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domingo, 7 de abril de 2019

A CRISE NA LÍBIA DEVE-SE À INTERVENÇÃO DA OTAN



Por Adam Garrie*

Marshal Khalifa Haftar, May 7, 2018 in Benghazi. ABDULLAH DOMA / AFP
Para todos os efeitos, a Líbia deixou de funcionar como um estado normal desde que a OTAN interveio para derrubar o governo internacionalmente reconhecido em 2011. Desde então, a Líbia não conseguiu produzir um governo que fosse capaz de unificar a nação, mas sim para rivalizar com regimes, múltiplas organizações terroristas, traficantes de escravos e gangues de bandidos locais e estrangeiros que lutam pelo controle dos recursos naturais do país.

Actualmente, a região mais ampla ao redor de Trípoli é o local de uma batalha campal entre o Governo do Acordo Nacional (GAN), apoiado pelo Ocidente, e o Exército Nacional da Líbia, liderado por Khalifa Haftar, um marechal de campo apoiado por um governo líbio. cidade oriental de Tobruk. No início desta semana, Haftar ordenou o avanço sobre Tripoli, controlado pelo GAN. O secretário-geral da ONU, António Guterres, esteve na cidade durante os combates com a missão para obter apoio para uma conferência nacional de reconciliação, mas não conseguiu um cessar-fogo. A batalha continua e está a agravar-se.

Áreas sob controlo actual

O que torna as coisas ainda mais bizarras é o facto de Haftar ser, na verdade, um cidadão americano que se mudou para a América em 1990, depois de abandonar as suas funções na Líbia. O actual Exército Nacional da Líbia de Haftar é apoiado pelos principais aliados dos EUA no mundo árabe, incluindo o Egipto, os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita. E, no entanto, o inimigo de Haftar é um governo baseado em Trípoli que recebeu reconhecimento diplomático de Washington e da União Europeia.

Antes da guerra da OTAN contra a Líbia em 2011, a situação era muito diferente. O país estava politicamente unido, estava em paz com seus vizinhos. Tinha boas relações com as nações da África Subsariana, com a maioria das nações asiáticas e com as principais potências europeias.

Depois de 2003, a Líbia e os EUA começaram uma reaproximação aguardada que viu dois inimigos declarados cooperarem contra ameaças terroristas comuns. Mas em 2011, uma OTAN excessivamente zelosa decidiu mudar tudo isso intervindo militarmente num país que teria sido capaz de combater todas e quaisquer provocações através de mecanismos internos legítimos.

Como a Líbia não ameaçava nenhuma potência estrangeira em 2011, a OTAN não tinha interesse em se envolver nos assuntos internos do país. E ainda assim, o fanatismo dos líderes americanos, britânicos e franceses da época levou a uma intervenção militar que até Barack Obama admitiu mais tarde como o maior erro da sua presidência.

Este erro foi aquele que produziu resultados semelhantes às intervenções da OTAN em muitos outros países. O Iraque continua a ser um lugar muito mais perigoso, menos unido e materialmente mais pobre do que era antes da guerra liderada pelos EUA em 2003. As repúblicas da antiga Jugoslávia também tiveram dificuldades desde os anos 90. A Ucrânia e a Síria continuam amargamente divididas em lugares que são materialmente mais pobres e muito mais perigosos do que eram antes que as principais nações ocidentais terem decidido intrometer-se nos seus assuntos internos.

Pode-se, portanto, objectivamente dizer que toda a vez que as principais potências ocidentais usam o seu poder militar ou as forças da intromissão política para mudar as condições internas de um país estrangeiro, as coisas uniformemente pioram.

A Líbia continua a ser um dos principais exemplos de uma nação que foi totalmente devastada pelo intervencionismo da OTAN. Agora, a nova batalha é entre um governo apoiado pelos EUA e um cidadão norte-americano apoiado por importantes aliados dos EUA o que revela o quão inexplicáveis ​​as divisões da Líbia se tornaram após uma guerra totalmente desnecessária da OTAN.

*Adam Garrie é o director do think tank mundial de política e análise do Reino Unido Eurasia Future e co-apresentador do talk show "The History Boys".

Tradução: Paulo Ramires




sábado, 6 de abril de 2019

OTAN JÁ COM 70 ANOS DE IDADE CONTINUA COM A SUA AGRESSIVIDADE

A verdadeira função da OTAN é pelo menos desdobrada em três princípios. Primeiro, dá aos EUA uma desculpa para justificar a sua enorme presença militar na Europa. Em vez de aparecer como uma força de ocupação, o que é, os americanos afirmam-se ser um protector dos aliados contra a Rússia maligna, ou anteriormente a União Soviética. Isso permite que Washington exerça controle político sobre os seus aliados europeus, e especificamente para impedir qualquer relação normalizada com a Rússia. O vice-presidente dos EUA, Mike Pence, repreendeu a Alemanha e a Turquia, membros da OTAN, por ousarem continuar as relações com Moscovo, a propósito do projecto de gás Nord Stream 2 e a compra do sistema russo de defesa aérea S-400 por Ankara. Pence evidenciou a conduta traiçoeira de Berlim e Ancara apenas porque esses dois países nominalmente independentes decidiram fazer negócios com a Rússia.

Fonte: Strategic Culture Foundation on-line journal

Quando a Organização do Tratado do Atlântico Norte foi criada, há 70 anos, em 1949, ela foi formada como um grosseiro instrumento militar para travar a Guerra Fria, uma guerra que os EUA, a Grã-Bretanha e outros aliados europeus tinham empreendido recentemente. O discurso de relações públicas da OTAN sobre “paz e segurança” é apenas uma retórica orwelliana.

Os supostos aliados da União Soviética saíram precipitadamente de um pretenso propósito comum de derrotar a Alemanha nazi durante a Segunda Guerra Mundial para iniciar uma hostilidade contra Moscovo. Já em 1946, o líder britânico britânico Winston Churchill tentava destruir a "cortina de ferro" que descia pela Europa, em linguagem adaptada do maestro de propaganda do Terceiro Reich, Joseph Goebbels. A Guerra Fria que se seguiu duraria quase meio século até que a União Soviética se desmoronou devido às tensões políticas e económicas internas.

O primeiro secretário-geral da OTAN, o britânico Lord Ismay, foi franco na missão da aliança militar. O seu objectivo, disse ele, era "manter a Rússia fora, os americanos dentro e a Alemanha enfraquecida".

É claro que a propaganda ocidental sempre retratou a União Soviética como o “agressor”, alegando que a chamada Ameaça Vermelha tinha planos de conquistar toda a Europa. Isto não mudou muito quando se ouve as afirmações contemporâneas ocidentais de que a Rússia é um agressor. Como no passado, as insinuações actuais que mostram Moscovo como uma força demoníaca têm uma qualidade decididamente vazia, pelo menos para aqueles dispostos a criticar o Ocidente e as “informações” dos média.

Lorde Ismay, talvez inadvertidamente, deixou o gato com o rabo de fora na sua declaração há muitos anos. O objectivo da OTAN era servir como meio para dividir e governar a Europa para Washington e para o seu parceiro britânico servil e sempre alinhado.

Se contrariar a agressão soviética era o verdadeiro propósito da OTAN, como oficialmente reivindicou, então deve-se perguntar por que esta organização ainda existe - cerca de 30 anos após o suposto “império comunista maligno” ter sido dissolvido?

A OTAN é um monstro militar desesperadamente em busca de um propósito. A substituição da Rússia como um inimigo no lugar da União Soviética não abdica de manter o mesmo selo propagandista, mas é por isso que Moscovo continua a ser designada como o “inimigo” oficial - para justificar a existência da OTAN. O bloco militar liderado pelos EUA precisa de inimigos como um drogado precisa de uma solução narcótica.

A verdadeira função da OTAN é pelo menos desdobrada em três princípios. Primeiro, dá aos EUA uma desculpa para justificar a sua enorme presença militar na Europa. Em vez de aparecer como uma força de ocupação, o que é, os americanos afirmam-se ser um protector dos aliados contra a Rússia maligna, ou anteriormente a União Soviética. Isso permite que Washington exerça controle político sobre os seus aliados europeus, e especificamente para impedir qualquer relação normalizada com a Rússia. O vice-presidente dos EUA, Mike Pence, repreendeu a Alemanha e a Turquia, membros da OTAN, por ousarem continuar as relações com Moscovo, a propósito do projecto de gás Nord Stream 2 e a compra do sistema russo de defesa aérea S-400 por Ankara. Pence evidenciou a conduta traiçoeira de Berlim e Ancara apenas porque esses dois países nominalmente independentes decidiram fazer negócios com a Rússia.

