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sexta-feira, 13 de abril de 2018

COMPREENDER A GUERRA NA SÍRIA E O MÉDIO ORIENTE

COMPREENDER A GUERRA NA SÍRIA E O MÉDIO ORIENTE 

"Quando eu regressei ao Pentágono em Novembro de 2001, um oficial sénior do staff militar, teve tempo para falar. Sim, estamos a caminho para ir contra o Iraque, disse ele. Mas havia mais. Isto tinha sido discutido como parte de um plano de uma campanha de cinco anos, disse ele, e eram um total de sete países, começando pelo Iraque, então Síria, Líbano, Líbia, Irão, Somália e Sudão. ... ele disse isto com descrédito - com quase descrença - num suspiro de uma visão. Afastei-me da conversa, por isto ser algo que não me agradaria ouvir. E isto não era algo que eu queria que também fosse para a frente ...Deixei o Pentágono naquela tarde profundamente perturbado." - "Vencendo Guerras Modernas", General Wesley Clark.

Por Paulo Ramires,

O Médio Oriente caracteriza-se por um xadrez geopolítico que assume níveis de alguma complexidade, muito pela razão de nesta região estarem alicerçados os interesses geoestratégicos de vários países regionais e mundiais como a Rússia e os EUA, mas também de vária multinacional de energia, armamento entre outras. Estes interesses chocam-se e cruzam-se provocando, tensões e conflitos ampliados pelas próprias características étnico-religiosas da população do Médio Oriente, escassez de recursos naturais e o predomínio de uma considerável riqueza em hidrocarbonetos como o petróleo e o gás natural. 

Os actores do Médio Oriente 

Ramos religiosos do Médio Oriente

Alguns destes conflitos têm origem na eterna disputa pela terra, água e gás natural entre Israel e Palestinianos, disputas pela influência regional entre a Arabia Saudita e Irão no Iémen que têm dado origem a uma guerra entre a Arábia Saudita e o Iémen. O Iémen está dividido em grupos étnicos, políticos e religiosos, e onde grupos terroristas como a al-Qaeda disputam território. Os Hutis de maioria xiita e apoiados pelo Irão chegaram ao poder num golpe de estado em 2014 onde uma nova guerra civil surgiu como resultado e com o envolvimento da Arábia Saudita a apoiar o governo de Hadi que voltou ao poder em 2017. O Irão e a Arábia Saudita têm disputado a influência no Iémen apesar de ser um dos países mais pobres do mundo e sem recursos naturais. Há ainda o conflito entre Israel e o Líbano, em particular com o Hezbollah, movimento politico, militar, social e religioso xiita que nestes últimos anos tem ganhado influência no Médio Oriente e em diferentes conflitos, recebendo sempre o apoio do Irão, na verdade o Hezbollah apesar de ser um movimento libanês é influenciado politicamente e religiosamente pelo Irão e isso reflecte-se também nas opções militares que um concelho supremo toma, o Hezbollah tem ainda relações com outros países de fora do Médio Oriente, nomeadamente com países da américa latina contrários à expansão dos EUA e com o Hamas onde o apoia na luta com Israel. A síria é governada por um governo de influência alauita e cujo presidente é Bashar Hafez al-Assad que beneficia do apoio do Irão xiita, Rússia e Hezbollah, este grupo de países rivaliza com uma aliança de países liderados pelos EUA, França, RU, Arábia Saudita e outros países como o Qatar ou Emirados Árabes Unidos. A Turquia porém tem uma posição ambígua em termos de alianças, por exemplo a Turquia é o segundo maior país da OTAN fazendo parte deste bloco, mas recentemente tem alinhado com a Rússia e o Irão numa posição também paradigmática, este país liderado por Recep Tayyip Erdoğan tem vários interesses variáveis no Médio Oriente onde combate os curdos do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e os do YPG (Unidades de Protecção do Povo) que por seu lado são aliados dos americanos no controlo da região norte da Síria junto à fronteira com a Turquia, a Turquia têm assim divergência geoestratégicas com os EUA suficientes para que não hesite em fazer parceria com a Rússia de Putin e o Irão de Ali Khamenei. A Turquia deseja expandir a sua influência, mas para isso tem de afastar os curdos da região da Síria que são independentes e desejam restabelecer o estado curdo que foi integrado em 1923, com o Tratado de Lausana, no Iraque, Síria e uma outra parte - o Curdistão - na Turquia e no Irão. O Iraque tem tolerado a influência do Irão e de certa forma alinhado com o Irão no combate de diversos objectivos estratégicos nomeadamente o combate ao IE (Estado Islâmico) ou a al-Qaeda. 

O plano de Washington para o Médio Oriente 


Mas quais as razões destes dois blocos de países aliados se confrontarem permanentemente? As razões são variadas, mas as principais são o controlo pelos hidrocarbonetos (gás natural e petróleo), água, terra e influência geopolítica na região, isto para não falar das multinacionais, elas próprias com uma agenda com um poder suficiente para influenciar governos. Estes são alguns actores do conturbado puzzle que é o Médio Oriente. 

Após a queda da União Soviética, os EUA tentaram controlar todo o Médio Oriente definindo um plano em que consistia mudar regimes e governos que não alinhassem com os interesses de Washington em redefinir fronteiras, os primeiros países a serem alvos destas alterações eram sete ‒ Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Irão, Somália e Sudão. 

O que estamos a assistir actualmente no Médio Oriente faz parte deste plano que ao longo destas décadas tem vindo a ser negociado entre todos os actores que nele participam, mas os planos de Washington para implementar este mapa têm vindo a ser gorados pelo surgimento de uma Rússia militarmente e diplomaticamente forte e de um Irão que se tem destacado e surgido como um dos principais actores do Médio Oriente e que obviamente não aceita tais planos de Washington. 

O conflito da Síria 

Áreas de influência na Síria

O Golfo Pérsico é rico em depósitos de Gás natural, um destes depósitos é dividido entre o Irão Xiita e o Qatar sunita, sendo uma destas metades ‒ o North Dome ‒ situada em águas marítimas do Qatar e a outra metade ‒ o South Pars situado em águas marítimas do Irão. Ambos estes países têm natural interesse em explorar e exportar este gás para a Europa, um dos grandes consumidores de gás natural. 

Em 2009 com o objectivo de exportar o seu gás, o Qatar, aliado da Arábia Saudita e dos EUA propõe ao presidente Bashar al-Assad a construção do gasoduto Qatar-Síria que seguiria através da Turquia para a União Europeia. Mas Assad toma a decisão de rejeitar a proposta. Para Assad e para a Síria as relações com a Rússia e a Gazprom são preferenciais por não colocarem a soberania da Síria em causa ou a economia que Assad insiste que deve ficar sobre controlo do governo sírio bem como o Banco Central da Síria. 

A Junho de 2011, o Irão avança com uma proposta para a construção do gasoduto Irão-Iraque-Síria com 1500 quilómetros e que começa no porto de Asaluyeh e estende-se até Damasco na Síria, seguindo depois para o Líbano, e continuando em direcção à Europa atravessando a Turquia que desempenha um papel importante na comunicação entre a Europa e o Médio Oriente, este gasoduto foi chamado de “Islamic Pipeline” [Pipeline Islâmico] e resultou num acordo estratégico entre estes países e a Rússia. 

Este acordo seria um revês importante para o Qatar e os seus parceiros estratégicos na região e no Ocidente. Para sabotar este acordo, o Qatar, a Arabia Saudita, os EUA e a França criaram um plano para a criação de grupos terroristas na Síria e no Iraque como o ISIS (Estado Islâmico do Iraque e al-Sham) ‒ mais tarde apenas Estado Islamico ‒, o Exercito Livre da Síria (FSA), a al-Qaeda, a Frente al-Nusra, a Jabhat Fatah al-Sham (afiliado da al-Qaeda), Ahrar al-Sham (grupo islamita e salafista), Asala Wa-al-Tanmiya, Legião Sham, Ajnad al-Sham, Islamic Union, Jaysh al-Islam, Jaish al-Fatah entre muitos outros. Estes grupos transformaram-se nos próxies de vários países aliados do bloco liderado pelos EUA, mas cada um com objectivos tão distintos como a criação de estados islâmicos na Síria e no Iraque, independentistas ou com o objectivo de derrubar Bashar al-Assad. 

Porém estes grupos não conseguiram nenhum destes objectivos de forma permanente, devido às forças de inteligência e militares da Rússia e do Irão a que se juntou depois as do Hezbollah do Líbano, mas sobretudo com a intervenção militar da Rússia na Síria a pedido de Bashar al-Assad. Com os próxies do Ocidente, Israel, Qatar e Arábia Saudita derrotados, não resta outra solução que não seja a intervenção militar directa destes países na Síria de Bashar al-Assad com os EUA na liderança. Mas este bloco de países nomeadamente os EUA têm um problema complexo que tem de ser contornado. Ninguém, nem mesmo os EUA estão interessados em confrontar a Rússia, tal confrontação entre dois blocos antagónicos envolvendo a Rússia e os EUA levaria quase certamente à III Guerra Mundial que extravasaria o próprio Médio Oriente e faria frentes de combate na Europa e no Mar do Sul da China. Não obstante a posição moderada da China, é importante não esquecer, que China e Rússia fazem parte da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), uma aliança que tem como objectivo principal a cooperação para a segurança - nomeadamente, quanto a terrorismo, separatismo e extremismo e que o Irão é membro observador. Sabendo disto, a diplomacia entre estes dois blocos de países procuram evitar a todo o custo, uma confrontação militar directa entre si. Tem assim havido um planeamento intenso trabalhado pela diplomacia destes países para que todos estes interesses se possam encaixar de forma a que se evite uma guerra directa na Síria entre estes países. 

