
O que está em jogo aqui não é apenas a aspiração do Irão de expulsar as forças armadas dos EUA do Médio Oriente, mas também uma transformação geopolítica.
Por Alastair Crooke, ex-diplomata britânico
Em primeiro lugar, embora o Irão tenha sido submetido a intensos bombardeamentos, a eficácia militar desses ataques está longe de ser evidente.
A capacidade do Irão para combater os interesses dos EUA e de Israel nos Estados do Golfo continua a aumentar; a sua liderança opera de forma eficaz no seu modo deliberadamente opaco (conhecido como mosaico); e o Irão prossegue com ataques regulares de mísseis e drones, ao mesmo tempo que aumenta gradualmente a sofisticação do seu arsenal de mísseis. O apoio popular ao Estado iraniano foi consolidado.
Os bombardeamentos dos EUA e de Israel estão a causar sérios danos ao Irão, mas há poucas evidências de que esses ataques tenham localizado — ou destruído — as bases de mísseis dispersas e profundamente enterradas do Irão pelo país.
Na verdade, há indícios de que, ao não destruir a infra-estrutura militar oculta do Irão, os Estados Unidos e Israel concentraram a sua atenção em alvos civis para desmoralizar a população, como se verificou no Líbano e na Palestina.
O que parece indiscutível, no entanto, é que o Irão possui uma estratégia cuidadosamente elaborada que se desenrola em diferentes fases. Trump, por seu lado, não tem um plano. Este muda diariamente.
Israel tem um plano, que consiste em assassinar o maior número possível de líderes iranianos que a sua IA, fornecida pelos Estados Unidos, consiga detectar. Além disso, o objectivo de Israel é desmembrar o Irão, dividi-lo em pequenos Estados étnicos e sectários e reduzi-lo a uma anarquia fraca (seguindo o modelo sírio).
Por enquanto, os objectivos declarados dos Estados Unidos manifestam-se sob a forma de ameaças específicas de escalada, que vão desde ataques à infra-estrutura económica (instalações de gás de South Pars) até dois ataques significativos nas proximidades de instalações nucleares iranianas (Natanz e a central nuclear de Bushehr, operadas conjuntamente pelo Irão e pela Rússia).
Presumivelmente, estes ataques próximos com mísseis têm a intenção de constituir “mensagens” sugerindo a possibilidade de escalada nuclear por parte dos Estados Unidos ou de Israel. (O Irão, no entanto, respondeu de forma semelhante com um ataque de mísseis à cidade de Dimona, muito próxima da instalação nuclear de Dimona, em Israel.)
Após os ataques a Dimona, que causaram danos severos, o Irão fez uma declaração contundente e significativa: afirmou ter alcançado a “superioridade de mísseis.” Essa alegação baseava-se no facto de Israel não ter conseguido lançar qualquer interceptador de defesa aérea face ao ataque iraniano a um dos seus locais estratégicos mais protegidos.
Mohammad Ghalibaf, presidente do parlamento iraniano e líder militar, advertiu que a guerra entrou numa “nova fase”:
“Os céus de Israel estão indefesos... Parece que chegou a hora de colocar a próxima fase dos nossos planos pré-estabelecidos em acção...”
Segundo o comentador militar Will Schryver, não há dúvida de que as reservas de munições dos EUA estão prestes a esgotar-se e que a geração de missões aéreas caiu drasticamente devido a atrasos na manutenção e à incapacidade logística.
Aeronaves tripuladas dos EUA ainda não penetraram profundamente no espaço aéreo iraniano. O Irão, contudo, afirma que os seus próprios stocks de munições são abundantes.
Nos últimos dias, Trump elevou a aposta, emitindo um ultimato ao Irão: “Abra o Estreito de Ormuz em 48 horas ou as suas centrais civis serão progressivamente destruídas, começando pela maior.” (A maior central do Irão é a de Bushehr, operada conjuntamente pelo Irão e pela Rússia.)
Parece que Trump ainda espera uma rápida rendição iraniana. No entanto, o Irão já rejeitou o ultimato e respondeu com um ultimato próprio.
Ultimato do aiatolá Mojtaba Khamenei a Trump
Num discurso de 12 minutos com uma estrutura muito concisa, o aiatolá Imam Sayyed Mojtaba Khamenei passou da retórica habitual para algo muito mais transcendental. A primeira metade do seu discurso seguiu o guião previsto, mas, como relatou a comentadora libanesa Marwa Osman:
A meio da intervenção, o tom mudou de retrospectivo para estratégico. Sayyed Khamenei apresentou três exigências concretas, cada uma com um prazo definido: uma retirada militar rápida dos EUA do Médio Oriente, o levantamento total das sanções no prazo de 60 dias e uma compensação financeira de longo prazo pelos danos económicos.
