
Por Philip Giraldi
A semana passada trouxe a habitual mistura de acontecimentos vindos do governo dos Estados Unidos que fazem uma pessoa querer rir ou chorar. No lado do humor, embora com um certo grau de extremo desgosto, estão as mais recentes manobras do megalómano-chefe da Casa Branca para colocar o seu nome e imagem por todo o país e até em mapas que mostram o resto do mundo. A sua última incursão foi deixar, num discurso de resto inofensivo, a sugestão de que poderia vir a renomear o muito falado Estreito de Ormuz em sua homenagem, sugerindo que poderia chamá-lo Estreito de Trump depois de os EUA o retirarem aos iranianos. Isto, claro, surge a par da mudança de nome do Instituto da Paz dos EUA e do Kennedy Center for the Performing Arts para incluir o seu nome e das antecipadas renomeações de locais como o Aeroporto Internacional Dulles, na Virgínia. Está igualmente prevista a construção do enorme Arch’ De’Trump fora do Cemitério Nacional de Arlington. Poder-se-ia também supor que a destruição de partes outrora integrantes da Casa Branca e a construção de um monstruoso salão de baile dourado também virão a ostentar o nome de Trump.
O que torna a renomeação de Ormuz particularmente notável, tal como o planeado Riviera Resort Trump nas ruínas de Gaza, é o facto de não se situar geograficamente dentro ou próximo dos Estados Unidos. Mas deve notar-se que The Donald, que conduz a política externa com base nos seus “sentimentos”, pode não ver isso como um problema depois de enviar a 82.ª Divisão Aerotransportada para invadir o Irão já na próxima semana. É um pouco semelhante a renomear o Golfo do México para Golfo da América por ordem executiva, com o objectivo de invadir a Venezuela e, em breve, Cuba. Embora a renomeação do Golfo do México não tenha o glamour do rótulo Trump, isso pode certamente ser alterado por meio de outra ordem executiva.
Também na semana passada, o Departamento do Tesouro anunciou que, doravante, todas as notas denominadas em dólares americanos terão a assinatura do nosso estimado líder, substituindo a do Secretário do Tesouro que aparece nesses documentos há 165 anos. Um comentário na página de opinião do New York Times acertou em cheio ao observar: “Nenhum presidente alguma vez assinou notas bancárias do Tesouro dos EUA antes de Donald Trump decidir fazê-lo. Ao impor a sua assinatura aos utilizadores de notas de dólar, algo que nunca foi feito por qualquer presidente em funções anterior, Donald Trump volta a ofender a decência básica. Eu, por minha parte, doarei cada nota de dólar que me seja entregue e que ostente a sua assinatura a organizações que o desafiem e contestem a sua política. Encorajo outros a fazerem o mesmo. Essa é a melhor forma de garantir que a sua acção indecente se volte contra ele.” As novas notas serão publicadas juntamente com o 250.º aniversário da fundação, bem como moedas comemorativas de ouro dos Estados Unidos que serão lançadas em breve, mostrando Trump carrancudo e apoiado nos seus pequenos punhos cerrados. Trump teve apenas uma sugestão para as moedas: deveriam ser o maiores possível, o que acontecerá, medindo três polegadas de largura.
Chega do que pode passar por motivo de riso. E há ainda aquelas coisas que saem da Casa Branca que fazem querer chorar! Pode-se razoavelmente supor que o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, se ainda estiver vivo, olha para toda a palhaçada trumpiana com um sorriso, ao mesmo tempo que manipula o presidente, algo semelhante a quando entregou a Trump um pager banhado a ouro usado para matar e ferir clandestinamente mais de 5.000 libaneses em 2024. Presumivelmente, estava a enviar uma mensagem que até Trump entenderia: que Israel é capaz de fazer algo bastante desagradável para garantir que Washington segue a linha. Pode-se sugerir que isso poderia incluir um ataque de falsa bandeira contra forças americanas estacionadas no Médio Oriente, realizado por Israel e atribuído ao Irão, ou mesmo o uso israelita de uma arma nuclear táctica contra o Irão, caso a situação no terreno se torne demasiado complicada, o que os EUA seriam forçados a endossar.
O ponto principal é que está a tornar-se cada vez mais claro nos Estados Unidos que a entidade sionista detém Donald J. Trump e o controla, seja directamente por chantagem ou indirectamente pelas vastas somas de dinheiro que os bilionários que dirigem o lobby de Israel utilizam para corromper eleições americanas e comprar os meios de comunicação, impedindo assim que se diga a verdade sobre o Estado judeu. A actuação consistente de Trump em nome de um país estrangeiro que não tem qualquer interesse benigno em relação aos Estados Unidos pode ser considerada traição por muitos americanos.
Esta relação destrutiva tornou-se ainda mais evidente após a carta de demissão do Director do Centro Nacional de Contraterrorismo, Joe Kent, bem como pelos comentários do destacado jornalista conservador Tucker Carlson, que afirmou que o governo israelita, directamente auxiliado pelo poderoso e rico lobby dos EUA, desempenhou um papel importante na guerra dos Estados Unidos contra o Irão. Kent apresentou duas razões principais para agir como agiu, tornando-se o funcionário governamental mais sénior a opor-se dessa forma a qualquer uma das guerras pós-11 de Setembro. Em primeiro lugar, declarou que a alegação da Casa Branca e dos seus apoiantes da guerra contra o Irão de que este representava uma “ameaça iminente” para os Estados Unidos era falsa e, em segundo lugar, que a guerra estava a ser travada por Israel, não em apoio de qualquer interesse nacional ou de segurança americano identificável.