Bases militares na Síria a 11 de Abril de 2017

Todavia o presidente da América deu um passo perigoso ao preparar uma força naval americana conjuntamente com o RU e França para atacar a Síria, um passo que se for em frente ‒ e pelos vistos vai, pois será muito difícil fazer recuar estes dispositivos militares já em movimentação operacional ‒ violará o Direito Internacional e pode provocar consequências imprevisíveis, a não ser que haja provas evidentes confirmadas por entidades adequadas internacionais ‒ e não pelos próprios países ‒ de que o ataque ocorrido na Síria foi um ataque químico, e neste caso o Conselho de Segurança das Nações Unidas teria de tomar uma decisão.

O alegado ataque químico na Síria

Há muito em jogo, as autoridades sírias estão numa posição vencedora e sabem perfeitamente que se usarem armas químicas passariam de uma posição vencedora para uma posição perdedora, assim porque razão usariam armas químicas contra o seu próprio povo que ainda por cima acolheu feliz as forças militares de Assad quando entraram em Douma ou em Ghouta? Não faz sentido pois não? Por outro lado a coligação liderada pelos EUA têm a necessidade de um pretexto para que possam invadir a Síria dentro de um quadro legal e não à margem do Direito Internacional, o que seria bastante grave. Assim se pode perceber a quem interessa que as armas químicas possam ser usadas. Não é assim?


quinta-feira, 12 de abril de 2018

ADVOGADOS INTERNACIONAIS: ATAQUE CONTRA A SÍRIA SERIA ILEGAL

ADVOGADOS INTERNACIONAIS: ATAQUE CONTRA A SÍRIA SERIA ILEGAL 


Nesta declaração divulgada na quarta-feira, um grupo de especialistas em direito internacional adverte que um ataque militar dos EUA contra a Síria seria ilegal, se não em legítima defesa ou com autorização do Conselho de Segurança da ONU. 

Somos profissionais e professores do direito internacional. Sob o direito internacional, ataques militares dos Estados Unidos da América e dos seus aliados contra a República Árabe da Síria, a menos que sejam conduzidos em legítima defesa ou com a aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, são ilegais e constituem actos de agressão. 

A morte ilegal de qualquer ser humano sem justificativa legal, sob todos os sistemas legais, é um assassinato. E um acto de violência cometido por um governo contra outro governo, sem justificativa legal, equivale ao crime de agressão: o crime internacional supremo que acarreta o mal de todos os outros crimes internacionais, como observado pelo Tribunal Militar Internacional de Nuremberg em 1946. 

O uso da força militar por um Estado pode ser usado em autodefesa após um ataque armado de outro Estado, ou com a aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas. De momento, nenhum caso se aplicaria a um ataque dos EUA contra a Síria. 

Nós entendemos o desejo de agir para proteger civis inocentes. Condenamos firmemente toda e qualquer violência contra civis, sejam quais forem os perpetradores. Mas responder à violência ilegal com mais violência ilegal, contornando os mecanismos legais existentes, é um caminho para um mundo sem lei. É uma estrada que leva ao inferno. 

Assim, instamos os Estados Unidos e os seus aliados a se absterem de condutas ilegais contra a Síria. Devemos salientar que, nos últimos anos, como é do conhecimento geral, os Estados Unidos têm rebeldes / insurgentes armados para derrubar o actual governo da Síria. Isso é ilegal sob a lei internacional. 

Em 1986, no caso da Nicarágua, o Tribunal Internacional de Justiça repreendeu os Estados Unidos por armarem e apoiarem contra- milícias e combatentes, e por minarem os portos da Nicarágua, como actos que violavam a Carta da ONU e o direito internacional. Talvez a crise síria, hoje parecesse diferente se os Estados Unidos e os seus aliados tivessem respeitado a lei nos últimos anos. Eles não têm respeitado. 

Nós esforçamo-nos para notar o que deveria ser óbvio: a nossa exigência de que os Estados Unidos e os seus aliados imediatamente se comportam de acordo com as suas obrigações legais internacionais não é uma justificativa, desculpa ou algum tipo de passe livre sobre a investigação e responsabilidade pelas violações legais internacionais cometidas por outros actores que podem estar envolvidos neste triste caso. Mas o nosso ponto de vista é simples: a única maneira de resolver a crise síria é através de compromissos de princípios bem estabelecidos das normas legais internacionais. 

Pedimos aos Estados Unidos que respeitem o seu compromisso com o Estado de Direito Internacional e busquem resolver as suas disputas por meios pacíficos. Esses meios incluem o recurso ao uso de instituições estabelecidas e legítimas destinadas a manter a paz e a segurança internacional, como o Conselho de Segurança da ONU ou o Tribunal Internacional de Justiça. A acção unilateral é um sinal de fraqueza; o recurso à lei é um sinal de força. Os Estados Unidos devem voltar atrás em se tornarem o mesmo monstro que agora procura destruir. 



Inder Comar, diretor executivo da Just Atonement Inc. 


Dr. Ryan Alford, Professor Associado da Faculdade de Direito Bora Laskin da Universidade de Lakehead 


Marjorie Cohn, Professora Emerita, Escola de Direito Thomas Jefferson 


Jeanne Mirer, Presidente da Associação Internacional de Advogados Democratas 


Dr. Curtis FJ Doebbler, professor investigador de direito da Universidade de Makeni, representante da ONU em International-Lawyers.org 


Abdeen Jabara, Advogado de Direitos Civis e Co-Fundador do Comité Americano Anti-Discriminação 


Ramsey Clark, 66 th Procurador-Geral dos Estados Unidos

quarta-feira, 11 de abril de 2018

EUA LANÇARÃO UMA OPERAÇÃO SUSTENTADA NA SÍRIA


EUA LANÇARÃO UMA OPERAÇÃO SUSTENTADA NA SÍRIA 


E agora sobre os contras. Depois dos fracassos no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, conte-os, os EUA voltariam a ficar amarrados na situação confusa da região. Pode precisar ir além das fronteiras da Síria. Por exemplo, a coligação liderada pelos EUA teria que atacar o Hezbollah no Líbano. Há uma grande possibilidade de os EUA e os seus aliados se envolverem numa outra guerra sangrenta prolongada sem uma vitória final à vista.

Por Arkady Savitsky*

O grupo do porta-avião USS Harry S. Truman de ataque juntamente com
outros sete navios de guerra partirá dos EUA para se estacionar no Médio 

Oriente e Europa, de acordo com uma declaração oficial na terça-feira.
Os acontecimentos na Síria tendem a transformar-se num conflito regional. O USS Donald Cook, já estacionado no Mediterrâneo, pode lançar um ataque limitado de mísseis contra a Síria, mas é improvável que uma operação em grande escala seja lançada até que o CSG (grupo do porta-aviões) do USS Harry S. Truman chegue em apenas 10 a 14 dias. O CSG deixou a base em Norfolk a 11 de Abril. O USS Porter, com capacidade de ataque à terra, pode chegar à costa da Síria em breve. O USS Laboon e o USS Carney , mais dois destroyers da classe Arleigh Burke, bem como os submarinos USS Georgia e USS John Warner , estão próximos para adicionar mais poder se for dada uma ordem para atacar. 

A composição do grupo do porta-aviões inclui pelo menos cinco navios de guerra (um cruzador e 4 contratorpedeiros) capazes de realizar ataques de mísseis contra alvos terrestres. Cada destroier ou cruzador dos EUA pode transportar mais de 50 mísseis de ataque terrestre. Poderia ser mais, dependendo da missão. O USS Georgia é um submarino de classe de Ohio (SSGN) e pode transportar 154 mísseis de ataque terrestre. O USS John Warner é um submarino da classe Virginia e pode levar 12 Tomahawks. O grupo de ataque anfíbio USS Iwo Jima pode ser enviado para a Síria em poucos dias no Mar da Arábia. 

O Reino Unido, a França, talvez alguns outros aliados da OTAN e do Médio Oriente, incluindo Israel , participarão de uma operação liderada pelos EUA na Síria. A Força Aérea Britânica pode operar a partir de Chipre. Um petroleiro RAF KC2 já está lá. As conversações entre os EUA, o Reino Unido e a França estão em andamento. As forças armadas sírias estão a tomar medidas preventivas esperando ataques a qualquer momento. 

A embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Hailey, deu a entender que uma operação sustentada, e não um ataque único, é o acordo feito. A enviada diz que a América vai atacar com ou sem uma resolução da ONU. As vozes ouvidas pedem um ataque aos locais de comando e controle da Síria, bem como aos "centros políticos do regime", apesar do facto de que os conselheiros russos poderem estar lá. Isso é algo que os militares dos EUA não fizeram antes. 