“Depois veio o ultimato: se não fosse cumprido, o Irão escalaria a situação — económica, militar e potencialmente nuclear.
Não de forma hipotética, mas operacional: fechar o Estreito de Ormuz, formalizar os laços de defesa com a Rússia e a China e passar da ambiguidade para a declaração de dissuasão nuclear.”
O momento das reacções externas também foi revelador. Em poucas horas, tanto Pequim como Moscovo emitiram comunicados que, embora cuidadosamente redigidos, coincidiram inequivocamente com o discurso do novo Líder Supremo, sugerindo coordenação.
A guerra está a entrar numa nova fase. Trump acompanha de perto a forma como a situação se desenvolve internamente antes das eleições intercalares de Novembro.
A opinião pública americana sobre como votar, ou se votar, é geralmente definida em Setembro ou Outubro. A sua equipa procura desesperadamente uma saída da guerra que, até ao Verão, possa projectar uma vitória plausível para Trump, se tal for possível.
Simplicius sugere que “os potenciais ataques de Trump à rede eléctrica iraniana têm como objectivo desestabilizar e distrair, permitindo assim que fuzileiros navais dos EUA e a 82.ª Divisão Aerotransportada tomem a ilha de Kharg ou outras ilhas iranianas. Fontes de ‘altos oficiais’ continuam a afirmar que a operação terrestre permanece altamente provável.”
O Irão está claramente disposto a igualar Trump na escalada do conflito. O estilo de liderança do Irão mudou significativamente sob o novo Líder Supremo: já não está interessado em manobras graduais. A liderança iraniana procura resultados decisivos que transformarão o cenário geoestratégico da Ásia Ocidental.
O Irão acredita que Ormuz representa o instrumento de pressão com o qual pode alcançar esse objectivo.
O Irão estabeleceu um corredor marítimo selectivo e seguro para embarcações aprovadas e controladas pela Guarda Revolucionária Iraniana transitarem pelo Estreito de Ormuz, desde que a carga seja paga em yuan e sujeita a uma taxa. Estima-se que o Irão possa obter até 800 mil milhões de dólares anuais em taxas graças a este regime regulatório semelhante ao do Canal de Suez.
Em teoria, isto permite que o mercado de energia seja abastecido, mas sob a condição de que o Irão simplesmente feche completamente o estreito caso Trump implemente o seu ultimato.
O professor Michael Hudson observa que as novas exigências do Irão são “tão abrangentes que parecem impensáveis para o Ocidente: que os países árabes da OPEP devem encerrar os seus laços económicos estreitos com os Estados Unidos, começando pelos centros de dados americanos operados pela Amazon, Microsoft e Google... E que [devem] desfazer-se das suas participações existentes em petrodólares que subsidiam a balança de pagamentos dos EUA desde os acordos [dos petrodólares] de 1974.”
“A reciclagem de petrodólares tem sido a base da financeirização e instrumentalização do comércio mundial de petróleo pelos Estados Unidos, bem como da sua estratégia imperial de isolar países que resistem a submeter-se à ordem dos EUA baseada na autoridade (sem regras reais, mas simplesmente exigências ad hoc dos Estados Unidos),” como afirma o professor Hudson.
O controlo rígido do Irão sobre o Estreito de Ormuz, aliado ao controlo dos houthis sobre o Mar Vermelho, poderia retirar aos EUA o domínio sobre a energia e os seus preços e, na ausência do fluxo de petrodólares para Wall Street, pôr fim à dominação financeira global dos EUA.
O que está em jogo aqui não é apenas a aspiração do Irão de expulsar as forças armadas dos EUA do Médio Oriente, mas também uma transformação geopolítica, uma vez que os países do Conselho de Cooperação do Golfo e Estados asiáticos (como o Japão e a Coreia do Sul) são forçados a tornar-se “nações satélite” do Irão para obter acesso ao Estreito de Ormuz. E porque só o Irão poderia garantir uma passagem segura.
De facto, se o Irão conseguir manter o seu controlo sobre o Estreito de Ormuz, a geopolítica asiática será reconfigurada numa nova realidade estratégica.
Fonte: https://observatoriocrisis.com
Tradução RD
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