Uma segunda função da OTAN é servir como uma extensão do complexo militar-industrial dos EUA e, por sua vez, um importante reforço para o capitalismo corporativo americano, que é totalmente dependente de gastos militares. Quando o presidente Donald Trump critica os aliados europeus, como a Alemanha, por não gastarem o suficiente com militares e com a OTAN, a sua preocupação é que as nações europeias comprem mais armas americanas, como os caças F-35, que são muito caros e super-valorizados. Se a OTAN fosse desmantelada - como deveria ser a partir do seu objectivo obsoleto - então o capitalismo dos EUA sofreria uma grande retracção nos fornecimentos europeus na forma de compras menores de armas.

A ironia aqui é que Trump denegrira anteriormente a OTAN como obsoleta. Na sua irascibilidade, ele está mais correcto do que se possa perceber. Mas Trump, apesar das críticas superficiais, continuou a impulsionar a OTAN com o propósito de aumentar os gastos militares europeus. O que Trump quer dizer com “obsoleto” é que o tributo financeiro passado dos europeus para a economia militarizada dos EUA deve, a partir de então, ser significativamente aumentado. As exigências ultrajantes de Trump estão a incentivar as tensões dentro da OTAN. Numa altura em que as enormes necessidades sociais civis em toda a Europa são negligenciadas devido a “restrições fiscais”, os ultimatos americanos para mais gastos militares estão destinados a serem vistos pela população europeia como um comportamento de um ditador intolerável.

Uma terceira função da OTAN para a sua liderança americana é que ela oferece uma cobertura pseudo-legal do “multi-nacionalismo” ao que de outra forma seria visto como uma flagrante agressão imperialista dos EUA a todo o mundo.

As forças da OTAN ajudaram as guerras ilegais dos EUA no Afeganistão, Iraque, Líbia, Somália, entre outras intervenções. Isto para uma organização que se auto-declara um bastião de segurança e paz.

Há 20 anos, as forças lideradas pelos EUA sob a cobertura da OTAN bombardearam a Sérvia e a sua capital, Belgrado. Isso marcou um ataque crítico ao direito internacional e ao desencadeamento da violência global dos EUA com impunidade.
Washington não poderia realizar as suas agressões sem a cobertura política e legal da OTAN. Jens Stoltenberg, o actual secretário-geral da OTAN, estava em Washington nesta semana a pedir mais agressões contra a Rússia. A figura de proa norueguesa é um guerreiro desavergonhado que está a violar a Carta da ONU para embelezar a sua carreira como uma marioneta americana.

É ainda mais perturbador que esta semana em Washington, os ministros dos Negócios Estrangeiros dos 30 estados membros pertencentes à OTAN tenham adiado para os EUA a solicitação de forças navais para serem enviadas para o Mar Negro "em defesa" da Ucrânia e Geórgia da "agressão russa". Esses dois países fizeram todo o possível para provocar a Rússia. Eles são o instrumento útil para o seu mestre da NATO, e são irresponsáveis ​​o suficiente para instigar uma guerra total. Washington e os seus servidores da OTAN têm a audácia, ou um deficit de inteligência, de chamar uma tal situação tão explosiva de "defesa" contra a Rússia.

A OTAN, ou melhor, os EUA, estão a dar luz verde para montar ainda mais uma agressões contra a Rússia do que aquelas que já fizeram nos últimos 30 anos. Nesse período, o número de membros da OTAN quase duplicou, com o resultado de que o bloco militar está agora na fronteira da Rússia - e ao mesmo tempo alegando, com o pensamento duplo orwelliano, que está a defender a Europa da agressão russa. Como a astucia russa o tivesse feito: a Rússia teve a temeridade de mover a sua fronteira para as forças ofensivas da OTAN.

A segurança global e a paz são coisas muito sérias para se brincar. A manutenção da OTAN, com o seu objectivo agressivo original contra Moscovo ainda intacto, é uma piada grotesca. Uma piada doentia que brinca com os habitantes da Europa, que poderiam ser muito beneficiados com a suspensão do desperdício de mil milhões de dólares anuais para os orçamentos militares. A beligerância gratuita da OTAN em relação à Rússia - baseada em propaganda ridícula e inventada - é uma obscenidade. Esta organização é um dinossauro que de alguma forma sobreviveu ao seu ambiente de Guerra Fria porque os poderes que a controlam de Washington e Londres querem que ela viva para as suas próprias razões egoístas, ideológicas e económicas.

Para o bem da paz mundial, os cidadãos da América do Norte e da Europa devem exigir que a OTAN seja liquidada. Trinta anos tarde demais.


Strategic Culture Foundation on-line journal.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

O JOGO FINAL DO BREXIT

No entanto, tal acordo também limitaria a capacidade do Reino Unido de fazer novos acordos comerciais com outros países. Esse foi um dos principais objectivos do Brexit. Abandonar isso justificadamente irritaria todos aqueles que fizeram campanha pela saída e muitos que votaram nela. Além disso, o Reino Unido teria que cumprir as novas regras e acordos comerciais da UE, mas sem ter voz neles. Longe de “retomar o controle”, como exigiam os defensores da saída, o Reino Unido teria menos influência sobre muitas coisas do que agora.


Por Peter Kellner*

Todas as manhãs, os editores do Oxford English Dictionary enviam uma palavra do dia para os seus assinantes. Muitas vezes é uma palavra pouco conhecida com relevância actual. No sábado, a 30 de Março - o dia em que o Reino Unido deveria acordar pela primeira vez para a vida fora da União Europeia - a palavra do dia era “kakistocracia”. É um substantivo do século XIX, que o OED diz que significa “governo constituído pelos cidadãos menos adequados ou competentes de um estado”. O termo deriva do grego kakistos , que significa “pior”.

Seria injusto condenar a todos, ou mesmo a maioria, dos deputados britânicos desta forma. Mas, colectivamente, eles conseguiram levar o seu país à beira do desastre. Os próximos dez dias vão trazer à tona o drama do Brexit, que durante três anos prejudicou a constituição do Reino Unido, ameaçou a sua coesão social, aterrorizou os seus negócios, aterrorizou os seus amigos e encantou os seus inimigos.

Como as coisas estão, o Reino Unido vai sair da UE sem um acordo a 12 de Abril. Há duas maneiras de evitar esse destino. A primeira é o Parlamento votar, afinal, pelo acordo de saída, tendo até agora rejeitado três vezes. Nesse caso, o Reino Unido deixará a UE de forma mais ordenada a 22 de Maio, embora com grandes dúvidas sobre a natureza de longo prazo das relações Reino Unido-UE.

O segundo caminho longe da beira do precipício é o Reino Unido obter uma extensão de membro da UE depois de 22 de Maio. Isso seria feito se a UE concordasse com um pedido do Reino Unido para uma extensão ou o Reino Unido exercer o seu direito de revogar a sua decisão de deixar a UE.

Durante muitos meses, a revogação foi considerada extremamente improvável. No entanto, como a possibilidade de saída sem um acordo cresceu - com os parlamentares incapazes de chegarem a um acordo -, a popularidade da revogação cresceu também. Neste domingo, 31 de Março, o número de signatários de uma petição a favor dessa abordagem ultrapassou os seis milhões. É de longe o maior número de assinaturas que uma petição conseguiu  desde que o site do governo do Reino Unido criou o mecanismo para os eleitores expressarem os seus pontos de vista dessa maneira.

No entanto, a revogação seria um grande risco. Seria suficientemente difícil pedir ao público que votasse novamente num novo referendo - e ainda mais perigoso para os parlamentares decidirem simplesmente retirar a decisão de que 17,4 milhões de pessoas votaram há três anos. A revogação só faria sentido se fosse o início de uma nova discussão pública, levando a um novo referendo ou eleições gerais no próximo ano, para obter um mandato público para o caminho a seguir.

Assim, se os deputados ainda se recusarem a apoiar o acordo de saída, mas quiserem evitar o não-acordo e a revogação, o Parlamento deve procurar uma extensão para o processo Brexit. É um sinal da loucura dos tempos que correm em que as duas ideias principais que emergiram no final da semana para serem realizadas implicam enormes desvantagens.