Uma proposta para invocar o Artigo 5 do Tratado de Washington para conter Moscovo sem acções militares foi avançada. Sem guerra real, mas a Rússia será considerada um inimigo. As advertências de John Bolton de que uma saída do estado Islâmico permitiria que o presidente sírio Assad permanecesse no poder, com a influência iraniana intacta no Iraque são lembradas para reforçar os pedidos de acção. Em 2015, o recém-nomeado conselheiro de segurança nacional pediu a criação de um estado muçulmano sunita independente no nordeste da Síria e no oeste do Iraque. Agora há uma oportunidade para isso. 

Uma operação multinacional liderada pelos EUA na Síria tornou-se numa ideia predominante em Washington. A 10 de Abril, o presidente Trump adiou a sua visita à América Latina por causa dos acontecimentos na Síria. Pode-se supor que a provocação em Douma foi encenada para fazer o presidente Trump reconsiderar a decisão de enviar forças a favor do confronto com a Rússia, a Síria e o Irão. Aqueles que o fizeram esperavam que o presidente dos EUA mordesse o isco. E ele mordeu mesmo. 

Não há como se livrar de Assad, a não ser que se lance uma invasão internacional. A posição global de Washington recebeu um forte golpe após as operações pouco impressionantes no Iraque e no Afeganistão. Uma intervenção liderada pelos EUA poderia impulsioná-lo se fosse um sucesso. A América apresentaria-se como defensora dos sírios que sofrem com as “atrocidades da ditadura de Assad”. Encabeçar uma coligação internacional ajudaria a restaurar a imagem da América como líder mundial. Esta é a maneira de tornar Washington um amigo dos muçulmanos sunitas que supostamente precisam de protecção de Teerão. 

Invadir a Síria é o caminho para enfraquecer a influência do Irão no Iraque. Tal operação atenderia aos objectivos da política de contenção da Rússia. Uma intervenção poderia unir a força liderada pelos EUA e a Turquia no seu desejo de expulsar Assad. Isso afastaria Ancara de Moscovo, o que não deixaria o seu aliado sírio em apuros. Do ponto de vista de Washington, estes são os pros para reforçar o plano de invadir. 

E agora sobre os contras. Depois dos fracassos no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, conte-os, os EUA voltariam a ficar amarrados na situação confusa da região. Pode precisar ir além das fronteiras da Síria. Por exemplo, a coligação liderada pelos EUA teria que atacar o Hezbollah no Líbano. Há uma grande possibilidade de os EUA e os seus aliados se envolverem numa outra guerra sangrenta prolongada sem uma vitória final à vista. 

Suponha que a intervenção termine como uma operação rápida e vitoriosa em termos puramente militares, e sobre as perspectivas de ganhar a guerra para perder a paz, como no Iraque? Washington será responsável pelo resultado da construção da nação num país dividido por linhas religiosas e étnicas. Os EUA serão repreendidos pelo fracasso e acusados ​​de privar a Síria da oportunidade proporcionada pelo processo de paz de Astana. Invadir a Síria significa lutar contra os iranianos. O objectivo de Washington é incitá-los à rebelião. Uma invasão da Síria poderia fazer com que todos os iranianos se unissem por trás do regime dos aiatolas. 

Finalmente, invadir a Síria é um grande risco, pois a Rússia não ficaria de braços cruzados se as vidas de seus militares estiverem ameaçadas. A possibilidade de choque aumentará imensamente. Mas se a coligação dos EUA aplicar esforços de conflito, não haverá confinamento. Pelo contrário, o mundo verá que Moscovo não pode ser ignorada. Não é agora. Apesar de todas as tensões azedarem, o Chefe do Estado-Maior da Rússia vai encontrar-se com o Comandante Supremo da NATO dentro de alguns dias. Sem dúvida, eles discutirão a Síria. 

Se o Irão se unir e for mais forte, a Rússia continuar a ser um actor a ser enfrentado, a construção da nação fracassará e Assad continuará a lutar para fazer a coligação sofrer baixas, então haverá apenas contras sem prós. E isso acontecerá no contexto de fracassos no Iraque e no Afeganistão. 

Os riscos são grandes demais para fazer a pergunta - porque os EUA deveriam se envolver no conflito distante da Síria? A imaginação não poderia ser considerada uma medida para melhorar a segurança dos EUA e do Ocidente e atingir as metas da política “América Primeiro”. 






Arkady Savitsky é um analista militar baseado em São Petersburgo, na Rússia.
strategic-culture.org


Tradução Paulo Ramires

TRUMP PREPARA-SE PARA ATACAR A SÍRIA

TRUMP PREPARA-SE PARA ATACAR A SÍRIA 
Porta-aviões Harry S. Truman (HSTCSG)

Movimentos recentes indicam que Trump está a prepara-se para tomar uma acção militar contra Assad. 

Por Dave Majumdar* 


destroier de mísseis guiados da classe
 Arleigh Burke, USS Donald Cook (DDG-75)
Os Estados Unidos, juntamente com a França e a Grã-Bretanha, estão a considerar lançar um ataque militar contra o governo sírio por um suposto ataque de armas químicas contra a cidade de Douma. 

Os três governos prometeram retaliar o ataque químico contra os rebeldes sírios, apesar do facto de que é altamente improvável que o Conselho de Segurança da ONU sancione tal operação. É quase certo que a Rússia vete qualquer resolução que autorize a acção militar. Entretanto, os Estados Unidos e a Rússia votaram contra as resoluções do Conselho de Segurança de cada um sobre o estabelecimento de investigações sobre os ataques com armas químicas na Síria. A Rússia também propôs uma segunda resolução ao Conselho de Segurança pedindo que a Organização para a Proibição de Armas Químicas enviasse investigadores à Douma - que também foi vetada. 

Tensão no Conselho de Segurança da ONU 

“Independentemente do resultado da sessão de votação de hoje do CSNU queremos lembrar que ontem a Rússia e a Síria propuseram enviar imediatamente inspectores da OPAQ/OPCW ao suposto local do ataque com AQ em Ghouta oriental”, afirmou num tweet Dmitry Polyanskiy, primeiro representante permanente adjunto da Rússia na ONU. "EUA, Reino Unido e França podem provar que querem apurar a verdade apoiando este movimento." 

Ficou claro na conferência de imprensa que o Conselho de Segurança da ONU não adoptaria a resolução russa, e parece que a administração Trump está fortemente inclinada para aopção militar em conjunto com a França e a Grã-Bretanha em qualquer caso. De fato, o embaixador dos EUA na ONU, Nikki Haley, indicou que os Estados Unidos reagiriam aos ataques químicos na Síria - independentemente do que acontecesse no Conselho de Segurança. 

"A história registrará isso como o momento em que o Conselho de Segurança cumpriu o seu dever ou demonstrou a sua total e completa falha em proteger o povo da Síria", disse Haley ao Conselho de Segurança da ONU. "De qualquer forma, os Estados Unidos vão responder." 

Trump avança com acção militar 

Haley não especificou como os Estados Unidos responderiam exactamente, mas a retórica do presidente Trump indica que Washington está a considerar fortemente uma opção militar. Além disso, o presidente cancelou uma longa viagem planeada para a América do Sul para lidar com a situação na Síria. 

"Estamos a tomar uma decisão sobre o que faremos em relação ao horrível ataque que foi feito perto de Damasco", disse Trump durante uma reunião com altos líderes militares dos EUA a 9 de Abril. " E será aplicada, e será aplicada com força. E quando, eu não vou dizer, porque eu não gosto de falar sobre o timing. 

Trump reiterou que os Estados Unidos têm muitas opções militares para atacar o regime de Assad. Ele também sugeriu que o povo americano só descobriria o ataque contra a Síria depois que os Estados Unidos agirem. "Temos muitas opções, militarmente", disse Trump. "E nós vamos deixa-los saber muito em breve. Provavelmente depois do facto. 

Trump também disse que os Estados Unidos estão a chegar mais perto de aprender definitivamente qual grupo é o responsável pelo ataque de armas químicas. "Estamos a ficar claros sobre isso - quem foi responsável pelo ataque de armas", disse Trump. “Estamos a obter uma clareza muito boa, na verdade. Nós temos algumas boas respostas. 

França e Grã-Bretanha entram no combate 

Embora os Estados Unidos tenham a capacidade de agir sozinhos, os franceses e os britânicos provavelmente unir-se-ão a Washington na condução de um ataque à Síria. Se o ataque químico em Douma for confirmado, os ingleses e franceses prometeram tomar uma acção coordenada com os Estados Unidos. "Devemos nos posicionar contra o uso de armas químicas na Síria", disse a primeira-ministra britânica Theresa May numa conferência de imprensa colectiva na Suécia a 9 de Maio. 

O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que o seu país tomará a decisão de atacar a Síria em coordenação com a Grã-Bretanha e os Estados Unidos numa questão de dias. “O terceiro elemento são as linhas vermelhas definidas pela França. Essas linhas vermelhas, que são partilhadas por outras potências, não têm nada a ver com as discussões que ocorrem no Conselho de Segurança da ONU”, disse Macron ao lado do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, segundo a Reuters. “Neste contexto, continuaremos a troca de informações técnicas e estratégicas com os nossos parceiros, em particular a Grã-Bretanha e a América, e nos próximos dias anunciaremos a nossa decisão”. 

