O ERRO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS DE PORTUGAL
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domingo, 31 de maio de 2026

O ERRO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS DE PORTUGAL

É um erro vários responsáveis políticos, militares e antigos candidatos presidenciais portugueses continuarem a defender o reforço da NATO e da ligação transatlântica como eixo central da política externa portuguesa. Em primeiro lugar nas relações de Portugal está a UE depois a América Latina e depois a África nomeadamente a CPLP.


Por Paulo Ramires

O mundo atravessa actualmente uma fase de profunda evolução e transformação geopolítica. A ordem internacional que emergiu após o fim da Guerra Fria, caracterizada pela predominância dos Estados Unidos e por uma lógica unipolar, enfrenta hoje desafios crescentes por parte de potências que defendem um sistema multipolar. Entre essas potências destacam-se a China e a Rússia, que procuram promover uma redistribuição do poder internacional e um maior equilíbrio entre os diferentes centros de decisão global.

Contudo, a contestação à unipolaridade não se limita a estas duas potências. Grande parte do chamado Sul Global tem igualmente manifestado a sua insatisfação perante uma ordem internacional que considera excessivamente dominada pelos interesses ocidentais. Países como o Brasil defendem uma maior autonomia estratégica e um sistema internacional mais representativo da diversidade política, económica e cultural do mundo contemporâneo. Por sua vez, o Irão surge como um dos actores mais determinados na oposição à influência norte-americana, contando para isso com uma crescente cooperação política, económica e militar com a China e a Rússia.

Neste contexto de transformação, a União Europeia procura igualmente redefinir o seu papel no sistema internacional. No entanto, o bloco europeu continua dividido quanto ao caminho a seguir. Por um lado, existem Estados e sectores políticos que defendem uma maior autonomia geoestratégica da Europa, reduzindo a dependência relativamente aos Estados Unidos e reforçando a capacidade europeia de agir de forma independente nos principais dossiers internacionais. Por outro lado, subsistem países que continuam a privilegiar uma forte ligação atlântica, considerando a NATO e a aliança com Washington como pilares fundamentais da sua segurança e estabilidade. Portugal encontra-se tradicionalmente entre os defensores desta última posição.

A situação tornou-se ainda mais complexa com o regresso de Donald Trump à Casa Branca. A actual administração norte-americana tem demonstrado uma visão frequentemente crítica em relação à União Europeia, incentivando relações bilaterais com determinados Estados-membros e contribuindo para acentuar algumas divisões internas do bloco. Paralelamente, os Estados Unidos têm vindo a deslocar progressivamente o centro da sua atenção estratégica para a região da Ásia-Pacífico, onde consideram que se encontram os principais desafios do século XXI. A questão de Taiwan, a competição tecnológica e industrial com a China e o controlo das principais rotas comerciais da região assumem actualmente uma importância prioritária para Washington.

Apesar de vários responsáveis políticos e antigos candidatos presidenciais continuarem a defender o reforço da NATO e da ligação transatlântica como eixo central da política externa portuguesa, importa reflectir sobre a evolução do contexto internacional. Portugal deve, naturalmente, manter relações de cooperação com os seus aliados históricos, mas sem ignorar as mudanças estruturais que estão a ocorrer no sistema internacional.

O espaço geopolítico natural de Portugal encontra-se, antes de mais, na União Europeia, onde se situam os seus principais parceiros económicos e institucionais. Em simultâneo, o país possui uma ligação histórica, cultural e linguística privilegiada com a América Latina e com África, regiões que poderão desempenhar um papel cada vez mais relevante no futuro da economia mundial.

Neste sentido, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) deve ser encarada não apenas como um espaço de cooperação cultural e linguística, mas também como uma plataforma de integração económica, comercial e estratégica. O aprofundamento das relações económicas, dos investimentos conjuntos e da cooperação em sectores fundamentais poderia transformar a CPLP num instrumento relevante para a projecção internacional de Portugal e dos restantes Estados-membros.

É precisamente nesta perspectiva que a eventual venda da TAP levanta questões de natureza geoestratégica, trata-se claramente de um erro. Para além da sua dimensão empresarial, a companhia aérea constitui um importante instrumento de ligação entre Portugal, a Europa, África e a América do Sul. A perda do controlo nacional sobre um activo desta importância poderá limitar a capacidade do país de desenvolver uma estratégia autónoma de ligação aos espaços onde possui interesses históricos, culturais e económicos. Por essa razão, a discussão sobre o futuro da TAP não deve ser reduzida a critérios meramente financeiros ou ideológicos, mas integrada numa reflexão mais ampla sobre o posicionamento estratégico de Portugal num mundo em rápida transformação. A sua privatização é um erro como foi referido acima.


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