A primeira são eleições gerais antecipadas. Theresa May decidiria que, com o actual Parlamento num impasse, seria necessário um novo Parlamento com um novo mandato. No entanto, os perigos para os conservadores são imensos. Eleições antecipada significariam um combate com a Sra. May como líder do partido. Ela provou ser uma militante péssima nas últimas eleições, há dois anos, e foi por isso que os conservadores perderam a maioria. Além disso, eleições antecipadas exigiriam que o partido conservador deixasse clara a sua posição sobre o Brexit - e não há posição que não encontre forte resistência interna. As divisões do partido seriam postas a nu.

Ponha essas duas coisas juntas - um Partido Conservador dividido liderado por uma  concorrente fraca - e há uma possibilidade real de que muitos votos Tory se transferirem para o UKIP e / ou para o novo partido Brexit criada pelo ex-líder do UKIP, Nigel Farage. Não admira que muitos Tories tenham sido ameaçados no fim-de-semana para resistirem a eleições antecipadas.

A segunda ideia para quebrar o impasse é o Parlamento votar um acordo que mantenha o Reino Unido permanentemente na União Aduaneira da UE. Isto tem a vantagem de poder resolver o problema do comércio através da fronteira irlandesa; e, de um modo mais geral, permitir que as linhas comerciais e de fornecimento sem restrições entre o Reino Unido e a UE continuem. Pode limitar o custo económico do Brexit .

No entanto, tal acordo também limitaria a capacidade do Reino Unido de fazer novos acordos comerciais com outros países. Esse foi um dos principais objectivos do Brexit. Abandonar isso justificadamente irritaria todos aqueles que fizeram campanha pela saída e muitos que votaram nela. Além disso, o Reino Unido teria que cumprir as novas regras e acordos comerciais da UE, mas sem ter voz neles. Longe de “retomar o controle”, como exigiam os defensores da saída, o Reino Unido teria menos influência sobre muitas coisas do que agora.

Mesmo isso pressupõe que a UE concordaria em manter o Reino Unido na União Aduaneira. O meu palpite é que sim - mas que exigiria um preço elevado: pagamentos contínuos para o orçamento da UE e alinhamento com a maioria das regras actuais e futuras do mercado único (mais uma vez, com o Reino Unido a não dizer nada). Outras ideias para um Brexit “suave”, como o denominado “Mercado Comum 2.0”, sofreriam o mesmo defeito essencial. Salvariam o Reino Unido da ruína económica, mas ao preço da servidão política a muitas das decisões mais importantes da UE.

As desvantagens de eleições gerais ou de um Brexit suave significam que a Sra. May ainda tem uma oportunidade de obter uma maioria no Parlamento esta semana para o seu acordo de saída - talvez acompanhada de uma promessa aos parlamentares de lhes dar uma melhor voz nas negociações nos próximos meses sobre as relações de longo prazo do Reino Unido com a UE.

Alternativamente, o Parlamento pode construir uma maioria para uma proposta combinada: um Brexit suave de algum tipo, sujeito a um “escrutínio de confirmação”. Um referendo daria aos eleitores uma escolha clara: vamos em frente com essa forma de Brexit ou fiquemos na UE afinal de contas. Isso poderia atrair tanto deputados pró-permanentes (que querem um referendo) quanto deputados pró-soft-Brexit (que querem um relacionamento mais próximo com a UE do que o proposto pela Sra. May).

Se nenhuma das propostas for acordada esta semana, as possibilidades de um Brexit sem compromisso na próxima semana crescerão. Eu não acredito que isso aconteça. Os parlamentares opõem-se a isso numa relação de quase quatro para um. Líderes empresariais e sindicatos estão chocados com a ideia. Seria simultaneamente catastrófico, absurdo e evitável. Não posso acreditar que isso acontecerá, embora não tenha a certeza de como isso será evitado. Talvez seja necessária a opção nuclear de revogação - ou um governo nacional de coligação entre partidos, discutido no final de semana pelo ex-primeiro-ministro conservador John Major. Aconteça o que acontecer, a Grã-Bretanha e a UE terão uma fatídica quinzena pela frente.


*Peter Kellner é um académico assistente na Carnegie Europe, onde a sua investigação se concentra no Brexit, no populismo e na democracia eleitoral.

carnegieeurope.eu

quarta-feira, 3 de abril de 2019

A OBSESSÃO ESTRATÉGICA DO PENTÁGONO EM RELAÇÃO À CHINA

O vice de Shanahan “em funções”, o subsecretário David Trachtenberg, reforçou a sua posição quando se dirigiu  ao Comité de Serviços Armados do Senado; disse ele que Washington não renunciará ao seu direito de auto-atribuição de um primeiro ataque nuclear.


Por Pepe Escobar

Bombardeiros nucleares chineses. Mísseis hipersónicos chineses. Porta-aviões com mísseis assassinos chineses. Ciberataques chineses. Armamento anti-satélite chinês. Militarização chinesa do Mar do Sul da China. Espionagem chinesa da Huawei.

Tantas "intenções malignas" chinesas. E nem estamos ainda a falar sobre a Rússia.

Poucas pessoas em todo o mundo estão cientes de que o Pentágono, neste momento, é liderado por um mero secretário de Defesa, Patrick Shanahan.

Isso não impediu que o secretário “em funções” brilhasse no tapete vermelho ao apresentar a proposta de orçamento do Pentágono para 2020 - US $ 718 mil milhões - ao Comité dos Serviços Armados do Senado: a principal ameaça à segurança nacional dos EUA é, nas suas próprias palavras "China, China, China".

Shanahan "em funções" está no comando desde que Jim "Mad Dog" Mattis - o carniceiro original de Fallujah em 2004 - renunciou em Dezembro passado. O seu antigo empregador era a Boeing. O inspector-geral do Pentágono ainda está a investigar se Shanahan estava de fato a agir como um activo comercial da Boeing sem limitações sempre que ele se reunia com o alto comando do Pentágono.

Isso, claro, encaixa-se no padrão clássico de “porta giratória” da Beltway. A Citizens for Responsibility and Ethics, um grupo sediado em Washington, na verdade registou uma queixa em torno do facto de que o Shanahan "em funções" criticou a Lockheed Martin, concorrente da Boeing, em todas as reuniões do alto comando do Pentágono.

Shanahan disse ao Senado: "A China está a modernizar agressivamente os seus militares, sistematicamente roubando ciência e tecnologia, e buscando vantagem militares através de uma estratégia de fusão civil-militar".

Isso inclui o desenvolvimento, por Pequim, de um bombardeiro nuclear de longo alcance que, segundo Shanahan, a colocará ao mesmo nível dos EUA e da Rússia como as únicas potências mundiais que controlam as armas nucleares terra-ar, terra-mar e terra-terra.

É essencial lembrar que Mattis e Shanahan são os principais autores da Estratégia Nacional de Defesa, adoptada pelo governo Trump, que acusa a China de ambicionar pela “hegemonia regional do Indo-Pacífico no curto prazo e pelo afastamento dos Estados Unidos para alcançar a primazia global no futuro ”.

Agora compare com

A visão do coronel Larry Wilkerson ; todo o espectáculo do Pentágono é sobre ofensiva, enquanto a Rússia e a China procuram sempre enfatizar a defesa.

LUTANDO CONTRA O CAVALO DE TRÓIA

Ainda mais esclarecedor é comparar directamente a abordagem do Pentágono com o Estado Maior das Forças Armadas Russas sob o comando do seu chefe, o general Valeriy Gerasimov.

Gerasimov identificou "os EUA e os seus aliados" como empenhados numa guerra permanente de todos os tipos, incluindo "preparação para 'ataques globais', 'batalhas multi-domínio', [e o] uso da tecnologia de 'revoluções coloridas' e 'soft power'. O seu objectivo é a eliminação da soberania de países indesejáveis, minando a sua soberania, mudando as autoridades públicas legitimamente eleitas. Assim foi no Iraque, na Líbia e na Ucrânia. Agora acções semelhantes são observadas na Venezuela.”

Então, é assim, explicado graficamente: a Venezuela, geoestrategicamente, é tão importante para Moscovo quanto a Síria e a Ucrânia.

