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domingo, 24 de setembro de 2023

E AGORA QUE A CONTRAOFENSIVA FALHOU?

Antony Blinken já reconheceu que “o que está a acontecer no mundo é mais do que um teste à ordem mundial pós-Guerra Fria. É o seu fim”.



Por Major-General Carlos Branco*

Passados quase três meses desde o seu início, torna-se claro que a contraofensiva ucraniana não atingiu o objectivo a que se tinha proposto: chegar ao Mar de Azov, tendo apenas conseguido aproximar-se, nalguns sítios, da principal linha defensiva russa. Perante estes desenvolvimentos interrogamo-nos sobre qual será o passo seguinte, uma vez não existir unanimidade nem consenso sobre a matéria.

A maioria das respostas enquadra-se em duas abordagens genéricas: uma que defende a possibilidade de se avançar para uma solução política, e outra que defende a continuação dos combates, e a preparação de uma nova ofensiva em 2024 e, se for preciso, outra em 2025, até ao último ucraniano.

A generalidade dos defensores da primeira abordagem são ou encontra-se próxima dos decisores políticos ou de quem tem responsabilidades executivas no establishment político norte-americano. Incluem no seu cálculo estratégico o impacto benéfico que o congelamento da situação militar poderá vir a ter nas eleições presidenciais norte-americanas, a realizarem-se lugar no final de 2024, independentemente de o conflito poder ou não ser retomado mais tarde, aproveitando-se a pausa nos combates para armar, treinar e equipar as debilitadas forças armadas ucranianas.

Embora o congelamento da situação militar não signifique a vitória de ninguém, é mais vantajoso para a Ucrânia e para os EUA, não só pelo motivo já explicado, mas também porque dá mais tempo aos EUA para implementarem a sua diplomacia informal, permitindo-lhes negociar com Moscovo acordos vantajosos para lá do Teatro de Operações da Ucrânia, que lhe proporcionem benefícios na competição com Pequim.

Contrariando um dos objectivos propostos, a contraofensiva ucraniana não veio trazer maior poder negocial à Ucrânia, conferindo-lhe a possibilidade de se sentar à mesa das negociações numa situação vantajosa. Pelo contrário, não só evidenciou a incapacidade de Kiev repelir as forças russas do território ucraniano impossibilitando a concretização do seu objectivo estratégico, como causou imensas baixas, difíceis de repor, e um imenso rombo nos equipamentos fornecidos pela ajuda internacional, colocando-as numa situação de extrema vulnerabilidade.

Em alternativa, poder-se-ia negociar, eventualmente, uma solução política mais ambiciosa, para lá de um “simples” congelamento da situação tática, do tipo coreano ou alemão (oeste e leste). Esta abordagem tem vindo a ganhar um número cada vez maior de aderentes (entre outros, Sarkozy, Viktor Orban, etc.). As eleições em Setembro na Eslováquia poderão alargar a lista dos apoiantes desta causa.

A comunicação social norte-americana próxima do Partido democrata tem-se inclinado nesta direcção. O Secretário de Estado Antony Bliken terá procurado, na sua recentemente “prolongada” estadia em Kiev, persuadir o presidente Zelensky da bondade deste tipo de soluções. A favor desta resposta, estaria o cansaço internacional do apoio prestado a Kiev com tendência para diminuir. Como escreveu Fareed Zakarias, “os ucranianos estão determinados a perseverar, mas temem que os seus aliados não o façam.”

Está por determinar se as recentes demissões dos vice-ministros ucranianos da defesa não visarão colocar em posições críticas do aparelho de estado elementos facilitadores deste tipo de soluções.

Alguns observadores acreditam que os russos estão determinados em manter o conflito até à realização das eleições presidenciais norte-americanas, na esperança de que Donald Trump seja eleito e deixe de apoiar ou reduza significativamente o apoio a Kiev.

Os defensores da segunda abordagem abraçam a ideia de continuar a guerra por esta estar a atingir o objectivo, isto é, enfraquecer a Rússia. No entanto, nenhum deles conseguiu ainda esclarecer o que entende por enfraquecer a Rússia e, consequentemente, até onde se deve e/ou pode ir. Por outras palavras, como se identifica o momento em que a Rússia vai estar suficientemente enfraquecida? Quais os critérios?

Um dos apoiantes desta abordagem, Mitt Romney defende que “Os danos causados à Rússia fazem com que o investimento na Ucrânia valha a pena… É a coisa certa a fazer… Portanto, gastar 20 mil milhões de dólares – ou seja, 2% do nosso [norte-americano] financiamento militar – para ajudar a Ucrânia a derrotar e enfraquecer a Rússia é um dos investimentos mais inteligentes e económicos que podemos fazer.”

O presidente polaco Andrzej Duda vibra com estas declarações que contribuem para colocar a Polónia como o ator “excecional” na resposta à ameaça russa. Segundo ele, explicando porque é que os EUA deviam mobilizar-se contra a ajuda à Ucrânia, “agora, o imperialismo russo pode ser parado de modo barato, porque os soldados americanos não estão a morrer. Mas se não pusermos agora um fim à agressão russa haverá um alto preço a pagar.” Para Duda, ajudar Kiev equivale a “enfraquecer um dos maiores adversários estratégicos da América”.

Pertencem a este grupo os que, confrontados com o facto incontornável da contraofensiva não estar a correr bem, consideram que a guerra na Ucrânia será uma longa luta. Em reforço desta ideia, recordemos o que disse recentemente o Secretário-Geral da NATO Jans Stoltenberg. Como disse o antigo CEMGFA do Reino Unido Richard Barrons a “Ucrânia não pode vencer agora a Rússia, mas a vitória é possível em 2025”.

Contudo, quem parece estar a enfraquecer é o Ocidente, incapaz de responder capazmente às solicitações da Ucrânia. O Almirante Rob Bauer Chairman do Comité Militar da Aliança reconheceu publicamente que a necessidade ucraniana em munições era superior à capacidade de produção da indústria de defesa ocidental. Por seu lado, a especialista em assuntos de Segurança Kori Schake num artigo na revista “The Atlantic” fez soar as campainhas sobre a capacidade militar norte-americana em caso de um conflito de larga- escala, alertando para o risco de o primeiro exército do mundo poder perder uma guerra em grande escala devido à escassez de munições.”

Segundo Schake, o problema “não tem a ver com a Ucrânia – mas com os Estados Unidos que, em princípio, não estão prontos para a guerra”. “A quantidade de armas que fornecemos [EUA] à Ucrânia é insignificante em comparação com as armas necessárias que não temos nos nossos armazéns”. “A lacuna na produção de defesa criou uma lacuna alarmante entre o que os Estados Unidos dizem que podem fazer e o que efetivamente podem fazer”.

Ambas as abordagens apresentadas partem do pressuposto de que a Rússia não tem capacidade para obter uma vitória militar sobre a Ucrânia, o que parece incontornável no momento em que este texto é redigido, mas poder vir ter. A acontecer, isso significaria uma vitória da Rússia e uma derrota norte-americana com imensos danos reputacionais para Washington, em cima do imenso empenho colocado neste conflito materializado nos 113 mil milhões de dólares gastos em cerca de ano e meio de guerra no apoio às Forças Armadas da Ucrânia, algo a que os EUA já nos habituaram, se tivermos em conta as guerras que provocou após a II Guerra Mundial e que não venceu (excluímos a guerra do Iraque (1990) e a da Coreia que “empatou”).

Qualquer das respostas apresentadas não é neutral em termos das consequências e dos resultados, apenas condicionará os termos de algo não escamoteável: “as coisas nunca mais serão as mesmas. O que está a acontecer no mundo é mais do que um teste à ordem mundial pós-Guerra Fria. É o seu fim”, como reconheceu Antony Blinken.

Por isso, dadas as consequências dramáticas que essas respostas poderão ter na definição dessa nova Ordem, esse exercício deve ser feito de modo extremamente rigoroso pelos líderes das grandes potências, que não podem alijar responsabilidades pelo que daí resultar.

Contudo, esta constatação cândida de Blinken omite quem foi o responsável por termos chegado aqui. Apesar de reconhecer que estes desenvolvimentos “serão objecto de estudo e debate nas próximas décadas”, Blinken parece não estar concentrado no essencial do problema. Os EUA ainda não saíram, nem sabem como vão sair da guerra na Ucrânia, e já se preparam para se meterem noutra, quando é evidente a sua impreparação para tal aventura.


*Investigador do IPRI-NOVA

Fonte: Jornal Económico

MINISTRO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS DA RÚSSIA CRITICA OCIDENTE, MAS QUASE NÃO MENCIONA A UCRÂNIA EM DISCURSO NA ONU


Transcrição do vídeo para português

Dou agora a palavra a Sua Excelência Sergei Lavrov, Ministro dos Negócios Estrangeiros da Federação Russa.

Senhor Presidente, senhoras e senhores, nestas declarações de muitos oradores anteriores, a ideia de que o nosso planeta partilhado está passando por mudanças irreversíveis foi mencionada logo no início diante dos nossos olhos. Há uma nova ordem mundial nascendo. O nosso futuro está sendo moldado por uma luta, uma luta entre a maioria global em favor de uma distribuição justa de benefícios globais e diversidade civilizada e entre os poucos que utilizam métodos quase coloniais de subjugação, a fim de manter a sua dominação, que está escapando às suas mãos. 

O Ocidente colectivo tem um cartão de visita e há muito que rejeita o princípio de igualdade e a sua total incapacidade de chegar a acordo. Estar acostumado a olhar para baixo do resto do mundo, os americanos nos europeus fazem todos os tipos de promessas e assumem compromissos, nomeadamente os escritos e os juridicamente vinculativos. E então eles simplesmente não cumprem eles. Como salientou o Presidente Putin, o Ocidente é um verdadeiro império de mentiras. A Rússia, como muitos países, sabe disso em primeira mão. Em 1945, quando nós, juntamente com Washington e Londres, juntas, derrotaram o inimigo na frente de batalha na Segunda Guerra Mundial, nossos aliados na coaligação anti-Hitler já estavam fazendo planos para uma guerra militar impensável. Operação. Foi assim que foi chamado contra a União Soviética.

