VEJA COMO PUTIN E XI PODEM SALVAR O OCIDENTE DE SI MESMO
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sexta-feira, 22 de maio de 2026

VEJA COMO PUTIN E XI PODEM SALVAR O OCIDENTE DE SI MESMO

A recente cimeira em Pequim confirmou uma coisa – a era unipolar acabou, provocando outra vaga de pânico nos círculos políticos e mediáticos ocidentais.


Por Ladislav Zemánek, investigador não residente do Instituto China-CEE e especialista do Clube de Discussão Valdai.

A recente cimeira entre Vladimir Putin e Xi Jinping provocou outra vaga de pânico nos círculos políticos e mediáticos ocidentais. Em ambos os lados do Atlântico, a crescente parceria entre a Rússia e a China é habitualmente descrita como uma aliança autoritária que conspira contra o “mundo livre”. As manchetes transbordam de avisos sobre um novo eixo antiocidental. Os think tanks falam em tons apocalípticos. Comentadores liberais evocam uma nova Guerra Fria.

Mas por detrás da histeria encontra-se uma realidade mais simples: a velha ordem mundial está a perder o seu controlo.

A parceria Rússia-China não é uma cruzada contra o Ocidente. É uma revolta contra a unipolaridade – contra a ideia de que uma civilização, uma ideologia e um modelo político devem dominar indefinidamente o planeta inteiro. Moscovo e Pequim não estão a tentar destruir o sistema internacional. Estão a construir alternativas a uma ordem monopolizada durante décadas pelo poder liberal ocidental.

Esta distinção é extremamente importante. O que Putin e Xi promovem é a ideia de um mundo multipolar: um mundo onde civilizações, nações e culturas possam seguir os seus próprios caminhos sem supervisão ideológica de Washington, Bruxelas ou de instituições liberais transnacionais. Longe de ameaçar a Europa e a América, esta transformação poderá, em última instância, salvá-las do seu próprio esgotamento político e civilizacional.

As fissuras na ordem mundial liberal

Quando a Rússia e a China emitiram pela primeira vez uma declaração conjunta sobre multipolaridade em 1997, poucos no Ocidente a levaram a sério. Na época, a União Soviética tinha desaparecido, o poder americano parecia imparável e a globalização liberal parecia destinada a engolir o planeta inteiro. A tese do “fim da história” de Francis Fukuyama capturava o espírito da época. As fronteiras deveriam desaparecer. A soberania nacional era cada vez mais retratada como obsoleta. A globalização acelerou enquanto a NATO avançava constantemente para leste.

No entanto, a Rússia e a China já percebiam a fraqueza escondida por detrás do triunfalismo. Mesmo no auge da dominação americana, ambas as potências compreendiam que um mundo organizado em torno de um único centro ideológico acabaria por gerar instabilidade, arrogância, excesso de poder e reacção adversa. E foi exactamente isso que aconteceu. Guerras intermináveis, intervenções para mudança de regimes, crises financeiras, desindustrialização, migração em massa, censura, fragmentação social e niilismo cultural foram lentamente minando a confiança no próprio modelo liberal.

Quase trinta anos depois, Putin e Xi regressaram à mesma ideia histórica – só que agora a partir de uma posição de força muito maior.

Na sua última cimeira, os dois líderes adoptaram uma nova declaração conjunta sobre a ordem mundial multipolar e a reforma da governação global – um manifesto sobre soberania, segurança partilhada, abertura, diálogo intercivilizacional e democratização das relações internacionais. Mais profundamente, rejeita a crença de que a modernidade liberal representa o único destino legítimo para a humanidade.

É isto que verdadeiramente aterroriza as elites liberais. A visão euroasiática emergente desafia tanto o domínio geopolítico ocidental como os próprios fundamentos ideológicos da ordem pós-Guerra Fria. Insiste que a humanidade é composta por muitas civilizações, e não por uma única civilização universal governada por uma única doutrina moral e política.