Gerasimov também detalhou como “o Pentágono começou a desenvolver uma estratégia fundamentalmente nova de guerra, que foi apelidada de 'Cavalo de Tróia'. A sua essência está no uso activo do 'potencial de protesto da quinta coluna' para desestabilizar a situação com ataques simultâneos de armas guiadas com precisão nos alvos mais importantes. ”

Então o argumento decisivo; “A Federação Russa está pronta para se opor a cada uma dessas estratégias. Nos últimos anos, cientistas militares, em conjunto com o Estado Maior, desenvolveram abordagens conceituais para neutralizar as acções agressivas de potenciais oponentes. O campo de investigação da estratégia militar é a luta armada, o seu nível estratégico. Com o surgimento de novas áreas de confronto nos conflitos modernos, os métodos de luta estão cada vez mais a mudar para as aplicações integradas de medidas políticas, económicas, de informação e outras medidas não militares, implementadas com o apoio da força militar ”.

Chame a isso de resposta da Rússia ao Made in USA Hybrid War . Com o maior incentivo de ser uma operação com valor monetário; afinal de contas, o Estado-Maior da Rússia, ao contrário do Pentágono, não está no negócio, para todos os efeitos práticos, de roubar biliões de dólares aos contribuintes durante várias décadas.

Não há dúvida de que a liderança chinesa, que não é exactamente adepta das técnicas de Guerra Híbrida de ponta, está a estudar as estratégias militares russas com detalhes excruciantes.

É claro que tudo isso está intrinsecamente ligado à liderança de Putin. No mês passado, em Moscovo, Rostislav Ishchenko, sem dúvida o principal analista russo da saga ucraniana, explicou-me isto em detalhes:

“Putin não 'domina as elites' ou 'guia a nação'. A sua genialidade está num sentido apurado e intuitivo das necessidades estratégicas da nação (que cria um forte feedback e provoca absoluta confiança da maioria absoluta das pessoas), mas o mais importante é que ele é um mestre do compromisso político, entendendo a importância de manter a paz entre diferentes grupos sociais, económicos e políticos dentro do país, para garantir sua estabilidade, prosperidade e autoridade internacional. Dado que a política externa é sempre uma continuação da política interna, podemos traçar claramente o seu desejo de compromisso na actividade internacional russa. ”

"Putin , Ishchenko acrescentaram, “Não tente suprimir os oponentes, mesmo naqueles casos em que a Rússia é incondicionalmente mais forte e o resultado do confronto estará claramente a seu favor. Putin entende que tanto o perdedor quanto o vencedor perdem no confronto. Portanto, ele sempre oferece um compromisso por um longo tempo, quase até à última oportunidade, mesmo para aqueles que claramente não o merecem, avançando para outras soluções somente depois que o oponente claramente ultrapassou todas as linhas vermelhas possíveis e pode representar uma ameaça para os interesses vitais da Rússia. Um acordo baseado na consideração dos interesses de cada um é sempre mais forte do que qualquer 'vitória' de curto prazo, o que amanhã resultará na necessidade de reafirmar  de novo e de novo o seu estatuto de vencedor. Parece-me que Putin entende bem isso. Daí a eficácia das suas acções. Também pode prestar atenção à equipa dele. Estes são profissionais que aderem a uma variedade de visões ideológicas (ou não aderem a nenhuma). O objectivo principal é que eles realizem o seu trabalho qualitativamente. A capacidade de gerir essa equipe é outra das suas vantagens indubitáveis. Afinal, são pessoas ambiciosas, conscientes do seu profissionalismo e capazes de defender a sua opinião, que nem sempre é igual para todos. No entanto, eles funcionam como um mecanismo único e alcançam resultados realmente positivos”. 

Cuidado com as hordas de Yoda

Esperar o mesmo do complexo de vigilância militar-industrial dos EUA seria inútil.

Na verdade, o vice de Shanahan “em funções”, o subsecretário David Trachtenberg, reforçou a sua posição quando se dirigiu  ao Comité de Serviços Armados do Senado; disse ele que Washington não renunciará ao seu direito de auto-atribuição de um primeiro ataque nuclear.

Nas suas próprias palavras; "Uma política de 'não agir primeiro' iria minar a crença dos aliados dos EUA de que eles estão protegidos."Como se todos os aliados dos EUA estivessem a implorar em uníssono para serem "defendidos" com bombas nucleares dos EUA. No verdadeiro modo de “guerra é paz”, este estado de coisas orwelliano é justificado sob a noção Pentagoniana de “ambiguidade construtiva”.

A Nuclear Posture Review [Revisão da Postura Nuclear] (NPR) de 2018 exibe uma longa lista de causas que podem detonar um primeiro ataque nuclear dos EUA - incluindo um ataque vagamente preocupante à “infraestrutura civil aliada ou parceira”. Mesmo em tratando-se de grosseiras acções falsas, por exemplo, no Mar da China Meridional, poderia ocorrer uma tal situação.

Todos os itens acima estão directamente ligados à morte de Yoda.

Yoda é, naturalmente, o Andrew Marshall, o activo da RAND, que foi director do nefasto Escritório de Avaliação de Redes no Pentágono de 1973 a 2015. 

Previsivelmente, dezenas de think tanks do Atlanticist estão a celebrar o Yoda como o vencedor na elaboração da nova "estratégia" dos EUA contra a China. 

Yoda preparou dezenas de analistas em todo o espectro do complexo de vigilância militar-industrial - incluindo think tanks, universidades e médias tradicionais.

Assim, no final, Yoda fez um body-slam[movimento ilegal] a Bismarckian Henry Kissinger - que continua vivo, mais ou menos (se Marshall fosse o Yoda, Kissinger seria o Darth Vader?) Kissinger sempre aconselhava a uma abordagem de contenção em relação à China, disfarçada como o que ele chamou de “co-evolução”.

Yoda acabou não só com Kissinger, mas também com o "pivô para a Ásia" da administração Obama. Yoda defendeu o confronto incondicional com a China. Não há dúvida de que, mesmo além do túmulo, ele continuará a governar as suas hordas belicista de Beltway.


*Analista, escritor e jornalista geopolítico independente.
Fonte:
strategic-culture.org

Tradução Paulo Ramires




segunda-feira, 1 de abril de 2019

BREXIT: BRITÂNICOS SÓ SABEM DIZER NÃO: TODAS AS QUATRO MOÇÕES REJEITADAS


Foram 4 moções indicativas mais uma vez rejeitadas pelos deputados da câmara dos comuns, todavia as mesmas não têm vinculação legal, o que significa que o governo não as tem de as adoptar, mas terá de procurar uma solução para este imbróglio britânico. Entretanto Theresa May irá reunir o seu gabinete na próxima terça feira.


Proposta C - De Ken Clarke – a favor de uma união aduaneira

O plano da união alfandegária do ex-chanceler Tory Ken Clarke exige que qualquer acordo de Brexit inclua, no mínimo, um compromisso de negociar uma “união alfandegária permanente e abrangente em todo o Reino Unido com a UE”.

A favor: 273 

Contra: 276 

Maioria contra: 3 


Proposta D - De Nick Boles - a favor do mercado comum 2.0

Apresentado pelos conservadores Nick Boles, Robert Halfon e Dame Caroline Spelman, os trabalhistas Stephen Kinnock e Lucy Powell, e por Stewart Hosie do SNP. A proposta propõe a adesão do Reino Unido à Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) e ao Espaço Económico Europeu. Permite a participação continuada no mercado único e um “acordo alfandegário abrangente” com a UE após a Brexit - incluindo uma “declaração do Reino Unido” sobre futuros acordos comerciais da UE - permaneceria em vigor até ao acordo de um acordo comercial mais amplo que garanta a movimentação sem restrições de mercadorias e uma fronteira aberta na Irlanda. 

A favor: 261 

Contra: 282 

Maioria contra: 21 

Proposta E - De Peter Kyle a favor de um escrutínio de confirmação pública

Foi elaborado pelos deputados trabalhistas Peter Kyle e Phil Wilson. Esta moção exigiria um escrutínio público para confirmar qualquer acordo Brexit aprovado pelo parlamento antes da sua ratificação. Esta opção, apresentada pela última vez pela ministra trabalhista Dame Margaret Beckett, teve o maior número de votos, embora tenha sido derrotada por 295 votos contra 268. 

A favor: 280 

Contra: 292 

Maioria contra: 12 


Proposta G – De Joanna Cherry – A favor da revogação do artigo 50.º face ao não-cumprimento do Brexit 

O deputado do SNP, Joanna Cherry une-se a Grieve e a deputados de outros partidos avançando com este plano para procurar uma extensão do processo Brexit , e se isso não for possível, o parlamento escolherá entre o acordo ou a revogação do artigo 50. 