Quatro anos depois, em 1949, os americanos elaboraram uma operação drop shot para realizar ataques nucleares em grande escala na URSS. Estas ideias horríveis e sem sentido permaneceram no papel. A URSS criou o seu próprio armamento para retaliação. Foi necessária a crise dos mísseis cubanos de 1962, quando o mundo estava à beira da guerra nuclear, pois a ideia de dispensá-la e a ilusão de vitória deixaram de ser a base da estratégia de planeamento militar dos EUA No final desta Guerra Fria, a União Soviética desempenha um papel decisivo na reunificação da Alemanha e nos parâmetros acordados para a nova segurança arquiteto na Europa. Além disso, a liderança soviética e depois a russa receberam medidas concretas garantias políticas relativas à não expansão da aliança militar da OTAN para leste. Os registos relevantes dessas negociações estão nos arquivos R e ocidentais e estão em acesso aberto, mas estas garantias dos líderes ocidentais foram apenas um engano. Eles de forma alguma pretendia defendê-los. 

Além disso, nunca se preocuparam com o facto de que, ao expandirem a NATO em relação às fronteiras da Rússia, violaram compromissos oficiais assumidos no mais alto nível da OSCE. Compromissos de não reforçar a sua própria segurança em detrimento da segurança de outros e não permitir uma dominação política militar na Europa de qualquer país, grupo de países ou organização. 

Em 2021, as nossas propostas para conclusão do tratamento – os tratados sobre garantias de segurança mútua na Europa foram rudemente rejeitados sem qualquer mudança para o status da Ucrânia estar fora da aliança. O Ocidente continuou a sua contínua militarização do regime russofóbico que foi levado ao poder como resultado de um golpe sangrento e usar isso para travar uma guerra híbrida contra o nosso país. Algo sem precedentes desde o fim da Guerra Fria foi um número recente de exercícios conjuntos entre os EUA e os seus aliados europeus da NATO em alertar para os cenários desenvolvidos para o uso de armas nucleares na Federação Russa. O objectivo declarado de infligir uma derrota estratégica sobre a Rússia e, de uma vez por todas, isto tornou-se absolutamente claro, o facto de serem claramente obstinados na sua própria impunidade e desprovidos do seu desejo básico de autopreservação liderados por Washington. 

Os países da NATO não só estão a expandir e a modernizar a sua ofensiva e capacidades, mas também mudando para o espaço a esfera da informação e novos perigos. A manifestação do expansionismo foi estender a área de responsabilidade da aliança para todo o lado oriental do mundo usando o lema pernicioso da indivisibilidade de segurança, a região da Eurásia e do Pacífico Indo-Asiático, para este objectivo Washington está a criar as suas alianças comunitárias políticas militares subordinadas, como a Al-Kus, o triciclo dos EUA. O Japão e a República da Coreia, o quarteto, Seul, Canberra e Wellington estão a pressionar a participantes destas estruturas à cooperação prática com a OTAN. Isso está trazendo as suas infra-estruturas para a zona do Pacífico.

É óbvio que tais esforços são dirigidos contra a Rússia e China e sobre o colapso da arquitectura regional inclusiva da ASEAN, isto corre o risco de criar novas bolsas explosivas de tensão geopolítica, além de àquela que está a aquecer de forma muito significativa em toda a Europa. Certamente se tem a impressão que os EUA e o colectivo ocidental que lhe está totalmente subordinado decidiram virar-se para a Doutrina Monroe num mundo global. Estas ideias são totalmente ilusórias, são extremas mas a Pax Americana não irá impedir isso. A minoria global está a fazer tudo o que pode para colocar os travões na aceleração da causa natural da vingança. A declaração de Vilnius da NATO sobre o reforço da parceria entre a Rússia e a China foi caracterizada como uma ameaça para a OTAN. 

Falando aos seus embaixadores, um amplo Presidente Macron disse que estava realmente preocupado com a expansão dos travões, considerando que isso mostra que complica a situação na esfera internacional para funcionar e corre o risco de enfraquecer o Ocidente, em particular a Europa. 

Está em curso uma revisão da ordem mundial, bem como dos seus princípios e está a minar a forma como o Ocidente funciona. Este é o fim dessa citação. Então aqui está uma revelação: se alguém quiser se encontrar sem nós, se aproximar sem nós ou sem o nosso consentimento, isso representa uma ameaça. O empurrão da OTAN para a região da Ásia-Pacífico é algo bom mas a expansão dos travões é perigosa. No entanto, a lógica é inexorável. A principal tendência passou a ser a maioria global reforçar os seus interesses nacionais, a sua soberania, as suas tradições, a sua cultura e a sua forma de vida. Eles não querem mais viver sob o jugo de ninguém. Eles querem fazer amigos exclusivamente em pé de igualdade e para benefício mútuo e organizações como os BRICS e a Corporação de Xangai, organizações que estão em ascensão e defendendo o seu papel legítimo na formação objectiva da nossa arquitectura multipolar. Talvez pela primeira vez desde 1945, quando a ONU foi criada, existe agora uma oportunidade para uma verdadeira democratização dos assuntos globais. Isto inspira optimismo a todos aqueles que acreditam no Estado de Direito a nível internacional e que querem ver o renascimento da ONU como órgão central de coordenação da política global, um órgão onde são tomadas decisões sobre como chegar a decisões em conjunto, tendo um equilíbrio justo de interesse. 

Para a Rússia é claro que não há outra opção. No entanto, os EUA e os seus colectivos ocidentais subordinados continuam a alimentar conflitos que dividem artificialmente a humanidade em blocos hostis e a dificultar a realização dos objectivos globais. Eles estão fazendo tudo o que puderem para impedir a formação de uma verdadeira ordem mundial justa e multipolar. Eles estão tentando forçar o mundo a jogar de acordo com as suas próprias regras egocêntricas. 

Gostaria de exortar mais uma vez os políticos e diplomatas ocidentais a relerem cuidadosamente. a pedra angular da ordem mundial estabelecida no final da Segunda Guerra Mundial. A guerra é o princípio democrático da igualdade soberana dos Estados, grandes e pequenos, independentemente da sua forma de governo, das suas estruturas internas, políticas e socioeconómicas. No entanto, o Ocidente ainda acredita que é superior a todos os outros à luz do que foi dito, a declaração perniciosa do chefe da diplomacia da UE, Sr. Borrello, nomeadamente que a Europa é um jardim florido e o resto é uma selva. Ele não se incomoda com o fato de que no jardim há uma islamofobia desenfreada e outras formas de intolerância aos valores tradicionais de todas as religiões mundiais, a queima do Alcorão, da Torá, a perseguição ao clero ortodoxo e desdém pelos sentimentos dos crentes, um lugar muito comum na Europa. Uma violação grosseira do princípio da igualdade soberana é o uso pelo Ocidente de meios coercivos unilaterais. 

Os países que são vítimas destas sanções ilegais e constituem um número cada vez maior muitos deles estão bem conscientes de que as restrições prejudicam, em primeiro lugar, os mais vulneráveis. Provocam crises nos mercados alimentares e energéticos. Nós continuamos a insistir numa cessação rápida e total dos EUA a um comércio desumano sem precedentes e o bloqueio económico-financeiro a Cuba e pelo levantamento da absurda decisão de declarar Cuba um Estado patrocinador do terrorismo. Washington deve, sem quaisquer condições prévias, abandonar a sua política de asfixia económica da Venezuela. Apelamos ao levantamento das sanções unilaterais pelos EUA e pela UE contra a Síria que minam abertamente o seu direito ao desenvolvimento. 

Quaisquer medidas que contornam a ONU e as medidas coercivas devem acabar, assim como as armas armadas do Ocidente, prática de manipular as políticas sancionadas pelo Conselho de Segurança para exercer pressão sobre aqueles que eles não gostam. Algo que demonstra claramente o egocentrismo do Ocidente nas suas tentativas ao Reino Unido a agenda internacional, colocando em segundo plano uma série de questões não regulamentadas ou conflitos ou crises regionais não resolvidos, tendo muitos já existindo há décadas. 

A necessidade no Médio Oriente depende realmente da resolução do prolongado problema palestiniano, conflito israelita com base nas resoluções da ONU na Iniciativa de Paz Árabe. Os palestinianos há mais de 70 anos aguardam a promessa solenemente feita a eles de ter o seu próprio estado. No entanto, o facto de os americanos monopolizarem a mediação, processo que significa que eles estão fazendo tudo o que podem para não permitir isso. Chamamos por uma conjugação de esforços de todos os países responsáveis para criar condições para retomar a cooperação directa palestiniana. Negociações israelitas. Estamos satisfeitos por a Liga dos Estados Árabes ter conseguido o seu segundo objectivo. Está intensificando o seu papel na região. Congratulamo-nos com o regresso da Síria ao domínio da família árabe e saudamos o início do processo de normalização entre Damasco e Ancara, em que estamos a apoiar os nossos colegas iranianos. Todos estes sinais positivos são apoiados por o estado de formato que promove o assentamento sírio. Esperamos que com a ajuda da ONU, os Líbios possam preparar-se para as eleições gerais no seu sofrido país que há mais de 10 anos não se recupera depois da agressão da NATO que destruíram o seu Estado e abriram as comportas à propagação do terrorismo na região Saha-Saha região e ondas de milhões de migrantes ilegais vão para a Europa e outras áreas do mundo. Os analistas disseram que assim que Mottaman Ghadafi abandonou o seu programa nuclear militar, ele foi destruído. Assim, o Ocidente criou um risco surpreendente para todo o processo do regime de não-proliferação nuclear.

Estamos preocupados com o facto de Washington e os seus aliados asiáticos provocarem a histeria na Península Coreana, onde as capacidades estratégicas dos EUA estão a aumentar. A iniciativa de considerar os desafios políticos humanitários como uma prioridade foi rejeitada.

Houve uma evolução trágica da situação no Sudão. Não é nada além do impacto da fracassada experiência ocidental de exportar o seu dogma liberal e democrático ao país, apoiamos a iniciativa construtiva para acelerar a regulação ou melhor resolução do conflito interno sudanês, prestando assistência para um diálogo direto entre as partes em conflito. Quando vemos a relação nervosa do Ocidente com os acontecimentos recentes em África, particularmente em Niger e Gabão, não podemos deixar de recordar como Washington e Bruxelas responderam ao golpe sangrento na Ucrânia em fevereiro de 2014. Um dia depois do acordo foi alcançado sobre o acordo a UE que garante as questões, mas infelizmente a oposição acabou de pisar nisso, os EUA e seus aliados apoiaram o golpe, saudando-o como uma demonstração da democracia. 