Em muitos aspectos, a visão Putin-Xi assemelha-se a um Pluriverso genuinamente schmittiano: um mundo de Estados civilizacionais soberanos, em vez de um mercado global homogeneizado administrado por tecnocratas, ONG e burocracias supranacionais. Neste mundo, não se espera que as nações abandonem as suas tradições, religiões ou identidades históricas em nome do universalismo abstracto. A diversidade entre civilizações é tratada não como um problema a eliminar, mas como uma realidade a respeitar.

Particularmente marcante foi o reconhecimento, na declaração, do papel constitutivo e positivo da religião no desenvolvimento e renovação civilizacional. Num momento em que muitas instituições ocidentais tratam o Cristianismo e a tradição religiosa como vestígios embaraçosos do passado, a Rússia e a China reconheciam a herança espiritual e a continuidade cultural como pilares da coesão social e de um diálogo intercivilizacional significativo.

Esta mensagem terá eco muito para além dos dois países. Em toda a Europa e nos Estados Unidos, milhões de pessoas sentem-se cada vez mais alienadas por economias sem fronteiras, burocracia gestionária, desenraizamento cultural, comunidades em colapso, ansiedade demográfica e o moralismo agressivo da ideologia liberal. Dizem-lhes que a identidade nacional é perigosa, a tradição opressiva, a religião retrógrada e a soberania obsoleta. No entanto, quanto mais a ordem liberal promete libertação, mais fragmentadas e sem raízes se tornam as sociedades ocidentais. Putin e Xi falam precisamente para esse vazio.

Sanções, soberania, sobrevivência

O conflito na Ucrânia acelerou processos históricos que já estavam em curso. Os governos ocidentais impuseram sanções sem precedentes contra a Rússia, esperando o colapso económico e a desestabilização política. Em vez disso, a Rússia adaptou-se. A sua economia diversificou-se, voltou-se para Oriente e sobreviveu ao maior regime de sanções da história moderna.

A China desempenhou um papel decisivo neste desfecho, proporcionando expansão comercial, cooperação financeira mais profunda, aumento das trocas tecnológicas e novos corredores logísticos e comerciais. Previsivelmente, os comentadores ocidentais retrataram isto como uma forma de Pequim facilitar a “agressão russa”. Mas os cálculos da China são muito mais estratégicos.

Os líderes chineses compreendem que as sanções evoluíram de medidas excepcionais para instrumentos de coerção sistémica. A apreensão de activos, a exclusão financeira e a guerra económica criam precedentes que poderão eventualmente ser utilizados contra qualquer Estado que não deseje submeter-se às exigências políticas ocidentais. Assim, o apoio de Pequim a sistemas financeiros alternativos não ajuda apenas a Rússia – é uma defesa da autonomia soberana numa economia global cada vez mais transformada em arma política.

Isto explica a crescente importância dos BRICS, da Organização de Cooperação de Xangai, do comércio em moedas nacionais e das infra-estruturas de pagamento independentes. Estas iniciativas foram concebidas para criar resiliência e flexibilidade estratégica. Até o próprio Ocidente poderia beneficiar deste tipo de sistema. Um mundo em que a interdependência económica não possa ser utilizada tão facilmente como arma poderá, em última análise, revelar-se mais estável do que um governado por monopólios coercivos.

Ironicamente, foi a própria globalização liberal que criou esta fragmentação. As mesmas elites que outrora pregavam mercados abertos e integração global defendem agora censura, sanções, desacoplamento, proteccionismo industrial e conformidade ideológica. A suposta ordem liberal universal revelou-se altamente selectiva, punitiva e abertamente política.

A Rússia e a China simplesmente ajustaram-se à realidade mais rapidamente do que o Ocidente.

O reequilíbrio euroasiático

A importância geopolítica das relações sino-russas não pode ser subestimada. Juntas, a Rússia e a China dominam o núcleo estratégico da Eurásia – a maior massa terrestre do planeta. A sua fronteira comum estende-se mais do que qualquer outra no mundo. Ambas são potências nucleares, membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e civilizações com profunda memória histórica.