Uma auscultação seria feito para avaliar a futura relação que pode ser aceitável para Bruxelas e ter o apoio maioritário no Reino Unido. 

A favor: 191


Contra: 292 

Maioria contra: 101





Fonte: TheGuardian/BBC




sábado, 30 de março de 2019

BREXIT: THERESA MAY NUM IMBRÓGLIO DUMA SAÍDA SEM SAÍDA

A rejeição do acordo de saída por parte dos parlamentares em Westminster põe o RU em incumprimento legal, o que implica que o Reino Unido terá de deixar a UE a 12 de Abril, situação diferente se o acordo que May negociou com os restantes 27 estados membros tivesse sido aprovado, podendo nesta situação o Brexit ser concretizado até 22 de Maio.

Por Paulo Ramires

Theresa May viu o seu acordo de saída do Reino Unido da UE, negociado durante 18 meses, ser derrotado no parlamento de Westminster por 344 votos contra e 286 votos a favor, conseguindo uma margem de 58 votos, uma margem mais estreita que as anteriores votações, significando isto que a primeira-ministra britânica irá agora pedir a extensão do prazo de saída da UE [Artigo 50.º] de forma a evitar uma saída sem acordo (Hard Brexit). Uma saída sem acordo implicará colocar o Reino Unido fora da união aduaneira com a UE, o que seria um autêntico desastre para as empresas que comercializam a partir do RU, isto porque as relações de comercio do Reino Unido com a UE passariam a ser feitas ao abrigo das regras gerais da Organização Mundial do Comércio, como qualquer outro país do mundo. Mas as consequências serão certamente piores, significando o próprio desmantelamento do Reino Unido com a Irlanda do Norte a sair do Reino Unido, dado que a fronteira desta região é particularmente sensível, tendo as divergências entre unionistas e irlandeses acalmado quando o controlo alfandegário deixou de existir, a Escócia maioritariamente pró-europeia não tardaria a realizar um segundo referendo para sair do Reino Unido e se juntar à UE, e neste cenário se o Brexit vier a acontecer a hipótese da Escócia sair do RU é bem elevada. 

A rejeição do acordo de saída por parte dos parlamentares em Westminster põe o Reino Unido em incumprimento legal, o que implica que o Reino Unido terá de deixar a UE a 12 de Abril, situação diferente se o acordo que May negociou com os restantes 27 estados membros tivesse sido aprovado, podendo nesta situação o Brexit ser concretizado até 22 de Maio. Depois de conhecida a rejeição do acordo na passada Sexta-feira, Donald Tusk, Presidente do Conselho Europeu marcou uma cimeira de emergência do Conselho Europeu para 10 de Abril, esperando que o Reino Unido peça uma extensão maior do prazo de saída, o que significa que o Reino Unido passaria a participar nas eleições para o parlamento europeu a 23-26 de Maio, apesar deste cenário ser no mínimo surrealista é o cenário bem mais provável. 

Mas até ao cenário das eleições para o parlamento europeu e eventualmente eleições gerais no Reino Unido, Theresa May terá de tentar convencer mais deputados para votar um novo acordo e para as próximas votações que se seguem já a 1 de Abril sobre moções indicativas. Neste puzzle de tentar juntar deputados, Theresa May vai ter de tentar aproximar das suas posições os 10 parlamentares do Democratic Unionist Party (DUP) da Irlanda do Norte que apoiam o seu governo mas que receiam o Irish BackStop que pode ariscar a que a Irlanda do Norte se separe do Reino Unido. Nigel Dodds líder do DUP em Westminster afirma mesmo que prefere ficar na UE do que por em perigo a ligação da Irlanda do Norte com o Reino Unido. Mas não haverá Brexit sem BackStop, isto é, um mecanismo legal que garanta que a Irlanda do Norte e a República da Irlanda não fiquem com uma fronteira rígida, ou seja a garantia de que a Irlanda do Norte permanecerá no mesmo espaço aduaneiro que a UE e no mercado comum, ora isto é inaceitável para os unionistas do DUP que vêem este mecanismo legal como um perigo real para as relações com o resto do Reino Unido, ora daqui surge um grande imbróglio político difícil de ser resolvido, assim aparece outro mecanismo o BackStop para o BackStop, uma espécie de garantia para a Irlanda do Norte no caso do primeiro mecanismo falhar. 

Embora Theresa May tenha conseguido o apoio dos votos conservadores, 277, a maior parte dos outros partidos e em particular os trabalhistas, com a excepção de 5 deputados, votaram contra, com Jeremy Corbyn a tentar desgastar a posição da primeira-ministra britânica e a tentar a sua demissão de forma a que se possa realizar eleições gerais, mas Corbyn, não é particularmente um entusiasta da União Europeia, mesmo que admita um novo referendo a sua posição sobre a questão não inclui a opção de integração do Reino Unido na União Europeia, apesar desta posição do líder trabalhista, muitos deputados trabalhistas são particularmente a favor do Remain e esperam uma oportunidade para que haja um novo referendo já que todas as sondagens indicam que os britânicos são agora favoráveis à permanência do Reino Unido na UE, May poderia tentar convencer estes deputados, mas se o fizer perderá o apoio da linha dura do seu partido, os Brexiteers conservadores cada vez mais ansiosos por sair do bloco mesmo a qualquer custo. E se perdesse o apoio desta linha dura, maioritária no seu partido, ariscar-se-ia a perder também a posição de primeira-ministra do Reino Unido. 

Uma coisa é certa, é um enorme imbróglio duma saída sem saída.


quinta-feira, 28 de março de 2019

BREXIT: THERESA MAY OFERECE-SE PARA SE DEMITIR, MAS HÁ UM PROBLEMA

Theresa May anunciou ao seu partido que não permanecerá como primeira-ministro do Reino Unido na próxima etapa do processo Brexit se o seu acordo de saída proposto for aprovado pelo parlamento. Aqui está o que poderemos saber até agora e no futuro sobre este processo.


Tom Quinn* | theconversation.com

Por que a primeira-ministro se sentiu que precisava anunciar que se retiraria?

A primeira-ministro ofereceu esse compromisso como último recurso, na esperança de que isso a ajudasse a aprovar o seu acordo do Brexit pelo parlamento. Depois das derrotas esmagadoras sobre o seu acordo em duas "votações significativas", May foi persuadida de que a única oportunidade de garantir a vitória em qualquer terceira votação seria prometer demitir-se pouco depois.

A maior parte dos deputados conservadores que bloqueiam o seu acordo são os Brexiteers - embora também existam alguns Remainers que querem parar completamente o Brexit. May procurou conquistar os Brexiteers, assim como os 10 deputados do Partido Democrático Unionista (DUP), que mantém o governo em funções.

O DUP e os Tory Brexiteers opõem-se ao mecanismo de “recuo” do acordo de saída para evitar uma fronteira difícil na ilha da Irlanda depois do Brexit. Embora pouco tenha sido feito nessa questão, ficou claro que alguns Brexiteers estavam mais dispostos a considerar apoiar o acordo de retirada do que outros. O preço que eles exigiram foi a renúncia de May depois do acordo ser aprovado. A primeiro-ministro relutantemente chegou a reconhecer que esse curso de acção oferece a única perspectiva de conseguir que o seu acordo passe no parlamento.

Por que os apoiantes do Brexit querem que ela se vá embora?

Os Brexiteers acreditam que May negociou um acordo de saída que é muito mais suave do que poderia ter sido. Alguns decidiram que podem ter que engolir o acordo para evitar perder completamente o Brexit, mas não querem que May lidere a segunda ronda de negociações com a UE. Estas envolverão negociações comerciais e os Brexiteers esperam poder instalar um novo líder que adoptaria uma linha mais rígida com a UE.

No entanto, permanecem muitos Brexiteers conservadores que continuarão a opor-se ao acordo, mesmo após a promessa de May. Cerca de 20 ou 30 ainda podem votar contra.

Esta promessa torna mais provável que ela consiga que o seu acordo passe no parlamento?

A oferta pós-datada de May para renunciar aumentará as oportunidades do governo ganhar uma terceira votação do acordo, mas como as coisas estão, mais uma derrota - embora por uma margem menor - continua a ser o resultado mais provável. Conquistar os Brexiteers é apenas um problema para May. Talvez 20 conservadores pró-Remain ​​continuem a se opor ao acordo. O que encorajou muitos Brexiteers a aproximarem-se de May nos últimos dias - o medo de perder o Brexit completamente - é um incentivo para os Remainers continuarem a opor-se ao governo.