Rússia reitera os seus avisos 

A Rússia, que insiste que o suposto ataque de armas químicas é uma farsa, está a reiterar as suas advertências anteriores de que não vai ficar de braços cruzados se suas forças na Síria forem atacadas intencionalmente ou não. "A Rússia advertiu os representantes dos EUA, tanto publicamente como por canais correspondentes, inclusive militares, sobre sérias consequências que poderiam seguir possíveis ataques [na Síria], se os cidadãos russos forem feridos em tais ataques, acidentalmente ou não", afirmou o representante permanente da Rússia na União Europeia Vladimir Chizhov disse de acordo com a agência estatal de notícias TASS. 

Tensões Altas 

Entretanto, as tensões na região estão a aquecer. As forças russas têm interceptado sinais de aeronaves não tripuladas dos EUA nas últimas semanas. Além disso, a Reuters informou que um avião de guerra russo totalmente armado sobrevoou a fragata francesa Aquitaine. Há também rumores não confirmados de que algumas forças russas foram colocadas em alerta máximo em antecipação a um ataque dos EUA. 

Entrtanto, os Estados Unidos transferiram o destroier de mísseis guiados da classe Arleigh Burke, USS Donald Cook (DDG-75) - armado com mísseis de cruzeiro Tomahawk - para o Mediterrâneo Oriental, para o que poderia ser preparativos para um ataque. Além disso, o Grupo de Ataque do Porta-aviões Harry S. Truman (HSTCSG) partirá de Norfolk na manhã de 11 de Abril, para um desdobramento programado que levará esses navios ao Médio Oriente.




Dave Majumdar é o editor de defesa do The National Interest. 
http://nationalinterest.org/feature/heres-how-trump-could-strike-syria-25310?page=2 


Tradução Paulo Ramires

terça-feira, 10 de abril de 2018

O FIM DO DIREITO INTERNACIONAL?

O FIM DO DIREITO INTERNACIONAL?


Por Thierry Meyssan*

Desejam os Ocidentais acabar com as normas do Direito Internacional ? Foi a interrogação que colocou o Ministro russo dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br), Serguei Lavrov, na Conferência sobre a Segurança Internacional de Moscovo [1].

No decurso dos últimos anos, Washington promoveu o conceito de «unilateralismo». O Direito Internacional e as Nações Unidas deviam apagar-se perante a força dos Estados Unidos.

Esta concepção da vida política tem origem na própria história dos EUA : os colonizadores que vinham para as Américas entendiam viver aí como muito bem lhes parecia e desse modo prosperar. Cada comunidade elaborava as suas próprias leis e recusava a intervenção do governo central nos seus assuntos locais. O Presidente e o Congresso Federal estão encarregues da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, mas, tal como os cidadãos, eles não aceitam uma autoridade acima da sua.

Bill Clinton atacou a Jugoslávia violando assim alegremente o Direito Internacional. George Bush Jr fez o mesmo contra o Iraque e Barack Obama contra a Líbia e a Síria. Donald Trump, quanto a ele, jamais escondeu a sua desconfiança “vis-à-vis” das regras supra-nacionais.

Fazendo alusão à doutrina Cebrowski-Barnett [2], Serguei Lavrov declarou : «Tem-se claramente a impressão que os Norte-americanos buscam manter um estado de caos controlado neste imenso espaço geopolítico [o Próximo-Oriente], esperando utilizá-lo para justificar a presença militar dos EUA na região sem limite de tempo, afim de promover a sua própria ordem do dia».

O Reino Unido tomou, ele também, as suas liberdades com o Direito. No mês passado, acusou Moscovo no «caso Skripal», sem a menor prova, e tentou reunir uma maioria na Assembleia Geral da ONU para excluir a Rússia do Conselho de Segurança. Seria, evidentemente, mais fácil para os Anglo-Saxónicos escrever unilateralmente o Direito sem ter que levar em conta a opinião dos seus contraditores.

Moscovo não crê que Londres tenha assumido, por si mesma, uma tal iniciativa. Considera que é sempre Washington quem dirige o baile.

A «globalização», isto é, a «mundialização dos valores anglo-saxónicos», criou uma sociedade de classes entre Estados. Mas não se deve confundir este novo problema com a existência do direito de veto. Claro, a ONU, embora afirmando a igualdade entre os Estados, independentemente do seu tamanho, distingue no seio do Conselho de Segurança cinco membros permanentes, os quais dispõem do direito de veto. Este directório, dos principais vencedores da Segunda Guerra Mundial, é uma necessidade para que eles aceitem o princípio de um Direito Supranacional. No entanto, quando este directório falha em ditar a Lei, a Assembleia Geral pode substituí-lo. Pelo menos em teoria, já que os Estados menores que votam contra um grande devem aguentar com medidas de retaliação.

A «mundialização dos valores anglo-saxónicos» esquece a honra e valoriza o lucro, de tal modo que o peso das propostas de um Estado mede-se agora unicamente ao nível do desenvolvimento económico do país. No entanto, três Estados conseguiram no decurso dos três últimos anos ser ouvidos com base nas suas propostas e não em função da sua economia: o Irão de Mahmoud Ahmadinejad (hoje em dia em prisão domiciliar no seu próprio país), a Venezuela de Hugo Chávez e a Santa Sé.

A confusão engendrada pelos valores anglo-saxónicos levou ao financiamento de organizações intergovernamentais com dinheiro privado. Com uma coisa levando a outra, os Estados-membros da União Internacional das Telecomunicações (UIT), por exemplo, abandonaram progressivamente o seu poder de promoção em benefício dos operadores privados de telecomunicações, reunidos no seio de um Comité «consultivo».

A «comunicação», novo nome da «propaganda», impõe-se nas relações internacionais. Do Secretário de Estado dos EUA brandindo um ampola de pseudo-antraz até ao Ministro britânico dos Negócios Estrangeiros mentindo sobre a origem do “Novitchok” de Salisbúria, a mentira substituiu-se ao respeito, dando lugar à desconfiança.

A seguir aos primeiros anos após a sua criação, a ONU tentou interditar a «propaganda de guerra», mas hoje em dia são os próprios membros permanentes do Conselho de Segurança quem a ela se dedicam.

O pior aconteceu em 2012, quando Washington conseguiu fazer nomear um dos seus piores falcões, Jeffrey Feltman, como numero 2 da ONU [3]. Desde essa data, as guerras são orquestradas em Nova Iorque a partir da instituição suposta de as prevenir.

A Rússia interroga-se hoje quanto à possível vontade dos Ocidentais em bloquear a ONU. Neste caso, ela criaria uma instituição alternativa, mas, claro, não restaria, assim, mais qualquer fórum para permitir aos dois blocos debater.

Da mesma maneira em que uma sociedade se transforma num caos, onde o homem se torna o lobo do outro homem, quando está privada do Direito, do mesmo modo o mundo irá tornar-se num campo de batalha se abandona o Direito Internacional.

Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).

Tradução 
Alva

ATAQUE QUÍMICO EM DOUMA: OUTRO ELO ÀS PROVOCAÇÕES ENCENADAS

ATAQUE QUÍMICO EM DOUMA: OUTRO ELO ÀS PROVOCAÇÕES ENCENADAS 


Por Peter Korzun*

O que aconteceu na Síria a 7 de Abril era esperado. Ao levantar o tom e chorarem sobre o alegado ataque químico em Douma, um subúrbio da capital controlado pelos rebeldes, as autoridades ocidentais e a media não perderam tempo para colocar a culpa no governo de Assad. 

O Departamento de Estado dos EUA emitiu uma declaração dizendo que, ao proteger Damasco, Moscovo violou os seus compromissos internacionais. O governo imediatamente pediu à Rússia que cessasse o seu apoio ao governo da Síria. O presidente Trump quer uma acção internacional. Como de costume, poucas pessoas no Ocidente levantaram as suas vozes para enfatizar a necessidade de investigar primeiro e tirar conclusões depois. 

Chama-se a atenção que as advertências de Moscovo sobre uma provocação com AQ estava a ser preparada para conter as crescentes esperanças de um acordo pacífico na Síria pareçam esquecidas! O Ministério da Defesa distribuiu a informação de que os líderes da Jabhat al-Nusra e do Exército Livre da Síria (FSA) estavam a preparar falsos ataques químicos em áreas sob o seu controle. Moscovo avisou, mas o Ocidente não deu ouvidos. 

É a mesma velha música e dança. No ano passado, o governo sírio foi culpado por um ataque com gás sarin contra Khan Sheikhun, que provocou um ataque com mísseis de cruzeiro dos EUA contra uma base aérea síria. As classificações de aprovação do presidente americano aumentaram com o resultado. Desta vez, o suposto ataque ocorreu logo após a cimeira Rússia-Turquia-Irão, realizada em Ancara a 4 de Abril, para promover o acordo de paz na Síria. 

Como antes, todas as "evidências" se resumem ao relatório dos Capacetes Brancos e a um vídeo viral que não parece muito convincente. Não houve verificação independente. Os Capacetes Brancos têm uma reputação duvidosa, para dizer o mínimo. A organização é conhecida por perseguir interesses políticos de actores externos. 

Nenhuma explicação foi dada a uma pergunta simples: para quê que o governo da Síria precisaria desse ataque? É vitorioso em todos os lugares e a operação em Ghouta Oriental foi um sucesso. Douma é a última fortaleza remanescente ainda controlada por rebeldes na área e será libertada em breve. É uma questão de alguns dias. As acções de combate do exército são apoiadas pela aviação russa. O que o governo da Síria tem a ganhar usando AQ? Nada. 