Não podemos deixar de estar preocupados com a actual deterioração da situação na província sérvia do Kosovo. A OTAN fornece armas ao Kosovo e ajuda-os a estabelecer um exército que viola grosseiramente a resolução chave do Conselho de Segurança 1244, o mundo inteiro pode ver como está a repetir-se nos Balcãs a triste história dos acordos de Minsk na Ucrânia. Lembro-me que aí estava estipulado o seu estatuto especial para as repúblicas do Donbass, no entanto, Kiev sabotou isso abertamente com o apoio do Ocidente agora mesmo. A UE não quer forçar os seus protegidos do Kosovo a implementar os acordos que foram feitos entre Belgrado e Priscina em 2013 para criar uma comunidade de municípios sérvios do Kosovo. Isto teria regras especiais relativas à sua língua e às suas tradições. Nos casos em que a UE actua como garante destes acordos, aparentemente partilham o mesmo destino. Você apenas precisa olhar para o patrocinador e você vê o resultado. 

Agora Bruxelas impõe a sua mediação de serviços, os chamados serviços de mediação no Azerbaijão e na Arménia juntamente com Washington e este é que, na verdade, Yerevan e Baku realmente resolveram a situação, então chegou a hora para a construção da confiança mútua, há tropas russas que certamente ajudarão neste sentido. 

Agora falando sobre decisões da comunidade internacional que permanecem no papel, apelamos à conclusão outrora uma regra do processo de descolonização. Isto está em linha com as resoluções da Assembleia Geral e queremos o fim de todas as práticas coloniais e colonialistas. Uma ilustração vívida das regras segundo o qual o Ocidente quer que todos vivamos é o destino dos compromissos assumidos
feito em 2009 para fornecer aos países em desenvolvimento cem mil milhões de dólares anualmente para financiar programas de mitigação climática. Se você comparar esse destino com as promessas não cumpridas e as suas promessas não cumpridas com as somas que a NATO dos EUA e a UE gastaram no apoio ao regime racista em Kiev, segundo relatos, cento e setenta bilhões de dólares desde Fevereiro de 2022 você entenderá o que o Ocidente esclarecido realmente pensa. 

Já é hora de uma reforma da arquitectura de governação global existente. Lá não deveria haver mais retenção artificial por trás da redistribuição das cotas de voto no FMI e no Banco Mundial. O Ocidente deve reconhecer a verdadeira influência económica e financeira dos países do Sul global. É importante também desbloquear o trabalho do órgão de disputas da WTA, há uma crescente necessidade de expandir a composição do conselho de segurança apenas através da erradicação da sub-representação na composição da maioria global para países da Ásia, África e América Latina. É importante que os novos membros do conselho de segurança, tanto permanentes como não-permanentes, sejam capazes de usar a sua autoridade também em suas próprias regiões e em organizações globais como o movimento não-linear G77 e a OIC. Já é tempo de procurar formas justas de fazer criar o secretariado da ONU. Um critério que está em vigor há muitos anos, ou melhor, todos os critérios que existem há muitos anos não refletem a influência real dos estados nos assuntos globais e garantir artificialmente o domínio excessivo dos cidadãos da OTAN e Países da UE. Esta situação desproporcionada é ainda agravada pelo sistema de contratos que vinculam pessoas a cargos em países anfitriões de sedes de organizações internacionais, a esmagadora maioria das quais está nas capitais que promovem as políticas do Ocidente. 

É necessário um novo tipo de reforma da ONU, independentemente de os líderes, seguidores ou professores e alunos quando todas as questões são resolvidas com base no consenso, refletindo o equilíbrio e preocupações de interesse. Por exemplo, isto é realmente suportado pelos BRICS, que expandiram a sua autoridade, em particular após a Cimeira de Joanesburgo e também nas reuniões de nível regionais, houve um claro renascimento do seleto Ligurh Aruz da União Africana afirma o CCG e outras estruturas na Eurásia. Uma harmonização dos processos de integração que está em andamento como parte da Organização Corporativa de Xangai como o CSTO, a Comunidade Econômica da Eurásia e a CEI, o Projecto Cinturão e Rota Chinês. Formações naturais para uma maior parceria.

A parceria euro-asiática também está em andamento e está aberta a todas as associações e países do nosso continente partilhado, sem excepção. Infelizmente, estas tendências positivas estão a ser minado por políticas cada vez mais agressivas do Ocidente e pelas suas tentativas de manter o seu domínio. É do interesse comum evitar uma fragmentação do mundo em blocos comerciais e macrorregiões isoladas, mas se os EUA e os seus aliados não quiserem negociar em tornar os processos globais livres ou justos e, em vez disso, iguais, o resto terá que tirar o seu partido e tirar as suas próprias conclusões e terão que fazer o seu próprio desenvolvimento socioeconómico e tecnológico não dependendo dos instintos neocoloniais das suas antigas potências neocoloniais. 

O principal problema com o Ocidente, o principal problema reside no Ocidente porque os países em desenvolvimento estão preparados para negociar, por exemplo, no G20 e vemos claramente que o G20 deve e deveria evitar a politização. Deve ser capaz de se envolver em métodos para desenvolver-se mutuamente formas aceitáveis de governar a economia e as finanças mundiais. É importante haver diálogo e não devemos perder esta oportunidade. Todas estas tendências devem ser plenamente tidas em conta pelo secretário da ONU. O seu objectivo estatutário é obter o consentimento de todos os Estados-membros dentro do ONU e não à margem dela. A ONU foi fundada após a segunda guerra mundial e quaisquer tentativas de rever isto minariam os fundamentos da ONU como representante de um país que deu uma contribuição significativa para derrotar o fascismo e o militarismo japonês.

Gostaria de chamar a atenção para o fenómeno flagrante da reabilitação de nazis e colaboradores na Europa, especialmente na Ucrânia e nos países bálticos. Um facto particularmente preocupante foi pela primeira vez no ano passado em que houve uma resolução G para combater a glorificação da rede nazismo, mas pela primeira vez este foi votado contra pela Alemanha, Itália e Japão. Esse facto lamentável põe em causa o verdadeiro arrependimento destes Estados pelos crimes em massa levada a cabo contra a humanidade por eles durante a Segunda Guerra Mundial. Também vai contra as condições sob as quais foram aceitos na ONU como membros de pleno direito. Nós fortemente exorto-vos a prestar especial atenção a esta metamorfose que vai contra a posição da maioria global e aos princípios da Carta das Nações Unidas. 

Senhor Presidente, hoje a humanidade como aconteceu no passado, está numa encruzilhada. Depende inteiramente de nós como a história se desenrolará. É do nosso interesse comum evitar uma espiral descendente rumo a uma guerra em grande escala e para evitar o colapso final dos mecanismos de cooperação internacional que foram postos e implementada pelos nossos antecessores, a iniciativa do portfólio SG no próximo ano para realizar uma cimeira do futuro. Isto só pode ser bem sucedido se houver um equilíbrio justo de interesses de todos os Estados-Membros no respeito pelo carácter intergovernamental da nossa organização. Em nosso encontro no dia 21 de Setembro, os membros do grupo de amigos em defesa da Carta discutiram ativamente as oportunidades para alcançar este objetivo. Como disse António Guterres à conferência de imprensa sobre a realização desta sessão, passo a citar, se quisermos paz e prosperidade baseadas na igualdade e solidariedade, então os líderes têm uma responsabilidade particular de alcançar compromissos ao conceberem o nosso futuro comum para o nosso bem comum. Esta é uma excelente resposta para aqueles que dividem o mundo em democracias e autocracias e ditam o seu estilo de regras neocoloniais para os outros. 

Muito obrigado.

sábado, 23 de setembro de 2023

UM DISCURSO DEVASTADOR NO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU




Sergei Lavrov*

Sr. Presidente,

Senhor Secretário-Geral,

Colegas


A atual ordem internacional foi construída sobre as ruínas e na sequência da colossal tragédia da Segunda Guerra Mundial. Baseou-se na Carta das Nações Unidas, uma fonte fundamental do direito internacional moderno. Em grande parte graças à ONU, foi possível evitar uma nova guerra mundial, prenhe de uma catástrofe nuclear.

Infelizmente, após o fim da Guerra Fria, o "Ocidente coletivo", liderado pelos Estados Unidos, arrogou-se arbitrariamente o lugar de árbitro dos destinos de toda a humanidade e, dominado por um complexo de exclusividade, começou a ignorar cada vez mais o legado dos pais fundadores da ONU.

Hoje em dia, o Ocidente refere-se às normas e aos princípios estatutários de forma seletiva, de tempos a tempos, exclusivamente em função das suas necessidades geopolíticas egoístas. Isto conduz inevitavelmente ao enfraquecimento da estabilidade global, à exacerbação das atuais e ao incitamento de novos focos de tensão. Os riscos de conflito global também estão a aumentar. É precisamente para os travar, para encaminhar os acontecimentos numa direção pacífica, que a Rússia insistiu e insiste em que todas as disposições da Carta das Nações Unidas sejam respeitadas e aplicadas, não de forma seletiva, mas na sua totalidade e interligação, incluindo os princípios da igualdade soberana dos Estados, da não ingerência nos seus assuntos internos, do respeito pela integridade territorial e do direito dos povos à autodeterminação. As acções dos Estados Unidos e dos seus aliados indicam um desequilíbrio sistemático dos requisitos consagrados na Carta.

Desde o colapso da URSS e a formação de Estados independentes no seu lugar, os Estados Unidos e os seus aliados têm interferido de forma grosseira e aberta nos assuntos internos da Ucrânia. Como a secretária de Estado Adjunta dos EUA, Victoria Nuland, admitiu publicamente e até com orgulho no final de 2013, Washington gastou 5 mil milhões de dólares para alimentar políticos obedientes ao Ocidente em Kiev.

Todos os factos da "engenharia" da crise ucraniana são conhecidos há muito tempo, mas eles estão a tentar de todas as formas possíveis silenciar, "cancelar" toda a história até 2014. Por conseguinte, o tema da reunião de hoje, proposto pela Presidência albanesa, é muito oportuno e permite-nos recuperar a cadeia cronológica dos acontecimentos, e insere-se no contexto da atitude dos principais atores em relação à implementação dos princípios e objetivos da Carta das Nações Unidas.

Em 2004-2005, o Ocidente, com o objetivo de levar um candidato pró-americano ao poder, sancionou o primeiro golpe de Estado em Kiev, forçando o Tribunal Constitucional da Ucrânia a tomar uma decisão ilegal de realizar uma terceira volta de eleições não prevista na Constituição do país. Uma ingerência ainda mais descarada nos assuntos internos manifestou-se durante a segunda Maidan, em 2013-2014, quando toda uma série de voyageurs ocidentais encorajaram diretamente os participantes nas manifestações anti-governamentais a acções violentas. A mesma V. Nuland discutiu com o embaixador dos EUA em Kiev a composição do futuro governo, que será formado pelos golpistas. Ao mesmo tempo, indicou à União Europeia o seu verdadeiro lugar na política mundial, do ponto de vista de Washington. Todos nos lembramos da sua frase escabrosa de duas palavras. É significativo que a União Europeia a tenha "engolido".