A hostilidade entre as duas desestabilizaria todo o continente. A parceria, pelo contrário, cria um novo equilíbrio euroasiático. O que muitos analistas ocidentais ainda não conseguem compreender é que esta parceria não é historicamente anormal. Se corrige alguma coisa, corrige décadas de desequilíbrio.

Após a Guerra Fria, a Rússia voltou-se esmagadoramente para a Europa e para os Estados Unidos. A China entrelaçou-se economicamente com os Estados Unidos no que ficou conhecido como “Chimerica”. Ainda hoje, apesar do aumento das tensões, a relação económica da China com os EUA permanece muito maior do que o seu comércio com a Rússia.

O verdadeiro paradoxo geopolítico reside no facto de as elites ocidentais terem procurado simultaneamente confrontar ambas as potências, esperando que estas não se alinhassem estrategicamente. Ao abrir uma luta em duas frentes contra a Rússia e a China ao mesmo tempo, o establishment liberal acelerou precisamente a parceria euroasiática que mais temia.

A Europa sofreu as maiores consequências. À medida que os governos europeus rompiam laços com Moscovo, a China ganhava acesso privilegiado à energia russa, às matérias-primas, às exportações agrícolas e às rotas comerciais do Árctico. A Europa renunciou voluntariamente a vantagens estratégicas enquanto Pequim ocupava o vazio. Em muitos aspectos, a Europa está a financiar a sua própria marginalização geopolítica.

Mas este processo não é irreversível. Futuros líderes europeus poderão eventualmente perceber que um confronto permanente com a Rússia não serve nem a prosperidade nem a segurança da Europa. Um equilíbrio euroasiático estável baseado na cooperação em vez de cruzadas ideológicas beneficiaria todo o continente.

A multipolaridade não é inimiga do Ocidente

O maior equívoco em torno da multipolaridade é a crença de que ela significa a destruição do Ocidente. Na realidade, poderá representar o único caminho para a renovação ocidental.

Durante décadas, o globalismo liberal esvaziou as próprias bases da civilização ocidental. A soberania nacional deu lugar à burocracia supranacional. A indústria desapareceu. As fronteiras enfraqueceram. As comunidades fragmentaram-se. Intervenções estrangeiras intermináveis drenaram a confiança pública. A atomização cultural substituiu a solidariedade social.

Sob o universalismo liberal, esperava-se que as próprias nações se dissolvessem numa ordem sem fronteiras.

Europeus e americanos comuns rejeitam cada vez mais essa visão. Querem continuidade, identidade, segurança, tradição e soberania efectiva – os mesmos princípios que Moscovo e Pequim agora defendem abertamente no cenário mundial.

Isto não significa que o Ocidente deva imitar a Rússia ou a China. Esse tipo de uniformidade iria contra a própria ideia de multipolaridade. As civilizações devem ser livres para se desenvolverem de acordo com as suas próprias histórias, tradições e estruturas morais, sem imposição ideológica externa.

A Rússia, a China, a Europa e até os próprios Estados Unidos não são inimigos naturais da civilização. Em muitos aspectos, partilham um adversário comum: o globalismo liberal e a classe transnacional que enfraqueceu a soberania, corroeu tradições, destruiu a coesão social e subordinou as nações a dogmas universalistas abstractos.

A cimeira Putin–Xi simbolizou, portanto, a transição acelerada de um mundo organizado em torno da uniformidade ideológica para um baseado na pluralidade civilizacional.

As elites ocidentais poderão resistir a esta transformação durante muitos anos. Mas a História raramente recua. A era unipolar está a terminar, e não foram a Rússia nem a China que a destruíram. O globalismo liberal esgotou-se por dentro.

Um mundo equilibrado de civilizações soberanas, culturas distintas e múltiplos centros de poder não ameaça a Europa nem a América. Poderá oferecer o único caminho viável para restaurar a sua própria confiança civilizacional.



Fonte: RT

Tradução RD

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