Unidades do exército da Síria estão operando em Douma. Ao lançar um ataque, o governo sírio atingiria as suas próprias tropas. Esse argumento parece estar em grande parte ausente nos relatos da media ocidental. O presidente Trump prometeu recentemente retirar as forças americanas da Síria. Porque o Presidente Assad lhe daria um pretexto para renegar a sua palavra? 

Mas a “indignação” mundial contra o presidente Assad, apoiado pela Rússia, beneficia muito os extremistas. Eles estão encurralados e precisam de tempo para respirar e receber apoio. Na verdade, a manipulação levantado no Ocidente é a sua única chance de pelo menos retardar a ofensiva. A vitória de uma força do governo em Douma seria um duro golpe para os grupos terroristas, soando a sentença de morte da rebelião. Parece simples, mas é o que é. Existe toda e qualquer razão para acreditar que o incidente foi encenado por terroristas. 


Logo após o suposto ataque, eles pediram conversas. Os líderes acreditam que esta é a sua oportunidade de uma trégua negociada. Os guerrilheiros mantêm os dedos cruzados, esperando que os membros da OTAN que os apoiam clandestinamente se envolvam de uma forma ou de outra. Em Fevereiro passado, o secretário de Defesa, James Mattis, alertou a Síria de "terríveis consequências" caso realizasse ataques químicos. O presidente francês Macron disse que iria ordenar ataques se as AQ fossem usadas. Vale a pena notar que hoje a equipa de segurança nacional do presidente dos EUA é liderada por uma pessoa conhecida como um falcão feliz defendendo o uso da força como uma ferramenta de política externa. 

Os EUA e a França têm planos de lançar uma operação conjunta na Síria já há algum tempo. Apenas alguns dias atrás, um contingente de forças francesas chegou a Manbij para se aliar aos aliados americanos de lá. Na verdade, uma operação da OTAN foi lançada, deixando a Turquia, membro do bloco de fora. É um segredo aberto que a coligação liderada pelos EUA persegue a meta de dividir a Síria para "conter" a Rússia, pressionar o Irão, conquistar o apoio de países árabes do Golfo Pérsico para impulsionar o lucrativo comércio de armas e reforçar a influência dos EUA e da França no Médio Oriente. 

Seria ingénuo pensar-se que o ataque químico na Síria e o escândalo Skripal são dois eventos separados. Eles são elos na mesma cadeia. Com o caso de envenenamento de espiões sem resultados, a campanha anti-Rússia precisa de um novo ímpeto. O suposto ataque da AQ é um bom pretexto para estimular os esforços. Mas qualquer ataque na Síria representaria um risco para a vida dos militares russos. Isso poderia fazer Moscovo reagir. A coligação liderada pelos EUA está a brincar com o fogo. E como no caso Skripal, a reacção é a mesma - culpar primeiro, esperar pelos resultados da segunda investigação. Apenas mostra que o Ocidente não está interessado na verdade. Está à procura de novos pretextos para prejudicar a reputação da Rússia e, assim, reduzir sua influência global.

Especialista em guerras e conflitos
strategic-culture.org

Tradução Paulo Ramires

domingo, 8 de abril de 2018

O SENTIDO DOS BALCÃS

O SENTIDO DOS BALCÃS 

A União Europeia está a lutar para encontrar o seu caminho, a Rússia está num estado de evolução, e a Turquia está a ser arrastada mais profundamente para o conflito sírio. São desenvolvimentos que moldam indirectamente a ordem global devido ao tamanho e poder dos países envolvidos. Mas há uma parte do mundo que não tem o luxo de ser moldado indirectamente: os Balcãs. A geografia única desta região montanhosa consignou-a a um lugar conturbado na história, tanto por causa das ambições e maquinações de potências externas como por causa da sua própria turbulência. 



O que poderia qualificar-se na Alemanha ou nos Estados Unidos como “instabilidade política” seria visto como contendas do costume nos Balcãs, onde a insegurança e a violência política são muito comuns. Considere os dois exemplos a seguir. Em Montenegro, o mais novo membro da OTAN, dois carros-bomba explodiram nos últimos sete dias e um importante protesto contra a violência está a ser planeado por uma organização não-governamental financiada pelo Ocidente para o fim-de-semana. No Kosovo, poucos dias após as forças do Kosovo terem detido e deportado um funcionário do governo sérvio, o primeiro-ministro demitiu o seu ministro do Interior e o seu chefe de inteligência por deportar seis turcos acusados ​​de envolvimento no movimento Gulenista, que a Turquia culpa pela tentativa de golpe em 2016 sem a sua aprovação. (O presidente kosovar recusou-se a aceitar a demissão do chefe de inteligência e ele permanece no seu cargo. Em outras partes do mundo, episódios como esses podem atrair atenção. Mas nos Balcãs, mal chamam a atenção. 

Os obstáculos históricos da região poderiam ter sido superados se o Ocidente ainda fosse a principal fonte externa de poder. Mas a influência que o Ocidente tem nos Balcãs não é como antes. Em vez disso, uma competição de três vias entre o Ocidente, a Turquia e a Rússia está em curso. 

O Ocidente percebe isso e tentou responder. A OTAN admitiu o Montenegro como membro e quer fazer o mesmo com a Macedónia o mais breve possível. Como parte de um esforço ocidental para isolar a Rússia após o suposto envenenamento por espionagem no Reino Unido, vários países dos Balcãs decidiram expulsar diplomatas russos. Mas esforços como esses podem muito pouco, tarde demais. A UE não pode prometer o mesmo tipo de prosperidade que oferecia no início dos anos 2000, e a Rússia já demonstrou o valor da garantia de segurança dos EUA. 

A Turquia é também um país-chave da OTAN, mas tem uma agenda diferente na região, enraizada tanto nos seus imperativos quanto na sua história como uma grande potência no sul da Europa. Ainda não é poderosa o suficiente para se afirmar nos Balcãs e tem problemas maiores agora na Síria. Ainda assim, a Turquia está lentamente a construir uma influência política e económica na região. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, sentiu-se suficientemente confortável com a posição da Turquia para condenar o primeiro-ministro do Kosovo por demitir o seu ministro do Interior. 

A posição da Rússia na região é mais forte. Mantém uma estreita relação de trabalho com a Sérvia e com a República Srpska, um enclave predominantemente sérvio na Bósnia que está a agir cada vez mais como uma entidade independente. A Sérvia piscou o olho ao Ocidente, mas não pode tolerar a independência de Kosovo, e a necessidade da Rússia de manter a Sérvia como aliada tornou-se ainda mais séria à medida que os países do Intermarium se tornam mais unidos contra Moscovo. 

Os Balcãs não estão à beira do caos. Mas os desenvolvimentos nesta parte do mundo têm que ser entendidos de forma diferente agora no contexto de uma UE desacreditada, uma Rússia fraca e desesperada, e uma Turquia ambiciosa mas incerta. A violência política no Montenegro, a falta de progresso nas relações entre a Sérvia e o Kosovo, os distúrbios sérvios no Kosovo, mudanças no nome e outras intrigas na Macedónia, a deterioração da frágil estrutura política da Bósnia e os grupos de motards circulando descontrolados fazem parte do curso dos Balcãs. Mas o que vale para o curso dos Balcãs pode ter ramificações para o mundo simplesmente em virtude da geografia e história dos Balcãs. A Primeira Guerra Mundial começou nos Balcãs. Isso não quer dizer que a Terceira Guerra Mundial começará lá - é apenas para dizer que toda a acção tem uma reacção igual e oposta, e o contexto estratégico em torno dos Balcãs muda, assim também os Balcãs.

geopoliticalfutures.com

quarta-feira, 4 de abril de 2018

UMA ENCRUZILHADA PERIGOSA: O QUE ESPERAR DAS RELAÇÕES ENTRE A RÚSSIA E O OCIDENTE?

UMA ENCRUZILHADA PERIGOSA: O QUE ESPERAR DAS RELAÇÕES ENTRE A RÚSSIA E O OCIDENTE? 


Por Alex Gorka*

Não, não é um retorno a George Kennan e à sua política de contenção. Parece mais um estrangulamento lento, com uma pressão crescente em todos os lugares. A crispação sobre o caso de envenenamento de Skripal está a ser levantado num momento em que os movimentos pelo Ocidente estão passando quase despercebidos, eclipsados ​​como estão na narrativa da nefasta Rússia. Embora tudo tenha começado na Europa, é feito em grande parte do jeito americano. 

Relatórios recentes reunidos por diferentes fontes levam à conclusão de que uma campanha bem planeada e bem orquestrada está em andamento. As tensões aumentam, os EUA estão pedindo à OTAN para aumentar sua prontidão de combate. Pelo menos 30 mil soldados aliados, acompanhados por mais de 360 ​​aviões de combate e cerca de 30 navios de guerra, devem estar prontos para serem enviados dentro de 30 dias após os comandantes da OTAN colocarem as suas forças em alerta. Esta proposta está a ser debatida, mas a posição dos EUA é geralmente aceite. Não há praticamente nenhuma dúvida de que será aprovado na cimeira da OTAN em Julho. 