E se ela não conseguir o acordo no parlamento, mesmo assim?

Se o governo perder a próxima votação, muito pode depender da dimensão da derrota. Se for razoavelmente pequena - talvez abaixo de 50 - May poderia ser encorajada a tentar uma quarta votação. Mas se a derrota tiver novamente mais de 100 votos (a primeira votação foi perdida por 230 votos e a segunda por 149), então todas as oportunidades serão perdidas. A oferta de May de renunciar foi expressa condicionalmente se o seu acordo passar, e se isso não acontecer, ela poderá se recusar a demitir-se. No entanto, no meio do subsequente caos de uma derrota pesada, o assunto poderia facilmente ser retirado das mãos de May pelo seu gabinete.

O que sabemos até agora sobre quando a primeira-ministro se irá afastar?

Se o acordo de May passar numa terceira votação, a Grã-Bretanha deixará a UE a 22 de Maio. Presumivelmente, May anunciaria a sua renúncia logo depois disso. Se isso não acontecer, e o governo e o parlamento não conseguirem apresentar um novo plano, a Grã-Bretanha sairá a 12 de Abril sem um acordo. Isso provavelmente também levaria ao fim do mandato de May como primeira-ministro. Se uma extensão longa for solicitada, a data de saída de May é menos certa.

Quem poderia potencialmente substituí-la?

Na corrida para a liderança da escolha do sucessor de May, os deputados irão reduzir os candidatos   a uma lista de dois, que será então submetida perante os 100.000 membros individuais do partido, a maioria eurocéptica. O novo líder provavelmente será um Brexiteer ou um antigo Remainer que tenha se aproximado dos Brexiteers.

Boris Johnson há muito tempo que procura tornar-se primeiro-ministro e ele provavelmente concorreria para suceder a May, tendo retirado-se da corrida à liderança anterior em 2016. O companheiro Brexiteer, Dominic Raab , que, como Johnson, deixou o gabinete por divergências com May sobre o Brexit, é outro candidato importante. Andrea Leadsom, que concorreu em 2016, aumentou a sua reputação desde então e pode voltar a concorrer, tendo agora adquirido mais experiência em frontbench [membro do gabinete sombra com lugar na Casa dos comuns].

Dois antigos Remainers que se aproximaram dos Brexiteers são o Ministro dos Negócios Extrangeiros [Secretary of State for Foreign and Commonwealth Affairs], Jeremy Hunt, e o Ministro do Interior [home secretary], Sajid Javid, ambos muito cotados para concorrer. A questão a saber seria se as bases confiariam num outro Remainer após a experiência com May. Finalmente, Michael Gove é um Leaver que se aproximou um pouco da posição oposta, ajudando a vender o acordo de saída. Haveria dúvidas, no entanto, sobre se os Brexiteers ou Remainers confiariam plenamente nele.

Deveríamos esperar um primeiro-ministro Brexiteer nesse caso?

Tanto Johnson quanto Raab sentiriam-se optimistas em ganhar o apoio das bases na segunda etapa da candidatura à liderança, mas precisariam de apoio suficiente dos parlamentares conservadores[Tory] para chegar às duas últimos fases, e isso poderia ser mais problemático. Johnson em particular é uma figura muito divisiva no grupo parlamentar.

Se o Partido Conservador sente colectivamente que é necessário reunir as várias facções, isso seria contra os "mais fortes" Brexiteers em geral e Johnson em particular. Por outro lado, é provável que excluam os Remainers, como o secretário do trabalho e pensões, Amber Rudd. Com poucas excepções, mais notavelmente Margaret Thatcher, em 1975, os conservadores tendem a escolher líderes que consideram como unificadores - mesmo que nem sempre isso acabe por acontecer uma vez em funções.

Isso significa que haverá  eleições gerais?

A possibilidade de eleições gerais é muito real. Se a terceira votação for uma derrotada[para May], eleições poderão oferecer uma maneira de ganhar uma nova maioria para implementar o acordo de May. Mas haveria sérias dúvidas sobre se os Tories iriam querer que May os levasse a uma outra eleição depois de ela ter perdido a maioria em 2017. Alguns Tory Remainers poderiam votar contra o governo com um voto de confiança para evitar um Brexit sem compromisso.

Alternativamente, os Brexiteers conservadores poderiam fazer o mesmo se o governo quisesse atrasar o Brexit. Se May perdesse o voto de confiança no parlamento, haveria uma janela de duas semanas durante a qual os parlamentares teriam a oportunidade de formar um novo governo. Esse poderia ser um outro governo conservador sob um primeiro-ministro diferente ou um governo envolvendo outros partidos. A formação de um novo governo não teria necessariamente de implicar eleições. Se nenhum novo governo pudesse ser formado, haveria então eleições.


*Professor assistente do Departamento de Governo da Universidade de Essex.

Tradução: Paulo Ramires


quarta-feira, 27 de março de 2019

O CONFRONTO SOCIAL ENDURECE EM FRANÇA

Uma sondagem da Ifop-Atlantico de 20 de Março de 2019 mostra que, enquanto 50% dos franceses esperam reformas, 39% consideram uma revolução necessária; um número duas vezes maior do que nos outros países ocidentais pesquisados. Este apetite revolucionário explica-se tanto pela tradição histórica francesa como pelo bloqueio muito particular de instituições que tornam impossível qualquer solução reformista (as reformas actuais estão sempre ao serviço daqueles que controlam as instituições e não do interesse geral). Desde 2009 (ou seja, após o colapso financeiro de 2008), os Estados Unidos alcançaram um crescimento de + 34%, a Índia de + 96%, a China de + 139%, enquanto União Europeia diminuiu -2%.

Por Thierry Meyssan* | 27-03-2019

Para responder ao movimento dos Coletes Amarelos, o presidente francês Emmanuel Macron anunciou medidas sociais e organizou um debate nacional de três meses.

No final, parece que não só apenas as posições não mudaram, como endureceram.

As medidas sociais efectivamente implementadas têm sido o de aumentar o poder de compra dos trabalhadores mais mal pagos através da reavaliação das licenças e não pela remuneração justa do seu trabalho.

O Grande Debate permitiu que dois milhões de franceses se expressassem, mas foi amplamente ignorado pelos coletes amarelos. Inúmeros tópicos foram discutidos (menor poder aquisitivo das classes baixa e média, ineficiência do estado nas províncias, a política energética), mas absolutamente não a causa da crise. Lembre-se que esta crise está longe de ser apenas uma preocupação dos franceses, afectando todos os países ocidentais desde o colapso da União Soviética e foi particularmente agravada pelo colapso financeiro de 2008 [ 1 ].

Os franceses estavam particularmente conscientes do desmantelamento da classe média, forçados a deixar as cidades e relegados à "periferia urbana". Eles ainda não assimilaram o rápido desaparecimento das classes médias no Ocidente e a sua súbita aparição na Ásia. Portanto, eles ainda não entenderam que os males que os atingem são consequência do sucesso dos actores capitalistas livres de regras políticas. Eles persistem em responsabilizar os super ricos e não os líderes políticos que aboliram as suas restrições.

A deslocalização de empresas ocidentais usando o know-how básico é benéfica para todos, à medida que novas empresas são criadas usando um know-how mais sofisticado. A Ásia não roubou a riqueza do Ocidente, mas beneficiou-se do investimento ocidental. A anomalia é que os políticos ocidentais desistiram de regulamentar esse processo desde o fim da URSS, permitindo não só transferências de tecnologia devido a diferenças no padrão de vida entre os países, mas também para fugir às responsabilidades sociais.

Os coletes amarelos evitaram cuidadosamente a escolha de líderes, deixando a classe dominante sem qualquer interlocutor.

Estes, que inicialmente eram conciliatórios com os manifestantes, endureceram repentinamente quando entenderam que não seria possível resolver a crise sem atingir directamente o seu próprio modo de vida. Aqueles que então ficaram do lado da oligarquia contra o povo lançaram uma repressão policial que causou muitos feridos e inválidos. Assim, eles, deixaram o campo livre para os anarquistas, para que eles perturbassem a ordem pública durante as manifestações e desacreditassem o protesto.

No final destes três meses, a sociedade francesa está mais consciente do problema e mais profundamente fracturada. Duas leituras do período são possíveis:

Ou você considerar que os acontecimentos actuais (aumentando das desigualdades, enfraquecimento das instituições nacionais e a transição dum estado repressivo, em contraposição a um que represente o povo unido) como aqueles que levaram à Segunda Guerra Mundial. 