Em fevereiro de 2014, as personagens selecionadas pelos americanos tornaram-se participantes-chave na sangrenta tomada do poder, organizada, recordo, um dia depois do acordo alcançado entre o Presidente legitimamente eleito da Ucrânia, Viktor Yanukovych, e os líderes da oposição, sob as garantias da Alemanha, Polónia e França. O princípio da não ingerência nos assuntos internos foi repetidamente espezinhado.

Imediatamente após o golpe, os golpistas declararam que a sua prioridade absoluta era restringir os direitos dos cidadãos ucranianos de língua russa. E os habitantes da Crimeia e do sudeste do país, que se recusaram a aceitar os resultados da tomada inconstitucional do poder, foram declarados terroristas, tendo sido lançada uma operação punitiva contra eles. Em resposta, a Crimeia e o Donbass realizaram referendos em plena conformidade com o princípio da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos, consagrado no nº 2 do artigo 1.

Os diplomatas e políticos ocidentais, em relação à Ucrânia, fecham os olhos a esta norma mais importante do direito internacional, num esforço para reduzir todo o contexto e a essência do que está a acontecer à inadmissibilidade de violar a integridade territorial. A este respeito, gostaria de recordar que a Declaração das Nações Unidas de 1970 sobre os Princípios do Direito Internacional relativos às Relações Amistosas e à Cooperação entre os Estados, em conformidade com a Carta das Nações Unidas, adotada por unanimidade, estipula que o princípio do respeito pela integridade territorial é aplicável aos "Estados que observam nas suas acções o princípio da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos (...) e, consequentemente, têm governos que representam (...) todas as pessoas que vivem no território". O facto de os neonazis ucranianos que tomaram o poder em Kiev não representarem a população da Crimeia e do Donbass não precisa de ser provado. E o apoio incondicional das capitais ocidentais às acções do regime criminoso de Kiev não é mais do que uma violação do princípio da autodeterminação na sequência de uma interferência grosseira nos assuntos internos.

Na sequência do golpe de Estado durante o reinado de Petr Poroshenko e depois de Vladimir Zelensky, a adoção de leis racistas que proibiam tudo o que era russo – educação, meios de comunicação social, cultura, destruição de livros e monumentos, proibição da Igreja Ortodoxa Ucraniana e confiscação dos seus bens – constituiu uma violação desafiadora do n.º 3 do artigo 1.º da Carta das Nações Unidas sobre o respeito dos direitos humanos e das liberdades fundamentais para todos – sem distinção de raça, sexo, língua ou religião. Para não falar do facto de estas acções contradizerem diretamente a Constituição da Ucrânia, que consagra a obrigação do Estado de respeitar os direitos dos russos e de outras minorias nacionais.

Quando ouvimos apelos à aplicação da "fórmula de paz" e ao regresso da Ucrânia às fronteiras de 1991, coloca-se a questão: será que aqueles que apelam a esta medida estão familiarizados com as declarações dos dirigentes ucranianos sobre o que vão fazer com os habitantes dos respectivos territórios? Ameaças de extermínio legal ou físico são-lhes repetidamente dirigidas publicamente, a nível oficial. O Ocidente não só não reprime os seus protegidos em Kiev, como também encoraja entusiasticamente as suas políticas racistas.

Aliás, de forma semelhante, os membros da UE e da NATO têm vindo a encorajar, há décadas, as acções da Letónia e da Estónia para derrotar os direitos de centenas de milhares de residentes de língua russa que foram apelidados de "não cidadãos". Agora, estão a discutir seriamente a introdução da responsabilidade penal pela utilização da língua materna. Altos funcionários declaram oficialmente que a divulgação de informação sobre a possibilidade de os estudantes locais passarem nos programas de ensino à distância em russo deve ser considerada quase como uma ameaça à segurança nacional e requer a atenção das autoridades policiais.

Voltando à Ucrânia. A conclusão dos acordos de Minsk, em fevereiro de 2015, foi aprovada por uma resolução especial do Conselho de Segurança - em total conformidade com o artigo 36º da Carta, que apoia "qualquer procedimento de resolução de litígios que tenha sido aceite pelas partes". Neste caso, Kiev, a DPR e a LPR. No entanto, no ano passado, todos os signatários dos Acordos de Minsk, exceto Vladimir Putin (Angela Merkel, François Hollande e Petr Poroshenko), admitiram publicamente e até de bom grado que, quando assinaram este documento, não tinham qualquer intenção de o cumprir. Apenas procuravam ganhar tempo para reforçar o potencial militar da Ucrânia e enchê-la de armas contra a Rússia. Durante todos estes anos, a UE e a NATO apoiaram diretamente a sabotagem dos acordos de Minsk, pressionando o regime de Kiev a resolver o "problema do Donbass" pela força. Isto foi feito em violação do artigo 25º da Carta, segundo o qual todos os membros da ONU são obrigados a "obedecer às decisões do Conselho de Segurança e a executá-las".

Recordo que, no pacote dos acordos de Minsk, os líderes da Rússia, Alemanha, França e Ucrânia assinaram uma declaração em que Berlim e Paris se comprometeram a fazer bastante, incluindo ajudar a restaurar o sistema bancário no Donbass. Mas não mexeram um dedo. Acabámos de ver como, contrariamente a todas estas obrigações, Pavel Poroshenko anunciou um bloqueio comercial, económico e de transportes ao Donbass. Na mesma declaração, Berlim e Paris comprometeram-se a promover o reforço da cooperação trilateral no formato UE-Rússia-Ucrânia para uma solução prática para as preocupações comerciais da Rússia, bem como a promover "a criação de um espaço humanitário e económico comum do Atlântico ao Oceano Pacífico". Esta declaração foi também aprovada pelo Conselho de Segurança e estava sujeita a implementação de acordo com o já referido artigo 25º da Carta das Nações Unidas. Mas este compromisso dos dirigentes da Alemanha e da França revelou-se uma "farsa", mais uma violação dos princípios estatutários.

O lendário ministro dos Negócios Estrangeiros da URSS, A.A. Gromyko, observou, com razão, mais do que uma vez: "dez anos de negociações são melhores do que um dia de guerra". Seguindo este preceito, negociámos durante muitos anos, procurámos acordos no domínio da segurança europeia, aprovámos o Ato Fundador NATO-Rússia, adotámos as declarações da OSCE sobre a indivisibilidade da segurança ao mais alto nível em 1999 e 2010 e, desde 2015, insistimos na aplicação incondicional dos acordos de Minsk resultantes das negociações. Tudo isto está em plena conformidade com a Carta das Nações Unidas, que exige "proporcionar condições para a justiça e o respeito pelas obrigações decorrentes de tratados e outras fontes do direito internacional". Os nossos colegas ocidentais espezinharam este princípio quando assinaram todos estes documentos, sabendo de antemão que não os iriam cumprir.


Falando de negociações. Continuamos a não as abandonar. O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, falou sobre isso muitas vezes, inclusive muito recentemente. Gostaria de recordar ao ilustre secretário de Estado que o Presidente da Ucrânia, Vladimir Zelensky, assinou um decreto que proíbe as negociações com o Governo de Vladimir Putin. Se os Estados Unidos estão tão interessados nelas, penso que não será difícil "dar a ordem" para que a ordem executiva de Vladimir Zelensky seja cancelada.

Atualmente, na retórica dos nossos adversários, só ouvimos slogans: "invasão, agressão, anexação". Nem uma palavra sobre as causas profundas do problema, sobre como durante muitos anos alimentaram o regime abertamente nazi, reescrevendo abertamente os resultados da Segunda Guerra Mundial e a história do seu próprio povo. O Ocidente evita uma conversa substantiva baseada em factos e no respeito por todos os requisitos da Carta das Nações Unidas. Aparentemente, não tem argumentos para um diálogo honesto.

Há uma forte impressão de que os representantes ocidentais têm medo de discussões profissionais que exponham a sua demagogia. Proferindo encantamentos sobre a integridade territorial da Ucrânia, as antigas metrópoles coloniais calam-se perante as decisões da ONU sobre a necessidade de Paris devolver o Mayotte "francês" à União das Comores, e de Londres abandonar o arquipélago de Chagos e iniciar negociações com Buenos Aires sobre as ilhas Malvinas. Estes "campeões" da integridade territorial da Ucrânia fingem agora que não se lembram do significado dos acordos de Minsk, que consistiam na reunificação do Donbass com a Ucrânia, com garantias de respeito pelos direitos humanos fundamentais, principalmente o direito à sua língua materna. O Ocidente, que impediu a sua aplicação, é diretamente responsável pelo colapso da Ucrânia e pelo incitamento à guerra civil no país.

Entre outros princípios da Carta das Nações Unidas, cujo respeito poderia evitar uma crise de segurança na Europa e contribuir para harmonizar as medidas de confiança baseadas num equilíbrio de interesses, gostaria de referir o artigo 2º do capítulo VIII da Carta. Este artigo consagra a necessidade de desenvolver a prática da resolução pacífica de litígios com a ajuda de organizações regionais.

De acordo com este princípio, a Rússia, juntamente com os seus aliados, tem defendido consistentemente o estabelecimento de contactos entre a CSTO e a NATO, a fim de facilitar a implementação prática das decisões acima mencionadas das cimeiras da OSCE de 1999 e 2010 sobre a indivisibilidade da segurança, que estipulam, em particular, que "a nenhum Estado, grupo de Estados ou organização pode ser atribuída a responsabilidade primária pela manutenção da paz e da estabilidade na área da OSCE ou considerar qualquer parte desta região como sua esfera de influência". Todos sabem que era exatamente isto que a NATO estava a fazer – a tentar criar a sua vantagem total na Europa e agora na região da Ásia-Pacífico. No entanto, foram ignorados numerosos apelos dos mais altos órgãos da CSTO à Aliança do Atlântico Norte. A razão para uma posição tão arrogante dos Estados Unidos e dos seus aliados, como toda a gente pode ver hoje em dia, é a falta de vontade de conduzir um diálogo igualitário com quem quer que seja. Se a NATO não tivesse rejeitado as propostas de cooperação da CSTO, talvez isso tivesse evitado muitos dos processos negativos que conduziram à atual crise europeia, devido ao facto de a Rússia se ter recusado a ouvir ou ter sido enganada durante décadas.