Isto ocorre num momento em que os EUA estão a trabalhar em uníssono com a OTAN para tornar mais fácil para essas forças movimentarem-se pela Europa. Foi relatado recentemente que os veículos aéreos não tripulados US MQ-9 Reaper (UAVs) começarão a operar a partir da base aérea Larissa, na Grécia, em Maio. Os drones são destinados a missões de inteligência em áreas sensíveis. Os portos gregos de Alexandroupolis e Thessaloniki atraíram a atenção da América para instalações que poderiam reforçar a presença militar dos EUA no Mar Negro. De acordo com relatos da comunicação social, a OTAN deve ter uma base de helicópteros em Alexandroupolis. 

Depois de expulsar os seus diplomatas russos, a Polónia assinou um acordo de US $ 4,75 biliões para comprar o sistema de defesa antimísseis Patriot dos Estados Unidos. O preço deveria ser muito mais alto. Varsóvia recebeu um desconto porque faz fronteira com a região russa de Kaliningrado, onde os mísseis Iskander superfície-superfície são utilizados. Os 16 lançadores não podem proteger toda a Polónia, mas certamente fornecerão mais protecção às forças dos EUA que estão a chegar para reforçar as tropas da OTAN já instaladas, bem como o sistema americano de defesa antimísseis Aegis Ashore que estará operacional em 2020. A OTAN acredita que o melhoramento do segmento de mísseis Patriot (MSE) para Varsóvia será capaz de contrariar os iskanders russos. 

Na sua carta de 15 de Março, 39 senadores dos EUA pediram que o Tesouro e os Departamentos Estaduais utilizassem todas as ferramentas de sanção à sua disposição para combater o projecto do Nord Stream 2 para levar gás russo barato à Europa. A 29 de Março, o embaixador dos EUA na Rússia, Jon Huntsman, disse à TV russa RBK que ele não pode descartar a possibilidade de que os activos russos na América possam ser apreendidos sobre o caso Skripal. Se Washington for tão longe, será pura ladroagem. E a resposta não demorará a chegar. Essa entrevista ocorreu logo após o parlamento britânico ter anunciado uma investigação sobre alguns esquemas de lavagem de dinheiro supostamente associados à Rússia. O governo do Reino Unido revelou a sua "Doutrina da Fusão" para contrariar o que chama de propaganda russa. 

A política dos EUA de fazer os europeus curvarem-se à sua pressão tem sido amplamente bem sucedida. As principais potências europeias - o Reino Unido, a Alemanha e a França - estão a pressionar a UE a impor novas sanções ao Irão, a fim de persuadir os EUA a não se retirarem do acordo nuclear com o Irão. Esta é uma tentativa de último minuto para manter o acordo em vigor, como é amplamente esperado que o presidente Trump não o certifique em Maio. Os europeus podem submeter-se à pressão dos EUA numa tentativa de apaziguar Washington, mas a Rússia também é parte do acordo, o qual não pode ser descartado sem o consentimento de Moscovo. Adicionar outras condições violará os termos do acordo. Não será suportado internacionalmente. Se as novas sanções ao Irão forem introduzidas unilateralmente pelo Ocidente, a questão se tornará um ponto de discórdia que piorará ainda mais as relações com Moscovo. 

O que devemos esperar? John Bolton, a próxima NSA, já pediu uma mudança de alvos para sanções amplas, que incluiriam o sector do petróleo e gás. A guerra cibernética é outro domínio em que os EUA podem intensificar os seus esforços contra a Rússia. A OTAN está a tomar medidas para reforçar as suas operações cibernéticas. Guerras de informação para ganhar amplo apoio público já estão a ser travadas. A ofensiva diplomática intensificar-se-á. Haverá uma luta para diminuir a influência global da Rússia que cresceu muito recentemente. 

Estas tensões enfraquecem a segurança europeia e podem levar a um acto de equilíbrio à beira do confronto, além de uma corrida belicista que os EUA e os seus aliados da OTAN não estão a ganhar. Os planos para minar a Rússia de dentro falharam. O presidente Putin conta com um apoio esmagador, como demonstrou a recente eleição presidencial. A economia está longe de entrar em colapso. A posição internacional da Rússia fortaleceu-se. Moscovo acaba por marcar outra vitória, com a Índia a anunciar a sua decisão de comprar os sistemas de defesa aérea S-400 Triumph da Rússia, avaliados em mais de US $ 5 bilhões. Os dois países construirão em conjunto quatro fragatas e estabelecerão uma instalação para produzir helicópteros Kamov. A Rússia conseguiu uma vitória na Síria e fortaleceu sua posição no Médio Oriente. 

A Rússia e o Ocidente estão numa perigosa encruzilhada e as tensões continuam a subir. A alternativa é deixar de lado as suas diferenças e lançar um diálogo sobre uma ampla gama de questões. O mundo mudou. Existe uma ampla agenda de segurança que precisa ser abordada. Essa ideia tem sido ventilada por algum tempo, mas sem nenhuma discussão séria. A Rússia tentou lançar um diálogo, mas o Ocidente não conseguiu alcançá-lo no meio do caminho. Há alguns sinais, no entanto, de que nem tudo está perdido. Não é tarde demais para mudar de acções hostis e retórica belicosa para abordagens de negócios para o bem comum.

Analista em diplomacia e defesa
strategic-culture.org

terça-feira, 3 de abril de 2018

NO APÓS GUERRA DO MÉDIO-ORIENTE ALARGADO


NO APÓS GUERRA DO MÉDIO-ORIENTE ALARGADO
O novo equilíbrio do mundo é já bipolar desde que a Rússia revelou o seu novo arsenal nuclear. O mundo deverá ser dividido em dois, não por uma cortina de ferro, mas pela vontade dos Ocidentais, os quais separam já os sistemas bancários e em breve a Internet. Ele deverá repousar na OTAN por um lado e, já não mais no Pacto de Varsóvia, mas, sim na Organização do Tratado de Segurança Colectiva por outro. Numa trintena de anos, a Rússia virou a página do bolchevismo e mudou a sua influência da Europa Central para o Médio-Oriente.


Por Thierry Meyssan

Toda a guerra acaba com vencedores e vencidos. Os dezassete anos que temos vindo a viver no «Médio-Oriente Alargado» não podem constituir excepção [1]. Ora, enquanto Saddam Hussein e Mouammar Kadhafi foram eliminados e a Síria está à beira de vencer, não há nenhum outro maior perdedor do que o povo árabe.

No máximo, pode-se fingir acreditar que o problema está apenas na Síria. E que na Síria, está apenas na Ghuta. E que na Ghuta, o Exército do Islão perdeu. Este episódio não bastará para declarar o fim das hostilidades que assolam a região, destroem cidades inteiras e matam homens às centenas de milhar.

No entanto, a fábula do contágio das «guerras civis» [2] permite aos 130 Estados e organizações internacionais que participaram nas cimeiras de «Amigos da Síria» negar as suas responsabilidades e manter a cabeça levantada. E como eles não aceitarão jamais o seu fracasso, continuarão as suas malfeitorias em outros teatros de operação. Por outras palavras : a sua guerra estará dentro em breve terminada na região, mas ela continuará, no entanto, noutros lugares.

Deste ponto de vista, o que se jogou na Síria desde a declaração de guerra dos EUA —o Syrian Accountability Act—, em 2003, quer dizer há quase 15 anos atrás, moldará a Ordem do mundo que está em vias de se constituir. Com efeito, se quase todos os estados do «Médio-Oriente Alargado» saíram enfraquecidos, ou destruídos, apenas a Síria continua de pé e independente.

Por conseguinte, a estratégia do Almirante Cebrowski visando destruir as sociedades, e Estados, dos países não-globalizados e a extorquir os países globalizados, para que estes possam ter acesso às matérias-primas e às fontes de energia de tal zona, não poderá ser posto em prática pelo Pentágono, nem aqui, nem em qualquer outro sitio.

Sob o impulso do Presidente Trump, as Forças Armadas dos EUA cessam, lentamente, o seu apoio aos jiadistas e começam a retirar-se do campo de batalha. Isso não os torna filantropos, antes realistas, e deverá marcar o fim do seu envolvimento contra os diferentes Estados.

Renovando com a Carta do Atlântico, pela qual Londres e Washington se puseram de acordo, em 1941, para controlar, em conjunto, os oceanos e o comércio mundial, os mesmos Estados Unidos preparam-se para sabotar o comércio do seu rival chinês. Donald Trump reforma os Quads (com a Austrália, o Japão e a Índia) para limitar o os movimentos da frota chinesa no Pacífico. Simultaneamente, ele nomeia como Conselheiro de Segurança, John Bolton, cuja grande realização sob Bush Jr. foi implicar os Aliados na vigilância militar dos oceanos e do comércio global.

O grande projecto chinês das Rotas da Seda (ao mesmo tempo terrestre e marítimo) não deverá concretizar-se nos próximos anos. Tendo Beijing decidido fazer passar as suas mercadorias pela Turquia, mais do que pela Síria, e pela Bielorrússia mais do que pela Ucrânia, «convulsões» irão agora surgir nesses dois países.

