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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

KALININEGRADO: O MUNDO ESTÁ À BEIRA DE UMA GUERRA NUCLEAR ?

As potências europeias agem sob a premissa de que Moscovo está a fazer bluff. Na Cimeira de Defesa e Espaço da Euronews, realizada em Bruxelas, na quarta-feira, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, declarou: "Não levo isto a sério... Toda a gente sabe que [Putin] nunca poderá vencer a NATO".


"O mundo está à beira de uma guerra nuclear? A questão surge directamente dos acontecimentos dos últimos dias, à medida que a guerra dos EUA e da NATO contra a Rússia na Ucrânia escala para um confronto aberto entre potências dotadas de armas nucleares.

A Rússia declarou esta semana estar pronta para utilizar armas nucleares caso a NATO avance com um bloqueio a Kaliningrado, o território russo no Báltico situado entre a Polónia e a Lituânia. O alerta foi emitido através das embaixadas russas na Bélgica, na Grã-Bretanha e na Irlanda, nos dias 28 e 29 de setembro, bem como numa nota diplomática enviada à NATO.

Afirmando que a NATO preparava um "bloqueio aéreo e naval" de Kaliningrado, a embaixada da Rússia na Irlanda declarou: "Não deve haver dúvidas: a Rússia estaria pronta para utilizar todo o seu arsenal, incluindo armas nucleares, para defender o seu território caso os países da NATO tentem isolar a região de Kaliningrado do resto do país."

A porta-voz da NATO, Allison Hart, respondeu na terça-feira, afirmando: "A NATO é uma aliança defensiva e nenhuma das nossas atividades ou exercícios representa um risco para qualquer parte da Rússia". Ela condenou "a ameaça do uso da força, incluindo qualquer retórica nuclear irresponsável".

Esta declaração é categoricamente falsa, uma vez que a aliança da NATO está a armar e a orientar ataques ucranianos em profundidade no território russo. A NBC News noticiou, em outubro de 2025, que a administração Trump iria fornecer a Kiev informações de inteligência para ajudar o país a "atacar instalações de petróleo e gás dentro da Rússia". A 30 de julho, a Comissão Europeia transferiu 3,47 mil milhões de euros para Kiev, incluindo o financiamento para "drones a jato de longo alcance". Na noite de 19 para 20 de setembro, a Ucrânia lançou o seu maior ataque com drones da guerra contra Moscovo e a região circundante. A 28 de agosto, as forças ucranianas atingiram um bombardeiro estratégico Tu-95 — parte das forças nucleares russas — na base aérea de Engels.

Além disso, as "actividades e exercícios" da NATO são dirigidos à própria Kaliningrado. Em meados de agosto, segundo uma fonte militar ocidental citada pela Reuters, dezenas de aviões da NATO realizaram uma operação não anunciada em torno do enclave. A operação demonstrou que seria possível cortar as suas ligações rádio e radar, bem como neutralizar as suas defesas aéreas. Desde janeiro, 14 países europeus passaram a tratar os navios-tanque ligados à Rússia — que alteram as suas bandeiras ou desligam os seus transponders — como "embarcações sem nacionalidade" passíveis de abordagem; a Suécia chegou a apreender uma dessas embarcações em março.

A 11 de Setembro, o ministro dos Negócios Estrangeiros polaco, Radosław Sikorski, comentou Kaliningrado: "Quase não há tropas lá". Propôs que a NATO realizasse exercícios militares "de forma tão agressiva do nosso lado ao ponto de deixar [Putin] incerto sobre o que faremos". Acrescentou ainda: "Não devemos pensar no nosso confronto com a Rússia como algo restrito apenas à Ucrânia".

As potências europeias agem sob a premissa de que Moscovo está a fazer bluff. Na Cimeira de Defesa e Espaço da Euronews, realizada em Bruxelas, na quarta-feira, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, declarou: "Não levo isto a sério... Toda a gente sabe que [Putin] nunca poderá vencer a NATO".

A lógica é a de uma escalada sem tréguas. As potências europeias ligaram a sua política a uma vitória ucraniana. "Putin precisa de sentir que a guerra está a chegar à própria Rússia", declarou na quarta-feira Andrius Kubilius, comissário da Defesa da UE.

Entretanto, a situação militar da Ucrânia deteriora-se. Em Julho, o país interceptou apenas 29 dos 195 mísseis balísticos russos e entra no Inverno sem as defesas aéreas necessárias para proteger a sua rede eléctrica. Cada novo revés será respondido com uma escalada ainda maior: o envio de tropas terrestres ou a abertura de novas frentes de batalha, incluindo Kaliningrado.