Hoje, quando estamos a discutir o "multilateralismo efetivo" por sugestão da Presidência, não devemos esquecer os numerosos factos da rejeição genética do Ocidente a qualquer forma de cooperação igualitária. Que pérola a de Josep Borrell de que a Europa é "um jardim florido rodeado de selva". Trata-se de um síndroma puramente neocolonial que despreza a igualdade soberana dos Estados e as tarefas de "reforço dos princípios da Carta das Nações Unidas através de um multilateralismo efetivo" que estão hoje em dia em evidência no nosso debate.

Numa tentativa de impedir a democratização das relações interestatais, os Estados Unidos e os seus aliados privatizam cada vez mais, de forma aberta e sem cerimónias, os secretariados das organizações internacionais, contornando os procedimentos estabelecidos para as decisões sobre a criação de mecanismos subordinados com mandatos não consensuais, mas com a pretensão de se arrogarem o direito de culpar aqueles que, por qualquer razão, não agradam a Washington.

A este respeito, gostaria de vos recordar a necessidade de uma aplicação rigorosa da Carta das Nações Unidas, não só pelos Estados membros, mas também pelo Secretariado da nossa organização. Nos termos do artigo 100º da Carta, o Secretariado deve atuar com imparcialidade e não deve receber instruções de nenhum governo.

Já falámos do artigo 2º da Carta. Gostaria de chamar a atenção para o seu ponto-chave 1: "A Organização baseia-se no princípio da igualdade soberana dos Estados de todos os seus membros". Desenvolvendo este princípio, a Assembleia Geral da ONU, na Declaração de 24 de outubro de 1970 que mencionei, reafirmou "o direito inalienável de cada Estado de escolher o seu próprio sistema político, económico, social e cultural sem interferência de qualquer parte". A este respeito, temos sérias dúvidas quanto às declarações do Secretário-Geral António Guterres, de 29 de março, segundo as quais "o regime autocrático não garante a estabilidade, é um catalisador do caos e do conflito", mas "as sociedades democráticas fortes são capazes de se auto-corrigir e de se auto-aperfeiçoar. Podem estimular mudanças, mesmo radicais, sem derramamento de sangue ou violência". Involuntariamente, lembramo-nos das "mudanças" provocadas pelas aventuras agressivas das "democracias fortes" na Jugoslávia, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, na Síria e em muitos outros países.

Mais adiante, o estimado António Guterres afirmou que: "Elas (as democracias) são centros de ampla cooperação enraizados nos princípios da igualdade, da participação e da solidariedade". É digno de nota que todos estes discursos foram proferidos na "cimeira para a democracia" convocada pelo Presidente Joe Biden fora da ONU, cujos participantes foram selecionados pela administração dos EUA com base na lealdade – e não tanto a Washington como ao Partido Democrata no poder nos Estados Unidos. As tentativas de utilizar esses fóruns de encontro para discutir questões de natureza global contradizem diretamente o nº 4 do artigo 1º da Carta das Nações Unidas, que afirma a necessidade de "assegurar o papel da Organização como centro de coordenação de acções para atingir objetivos comuns".

Contrariamente a este princípio, há alguns anos, a França e a Alemanha proclamaram uma "aliança de multilateralistas", para a qual também convidaram apenas os obedientes, o que, por si só, reafirma a inevitabilidade da mentalidade colonial e a atitude dos iniciadores em relação ao princípio do "multilateralismo efetivo", hoje na ordem do dia. Ao mesmo tempo, foi implantada uma "narrativa" sobre a União Europeia como o ideal desse mesmo "multilateralismo". Bruxelas apela agora a que se alargue o mais rapidamente possível o número de membros da UE, incluindo, em particular, os países dos Balcãs. Mas o pathos principal não é o da Sérvia, nem o da Turquia, que há décadas conduz negociações de adesão sem esperança, mas o da Ucrânia. Afirmando-se como o ideólogo da integração europeia, Josep Borrell não hesitou recentemente em pronunciar-se no sentido de que o regime de Kiev deveria ser admitido na União Europeia tão logo quanto possível. Digamos que, se não fosse por causa da guerra, teria demorado anos, e desse modo– é possível e necessário sem quaisquer critérios. A Sérvia, a Turquia e outros ficarão à espera. Mas os nazis são aceites nas fileiras da UE sem entrar na fila.

Aliás, na mesma "cimeira para a democracia", o Secretário-Geral proclamou: "A democracia tem origem na Carta das Nações Unidas. As primeiras palavras da Carta – "Nós, os povos" – refletem uma fonte fundamental de legitimidade: o consentimento dos governados. É útil correlacionar esta tese com o "historial" do regime de Kiev, que desencadeou uma guerra contra uma grande parte do seu próprio povo – contra os milhões de pessoas que não aceitaram serem controladas pelos neonazis e russófobos que tomaram ilegalmente o poder no país e enterraram os acordos de Minsk aprovados pelo Conselho de Segurança da ONU, minando assim a integridade territorial da Ucrânia.

Aqueles que, contrariamente à Carta das Nações Unidas, dividem a humanidade em "democracias" e "autocracias", fariam bem em responder à pergunta: a que categoria atribuem o regime ucraniano? Não estou à espera de uma resposta.

Falando dos princípios da Carta, coloca-se a questão da relação entre o Conselho de Segurança e a Assembleia Geral. O "coletivo ocidental" tem promovido agressivamente e há muito tempo o tópico do "abuso do direito de veto" e conseguiu – através de uma pressão não muito correta sobre outros membros da ONU –uma decisão de considerar o tópico relevante na Assembleia Geral após cada aplicação deste direito, o qual o Ocidente está a provocar cada vez mais deliberadamente. Isto não é um problema para nós. As abordagens da Rússia a todas as questões da ordem do dia são abertas, não temos nada a esconder e não é difícil voltar a afirmar esta posição. Além disso, o recurso ao veto é um instrumento absolutamente legítimo, previsto na Carta, para evitar a adoção de decisões que poderiam provocar uma cisão na Organização. Mas, uma vez que o procedimento para discutir o uso do veto na Assembleia Geral foi aprovado, por que não pensar nas resoluções do Conselho de Segurança que não foram vetadas, que foram adotadas, inclusive há muitos anos, mas que não foram implementadas, apesar das disposições do artigo 25º da Carta. Porque é que a Assembleia Geral não considera as razões para este estado de coisas – por exemplo, no que diz respeito às resoluções do Conselho de Segurança sobre a Palestina e sobre toda a gama de problemas do Médio Oriente e Norte da África, sobre o JCPOA, bem como a Resolução 2202, que aprovou os acordos de Minsk sobre a Ucrânia.

O problema associado aos regimes de sanções também requer atenção. Já se tornou a norma: o Conselho de Segurança, após longas negociações – em estrita conformidade com a Carta – aprova sanções contra um país específico e, em seguida, os Estados Unidos e os seus aliados impõem restrições unilaterais "adicionais" contra o mesmo Estado que não foram aprovadas pelo Conselho de Segurança e não estão incluídas na sua resolução como parte do "pacote" acordado. Na mesma série, outro exemplo flagrante é a decisão que Berlim, Paris e Londres acabam de tomar, através das suas legislações nacionais, de "prorrogar" as restrições ao Irão que expiram em outubro e que estão sujeitas a um termo legal, de acordo com a Resolução 2231 do Conselho de Segurança da ONU. Ou seja, os países europeus e o Reino Unido declaram que a decisão do Conselho de Segurança expirou, mas não se preocupam com isso, têm as suas próprias "regras".

Tudo isto torna ainda mais urgente considerar a questão de que, após a adoção pelo Conselho de qualquer resolução de sanções, nenhum dos membros da ONU teria o direito de a desvalorizar, impondo as suas próprias restrições ilegítimas contra o mesmo país.

É igualmente importante que todos os regimes de sanções do Conselho de Segurança sejam limitados no tempo, uma vez que o seu carácter indefinido priva o Conselho de flexibilidade em termos de influência sobre as políticas dos "governos sancionados".

O tema dos "limites humanitários das sanções" também requer atenção. Seria correto que quaisquer sanções a submeter ao Conselho de Segurança fossem acompanhadas de avaliações das suas consequências para os cidadãos através das agências humanitárias da ONU, em vez de exortações demagógicas dos nossos colegas ocidentais [a dizerem] que "as pessoas comuns não sofrerão".

Caros colegas,

Os factos falam da mais profunda crise nas relações internacionais e da falta de desejo e vontade por parte do Ocidente para ultrapassar esta crise.

Espero que ainda exista e seja encontrada uma saída para esta situação. Para começar, todos têm de assumir a responsabilidade pelo destino da nossa Organização e do mundo – num contexto histórico, e não do ponto de vista de alinhamentos eleitorais oportunistas e momentâneos nas próximas eleições nacionais de um Estado-Membro. Permitam-me que vos recorde mais uma vez: há quase 80 anos, ao assinarem a Carta das Nações Unidas, os líderes mundiais concordaram em respeitar a igualdade soberana de todos os Estados – grandes e pequenos, ricos e pobres, monarquias e repúblicas. Por outras palavras, já nessa altura, a humanidade reconhecia a necessidade de uma ordem mundial igualitária e policêntrica como garantia da estabilidade e da segurança do seu desenvolvimento.

Por isso, hoje não se trata de nos submetermos a uma qualquer "ordem mundial baseada em regras", mas sim de cumprirmos com todas as obrigações assumidas aquando da assinatura e ratificação da Carta na sua totalidade e interligação.

Obrigado pela atenção.

*Ministro dos Negócios Estrangeiros da Federação Russa.
                                                                                                                                21/09/2023

Fonte em inglês: karlof1’s Substack

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

QUANDO AS AUTORIDADES FAZEM SILÊNCIO SOBRE A RÚSSIA E A OTAN EM VOZ ALTA

No entanto, hoje, qualquer outra pessoa que diga que Putin ou o establishment russo realmente veem a crescente integração da Ucrânia na OTAN como uma ameaça à segurança é suscetível de receber todo o tipo de acusações esdrúxulas.


Por Branko Marcetic*

Desde o início da invasão russa da Ucrânia, foi-nos dito que a questão da expansão da OTAN é irrelevante para a guerra, e que quem a levanta está, na melhor das hipóteses, a papaguear involuntariamente a propaganda do Kremlin, na pior das hipóteses, a pedir desculpa ou a justificar a guerra.

Por isso, foi curioso ver o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, no início deste mês, dizer explicitamente que o Presidente russo, Vladimir Putin, lançou a sua guerra criminosa como reação à possibilidade de a OTAN se expandir para a Ucrânia e à recusa da aliança em jurá-la – não uma ou duas vezes, mas três vezes separadas.