Já no século XV, a China tinha tentado reabrir a Rota da Seda construindo, para tal, uma gigantesca frota com 30.000 homens sob o comando do Almirante muçulmano Zheng He. Apesar do acolhimento caloroso desta pacífica armada no Golfo Pérsico, em África e no Mar Vermelho, este projecto falhou. O Imperador mandou queimar a totalidade da frota. A China fechou-se sobre si mesma durante cinco séculos. O Presidente Xi inspirou-se neste ilustre predecessor ao imaginar «a Rota e a Cintura», mas ele poderia ser levado, como o Imperador Ming Xuanzong, a abandonar, ele próprio, a sua iniciativa, quaisquer que sejam as somas investidas pelo seu país —e, portanto, a título perdido.

O Reino Unido, quanto a ele, não abandonou o seu plano de uma nova «revolta árabe», pela qual levara ao Poder na Arábia Saudita os wahhabitas da Líbia, em 1915. No entanto, a «Primavera Árabe» de 2011, que devia consagrar desta vez os Irmãos Muçulmanos, quebrou-se contra a Resistência sírio-libanesa.

Londres pretende aproveitar a «báscula para a Ásia» dos Estados Unidos afim de recuperar a influência do seu antigo império. Apresta-se a deixar a União Europeia e orienta os seus exércitos contra a Rússia. Tentou reunir o maior número possível de aliados atrás de si instrumentalizando o escândalo Skripal, mas tropeçou em várias decepções, entre as quais a recusa da Nova Zelândia em continuar a aceitar o dominion dócil. Ela deverá, logicamente, reorientar os seus jiadistas contra Moscovo, como fez durante as guerras do Afeganistão, da Jugoslávia e da Tchechénia.

A Rússia, a única grande potência a sair vitoriosa do conflito no Médio-Oriente, conseguiu realizar o objectivo da Czarina Catarina II de aceder (acessar-br) ao Mediterrâneo e salvar o berço do cristianismo, sobre o qual está fundada a sua cultura.

Moscovo deverá agora desenvolver a União Económica Euro-Asiática, à qual a Síria é candidata desde 2015. À época, a sua adesão havia sido suspensa a pedido da Arménia, inquieta quanto a fazer entrar no espaço económico comum um Estado em guerra, mas, no entretanto, os dados mudam.


O novo equilíbrio do mundo é já bipolar desde que a Rússia revelou o seu novo arsenal nuclear. O mundo deverá ser dividido em dois, não por uma cortina de ferro, mas pela vontade dos Ocidentais, os quais separam já os sistemas bancários e em breve a Internet. Ele deverá repousar na OTAN por um lado e, já não mais no Pacto de Varsóvia, mas, sim na Organização do Tratado de Segurança Colectiva por outro. Numa trintena de anos, a Rússia virou a página do bolchevismo e mudou a sua influência da Europa Central para o Médio-Oriente.

Num movimento pendular, o Ocidente, antigo «mundo livre», transforma-se num conjunto de sociedades coercivas e falsamente consensuais. A União Europeia dota-se de uma burocracia mais vasta e mais opressiva do que a da União Soviética. Enquanto a Rússia se torna o campeão do Direito Internacional.

Thierry Meyssan
http://www.voltairenet.org/article200491.html

Tradução
Alva

DESENVOLVIMENTOS SÚBITOS NOS BALCÃS: OS ALBANESES PREPARAM-SE - OS SÉRVIOS MOVEM OS CHARIOTS PARA A FRONTEIRA COM O KOSOVO

DESENVOLVIMENTOS SÚBITOS NOS BALCÃS: OS ALBANESES PREPARAM-SE - OS SÉRVIOS MOVEM OS CHARIOTS PARA A FRONTEIRA COM O KOSOVO



Há desenvolvimentos nos Balcãs, esta é a razão dada pelos movimentos de sérvios e russos até agora. Movimentos que irão surpreender e apanhar muitos desprevenidos. Para 160 000 combatentes armados albaneses, falam fontes sérvias que podem ser mobilizadas recursos em tempos de guerra. 

Tanques sérvios blindados começam a tomar pontos de combate com um hub para o 20 de Abril. 

Assim os dez municípios sérvios em Kosovo-Metohija fundem-se numa entidade estatal. Se as autoridades albanesas os bloquearem, teremos uma guerra directa. 

Toda a informação até agora mostra que os albaneses estão a preparare-se para algo muito grande nos dias de hoje. Esse é o sentimento difundido em muitos serviços de inteligência dos Balcãs. 

As estimativas mostram que, na área onde vive uma grande parte da população armada albanesa, existe a possibilidade de uma força militar de cerca de 160 000 combatentes armados ser destacada em quatro divisões: 

Kosovo, Fyrom, norte da Grécia e Montenegro. 

Eles acreditam que, para derrotar a Sérvia, devem mobilizar todos, já que o Kosovo tem apenas 4 000 homens e 2 500 reservas. Toda a gente tem armas leves e Uzis israelitas, AG36, "Hekler & Hok", M203. 

Há um novo conflito na região do Kosovo-Metohija? 

Esta pergunta está a ser feita por todos, especialmente quando as Forças Especiais Albanesas (ROSU) se esconderam totalmente (a acção das chamadas forças especiais no Kosovo foi ocultada), com a ameaça de armas aterrorizando os sérvios no norte de Kosovo há dois dias atrás. 

Esta situação não é de todo acidental. Podemos também tirar conclusões do recente anúncio emitido pela embaixada dos EUA aos seus cidadãos um dia após o incidente. 

A embaixada informa que se eles se encontrarem nos próximos dias no Kosovo, eles devem ficar atentos a actos terroristas porque “os extremistas concentram-se em pontos turísticos, centros comerciais, bares, locais de culto e outros” alvos fáceis ”. 

Os americanos não especificaram onde conseguiram números tão precisos quanto aos "possíveis" ataques, e não se sabe se essas informações foram partilhadas com outros serviços em países da região. 

Vamos acrescentar a isso toda a reacção do chamado primeiro-ministro do Kosovo, Ramos Haradinaj (ex-acusado de crimes de guerra da UCK) à Sérvia, que disse que "a paciência de Pristina não é ilimitada", comparada às autoridades sérvias. 

O general sérvio Momir Stojanovic, ex-director da Agência de Segurança, diz que as duas coisas (quando se trata de Kosovo) são, sem dúvida… 

a. que as palavras de Haradinaj não devem ser levadas a sério ... e 

b. que não haverá nada no Kosovo se não houver luz verde da América. 

Ele acrescenta que as relações entre os dois principais líderes do Kosovo, Thaci e Haradinaj devem ser levadas em conta. 

“Haradinaj era um senhor da guerra e, considerando que ele é o primeiro-ministro de Kosovo, temo que ele seja guiado por instintos que são perigosos. Da sua localização, pode colocar em risco a situação de segurança. As suas ameaças não são frívolas. Seja o que for que ele diga, é às custas da desestabilização de todo os Balcãs ”, diz Stojanovic. 

Neste caso, deve-se ter em mente que Haradinaj está próximo da Alemanha, mas a questão é se, neste caso, ele ouve algum conselho de Berlim ", enfatiza. 

Por outro lado, o presidente do Kosovo, Hashim Thaci, para quem o general sérvio Stojanović diz que ele é o mesmo extremista ou "cabeça quente" como Haradinaj, diz que ele é um homem da América. 

“Isso dá um grande apoio aos ex-membros do KLA, o que torna muito mais perigoso para a paz e a estabilidade. Por outro lado, os Estados Unidos sabem que a “lista sérvia” (sérvios que pedem a união de 10 municípios numa entidade) não passará sem a intervenção da chamada República do Kosovo. 

“Se a lista sérvia fizer tudo o que realmente está a preparar para o dia 20 de Abril, a minha opinião é que teremos novamente uma crise nova e mais ampla desta vez ”, diz o general sérvio. 

Segundo ele, não devemos ver a atitude da América apenas do ponto de vista dos acontecimentos no Kosovo, mas também do facto de que os interesses americanos e albaneses estão de algum modo nos Balcãs. 

Em todo o mundo, diz ele, os Estados Unidos estão interessados ​​em toda a região da FYROM e, neste contexto, os albaneses são o seu "cavalo de Tróia" nos Balcãs porque os americanos desejam a unificação de todas as terras albanesas. 

“Se houver algum incidente, as células do UCK no Kosovo, que enterraram muitas armas desde os anos 90, serão activadas. 

Os depósitos de armas estão em locais secretos, com listas precisas de membros de unidades individuais, portanto é fácil para eles recuperar a sua posse a qualquer momento. 

Algumas estimativas mostram que 160 000 homens armados podem ser encontrados sob os braços, organizados em quatro divisões: 

Kosovo, FYROM, norte da Grécia e Montenegro. 

Se o Ocidente estima que precisa de uma crise nesta região, pode facilmente activá-los ”, disse Stojanovic. 

De acordo com o plano operacional, os quartéis do norte do Kosovo, os albaneses em Novi Pazar e Raska irão cobrir os membros da ANA estacionados na área de Katsanik onde, juntamente com os militares americanos da base de Bondsteel, controlarão o Kosovo, a FYROM e a Sérvia central. e parte de Prizren. 

Teremos conjuntamente uma Terceira Guerra Balcânica, na qual teremos que levar em conta os turcos que esperam isso e muito mais. 

