
Muitos líderes europeus reunidos em Davos pareciam partilhar deste sentimento. "Ser um vassalo feliz é uma coisa, ser um escravo infeliz é outra", observou o primeiro-ministro belga Bart De Wever.
Por Thomas Fazi
As nações europeias não podem ser soberanas dentro da OTAN.
A reunião anual do Fórum Económico Mundial em Davos não é conhecida por ser um foco de resistência anti-imperialista, muito menos pela sua retórica antiamericana. No entanto, esse tom prevaleceu inegavelmente em muitos discursos feitos no último Fórum.
A intervenção mais marcante e controversa veio do primeiro-ministro canadiano Mark Carney (que analisei em detalhe aqui). Carney proclamou abertamente a morte da chamada "ordem internacional baseada em regras", chegando a questionar a sua própria existência. Ele admitiu que essa ordem sempre foi, ao menos em parte, uma farsa: uma farsa em que o poder hegemónico aplicava seletivamente as regras para servir os seus interesses, enquanto os poderes subordinados participavam nessa farsa porque lucravam com ela.
Mas este acordo, segundo Carney, desmoronou quando os EUA voltaram os seus instrumentos de coerção contra os seus próprios aliados ocidentais. "Não é soberania. É exercer soberania ao aceitar a subordinação", disse ele, claramente aludindo às ameaças de Trump contra a Gronelândia e o Canadá.
A conclusão de Carney é que as potências médias ocidentais devem romper as fileiras do hegemão e coordenar-se para lhe resistir.
Muitos líderes europeus reunidos em Davos pareciam partilhar deste sentimento. "Ser um vassalo feliz é uma coisa, ser um escravo infeliz é outra", observou o primeiro-ministro belga Bart De Wever. "Este não é o momento para um novo imperialismo ou um novo colonialismo", disse o presidente francês Emmanuel Macron. Perante o unilateralismo agressivo de Trump, "é hora de aproveitar esta oportunidade e construir uma Europa nova e independente", disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
Estas declarações levaram alguns comentadores a sugerir que as tensões transatlânticas, latentes desde o regresso de Trump ao poder, estão a escalar para uma revolta contra Washington. No entanto, uma análise mais atenta revela uma realidade muito diferente.
Uma primeira pista é que todos os líderes europeus reunidos em Davos, incluindo o próprio Carney, reafirmaram o seu compromisso com a OTAN e a guerra por procuração na Ucrânia. Como alguém pode afirmar de forma credível buscar a "independência" dos Estados Unidos enquanto permanece firmemente integrado na OTAN – o principal instrumento pelo qual Washington há muito subjuga militarmente os seus "aliados" ocidentais – e apoia ativamente uma guerra por procuração que tem sido o principal motor do declínio económico da Europa e da hipervassalização geopolítica?
Hoje, fala-se de uma chamada "OTAN Europeia", uma OTAN sem os Estados Unidos. Mas isto é uma ilusão. A OTAN está estruturalmente incorporada na liderança, capacidades e estruturas de comando dos EUA. Portanto, o rearmamento europeu no seio da OTAN não representa uma ruptura com a ordem estabelecida; pelo contrário, reforça o sistema atlantista e acentua a dependência estrutural da Europa do poder americano. Isto deve dissipar qualquer ilusão de autonomia europeia ou soberania estratégica.
A Gronelândia é o exemplo mais marcante da distância entre retórica e realidade. Publicamente, os líderes europeus apresentam-se como defensores da soberania dinamarquesa, condenando as ameaças de anexação de Trump como violações do direito internacional. No entanto, na prática, já tomaram medidas para militarizar a Gronelândia – e o Ártico em geral – no âmbito da OTAN. O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, deixou claro em Davos: "O presidente Trump e outros líderes têm razão. Precisamos de fazer mais. Devemos proteger o Ártico da influência russa e chinesa."
Esta posição é apresentada como uma resposta alternativa às ameaças de Trump. Na realidade, isto equivale a uma capitulação: a Gronelândia fica sob controlo americano via OTAN. O próprio Trump gabou-se de que as negociações em curso concedem aos Estados Unidos "acesso total" sem que eles precisem de pagar um cêntimo.
Ironicamente, este é um exemplo clássico da mesma "soberania performativa" que Carney denunciou: uma posição que fala a linguagem da autonomia enquanto aceita plenamente o facto material da subordinação por meio das estruturas de comando integradas da OTAN, da infraestrutura crítica controlada pelos EUA e das arquiteturas financeiras ocidentais.
Ao mesmo tempo, apesar de toda a conversa sobre o direito da Gronelândia à autodeterminação, as preferências dos gronelandeses são ignoradas. Muitos deles expressam frustração por serem tratados como objetos de negociação geopolítica em vez de como um povo. Embora alguns gronelandeses reconheçam a necessidade de maior vigilância e segurança no Ártico perante as tensões internacionais, insistem que isso não deve minar a sua soberania nem ser usado como pretexto para controlo externo. Mas a realidade é que a decisão já foi tomada, independentemente de qualquer consenso local.
Vale a pena perguntar, portanto, se este episódio não é uma manobra clássica de polícias bom e mau para alcançar o seu objetivo de longa data: a militarização da Gronelândia. A lógica é bem conhecida: primeiro apresentamos o pior cenário; Depois, uma solução "alternativa" – há muito procurada, mas até então politicamente inaceitável – é apresentada como a única forma viável de evitar a catástrofe.
Em última análise, a retórica de Davos sobre autonomia e resistência parece ser menos sobre mudança geopolítica e mais sobre uma redefinição do império, na qual a linguagem da soberania é cada vez mais invocada, mesmo com estruturas de dependência a persistir e até a se intensificar.
Fonte: ACrO-P'olis via História e Sociedade
Tradução RD
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