer mais um lance para ver se compra as armas de destruição em massa de Saddam. Ou, então, que espere o Congresso dos EUA entregar $15 biliões para aliviar a dívida externa da Ucrânia. Ou que ofereça uma redução no preço do gás importado (como Moscovo fez, em Dezembro passado). 

Diga bom dia ao meu Iskander



A pergunta de um multi-biliões de dólares é o que fará o presidente Vladimir Putin da Rússia. Há quem diga que se ouvem gargalhadas a rugir pelos corredores do Kremlin.

Para começar, Putin decidirá se Moscovo comprará ou não $2 biliões em eurobonds ucranianos, depois que houver um novo governo em Kiev, como noticiou a Gazeta.ru. Kiev não obterá coisa alguma, absolutamente nada, de Moscovo, até que se saiba com certeza que o novo regime concorda com o jogo de interesses em manter coeso o país.

"Santa" Yulia, aliás, foi originalmente metida na prisão por causa de um acordo de gás que foi negociado em termos de preços altos da parte de Moscovo. Voltando aos factos: a Ucrânia não sobrevive sem o gás russo, e a indústria ucraniana não sobrevive sem o mercado russo.

Podem misturar todos os tons e cores de revolução laranja, tangerina, campari ou Tequila Sunrise, e jogar dentro do "ajuste estrutural" do FMI: nem assim conseguirão alterar esses factos. E quanto à União Europeia 'comprar a Ucrânia', podem esquecer.

A quadrilha da Laranjada Ocidental - dos patrões aos mais subalternos - continua apostando numa guerra civil ao estilo Síria. A anarquia cresce - provocada pelos neo-fascistas. Cabe aos ucranianos rejeitá-la. Boa solução seria um referendo. O povo que escolha ser uma confederação, fazer uma divisão (nesse caso, haverá sangue) ou manter o actual status quo.

Aqui está um cenário bastante possível. O leste e o sul da Ucrânia voltam a ser parte da Rússia; é bastante razoável pressupor que Moscovo aceite. O oeste da Ucrânia é totalmente saqueado, ao estilo do capitalismo de desastre, pela máfia empresarial-financeira ocidental (e ninguém jamais verá sequer a cor de um único passaporte europeu). Quanto à NATO, consegue as bases, 'anexando' a Ucrânia, mas consegue também as miríades dos hiper precisos e acurados mísseis Iskander russos, apontados para as tais bases. A isso se resume o 'avanço estratégico' que Washington 'conquistou'.


Correspondente itinerante do Asia Times / Hong Kong, analista da RT e TomDispatch, e um colaborador frequente de sites e programas de rádio que vão desde os EUA à Ásia Oriental.

24/2/2014, Pepe Escobar, Russia Today

A análise e pontos de vista expressos neste artigo são da exclusividade do autor e não representam necessariamente as opiniões do RD como aliás é referido na apresentação da própria publicação.

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