Ou se considera que esses acontecimentos se assemelham aos que despertou o movimento das comunas livres (o mais famoso é a Comuna de Paris). 

Essas duas interpretações não são contraditórias, na medida em que a Segunda Guerra Mundial também foi uma maneira de responder à crise financeira de 1929 sem ter que se tirar as consequências económicas e sociais.

Uma sondagem da Ifop-Atlantico de 20 de Março de 2019 mostra que, enquanto 50% dos franceses esperam reformas, 39% consideram uma revolução necessária; um número duas vezes maior do que nos outros países ocidentais pesquisados. Este apetite revolucionário explica-se tanto pela tradição histórica francesa como pelo bloqueio muito particular de instituições que tornam impossível qualquer solução reformista (as reformas actuais estão sempre ao serviço daqueles que controlam as instituições e não do interesse geral).

A SITUAÇÃO DA FRANÇA NO MUNDO

Considerando que a classe dominante francesa está mais preocupada em preservar o seu modo de vida do que em resolver a crise, e que a causa dessa crise é transnacional, podemos antecipar que a sua evolução dependerá principalmente de factores externos.

Durante vários anos, um debate levou a classe dominante a um possível declínio em França. Não é possível decidir porque a noção de declínio se refere a valores relativos. No entanto, o que é certo é que o Ocidente em geral e a França em particular foram em grande parte superados por outros actores.

Desde 2009 (ou seja, após o colapso financeiro de 2008), os Estados Unidos alcançaram um crescimento de + 34%, a Índia de + 96%, a China de + 139%, enquanto União Europeia diminuiu -2%.

Durante o mesmo período, os Estados Unidos, que governaram o mundo unilateralmente após o desaparecimento da União Soviética, mantiveram o seu destacamento militar no exterior e a sua capacidade de produção de armas, mas perderam a sua superioridade tecnológica militar. No entanto eles especializaram-se em guerra assimétrica, isto é, na gestão de grupos armados não-estatais que eles armaram e financiaram. No mesmo período, a Rússia, cujo exército pós-soviético estava em farrapos, foi reorganizada e tornou-se, graças a sua investigação científica, a primeira potência tanto em termos de guerra convencional quanto em guerra nuclear.

Em termos de Direitos Humanos e Cidadãos, os Estados Unidos são o único país a praticar assassinatos em massa sem julgamento, enquanto a União Europeia (incluindo o Reino Unido à frente) são os únicos estados a realizar referendos e a desconsiderar as opiniões expressas pelos seus cidadãos. A taxa de encarceramento, que é de 385 prisioneiros por 100.000 habitantes na Rússia, é de 655 nos Estados Unidos, ou 70% a mais.

O mundo de hoje não tem conexão com o de há dez anos. Os Estados Unidos ainda estão na linha da frente no Ocidente, mas não estão mais na vanguarda do resto do mundo. São ultrapassados pela Rússia e China em termos económicos, militares e políticos. Ainda assim, continuamos a assistir a blockbusters de Hollywood, aprendemos inglês e desejamos passar as nossas férias em Nova York como se nada tivesse mudado.

Deste ponto de vista, é ilusório acreditar que uma melhor distribuição de riqueza no Ocidente resolverá o problema como ocorreu nos últimos quinhentos anos. Existe, é claro, um conflito de classes que precisa ser resolvido, mas é muito secundário em relação às mudanças internacionais. Todas as lutas sociais clássicas serão insuficientes porque o Ocidente perdeu a sua proeminência.

COMO DESBLOQUEAR A SITUAÇÃO?

A ultrapassagem ao Ocidente pela Rússia e China não é inevitável. Eles não está aqui para defender a estratégia delineada por Paul Wolfowitz à altura da queda da União Soviética para impedir que os concorrentes dos EUA crescessem mais rapidamente do que eles, mas para dizer que o mundo seria melhor se tudo pudesse se desenvolver livremente. Isso não quer dizer que qualquer desenvolvimento deve estar de acordo com o American Way of Life , porque os recursos do planeta não o permitem, mas incentivar cada civilização para seguir o seu caminho, respeitando o seu próprio ambiente.

Qualquer mudança estrutural só pode ser ordenada por um poder soberano. A única escala de governo que promove o interesse geral é a nação. Portanto, é uma prioridade restaurar a soberania nacional. Ao mesmo tempo, a democracia deve ser instituída dentro do quadro nacional, mas esta questão permanece secundária àquela do serviço do interesse geral.

Para a França, isso significa tanto a emancipação do poder político supranacional como um comando militar estrangeiro, isto é, a saída não necessariamente da União Europeia, mas dos princípios do Tratado de Maastricht, e não da Aliança Atlântica, mas do comando integrado da OTAN.

É somente tornando-se soberana que a França pode desempenhar um papel no conjunto das nações. Por enquanto, afirma defender o multilateralismo onde, na realidade, pratica uma política de bloco, alinhando-se sistematicamente com as posições alemãs.

A primeira decisão a ser tomada deve ser a de pôr fim à livre circulação de capitais. Não se trata de proibir movimentos monetários, questionar o comércio internacional e avançar para a auto-suficiência, mas recuperar o controle da riqueza nacional que deve permanecer no país que os possui produzido.

A segunda decisão deve ser reduzir o âmbito e a duração da propriedade intelectual, patentes e direitos de autor. Descobertas, invenções, criações, ideias em geral não pertencem ao direito de propriedade individual, mas pertencem a todos. Exclusividades e royalties são medidas provisórias que devem ser reguladas com respeito ao interesse geral único.

A terceira decisão será rever os acordos comerciais internacionais, um por um. Não será uma questão de introduzir regras proteccionistas com o risco de interromper o aperfeiçoamento da produção de bens e serviços, mas de equilibrar as trocas. Estes são dois objectivos completamente diferentes.

Os próprios Estados Unidos reivindicaram a sua soberania, renunciando parcialmente à sua supremacia imperial e retornando a uma posição hegemónica. Identicamente, eles reequilibram a sua balança comercial. Por outro lado, eles mantêm os abusos de propriedade intelectual que lhes proporcionam rendas confortáveis.

CONCLUSÃO

As reformas são sempre menos dolorosas que as revoluções. Seja como for, essas mudanças de longo prazo terão que ser feitas de uma maneira ou de outra. A recusa actual da classe dominante francesa não conseguirá impedi-las e só pode esperar prolongar seu conforto desafiando o sofrimento dos outros. Parará o mais tardar quando o sistema, do qual se beneficia no momento, começar a esmagar o seu modo de vida também.
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[ 1 ] " Como o Ocidente devora seus filhos ", por Thierry Meyssan, Rede Voltaire , 4 de dezembro de 2018.

voltairenet.org

Tradução: Paulo Ramires



terça-feira, 26 de março de 2019

RECONHECIMENTO DOS MONTES GOLÃ POR PARTE DE TRUMP IGNORA HISTÓRIA, LEI E ÉTICA



Por Noura Erakat* 
24 de Março de 2019 | Truthout.org

A 22 de Março de 2019, o presidente Donald Trump twittou sem a menor cerimonia que os Estados Unidos reconheceriam a soberania israelita sobre os montes sírios de Golã. Ele explicou que tal soberania “é de importância crítica estratégica e de segurança para o estado de Israel e para a estabilidade regional”. Tudo neste tweet é errado - seja enquanto lei, política e facto histórico.

Os Montes Golã, localizados no sudoeste da Síria, foram anexados por Israel durante a Guerra de 1967, durante os seis dias, Israel também passou a controlar a Península do Sinai, no Egipto, bem como a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. As Nações Unidas, que estavam em sessão durante a guerra, deliberaram sobre o assunto por quase seis meses. A controvérsia girava em torno de saber se Israel deveria ser obrigado a retirar-se dos territórios árabes imediatamente ou se poderia, como o governo de Lyndon B. Johnson pediu, ser capaz de retê-los como consideração em troca de paz permanente. Apesar da oposição síria e palestiniana, em 1967, o Conselho de Segurança aprovou por unanimidade a Resolução 242., que estabeleceu a devolução de terras por paz desejada pelos Estados Unidos e Israel, que declarou que os territórios seriam devolvidos em troca de paz permanente.

