
Passam hoje 52 anos sobre o 25 de Abril de 1974, a Revolução dos Cravos, um dos momentos mais marcantes da história contemporânea de Portugal mas agora encontra-se em perigo por forças radicais que entretanto surgiram na política portuguesa.
Por Paulo Ramires
Passam hoje 52 anos sobre o 25 de Abril de 1974, a Revolução dos Cravos, um dos momentos mais marcantes da história contemporânea de Portugal. Este acontecimento pôs fim a uma ditadura de quase meio século - 48 anos -, iniciada sob a liderança de António de Oliveira Salazar, no regime do Estado Novo, e posteriormente continuada por Marcelo Caetano.
Durante esse período, Portugal viveu sem liberdade de imprensa, sob censura apertada, com a actuação repressiva da polícia política (PIDE/DGS), ausência de eleições livres e perseguição sistemática de opositores políticos. A partir de 1961, o país foi ainda arrastado para uma guerra colonial prolongada em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, que custou milhares de vidas e gerou um crescente descontentamento, especialmente no seio das Forças Armadas.
Foi neste contexto que surgiu o Movimento das Forças Armadas, que organizou o golpe militar com objectivos claros: pôr fim à guerra, instaurar a liberdade política e modernizar o país. O sucesso da revolução, apoiado pela população que saiu à rua de forma pacífica, abriu caminho ao Processo Revolucionário em Curso (PREC), período decisivo que trouxe a legalização dos partidos políticos, o fim da censura, a independência das colónias e profundas transformações sociais e económicas.
Dessa transição nasceu a democracia que, apesar de imperfeita, se mantém até hoje. No entanto, a sua continuidade não está garantida. Nos últimos anos, têm emergido forças políticas que relativizam ou desvalorizam os valores de Abril, chegando mesmo a revisitar ideias e práticas que remetem para o autoritarismo do passado.
A democracia não é um dado adquirido. Exige vigilância, participação e consciência cívica permanente. Muitos dos direitos conquistados após o 25 de Abril — sociais, laborais e políticos — enfrentam hoje pressões e recuos, muitas vezes decididos longe do escrutínio público.
Num contexto internacional marcado por conflitos e tensões crescentes, assiste-se também ao fortalecimento de correntes políticas de extrema-direita que se articulam com agendas externas e interesses geopolíticos mais amplos. Alianças ideológicas com sectores radicais em países como os Estados Unidos ou Israel contribuem para uma lógica de confronto e instabilidade que pode ter repercussões globais, incluindo em Portugal.
Recordar o 25 de Abril é, por isso, mais do que um exercício de memória — é um acto de responsabilidade. Significa reafirmar os valores da liberdade, da soberania e da justiça social, recusando qualquer tentativa de regressão política ou de erosão dos direitos fundamentais.
A democracia constrói-se todos os dias. E cabe aos portugueses defendê-la.
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