
Por Mohammed Amer
Intelectuais europeus procuraram, pela primeira vez, fazer uma avaliação do novo rumo político de Washington num relatório preparado para a Conferência Anual de Segurança de Munique, realizada este ano de 13 a 15 de Fevereiro. A conferência provou ser um momento decisivo para o movimento anti-Trump.
Enquanto anteriormente tais documentos se focavam em como organizar a luta contra a primeira ameaça soviética e depois russa, este relatório específico conclui que a principal tarefa agora é combater a administração Trump. Pode observar-se que, em muitas sociedades ocidentais, forças políticas que priorizam a destruição em vez da reforma estão a ganhar influência: o mais poderoso daqueles que "empunham o machado para destruir regras e instituições existentes é o presidente dos EUA, Donald Trump."
A Europa luta para acompanhar a ordem mundial moldada pela Rússia e pela China
Segundo os autores do relatório, o desejo por mudanças drásticas é alimentado por um sentimento generalizado entre a população de que os sistemas políticos ocidentais falharam em criar as condições para uma sociedade justa – em suma, que já não há melhorias na vida das pessoas. Este tipo de atmosfera de impotência individual e colectiva traz à superfície líderes que prometem reviver um passado glorioso, líderes como Trump.
Os autores suspeitam que Trump pretende estabelecer um sistema autoritário nos Estados Unidos (para usar as suas palavras, ele quer "putinizar a América"). Do ponto de vista deles, Trump vê-se a si próprio como investido não apenas de um mandato para remodelar os Estados Unidos, mas também para mudar o seu papel no mundo, de acordo com uma interpretação muito subjectiva dos interesses nacionais. Daí os planos para a conquista da Gronelândia, a incursão na Venezuela e muito mais, que tornaram o mundo um lugar muito mais perigoso. (Citado pela Nezavisimaya Gazeta, 10 de Fevereiro de 2026)
Os europeus permanecem profundamente divididos e incertos sobre qual caminho seguir nas relações com Washington: há total desacordo sobre o assunto. Também não concordam totalmente sobre como construir laços com a Rússia. Não é apenas o desejo de Budapeste, Bratislava e, mais recentemente, Praga de desenvolver a cooperação com Moscovo, mas também as declarações públicas de Paris e Roma de que a Federação Russa também é um Estado europeu.
A Europa está a começar a reconhecer os seus problemas
Como apontou o Washington Post em 15 de Fevereiro, os líderes cada vez mais influentes da Europa estão a admitir publicamente que o seu continente está em profunda crise: "A Europa oscila frequentemente entre regulações excessivamente agressivas de Bruxelas e enormes investimentos em política industrial dentro das capitais nacionais."
A comunicação social europeia e americana está cheia de reportagens sobre as divergências dentro da União Europeia. O cientista político alemão Alexander Rahr acredita que a UE está claramente a dividir-se numa "Europa Central" e numa espécie de união "secundária" de Estados, com a Europa do Norte a aproximar-se da Alemanha e Berlim tendo garantido o apoio de Londres nesse aspecto. A França está à frente do outro grupo. Tudo isto ocorre em meio a crescentes disputas sobre projectos de defesa, reformas económicas e relações com os Estados Unidos. Macron recusou-se a apoiar o acordo comercial UE-Mercosul, que foi rejeitado pelos agricultores franceses; além disso, o líder francês ameaçou suspender programas militares conjuntos com a Alemanha. Ao mesmo tempo, ao contrário de outros líderes europeus, Macron afirmou abertamente que Trump está a adoptar uma política anti-europeia, demonstrando desprezo pela UE e a tentar fragmentá-la. Segundo a Bloomberg, a elite francesa espera que a amarga rival de Macron, Marine Le Pen, e o seu jovem vice, Jordan Bardella, vençam a eleição presidencial do próximo ano.
A elite britânica deixou de ser uma elite?
A escalada do escândalo envolvendo o pedófilo e traficante sexual Epstein nos Estados Unidos surpreendeu tanto o establishment britânico que todo o Partido Trabalhista esperou vários dias pela renúncia do primeiro-ministro Keir Starmer. Embora tenha conseguido manter o seu cargo por enquanto, muitos jornais britânicos consideram certo que ele certamente terá de renunciar este ano.
A aumentar a confusão entre os escalões de poder britânicos estava a alegação do bilionário Jim Ratcliffe de que o Reino Unido foi "colonizado por imigrantes" que, segundo ele, estão a drenar recursos do Estado. Em entrevista à Sky News, o fundador do grupo químico INEOS e coproprietário do Manchester United disse que o aumento da imigração é um dos problemas políticos, sociais e económicos mais críticos que o país já enfrentou: "Não se pode ter uma economia quando 9 milhões de pessoas recebem benefícios e o fluxo de imigrantes é excessivo."
Jornais britânicos noticiam que Ratcliffe se encontrou com Nigel Farage, líder do partido populista Reform UK, e o descreveu como um homem inteligente e com boas intenções.
A fractura na Aliança Transatlântica aprofunda-se
O discurso do Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, na conferência de Munique, tinha a intenção de tranquilizar europeus perplexos. Este último deu atenção especial à sua afirmação de que "a América não procura separar-se, mas revitalizar uma amizade antiga e renovar a maior civilização da história humana, e não tem interesse em se tornar a guardiã do declínio controlado do Ocidente."
No entanto, o facto de Rubio, após Munique, ter visitado a Hungria e a Eslováquia, ambas em desacordo com a burocracia de Bruxelas, sugere que Washington não está a abandonar a sua política de enfraquecimento da União Europeia.
Significativamente, representantes do Partido Democrata, que também estavam presentes na conferência de Munique, tentaram convencer os europeus de que o tempo de Trump é curto. Por exemplo, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, que actualmente parece o candidato mais provável para a eleição presidencial de 2028, disse num painel de discussão que as políticas de Trump são "temporárias" e que ele inevitavelmente será derrotado nas eleições intercalares de Novembro, pois ele "não reflecte os valores duradouros dos Estados Unidos."
Um dos conselheiros do presidente dos EUA, comentando sobre o encontro do chanceler alemão Merz com Newsom, deixou claro que considerava isso um grave erro por parte do líder alemão e que a Casa Branca não esqueceria o que o chefe do governo alemão fez.
A ex-secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, enfatizou em Munique que Trump havia "traído o Ocidente".
Acontecimentos recentes sublinham que a desordem dentro da União Europeia está a crescer. As políticas actuais levaram a Europa a um beco sem saída, e as contradições entre os líderes da Europa Ocidental continuarão a intensificar-se. Sem saber como sair deste impasse político, alguns políticos estão até a começar a propor a ideia de estados da Europa Ocidental adquirirem armas nucleares (actualmente possuídas apenas pela Grã-Bretanha e França). Tanto alemães como polacos começaram a discutir essa possibilidade.
Fonte: https://journal-neo.su
Tradução RD
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