A Resolução mostrou-se ineficaz devido à falta de vontade política para estabelecer a paz junto com o desejo de Israel de manter os territórios. O governo israelita desenvolveu o seguinte argumento legal: como não existia soberania na Cisjordânia e em Gaza - o Egipto e a Jordânia nunca tiveram títulos legítimos e os palestinianos não eram soberanos - nenhum país poderia reivindicar melhor título do que Israel. Assim, disseram as autoridades israelitas, a Cisjordânia e Gaza não poderiam ser ocupadas como uma questão de lei e são melhor descritas como "disputadas" em vez de territórios ocupados. Este novo argumento legal permitiu que Israel estabelecesse a presença legal como uma autoridade militar no território palestiniano, aderindo estritamente à Lei de Ocupação, mais notavelmente à sua proibição a fixações civis. Isso permitiu que Israel cumprisse as suas ambições territoriais de estabelecer colonatos, subtraindo as terras palestinianas sob o arcabouço da necessidade militar sem o consentimento do povo palestino.

Ao contrário dos territórios palestinianos, a Península do Sinai e os Montes Golã nunca foram disputados, já que ninguém questionou a soberania egípcia e síria, respectivamente. Ainda assim, mesmo ali, Israel recusou-se a reconhecer o território como ocupado por uma questão de direito. A estrutura estabelecida pela Resolução 242 do Conselho de Segurança das Nações Unidas revelou-se insustentável e, em Outubro de 1973, o Egipto e a Síria lançaram um ataque surpresa a Israel, na esperança de recuperar os seus territórios. Enquanto Israel finalmente prevaleceu na guerra, o Egipto e a Síria ganharam psicologicamente. A sua vitória obrigou a aprovação da Resolução 338 do Conselho de Segurança, que estabeleceu um cessar-fogo e catalisou um processo de paz no Médio Oriente liderado pelos EUA para devolver os territórios árabes em troca de paz. Os palestinianos não seriam reconhecidos como representantes legítimos para negociar o retorno da Cisjordânia e de Gaza até 1991 e a Síria continuava a se opor aos termos das negociações, que legitimavam as reivindicações defensivas de Israel na região e priorizavam a sua rejeição à soberania palestiniana.

Em 1979, Israel e o Egipto, o maior país árabe, concordaram com os Acordos de Camp David, que facilitaram o retorno do Sinai ao Egipto e normalizaram as relações egípcio-israelitas. Significativamente, os Acordos sinalizaram que nenhum exército árabe travaria uma guerra convencional contra Israel, já que o Egipto estabelecera uma paz permanente e a Síria não iria para a guerra sozinha. Dois anos depois, em 1981, Israel unilateralmente anexou os Montes Golã. A administração de Ronald Reagan repreendeu à anexação de Israel e declarou "nula e sem efeito". não menos importante, porque viola o princípio internacional que proíbe a aquisição de território pela força. Desde o início dos anos 90, Israel e Síria envolveram-se em várias negociações de paz sobre os Montes Golã mas cada uma delas desintegrou-se com a recusa de Israel de retornar às linhas de 1967. Fazer isso significaria abandonar o acesso de Israel a uma importante fonte de água no Mar da Galileia, que fornece ao país um terço do seu fornecimento de água potável.

O anúncio do presidente Trump no início desta semana desconsiderando a história, o importante direito internacional, bem como a política de longa data dos EUA.

A administração Trump, junto com Israel, afirmou que os Montes Golã servem a um interesse de segurança, mas isso é claramente falso. Israel estabeleceu 34 colonatos nos Montes Golã e estabeleceu cerca de 20.000 civis israelitas. Se de facto o território é um amortecedor defensivo contra o ataque sírio, então Israel está a usar a sua própria população civil como escudo humano. E se é seguro para os civis morarem lá, então não é um amortecedor defensivo. Mais, Israel mantém quase 167 empresas nos Montes Golã, incluindo o único resort de esqui disponível para os israelitas. Além disso, a Jordânia estabeleceu uma paz permanente com Israel em 1994 e, assim, juntamente com o Egipto, não representa uma ameaça militar; a Síria não travou nenhuma guerra desde 1973; e os dois outros países que historicamente ameaçaram Israel - Líbia e Iraque - foram dizimados em guerras lideradas ou apoiadas pelos EUA. O Hezbollah, que Israel alega ser uma força militar proxy do Irão, nem sequer iniciou a guerra do Líbano, onde está baseada, mesmo após a retirada das forças israelitas do sul do Líbano em 2000. A guerra em grande escala desde então foi iniciada por Israel após o Hezbollah ter realizado um ataque na fronteira para capturar três soldados israelitas que pretendia trocar por prisioneiros de guerra do Hezbollah. Não há ameaça militar credível a Israel na fronteira sul da Síria.

A principal razão para o anúncio dos EUA é doméstica: Trump está a falar para a sua base evangélica, que cobiça Israel como uma questão de profecia e ideologia. Os evangélicos americanos consideram a reunião de um judaísmo global em Israel como o elemento condicional para gerar o Armagedão e o retorno de Cristo. Ideologicamente, eles consideram Israel como a frente mais oriental na chamada guerra dos EUA contra o terrorismo, não apenas os ataques mas, talvez mais significativamente, a migração dos muçulmanos para o Ocidente.

O anúncio é uma benção para o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que está envolvido em acusações de fraude e corrupção apenas a três semanas antes das eleições israelitas. O anúncio de Trump serve como um desvio efectivo dos seus problemas internos e diz a uma base israelita de centro-direita que votar nele significa cumprir as ambições territoriais de Israel. A sociedade israelita considera os Montes Golã como parte de Israel. O anúncio de Trump no auge de uma tensa campanha sinaliza que um voto para Netanyahu é um voto para o homem forte Trump, que desdenha a lei internacional e a diplomacia em favor de uma política de "o poder faz a lei".

O efeito do anúncio de Trump depende da resposta internacional. Trump certamente tem autoridade executiva para reconhecer os Montes Golã como parte da soberania de Israel, mesmo em contravenção à lei internacional, mas o reconhecimento dos EUA não é o equivalente a uma mudança no status quo do território. Até agora tem havido uma ampla denúncia ao anúncio dos EUA, desde as Nações Unidas a vários estados, incluindo o Egipto e a Rússia. Embora essa condenação seja bem-vinda, também não é suficiente. É crucial que a comunidade internacional demonstre a sua oposição na forma de sanções mais coercivas, mas tal resposta é improvável se a aceitação tácita da embaixada dos EUA se mudar para Jerusalém for aceite. De facto, em Maio de 2017, o governo Trump transferiu a sua embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, em contravenção similar à Resolução 242 do Conselho de Segurança, desconsiderando o princípio que proíbe a aquisição de território pela força. Embora 128 países tenham condenado a iniciativa dos EUA numa resolução da ONU, e poucos outros países seguiram o exemplo e mudaram suas embaixadas, Israel não enfrentou consequências por se fixar em Jerusalém Oriental e pela limpeza étnica dos seus habitantes palestinianos. Na verdade, o secretário de estado Mike Pompeo visitou o Muro das Lamentações em Jerusalém Oriental na semana passada - o primeiro para uma autoridade dos EUA - reificando a mudança de política dos EUA numa tentativa similar de apoiar a campanha de reeleição de Netanyahu.

Esta situação abismal destaca a urgência de um movimento global de boicote, desinvestimento e sanções contra Israel, que, pelo menos desde 2005, tem sido um esforço de base para superar a intransigência diplomática. Devemos lembrar que isso não é apenas sobre Israel, mas também sobre as guerras imperiais dos EUA no Médio Oriente, o seu ataque ao internacionalismo (isto é, ameaças contra o Tribunal Penal Internacional e a retirada do Protocolo Climático de Paris), bem como as suas actuais acções estruturais, violência contra minorias, nações indígenas, refugiados e mulheres nos Estados Unidos. Israel faz parte de uma constelação mais ampla que constitui os interesses dos EUA em todo o mundo.

O anúncio de Trump sobre os Montes Golã, não é apenas uma ameaça ao Médio Oriente - é uma ameaça para o mundo inteiro, porque reifica as políticas de supremacia racial e fascismo. A resposta deve ser similar entre as pessoas que se opõem a essas tendências violentas nas suas comunidades e em todo o mundo.


*Noura Erakat é advogada de direitos humanos e professora assistente na George Mason University. Ela é autora de Justice for Some: Law in the Question of Palestine (Stanford University Press, 2019).


O República Digital tem a autorização e permissão para republicação deste artigo do site de Jornalismo Independente, Truthout.org.

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