Para Moscovo, o que está em causa não podia ser mais crítico. Kaliningrado está para o Báltico como a Crimeia está para o Mar Negro. É a sede da Frota do Báltico e a base dos mísseis russos Iskander, capazes de transportar ogivas nucleares. Desde que a Finlândia e a Suécia aderiram à NATO, o território encontra-se rodeado pela aliança, tanto por terra como por mar.

Sob um aspecto, o exclave é uma questão mais sensível do que a Crimeia. O seu estatuto é reconhecido internacionalmente desde a Conferência de Potsdam, em 1945, quando foi transferido para a União Soviética. Uma ação contra Kaliningrado representaria um ataque a um território cuja soberania russa não é contestada por nenhum governo. A doutrina nuclear da Rússia permite uma resposta nuclear a uma agressão convencional que represente "uma ameaça crítica" à sua integridade territorial.

Nikolai Sokov, antigo diplomata russo e analista nuclear radicado em Viena, disse à Reuters, numa entrevista publicada na quarta-feira: "Eles (a Rússia) esperam mais ações, incluindo um bloqueio do Mar Báltico — algo que, nos cálculos europeus, ficaria logo abaixo do nível de guerra, mas que, para eles, constituiria uma guerra aberta. Vejo um risco de erro de cálculo mútuo".

Um bloqueio à Rússia pode estar "apenas abaixo do nível de guerra nos cálculos europeus", mas, segundo o direito internacional, trata-se de um ato de guerra. A definição de agressão adoptada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1974 inclui "o bloqueio dos portos ou das costas de um Estado pelas forças armadas de outro Estado".

Perante os riscos, é impressionante que não haja apelos a negociações nem conversas sobre um acordo. O único debate nas capitais europeias gira em torno de até onde e com que rapidez a escalada deve avançar.

Esta é a imprudência de potências ocidentais assoladas por uma crise social, económica e política cada vez mais profunda, que impulsionam a guerra sem se importarem com as consequências. O regime de Putin responde com ameaças nucleares.

O contraste com 1962 é gritante. Quando os Estados Unidos e a União Soviética chegaram à beira do conflito devido aos mísseis soviéticos em Cuba, o perigo foi abertamente reconhecido. O presidente John F. Kennedy anunciou a crise na televisão nacional a 22 de outubro e, durante a semana seguinte, o mundo acompanhou cada desdobramento. Kennedy e o líder soviético Nikita Khrushchev trocaram cartas e, temendo as consequências, os dois governos negociaram através dos canais de bastidores até encontrarem uma forma de recuar. Hoje, não há nem reconhecimento do perigo nem negociação.

Existe um enorme abismo entre a dimensão do perigo e a consciência que o público tem a seu respeito. Milhões de pessoas sentem que algo está profundamente errado, mas não conseguem acreditar que os seus governos arriscariam uma guerra nuclear. Na medida em que o perigo é abordado pelos media, surge como uma ameaça inexplicável dos russos, como a "retórica nuclear" de Putin e a "guerra híbrida". Nunca é apresentado como resposta às ações das potências da NATO.

Até à noite de quarta-feira, o *New York Times* e a CNN não tinham noticiado o alerta de Moscovo. Aqueles que estão na comunicação social que comentam o assunto pressionam por uma escalada ainda maior. O *Washington Post* escreveu na segunda-feira: "Uma mensagem melhor por parte de Trump seria dizer que os EUA permitirão que a Ucrânia faça mais no caso de a Rússia não recuar".

Os democratas criticaram o presidente norte-americano, Donald Trump, por não ser suficientemente agressivo em relação à Rússia. A 24 de setembro, 21 senadores democratas declararam que os "apelos pela desescalada" feitos durante a cimeira de Trump com o presidente chinês Xi Jinping "não fazem nada para interromper o fluxo de produtos chineses de duplo uso que mantêm viva a máquina de guerra de Vladimir Putin". Entre os signatários estavam o líder democrata Chuck Schumer, Elizabeth Warren e Adam Schiff.

A guerra na Ucrânia, provocada por três décadas de expansão da NATO até às fronteiras da Rússia, insere-se numa disputa pela hegemonia global travada em todos os continentes. Após mais de quatro anos de guerra, prepara-se uma nova e catastrófica etapa à revelia da população. Os governos que cortam empregos e programas sociais para financiar o rearmamento são os mesmos que conduzem a uma guerra que pode tornar-se nuclear."

(via "The Moon of Alabama") .


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