"O presidente Putin declarou no Outono de 2021, e na verdade enviou um projecto de tratado que eles queriam que a OTAN assinasse, para prometer não mais alargamento da OTAN", disse Stoltenberg numa reunião do comitê conjunto do Parlamento Europeu em 7 de Setembro. "Foi isso que ele nos enviou. E [isso] era uma pré-condição para não invadir [sic] a Ucrânia. Claro que não assinamos isso."

"Ele foi para a guerra para impedir a OTAN, mais OTAN, perto das suas fronteiras. Ele tem exactamente o oposto", reiterou Stoltenberg, referindo-se à adesão da Suécia e da Finlândia à aliança em resposta à invasão de Putin. A sua entrada, insistiu mais tarde, "demonstra que quando o Presidente Putin invadiu um país europeu para impedir mais OTAN, está a fazer exatamente o contrário".

Não está claro se Stoltenberg estava se referindo ao projecto de tratado apresentado por Putin em Dezembro de 2021 e simplesmente misturou as estações (as disposições de cada uma são as mesmas), ou se ele está se referindo a um incidente anterior, ainda não relatado. De qualquer forma, o que Stoltenberg afirma aqui – que Putin via a entrada da Ucrânia na OTAN como tão inaceitável que estava disposto a invadir para impedi-la, e apresentou uma proposta de negociação que poderia tê-la impedido, apenas para a OTAN rejeitá-la – foi repetidamente feito por aqueles que tentam explicar as causas da guerra e como ela poderia ser encerrada, apenas para ser descartado como propaganda.

A única conclusão lógica, se formos ouvir os falcões, é que o homem responsável pela própria aliança que ajuda a Ucrânia a defender-se de Putin está, de facto, a trabalhar para o líder russo e a espalhar a sua propaganda.

Este não é o único caso de um membro do establishment da OTAN. Testemunhando ao Comitê de Serviços Armados do Senado em Maio deste ano, a diretora de Inteligência Nacional dos EUA, Avril Haines, disse, ao lado do diretor da Agência de Inteligência de Defesa, tenente-general Scott Berrier, que "avaliamos que Putin provavelmente reduziu suas ambições imediatas de (...) garantindo que a Ucrânia nunca se tornará um aliado da NATO." Mais cedo em seu depoimento, Haines havia dito que a invasão de Putin havia saído pela culatra ao "precipitar os próprios eventos que ele esperava evitar, como a adesão da Finlândia à OTAN e a petição da Suécia para aderir".

Da mesma forma, em uma entrevista de Março de 2023 ao jornal alemão Die Zeit, a especialista em Rússia Fiona Hill – que atuou como analista de inteligência nos presidentes George W. Bush e Barack Obama, bem como no Conselho de Segurança Nacional sob o presidente Donald Trump – disse ao jornal que "sempre foi óbvio que o alargamento da OTAN à Ucrânia e à Geórgia era uma provocação para Putin". No entanto, a afirmação oposta, de que a invasão foi inteiramente "não provocada", tornou-se um artigo de fé no discurso ocidental que esta palavra é omnipresente em reportagens e declarações oficiais sobre a guerra.

Numa nota semelhante, um relatório de Agosto de 2022 do Washington Post baseado em "entrevistas aprofundadas com mais de três dúzias de altos funcionários dos EUA, Ucrânia, Europa e OTAN" relatou quatro casos separados de altos funcionários russos dizendo a seus colegas americanos no período que antecedeu a guerra que a expansão da OTAN era uma parte central das queixas que motivaram o acúmulo ameaçador de tropas de Moscovo. Isso incluiu o próprio Putin, que disse ao presidente Joe Biden numa videochamada em Dezembro de 2021 "que a expansão para o leste da aliança ocidental foi um factor importante em sua decisão de enviar tropas para a fronteira da Ucrânia", de acordo com o relatório.

Até certo ponto, isso não é surpreendente. Como os analistas, jornalistas, políticos e outros que apontam a expansão da OTAN como uma das principais causas da guerra documentaram copiosamente, as décadas anteriores à invasão viram inúmeros membros do establishment de segurança nacional de Washington, desde o famoso estratega da Guerra Fria George Kennan e o actual diretor da CIA, William Burns, até um desfile de diplomatas, oficiais militares, líderes da OTAN e até o próprio Biden, alertam que a inclinação da aliança para leste era uma fonte fundamental de infelicidade russa e que provocaria hostilidade e agressão russas – ou mesmo desencadearia guerra.

Mas o que antes era incontroverso e amplamente reconhecido antes da invasão tornou-se verborrágico desde o seu início, em fevereiro de 2022, à medida que o debate ou a dissidência sobre a questão da guerra e a política dos EUA e da Europa em relação a ela foram reprimidos, muitas vezes através de táticas McCarthyite viciosas. O tema tornou-se verboten, isto é, a menos que você seja um funcionário dos EUA ou da OTAN.

Também não são apenas funcionários individuais. Elementos deste argumento supostamente originário do Kremlin também aparecem nos principais documentos do governo dos EUA. Veja-se, por exemplo, a Avaliação Anual de Ameaças divulgada pelo Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional um ano após o início da invasão. Destinado a refletir as "percepções coletivas" das várias agências de inteligência de Washington, o relatório afirma que espera que Moscovo continue "a se inserir em crises quando vê os seus interesses em jogo, os custos previstos de acção são baixos, vê uma oportunidade de capitalizar um vácuo de poder ou, como no caso de seu uso da força na Ucrânia, percebe uma ameaça existencial na sua vizinhança que poderia desestabilizar o governo de Putin e colocar em risco a segurança nacional russa."

No entanto, hoje, qualquer outra pessoa que diga que Putin ou o establishment russo realmente veem a crescente integração da Ucrânia na OTAN como uma ameaça à segurança é suscetível de receber todo o tipo de acusações esdrúxulas.

Tal como acontece com as palavras dos funcionários, você pode encontrar pontos semelhantes em documentos anteriores à guerra. Um documento da Escola Superior de Guerra do Exército dos EUA de 2020 afirma que "futuras admissões na OTAN para Estados no exterior próximo da Rússia provavelmente serão recebidas com agressão". Um documento de 2019 da RAND Corporation, financiada pelo Pentágono – e patrocinado pelo Escritório Quadrienal de Revisão de Defesa do Exército – afirma explicitamente que o medo do Kremlin de um ataque militar directo dos Estados Unidos é "muito real", além de que "fornecer mais equipamentos e conselhos militares dos EUA [à Ucrânia na guerra do Donbas] poderia levar a Rússia a aumentar o seu envolvimento directo no conflito e o preço que paga por isso, ", incluindo "a montagem de uma nova ofensiva e a tomada de mais território ucraniano". A Estratégia de Segurança Nacional de 2017 afirma categoricamente que "a Rússia vê a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a União Europeia (UE) como ameaças".

É o paradoxo central do actual discurso de guerra: o que é amplamente reconhecido pelos formuladores de políticas e funcionários ocidentais nos corredores do poder, que dependem de uma compreensão do mundo baseada em evidências para moldar a política externa, é indescritível em qualquer lugar fora deles.

O que está em jogo é mais importante do que apenas apontar o dedo e distribuir culpa. Ao recusarmo-nos firmemente a compreender uma das causas fundamentais da guerra e o papel dos EUA e da NATO na mesma, continuaremos a falhar em acabar com ela e em garantir uma paz duradoura, levando a muito mais mortes ucranianas e a muitos mais anos de vida à sombra da catástrofe global.


Branko Marcetic é redator da revista Jacobin e autor de Yesterday's Man: the Case Against Joe Biden. O seu trabalho já apareceu no Washington Post, The Guardian, In These Times e outros.

Fonte: Responsible Statecraft

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

A UNIÃO EUROPEIA CONTRA A HISTÓRIA!

Não é a UE quem mais financia o “apoio à Ucrânia”, são os EUA, o que denuncia a quem interessa este conflito. Os EUA não pagam um cêntimo – nem através do papel que imprimem a que chamam de Dólar – por algo que não lhes seja útil; mas pagam todo o papel do mundo, se algo fizer parte da sua estratégia hegemónica. Não foi dos principais países Europeus – França, Itália, Alemanha ou Espanha – que nasceu a tentação de fazer da Ucrânia um território NATO. Muito pelo contrário. Foram os países Europeus que, no passado, impediram a Geórgia de fazer parte da aliança, precisamente para não acossarem a Rússia, país com que pretendiam manter-se em paz.

Por Hugo Dionísio
Comentário político baseado em factos concretos. O facto concreto e realmente verificado constitui a base de uma análise política objectiva

Apesar de estar titulado como “Respondendo ao chamado histórico”, O discurso de Ursula Von Der Leyen deixou a história sem resposta. Diria que visa mesmo contrariá-la, pois, afinal, a história humana é a história pela libertação de todas as formas de opressão e exploração. É precisamente contra essa história que luta o discurso da CEO designada para a comissão europeia!

Como uma diligente e bem-comportada CEO, a nunca eleita, mas plenipotenciária, Úrsula Von Der Leyen, esgrime todos os pontos e argumentos que era suposto. Um deles é o alargamento da UE. Este alargamento, que pode nunca acontecer – mas isso são outras contas -, por si só seria motivo para a Turquia abandonar, de forma imediata, a NATO e a proposta de adesão. Afinal, por tantos anos foi congelada a adesão da Turquia, usando-se argumentos falaciosos como “os direitos humanos”, e, de uma assentada, a UE abre todas as vias de acesso (fast-track) a um país com uma constituição integralista (que define quem é e quem não é “Ucraniano” original, com base numa suposta etnia, que, por acaso até cheira a polaca); um país que persegue e oprime os direitos políticos, religiosos e culturais das etnias que considera forasteiras… Expliquem-me como é que a Turquia não se ressente com isto? Alguém acredita que a Turquia é menos democrática que a Ucrânia? E Portugal? O que beneficiaria com um alargamento destes? Perder a única fonte de investimento público que ainda lhe resta? Os fundos estruturais?

O discurso de Úrsula é, uma vez mais, uma denunciada colagem aos interesses dos EUA. O próprio jargão político-administrativo utilizado denuncia essa realidade. O “Parlamento” passou a chamar-se de “Casa” – referência à “House” norte-americana -, os regulamentos e directivas passaram a designar-se “actos” – referências às leis federais norte-americanas “acts” – e até o próprio evento, não sendo a designação nova, não deixa também de denúncia a colagem – o “estado da União” por referência a “State of the Union Adress” norte-americana.