A maioria de testemunhas albanesas enviaram um vídeo mostrando tanques de combate do Exército sérvio na cidade de Hani e perto de Gedelika para serem transferidos para o sul da Sérvia. 

A Sérvia não confirma a presença de navios de guerra no vale de Preshevo ou em outras partes do sul da Sérvia, na fronteira com o Kosovo, mas o vídeo em si coincide com a informação que chega. 

Ninguém está a falar e não há informações oficiais se se trata de um movimento regular de veículos militares ou a reacção da Sérvia à situação tensa com a República do Kosovo depois de ter sido detido Marko Djuric há poucos dias em Mitrovica.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

A UNIÃO EUROPEIA NUMA ENCRUZILHADA

A UNIÃO EUROPEIA NUMA ENCRUZILHADA



Por Richard Caroll*

Desde a queda da União Soviética até a invasão do Iraque, os Estados Unidos desfrutaram de seu período de unipolaridade. Durante esse tempo, a União Europeia permaneceu segura na protecção militar de seu amigo unipolar. Hoje, com os EUA afectados por enormes deficits, uma dívida de mais de US $ 21 triliões e com a atenção dos EUA cada vez mais concentrada na Ásia, a Europa não pode mais depender dos EUA para protegê-la de uma Rússia ressurgente. É hora de a Europa acabar com sua dependência dos Estados Unidos e se manter por conta própria. Isto só é possível se a União Europeia der o último passo do Plano Schumann e se integrar politicamente. 


A intenção do plano de Schumann 

“A Europa não será feita de uma só vez ou de acordo com um único plano. Será construída através de realizações concretas que em primeiro lugar criará uma solidariedade de facto. A união das nações da Europa requer a eliminação da velha oposição da França e da Alemanha ”- Robert Schumann 

O principal objectivo do Plano Schumann sempre foi a unificação económica e eventualmente política da Europa. Reconhecendo que as duas principais potências continentais na Europa, França e Alemanha, foram a causa básica da guerra na Europa nos últimos 150 anos, o Plano Schumann começou com a formação da Organização para a Cooperação Económica Europeia em 1948, e mais tarde com a Comunidade Europeia do Aço e do Carvão (CECA), criada pelo “Tratado de Paris” em 1951. 

O objectivo do Tratado de Paris era fazer com que a guerra entre a França e a Alemanha… ”não fosse só impensável, mas materialmente impossível”. Ao integrar as economias dos primeiros 6 membros, a CECA lançou as bases para o Mercado Comum, e depois para União Europeia e Parlamento Europeu. 

Hoje, a União Europeia possui 28 membros com origem principalmente na Europa, com uma população de 510 milhões de pessoas e uma economia de US $ 16,3 triliões em 2016. 

De modo geral, e com pouquíssimas excepções, o Plano Schumann obteve grande sucesso, excepto no objectivo final do Plano Schumann; a integração política da Europa para formar os Estados Unidos da Europa. 

Como o Plano Marshall ajudou a criar a União Europeia. 

Um dos aspectos mais notáveis ​​do “Plano Marshall” é que enquanto o estímulo monetário fornecido à Europa ajudou na sua recuperação económica, que já estava bem encaminhada, as exigências que os Estados Unidos impuseram aos países europeus que aceitam a ajuda provaram ser o aspecto mais duradouro e mais eficaz do Plano Marshall. 

Antes da Segunda Guerra Mundial, as economias europeias eram uma colcha de retalhos de tarifas e regras proteccionistas que impediam o livre fluxo de bens e serviços entre os vários países da Europa. A ajuda do Plano Marshall foi condicionada para que as nações europeias tivessem que apagar as barreiras ao comércio e colocar mais “mercado” no mix de económica socialista / de mercado típica das economias europeias anteriores à guerra. 

Ao “apagar” as barreiras comerciais que existiam antes da Segunda Guerra Mundial, a recuperação europeia foi rápida e, em 1952, todas as nações europeias que participaram do Plano Marshall haviam ultrapassado os níveis de produção anteriores a 1938. 

No entanto, enquanto o Plano Marshal era saudado pelo povo americano como um sinal da sua generosidade, na realidade o Plano Marshall era um elemento chave para garantir que as instalações de produção da Europa Ocidental estivessem firmemente na órbita económica, política e militar dos Estados Unidos. A recuperação económica da Europa Ocidental foi completa. Ao trabalhar com a Europa Ocidental de uma só vez após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos ajudaram a Europa a remover as barreiras económicas que haviam restringido a economia anterior da Europa, e essa libertação da economia europeia levou ao Plano Schumann e eventualmente à União Europeia. 

Lidar com as questões de segurança da União Europeia com a Rússia 

A história entre a Rússia e a Europa sempre foi desigual. A Rússia, conquistada à séculos atrás pela invasão mongol, sempre atrasou a Europa no desenvolvimento económico e tecnológico. Com a memórias de três grandes invasões da Rússia pela Europa nos últimos 206 anos, sem contar a Guerra da Crimeia, a Rússia teme e inveja o Ocidente. A Europa desde a Segunda Guerra Mundial teme a Rússia e teme a Rússia de hoje. Somente falando a uma só voz é que a União Europeia pode se aproximar da Rússia de igual para igual e abrir caminho para um entendimento económico e político pacífico e duradouro entre os dois. 

O PIB da Rússia em 2016 foi de US $ 1,3 triliãos. O PIB da União Europeia em 2016 foi de US $ 16,3 triliões. No entanto, embora a economia da União Europeia seja muito maior do que a da Rússia, é a Rússia que detém uma enorme vantagem militar em oposição aos recursos militares atuais da União Europeia. 

Actualmente, os recursos militares da União Europeia são uma colecção de diferentes agências com estruturas de comando múltiplas e sobrepostas. As Forças de Defesa da UE não possuem equipamentos padronizados, ou munições, que apresentem problemas logísticos significativos. 

Os recursos militares russos são muito superiores, com uma estrutura de comando unificada, equipamento padronizado e uma filosofia integrada de combate aéreo / terrestre. 

Uma União Europeia federada seria capaz de reunir os seus recursos militares, com cadeias de comando claras e formais, além de melhorar o controle táctico das suas forças de combate. A padronização das suas armas e equipamentos militares melhoraria significativamente as difíceis questões logísticas que as forças de defesa da UE enfrentam actualmente. 

Ao federalizar, a União Europeia estaria em pé de igualdade com a Rússia, forçando a Rússia a suavizar a sua actual atitude em relação ao Ocidente e pressionando a Rússia a chegar a uma acomodação económica e política com a UE. 

Deve ser mencionado que a Rússia faz fronteira com a República Popular da China, e que esta é uma questão de segurança sensível para a Rússia. 

Os interesses económicos e políticos divergentes dos Estados Unidos e Europa. 

Com os Estados Unidos voltando a sua atenção para um mercado de 4,4 biliões de consumidores na Ásia e a ascensão militar da China, os EUA têm menos recursos económicos e militares para implantar e apoiar na defesa militar da Europa. 

Com a sua economia afectada pelos seus US $ 21 triliões em dívidas, a capacidade dos Estados Unidos de responder convencionalmente a um ataque militar à Rússia é prejudicada, já que os EUA não teriam recursos para enfrentar um conflito militar na Europa e na Ásia simultaneamente. 

A União Europeia, com uma economia de mais de US $ 16 triliões e uma população de 510 milhões, pode e deve assumir o papel primordial da defesa militar da Europa. No entanto, para qualquer força militar europeia ser eficaz, os militares devem responder a apenas um governo. Para que isso aconteça, os líderes da Europa precisam pressionar a sua população para transferir real poder económico e político para o Parlamento Europeu e para o Gabinete do Presidente da União Europeia. 

Os Estados Unidos, por sua vez, devem se comprometer a apoiar o Artigo 5 e a ir em defesa dos países da OTAN se o Artigo 5 for invocado. Os EUA deveriam fornecer unidades de infantaria, blindados e de combate suficientes para apoiar vigorosamente uma Força de Defesa Europeia e estarem dispostos a colocar unidades de combate americanas sob o comando de um Comandante-Chefe Europeu. 

Com os Estados Unidos cada vez mais envolvidos em impedir que a China feche o Mar da China Meridional, e incapazes de responder em duas frentes, e se os líderes da Europa estão decididos a permanecer livres da dominação da Rússia, então os líderes europeus precisam terminar o trabalho de Schumann e Monnet, e permitir que o Parlamento Europeu e o Gabinete do Presidente da União Europeia exerçam o poder que foi criado para o exercer. 

As consequências da não federalização 

Com os Estados Unidos retirando-se lentamente da Europa e concentrando focando a sua atenção na Ásia, os EUA estarão cada vez menos receptivos para subsidiar a defesa militar da Europa. 

Se a Europa é incapaz de lidar com a mudança do equilíbrio de poder no mundo, especialmente na Europa, então, mais cedo ou mais tarde, a Europa cairá sob o domínio da Rússia. E, na opinião deste observador, a UE mereceria esse destino. 

Richard Caroll 

Richard Caroll é editor sénior do The Geopolitics. Ele escreve regularmente sobre economia, segurança e política. Ele estudou Economia na Universidade do Missouri em St. Louis MO e Artes Liberais no Excelsior College. Richard serviu no exército dos EUA e era especializado em administração e inteligência.

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