Kent, que conclui “Não podemos cometer esse erro novamente!”, tinha razão em todos os aspectos, observando como “altos responsáveis israelitas e membros influentes dos meios de comunicação americanos” trabalharam arduamente numa campanha de desinformação para provocar uma guerra contra o Irão, em benefício de Telavive e do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. E tanto eles como Trump e a sua equipa têm sido persistentemente mentirosos sobre o conflito, chegando a descrevê-lo como uma “incursão” em vez de uma “guerra” para o vender ao público. Trump chegou mesmo a mentir sobre o bombardeamento dos EUA no primeiro dia da guerra, que matou 170 estudantes iranianas, alegando falsamente que o Irão tinha realizado o ataque.
A maioria dos americanos acredita agora que a guerra com o Irão beneficia mais Israel do que os Estados Unidos. A carta de Kent e as reportagens de Tucker Carlson e de outros revelam uma grande clivagem entre republicanos conservadores que apoiam a guerra com base nas declarações do governo e aqueles que rejeitam as explicações apresentadas como politicamente motivadas. De facto, o número de dissidentes está a crescer à medida que a guerra se arrasta sem um objectivo real à vista, mesmo com o impacto na economia mundial a intensificar-se devido ao bloqueio parcial do Estreito de Ormuz pelo Irão no seu papel habitual como principal canal de trânsito das principais regiões produtoras de petróleo e gás do Médio Oriente.
A confusão em torno do Irão não é ajudada pelo facto de o presidente Trump se contradizer frequentemente quanto aos objectivos, sugerindo mais recentemente que está a considerar “terminar” a guerra no Irão enquanto, ao mesmo tempo, se gaba de que “Estamos a derrotar o Irão!”. Trump também afirmou que a guerra terminará “quando eu sentir — quando o sentir nos meus ossos.” Mas, ao mesmo tempo, está a enviar várias aeronaves, a 82.ª Divisão Aerotransportada e mais de 5.000 fuzileiros navais e unidades navais de assalto anfíbio para a zona de guerra, possivelmente para levar a cabo uma invasão terrestre dirigida contra a ilha de Kharg, onde se situa o principal terminal petrolífero do Irão. Alguns classificaram a iniciativa como uma “missão suicida”, uma vez que as forças dos EUA estarão em grande desvantagem numérica face às Forças da Guarda Revolucionária Iraniana, já posicionadas e bem entrincheiradas em posições preparadas difíceis de enfrentar. O secretário da Guerra, Pete Hegseth, também solicitou ao Congresso que disponibilize 200 mil milhões de dólares para financiar a continuação da guerra, o que sugere que não há fim à vista. É certo que a reflexão de Trump sobre o fim da guerra se baseia na sua duvidosa alegação de que as forças dos EUA e de Israel destruíram em grande parte as capacidades militares ofensivas e defensivas do Irão, o que constitui uma mentira promovida pelo governo israelita para manter os EUA no conflito. Isto deixa a Casa Branca com a opção de explorar a sua suposta vantagem ou, alternativamente, salvar a face abandonando os objectivos que motivaram a guerra, embora Israel esteja a fazer tudo para intensificar o envolvimento americano.
Mas há um problema maior quanto ao rumo a seguir: Israel foi o motor do conflito, mas desde o seu início, Telavive e Washington são agora parceiros na luta, ainda que sem uma visão partilhada sobre qual deverá ser o objectivo final. Se Trump procura uma saída da guerra devido à sua impopularidade e às próximas eleições intercalares, Israel está mais empenhado em usar a ajuda americana para destruir o Irão enquanto potência concorrente no Médio Oriente. Entretanto, o Irão mantém uma posição firme não apenas porque parece ter vantagem, mas também porque reconhece que Israel e os EUA continuarão a regressar até que seja destruída enquanto nação.
Assim, pode argumentar-se que a guerra contra o Irão travada pelos Estados Unidos e por Israel está a evoluir, mas o que isso significa exactamente depende dos objectivos divergentes dos três beligerantes. Os Estados Unidos podem muito bem querer desligar-se do conflito, mas estão a ter dificuldade em encontrar uma forma simples e politicamente vantajosa de o fazer. Entretanto, Irão e Israel estão destinados a combater porque ambos reconhecem que as consequências são mais graves e complexas para si. Mas uma coisa é certa: a indecisão quanto a objectivos e métodos não pode durar muito antes de Donald Trump, confrontado com eleições, ter de escolher entre intensificar a aposta ou abandonar o jogo. Dar o seu nome a tudo nos Estados Unidos não alterará essa realidade e apenas servirá para o tornar ainda mais objecto do ridículo a nível mundial.
Philip M. Giraldi, Ph.D., é Director Executivo do Council for the National Interest, uma fundação educacional dedutível de impostos 501(c)(3) (Número de Identificação Federal #52-1739023) que procura uma política externa dos EUA no Médio Oriente mais centrada em interesses. O sítio é https://councilforthenationalinterest.org, a morada é P.O. Box 2157, Purcellville, VA 20134, e o correio electrónico é inform@cnionline.org.
Fonte: https://www.unz.com
Tradução RD
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