Disse Úrsula que “a guerra se ouve nas nossas fronteiras”, o que me leva a questionar que guerra é essa! Será a mesma guerra nas mesmas fronteias que o Presidente Marcelo designou de “nossas fronteiras” com a Federação Russa? É sintomática a conexão orgânica entre todas as figuras de proa do poder político europeu, talvez com excepção de Orban, na Hungria. Em todos ouvimos a mesma cassete…

Disse a CEO da Comissão Europeia que, durante o seu mandato (diria mais “comissão em serviço”), assistimos ao surgimento de uma “União geopolítica – apoiando a Ucrânia, enfrentando a agressão Russa, respondendo a uma China assertiva e investindo em parcerias”.

Vale a pena parar em cada um destes pilares da “europa geopolítica”. Primeiro, importa, desde logo, dizer que a União Europeia como entidade Geopolítica está longe de ser uma construção de Úrsula ou dos seus mestres actuais. A UE sempre foi, desde os primórdios da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, uma construção geopolítica, como não poderia deixar de ser. O papel da chamada “construção europeia”, no quadro da “ameaça vermelha”, constitui o pilar fundador desta entidade “geopolítica”. Hoje, esgotado esse papel, a missão da UE é o de servir de muleta geoeconómica, mercado preferencial e reserva de recursos dos EUA. Ou seja, a “entidade geopolítica” que Úrsula diz ter construído é uma falácia, tratando-se mais de um apêndice geopolítico. Tal como sucedeu no G20, a UE não existe sozinha, só como os EUA; A UE só tem ideias que coincidam com os planos geopolíticos dos EUA; a UE é uma cartada geopolítica jogada pelos EUA, de um baralho que cada vez mais se confina à realidade do G7 e restantes súbditos. A UE é apenas a mordaça que contém, submete e aniquila, o orgulho e as soberanias nacionais dos países europeus. É a jaula que os prende a uma existência mesquinha, dependente, subserviente e secundarizada aos interesses hegemónicos de Washington.

Não é a UE quem mais financia o “apoio à Ucrânia”, são os EUA, o que denuncia a quem interessa este conflito. Os EUA não pagam um cêntimo – nem através do papel que imprimem a que chamam de Dólar – por algo que não lhes seja útil; mas pagam todo o papel do mundo, se algo fizer parte da sua estratégia hegemónica. Não foi dos principais países Europeus – França, Itália, Alemanha ou Espanha – que nasceu a tentação de fazer da Ucrânia um território NATO. Muito pelo contrário. Foram os países Europeus que, no passado, impediram a Geórgia de fazer parte da aliança, precisamente para não acossarem a Rússia, país com que pretendiam manter-se em paz. Do lado da Alemanha, a relação era fundamental para o bem-estar do seu povo, como para a França, Áustria, Holanda e países do Leste. Apenas dois países apareciam repetidamente com esta tentação: EUA e Inglaterra! Este “apoio à Ucrânia” é tudo menos uma pretensão europeia, sendo, este conflito, resultado exclusivo da vontade americana, com a conivência, aí sim, dos “líderes” europeus eleitos a partir de 2007. Líderes cirurgicamente escolhidos, condicionados e instrumentalizados para nos prenderem a todos ao passado e presente colonial e imperialista.

A resposta à “assertiva China” vai pelo mesmo caminho. Todos conhecemos o início do discurso anti-Chinês, com a guerra de Trump à Huawei e a imposição e tarifas comerciais. A UE, nessa altura manteve-se imóvel, congelada, aprofundando os níveis e cooperação e investimento, o que fez até há muito pouco tempo. O crescimento do colosso oriental e a ameaça que introduz à hegemonia dos EUA – a UE como ponto de encontro de continentes não tem qualquer vantagem nesta estratégia -, constitui a única razão da classificação da China como um risco. Até à estratégia Biden do Indo-Pacífico, do AUKUS e da “contenção da China”, a UE não tinha qualquer doutrina concertada em matéria de “ameaça Chinesa”. Portugal aceitou a Huawei, negociou a instalação de uma fábrica de baterias, vendeu-lhes – a meu ver erradamente – a EDP e parte da GALP, adjudicou obras, abriu as portas ao oriente. Hoje, a falta de independência a que governantes submissos como Marcelo e Costa votam Portugal, faz tudo isto perigar, com consequências graves para os trabalhadores e suas famílias.

Outro aspecto do discurso é o “investimento em parcerias”. Não existe uma parceria internacional da UE que não se enquadre: 1. Nas estratégias hegemónicas e geopolíticas norte-americanas; 2. Que não seja estabelecida com países e organizações que têm o beneplácito norte-americano; 3. Cujo resultado do investimento não tenha um retorno directo para Washington, seja económico, militar, político, ou todos juntos! Nada! Seja o corredor económico India-Arábia Saudita-Europa; seja a linha ferroviária entre o porto do Lobito, em Angola e a República Democrática do Congo; qualquer uma destas vias alternativas às rotas da seda chinesas, a que a UE chama de “global gateways” (ligações globais), está integrada na estratégia de Biden “um mundo, uma família, um futuro” e da “Buildbackbetter” (fazer bem outra vez). O benefício é, sobretudo, norte americano, mas seremos nós que pagaremos os 300 biliões de “investimento”. Tudo para que os EUA tenham os metais raros africanos, de que necessitam, para a sua re-industrialização.

Diz então Úrsula que, agora, estamos mais “independentes” em sectores críticos como a “energia”, os “semicondutores” e “matérias primas”. O mundo de Úrsula é um mundo fantástico! Nada lhe falta. É como o do CEO do Serviço Nacional de Saúde, que “gere” o SNS e usa serviços de Saúde do privado! Uma lástima! O problema destes mundos maravilhosos desta aristocracia burocrática, é que estão em colisão directa com os mundos das pessoas reais. Ao que julgo saber, a UE continua a comprar energia russa, apenas tendo trocado a posição do principal fornecedor, passando os EUA para primeiro lugar. Em troca, a UE perdeu um gasoduto que garantia fornecimento rápido, em qualidade e mais barato. Agora, tem de receber o gás em barcos. Não percebo que raio de independência é esta e como a UE se tornou mais energeticamente independente, aumentando a sua dependência em relação a um só fornecedor, muito mais caro e recebendo o gás através de logísticas mais complexas e com mais riscos.

A independência em “semicondutores” é caricata. Pois não consta que a UE seja local de produção em massa de “semicondutores”. O que a UE produz, isso sim, são máquinas litográficas, na Holanda, através da empresa ASML. A “independência” é tal que fazemos as máquinas mas compramos os semicondutores a Taiwan, à China (agora menos por causa das sanções – mais independência) e aos EUA. Acresce que, a ASML, como resultado da política de sanções norte-americanas, contra o desenvolvimento tecnológico Chinês, se viu impedida – a agravar-se principalmente a partir do final deste ano – de vender as suas máquinas mais caras e avançadas ao seu principal mercado, a China! O que lhe tem provocado uma queda abrupta nas suas receitas. Ora, se prescindir de um dos principais fornecedores de chips baratos; se ter de cumprir uma lei sancionatória que não é europeia, nem do interesse europeu; se assistir à disrupção das cadeias de abastecimento numa área fundamental; se ficar totalmente dependente dos EUA nesta matéria, e não mandar sequer na sua industria para este efeito, significa ser “mais independente em semi-condutores”…

E nas matérias primas… O mesmo que no gás! Antes estavam aqui ao lado; baratinhas e boas, rápidas e em quantidade. A UE podia também ir comprar terras raras à China, à Rússia. Hoje, vê-se obrigada a ir buscar o que antes tinha barato e rápido, ao outro lado do mundo (américa latina), mais caro e em menos quantidade, disputando o mercado com outros potentados regionais. Acresce que, resultado da política de sanções norte-americanas a alguns metais raros de origem chinesa, a UE, vê-se impedida também de os ir lá buscar. Como é que isto é ser mais independente?

Mas esta farsa continuou ao longo de todo o discurso. É interessante quando Úrsula fala da “resposta ás alterações climáticas” e do papel europeu nesta matéria. Quem a ouviu ficou com a impressão que o mundo pode ser salvo pela própria União Europeia. Um “planeta Saudável”, como disse. Alguém explique como é que ir buscar energia e matérias primas a locais mais distantes, gastando mais energia para os trazer e mais dinheiro, contribui para isto. Como é que substituir gás por carvão salva o planeta? Como é que transferir a base industrial da china para a India, onde as exigências ambientais ainda são menores, salva o planeta? Mas, não vivemos todos no mesmo planeta, ou a CEO da Comissão europeia vive num planeta à parte? Na Lua, por exemplo? E que tal produzir aqui, na Europa, em Portugal e substituir as importações? Não? Que tal produzir e consumir localmente e apenas comprar fora o que não se produz aqui, taxando como luxo tudo o que seja importado sem necessidade? Também não? Pois…

Mas o melhor estava guardado para a parte da “competitividade” e da “concorrência desleal”. Depois de dizer que as “nossas empresas tecnológicas gostam de competir”, “elas sabem que a competição é boa para os negócios”, “a competição protege e cria bons empregos na europa” … Ela vem falar em competição “verdadeira” e “justa”. Para atacar quem? A China, claro.

E é neste ponto que temos a confirmação sobre quem é que está aos comandos do drone Von Der Leyen. Se antes víamos uma criatura desprovida de vontade, que se limitava a papaguear agendas pré-determinadas… Nesta matéria conseguimos vislumbrar, por reflexo, a cara do piloto. Biden aprovou um “ACT” para as indústrias estratégicas para a “segurança nacional” dos EUA, que visou beneficiar e subsidiar as empresas norte-americanas de semicondutores e desviar tecnológicas europeias para o seu território. À data, o próprio Sholz deu sinais de poder ficar furioso. Pensou nisso e acordou!

Eis que o ataque é feito à China e aos subsídios que o estado Chinês dá às empresas. Eu já nem falo dos mais de 10 trilhões de dólares que os EUA enterraram empresas e bancos, desde a crise de 2008. A própria indústria automóvel americana recebeu biliões de dólares no tempo de Obama, para se restruturar. Parte dessa restruturação está, hoje, visível na fusão entre a PSA francesa, a FIAT-Chrysler, criando a Stellantis. O próprio estado francês tem 6% do maior construtor mundial de automóveis. Mas a CEO da Comissão Europeia diz que é a China quem financia as suas empresas a partir do estado. E é claro que o faz, todos o fazem. Daí que Úrsula queira aprovar um “acto” “anti-subsidios” que investigue o desenvolvimento de veículos eléctricos chineses e possa levar à sua proibição nos mercados europeus. Segundo ela diz, são muito “baratos”. Os Chineses cometem o “crime” de querer fazer carros eléctricos para todos!

Assim, querendo que os Europeus paguem mais por automóveis, do que o que devem, Úrsula esconde que, também a UE, financia de forma regular o sector privado. Todos o fazem! E mais, acusa a china de financiar a “investigação” de veículos eléctricos. Isto quando a UE tem um programa temático dirigido ao sector privado chamado “mercado único, inovação e emprego”. Fantástica hipocrisia, certo?

Vamos lá a ver se nos entendemos: eu não sou contra o investimento público; eu não sou contra o proteccionismo dos estados, para defenderem a sua indústria, os seus postos de trabalho. Pelo contrário. Eu sou contra a mentira e os falsos pretextos e, ainda mais, contra a manipulação e a dissimulação. Usar este pretexto contra a China? OK… E os EUA? E o Japão? E a Coreia do Sul? Fazê-lo para proteger a indústria automóvel europeia? Certo! Mas… E então a ameaça americana, japonesa e coreana? Ou, o propósito é defender esses todos? Mesmo contra os interesses do povo trabalhador europeu?

Diz Úrsula que os veículos eléctricos “são bons para o ambiente”. Então…, mas tê-los baratos não é bom? A UE, na Estratégia 2020 aprovou 142 biliões para a competitividade, 420 para o crescimento sustentável e recursos naturais, 371 para a coesão económica, social e territorial. Na estratégia 2030, agora a iniciar o ciclo de financiamento, foram 166 biliões para o mercado interno, inovação e digitalização; 336 para o ambiente e recursos naturais e 392 para a coesão. Uma fatia importantíssima destes fundos vai parar às empresas privadas. Por exemplo, em Portugal, dos 2.9 biliões de euros para empresas, mil milhões foram para as médias empresas e 932 milhões para as grandes. Para investigação, digitalização, internacionalização… Apenas do PT 2020 e sem contar com os fundos da formação profissional (outros mil milhões), para competências, com os fundos para transição energética e ambiental ou os fundos para agricultura, pescas e outros mais. São muitos, muitíssimos milhões, apenas da UE, pagos pelos trabalhadores – não contando também com fundos nacionais que vão dos Lay-off à formação profissional e estágios profissionais – que vão parar às empresas privadas.

O que se passa coma China é um problema bem diferente: É que, pela primeira vez, na história dos últimos 500 anos, os EUA e a UE (o bloco imperialista e hegemónico) passaram a ter um competidor de peso, em todas as áreas, capaz de os suplantar em tudo! Na qualidade e no preço! E, ao mesmo tempo, melhorando paulatinamente as condições de vida do seu povo.

Este desafio demonstra toda a falácia da teoria liberal, do mercado livre e da concorrência. É fácil defendê-lo quando se têm as melhores universidades, as melhores competências, a maior fatia de capital acumulado, a moeda mundial de reserva, o sistema interbancário de trocas, o FMI, o Banco Mundial e tudo mais. Quando se domina isto tudo, e usamos o sistema para manter distâncias relativas, deixando os mais pobres subirem apenas o suficiente para que não sejam ameaça (quando sobem), mantendo as dependências e as interdependências que alimentam a submissão… Assim é fácil ser “liberal”. Logo que surge um competidor a sério, com armas a sério, com capital, conhecimento e capacidade organizativa… Os “liberais” passam logo a proteccionistas. Mas fazem-no à “liberal”, ou seja, mentindo e inventando desculpas. Admitir as verdades não está na sua matriz, pois tudo para eles é marketing, é venda, é logro.

É como dizer-se que a UE é “democrática”. Uma estrutura não eleita, como a comissão europeia, manda em tudo, de forma omnipotente, mas é “democrática”!

A UE não “responde à história”. A UE luta contra ela, tentando manter as estruturas de submissão, das quais o sul global se tenta libertar! A UE, precisamente, nãos e dá conta de que a sua própria existência, tal como a do capitalismo, é “histórica”, passageira, contextual, transitória…

E é esse o drama de Von Der Leyen e dos seus mandantes!

Fonte: Canal-Factual


terça-feira, 19 de setembro de 2023

ZELENSKY E A UCRÂNIA USAM TÁCTICAS DE CHANTAGEM TOXICAS PARA CONSEGUIREM O QUE QUEREM

A Ucrânia e o Ocidente estão começando a parecer um casal que persiste num relacionamento tóxico estritamente para aparências, preocupado com o que todos os vizinhos diriam se um dia se separassem, e usando um ao outro o máximo que puderem até que tudo termine em lágrimas – ou na Terceira Guerra Mundial.

Por Rachel Marsden


Kiev tornou-se adepta de manipular os seus apoiantes para se curvar aos seus caprichos.

Quantas vezes o presidente ucraniano, Vladimir Zelensky, e a sua comitiva dissecaram os seus amigos ocidentais por não atenderem às expectativas de Kiev?

No exemplo mais recente, o conselheiro de Zelensky, Mikhail Podolik, chamou instituições ocidentais como a Agência Internacional de Energia Atômica, a Cruz Vermelha Internacional e a Amnistia Internacional de "organizações fictícias que poluem as nossa consciência com avaliações absolutamente de lixo". Ele também atacou as Nações Unidas como uma "organização bastante ausente" e um "escritório de relações públicas ou um escritório de lobby para ganhar dinheiro para uma velhice feliz para pessoas que ocupam certos cargos de liderança".

Ele está a começar a soar como seu anti-globalista médio, que não é exactamente a equipa que o patrocina.

Há uma explicação bem fácil, porém. É como quando um tipo que é um sólido dois em cada dez na escala de atractividade quer ficar com alguém que ele considera um sólido dez. Então, numa tentativa de cortar o seu objecto de interesse até ao seu nível, ele começa a fazer pequenos insultos sugerindo que ela não é tão deliciosa, como, "Ei, tu quebraste o nariz ou sempre foi assim?" É uma técnica notória de pick-up conhecida como 'negging'.

A Ucrânia é notoriamente corrupta, e essa corrupção é rotineiramente evocada como uma razão pela qual a UE não pode atualmente se comprometer a torná-la membro. Kiev diz, no entanto, que estará pronta para aderir à UE em dois anos - o que é como um incendiário dizendo que estará pronto para se juntar ao corpo de bombeiros em dois anos porque está confiante de que o seu hábito de iniciar incêndios será eliminado até lá - embora tenha acabado de incendiar um prédio na semana passada.

Além de ser amiga da UE, há também o facto de que a OTAN também não fará um compromisso firme com a Ucrânia, além de usá-la para chamar a atenção do verdadeiro objecto das suas obsessões: a Rússia. Assim, a comitiva de Zelensky começou a negar todas essas grandes instituições lideradas pelo Ocidente, efetivamente dizendo: "Não somos corruptos... Você é corrupto! Toda essa conversa sobre namorar e não poder se comprometer com a Ucrânia por causa dos seus altos padrões, mas tu não és exactamente uma grande pega." Essa é a mensagem.

Além da negação, houve também o tropeço de culpa. A ministra dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Annalena Baerbock, não quis usar os mísseis de longo alcance Taurus que Zelensky queria durante uma visita a Kiev nesta semana, resultando no chefe da diplomacia ucraniana acusando Berlim de "perder tempo" e dizendo que Kiev receberia as armas eventualmente de qualquer maneira. Baerbock acabou oferecendo € 20 milhões (R$ 21,5 milhões) como prêmio de consolação, que deve comprar a Berlim cerca de dez minutos de silêncio, da mesma forma que os pais pagam aos seus filhos com doces para que eles possam assistir ao seu programa de TV favorito em paz e sossego. A causa raiz do garoto ser um pirralho exigente, pretensioso e mimado nunca é realmente abordada se você continuar apaziguando-o. E a causa principal aqui é a total falta de vontade da Ucrânia em negociar com a Rússia, com Zelensky dizendo que "não está interessado" em conversas com o presidente russo, Vladimir Putin. Em vez disso, Zelensky fala que o problema é "a Rússia permanecer em território ucraniano", ignorando totalmente o facto de que ele permitiu que o seu país se tornasse uma casa de fracasso para os interesses agressivos de mudança de regime de Washington.

E além da negação e do tropeço de culpa, houve também as ameaças não tão subtis.

Zelensky não hesitou em ameaçar a UE e, ao mesmo tempo, exigir a entrada dela. Uma das razões é que Polônia, Hungria e Eslováquia impuseram proibições ao despejo de grãos ucranianos em seu território, depois que uma medida semelhante a nível da UE expirou na semana passada. Um excesso de cereais, que inundaria o mercado e baixaria o preço da oferta dos seus próprios agricultores, é particularmente um problema para a Polónia antes das eleições nacionais deste Outono.

"A Ucrânia é fortemente contra quaisquer restrições adicionais à exportação de nossos grãos." Zelensky disse em resposta à proibição contínua. "A Ucrânia está a lutar pela vida e pelos nossos valores europeus comuns no campo de batalha (...) se tivermos de lutar pela Ucrânia e pelos alicerces da nossa Europa comum na arbitragem, lutaremos... Se precisarmos lutar nas plataformas das organizações internacionais, lutaremos lá também." Quem diria que um tipo que fosse inundado com dinheiro do contribuinte de todo o mundo ocidental se tornaria um grande defensor do livre mercado? É mais ou menos como quando Zelensky efectivamente prometeu limpar Wall Street no ano passado, ameaçando grandes instituições financeiras ocidentais, como JPMorgan Chase, Citi e HSBC, e os seus gerentes, com processos por crimes de guerra por se envolverem com empresas que vendem e comercializam petróleo ou gás russo ou em acções de energia russas, como a Gazprom, Rosneft, Lukoil, e Vitol.

E ainda esta semana, Zelensky explicou numa entrevista à revista The Economist que há um perigo real para a UE por parte dos ucranianos. Ele disse à publicação que, se não conseguir o que quer em termos de ajuda, os refugiados ucranianos podem se sentir abandonados e, se se sentirem "empurrados para um canto", podem reagir à imprevisibilidade. Sem dúvida, os refugiados ucranianos apreciariam Zelensky descrevendo o seu próprio povo como uma espécie de agentes adormecidos que poderiam se ativar contra a UE se ele não conseguisse o que quer.

A Ucrânia e o Ocidente estão começando a parecer um casal que persiste num relacionamento tóxico estritamente para aparências, preocupado com o que todos os vizinhos diriam se um dia se separassem, e usando um ao outro o máximo que puderem até que tudo termine em lágrimas – ou na Terceira Guerra Mundial.

                                                                                        
Rachel Marsden é colunista, estrategista política e apresentadora de talk-shows produzidos de forma independente em francês e inglês. Seu site pode ser encontrado em rachelmarsden.com.


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